22 de Outubro de 2009

...que seria de nós se não sonhássemos. Saramago

Hoje, os jornais dizem que a Basílica do Convento de Mafra se encheu de gente, que quis assistir ao Concerto de Órgão.
Será Mafra ainda o destino saloio dos Lisboetas, ao domingo à tarde?
Até lá chegarmos há moinhos na paisagem e as trouxas na Malveira. Bem perto, a Olaria do Zé Franco! E o velho oleiro ali está, moldando as suas figuras. Oferece um copo de vinho e pergunta, com simpatia, se gostamos daquele lugar.
Em Mafra, terra propriamente dita, todos os caminhos vão dar aos sinos do famoso carrilhão do Convento. Ouvem-se num raio de quinze quilómetros. Os duzentos e vinte metros de comprimento tornam este monumento uma verdadeira omnipresença naqueles lugares, que recendem uma respeitável tranquilidade histórica.
Mas não vamos poder falar de tranquilidade, se vamos falar do Memorial do Convento.
Nem do Convento! Como é que uma arquitectura tão imensamente grande, tão intensamente grandiosa, nasce da inquietação da alma de quem não consegue gerar um filho varão?
Só obra desta dimensão pode dar verdadeiramente graças ao poder divino, que aquietou o rei D João V e a rainha D. Maria Ana. Ou porque frei António de S. João tem razão, ou porque as preces repetidas de Dona Maria Ana Josefa foram finalmente ouvidas, a real barriga da humilde e submissa rainha vai finalmente crescer.
Mas o rei e a rainha não são as personagens principais deste romance histórico, que nos embala num ritmo quase balançado de quem fala ou de quem ouve, como se tivesse sido escrito, para ser dito. Os protagonistas têm nobreza na alma, mas são povo de condição. À excepção do Padre, que pertencendo à habitualmente classe privilegiada, se aproxima de quem se acha próximo: o homem e a mulher, os verdadeiros, aqueles que sonham como ele sonha, que têm visões, com quem pode partilhar a sua alucinação e o seu segredo: o voo e a passarola.
O homem é Baltasar, o Sete-Sóis. Um ex-soldado. Perdeu a mão, tem agora para seu lugar um monte de ferros guardados. Pedinte em Évora. Na primavera, dirige-se a Lisboa. Pernoita em Aldegalega. ”Passou a noite em paz.” De manhã cedo, a maré é boa, paga a passagem e atravessa o rio. ”Na outra margem, assente sobre a água, ainda longe, Lisboa derramava-se para fora das muralhas.” Há-de seguir para Mafra, para abraçar a mãe, Marta Maria, que não sabe se o filho é vivo ou morto, por isso o julga morto ou vivo.
A mulher é Blimunda, filha de Sebastiana Maria de Jesus. Tal como a mãe, ela tem poderes: vê dentro das pessoas. Para que isso não aconteça, logo de manhã, deve quebrar o jejum, antes de abrir os olhos. Mas promete a Baltasar nunca o ver por dentro.
O Padre é Bartolomeu Lourenço, mais tarde, Gusmão, depois de ser Doutor da Igreja. Fala a Baltasar dos seus projectos de voar. Por isso, lhe chamam o Voador. Afirma-lhe que já voou ao que o pobre replica que só pássaros e anjos voam. Ou os homens quando sonham. “...mas em sonhos não há firmeza.” Mas o Padre contrapõe: “O homem primeiro tropeça, depois anda, depois corre, um dia voará...” Mostra a Baltasar um desenho do seu engenho voador. Baltasar vê o desenho de um pássaro e acredita que o homem pode voar.
E são tantos os momentos tocados pela magia dos bons sentimentos de Baltasar, de Blimunda e do Padre Bartolomeu Lourenço! Porque puro e mágico é o seu pensamento. Um pensamento que pensa Deus misericordioso, Deus que vê directamente nos corações. “...e se os pecados forem tão graves que não devam passar sem castigo, este virá pelo caminho mais curto (....)se entretanto as boas acções não compensarem por si mesmas as más....” Estas são considerações tecidas à cabeceira de Blimunda, quando ela adoece, ninguém sabe de quê. Quando Blimunda sai daquele torpor, a máquina de voar está pronta.
E voam. Voam naquele céu de que o povo tanto espera, mas para o qual pouco olha. Acompanha-os um milhafre. A máquina cai, mas os três estão sãos e salvos.
O Padre desaparece e morre em Toledo. Baltasar também desaparece. Blimunda espera por ele. A angústia de uma espera frustrada perpassa a última parte deste romance. Com essa angústia procura-o, julga mesmo poder encontrá-lo, no dia da sagração.
Mas só o vai encontrar nove anos mais tarde. É um dos onze que ardem no fogo da Inquisição.

Leitura sugerida: O Memorial do Convento de José Saramago
José Saramago nasceu a 16 de Novembro de 1922, na aldeia de Azinhaga, Ribatejo. Teve numerosos empregos e diversas profissões: foi serralheiro mecânico, editor, jornalista...A sua primeira obra data de 1947, Terra de Pecado tendo-se seguido um longo período sem qualquer publicação.
Em 1993, já autor consagrado, retirou-se para Lanzarote, onde vive desde então, com a sua mulher Pilar.
Em 1998, a mais alta distinção literária surpreende o escritor em pleno aeroporto de regresso a casa. Vinha da Feira Anual de Frankfurt. E regressou à Feira, onde o esperavam as primeiras emoções e as primeiras rosas. As primeiríssimas, viveu-as sozinho, segundo conta, nos intermináveis corredores do aeroporto, depois de ter sido chamado ao telefone, para lhe comunicarem a razão pela qual não devia embarcar.

5 de Outubro de 2009

Quando é Outono? MEC 05/10/09

Quando é Outono?
Miguel Esteves Cardoso - 20091005
No PÚBLICO de ontem saiu uma crónica minha a dizer que, no dia anterior, tinha tomado o último e melhor banho de mar deste ano. Mais uma vez, bastou eu escrever para se tornar mentira. Porque ontem tomei um banho, na mesma Praia das Maçãs, ainda melhor e mais comprido. Hoje e amanhã é provável que piore ainda mais a mentira. Quem sabe? Não há maneira de saber. Mas a água estava uma esmeralda fresca, passe a poesia rasca. Só a fome de ver a minha mulher (e de almoçarmos uma posta descomunal de badejo, confesso) me arrancou dobalancé daquele berço atlântico que bóia como se o oceano ainda fosse o nosso líquido amniótico.
Compreendi então que o tempo português não é como os outros. Ninguém sabe quando começa o Outono: o Outono, em Portugal, é muito curto. Por isso deve-se apreciá-lo mais. Só resta adivinhar quando começa...
Em Setembro não foi, com certeza. Em Outubro - até aqui - só ocorreu a parte botânica e cinematográfica, das folhas vermelhas a cair. Compreende-se porque é que Orlando Ribeiro passou tantas noites sem dormir, antes de perceber que tanto éramos mediterrânicos como atlânticos; sulistas como nortenhos; africanos como europeus.
Acho que é em Novembro que vem o nosso Outono. Num Novembro já um pouco adiantado e invernoso, para não dizer miserável. Está feito com o Inverno, mas comprometido ainda com uma Primavera que já não ama mas que não pode desiludir.
O Verão é o que se vê; o contrário do futuro do verbo ver.

3 de Julho de 2009

A força de Sophia!

10 de Maio de 2009

Marisa Marchetto Vencer o cancro de saltos altos

10.05.2009, Texto Margarida Santos Lopes Fotografia Enric Vives-Rubio


Se o cancro da mama é o segundo entre os que mais matam mulheres em todo o mundo, Marisa Acocella Marchetto crê ter encontrado uma arma ainda mais mortífera para o combater. Fez uma BD e mostrou como "saltos assassinos de 12 centímetros" intimidam qualquer "célula zangada".


O trabalho começou na viagem de avião que a trouxe a Lisboa, para a apresentação da edição portuguesa do livro Cancer Vixen, e ficou pronto antes do regresso a casa, em Nova Iorque (Estados Unidos da América) - menos de uma semana.
Não foi fácil a Marisa Acocella Marchetto encontrar tempo para desenhar para a Pública e respeitar os prazos de entrega dos seus trabalhos para a New Yorker e a Glamour.
Mas quem sobrevive a um cancro, tudo consegue. Não sejam vítimas, foi a mensagem que desenhou. Sejam mais generosas. Há uma receita para uma vida feliz: tomar uma dose de amor e perdão todos os dias.
1. Descreva-se a.c. (antes do cancro)
[ Marisa (eu) a.c.
(antes do cancro)
O meu peso
O meu cabelo
O meu isto
A minha dieta
Os meus sapatos
A minha vida
Eu, eu, eu, eu, euuuu
Eu tinha de ter os melhores sapatos
As melhores malas
Os melhores jeans
Os melhores óculos de sol
Ir às melhores festas
E tudo de tinha ser do melhor, melhor, melhor!]

2. Encontrar um caroço no peito e saber o diagnóstico de cancro da mama sem seguro de vida foi devastador. Como encontrou coragem para lutar?
[Tenho este hábito nervoso. Chama-se desenhar...
... é melhor do que eu antes fazia, ao manter as minhas mãos ocupadas
Bem, descobri que quando passamos os nossos sentimentos a papel, a isso se chama 'diário de um objectivo'. Aqui está como eu desenhei as 'células cancerosas', e quando fiz isso, ri-me delas. Tornou o cancro menos intimidativo.]

3. De um modo geral, as pessoas ainda olham para o cancro da mama como uma sentença de morte. Por que motivo sentiu necessidade de contar a toda a gente - até a estranhos - que tinha cancro?
[Cancro
Eu queria tirar o cancro para fora de mim...
Cancro
Cancro
E colocá-lo numa página
Tirem isso das vossas mamas, raparigas!
Escrevam!
Escrevam!
Escrevam! *
*Este processo chama-se 'diário de um objectivo']

4. Foi fácil, para si, dizer a palavra "cancro"?
[Ri-me na cara do cancro! Ha ha ha ha ha!!!]

5. Levou a obsessão pelos sapatos até às sessões de quimioterapia. Isso foi importante porquê?
[Eu pratiquei a 'lei da distracção', focando-me em algo bonito e não em algo doloroso...
As agulhas não têm graça
A única coisa que me fazia sentir bem era olhar para os meus sapatos]

6. Como é que aprendeu a aceitar todas as transformações do seu corpo depois dos tratamentos e amar-se a si própria?
[Eu, d.d.
(Depois do diagnóstico)
Lembro-me de dizer ao meu corpo...
'Corpo, tu vais entrar em dieta, fazer exercício e ganhar o respeito que mereces!
E obrigada por lutares e seres forte!]

7. Como é que psicólogos, rabis e santos a ajudaram a sobreviver? Ainda precisa deles?
[A minha fé ampara a minha vida
Maria, Rainha do Céu
Cabalistas, usam sobretudo branco
O Padre Jake está comigo em espírito]

8. Escreveu que a experiência do cancro a mudou para sempre - até conseguiu perdoar pelo menos uma das suas "inimigas". Qual é a "receita" para ser mais positiva e generosa?
[Receita para uma vida feliz.
Amor
Perdão
Tome uma dose saudável todos os dias!]

9. Sem o grande amor de Silvano (e da sua mãe), a sua história seria diferente?
[Eu não estaria aqui sem o AMOR
Silvano usa sempre os seus óculos escuros]

10. Vixen, uma guerreira, e não uma vítima - qual o objectivo do seu livro? O que recomenda a outras mulheres?
[Não seja uma vítima, seja uma VIXEN
Eu pensei nisso
Eu vi isso
Eu acreditei nisso
Eu tornei-me nisso
Desenhei-me a mim própria como uma vixen que dá um pontapé no cancro, e este desenho estava no meu estirador nesse ano do cancro [2004]
Agora, chamo ao meu estirador a minha 'mesa magnetizadora'
VEJA-SE COMO VIXEN E SERÁ UMA
VIXEN!] a

Na primeira sessão de quimioterapia, Marisa Acocella Marchetto usou umas sandálias Charles Jourdan azul-metálico de lucite. Nas seguintes escolheu criações de Giuseppe Zanotti, Casadel ou Emílio Pucci. "Em vez de me concentrar na agulha que me espetava a mão, olhava para os meus maravilhosos five-inch killer heels [saltos assassinos de 12 centímetros] para me descontrair", diz esta americana, a "ilustradora citadina, louca por sapatos, obcecada por batom, apreciadora de uma boa pinga, doida por massas e fanática por moda" a quem foi diagnosticado um cancro de mama, em Maio de 2004. Tinha 43 anos e faltavam três semanas para se casar com "o homem perfeito".
A dar um pontapé num tumor "do tamanho de uma pérola" é como ela se desenha a si própria em Cancer Vixen (edições Asa), a BD que veio lançar a Lisboa na semana passada - mais de 200 páginas coloridas de humor e amor. Sim, ela cronometra o medo que sentiu ao descobrir um caroço no peito, confessa a vergonha de nunca ter feito uma mamografia, alardeia o embaraço de ter deixado caducar o seguro de saúde e não oculta o pavor de ser abandonada pelo amor da sua vida. Por outro lado, é de forma hilariante e sem autocomiseração (mesmo no desconsolo) que vai dando conta de todas as etapas da batalha contra "um sacana que não veio nada a calhar" - quando ela, solteira Acocella, havia conquistado Silvano Marchetto às jovens que, descaradamente, o cobiçavam, planeava a compra de um gracioso vestido de noiva, e os editores das revistas New Yorker e da Glamour lhe requisitavam mais trabalhos. Oportunidade para aqui confirmar como é dura a vida de freelance ("por cada desenho vendido, há 100 que são rejeitados"). E ela não parou na doença, sempre acompanhada dos seus dois gravadores presos com fita-cola, câmara fotográfica, caderno de esboços e a caneta favorita, Rapdiograph 0.35.
Marisa, que vivia num "apartamento superchique - um minúsculo T1 no 2.º andar de um prédio de três, sem elevador, em West Village [Nova Iorque]", e frequentava todos os "eventos in", diz à Pública que trocou o lema take it off your chest ("tira isso do peito") por take it off your breast ("tira isso da mama"). Quando fala do passado, já está a pensar no futuro. "Antes de pensar na quimioterapia, concentrei-me na minha lua-de-mel. Não queria que me vissem como doente de cancro."
É por isso que, com ela, zombamos das "células zangadas" (cancerosas), criaturas verdes de língua escarlate de fora e dedo em riste num gesto obsceno. Que devoramos as tempestuosas conversas com Violleta, a mãe ou (S)mother - trocadilho para a expressão inglesa "asfixiar". Que aguçamos os ouvidos para os mexericos com as APS (amigas para sempre). Que rejubilamos com os raspanetes da Virgem Maria ("Se passares o dia na cama, nunca vencerás") e de Mary Poppins (Acabou-se a lamúria! Levanta-te... Já, já"). Que partilhamos a sua revolta por os testículos não serem "colocados num torno", tal como as mamas são "espremidas, esborrachadas, esmagadas e entaladas" nas mamografias. Que nos surpreendemos com a devoção a Santa Filomena e ao Beato Jacob, "protectores dos que sofrem", conjugada com sessões espirituais no centro cabalístico judaico.
Conclusão de Marisa: "Se somarmos 29 agulhas, oito quilos, 11 técnicos de radioterapia, 11 assistentes médicos, nove enfermeiras, oito médicos, 192.720,4 dólares, dois rabis e um padre, o resultado é uma experiência que me mudou para sempre." Em Lisboa, cinco anos depois de sentir que o universo a aspirara para um buraco negro, a loura que "apenas se preocupava com questões estúpidas e egoístas de auto-estima, pele e cabelo", confessa que continua a ser uma fashionista.
"Oh sim, ainda gosto muito de andar na moda, mas agora na perspectiva de me fazer sentir mais poderosa", confessa enquanto se senta na poltrona de um hotel, o sol primaveril a iluminar o rosto translúcido bem maquilhado. "Deixei de ser uma vítima da moda para ser uma vencedora. Já não é uma questão de competição, mas a expressão de quem se sente bem. Se nos sentirmos bem, isso reforça o nosso sistema imunitário e, assim, são menos as probabilidades de adoecermos. É uma outra forma de terapia."
"Hoje, trago umas calças de cabedal justas e um sapatos altíssimos como eu adoro, tudo preto e Alexander McQueen", descreve-se a pequena Marisa (menos de 1,60 m), alongando as pernas para exibir o que qualifica de "grande extravagância" do ano corrente. "Esta camisola [cor-de-rosa, ostentando um laço da luta contra o cancro da mama] não tem marca, e a camisa tem uns 20 anos, mas aprecio combinar velho e novo. A sombra dos olhos permanece azul. As unhas, pintei-as de turquesa. Combinam bem com os ténis do meu marido" - e com a pedra do anel de noivado.
Encostado a uma janela, Silvano, 62 anos, interrompe a conversa, fixando em Marisa os olhos azuis de ternura com que ela o retrata no livro a ele dedicado. "Então era isso que vinha naqueles sete sacos que o empregado levou lá a casa!", brinca num inglês-italiano (quase) imperceptível. "Sim", ri-se a primeira ilustradora do jornal New York Times ('autora the The Strip, que saía aos domingos alternados na secção Styles'). "Não lhe posso esconder nada."
"Os tacões de 12 centímetros de salto fazem-nos sentir conquistadores do mundo", elucida Marisa. "As pernas não ficam bonitas com saltos rasos e eu não me sinto confiante." Na sala VIP, enquanto a mulher caminha altiva nos seus pumps (sapatos fechados com abertura à frente), o marido desfila, divertido, os ténis de múltiplos tons, personalizados com o logótipo do restaurante (famoso pela gastronomia toscana e pela clientela famosa) de que é proprietário em Nova Iorque, o Da Silvano.
Violleta e Jackie Kennedy
O logo - a cara bonacheirona de Silvano, de cabelo branco e óculos de sol - foi o princípio de uma relação que o cancro solidificou. Marisa tinha ido ao restaurante que Spielberg e Armani frequentam para escrever um artigo sobre "o preço de estar na moda". A reportagem não chegou a ser publicada pela extinta revista Talk porque se tornou superficial depois dos ataques de 11 de Setembro de 2001. Em Janeiro de 2002, ela propôs a Silvano compensá-lo, desenhando o cartão de inauguração de um novo estabelecimento. Apresentou quatro sugestões e ele aceitou todas, depois de inúmeras modificações a que ela aquiesceu pacientemente. Difícil resistir a um galã que nunca se zanga e cuja palavra de ordem é che bella giornata.
Além de carros desportivos (sete) e relógios (60), Silvano também colecciona sapatos - terá cerca 100, o dobro de Marisa, por causa das nódoas que apanha na cozinha -, mas a paixão que ela sente por andar de saltos altos foi herança de Violetta Paolina Margarida Mazzucca d'Rentis Acocella. "Quando comecei a desenhar, aos três anos, já imitava a minha mãe, que trabalhava em casa. Lembro-me que, aos quatro anos, tinha botas de verniz cor de marfim; aos cinco, botas de verniz pretas; aos seis, botas de cano alto e salto quadrado, verniz de cores verde ácido e laranja vivo. Já naquela altura, eu era uma shoe-aholic [sapatoólica]!"
Violleta "tem um extraordinário fashion sense", elogia Marisa. "Nos anos 1960, ela usava Pucci e tinha o cabelo preto comprido como o da Cher, com uma madeixa loura na franja -muito na vanguarda. Levava-me às compras e o seu gosto era sempre o mais ousado. Foi ela que me encorajou a exprimir-me pela moda."
Numa troca de emails com a Pública, a partir de Nova Jérsia, onde vive, a mãe de Marisa desvenda que começou a desenhar sapatos antes de terminar o liceu. "Eu ia para Nova Iorque aos sábados e deixavam-me fazer os meus sapatos durante o fim-de-semana. Fui depois completar os meus estudos para o Pratt Institute [escola de arte e arquitectura], mas sempre a desenhar sapatos."
Quando se licenciou, Violletta foi trabalhar como designer na I. Miller Shoe Company, "naquele tempo, o mais requintado fabricante de sapatos de Nova Iorque", mas foi no armazém de luxo Bergdorf Goodman que ela conheceu Jacqueline Kennedy. "Quando ela me telefonou [para fazer uma encomenda], pensei que era alguém a pregar-me uma partida", relata. "Tinha uma voz doce e falava com eloquência. Tornámo-nos amigas e tínhamos algo mais em comum do que os sapatos. Estávamos ambas grávidas. Ela de John Jonh e eu de Marisa. Lamentávamo-nos por termos os pés grandes - embora ela ficasse contente por os meus serem maiores (número 42) do que os dela (número 41). Foi este episódio que me fez desenvolver tamanhos grandes e desenhar para ela sapatos que a faziam parecer maravilhosa. Ainda guardo um par de sapatos que fiz para mim na mesma altura que fiz para Jackie."
O bicho do cartoon
Não foi só nos sapatos e na moda que Violleta influenciou Marisa. "Vi como Marisa era talentosa desde muito pequenina", exulta a mãe. "Encorajei-a a seguir o seu talento. Aos quatro anos, levei-a a uma amiga que era professora de arte. Ela recusou inicialmente dizendo que não era babysitter. Pedi-lhe que a deixasse assistir apenas a uma aula. E Marisa foi, aos quatro anos, a uma aula de adultos. No final, a professora estava deslumbrada com a filha fabulosa que eu tinha. Pegou nas duas aguarelas que ela pintou, emoldurou-as e apresentou-as a um concurso. Marisa ganhou o primeiro prémio."
Marisa dá mais pormenores: "A minha mãe desenhava sapatos fabulosos para mulheres e eu, aos três anos, tentava desenhar mulheres que conhecia. Aos oito, cheguei à conclusão de que essas mulheres eram muito aborrecidas. Não tinham nada para dizer. Um dia, o meu pai decidiu que iríamos ter umas férias grandes e fomos até às Bermudas. Ficámos num hotel que a minha mãe detestou, porque era muito pequeno. Queixou-se ao gerente e ele deixou-nos ficar numa casa cor-de-rosa em frente ao resort. Nas paredes havia desenhos com legendas, e eu exclamei: 'Oh meu Deus, as mulheres que eu desenho sabem falar!"
A casa era de James Thurber, lendário cartoonista da New Yorker. "Nessa noite fiquei a ler as revistas e os livros dele até de madrugada", relembra. "Duas horas depois, acordei com formigas a subirem-me pelo corpo. Fomos para uma carrinha e havia lá outras 400 formigas. Gosto de dizer que fui mordida pelo bicho do cartoon. Foi assim que a aventura começou."
Inquirida sobre se a sua mãe gostou da maneira como a desenhou em Cancer Vixen (que esteve para se chamar Breast Cancer Scenario, "título horrível" que um amigo chumbou), Marisa dá uma gargalhada: "Depois de meses de ausência, já na arte final, fui visitar os meus pais. A minha mãe entrou na sala, tinha emagrecido 12 quilos, e disparou: 'Não gostei da maneira como me desenhaste'." Violleta dá a sua versão: "Eu sei que Marisa me ama. O livro confirma esse amor e tocou-me o coração." Quanto a ser tratada como (S)mother, admite: "É um modo carinhoso de mostrar a minha personalidade, mas sim, creio que amo os meus filhos DEMASIADO, e agora todos me chamam (S)mother."
Falta-nos alguma coisa?
Se Violleta é uma mãe "sufocante", Marisa só poderá ser madrasta de Leyla, a filha de Silvano. Uma das passagens mais comoventes do livro é quando ela interioriza que só poderá engravidar aos 49 anos, devido à ingestão do Tamoxifen, medicamento que "bloqueia o estrogénio no peito". Desenha um bebé num céu estrelado e o diálogo é tristonho: "Desculpa... pensei que tinha muito tempo, mas só tinha um piscar de olhos." E a criança despede-se: "Adeus." Violleta chora: "Sempre pensei que ias ter uma menina."
Marisa conformou-se: "Muita gente ficou impressionada. Não poder ter filhos é uma realidade. Mas tenho uma enteada maravilhosa. Tenho uma vida muito ocupada. Tenho muito trabalho. Tenho uma vida cheia. Tenho um marido maravilhoso." Vira-se para Silvano e pergunta: "Falta-nos alguma coisa?" Ele murmura: "Nada!"
A grande missão de Marisa é agora o seu Cancer Vixen Fund, que tem Silvano com "principal benfeitor", criado em colaboração com o Hospital de St. Vincent, onde foi operada e tratada. "Este projecto é dedicado às mulheres que não têm seguro de vida e a quem foi diagnosticado cancro de mama", especifica. "Mais de 49 por cento correm o risco de morrer da doença. Porque adiam os exames ou, se estes dão positivo, não se tratam por falta de dinheiro. Temos vários patrocinadores: a fundação Estée Lauder, a Breast Awareness Campaign, os [armazéns] Bloomingdale's e a [transportadora] Continental Airlines, entre outros. Também somos membros da American Cancer Society."
O Vixen Fund foi uma ideia que nasceu quase ao mesmo tempo que Marisa soube o seu diagnóstico. "Senti que tive muita sorte [o cancro foi detectado no início, uma leve quimioterapia não lhe fez cair o cabelo, amigos e chefes criaram uma rede de solidariedade, Silvano incluiu-a no seu seguro de saúde] e eu quis retribuir."
A instituição realiza duas vezes por ano cerca de 300 mamografias gratuitas. Desde 2006, "felizmente, só um caso deu positivo". Poderá não ter um final feliz. Mas Marisa acredita em milagres.
Espreite aqui e aqui.

9 de Maio de 2009

Odeio amar-te tanto!

Miguel Esteves Cardoso Ainda ontem - 20090509
Como também faço, nunca reparei. Mas é capaz de ser a faceta mais assustadora dos portugueses: quando elogiamos uma coisa, parece que ficamos zangados. Se dissermos que gostamos muito de uma coisa, o tom da voz e o carregar das sobrancelhas são agressivos: "Adoro pastéis de bacalhau! Sou muito amigo dele! Sou do Benfica!" As nossas declarações de amor são exprimidas como se estivéssemos numa batalha até à morte, a defender a coisa amada do ataque traiçoeiro dum inimigo.Como também faço, nunca reparei. Mas é capaz de ser a faceta mais assustadora dos portugueses: quando elogiamos uma coisa, parece que ficamos zangados. Se dissermos que gostamos muito de uma coisa, o tom da voz e o carregar das sobrancelhas são agressivos: "Adoro pastéis de bacalhau! Sou muito amigo dele! Sou do Benfica!" As nossas declarações de amor são exprimidas como se estivéssemos numa batalha até à morte, a defender a coisa amada do ataque traiçoeiro dum inimigo.
Pergunta-se calmamente: "Gostas do Mosteiro da Batalha?" E a resposta vem carregada de sobrolho e de padaria aljubarrotense: "Adoro o Mosteiro da Batalha!" Está-se sempre à espera que completem a confissão com um "Porquê? Há azar? É que se houver, vou-te já aos cornos!".
Podemos estar a falar da mãe, do cozido à portuguesa, de Amália, de Sófocles ou dos dias enevoados de Maio. Outros povos, quando elogiam uma coisa, reflectem na cara e na voz a estima que lhe têm, ficando enlevados, carinhosos e felizes: "Oh, I love pastéis de bacalhau, she's a good friend of mine, etc..."
Até parece que suspiram um bocadinho de portuguesa saudade dessa coisa quando falam dela. Nós não. Isso para nós é muita complicação, estar a adequar a cara que se faz ao que sente o coração. Parece falso, não é? É por isso que preferimos dizer que amamos com a mesma voz e a mesma tromba que usamos para dizer que odiamos. Sem pestanejar sequer. Ah leão!
É incrível: até com robertos se consegue melhor.

10 de Abril de 2009

Mec, 10 de Abril

Pode faltar o dinheiro e podem estar a falir jornais e revistas a eito, mas, neste intervalo em que vivemos, entre a papirocracia que reinava antes da Internet e a electrocracia que aí vem, somos quase todos infomilionários.
Temos tantas fontes e formas de comunicação e entretenimento à nossa mercê que cada um pode compilar um pacote multimédia feito à medida, que mais ninguém tem - ou quer. Dantes (os que podíamos), víamos e líamos mais ou menos as mesmas coisas.Pode faltar o dinheiro e podem estar a falir jornais e revistas a eito, mas, neste intervalo em que vivemos, entre a papirocracia que reinava antes da Internet e a electrocracia que aí vem, somos quase todos infomilionários.
Temos tantas fontes e formas de comunicação e entretenimento à nossa mercê que cada um pode compilar um pacote multimédia feito à medida, que mais ninguém tem - ou quer. Dantes (os que podíamos), víamos e líamos mais ou menos as mesmas coisas. Havia quatro canais; quatro jornais; quatro paredes caiadas e um cheirinho a alecrim. As conversas no dia seguinte eram aconchegadas e previsíveis; regendo-se pelo duro código do "Ó vizinha!".
Eram os dias do "Viste o...?/Então não vi!" . Ajudava a conversar - mas o subtexto era claustrofóbico e aldeão: "Que remédio...". E, nos dias maus, que raramente faltavam, era cá uma festa descobrir uma coisa que se pudesse ver ou ler com agrado.
Agora não. Entrámos na época da pergunta contrária: do "Não sabias?!". Todos temos o nosso próprio (respire fundo) portefólio léxico-audiovisual. Mas - hélas! -, por muito que o queiramos vender aos nossos amigos (para podermos fazer uma pequena ideia do que estão a falar), eles não o compram, porque não abdicam dos portefóliozinhos deles. "Não viste? Nunca ouviste? Não sabias? Não conheces? Não me digas! Ah, tens de ler! Eu vou-te mandar! Vais adorar!": é esta a nova banda sonora.
Diga adeus ao diálogo e seja bem-vindo aos monólogos do futuro.

7 de Abril de 2009

Em vez de nós- Ainda ontem, pelo MEC

Dizem os cínicos que estamos sempre a chorar a nossa desgraça e a nossa morte, quando a entrevemos na desgraça e na morte dos outros. Sabemos todos que uma vida vale tanto como a outra. Mas a verdade é que, quanto mais as desgraças e as mortes se aproximam de nós, mais nós choramos.
A compaixão não consegue nem deve separar-se do egoísmo. É quando a tragédia nos sussurra "podia ter sido aqui; podias ter sido tu" que mais nos comovemos. É difícil olhar para a catástrofe no Abruzzo e não reconhecer caras e casas portuguesas, abatidas pelo mesmo terremoto que nos ameaça. Está errado; blá blá blá; havia de nos vir o coração à boca sempre que há um terremoto, seja onde for. Mas não é assim que funciona o coração humano e a pena, por muito dúbia e etnocêntrica que seja a origem dela, é rara de mais para se coibir ou relativizar.
Dizem os irlandeses, quando vêem um mendigo: "There, but for the grace of God, go I". Lévinas foi mais longe: o desconhecido que ali está, que olha para nós, a ver se o ajudamos ou apenas reconhecemos e tratamos como ser humano, é Deus. Deus é o outro: este parece ser a parte boa do recado de todas as religiões do mundo. (A parte má é "mas nós somos os únicos que estão com Deus").
Faz dó. Faz medo. Faz dar graças pela nossa sorte enquanto se chora a sorte daquelas famílias italianas. Podía-mos ter sido nós. É bom que se saiba. E que, seja num sentido religioso, científico ou aleatório, elas sofrem e morrem em vez de nós. Obrigados.