Grande poeta de Portugal
Fernando Pessoa, o poeta extraordinário da Mensagem, poema de exaltação nacionalista, dos mais belos que se tem escrito, foi ontem a enterrar.
Surpreendeu-o a morte, num leito cristão do Hospital de S. Luís, no sábado à noite.
A sua passagem pela vida foi um rastro de luz e de originalidade. Em 1915, com Luís de Montalvor, Mário de Sá-Carneiro e Ronald de Carvalho - estes dois já mortos para a vida - lançou o Orpheu, que tão profunda influência exerceu no nosso meio litarário, e a sua personalidade foi-se depois afirmando mais e mais. Do fundo da sua~«tertúlia» a uma mesa do Martinho da Arcada, Fernando Pessoa era sempre o mais novo de todos os novos que em volta dele se sentavam. Desconcertante, profundamente original e estruturalmente verdadeiro, a sua personalidade era vária como vário o rumo da sua vida. Ele não tinha uma actividade «una», uma actividade dirigida: tinha múltiplas actividades.
Na poesia não era só ele: Fernando Pessoa; ele era também Álvaro de Campos e alberto Caeiro e Ricardo Reis. E era-os profundamente, como só ele sabia ser. E na poesia como na vida. E na vida como na arte.
Tudo nele era inesperado. Desde a sua vida, até aos seus poemas, até à sua morte.
Inesperadamente, como se se anunciasse um livro ou uma nova corrente literária por ele idealizada e vitalizada, correu a notícia da sua morte. Um grupo de amigos conduziu-o ontem a um jazigo banal do Cemitério dos Prazeres. Lá ficou, vizinho deoutro grande poeta que ele muito admirava, junto do seu querido Cesário, desse Cesário que ele não conhecera e que, como ninguém, compreendia.
Se Fernando Pessoa morreu, se a matéria abandonou o corpo, o seu espírito não abandonará nunca o coração e o cérebro dos que o amavam e admiravam. Entre eles fica a sua obra e a sua alma. A eles compete velar para que o nome daquele que foi grande não caia na vala comum do esquecimento.
Tinha 47 anos o poeta que ontem foi a enterrar. Quarenta e sete anos e um grande amor à Vida, à Arte, à Beleza. Quando novo, acasos do Destino, a que ele obedecia inteiramente - Fernando Pessoa teósofo, cristão, que conhecia todas as seitas religiosas e as negativistas, pagãos como só os artistas o sabem ser, Fernando Pessoa obedecia cegamente ao Destino - levaram-no para a África do Sul. E na Universidade do Cabo cursou o inglês. E de tal maneira estudou a língua que Shakespeare e Milton imortalizaram que, anos passados, apresentava nos cercles literários da serena Albion quatro livros de poemas - English Poems, I, II, III, IV; Antinous e 35 Sonnets. E num concurso de língua inglesa alcançou o primeiro prémio.
Depois, uma vez em Portugal, a sua actividade literária aumentou. É de então que data a sua colaboração na Águia, onde o seu messianismo metafísico, num célebre e elevado estudo, anunciou o aparecimento do Super Camões da literatura portuguesa.
1915. «Orpheu». Movimento intenso de renovação. Entretanto, colabora no Centauro, Exílio, Portugal Futurista, Contemporâna. Começa a ser amado e compreendido.
1924. Funda com Rui Vaz a revista Athena. Depois, de então para cá, a sua actividade multiplica-se. Colabora em revistas modernistas, como Presença, Momento e, há um mês ainda, no Sudoeste, que Almada Negreiros fundou com notável desassombro. Traduziu Shakespeare e Edgar Poe. Estas são, em linhas muito esquemáticas e gerais, as obras que definem a sua personalidade. Quem o quiser compreender folheie a sua obra vasta e dispersa. Começará a amá-lo.
*
Da capela do Cemitério dos Prazeres, para jazigo de família, cerca das onze horas de ontem, partiu o corpo do grande poeta. Alguns amigos de sempre acompanharam-no. Foram eles, pelo Orpheu, Luís de Montalvor, António Ferro, Raul Leal, Alfredo Guisado e Almada Negreiros; pela Presença, João Gaspar Simões; pelo Momento, Artus Augusto e José Augusto; e Ferreira Gomes, Diogo de Macedo, Dr. Celestino Soares, António Botto, Castelo de Morais, João de Sousa Fonseca, Dr. Jaime Neves, António Pedro, Albino Lapa, Silva Tavares, Vitoriano Braga, Augusto de Santa-Rita, Luís Pedro, Luís Moita, Manuel Serras, Dr. Boto de Carvalho, Rogério Perez, Celestino Silva, Telmo Felgueiras, Nogueira de Brito, Dante Silva Ramos, Carlos Queirós, Mário de Barros, Dr. Rui Santos, Marques Matias, Gil Vaz, Luís Teixeira e poucos mais.
O Sr. Capitão Caetano Dias, cunhado do poeta, representava a família.
Em frente do jazigo que Fernando Pessoa passa a habitar, Luís de Montalvor, seu companheiro de vinte e quatro anos de vida literária, proferiu simples e emotivas palavras em nome dos sobreviventes do grupo do «Orpheu».
E disse:
«Duas palavras sobre o trânsito mortal de Fernando Pessoa.
Para ele chegam duas palavras, ou nenhumas. Preferível fora o silêncio, o silêncio que já o envolve a ele e a nós, que é da estatura do seu espírito.
Com ele só está bem o que está perto de Deus. Mas também não deviam, nem podiam, os que foram pares com ele no convívio da sua Beleza, vê-lo descer à terra, ou antes, subir, ganhar as linhas definitivas da Eternidade, sem anunciar o protesto calmo, mas humano, da raiva que nos fica da sua partida.
Não podiam os seus companheiros de «Orpheu», antes os seus irmãos do mesmo sangue ideal da sua Beleza, não podiam repito, deixá-lo aqui, na terra extrema, sem ao menos terem desfolhado, sobra a sua morte gentil, o lírio branco do seu silêncio e da sua dor.
Lastimamos o homem, que a morte nos rouba, e com ele a perda do prodigio do seu convívio e da graça da sua presença humana. Somente o homem, é duro dizê-lo, pois que ao seu espírito e ao seu poder criador, a esses deu-lhes o Destino uma estranha formosura, que não morre.
O resto é com o génio de Fernando Pessoa. »
Os serviços fúnebres estiveram a cargo da Agência Barata.
30 de novembro de 2004
NOTA BIOGRÁFICA ESCRITA POR FERNANDO PESSOA
Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa
Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freqguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de São Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888.
Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e que foi director-geral do Ministério do Reino e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral - misto de fidalgos e de judeus.
Estado: Solteiro.
Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exacta a de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». o ser poeta e escritor não constitui profissão mas vocação.
Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1.º dt.º, Lisboa. (Endereço postal - Caixa Postal 147, Lisboa).
Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.
Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto por várias revistas e publicações ocasionais. o que, de livros eou folhetos, considera como válido, é o seguinte: «35 Sonnets» (em inglês), 1918; «English Poems I-II» e «English Poems III», (em inglês também), 1922 e o livro «Mensagem», 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria «Poemas». o folheto «O Interregno», publicado em 1928 e constituindo uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.
Educação: Em virtude de, falecido o seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.
Ideologia política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservadorismo, e absolutamente anti-reaccionário.
Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo á Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais diante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da maçonaria.
Posição iniciática: Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.
Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo mítico, de onde seja abolida toda a infiltração católica-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade, nada contra a Nação».
Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.
Resumo destas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, grão-mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.
Lisboa, 30 de Março de 1935.
Fonte
Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freqguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de São Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888.
Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e que foi director-geral do Ministério do Reino e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral - misto de fidalgos e de judeus.
Estado: Solteiro.
Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exacta a de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». o ser poeta e escritor não constitui profissão mas vocação.
Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1.º dt.º, Lisboa. (Endereço postal - Caixa Postal 147, Lisboa).
Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.
Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto por várias revistas e publicações ocasionais. o que, de livros eou folhetos, considera como válido, é o seguinte: «35 Sonnets» (em inglês), 1918; «English Poems I-II» e «English Poems III», (em inglês também), 1922 e o livro «Mensagem», 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria «Poemas». o folheto «O Interregno», publicado em 1928 e constituindo uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.
Educação: Em virtude de, falecido o seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.
Ideologia política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservadorismo, e absolutamente anti-reaccionário.
Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo á Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais diante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da maçonaria.
Posição iniciática: Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.
Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo mítico, de onde seja abolida toda a infiltração católica-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade, nada contra a Nação».
Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.
Resumo destas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, grão-mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.
Lisboa, 30 de Março de 1935.
Fonte
28 de novembro de 2004
Um Agualusa quase natalício
LIVRE ARBÍTRIO
Domingo, 28 de Novembro de 2004
José Eduardo Agualusa
Um anjo caiu do futuro e estatelou-se em pleno Chiado. Levantou-se, sacudiu a poeira das asas, ensaiou dois ou três passos, ainda um tanto aturdido, e finalmente interrogou Fernando Pessoa:
"Pode dizer-me em que tempo estou?"
Era inverno mas a noite, límpida e seca, poderia ser de Verão - excepto pelo frio. Nas ruas não se via viva alma. O poeta ergueu-se devagar do seu silêncio de bronze e espreguiçou-se. Estudou, sem surpresa, o viajante. Suspirou, enfim, morto de tédio:
"Em toda a parte o tempo é semelhante. De onde você vem, por exemplo, não há com certeza mais nem melhor futuro do que aqui. Eventualmente, haverá apenas um pouco mais de passado."
O anjo era um tipo pálido e esguio. A sua silhueta recortava-se na noite como um simples traço de giz num quadro negro. Estava inteiramente nu e todavia isso não parecia incomodá-lo. Dir-se-ia imune ao frio. Fernando Pessoa esforçou-se durante um breve instante por aparentar alguma simpatia (há que ser simpático com os estrangeiros).
"Lá, de onde você vem, não se usam roupas?"
"Usam, mas ninguém viaja vestido através do tempo."
Pessoa desinteressou-se do viajante e voltou a sentar-se. O outro postou-se muito sério diante dele; os olhos, de um azul etéreo, quase transparentes, fixaram-se nos olhos absortos do poeta. Falava pausadamente, num esforço por dar às palavras a sua inteira substância, sílaba a sílaba, como quem só há pouco aprendeu o idioma. O sotaque era macio e quente, um pouco cantado:
"O que eu quero é saber se este é o tempo das guerras."
Fernando Pessoa encolheu os ombros magros:
"É o tempo dos homens, o que vai dar ao mesmo". Indicou a cadeira ao seu lado esquerdo: "Não se quer sentar? Podemos fazer de conta que estamos os dois a beber um café..."
O anjo sentou-se de cócoras na cadeira, como um adolescente, o queixo apoiado nos joelhos e os braços prendendo as pernas. A cabeleira comprida, muito loira, quase lhe ocultava as asas.
"Vim em busca do ódio."
"Veio ao tempo certo. Lembro-me do ódio desde muito novo. Lembro-me do quanto eu lhe era alheio... Posso saber porque lhe interessa esse tema?"
"Curiosidade. Pense em mim como um investigador."
"Compreendo", murmurou Pessoa: "como um antropólogo entre os canibais".
"Não", corrigiu o anjo: "como um zoólogo entre os chacais."
Fernando Pessoa concordou. Visitavam-no ali, n' "A Brasileira", toda a espécie de excêntricos. Um viajante do futuro, nu e com asas, em busca do mal, era do mal o menos. Sentia pesar-lhe sobre as pálpebras um grande sono metálico. Queria fechar os olhos e dormir. O anjo, porém, não o largava:
"Veja bem, o livre arbítrio..."
"O que tem o livre arbítrio?"
"O livre arbítrio permite que o senhor adormeça nessa cadeira, agora, ou que se levante e vá pela cidade em busca da beleza da vida. O livre arbítrio permite que os homens escolham entre o ódio e o amor..."
Fernando Pessoa começava a sentir um nervoso miudinho a subir-lhe pelas pernas. Seria o sono; seria aquele tipo com asas e a sua vã filosofia, ou tudo isso junto numa noite de inverno. Cortou irritado:
"Pois o que eu quero é dormir!..."
O anjo assustou-se com a veemência do poeta.
"Certo. Consigo compreender a sua escolha. Mas entre o amor e o ódio o que leva um homem a escolher o ódio?"
Fernando Pessoa não respondeu. Vieram-lhe à memória, sem motivo algum, imagens perdidas da sua infância em África. Ele nunca falava daquele tempo. Os dias eram cheios de vento. Os ossos estalavam, ao sol, sob a pele, como coisas antigas. Algures, na imensidão das tardes, ladravam cães. Voltou a ouvir o eco disperso dos gritos. Um menino, numa bicicleta, fugindo da turba (teria roubado a bicicleta?). Certa ocasião, numa estrada abandonada, vira uma coisa incrível: uma roseira explodindo em pleno asfalto.
"Não sei", disse. "Talvez o vazio. Talvez as pessoas se tenham esquecido de que existe livre arbítrio."
O tempo mudou com a madrugada. Choveu. Uma água mole, exausta, que a luz do sol atravessava com esforço. Os primeiros transeuntes que passaram, apressados, diante d' "A Brasileira", estranharam um pouco: não havia ninguém sentado à mesa do poeta.
Domingo, 28 de Novembro de 2004
José Eduardo Agualusa
Um anjo caiu do futuro e estatelou-se em pleno Chiado. Levantou-se, sacudiu a poeira das asas, ensaiou dois ou três passos, ainda um tanto aturdido, e finalmente interrogou Fernando Pessoa:
"Pode dizer-me em que tempo estou?"
Era inverno mas a noite, límpida e seca, poderia ser de Verão - excepto pelo frio. Nas ruas não se via viva alma. O poeta ergueu-se devagar do seu silêncio de bronze e espreguiçou-se. Estudou, sem surpresa, o viajante. Suspirou, enfim, morto de tédio:
"Em toda a parte o tempo é semelhante. De onde você vem, por exemplo, não há com certeza mais nem melhor futuro do que aqui. Eventualmente, haverá apenas um pouco mais de passado."
O anjo era um tipo pálido e esguio. A sua silhueta recortava-se na noite como um simples traço de giz num quadro negro. Estava inteiramente nu e todavia isso não parecia incomodá-lo. Dir-se-ia imune ao frio. Fernando Pessoa esforçou-se durante um breve instante por aparentar alguma simpatia (há que ser simpático com os estrangeiros).
"Lá, de onde você vem, não se usam roupas?"
"Usam, mas ninguém viaja vestido através do tempo."
Pessoa desinteressou-se do viajante e voltou a sentar-se. O outro postou-se muito sério diante dele; os olhos, de um azul etéreo, quase transparentes, fixaram-se nos olhos absortos do poeta. Falava pausadamente, num esforço por dar às palavras a sua inteira substância, sílaba a sílaba, como quem só há pouco aprendeu o idioma. O sotaque era macio e quente, um pouco cantado:
"O que eu quero é saber se este é o tempo das guerras."
Fernando Pessoa encolheu os ombros magros:
"É o tempo dos homens, o que vai dar ao mesmo". Indicou a cadeira ao seu lado esquerdo: "Não se quer sentar? Podemos fazer de conta que estamos os dois a beber um café..."
O anjo sentou-se de cócoras na cadeira, como um adolescente, o queixo apoiado nos joelhos e os braços prendendo as pernas. A cabeleira comprida, muito loira, quase lhe ocultava as asas.
"Vim em busca do ódio."
"Veio ao tempo certo. Lembro-me do ódio desde muito novo. Lembro-me do quanto eu lhe era alheio... Posso saber porque lhe interessa esse tema?"
"Curiosidade. Pense em mim como um investigador."
"Compreendo", murmurou Pessoa: "como um antropólogo entre os canibais".
"Não", corrigiu o anjo: "como um zoólogo entre os chacais."
Fernando Pessoa concordou. Visitavam-no ali, n' "A Brasileira", toda a espécie de excêntricos. Um viajante do futuro, nu e com asas, em busca do mal, era do mal o menos. Sentia pesar-lhe sobre as pálpebras um grande sono metálico. Queria fechar os olhos e dormir. O anjo, porém, não o largava:
"Veja bem, o livre arbítrio..."
"O que tem o livre arbítrio?"
"O livre arbítrio permite que o senhor adormeça nessa cadeira, agora, ou que se levante e vá pela cidade em busca da beleza da vida. O livre arbítrio permite que os homens escolham entre o ódio e o amor..."
Fernando Pessoa começava a sentir um nervoso miudinho a subir-lhe pelas pernas. Seria o sono; seria aquele tipo com asas e a sua vã filosofia, ou tudo isso junto numa noite de inverno. Cortou irritado:
"Pois o que eu quero é dormir!..."
O anjo assustou-se com a veemência do poeta.
"Certo. Consigo compreender a sua escolha. Mas entre o amor e o ódio o que leva um homem a escolher o ódio?"
Fernando Pessoa não respondeu. Vieram-lhe à memória, sem motivo algum, imagens perdidas da sua infância em África. Ele nunca falava daquele tempo. Os dias eram cheios de vento. Os ossos estalavam, ao sol, sob a pele, como coisas antigas. Algures, na imensidão das tardes, ladravam cães. Voltou a ouvir o eco disperso dos gritos. Um menino, numa bicicleta, fugindo da turba (teria roubado a bicicleta?). Certa ocasião, numa estrada abandonada, vira uma coisa incrível: uma roseira explodindo em pleno asfalto.
"Não sei", disse. "Talvez o vazio. Talvez as pessoas se tenham esquecido de que existe livre arbítrio."
O tempo mudou com a madrugada. Choveu. Uma água mole, exausta, que a luz do sol atravessava com esforço. Os primeiros transeuntes que passaram, apressados, diante d' "A Brasileira", estranharam um pouco: não havia ninguém sentado à mesa do poeta.
19 de novembro de 2004
Todas as infâncias têm mistérios
- Sua Excelência sofre de fartura!
In A Cidade e as Serras , de Eça de Queirós
Todas as infâncias têm mistérios.
O tempo, normalmente, encarrega-se de explicar alguns: a maior parte das vezes, porque a compreensão do mundo e dos factos torna evidência o que antes era mistério.
Mas há outros que permanecem mistérios.
O meu avô não era homem de muitas letras, mas via-o frequentemente embrenhado na leitura ( ou então de ouvido colado à telefonia, para ouvir o futebol). Em dado momento, reparei que o livro era sempre o mesmo: A Cidade e as Serras.
Mais tarde, quando a frequência do Liceu, me exigiu a leitura de romances de Eça de Queirós, Maias, Primo Basílio, o mistério avolumou-se : aquela leituras eram pesadas, carregadas, povoadas de personagens perversas, e havia incesto, havia adultério, suicídio...e nada disto me podia sugerir que o livro que o meu avô lia e relia fosse, o que mais tarde entendi, uma homenagem às coisas simples e verdadeiras.
Peguemos no livro! As primeiras páginas, repletas de adjectivos em dose dupla, como já é hábito em Eça, Zé Fernandes (o narrador/ personagem) apresenta-nos três Jacintos: Jacinto- avô, “gordíssimo e riquíssimo”, que, sem qualquer fundamento ideológico, desenvolve tal fanatismo pela causa miguelista, que tem que largar o país e partir para França, onde sempre viveu e onde morreu de indigestão de uma lampreia de escabeche; Jacinto-pai, “esguio e lívido”, que não viveu, passou pela vida como uma “Sombra”, como era conhecido entre os criados; e finalmente o Jacinto- neto, tido desde o berço como um afortunado, graças à herança genética do avô ou à boa -sorte das mezinhas da avó. A sua boa saúde de criança é resumida na frase “Não teve sarampo e não teve lombrigas.” E quanto à sua inteligência : “As Letras, a Tabuada e o Latim entraram por ele tão facilmente, como o sol por uma vidraça.”
Além de saudável e inteligente, o Jacinto era rico e tinha amigos. O Jacinto tinha tudo para ser feliz. Mas o que é ser feliz? Jacinto tinha concebido a ideia de que o homem só pode ser “superiormente feliz” se for “superiormente civilizado”, o que o arredava definitivamente da possibilidade de viver noutro sítio que não fosse Paris, o centro da civilização. E, enquanto pode, apetrecha a sua vida de civilização: o 202, o seu palácio nos Campos Elíseos, tem tudo o que se pode ter no final do século dezanove: máquina de escrever, máquina de calcular, telefone, fonógrafo, telégrafo, numeradores de páginas, coladores de estampilhas, águas quentes e frias, elevadores para a comida, penas eléctricas, etc. Até um elevador para pessoas, equipado com sofá e biblioteca, para uma viagem de sete segundos...
Depois de ter tudo e de tudo conseguir, Jacinto começa a padecer duma terrível enfermidade, o Tédio, que o abala tão tremendamente, que até o bigode murcha “caído, em fios pensativos”. E sofre muito, o Princípe da Grã-Ventura. Sofre de fartura, um sofrimento doloroso que o afunda num desespero imenso. O seu amigo Zé Fernandes e o fiel criado Grilo assistem, impotentes, ao desmoronar de uma felicidade, construída racionalmente sobre uma teoria, a da civilização.
Quando tudo parece perdido, quando parece não ter fim tão grande padecimento, Jacinto vê-se a braços com um problema legal, que o obriga a viajar até Portugal. Só há uma solução: encaixotar a civilização, transportá-la e aguentar mais este revés da vida.
E é neste revés que Jacinto vai reencontrar-se. É do lado de lá da civilização, é experimentando a absoluta ausência das marcas da dita civilização que Jacinto começa a encontrar-se: primeiro, na capacidade de deslumbrar os sentidos, nas paisagens, nos paladares, depois na satisfação da sua generosidade, cumprindo um sentido de justiça, o seu, o que lhe valia a fama de D. Sebastião, para alguns, e “Pai do Pobres”, para outros. E, por fim, na realização da felicidade pessoal, aquela que vai contrariar o seu pessimismo ao considerar-se o último Jacinto, “Jacinto ponto final”.
E o mistério reaparece: qual a razão da preferência desta leitura? Nunca cheguei a perguntar, porque adiei a leitura.
Algumas razões, eu adivinho. Outras, pressinto ainda descobrir, um dia que visite Tormes.
Leitura sugerida- A Cidade e as Serras de Eça de Queirós
José Maria Eça de Queirós nasceu na Póvoa de Varzim, a 25 de Novembro de 1845 e faleceu em Paris, a 16 de Agosto de 1900. Licenciado em Direito, pela Universidade de Coimbra, seguiu a vida diplomática, mas foi a carreira de escritor que lhe conferiu toda a notariedade. A sua intervenção intelectual revolucionou a mentalidade da sua época, tornando-o na figura mais emblemática da geração de escritores realistas.
Publicada a 23 de Fevereiro de 2001, na Nova Gazeta, Montijo
In A Cidade e as Serras , de Eça de Queirós
Todas as infâncias têm mistérios.
O tempo, normalmente, encarrega-se de explicar alguns: a maior parte das vezes, porque a compreensão do mundo e dos factos torna evidência o que antes era mistério.
Mas há outros que permanecem mistérios.
O meu avô não era homem de muitas letras, mas via-o frequentemente embrenhado na leitura ( ou então de ouvido colado à telefonia, para ouvir o futebol). Em dado momento, reparei que o livro era sempre o mesmo: A Cidade e as Serras.
Mais tarde, quando a frequência do Liceu, me exigiu a leitura de romances de Eça de Queirós, Maias, Primo Basílio, o mistério avolumou-se : aquela leituras eram pesadas, carregadas, povoadas de personagens perversas, e havia incesto, havia adultério, suicídio...e nada disto me podia sugerir que o livro que o meu avô lia e relia fosse, o que mais tarde entendi, uma homenagem às coisas simples e verdadeiras.
Peguemos no livro! As primeiras páginas, repletas de adjectivos em dose dupla, como já é hábito em Eça, Zé Fernandes (o narrador/ personagem) apresenta-nos três Jacintos: Jacinto- avô, “gordíssimo e riquíssimo”, que, sem qualquer fundamento ideológico, desenvolve tal fanatismo pela causa miguelista, que tem que largar o país e partir para França, onde sempre viveu e onde morreu de indigestão de uma lampreia de escabeche; Jacinto-pai, “esguio e lívido”, que não viveu, passou pela vida como uma “Sombra”, como era conhecido entre os criados; e finalmente o Jacinto- neto, tido desde o berço como um afortunado, graças à herança genética do avô ou à boa -sorte das mezinhas da avó. A sua boa saúde de criança é resumida na frase “Não teve sarampo e não teve lombrigas.” E quanto à sua inteligência : “As Letras, a Tabuada e o Latim entraram por ele tão facilmente, como o sol por uma vidraça.”
Além de saudável e inteligente, o Jacinto era rico e tinha amigos. O Jacinto tinha tudo para ser feliz. Mas o que é ser feliz? Jacinto tinha concebido a ideia de que o homem só pode ser “superiormente feliz” se for “superiormente civilizado”, o que o arredava definitivamente da possibilidade de viver noutro sítio que não fosse Paris, o centro da civilização. E, enquanto pode, apetrecha a sua vida de civilização: o 202, o seu palácio nos Campos Elíseos, tem tudo o que se pode ter no final do século dezanove: máquina de escrever, máquina de calcular, telefone, fonógrafo, telégrafo, numeradores de páginas, coladores de estampilhas, águas quentes e frias, elevadores para a comida, penas eléctricas, etc. Até um elevador para pessoas, equipado com sofá e biblioteca, para uma viagem de sete segundos...
Depois de ter tudo e de tudo conseguir, Jacinto começa a padecer duma terrível enfermidade, o Tédio, que o abala tão tremendamente, que até o bigode murcha “caído, em fios pensativos”. E sofre muito, o Princípe da Grã-Ventura. Sofre de fartura, um sofrimento doloroso que o afunda num desespero imenso. O seu amigo Zé Fernandes e o fiel criado Grilo assistem, impotentes, ao desmoronar de uma felicidade, construída racionalmente sobre uma teoria, a da civilização.
Quando tudo parece perdido, quando parece não ter fim tão grande padecimento, Jacinto vê-se a braços com um problema legal, que o obriga a viajar até Portugal. Só há uma solução: encaixotar a civilização, transportá-la e aguentar mais este revés da vida.
E é neste revés que Jacinto vai reencontrar-se. É do lado de lá da civilização, é experimentando a absoluta ausência das marcas da dita civilização que Jacinto começa a encontrar-se: primeiro, na capacidade de deslumbrar os sentidos, nas paisagens, nos paladares, depois na satisfação da sua generosidade, cumprindo um sentido de justiça, o seu, o que lhe valia a fama de D. Sebastião, para alguns, e “Pai do Pobres”, para outros. E, por fim, na realização da felicidade pessoal, aquela que vai contrariar o seu pessimismo ao considerar-se o último Jacinto, “Jacinto ponto final”.
E o mistério reaparece: qual a razão da preferência desta leitura? Nunca cheguei a perguntar, porque adiei a leitura.
Algumas razões, eu adivinho. Outras, pressinto ainda descobrir, um dia que visite Tormes.
Leitura sugerida- A Cidade e as Serras de Eça de Queirós
José Maria Eça de Queirós nasceu na Póvoa de Varzim, a 25 de Novembro de 1845 e faleceu em Paris, a 16 de Agosto de 1900. Licenciado em Direito, pela Universidade de Coimbra, seguiu a vida diplomática, mas foi a carreira de escritor que lhe conferiu toda a notariedade. A sua intervenção intelectual revolucionou a mentalidade da sua época, tornando-o na figura mais emblemática da geração de escritores realistas.
Publicada a 23 de Fevereiro de 2001, na Nova Gazeta, Montijo
16 de novembro de 2004
A biblioteca do macua
Cirila é uma menina que vive na Idade Média. Ela perde os pais e é obrigada a ir viver com o tio, o irmão do pai. Cirila vê-se envolvida numa aventura, ' incübida pelo tio, que às portas da morte lhe pede para descobrir o tesouro da família, enterrado algures perto da casa. Numa ponta do Arco-íris.
Cirila estava cansada.
Quando ela e Vicente, um dos criados
de Dom Afonso, saíram de sua casa, o sol,
lá no alto, ainda era pequeno e amarelo.
Agora, tinha baixado, estava maior e laranja,
querendo desaparecer no horizonte.
E isso dizia-lhe que já estavam a andar
há bastante tempo.
- Dom Afonso não pôde emprestar a carroça.
Foi precisa para carregar lenha para a lareira
- dissera o criado - A égua está à espera de cria
e a mula está muito velha.
Vicente veio buscar Cirila a mando do seu senhor
quando este soube que a sua cunhada,
mãe de Cirila, tinha morrido.
Em seis meses, as suas duas irmãs, o pai
e a mãe adoeceram e morreram.
E ninguém soube explicar como e porquê.
A não ser o padre lá do sítio que disse
que tinha sido a vontade de Deus.
Naquela altura, na Idade Média,
as pessoas adoeciam e morriam com frequência
e pouco se sabia acerca das doenças.
Cirila gostava de Dom Afonso
que era uma visita assídua de sua casa,
pernoitando lá várias vezes,
quando se afastava um pouco mais
por essas florestas para caçar lebres,
faisões e perdizes, deixando sempre para o irmão
metade da caça.
Algumas vezes, durante a caminhada,
Vicente achou que para chegarem mais depressa
ao destino, podiam fugir ao caminho
de terra batida cheio de altos e baixos
e, assim, atravessar alguns campos de trigo
onde algumas papoilas vermelhinhas
apareciam aqui e acolá, esquecendo-se que,
segundo o provérbio popular,
quem se mete por atalhos, mete-se em trabalhos.
Cirila tinha fome. O bocadinho de pão
que a sua vizinha dera para a viagem
acabara num instante.
Ela sabia que Vicente tinha qualquer coisa
dentro da sacola - um homem não se mete à estrada
assim sem mais nem menos,
de trouxa vazia - mas não se atrevia a pedir.
Era a primeira vez que Cirila se afastava tanto
do lugar onde tinha nascido.
Não fazia ideia que o mundo era tão grande.
Percorrido a pé então parecia nunca mais acabar.
Quando a casa de Dom Afonso apareceu ao longe,
o sovina do Vicente principiou a dizer que o melhor
seria alargarem o passo pois nessa noite
começava a lua cheia e podiam dar de caras
com algum lobisomem ou coisa parecida.
Cirila arrastava o passo.
A sua trouxa de serapilheira, contendo
a sua pouca roupa pesava-lhe toneladas no ombro
e nem a visão da casa a aumentar de tamanho,
à medida que se aproximavam,
lhe dava ânimo para continuar a marcha.
Porém, ao ouvir o nome de tal criatura - o lobisomem-
nurn instante endireitou as costas,
deu novo alento às pernas, e num instante
ultrapassou aquele unha de fome
que se recusava a partilhar
um bocado de côdea com ela,
e que além de sovina também era medricas.
Ele sim! É que parecia um lobisomem
com aquele cabelo desgrenhado,
os dentes esverdeados e aquele hálito fedorento
que lembrava peixe podre,
deixando-a quase moribunda
sempre que se virava na sua direcção
para lhe proferir alguma sentença.
Ela não sabia como era um lobisomem.
Durante os seus catorze anos
nunca tinha visto nenhum, felizmente!
Mas pelas histórias que já tinha ouvido contar,
vezes sem conta, imaginava de sobra
e sem ponta de dúvida, como seria a figura
desse homem transformado em lobo que,
errando pelos campos, atacava pessoas e animais.
ANABELA MÁXIMO DE SOUSA E SOUSA PASSOS (natural de Moçambique) é professora do 1.° ciclo em Lisboa.
Interessada desde sempre pela literatura infantil, entre outros textos que escreveu, o livro publicado agora pelo Instituto Piaget, NUMA PONTA DO ARCO-IRIS, foi distinguido com uma menção honrosa no concurso do Prémio de Poesia e Ficção de Almada 2002.
Cirila estava cansada.
Quando ela e Vicente, um dos criados
de Dom Afonso, saíram de sua casa, o sol,
lá no alto, ainda era pequeno e amarelo.
Agora, tinha baixado, estava maior e laranja,
querendo desaparecer no horizonte.
E isso dizia-lhe que já estavam a andar
há bastante tempo.
- Dom Afonso não pôde emprestar a carroça.
Foi precisa para carregar lenha para a lareira
- dissera o criado - A égua está à espera de cria
e a mula está muito velha.
Vicente veio buscar Cirila a mando do seu senhor
quando este soube que a sua cunhada,
mãe de Cirila, tinha morrido.
Em seis meses, as suas duas irmãs, o pai
e a mãe adoeceram e morreram.
E ninguém soube explicar como e porquê.
A não ser o padre lá do sítio que disse
que tinha sido a vontade de Deus.
Naquela altura, na Idade Média,
as pessoas adoeciam e morriam com frequência
e pouco se sabia acerca das doenças.
Cirila gostava de Dom Afonso
que era uma visita assídua de sua casa,
pernoitando lá várias vezes,
quando se afastava um pouco mais
por essas florestas para caçar lebres,
faisões e perdizes, deixando sempre para o irmão
metade da caça.
Algumas vezes, durante a caminhada,
Vicente achou que para chegarem mais depressa
ao destino, podiam fugir ao caminho
de terra batida cheio de altos e baixos
e, assim, atravessar alguns campos de trigo
onde algumas papoilas vermelhinhas
apareciam aqui e acolá, esquecendo-se que,
segundo o provérbio popular,
quem se mete por atalhos, mete-se em trabalhos.
Cirila tinha fome. O bocadinho de pão
que a sua vizinha dera para a viagem
acabara num instante.
Ela sabia que Vicente tinha qualquer coisa
dentro da sacola - um homem não se mete à estrada
assim sem mais nem menos,
de trouxa vazia - mas não se atrevia a pedir.
Era a primeira vez que Cirila se afastava tanto
do lugar onde tinha nascido.
Não fazia ideia que o mundo era tão grande.
Percorrido a pé então parecia nunca mais acabar.
Quando a casa de Dom Afonso apareceu ao longe,
o sovina do Vicente principiou a dizer que o melhor
seria alargarem o passo pois nessa noite
começava a lua cheia e podiam dar de caras
com algum lobisomem ou coisa parecida.
Cirila arrastava o passo.
A sua trouxa de serapilheira, contendo
a sua pouca roupa pesava-lhe toneladas no ombro
e nem a visão da casa a aumentar de tamanho,
à medida que se aproximavam,
lhe dava ânimo para continuar a marcha.
Porém, ao ouvir o nome de tal criatura - o lobisomem-
nurn instante endireitou as costas,
deu novo alento às pernas, e num instante
ultrapassou aquele unha de fome
que se recusava a partilhar
um bocado de côdea com ela,
e que além de sovina também era medricas.
Ele sim! É que parecia um lobisomem
com aquele cabelo desgrenhado,
os dentes esverdeados e aquele hálito fedorento
que lembrava peixe podre,
deixando-a quase moribunda
sempre que se virava na sua direcção
para lhe proferir alguma sentença.
Ela não sabia como era um lobisomem.
Durante os seus catorze anos
nunca tinha visto nenhum, felizmente!
Mas pelas histórias que já tinha ouvido contar,
vezes sem conta, imaginava de sobra
e sem ponta de dúvida, como seria a figura
desse homem transformado em lobo que,
errando pelos campos, atacava pessoas e animais.
ANABELA MÁXIMO DE SOUSA E SOUSA PASSOS (natural de Moçambique) é professora do 1.° ciclo em Lisboa.
Interessada desde sempre pela literatura infantil, entre outros textos que escreveu, o livro publicado agora pelo Instituto Piaget, NUMA PONTA DO ARCO-IRIS, foi distinguido com uma menção honrosa no concurso do Prémio de Poesia e Ficção de Almada 2002.
13 de novembro de 2004
Lobo Antunes, aos 25 anos... de escrita
"Não Sou Eu Que Escrevo Os Livros. É a Minha Mão, Autónoma"
Por Adelino Gomes
Vai para quatro meses que António Lobo Antunes mergulhou no universo ficcional que há-de constituir o seu 18º romance. Dele, apenas saberemos o ponto de partida - como a noite se faz dia; que o habitam duas mulheres e um homem; e que este terá pertencido à Pide. O resto é uma "nebulosa" que a "mão, autónoma" do escritor percorre e desvenda através das palavras. Várias horas por dia, numa acanhada mesa de tampo de vidro, onde se misturam as folhas já escritas, com originais enviados, para apreciação, por candidatos a escritores.
A celebração dos seus 25 anos de actividade literária, assinalada pela sua editora, Publicações Dom Quixote, com o lançamento de "Eu Hei-de Amar uma Pedra", obrigou Lobo Antunes, porém, a regressar ao convívio das personagens que habitam as 616 páginas deste seu último romance.
A história é do domínio público desde o lançamento do romance anterior, "Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo", em 2003. Os leitores não conheciam ainda o seu novo livro, e já o escritor, impressionado, lhes desvendava a trama do próximo - o desencontro amoroso de um homem e de uma mulher que se amaram aos 17 anos; se perderam (ela doente num sanatório, ele a tirar um curso superior, em Lisboa, e a supô-la morta); se reencontram quando ele, tirado o curso, já tem mulher e duas filhas; e se voltam a amar, de um amor nunca consumado, na clandestinidade de um quarto de uma pensão na Graça, de passeios ocasionais a Sintra, do aluguer de toldos quase contíguos na praia de Tavira, durante as férias do Verão - a mulher a fazer crochet, sem levantar os olhos nunca para o homem estendido ao sol com filhas, genros, esposa. O homem morrerá já octogenário, num dos encontros platónicos no quarto da hospedaria da Graça.
António Lobo Antunes passou todos estes dados pela sua refinadora literária. É desse processo criativo "prodigioso e singular" que o autor nos fala.
Mil Folhas - "Eu Hei-de Amar Uma Pedra" nasceu de uma história que lhe contaram no Miguel Bombarda, quando ia a passar uma senhora de 80 e tal anos. Mas dela está só o osso...
António Lobo Antunes - Está toda desmantelada...
P. - Porquê?
R. - Como digo sempre, só começo um livro quando estou certo de não ser capaz de o escrever. Para contar aquela história assim, é necessária uma delicadeza de mão que eu não tenho.
P. - Pensei que ia responder com outra coisa, que costuma dizer também: "A intriga é o prego onde se pendura o quadro."
R. - Não imagina: dos primeiros capítulos fiz oito, nove, dez versões. Eram todas muito más. Normalmente são-no, mas depois consegue-se tirar delas o capítulo. Fui deixando passar o tempo, deixando que aquilo dentro de mim se transformasse. O livro nasceu sem plano. Tinha pensado fazer o livro com fotografias. Mas percebi que não era possível, que tinha que mudar de voz. Aquilo no fundo é polifónico. É uma voz sempre a falar.
P. - Polifónico, mas dissonante. As suas frases têm vozes que soam como música concreta...
R. - É uma única voz que fala. Mas eu não quero magoar nenhuma daquelas pessoas. Não as conheço, mas elas estão vivas. Vi a senhora três segundos, a passar, numa porta. A partir do que vi, podia fantasiar.
P. - Quando ouvi a história, contada por si nas sucessivas entrevistas, também a "vi" - no toldo em Tavira, a passear em Sintra, na hospedaria na Graça. Mas fiquei quase 90 páginas à espera que me aparecessem os primeiros sinais dela. Esteve a esconder-nos aquilo que sabia que queríamos? Porque, como já disse, é uma história "desgarradoramente bela"?
R. - É muito difícil de contar. Tem que ser contada com uma mão de escriturário, quase. Há um ponto essencial, também no jornalismo, que é a retenção da informação. E dá-la de uma forma lateral. Como os grandes romancistas policiais fazem. Olhe, esses manuscritos aí [três ou quatro, pousados do lado direito da secretária de vidro] são primeiros romances. Dizem tudo. São maus porque dizem tudo.
Pudor na vida, pudor na escritaP. - Achou que a melhor maneira de defender a história era sugeri-la apenas?
R. - Isso seria de uma grande elegância da minha parte, mas não seria honesto dizer que foi por isso. Há quatro ou cinco meses recebi uma carta que vem na "Fotobiografia" [organizada por Tereza Coelho e que acaba de ser lançada pelas Publicações Dom Quixote], na qual o meu editor francês, Christian Bourgois, dizia: "Tenho um cancro." Depois pediu-me para o ir ver. O patrão dele, que era o [René] Juliard, tinha morrido com um cancro do esófago. A coragem e a serenidade dele deixaram-me estupefacto. Quando me despedi, disse-me: "Não te preocupes comigo." Foi operado, está melhor, construíram-lhe o esófago a partir do estômago, há dois dias telefonei à mulher e disse-lhe que ele tinha uma coragem extraordinária. Ela respondeu: "Não. É elegante." Encontrei isso no Ernesto [Melo Antunes, seu comandante na guerra em Angola, falecido em 1999]. Tinha um cancro do pulmão, inoperável. Dois dias antes de morrer disse-me: "Esta manhã acordei todo molhado. Não me deixes morrer sem dignidade." Foi a única vez que ele se referiu à doença. Aqui há uns temos a filha mais velha - comove-me até as lágrimas ver a miúda, é tão parecida com o pai - contou-me que estavam a almoçar (são três irmãos, duas raparigas e um rapaz) e o pai disse-lhes, no meio da sopa: "Tenho um cancro do pulmão." E continuou a comer. É este pudor, é esta contenção que a gente tem que tentar transpor para aquilo que escreve. E para a nossa vida, até. O meu pai, no fim da vida, já muito mal, o que dizia era: "Nada de pieguices." P. - O contar desta história é também assim. Mas há um paradoxo aí, porque, no fim de contas, desnuda tudo.
R. - Um amigo tem dentro de si um lugar insubstituível, a gente perde-o e continua a ter saudades dele. E depois cada um tem o seu lugar. Estou a chegar à idade em que, como gosto de homens mais velhos do que eu, com quem aprendo, os meus amigos vão morrendo e isso custa-me muito. Ver o Eugénio de Andrade no estado em que está... Outro dia estava a olhar para o Eduardo Lourenço e a pensar: "Livra-te de morreres antes de mim!" A morte de um amigo é muito dolorosa. P. - Esta senhora que perpassa no livro e que viu três segundos podia ser sua amiga? Ela no livro não diz nada, faz "crochet" e deixa que a mão do amado pouse sobre a dela, todas as quartas-feiras, num quarto alugado de uma hospedaria. Não teve a tentação de a conhecer?
R. - Não quis conhecê-la porque senão depois não podia escrever. Não posso agarrar em si e pô-lo num romance. P. - Ora essa, tem tantas personagens reais nos seus livros...
R. - Reais? É um pouco como a Lisboa cenário de alguns livros, é uma Lisboa inventada. P. - Não tem tias nos livros?
R. - As tias que aparecem nos livros também as conheci assim. Eram tias do meu avô. Eram senhoras que vinham do Brasil e que viviam nuns andares muito escuros. Eu era pequeno e ia lá com o meu avô. Ficava ali, num canto. Seria incapaz de pôr um irmão meu como personagem. O Ernesto, por exemplo, aparece em "Os Cus de Judas". Mas a nossa relação nessa altura não era a relação de irmãos em que se foi tornando. O que ponho num romance são um nariz que apanho ali, uma feição, um gesto. P. - Neste livro há apenas o pequeníssimo círculo familiar e mesmo esse reduzido a breves frases, ou a cenas escondidas, às vezes de ordem sexual. O meio ambiente é assim tão irrelevante?
R. - Tenho a sensação que não sou eu que escrevo os livros. É a mão. Escrevo sempre à mão. O meu problema é estar suficientemente cansado até a mão estar autónoma e tornar-se feliz. P. - A isso chamava-se dantes, romanticamente, musas.
R. - Por que é que um dia faço uma página, outro dia faço quatro linhas e outro dia estou três horas e nem uma palavra sai? O que é que faz que isto varie? Depois, comecei a dar-me conta de que adormeço a ler. Há aquela altura em que se está entre o dormir e o acordar e se flutua. Depois, quando despertava, percebia que não estava a ler o que estava ali escrito, estava a ler outras coisas que eu julgava que estava a ler e que não eram o livro. Então pensei (isto já foi há uns anos): eu tenho é que conseguir um estádio próximo deste para escrever. E depois, bem desperto, estruturar isto tudo. P. - Precisava de inventar um heterónimo, porque já não é o António Lobo Antunes que está a escrever?
R. - É qualquer coisa dentro de mim que é anterior às palavras e em relação à qual a crítica racional não funciona. O meu problema é atingir esse estado. Preciso de estar cansado para aquilo começar a sair. P. - Um pouco esotérico, isso, não acha?
R. - Não acho nada. Não vê que em todos nós existe isto? Por exemplo, está a sonhar e de repente compreende que descobriu o segredo do mundo e da vida. Tem consciência de que está a dormir e quer acordar. E, à medida que vai acordando, isto vai-se esfumando, esfumando, esfumando. Quando chega à superfície, isto não tem nada. Nunca lhe aconteceu? P. - O que me dá ideia é que isso é a parte em que eu sou menos eu. É a parte em que eu tenho menos mérito. Aliás, costuma dizer que trabalha dez, 12 horas por dia.
R. - Mas eu não penso em termos de mérito. E isso não é mérito. Muito mais trabalha um operário. Não faço mais nada, sou pago para isso. P. -E fica à espera de entrar em estado de dormência?
R. -Não preciso de estar à espera, preciso de provocá-lo. Isso consegue-se através do cansaço.
"'Ulisses', de Joyce, irrita-me"
P. - Não acha que está a menorizar o seu talento, a sua inspiração?
R. - É qualquer coisa que existe dentro de si e em lugares a que a gente não tem acesso - que nos aparece nos sonhos, nos aparece nos impulsos, nos aparece, por exemplo, na escolha dos amigos. É completamente irracional. Porque é que eu hei-de gostar de A e não de B? Até a escolha dos partidos tem muito de afectivo. Eu não escrevo aquilo que quero. Escrevo aquilo que o livro quer.
P. - Escrever o que o livro quer não poderá levar o autor ao culto da forma, paradoxalmente?
R. - O "Ulisses", de Joyce, irrita-me. Por um lado, não posso deixar de admirar as habilidades formais dele; por outro, irrita-me, porque é uma pirueta, não é eficaz. Convidam-me muitas vezes, porque pensam que um escritor diz coisas inteligentes. Esperar que um escritor diga coisas inteligentes é o mesmo que esperar que um acrobata ande aos saltos mortais pela rua. O que eu sou fundamentalmente é um homem comum, cujo trabalho é este. Construí toda a minha vida, desde que me conheço, para isto. Não tem mérito nenhum. É preciso trabalhar muito. Ler muito. Ter uma atitude humilde perante a vida. Ser uma espécie de esponja onde as coisas entram e saem.
P. - Ser um grande escritor é isso que me diz?
R. - Ser um grande escritor é produzir um objecto que, quando eu o leio, foi escrito só para mim. Os outros exemplares dizem coisas diferentes. E não o empresto, porque há uma relação pessoal entre mim e esse livro, que me está a falar de mim mesmo e que me está a mostrar zonas minhas que me iluminam. Um grande escritor é um homem que faz um espelho onde eu vejo o homem nu que sou.
Contar só a história não dáP. -Neste último livro são várias as alusões a situações sexuais de carácter incestuoso. É novidade nos seus livros, não é?
R. - Neste [que o autor já está a escrever], há bocado, também notei que havia isso. P. - Há o pai com a filha, naqueles apertares de mão no circo. E há depois na relação mãe-filho algo que decorre no plano onírico...
R. - Não era uma decisão consciente, não era uma ideia clara na minha cabeça. Agora este está a fugir-me por todos os lados. P. - E já lhe apareceu também o incesto?
R. - Há aqui um capítulo... O tipo da Pide [personagem do próximo romance, sobre a madrugada e a a manhã - ver entrevista do autor ao PÚBLICO de 9.11.04]... este homem... não se percebe bem, está sempre à procura de justificações... Está uma nebulosa ainda muito grande. P. - No novo livro está portanto ainda à procura. Mas no anterior não: partiu já com a história toda. Do que é que andou à procura, naquelas primeiras páginas e páginas iniciais, em que não nos dá a ver os dois amantes centrais?
R. - Quando eu comecei a fazer consultas de psicoterapia, o homem com quem eu tinha aprendido a técnica toda dizia-me: "Agora esqueça-se e vá lá para dentro." Você tem a história. Mas ela vai aparecer-lhe fragmentada. É um desafio óptimo, do ponto de vista técnico. Nem imagina o que tem que se lutar para reter aquilo. Dá vontade de dar logo aquele bombom. P. - Mas depois acaba e nós sentimo-nos ainda com um pouco de fome da história. A sua mão cheia de pudor deu-nos os traços e foi-se embora.
R. - A tendência natural é: "Toma lá!" O difícil é mantermo-nos no gume. Mas contar só a história, depois escrita, não dá. Já reparou nos grandes romances? [O que é] "O Velho e o Mar" [1952, Ernest Hemingway]? É um velho que vai buscar um peixe, os outros peixes comem-lhe o peixe e ele chega a casa sem peixe. "Anna Karenina" [1877, Leão Tolstoi]? Uma mulher que é casada, está farta do marido, vai para a cama com outro, arrepende-se e morre. O que é a "Odisseia" [escrito por Homero, provavelmente no século VIII a.C.]? Tenho a minha mulher à espera. É só isto, umas coisas que o gajo arranja para não ir para casa. P. - Este livro é sobre um homem e uma mulher que se amaram uma vez, perderam-se e reencontraram-se, quando já não se podiam amar. Mas que se amavam e por isso se encontravam às escondidas sem quase se consentirem amar...
R. - ... e aparece muito menos no livro toda essa dimensão amorosa. Como é que se faz isso? Desmantela-se a história. E, no entanto, mantém-se lá. P. - Desenhada em pinceladas muito vagas, assim à Renoir.
R. - Então fico contente. Mas penso que a leitura não oferece problemas. P. - Que lugar ocupa na sua lista das melhores obras?
R. - Aí estou de acordo com o meu agente: tenho feito livros [cada vez] melhores. Por enquanto. E daí o meu medo com este agora [que está a escrever]. Esse que sai já o acabei há um ano. Continuo contente com ele. Tenho orgulho em tê-lo escrito.
CAIXA
Muro de Berlim e o "ilimitado"
O escritor habitava em Berlim, ainda separada por um muro que dividia a Alemanha em dois regimes antagónicos. Além da experiência vivencial "extraordinária", foi esse o momento em que descobriu outra forma de escrever um romance.
Mil Folhas - Diz que não escreve aquilo que quer, mas aquilo que o livro quer. Pode explicar melhor?
António Lobo Antunes - Não sei. Não é nada racional. Ao princípio fazia planos todos muito detalhados - antes de começar a escrever, o que me tirava a surpresa do livro. Comecei assim o "Tratado das Paixões da Alma" [1990]. Com um plano. Na altura [1989] vivia em Berlim, com uma bolsa. O meu vizinho de andar era o Luigi Nono, compositor [italiano, falecido no ano seguinte], casado com a filha do [compositor, falecido em 1951 Arnold] Schönberg. P. - Também estava lá com uma bolsa?
R. - Sim, uma bolsa da cidade de Berlim Ocidental. Era uma cidade espantosa: na mesma noite tínhamos um concerto da Filarmónica, um concerto da Sinfónica de Karajan, outro do Charlie Mingus... P. - ... e mais 400 espectáculos na área do "off-off"...
R. - ... galerias abertas toda a noite, discotecas, sítios com poetas a dizerem poesia... E depois, de repente, caiu o Muro. Uma experiência extraordinária. P. - E o António a escrever.
R. - Tinha começado o livro dois meses antes. Andei ali, para trás e para a frente com o primeiro capítulo, e percebi que aquilo não voava. Depois lembrei-me de uns versos do Apollinaire ["La jolie rousse", poema a Jacqueline Kolb, 1917]:
"Pitié pour nous qui combattons toujours aux frontières
De l'illimité et de l'avenir"
Pensei: "Eu tenho que escrever coisas passadas no ilimitado..." Correr mais riscos. Ser mais honesto para comigo mesmo, ou seja, não me mover num terreno que já conheço mais ou menos bem, até do ponto de vista verbal. Tentar escrever aquilo que eu não sou capaz de escrever. Por exemplo, no "Eu Hei-de Amar Uma Pedra", aquilo estava uma luta. Depois de escrever isto e isto e isto, dizia: "Não presta, não presta, não presta." Depois: "Não vou deixar que um livro me vença." Julgo que era o Jules Renard que dizia que não havia talento, havia bois. P. - Havia?...
R. -Bois. Que não havia nenhuma frase que um principiante não pudesse fazer, que um livro é trabalho. Eu penso que é. E então temos que o escrever com a chamada "eficácia". Eu entendo por eficácia o não sacrificar a tentação de uma bela metáfora, de uma imagem bonita, ao seu material. Não estarmos a dizer ao leitor: "Repara no que eu sou capaz de fazer." O livro é que tem que ser inteligente, não o escritor. P. - Esse encantamento em Berlim, que o levou a mudar de registo, faz lembrar a noite de êxtase contada por um escritor de quem, julgo, não gosta muito, sobre o nascimento de um heterónimo: Fernando Pessoa [sobre Alberto Caeiro, em 8 de Março de 1914]. O António Lobo Antunes, que fala em trabalho e em eficácia, em êxtase?
R. - Às vezes a gente põe-se a pensar: como é que eles descobriram os Açores? E a Madeira? A gente trabalha no escuro, mas tem que navegar na direcção certa. Não é por acaso que aquilo acontece. Não é por acaso.
DESTAQUES
Estou a chegar à idade em que, como gosto de homens mais velhos do que eu, com quem aprendo, os meus amigos vão morrendo e isso custa-me muito.
Esses manuscritos aí [três ou quatro, pousados do lado direito da secretária de vidro] são primeiros romances. Dizem tudo. São maus, porque dizem tudo.
[Escrever] é qualquer coisa dentro de mim que é anterior às palavras e em relação à qual a crítica racional não funciona.
Ser um grande escritor é produzir um objecto que, quando eu o leio, foi escrito só para mim. Os outros exemplares dizem coisas diferentes.
Tenho feito livros [cada vez] melhores. Por enquanto.
Por Adelino Gomes
Vai para quatro meses que António Lobo Antunes mergulhou no universo ficcional que há-de constituir o seu 18º romance. Dele, apenas saberemos o ponto de partida - como a noite se faz dia; que o habitam duas mulheres e um homem; e que este terá pertencido à Pide. O resto é uma "nebulosa" que a "mão, autónoma" do escritor percorre e desvenda através das palavras. Várias horas por dia, numa acanhada mesa de tampo de vidro, onde se misturam as folhas já escritas, com originais enviados, para apreciação, por candidatos a escritores.
A celebração dos seus 25 anos de actividade literária, assinalada pela sua editora, Publicações Dom Quixote, com o lançamento de "Eu Hei-de Amar uma Pedra", obrigou Lobo Antunes, porém, a regressar ao convívio das personagens que habitam as 616 páginas deste seu último romance.
A história é do domínio público desde o lançamento do romance anterior, "Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo", em 2003. Os leitores não conheciam ainda o seu novo livro, e já o escritor, impressionado, lhes desvendava a trama do próximo - o desencontro amoroso de um homem e de uma mulher que se amaram aos 17 anos; se perderam (ela doente num sanatório, ele a tirar um curso superior, em Lisboa, e a supô-la morta); se reencontram quando ele, tirado o curso, já tem mulher e duas filhas; e se voltam a amar, de um amor nunca consumado, na clandestinidade de um quarto de uma pensão na Graça, de passeios ocasionais a Sintra, do aluguer de toldos quase contíguos na praia de Tavira, durante as férias do Verão - a mulher a fazer crochet, sem levantar os olhos nunca para o homem estendido ao sol com filhas, genros, esposa. O homem morrerá já octogenário, num dos encontros platónicos no quarto da hospedaria da Graça.
António Lobo Antunes passou todos estes dados pela sua refinadora literária. É desse processo criativo "prodigioso e singular" que o autor nos fala.
Mil Folhas - "Eu Hei-de Amar Uma Pedra" nasceu de uma história que lhe contaram no Miguel Bombarda, quando ia a passar uma senhora de 80 e tal anos. Mas dela está só o osso...
António Lobo Antunes - Está toda desmantelada...
P. - Porquê?
R. - Como digo sempre, só começo um livro quando estou certo de não ser capaz de o escrever. Para contar aquela história assim, é necessária uma delicadeza de mão que eu não tenho.
P. - Pensei que ia responder com outra coisa, que costuma dizer também: "A intriga é o prego onde se pendura o quadro."
R. - Não imagina: dos primeiros capítulos fiz oito, nove, dez versões. Eram todas muito más. Normalmente são-no, mas depois consegue-se tirar delas o capítulo. Fui deixando passar o tempo, deixando que aquilo dentro de mim se transformasse. O livro nasceu sem plano. Tinha pensado fazer o livro com fotografias. Mas percebi que não era possível, que tinha que mudar de voz. Aquilo no fundo é polifónico. É uma voz sempre a falar.
P. - Polifónico, mas dissonante. As suas frases têm vozes que soam como música concreta...
R. - É uma única voz que fala. Mas eu não quero magoar nenhuma daquelas pessoas. Não as conheço, mas elas estão vivas. Vi a senhora três segundos, a passar, numa porta. A partir do que vi, podia fantasiar.
P. - Quando ouvi a história, contada por si nas sucessivas entrevistas, também a "vi" - no toldo em Tavira, a passear em Sintra, na hospedaria na Graça. Mas fiquei quase 90 páginas à espera que me aparecessem os primeiros sinais dela. Esteve a esconder-nos aquilo que sabia que queríamos? Porque, como já disse, é uma história "desgarradoramente bela"?
R. - É muito difícil de contar. Tem que ser contada com uma mão de escriturário, quase. Há um ponto essencial, também no jornalismo, que é a retenção da informação. E dá-la de uma forma lateral. Como os grandes romancistas policiais fazem. Olhe, esses manuscritos aí [três ou quatro, pousados do lado direito da secretária de vidro] são primeiros romances. Dizem tudo. São maus porque dizem tudo.
Pudor na vida, pudor na escritaP. - Achou que a melhor maneira de defender a história era sugeri-la apenas?
R. - Isso seria de uma grande elegância da minha parte, mas não seria honesto dizer que foi por isso. Há quatro ou cinco meses recebi uma carta que vem na "Fotobiografia" [organizada por Tereza Coelho e que acaba de ser lançada pelas Publicações Dom Quixote], na qual o meu editor francês, Christian Bourgois, dizia: "Tenho um cancro." Depois pediu-me para o ir ver. O patrão dele, que era o [René] Juliard, tinha morrido com um cancro do esófago. A coragem e a serenidade dele deixaram-me estupefacto. Quando me despedi, disse-me: "Não te preocupes comigo." Foi operado, está melhor, construíram-lhe o esófago a partir do estômago, há dois dias telefonei à mulher e disse-lhe que ele tinha uma coragem extraordinária. Ela respondeu: "Não. É elegante." Encontrei isso no Ernesto [Melo Antunes, seu comandante na guerra em Angola, falecido em 1999]. Tinha um cancro do pulmão, inoperável. Dois dias antes de morrer disse-me: "Esta manhã acordei todo molhado. Não me deixes morrer sem dignidade." Foi a única vez que ele se referiu à doença. Aqui há uns temos a filha mais velha - comove-me até as lágrimas ver a miúda, é tão parecida com o pai - contou-me que estavam a almoçar (são três irmãos, duas raparigas e um rapaz) e o pai disse-lhes, no meio da sopa: "Tenho um cancro do pulmão." E continuou a comer. É este pudor, é esta contenção que a gente tem que tentar transpor para aquilo que escreve. E para a nossa vida, até. O meu pai, no fim da vida, já muito mal, o que dizia era: "Nada de pieguices." P. - O contar desta história é também assim. Mas há um paradoxo aí, porque, no fim de contas, desnuda tudo.
R. - Um amigo tem dentro de si um lugar insubstituível, a gente perde-o e continua a ter saudades dele. E depois cada um tem o seu lugar. Estou a chegar à idade em que, como gosto de homens mais velhos do que eu, com quem aprendo, os meus amigos vão morrendo e isso custa-me muito. Ver o Eugénio de Andrade no estado em que está... Outro dia estava a olhar para o Eduardo Lourenço e a pensar: "Livra-te de morreres antes de mim!" A morte de um amigo é muito dolorosa. P. - Esta senhora que perpassa no livro e que viu três segundos podia ser sua amiga? Ela no livro não diz nada, faz "crochet" e deixa que a mão do amado pouse sobre a dela, todas as quartas-feiras, num quarto alugado de uma hospedaria. Não teve a tentação de a conhecer?
R. - Não quis conhecê-la porque senão depois não podia escrever. Não posso agarrar em si e pô-lo num romance. P. - Ora essa, tem tantas personagens reais nos seus livros...
R. - Reais? É um pouco como a Lisboa cenário de alguns livros, é uma Lisboa inventada. P. - Não tem tias nos livros?
R. - As tias que aparecem nos livros também as conheci assim. Eram tias do meu avô. Eram senhoras que vinham do Brasil e que viviam nuns andares muito escuros. Eu era pequeno e ia lá com o meu avô. Ficava ali, num canto. Seria incapaz de pôr um irmão meu como personagem. O Ernesto, por exemplo, aparece em "Os Cus de Judas". Mas a nossa relação nessa altura não era a relação de irmãos em que se foi tornando. O que ponho num romance são um nariz que apanho ali, uma feição, um gesto. P. - Neste livro há apenas o pequeníssimo círculo familiar e mesmo esse reduzido a breves frases, ou a cenas escondidas, às vezes de ordem sexual. O meio ambiente é assim tão irrelevante?
R. - Tenho a sensação que não sou eu que escrevo os livros. É a mão. Escrevo sempre à mão. O meu problema é estar suficientemente cansado até a mão estar autónoma e tornar-se feliz. P. - A isso chamava-se dantes, romanticamente, musas.
R. - Por que é que um dia faço uma página, outro dia faço quatro linhas e outro dia estou três horas e nem uma palavra sai? O que é que faz que isto varie? Depois, comecei a dar-me conta de que adormeço a ler. Há aquela altura em que se está entre o dormir e o acordar e se flutua. Depois, quando despertava, percebia que não estava a ler o que estava ali escrito, estava a ler outras coisas que eu julgava que estava a ler e que não eram o livro. Então pensei (isto já foi há uns anos): eu tenho é que conseguir um estádio próximo deste para escrever. E depois, bem desperto, estruturar isto tudo. P. - Precisava de inventar um heterónimo, porque já não é o António Lobo Antunes que está a escrever?
R. - É qualquer coisa dentro de mim que é anterior às palavras e em relação à qual a crítica racional não funciona. O meu problema é atingir esse estado. Preciso de estar cansado para aquilo começar a sair. P. - Um pouco esotérico, isso, não acha?
R. - Não acho nada. Não vê que em todos nós existe isto? Por exemplo, está a sonhar e de repente compreende que descobriu o segredo do mundo e da vida. Tem consciência de que está a dormir e quer acordar. E, à medida que vai acordando, isto vai-se esfumando, esfumando, esfumando. Quando chega à superfície, isto não tem nada. Nunca lhe aconteceu? P. - O que me dá ideia é que isso é a parte em que eu sou menos eu. É a parte em que eu tenho menos mérito. Aliás, costuma dizer que trabalha dez, 12 horas por dia.
R. - Mas eu não penso em termos de mérito. E isso não é mérito. Muito mais trabalha um operário. Não faço mais nada, sou pago para isso. P. -E fica à espera de entrar em estado de dormência?
R. -Não preciso de estar à espera, preciso de provocá-lo. Isso consegue-se através do cansaço.
"'Ulisses', de Joyce, irrita-me"
P. - Não acha que está a menorizar o seu talento, a sua inspiração?
R. - É qualquer coisa que existe dentro de si e em lugares a que a gente não tem acesso - que nos aparece nos sonhos, nos aparece nos impulsos, nos aparece, por exemplo, na escolha dos amigos. É completamente irracional. Porque é que eu hei-de gostar de A e não de B? Até a escolha dos partidos tem muito de afectivo. Eu não escrevo aquilo que quero. Escrevo aquilo que o livro quer.
P. - Escrever o que o livro quer não poderá levar o autor ao culto da forma, paradoxalmente?
R. - O "Ulisses", de Joyce, irrita-me. Por um lado, não posso deixar de admirar as habilidades formais dele; por outro, irrita-me, porque é uma pirueta, não é eficaz. Convidam-me muitas vezes, porque pensam que um escritor diz coisas inteligentes. Esperar que um escritor diga coisas inteligentes é o mesmo que esperar que um acrobata ande aos saltos mortais pela rua. O que eu sou fundamentalmente é um homem comum, cujo trabalho é este. Construí toda a minha vida, desde que me conheço, para isto. Não tem mérito nenhum. É preciso trabalhar muito. Ler muito. Ter uma atitude humilde perante a vida. Ser uma espécie de esponja onde as coisas entram e saem.
P. - Ser um grande escritor é isso que me diz?
R. - Ser um grande escritor é produzir um objecto que, quando eu o leio, foi escrito só para mim. Os outros exemplares dizem coisas diferentes. E não o empresto, porque há uma relação pessoal entre mim e esse livro, que me está a falar de mim mesmo e que me está a mostrar zonas minhas que me iluminam. Um grande escritor é um homem que faz um espelho onde eu vejo o homem nu que sou.
Contar só a história não dáP. -Neste último livro são várias as alusões a situações sexuais de carácter incestuoso. É novidade nos seus livros, não é?
R. - Neste [que o autor já está a escrever], há bocado, também notei que havia isso. P. - Há o pai com a filha, naqueles apertares de mão no circo. E há depois na relação mãe-filho algo que decorre no plano onírico...
R. - Não era uma decisão consciente, não era uma ideia clara na minha cabeça. Agora este está a fugir-me por todos os lados. P. - E já lhe apareceu também o incesto?
R. - Há aqui um capítulo... O tipo da Pide [personagem do próximo romance, sobre a madrugada e a a manhã - ver entrevista do autor ao PÚBLICO de 9.11.04]... este homem... não se percebe bem, está sempre à procura de justificações... Está uma nebulosa ainda muito grande. P. - No novo livro está portanto ainda à procura. Mas no anterior não: partiu já com a história toda. Do que é que andou à procura, naquelas primeiras páginas e páginas iniciais, em que não nos dá a ver os dois amantes centrais?
R. - Quando eu comecei a fazer consultas de psicoterapia, o homem com quem eu tinha aprendido a técnica toda dizia-me: "Agora esqueça-se e vá lá para dentro." Você tem a história. Mas ela vai aparecer-lhe fragmentada. É um desafio óptimo, do ponto de vista técnico. Nem imagina o que tem que se lutar para reter aquilo. Dá vontade de dar logo aquele bombom. P. - Mas depois acaba e nós sentimo-nos ainda com um pouco de fome da história. A sua mão cheia de pudor deu-nos os traços e foi-se embora.
R. - A tendência natural é: "Toma lá!" O difícil é mantermo-nos no gume. Mas contar só a história, depois escrita, não dá. Já reparou nos grandes romances? [O que é] "O Velho e o Mar" [1952, Ernest Hemingway]? É um velho que vai buscar um peixe, os outros peixes comem-lhe o peixe e ele chega a casa sem peixe. "Anna Karenina" [1877, Leão Tolstoi]? Uma mulher que é casada, está farta do marido, vai para a cama com outro, arrepende-se e morre. O que é a "Odisseia" [escrito por Homero, provavelmente no século VIII a.C.]? Tenho a minha mulher à espera. É só isto, umas coisas que o gajo arranja para não ir para casa. P. - Este livro é sobre um homem e uma mulher que se amaram uma vez, perderam-se e reencontraram-se, quando já não se podiam amar. Mas que se amavam e por isso se encontravam às escondidas sem quase se consentirem amar...
R. - ... e aparece muito menos no livro toda essa dimensão amorosa. Como é que se faz isso? Desmantela-se a história. E, no entanto, mantém-se lá. P. - Desenhada em pinceladas muito vagas, assim à Renoir.
R. - Então fico contente. Mas penso que a leitura não oferece problemas. P. - Que lugar ocupa na sua lista das melhores obras?
R. - Aí estou de acordo com o meu agente: tenho feito livros [cada vez] melhores. Por enquanto. E daí o meu medo com este agora [que está a escrever]. Esse que sai já o acabei há um ano. Continuo contente com ele. Tenho orgulho em tê-lo escrito.
CAIXA
Muro de Berlim e o "ilimitado"
O escritor habitava em Berlim, ainda separada por um muro que dividia a Alemanha em dois regimes antagónicos. Além da experiência vivencial "extraordinária", foi esse o momento em que descobriu outra forma de escrever um romance.
Mil Folhas - Diz que não escreve aquilo que quer, mas aquilo que o livro quer. Pode explicar melhor?
António Lobo Antunes - Não sei. Não é nada racional. Ao princípio fazia planos todos muito detalhados - antes de começar a escrever, o que me tirava a surpresa do livro. Comecei assim o "Tratado das Paixões da Alma" [1990]. Com um plano. Na altura [1989] vivia em Berlim, com uma bolsa. O meu vizinho de andar era o Luigi Nono, compositor [italiano, falecido no ano seguinte], casado com a filha do [compositor, falecido em 1951 Arnold] Schönberg. P. - Também estava lá com uma bolsa?
R. - Sim, uma bolsa da cidade de Berlim Ocidental. Era uma cidade espantosa: na mesma noite tínhamos um concerto da Filarmónica, um concerto da Sinfónica de Karajan, outro do Charlie Mingus... P. - ... e mais 400 espectáculos na área do "off-off"...
R. - ... galerias abertas toda a noite, discotecas, sítios com poetas a dizerem poesia... E depois, de repente, caiu o Muro. Uma experiência extraordinária. P. - E o António a escrever.
R. - Tinha começado o livro dois meses antes. Andei ali, para trás e para a frente com o primeiro capítulo, e percebi que aquilo não voava. Depois lembrei-me de uns versos do Apollinaire ["La jolie rousse", poema a Jacqueline Kolb, 1917]:
"Pitié pour nous qui combattons toujours aux frontières
De l'illimité et de l'avenir"
Pensei: "Eu tenho que escrever coisas passadas no ilimitado..." Correr mais riscos. Ser mais honesto para comigo mesmo, ou seja, não me mover num terreno que já conheço mais ou menos bem, até do ponto de vista verbal. Tentar escrever aquilo que eu não sou capaz de escrever. Por exemplo, no "Eu Hei-de Amar Uma Pedra", aquilo estava uma luta. Depois de escrever isto e isto e isto, dizia: "Não presta, não presta, não presta." Depois: "Não vou deixar que um livro me vença." Julgo que era o Jules Renard que dizia que não havia talento, havia bois. P. - Havia?...
R. -Bois. Que não havia nenhuma frase que um principiante não pudesse fazer, que um livro é trabalho. Eu penso que é. E então temos que o escrever com a chamada "eficácia". Eu entendo por eficácia o não sacrificar a tentação de uma bela metáfora, de uma imagem bonita, ao seu material. Não estarmos a dizer ao leitor: "Repara no que eu sou capaz de fazer." O livro é que tem que ser inteligente, não o escritor. P. - Esse encantamento em Berlim, que o levou a mudar de registo, faz lembrar a noite de êxtase contada por um escritor de quem, julgo, não gosta muito, sobre o nascimento de um heterónimo: Fernando Pessoa [sobre Alberto Caeiro, em 8 de Março de 1914]. O António Lobo Antunes, que fala em trabalho e em eficácia, em êxtase?
R. - Às vezes a gente põe-se a pensar: como é que eles descobriram os Açores? E a Madeira? A gente trabalha no escuro, mas tem que navegar na direcção certa. Não é por acaso que aquilo acontece. Não é por acaso.
DESTAQUES
Estou a chegar à idade em que, como gosto de homens mais velhos do que eu, com quem aprendo, os meus amigos vão morrendo e isso custa-me muito.
Esses manuscritos aí [três ou quatro, pousados do lado direito da secretária de vidro] são primeiros romances. Dizem tudo. São maus, porque dizem tudo.
[Escrever] é qualquer coisa dentro de mim que é anterior às palavras e em relação à qual a crítica racional não funciona.
Ser um grande escritor é produzir um objecto que, quando eu o leio, foi escrito só para mim. Os outros exemplares dizem coisas diferentes.
Tenho feito livros [cada vez] melhores. Por enquanto.
8 de novembro de 2004
Agualusa e a felicidade
(…) Antigamente todos os contos para crianças terminavam com a mesma frase, e foram felizes para sempre, isto depois de o Príncipe casar com a Princesa e de terem muitos filhos. Na vida, é claro, nenhum enredo remata assim. As Princesas casam com os guarda-costas, casam com os trapezistas, a vida continua, e os dois são infelizes até que se separam. Anos mais tarde, como todos nós, morrem. Só somos felizes, verdadeiramente felizes, quando é para sempre, mas só as crianças habitam esse tempo no qual todas as coisas duram para sempre. Eu fui feliz para sempre na minha infância, lá na Gabela, durante as férias grandes, enquanto tentava construir uma cabana nos troncos de uma acácia. Fui feliz para sempre nas margens de um riacho, uma corrente de água tão humilde que dispensava o luxo de um nome, embora orgulhoso o suficiente para que o achássemos mais do que simples riacho - era o Rio. Corria entre lavras de milho e mandioca, e íamos para lá caçar girinos, passear improvisados barcos a vapor, e também, à tardinha, espreitar as lavadeiras a tomar banho. Fui feliz com o meu cão, o Cabiri, fomos os dois felizes para sempre, perseguindo rolas e coelhos através das tardes longas, jogando às escondidas em meio ao capim alto. Fui feliz no convés do Príncipe Perfeito, numa viagem eterna entre Luanda e Lisboa, lançando ao mar garrafas com mensagens ingénuas. A quem encontrar esta garrafa agradeço que me escreva. Nunca ninguém me escreveu. Nas aulas de catequese um velho padre de voz sumida e olhar cansado tentou, sem convicção, explicar-me em que consistia a Eternidade. Eu achava que era um outro nome para as férias grandes. O padre falava em anjos e eu via galinhas. Até hoje, aliás, as galinhas são o que conheço mais aparentado aos anjos. Ele falava-nos na bem-aventurança e eu via as galinhas ciscando ao sol, escavando ninhos na areia, revirando os pequenos olhos de vidro, num puro êxtase místico. Não consigo imaginar o Paraíso sem galinhas. Nem sequer consigo imaginar o Bom Deus, estendido preguiçosamente numa fofa cama de nuvens, sem que o rodeie uma mansa legião de galinhas. Aliás, nunca conheci uma galinha má - você conheceu? As galinhas, como os salalés, como as borboletas, são imunes ao mal.»
A chuva redobra de intensidade. É raro chover assim em Luanda. Félix Ventura limpa o rosto a um lenço. Ele ainda usa lenços de algodão, enormes, em padrões clássicos, com o nome bordado a um canto. Invejo a infância dele. Pode ser falsa. Ainda assim a invejo.
Autor do Artigo
José Eduardo Agualusa
Jornal "a Página" , Outubro 2004
A chuva redobra de intensidade. É raro chover assim em Luanda. Félix Ventura limpa o rosto a um lenço. Ele ainda usa lenços de algodão, enormes, em padrões clássicos, com o nome bordado a um canto. Invejo a infância dele. Pode ser falsa. Ainda assim a invejo.
Autor do Artigo
José Eduardo Agualusa
Jornal "a Página" , Outubro 2004
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