César de Sousa
Um distinto membro da classe docente do ensino secundário garantia-me, há poucos dias, que os professores, nos ensinos básico e secundário, e muito em especial os directores de turma, não servem só para dar aulas. Têm, por exemplo, de organizar turmas e de fazer as matrículas dos futuros alunos para o ano seguinte. A questão surgiu porque a pessoa em questão mostrava-se preocupada por causa da influência dessas tarefas no usufruto das suas férias. E a secretaria, perguntei, não pode assegurar esse trabalho? Não, respondeu-me, porque não tem tempo.
A argumentação, é forçoso reconhecê-lo, evoluiu. A mesma pessoa dava-me, há tempos, argumentos relacionados com factores pedagógicos e característicos da própria organização escolar, para justificar, pelo menos, essas duas tarefas: receber as matrículas feitas pelos alunos e/ou pelos seus pais e/ou encarregados de educação na própria escola e organizar as turmas em que os professores são, mais do que os alunos, parte interessada por causa das suas agendas.
Esta actividade dos professores tem, é claro, uma explicação histórica: ela faz parte do exercício do que se designou por gestão democrática, que pôs os professores, fossm quais fossm a sua preparação e a sua disposição para a função, a dirigir as escolas por eleição. Foi uma das reviravoltas do 25 de Abril, uma consequência lógica do fim do exercício ditatorial dos directores das escolas.
Há poucos anos, começou a evoluir-se, não sem polémica, para uma mitigada profissionalização da gestão escolar, ao exigir-se aos professores que querem ser gestores alguma preparação na matéria. Supõe-se que, como tudo em Portugal, o êxito há-de ter sido tão limitado como discreto. Sabe-se é que a profissionalização, “latu sensu”, não chegou ao resto: os professores tratam de umas coisas, o pessoal administrativo trata de outras.
O Estado, nisto tudo, desempenha um papel equívoco de “laissez faire, laissez passer”, seja lá qual for a cor do partido do governo e/ou do(s) sindicato(s) que lhe faz(em) frente: como não quer e não pode pagar mais aos professores, deixa-os, normalmente, em paz. Mais férias, menos tempo nas escolas (além disso, garantir gabinetes e outras áreas de trabalho é mais caro), alguma autonomia, a convicção (que agrada aos sindicatos, que também dela lançam mão como bandeira para aterrorizar ministros) de que a gestão democrática ainda funciona. Ou seja: de que os professores é que mandam. É evidente que não advém mal ao mundo desta ilusão e destas actividades extra-curriculares dos professores. Mas há, nisto tudo, uma perversão feita de falsos poderes, de falsas obrigações, de pedagogia nacional-porreirista, de comodismo de um aparelho de Estado que não é, não deixa de ser e não consegue ser ou fazer que seja.
Quanto aos professores, bem... na melhor das hipóteses, fica a ilusão de que estão a ser úteis aos meninos e às meninas. Bem hajam, que deles será o Reino dos Céus...
A resposta está aqui. (13 de Julho)
10 de setembro de 2004
A Cartilha: Os criminosos
Clara Ferreira Alves
O «causídico» Manuel Ayala, representante do Ministério da Defesa no caso do barco do aborto, terá comparado o aborto, a acreditar nos jornais, à eutanásia e às drogas duras. Segundo ele, começa-se no aborto, segue-se para a eutanásia e acaba-se nas drogas duras. É evidente que existe uma comparação entre estes três ilícitos penais, a de serem, justamente, ilícitos penais, crimes punidos pela Código Penal português. Mas, subjacente a esta comparação formal, está uma comparação de ordem moral, essa sim reprovadora e fundadora de todas as atitudes a favor da despenalização do aborto ou das drogas leves ou, se quisermos, da eutanásia. Ora esta comparação moral é errada, equívoca e mete tudo no mesmo saco.
As três situações são diferentes e os casos pessoal e juridicamente intrincados a que respeitam são diferentes. O aborto não devia ser considerado uma prática criminosa, pelas razões que todas as campanhas de despenalização justamente invocaram, e por que se fosse aplicada a lei com rigor, não seriam as mulheres pobres e as parteiras as condenadas e sim uma boa parte dos ginecologistas deste país e das mulheres ricas que recorrem ao aborto em território nacional em «condições de segurança». O aborto pratica-se, mal e bem, os que o praticam mal são apanhados e os outros não e ponto final. A hipocrisia dos políticos que falam do aborto como violação de uma ordem moral intrínseca ao homem, seriam provavelmente os primeiros a ser apanhados caso pudéssemos entrar mais profundamente nas suas vidas. É sempre o caso bíblico do apedrejamento da pecadora, o que não tiver pecado que atire a primeira pedra.
A eutanásia coloca problemas diferentes, embora se trate do direito à vida, e também aqui, ela é discretamente praticada por muitas famílias em casos desesperados e médicos complacentes e compassivos, desde que o estrato social seja muito alto ou muito baixo. No baixo, os hospitais limitam-se a deixar morrer ou a expulsar do hospital por falta de camas. No alto, prolongam indefinidamente a vida ou cortam a pedido, muitas vezes a pedido do doente. A hipocrisia continua.
No caso das drogas duras, mais pacífico, todos parecem de acordo em punir e muitos não concordam em somente tratar. O tráfico, crime organizado, tem muitos tentáculos, e tentáculos poderosos, e só os pequenos traficantes e consumidores acabam por ser apanhados. São mais uma vez situações hipócritas, condicionadas pela importância social do criminoso. O colarinho branco fica de fora, e o branqueamento de dinheiro da droga também. Nos três casos, a única coisa que importa na vida real é isto, quem tem ou não tem dinheiro, e não quem tem consciência.
O «causídico» Manuel Ayala, representante do Ministério da Defesa no caso do barco do aborto, terá comparado o aborto, a acreditar nos jornais, à eutanásia e às drogas duras. Segundo ele, começa-se no aborto, segue-se para a eutanásia e acaba-se nas drogas duras. É evidente que existe uma comparação entre estes três ilícitos penais, a de serem, justamente, ilícitos penais, crimes punidos pela Código Penal português. Mas, subjacente a esta comparação formal, está uma comparação de ordem moral, essa sim reprovadora e fundadora de todas as atitudes a favor da despenalização do aborto ou das drogas leves ou, se quisermos, da eutanásia. Ora esta comparação moral é errada, equívoca e mete tudo no mesmo saco.
As três situações são diferentes e os casos pessoal e juridicamente intrincados a que respeitam são diferentes. O aborto não devia ser considerado uma prática criminosa, pelas razões que todas as campanhas de despenalização justamente invocaram, e por que se fosse aplicada a lei com rigor, não seriam as mulheres pobres e as parteiras as condenadas e sim uma boa parte dos ginecologistas deste país e das mulheres ricas que recorrem ao aborto em território nacional em «condições de segurança». O aborto pratica-se, mal e bem, os que o praticam mal são apanhados e os outros não e ponto final. A hipocrisia dos políticos que falam do aborto como violação de uma ordem moral intrínseca ao homem, seriam provavelmente os primeiros a ser apanhados caso pudéssemos entrar mais profundamente nas suas vidas. É sempre o caso bíblico do apedrejamento da pecadora, o que não tiver pecado que atire a primeira pedra.
A eutanásia coloca problemas diferentes, embora se trate do direito à vida, e também aqui, ela é discretamente praticada por muitas famílias em casos desesperados e médicos complacentes e compassivos, desde que o estrato social seja muito alto ou muito baixo. No baixo, os hospitais limitam-se a deixar morrer ou a expulsar do hospital por falta de camas. No alto, prolongam indefinidamente a vida ou cortam a pedido, muitas vezes a pedido do doente. A hipocrisia continua.
No caso das drogas duras, mais pacífico, todos parecem de acordo em punir e muitos não concordam em somente tratar. O tráfico, crime organizado, tem muitos tentáculos, e tentáculos poderosos, e só os pequenos traficantes e consumidores acabam por ser apanhados. São mais uma vez situações hipócritas, condicionadas pela importância social do criminoso. O colarinho branco fica de fora, e o branqueamento de dinheiro da droga também. Nos três casos, a única coisa que importa na vida real é isto, quem tem ou não tem dinheiro, e não quem tem consciência.
A Cartilha: Crónica dos bons malandros
Clara Ferreira Alves
O senhor Tony Blair, tal como antes deles o senhor Felipe González, acostumou-se ao «high life» e dali não sai, dali ninguém o tira. Apareceu, com a inimitável Cherie, ao lado do primeiro-ministro italiano Berlusconi, com a fachada de uma bela casa na Sardenha por trás. Os Blair foram até à Sardenha e à fortaleza de Berlusconi (numa zona protegida onde o comum dos mortais não poderia construir), e aí aboletaram durante a estação quente.
Quente mas, não tão quente como o Iraque, onde iraquianos, ingleses e americanos continuam a morrer e a ficar cobertos de moscas debaixo do sol e dos quarenta e tal graus de temperatura. O Iraque, transformado na desordem e numa sentença de morte do Médio Oriente, não incomoda a família Blair nem o senhor Berslusconi, que se banham nas águas transparentes do Mediterrâneo e comem lagostins e rizzoto à sombra da palmeira. O senhor Berslusconi apareceu mesmo com um lenço a amarrar a cabeça, estiloso, destinado, segundo um esclarecimento do seu médico pessoal, a esconder os vestígios de um transplante capilar a que se tinha submetido. Repare-se que, este ano, o senhor Berlusconi já tinha feito um lifting. É preciso ficar bem na fotografia e em frente ao holofote.
O primeiro-ministro italiano entra no trabalho depois das férias com a energia renovada e com a cara arrumada, o que decerto fornecerá mais uns anos de sobrevivência política. Governar a Itália era muito fácil, afinal, bastava ser dono das televisões.
Na Inglaterra, Blair também não se safou mal. Destruiu a BBC, escapou ileso dos escândalos e das mentiras e enganos, e David Kelly, o suicidado das armas de destruição maciça, não lhe tira o sono. Como diria o padre Américo, não há rapazes maus, e nesta história do Iraque, custe as vidas que custar, o petróleo há-de acabar por jorrar.
A aliança estival de Blair, o renegado socialista, com Berlusconi, o magnate amoralista, é a prova de que a vergonha morreu no deserto. O deserto ético em que vivemos, onde nada conta, nada se paga, e todos os fins justificam os meios. A fotografia das férias alegres de Blair e de Berslusconi é a prova de que as ideologias e as convicções estão mortas. E enterradas. No admirável mundo novo da imagem e do spinning, das «photo oportunities», vale tudo menos ter coerência. E vale mais ter um transplante capilar. Ainda veremos Barroso a banhos na Sardenha.
O senhor Tony Blair, tal como antes deles o senhor Felipe González, acostumou-se ao «high life» e dali não sai, dali ninguém o tira. Apareceu, com a inimitável Cherie, ao lado do primeiro-ministro italiano Berlusconi, com a fachada de uma bela casa na Sardenha por trás. Os Blair foram até à Sardenha e à fortaleza de Berlusconi (numa zona protegida onde o comum dos mortais não poderia construir), e aí aboletaram durante a estação quente.
Quente mas, não tão quente como o Iraque, onde iraquianos, ingleses e americanos continuam a morrer e a ficar cobertos de moscas debaixo do sol e dos quarenta e tal graus de temperatura. O Iraque, transformado na desordem e numa sentença de morte do Médio Oriente, não incomoda a família Blair nem o senhor Berslusconi, que se banham nas águas transparentes do Mediterrâneo e comem lagostins e rizzoto à sombra da palmeira. O senhor Berslusconi apareceu mesmo com um lenço a amarrar a cabeça, estiloso, destinado, segundo um esclarecimento do seu médico pessoal, a esconder os vestígios de um transplante capilar a que se tinha submetido. Repare-se que, este ano, o senhor Berlusconi já tinha feito um lifting. É preciso ficar bem na fotografia e em frente ao holofote.
O primeiro-ministro italiano entra no trabalho depois das férias com a energia renovada e com a cara arrumada, o que decerto fornecerá mais uns anos de sobrevivência política. Governar a Itália era muito fácil, afinal, bastava ser dono das televisões.
Na Inglaterra, Blair também não se safou mal. Destruiu a BBC, escapou ileso dos escândalos e das mentiras e enganos, e David Kelly, o suicidado das armas de destruição maciça, não lhe tira o sono. Como diria o padre Américo, não há rapazes maus, e nesta história do Iraque, custe as vidas que custar, o petróleo há-de acabar por jorrar.
A aliança estival de Blair, o renegado socialista, com Berlusconi, o magnate amoralista, é a prova de que a vergonha morreu no deserto. O deserto ético em que vivemos, onde nada conta, nada se paga, e todos os fins justificam os meios. A fotografia das férias alegres de Blair e de Berslusconi é a prova de que as ideologias e as convicções estão mortas. E enterradas. No admirável mundo novo da imagem e do spinning, das «photo oportunities», vale tudo menos ter coerência. E vale mais ter um transplante capilar. Ainda veremos Barroso a banhos na Sardenha.
9 de setembro de 2004
Discurso Sobre a Velhice com a Liberdade em Pano de Fundo
Domingo, 05 de Setembro de 2004
António Melo Nelson Garrido
Emídio Guereiro perfaz 105 anos de vida no dia 6 de Setembro. Quando lhe pedem um balanço desta longa existência, diz que ela cabe por inteiro no poema de Paul Éluard, "Liberté", de que evoca os últimos versos: "Pelo poder de uma palavra // Reinício a vida // Nasci para te conhecer // Para te nomear - Liberdade". Nasceu em Guimarães, onde amanhã se vai comemorar o aniversário, numa celebração de projecção nacional, que a municipalidade vimaranense lhe dedica.
Filho de um oficial do Exército, António Guerreiro, que fez parte do corpo expedicionário na Grande Guerra de 1914-18, enviado para defender os territórios ultramarinos da eminente invasão germânica, dele herdou o fervor republicano e o impulso para a intervenção cívica.
Não fosse essa quase ânsia de modificar a sociedade no molde maçónico da liberdade, igualdade e fraternidade, o jovem Emídio teria sido um insigne matemático, com uma carreira académica a fazer-se sob a orientação de mestre Gomes Teixeira, que o escolheu em 1931 para seu assistente extraordinário.
Porém, em Janeiro de 1932 estava já no Aljube de Lisboa, preso por provocar um motim quando o general Carmona, líder da ditadura militar e Presidente da República do Estado Novo, visitou o Porto, em Dezembro de 1931. Do Aljube se evadiu no dia 4 de Abril de 1932, num exílio que só terminaria 42 anos mais tarde, com a Revolução dos Cravos.
Foi partidário dos republicanos na Guerra Civil de Espanha e resistente à ocupação nazi na França de Vichy. Quando regressou a Portugal, em 1974, liderou por curtos meses o PPD e foi deputado à Assembleia Constituinte. Depois aproximou-se do Partido Socialista e chegou a participar em algumas das suas campanhas eleitorais, mas sempre na qualidade de independente.
Nesta entrevista revela uma visão amarga sobre o destino da velhice, que vê como uma quase tragédia da condição humana. Mas o espírito de rebeldia, o fogo criativo do Prometeu agrilhoado, continua a arder-lhe nas entranhas.
P. - Entre a infância e a velhice há idade adulta. São as idades do homem, com que Édipo neutralizou a Esfinge?
R. - A Esfinge que devorava tudo, se não respondessem a uma determinada pergunta. E a reposta de Édipo foi: é o Homem. Assim se desfez a Esfinge e Édipo se fez rei. Mas estava escrito que ele mataria o pai, sem saber quem ele era, e casaria com a mãe. Foi rei incestuoso. Esta lenda é a primeira afirmação da potência humana, porque morrer, sem dar resposta à terrível Esfinge, significa que não se tinha a noção completa do que era a vida. Há um filósofo grego, Epicuro, que tem uma concepção maravilhosa sobre o que é a morte: "Enquanto tu és, a morte não existe, enquanto a morte não está, tu estás". Depois, é o nada absoluto.
O que não quer dizer que não receba a morte quase com alegria. Aquilo de que tenho horror não é da morte, é da velhice. A velhice é que não suporto.
P. - Porquê?
R. - Porque a velhice é uma espécie de condescendência da vida. Chega-se a um termo, que é aquele em que eu estou, em que já não há nada a dar. Sente-se uma espécie de vácuo. Mas é ridículo tentar filosofar aos 105 anos de idade. A meu ver é um limite máximo da vida.
Pessoalmente sinto-me cansado, muito, muito mesmo. O que me resta são fragmentos das noções que tive quando tinha uma verdadeira vida. É um naufrágio.
P. - Não é essa uma atitude dos cínicos, que desdiziam o que diziam. Fez uma proclamação sobre as limitações da velhice. Mas a criança está ainda mais limitada, pois ignora por completo o que é a experiência da vida.
R. - Certo. A vida só o é quando se adquire a consciência. A infância é um prefácio.
O que vou dizer poderá não agradar ao Papa, mas é a minha opinião. A vida humana não começa com o feto, começa com a consciência. A partir daí é que adquirimos uma existência própria. E depois vem a morte.
P. - Aos 105 anos o sopé da montanha é demasiado grande para o homem que está a subi-la?
R. - Quantas vezes não disse já que penso que estou a subir a montanha por ela abaixo? É uma subida negativa. Vejo-me projectado numa imagem ilusória, que me mostra a subir, quando na realidade estou a descer.
A velhice é um naufrágio em que o náufrago se agarra a tudo para continuar a supor que vive.
P. - O filósofo Jacques Derrida, em entrevista recente [Le Monde 19/8/04], falava da velhice como uma "sobre-vivência". Mas acrescentava que os "sobreviventes" são os que estão com a vida, não os que se lhe opõem.
R. - Não suporto essa velhice que se agarra à vida. A parte de uma sobre-vida não é uma super-vida. Eu entendo que a partir do momento em que o homem não é senhor da sua autonomia já não vive.
P. - Não é o sujeito soberano de si mesmo que define a sua capacidade autónoma? Não é a consciência de si que impõe os limites à autonomia? Não é esse o significado de Sísifo?
R. - Quando se pretende ultrapassar o impossível, a autonomia do homem ... Estou cansado... vamos fazer uma pausa...
Referiu Sísifo, mas já não estou a subir a montanha; é o contrário. É uma projecção que sai da vida. Imagine que o meu amigo está a descer a montanha e tem aos seus pés um espelho enorme. Há uma visão da vida que sobe, mas o caminhante desce. O aspecto real desta visão é o da vida não autónoma. É uma amarração à vida.
P. - Mas esse é o mito do Prometeu agrilhoado, que sofre a punição de quem trouxe o fogo criativo.
R. - Ah, a vida do Prometeu é a maravilha da mitologia. Quando penso em Prometeu e me recordo que roubou ao Olimpo o fogo sagrado, para o dar ao homem, vejo nele o primeiro acto da liberdade humana. Um desafio que pagou caro, muito caro, com as vísceras a serem devoradas pelas aves de rapina. É o primeiro passo do homem para a liberdade. O primeiro acto de rebeldia, que é também a primeira afirmação de autonomia da vida humana, que não se limita a ser só vida, é também a razão da vida.
Aí intervém um grande filósofo que acabou definitivamente com a escolástica medieval, Descartes, que nos deixou um formulário para podermos deduzir a verdade. A dúvida metódica é o grande trunfo do ser racional. O racionalismo não é senão a dúvida que o homem se põe e levou a ciência a desvendar e a interpretar os segredos da natureza.
Mas eu desejo que meus amigos vivam muito, só que não envelheçam.
P. - Só vê a velhice como decrepitude? Não pode ser uma reflexão da experiência?
R. - Não é. É um naufrágio.
P. - Tem que o ser necessariamente? Almeida Garrett não escreveu as "Folhas Caídas", que é um poema lírico à vida outonal?
R. - Não me estou a referir ao que vivi durante uma longa vida. Estou a falar do estado presente da velhice. Quer dizer, de um momento a partir do qual a vida já não tem a intensidade que lhe permite ser independente. Compreende?
P. - Não muito bem. Sujeitos soberanos podemos ser, mas em absoluto nunca o somos, precisamos de ser solidários.
R. - Bom, se discutimos assim a autonomia, numa perspectiva de sociedade, há sempre um limite. Não vou ao ponto de admitir o homem como o deus de si próprio, como queriam os anarquistas do tempo do Kroptkine. O que eu digo é que a individualidade é uma coisa muito rica. Combati a vida inteira pela dignidade do homem, e nessa dignidade estão duas coisas fundamentais: a dignidade e a liberdade.
P. - E a solidariedade e a tolerância pelo outro?
R. - Isso são atributos secundários. A individualidade é a marca da humanidade, pois estou convencido que não há dois homens iguais. Há sempre qualquer coisa que os faz singulares. Essa é uma especificidade do ser racional, mesmo que possa haver outras espécies animais com mais ou menos aspectos de atitude racional. Mas a razão humana é particular, porque é ela que faz com que se seja uma individualidade única.
P. - A racionalidade é inata, mas o racionalismo é uma construção?
R. - O racionalismo é uma grande descoberta da emancipação humana, permite-nos saber que somos homens. Todas as teorias filosóficas admitem o ser, admitem o estar, admitem o dogma. Mas só a partir de Descartes [1596-1650] é que o racionalismo passou a ser um instrumento para construir a própria razão humana. Pela dúvida metódica, passo a passo, procede-se para o conhecimento de uma verdade que permite alcançar o conhecimento de outra verdade. Chega-se à verdade formulada, sem imposição de uma verdade revelada.
Não foi pouca coragem a dele para o dizer, pois nessa altura realizava-se o julgamento, terrível, de Galileu Galilei [1564-1642].
P. - Descartes receou ser perseguido?
R. - Ele sabia que os motivos que levaram a Inquisição a perseguir Galileu, ao negar a verdade sagrada que dizia ser o Sol que andava à volta da Terra, também o podiam atingir. Ele pensou muitas e muitas vezes sobre o que se estava a passar com o físico de Pisa e levou a sua prudência a demonstrar, de uma maneira claramente anti-racional, a existência da alma! Ele viu as barbas do vizinho a arder, julgado por cardeais do Santo Ofício... Galileu foi obrigado a desmentir-se [em 1633], a dizer que o Sol andava à volta da Terra, quando ele verificara que não era assim. Ficou sob vigilância censória, para "não cair nos mesmos erros". Até se diz, não sei se é verdade, que ele acatou a sentença, de que a Terra era o centro do Universo, mas lá para dentro ia murmurando, "et per si muove".
P. - Essa evocação de Galileu traz de novo a compreensão da velhice à conversa. A uma criança ser-lhe-ia impossível compreender o que dizia Galileu. Se a idade adulta é a da acção não é a meditação a da velhice?
R. - A velhice não permite nada! É, de facto, a ante-câmara da morte.
P. - Ou é sono, como pretendia Vitor Hugo?
R. - Sejamos sérios, o que pode fazer um homem que chega aos 105 anos?
P. - Não está antes a criticar uma certa publicidade que pratica a discriminação dos idosos, em nome da estética. Não é de todos os tempos o reconhecimento da sageza dos anciães?
R. - Cuidado, há duas etapas, a da velhice que vive e aquela que vegeta. O que se pode extrair de um homem com 105 anos? Recordações de um passado longínquo, algumas muito vagas, com umas poucas ideias.
P. - Não está a contradizer a visão ampla do horizonte que se tem do alto da montanha?
R. - Quando eu disse que ter 105 anos é subir pela montanha abaixo, queria dizer que isso não era mais do que a projecção de uma vida que já passou. A vida activa que faz o homem já se esgotou.
P. - Prometeu traz o fogo consigo, Sísifo transporta a carga do tempo. Há ainda o Fausto da eterna juventude, e o Pigamalião, marioneta social, que acaba por suplantar o original. Não é essa imagem fabricada, que associa juventude a corpo esbelto, que o apoquenta?
R. - É pior do que isso. É mesmo o confronto com a realidade. Quando olho para o espelho e vejo o estado físico em que me encontro, pergunto-me se sou eu mesmo, o que lutou uma vida inteira. Eu estou não a viver, mas a vegetar.
P. - Bom, enquanto houver consciência e pensamento, é difícil de aceitar essa visão depressiva. Não é penoso ver a sociedade que marginaliza o ancião, sonhar em clones, criar uma sociedade de Pigmaliões adestrados?
R. - Aí está uma palavra que é preciso ter em conta - sociedade. Esse é também um dos problemas da vida. O homem nasce bom, dizia Rousseau [1712-1778], o que o torna mau é a imersão na sociedade; daí que para preservarmos a nossa identidade individual, a sociedade tenha que passar um "contrato social" entre os seus membros.
Mas uma sociedade que precisa de um "contrato social" para se justificar é um absurdo. Nesse sentido, está contra a razão. Desde tempos imemoriais que o homem vive em sociedade, pelo menos desde o tempo em que Prometeu lhe comunicou o segredo do fogo. Com a agricultura fixou-se e deixou o estado selvagem. A partir daí teve que sujeitar-se a hábitos, costumes, a leis que ele próprio fez. Data daí a alienação do homem. Ele criou determinadas noções, às quais se sujeitou, e que depois acabaram por aliená-lo, moldá-lo numa outra natureza...
P. - Virou Pigmalião...
R. - ...por exemplo, a noção de deus é aqui em Portugal maioritariamente católica. Mas a história da construção deste ser transcendental, que na origem parece ser uma atitude irracional, é própria do homem, da sua razão humana. Foi uma maneira de interpretar a natureza. Os fenómenos que a ciência não sabia explicar foram atribuídos a uma força superior, o que, independentemente da validade da atribuição, é uma explicação. Daí que para se explicar a si mesmo, tenha criado um deus à sua imagem e semelhança.
P. - E assim se foi alienando. O que nos leva à oposição entre Fausto e Pigmalião. Gostava de ser Fausto?
R. - Pois é. Mas isso é impossível, por isso é que digo que a única razoabilidade da vida é esta - encaminhar-se para o fim. A vida não termina com a morte física, esvai-se antes disso. Falou em Fausto, pois bem, o grande drama da alienação humana é esse, depois de ter inventado toda uma série de regras, sujeita-se aquilo que criou.
P. - A morte e a solidão são sinónimos? A ausência dos entes queridos traz a solidão?
R. - Não é a solidão, é a confusão. Quando estou com amigos passo relativamente bem, mas sozinho a minha cabeça parece um vulcão que se esvazia em cada explosão.
Pessoalmente este foi um ano muito mau para mim. Morreu a minha mulher, tive dissabores pessoais, morreu um grande amigo meu, José Augusto Seabra, que teve um funeral incrível, com missa de corpo presente. Ele foi um grande lutador pela liberdade, contra um regime infame que durou 47 anos. A seguir à revolução democrática, numa lista que eu organizei, ele foi um dos deputados à Constituinte, aquele que lá fez talvez o mais belo discurso. Foi ministro e embaixador. Teve uma carreira académica notável... Teve um funeral que foi uma atitude de esquecimento. É uma injustiça.
António Melo Nelson Garrido
Emídio Guereiro perfaz 105 anos de vida no dia 6 de Setembro. Quando lhe pedem um balanço desta longa existência, diz que ela cabe por inteiro no poema de Paul Éluard, "Liberté", de que evoca os últimos versos: "Pelo poder de uma palavra // Reinício a vida // Nasci para te conhecer // Para te nomear - Liberdade". Nasceu em Guimarães, onde amanhã se vai comemorar o aniversário, numa celebração de projecção nacional, que a municipalidade vimaranense lhe dedica.
Filho de um oficial do Exército, António Guerreiro, que fez parte do corpo expedicionário na Grande Guerra de 1914-18, enviado para defender os territórios ultramarinos da eminente invasão germânica, dele herdou o fervor republicano e o impulso para a intervenção cívica.
Não fosse essa quase ânsia de modificar a sociedade no molde maçónico da liberdade, igualdade e fraternidade, o jovem Emídio teria sido um insigne matemático, com uma carreira académica a fazer-se sob a orientação de mestre Gomes Teixeira, que o escolheu em 1931 para seu assistente extraordinário.
Porém, em Janeiro de 1932 estava já no Aljube de Lisboa, preso por provocar um motim quando o general Carmona, líder da ditadura militar e Presidente da República do Estado Novo, visitou o Porto, em Dezembro de 1931. Do Aljube se evadiu no dia 4 de Abril de 1932, num exílio que só terminaria 42 anos mais tarde, com a Revolução dos Cravos.
Foi partidário dos republicanos na Guerra Civil de Espanha e resistente à ocupação nazi na França de Vichy. Quando regressou a Portugal, em 1974, liderou por curtos meses o PPD e foi deputado à Assembleia Constituinte. Depois aproximou-se do Partido Socialista e chegou a participar em algumas das suas campanhas eleitorais, mas sempre na qualidade de independente.
Nesta entrevista revela uma visão amarga sobre o destino da velhice, que vê como uma quase tragédia da condição humana. Mas o espírito de rebeldia, o fogo criativo do Prometeu agrilhoado, continua a arder-lhe nas entranhas.
P. - Entre a infância e a velhice há idade adulta. São as idades do homem, com que Édipo neutralizou a Esfinge?
R. - A Esfinge que devorava tudo, se não respondessem a uma determinada pergunta. E a reposta de Édipo foi: é o Homem. Assim se desfez a Esfinge e Édipo se fez rei. Mas estava escrito que ele mataria o pai, sem saber quem ele era, e casaria com a mãe. Foi rei incestuoso. Esta lenda é a primeira afirmação da potência humana, porque morrer, sem dar resposta à terrível Esfinge, significa que não se tinha a noção completa do que era a vida. Há um filósofo grego, Epicuro, que tem uma concepção maravilhosa sobre o que é a morte: "Enquanto tu és, a morte não existe, enquanto a morte não está, tu estás". Depois, é o nada absoluto.
O que não quer dizer que não receba a morte quase com alegria. Aquilo de que tenho horror não é da morte, é da velhice. A velhice é que não suporto.
P. - Porquê?
R. - Porque a velhice é uma espécie de condescendência da vida. Chega-se a um termo, que é aquele em que eu estou, em que já não há nada a dar. Sente-se uma espécie de vácuo. Mas é ridículo tentar filosofar aos 105 anos de idade. A meu ver é um limite máximo da vida.
Pessoalmente sinto-me cansado, muito, muito mesmo. O que me resta são fragmentos das noções que tive quando tinha uma verdadeira vida. É um naufrágio.
P. - Não é essa uma atitude dos cínicos, que desdiziam o que diziam. Fez uma proclamação sobre as limitações da velhice. Mas a criança está ainda mais limitada, pois ignora por completo o que é a experiência da vida.
R. - Certo. A vida só o é quando se adquire a consciência. A infância é um prefácio.
O que vou dizer poderá não agradar ao Papa, mas é a minha opinião. A vida humana não começa com o feto, começa com a consciência. A partir daí é que adquirimos uma existência própria. E depois vem a morte.
P. - Aos 105 anos o sopé da montanha é demasiado grande para o homem que está a subi-la?
R. - Quantas vezes não disse já que penso que estou a subir a montanha por ela abaixo? É uma subida negativa. Vejo-me projectado numa imagem ilusória, que me mostra a subir, quando na realidade estou a descer.
A velhice é um naufrágio em que o náufrago se agarra a tudo para continuar a supor que vive.
P. - O filósofo Jacques Derrida, em entrevista recente [Le Monde 19/8/04], falava da velhice como uma "sobre-vivência". Mas acrescentava que os "sobreviventes" são os que estão com a vida, não os que se lhe opõem.
R. - Não suporto essa velhice que se agarra à vida. A parte de uma sobre-vida não é uma super-vida. Eu entendo que a partir do momento em que o homem não é senhor da sua autonomia já não vive.
P. - Não é o sujeito soberano de si mesmo que define a sua capacidade autónoma? Não é a consciência de si que impõe os limites à autonomia? Não é esse o significado de Sísifo?
R. - Quando se pretende ultrapassar o impossível, a autonomia do homem ... Estou cansado... vamos fazer uma pausa...
Referiu Sísifo, mas já não estou a subir a montanha; é o contrário. É uma projecção que sai da vida. Imagine que o meu amigo está a descer a montanha e tem aos seus pés um espelho enorme. Há uma visão da vida que sobe, mas o caminhante desce. O aspecto real desta visão é o da vida não autónoma. É uma amarração à vida.
P. - Mas esse é o mito do Prometeu agrilhoado, que sofre a punição de quem trouxe o fogo criativo.
R. - Ah, a vida do Prometeu é a maravilha da mitologia. Quando penso em Prometeu e me recordo que roubou ao Olimpo o fogo sagrado, para o dar ao homem, vejo nele o primeiro acto da liberdade humana. Um desafio que pagou caro, muito caro, com as vísceras a serem devoradas pelas aves de rapina. É o primeiro passo do homem para a liberdade. O primeiro acto de rebeldia, que é também a primeira afirmação de autonomia da vida humana, que não se limita a ser só vida, é também a razão da vida.
Aí intervém um grande filósofo que acabou definitivamente com a escolástica medieval, Descartes, que nos deixou um formulário para podermos deduzir a verdade. A dúvida metódica é o grande trunfo do ser racional. O racionalismo não é senão a dúvida que o homem se põe e levou a ciência a desvendar e a interpretar os segredos da natureza.
Mas eu desejo que meus amigos vivam muito, só que não envelheçam.
P. - Só vê a velhice como decrepitude? Não pode ser uma reflexão da experiência?
R. - Não é. É um naufrágio.
P. - Tem que o ser necessariamente? Almeida Garrett não escreveu as "Folhas Caídas", que é um poema lírico à vida outonal?
R. - Não me estou a referir ao que vivi durante uma longa vida. Estou a falar do estado presente da velhice. Quer dizer, de um momento a partir do qual a vida já não tem a intensidade que lhe permite ser independente. Compreende?
P. - Não muito bem. Sujeitos soberanos podemos ser, mas em absoluto nunca o somos, precisamos de ser solidários.
R. - Bom, se discutimos assim a autonomia, numa perspectiva de sociedade, há sempre um limite. Não vou ao ponto de admitir o homem como o deus de si próprio, como queriam os anarquistas do tempo do Kroptkine. O que eu digo é que a individualidade é uma coisa muito rica. Combati a vida inteira pela dignidade do homem, e nessa dignidade estão duas coisas fundamentais: a dignidade e a liberdade.
P. - E a solidariedade e a tolerância pelo outro?
R. - Isso são atributos secundários. A individualidade é a marca da humanidade, pois estou convencido que não há dois homens iguais. Há sempre qualquer coisa que os faz singulares. Essa é uma especificidade do ser racional, mesmo que possa haver outras espécies animais com mais ou menos aspectos de atitude racional. Mas a razão humana é particular, porque é ela que faz com que se seja uma individualidade única.
P. - A racionalidade é inata, mas o racionalismo é uma construção?
R. - O racionalismo é uma grande descoberta da emancipação humana, permite-nos saber que somos homens. Todas as teorias filosóficas admitem o ser, admitem o estar, admitem o dogma. Mas só a partir de Descartes [1596-1650] é que o racionalismo passou a ser um instrumento para construir a própria razão humana. Pela dúvida metódica, passo a passo, procede-se para o conhecimento de uma verdade que permite alcançar o conhecimento de outra verdade. Chega-se à verdade formulada, sem imposição de uma verdade revelada.
Não foi pouca coragem a dele para o dizer, pois nessa altura realizava-se o julgamento, terrível, de Galileu Galilei [1564-1642].
P. - Descartes receou ser perseguido?
R. - Ele sabia que os motivos que levaram a Inquisição a perseguir Galileu, ao negar a verdade sagrada que dizia ser o Sol que andava à volta da Terra, também o podiam atingir. Ele pensou muitas e muitas vezes sobre o que se estava a passar com o físico de Pisa e levou a sua prudência a demonstrar, de uma maneira claramente anti-racional, a existência da alma! Ele viu as barbas do vizinho a arder, julgado por cardeais do Santo Ofício... Galileu foi obrigado a desmentir-se [em 1633], a dizer que o Sol andava à volta da Terra, quando ele verificara que não era assim. Ficou sob vigilância censória, para "não cair nos mesmos erros". Até se diz, não sei se é verdade, que ele acatou a sentença, de que a Terra era o centro do Universo, mas lá para dentro ia murmurando, "et per si muove".
P. - Essa evocação de Galileu traz de novo a compreensão da velhice à conversa. A uma criança ser-lhe-ia impossível compreender o que dizia Galileu. Se a idade adulta é a da acção não é a meditação a da velhice?
R. - A velhice não permite nada! É, de facto, a ante-câmara da morte.
P. - Ou é sono, como pretendia Vitor Hugo?
R. - Sejamos sérios, o que pode fazer um homem que chega aos 105 anos?
P. - Não está antes a criticar uma certa publicidade que pratica a discriminação dos idosos, em nome da estética. Não é de todos os tempos o reconhecimento da sageza dos anciães?
R. - Cuidado, há duas etapas, a da velhice que vive e aquela que vegeta. O que se pode extrair de um homem com 105 anos? Recordações de um passado longínquo, algumas muito vagas, com umas poucas ideias.
P. - Não está a contradizer a visão ampla do horizonte que se tem do alto da montanha?
R. - Quando eu disse que ter 105 anos é subir pela montanha abaixo, queria dizer que isso não era mais do que a projecção de uma vida que já passou. A vida activa que faz o homem já se esgotou.
P. - Prometeu traz o fogo consigo, Sísifo transporta a carga do tempo. Há ainda o Fausto da eterna juventude, e o Pigamalião, marioneta social, que acaba por suplantar o original. Não é essa imagem fabricada, que associa juventude a corpo esbelto, que o apoquenta?
R. - É pior do que isso. É mesmo o confronto com a realidade. Quando olho para o espelho e vejo o estado físico em que me encontro, pergunto-me se sou eu mesmo, o que lutou uma vida inteira. Eu estou não a viver, mas a vegetar.
P. - Bom, enquanto houver consciência e pensamento, é difícil de aceitar essa visão depressiva. Não é penoso ver a sociedade que marginaliza o ancião, sonhar em clones, criar uma sociedade de Pigmaliões adestrados?
R. - Aí está uma palavra que é preciso ter em conta - sociedade. Esse é também um dos problemas da vida. O homem nasce bom, dizia Rousseau [1712-1778], o que o torna mau é a imersão na sociedade; daí que para preservarmos a nossa identidade individual, a sociedade tenha que passar um "contrato social" entre os seus membros.
Mas uma sociedade que precisa de um "contrato social" para se justificar é um absurdo. Nesse sentido, está contra a razão. Desde tempos imemoriais que o homem vive em sociedade, pelo menos desde o tempo em que Prometeu lhe comunicou o segredo do fogo. Com a agricultura fixou-se e deixou o estado selvagem. A partir daí teve que sujeitar-se a hábitos, costumes, a leis que ele próprio fez. Data daí a alienação do homem. Ele criou determinadas noções, às quais se sujeitou, e que depois acabaram por aliená-lo, moldá-lo numa outra natureza...
P. - Virou Pigmalião...
R. - ...por exemplo, a noção de deus é aqui em Portugal maioritariamente católica. Mas a história da construção deste ser transcendental, que na origem parece ser uma atitude irracional, é própria do homem, da sua razão humana. Foi uma maneira de interpretar a natureza. Os fenómenos que a ciência não sabia explicar foram atribuídos a uma força superior, o que, independentemente da validade da atribuição, é uma explicação. Daí que para se explicar a si mesmo, tenha criado um deus à sua imagem e semelhança.
P. - E assim se foi alienando. O que nos leva à oposição entre Fausto e Pigmalião. Gostava de ser Fausto?
R. - Pois é. Mas isso é impossível, por isso é que digo que a única razoabilidade da vida é esta - encaminhar-se para o fim. A vida não termina com a morte física, esvai-se antes disso. Falou em Fausto, pois bem, o grande drama da alienação humana é esse, depois de ter inventado toda uma série de regras, sujeita-se aquilo que criou.
P. - A morte e a solidão são sinónimos? A ausência dos entes queridos traz a solidão?
R. - Não é a solidão, é a confusão. Quando estou com amigos passo relativamente bem, mas sozinho a minha cabeça parece um vulcão que se esvazia em cada explosão.
Pessoalmente este foi um ano muito mau para mim. Morreu a minha mulher, tive dissabores pessoais, morreu um grande amigo meu, José Augusto Seabra, que teve um funeral incrível, com missa de corpo presente. Ele foi um grande lutador pela liberdade, contra um regime infame que durou 47 anos. A seguir à revolução democrática, numa lista que eu organizei, ele foi um dos deputados à Constituinte, aquele que lá fez talvez o mais belo discurso. Foi ministro e embaixador. Teve uma carreira académica notável... Teve um funeral que foi uma atitude de esquecimento. É uma injustiça.
O GRITO
Domingo, 05 de Setembro de 2004
José Eduardo Agualusa
O que significa ter? As crianças começam muito cedo a dizer - "Dá!", e, uns meses mais tarde, "isso é meu". Hoje em dia há até muitas que aprendem primeiro a dizer "Dá!", e só depois Mamã e Papá. A seguir formam as primeiras frases: "Dá Mamã!". "Dá Papá!".
Vi recentemente uma reportagem sobre um americano que enriqueceu a vender terrenos na Lua. Largos milhares de pessoas aceitaram pagar uns tantos dólares, não muitos, é certo, para a seguir poderem dizer, apontando a lua, nas noites de lua cheia: "Tenho ali dois hectares". Ou, um outro, igualmente romântico mas mais afortunado: "O Mar da Tranquilidade, sabes?, onde poisou a Apolo 11 em 1969 - pois olha, é todo meu". Uma vasta planície de crateras e poeira a trezentos e oitenta e cinco mil quilómetros de distância.
Suspeita-se (leio nos jornais) que por detrás do recente roubo d' "O Grito", de Edvard Munch, esteja um próspero coleccionador norueguês, actualmente radicado no Sul de Espanha, que fez fortuna traficando álcool e cocaína. Parece-me isto ainda mais estranho - alguém gastar uma fortuna, arriscando ao mesmo tempo a liberdade, apenas para poder contemplar sozinho, e em segredo, uma tela famosa - do que comprar um terreno na Lua. Quem compra um terreno na lua crê que é seu algo que continua a ser de todos, e, na verdade, não pertence a ninguém. Quem quer que aceite comprar a versão roubada d' "O Grito" (conhecem-se quatro) crê que é seu algo que, todavia, continua a ser de todos, pois toda a gente conhece o quadro a partir dos milhões de cópias impressas que circulam pelo mundo, e nem sequer o pode exibir.
Consigo compreender um pouco melhor os coleccionadores cujo prazer consiste não tanto em possuir um qualquer objecto ou obra de arte, mas, sobretudo, em partilhá-lo com outros. Visitei, em São Paulo, a biblioteca de José Mindlin, um homem encantador, talvez o bibliófilo mais experiente e bem sucedido do mundo lusófono, e não pude deixar de experimentar um certo alvoroço quando ele me colocou entre as mãos um exemplar da primeira edição d' "Os Lusíadas", de 1572 (ele tem dois). Não o trocaria, porém, pela edição mais barata do "Livro do Desassossego". Acho muito bem que se valorize, até que se venere, aquele velho exemplar d' "Os Lusíadas". Trata-se, sem dúvida, de um objecto antigo e respeitável. Ainda assim prefiro lê-lo a venerá-lo. Surpreenderam-me mais os manuscritos que José Mindlin guarda na sua biblioteca. Esses, sim, são únicos, e, além do mais, a caligrafia preciosa e, em alguns casos, também as ilustrações, fazem deles legítimas obras de arte. Neles não é a palavra que brilha (a palavra pode brilhar, com idêntico esplendor, sobre o papel vulgar ou sobre o ouro); é o desenho e as cores.
Quanto a mim, se algum dia, graças a um qualquer golpe da sorte, viesse a dispor de meios suficientes para tal, preferia contratar um bom falsificador, para que me copiasse as minhas telas preferidas. Não vejo muita diferença, em termos de conteúdo, entre uma edição actual, barata, d' "Os Lusíadas", e aquelas que José Mindlin me mostrou; da mesma forma também não há diferença sensível entre uma boa cópia d' "O Grito", e os gritos originais.
Em 1911 um carpinteiro do Louvre, o italiano Vincenzo Peruggia, conseguiu roubar a Mona Lisa a mando de um presumível milionário. Este, todavia, nunca apareceu para a reclamar. A única coisa que pretendia era que o alarme fosse dado de forma a poder vender uma série de cópias, quase perfeitas, da famosa tela a coleccionadores (realmente) milionários. Peruggia, coitado, devolveu a obra, com a condição desta ser repatriada para Itália - um gesto nobre, mas inútil. Foi preso e a Mona Lisa continuou no Louvre.
A verdade é que eu preferia roubar, por exemplo, a Marisa Monte a roubar a Mona Lisa. Roubaria a Marisa Monte, a Lura, ou a Adriana Calcanhoto, ou as três, dependendo do custo da operação, para que cantassem só para mim, todos os dias, as vezes que eu quisesse, as minhas canções preferidas. Não tendo dinheiro para tal, compro os discos. Mas, é claro, um disco não se compara com um concerto ao vivo. Nem sempre as cópias, mesmo excelentes, conseguem parecer-se com o original.
José Eduardo Agualusa
O que significa ter? As crianças começam muito cedo a dizer - "Dá!", e, uns meses mais tarde, "isso é meu". Hoje em dia há até muitas que aprendem primeiro a dizer "Dá!", e só depois Mamã e Papá. A seguir formam as primeiras frases: "Dá Mamã!". "Dá Papá!".
Vi recentemente uma reportagem sobre um americano que enriqueceu a vender terrenos na Lua. Largos milhares de pessoas aceitaram pagar uns tantos dólares, não muitos, é certo, para a seguir poderem dizer, apontando a lua, nas noites de lua cheia: "Tenho ali dois hectares". Ou, um outro, igualmente romântico mas mais afortunado: "O Mar da Tranquilidade, sabes?, onde poisou a Apolo 11 em 1969 - pois olha, é todo meu". Uma vasta planície de crateras e poeira a trezentos e oitenta e cinco mil quilómetros de distância.
Suspeita-se (leio nos jornais) que por detrás do recente roubo d' "O Grito", de Edvard Munch, esteja um próspero coleccionador norueguês, actualmente radicado no Sul de Espanha, que fez fortuna traficando álcool e cocaína. Parece-me isto ainda mais estranho - alguém gastar uma fortuna, arriscando ao mesmo tempo a liberdade, apenas para poder contemplar sozinho, e em segredo, uma tela famosa - do que comprar um terreno na Lua. Quem compra um terreno na lua crê que é seu algo que continua a ser de todos, e, na verdade, não pertence a ninguém. Quem quer que aceite comprar a versão roubada d' "O Grito" (conhecem-se quatro) crê que é seu algo que, todavia, continua a ser de todos, pois toda a gente conhece o quadro a partir dos milhões de cópias impressas que circulam pelo mundo, e nem sequer o pode exibir.
Consigo compreender um pouco melhor os coleccionadores cujo prazer consiste não tanto em possuir um qualquer objecto ou obra de arte, mas, sobretudo, em partilhá-lo com outros. Visitei, em São Paulo, a biblioteca de José Mindlin, um homem encantador, talvez o bibliófilo mais experiente e bem sucedido do mundo lusófono, e não pude deixar de experimentar um certo alvoroço quando ele me colocou entre as mãos um exemplar da primeira edição d' "Os Lusíadas", de 1572 (ele tem dois). Não o trocaria, porém, pela edição mais barata do "Livro do Desassossego". Acho muito bem que se valorize, até que se venere, aquele velho exemplar d' "Os Lusíadas". Trata-se, sem dúvida, de um objecto antigo e respeitável. Ainda assim prefiro lê-lo a venerá-lo. Surpreenderam-me mais os manuscritos que José Mindlin guarda na sua biblioteca. Esses, sim, são únicos, e, além do mais, a caligrafia preciosa e, em alguns casos, também as ilustrações, fazem deles legítimas obras de arte. Neles não é a palavra que brilha (a palavra pode brilhar, com idêntico esplendor, sobre o papel vulgar ou sobre o ouro); é o desenho e as cores.
Quanto a mim, se algum dia, graças a um qualquer golpe da sorte, viesse a dispor de meios suficientes para tal, preferia contratar um bom falsificador, para que me copiasse as minhas telas preferidas. Não vejo muita diferença, em termos de conteúdo, entre uma edição actual, barata, d' "Os Lusíadas", e aquelas que José Mindlin me mostrou; da mesma forma também não há diferença sensível entre uma boa cópia d' "O Grito", e os gritos originais.
Em 1911 um carpinteiro do Louvre, o italiano Vincenzo Peruggia, conseguiu roubar a Mona Lisa a mando de um presumível milionário. Este, todavia, nunca apareceu para a reclamar. A única coisa que pretendia era que o alarme fosse dado de forma a poder vender uma série de cópias, quase perfeitas, da famosa tela a coleccionadores (realmente) milionários. Peruggia, coitado, devolveu a obra, com a condição desta ser repatriada para Itália - um gesto nobre, mas inútil. Foi preso e a Mona Lisa continuou no Louvre.
A verdade é que eu preferia roubar, por exemplo, a Marisa Monte a roubar a Mona Lisa. Roubaria a Marisa Monte, a Lura, ou a Adriana Calcanhoto, ou as três, dependendo do custo da operação, para que cantassem só para mim, todos os dias, as vezes que eu quisesse, as minhas canções preferidas. Não tendo dinheiro para tal, compro os discos. Mas, é claro, um disco não se compara com um concerto ao vivo. Nem sempre as cópias, mesmo excelentes, conseguem parecer-se com o original.
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