29 de abril de 2006

Do jornal "O Público"

Alfred Hitchcock
O mestre do suspense viveu dividido entre dois países e duas existências. Nasceu no Reino Unido e, aí, deu os primeiros passos no mundo do cinema, mas foi nos Estados Unidos que realizou os seus maiores clássicos. Fora do set, mantinha um estilo de vida calmo e simples, mas no grande ecrã vivia as suas grandes obsessões e traumas. Alfred Hitchcock tornou-se um génio incontestável na história do cinema. Por Ana Filipa Gaspar

A vida para além do grande ecrã
Alfred Hitchcock nasceu em Leytonstone, Londres, a 13 de Agosto de 1899, apenas um dia antes da sua (futura e única) mulher, Alma Reville. Filho de um casal de vendedores de galinhas e hortaliças, Alfred Joseph Hitchcock tinha um irmão e uma irmã mais velhos, que devido à diferença de idades não brincavam com ele. Assim, a sua infância foi marcada pela solidão e também pela severidade do pai, que uma vez o enviou à prisão com uma mensagem para o polícia o prender durante alguns momentos.

A sua família pertencia à baixa burguesia e era católica praticante. Hitchcock foi, desde cedo, educado pelos padres jesuítas do Saint Ignacius College, onde estudou, como aluno interno, durante cerca de seis anos. Em 1914, o seu pai morreu e Hitch decidiu frequentar o curso de Engenharia na Escola de Engenharia e Navegação. Cerca de três anos depois, começou a trabalhar numa companhia telegráfica, enquanto aprendia a desenhar no curso de Belas-Artes da Universidade de Londres.

Quando tinha 20 anos, ofereceu-se para trabalhar como desenhador nos estúdios da companhia norte-americana Famous Players-Lasky em Londres. E entrava, desta forma, no mundo do cinema. Dois anos depois, a Famous Players alugou os seus estúdios a uma recém-criada produtora britânica, a Gainsborough Pictures. Nela, Hitchcock desempenhou várias funções: foi argumentista, assistente de realização, decorador e realizador.

Em 1923, conheceu Alma Reville, que trabalhava na época como anotadora e montadora no filme Woman to Woman, de Graham Cutts. Um ano depois ficaram noivos e Alfred Hitchcock teve a oportunidade de realizar, na íntegra, um filme. O Jardim das Delícias foi o primeiro dos seus 53 filmes e Alma Reville trabalhou nele como assistente de realização. A crítica e o público elogiaram a estreia de Hitch e esse sucesso foi suficiente para prosseguir com novos trabalhos. Entre eles, The Lodger (1927) foi considerado pelo próprio realizador como “o primeiro filme hitchockiano”.

O casamento com Alma deu-se em Dezembro de 1926 e a única filha do casal, Patricia, nasceu a 7 de Julho de 1928. Lenda ou não, conta-se que, durante a gravidez, Hitchcock não conseguia olhar para Alma, que, além de sua mulher, era a sua mais próxima colaboradora no cinema.

Em 1929, os talkies chegaram aos estúdios ingleses e o décimo filme de Hitch, Chantagem, tornou-se num dos primeiros filmes sonoros britânicos. Cerca de cinco anos depois, o realizador alcançou o reconhecimento mundial com O Homem que Sabia Demais, êxito que conseguiu superar com o seu filme seguinte, Os 39 Degraus (1935), frequentemente referido como o melhor trabalho da sua fase britânica.

O sucesso de A Desaparecida (1938) nos EUA levou o produtor norte-americano David O’Selznick a contratar Hitchcock, que se mudou com a família para Hollywood em 1939, meses antes do início da II Guerra Mundial. Aí, a família Hitchcock manteve um estilo de vida calmo e simples, longe da agitação das festas. O primeiro filme desta nova fase foi Rebecca (1940), que recebeu o Óscar para Melhor Filme. Mais tarde, nas décadas de 50 e 60 (época de substituição dos filmes a preto-e-branco pelos a cores), surgiram os seus maiores clássicos – A Mulher que Viveu Duas Vezes, Intriga Internacional, Psico e Os Pássaros. O seu último filme foi realizado já nos anos 70 – Intriga em Família (1976).

Em 1979, Alfred Hitchcock foi distinguido com o Life Achievement Award do American Film Institute, tornando-se o quarto realizador a receber este prémio. Hitch dedicou-o a quatro pessoas que eram, na verdade, apenas uma: Alma Reville, a sua companheira durante 53 anos. E, a propósito da distinção, disse a alguns amigos que o motivo de estar a recebê-la deveria estar relacionado com o facto de morrer em breve. Tinha 80 anos quando morreu, em Abril de 1980.



O mestre e a sua bizarra profissão
A cerimónia de entrega do Life Achievement Award foi uma das últimas aparições de Hitch em público. Durante o discurso de agradecimento, o realizador falou sobre a “profissão bizarra que é o fabrico de filmes”.

Ao longo de mais de 50 anos, Hitchcock revolucionou a história do cinema com o seu estilo sofisticado, que combina as suas subtis aparições com grandes planos dramáticos dos protagonistas. A influência do expressionismo alemão nos primeiros filmes, os temas e fetiches de Hitchcock (como a culpa, a homossexualidade implícita, a figura materna, a identidade, o voyeurismo), a criação do suspense, a representação da mulher vertiginosa (encarnada por protagonistas belas, louras e gélidas) e a regra MacGuffin são algumas das suas marcas pessoais, que permitiram à frase “parece um Hitchcock” e ao termo “hitchcockiano” entrarem no vocabulário comum a partir de meados dos anos 30.

Considerado o mestre do suspense, Hitch esforçava-se por sublinhar a distinção entre a surpresa e o suspense. Em entrevista ao realizador François Truffaut, explicou que “na forma vulgar do suspense é indispensável que o público esteja perfeitamente informado de todos os elementos em causa”. Ou seja, a principal diferença em relação à surpresa é que o público sabe algo que os personagens desconhecem. Durante a entrevista, Hitch acrescentou ainda que existem muitas situações em que “o suspense não está ligado ao medo”, mas sim à emoção.

Além do princípio do suspense, Hitchcock recorria frequentemente a técnicas em torno das quais se desenvolvia a intriga. Entre elas, a mais célebre é a regra MacGuffin: um pormenor que motiva as acções dos personagens, mas não é relevante para o público. Nos seus filmes de espionagem, há sempre um MacGuffin, representado por um papel, documento ou segredo. Mas a regra também pode estar presente nos seus outros thrillers como, por exemplo, em A Mulher que Viveu Duas Vezes através da personagem ausente, Carlotta Valdes.

Outra característica dos seus filmes é um peculiar género de humor. Aliás, no próprio set, Hitch era conhecido (e temido) pelas suas “brincadeiras de mau gosto”. Para transpor essa faceta da sua personalidade para o grande ecrã, o realizador decidiu aparecer “dentro do campo” do filme, relembrando ao público o carácter ficcional da história e gerando um inevitável efeito cómico. Por vezes, passeia-se livremente entre as personagens mas, em certas ocasiões, é apenas um vulto ou uma sombra – sempre com uma certa dose de ironia e um pouco do humor negro britânico.

O sucesso deste homem, cuja imagem pública é inconfundível, e a sua capacidade de controlo criativo dos seus filmes contribuíram para a valorização do papel do realizador, que anteriormente era relegado para segundo plano face ao produtor. Hitchcock tornou-se o mentor de uma nova geração de realizadores, que continuam ainda hoje a evocar e relembrar os seus filmes.

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