O Islão e o Terror
Por MIGUEL SOUSA TAVARES
Sábado, 11 de Setembro de 2004
Finalmente, alguém no mundo islâmico pôs a mão na consciência e ousou dizer alto a terrível verdade: "Todos os terroristas do mundo são muçulmanos." O autor desta frase, tão verdadeira quanto cruel, não foi (ainda) algum imã, algum dirigente religioso islâmico, mas sim um "civil": o jornalista Abdul-Rahman al-Rashed, director da televisão Al-Arabya e colunista do jornal "Ashark al-Awsat". Seguramente que al-Rashed irá passar por traidor entre os círculos religiosos e grande parte do mundo árabe e muçulmano, tanto mais que à constatação de facto ele acrescenta uma justificação que contém em si mesma a condenação moral da sociedade islâmica de hoje: "Os nossos filhos terroristas são o produto final da nossa cultura corrompida."
Manda a verdade que se diga que nem todos os terroristas, rigorosamente, são muçulmanos: Israel pratica, com a justificação da autodefesa, uma forma de terrorismo que, nem por ser aprovado e executado ao nível do Estado, deixa de o ser também. O terrorismo político, social e securitário de Israel constitui ainda hoje, aliás, a fonte de legitimação do terrorismo muçulmano aos olhos de uma crescente comunidade de crentes do islão. Reconhecesse Israel, sem subterfúgios de qualquer espécie, o direito dos palestinianos de viverem numa pátria livre e viável, a par do seu próprio direito de viver em fronteiras seguras, e grande parte das justificações políticas ou teológicas do terrorismo islâmico cairia por terra, no mesmo dia.
À parte, porém, a excepção importante de Israel, o que os factos mostram é que desde o assalto de um comando palestiniano à aldeia olímpica israelita, nos Jogos de Munique - uma espécie de "acto fundador" do terrorismo moderno - até ao massacre de Beslan, sábado passado, toda esta desumana barbárie que nos vamos tragicamente habituando a viver tem sempre, na sua génese e na sua autoria, a assinatura de gente que se reclama dos ensinamentos do Corão e das "fatwas" do clero islâmico. Vai um pequeno passo daí até podermos concluir que o mal está no islão, naquilo em que ele se transformou e naquilo que, acima de tudo, ele representa hoje em dia: uma escola de intolerância, ressentimento e ódio, devotada ao ressurgimento de um espírito de cruzada contra os "infiéis", que remete a humanidade para um mundo medieval e obscurantista, onde o serviço de Deus, fosse Ele cristão, muçulmano ou hindu, justificava toda a espécie de crimes. Em nome de Deus, o catolicismo promoveu ou legitimou, sucessivamente, as Cruzadas, a Inquisição, a exterminação dos índios das Américas, a perseguição e a intolerância dos missionários da Índia contra os "gentios" e o tráfico de escravos de África. E, no fim, não foi nenhum movimento redentor, nenhum acto de contrição nascido dentro da própria Igreja Católica, que veio deslegitimar a barbárie e o arbítrio em nome de Deus: foram as ideias da Revolução Francesa, a proclamação dos Direitos do Homem, os movimentos civilistas que finalmente se impuseram no Ocidente às sociedades civilizadas.
É justamente o que não se vê existir hoje no mundo islâmico e, em particular, no mundo árabe: um movimento civilista, o triunfo do homem, da ciência e do progresso sobre o fanatismo religioso. O que outrora fez o esplendor da civilização árabe parece ter sucumbido para sempre na trágica rendição de Granada, como se em 1482 não tivesse caído apenas uma cidade, mas verdadeiramente toda uma civilização. Hoje, sentados sobre os lençóis de petróleo de que depende a sustentação económica do Ocidente, tanto parece bastar aos árabes para justificar a sua superioridade. Mas, em todos os domínios que caracterizam as sociedades evoluídas do nosso tempo - a saúde, o sistema de ensino, o domínio das tecnologias modernas, o sistema de segurança e protecção social, a produtividade do trabalho, a tributação fiscal e o exercício inteiro da cidadania -, não há uma só contribuição que não tenha origem no Ocidente. Quer sigam ou não à risca os mandamentos da sua religião, sempre e sempre invocada, quer respeitem ou desprezem os valores do Ocidente, todos os dias há multidões de cidadãos de países muçulmanos que tentam atravessar o estreito de Gibraltar para Espanha, que tentam emigrar da Argélia para França, da Turquia para a Alemanha, do Paquistão para Inglaterra ou da Palestina para os Estados Unidos. Não vão apenas à procura de trabalho e de condições materiais de vida dignas - que é uma vergonha não encontrarem nos seus países de origem -, mas vão também à procura de tudo o que lhes pode oferecer uma sociedade livre e laica. E é por isso que não existe o movimento contrário: que, mesmo os ocidentais fascinados com o mundo árabe, como eu próprio, não estão dispostos a trocar o modo de vida em que se funda a sua cultura e os seus valores por um outro mundo onde quem manda em nós, na nossa casa, nos nossos hábitos, na nossa família e no nosso país são uns guardiões de um texto dito sagrado, escrito por um Profeta há mais de mil e quinhentos anos, e destinado a povos nómadas do deserto e a sociedades que ou já não existem ou há muito deveriam ter deixado de existir.
É preciso que não haja confusão nem pudor algum sobre isto: nós temos razão e eles não. O quinto mandamento dado a Moisés, "não matarás!", é o que distingue os homens dos assassinos. A liberdade individual é infinitamente mais justa e própria da condição humana do que o cumprimento das "verdades" reveladas no código penal medieval que é o Corão. O Estado laico é o único que assegura a liberdade e a dignidade da pessoa, face ao arbítrio e ao obscurantismo do Estado religioso. Deus é um assunto e uma vontade individual de cada um, inalienável a favor do Estado, da escola ou de intermediários autonomeados.
Na última edição da PÚBLICA vem uma entrevista feita por Paulo Moura ao marroquino-francês Thami Bréze, presidente da UOIF, a maior organização muçulmana actuante em França. O objectivo que ele diz pretender é conciliar os valores do islão com os da República Francesa. Ora, isto é, em si mesmo, impossível, contraditório e deve levar-nos a desconfiar e a ficar imediatamente alerta: trata-se de um cavalo de Tróia. Não há convivência possível entre os ensinamentos do Corão e os valores civilistas de 1789. Repare-se, por exemplo, como ele coloca a questão do uso do véu islâmico: as raparigas muçulmanas têm a "liberdade" de o não usar, mas, se quiserem seguir a "verdade" que lhes é ensinada nas escolas corânicas e dentro de casa, têm de o usar - ou seja, resta-lhes a liberdade de poderem trair, porque a verdade, essa, há-de permanecer imutável para sempre.
Mas Thami Bréze também sabe que o Corão é um texto datado, cuja leitura literal não faz hoje o mais pequeno sentido, mesmo para os próprios crentes. Isso torna-o, reconhece ele, um "texto muito perigoso", que requer interpretação e regras, "não se faz como se quer". Logo, "o problema é quem faz a interpretação, quem é a autoridade". Justamente: eis a fragilidade do islão. Não subsiste sem autoridade religiosa, sem clero, sem intérpretes autolegitimados da palavra divina. Só que, ao contrário do catolicismo, não existe uma autoridade suprema que fixe a melhor doutrina, não há concílios, não há encíclicas: cada escola interpreta o Corão como entende ou como melhor lhe serve para outros fins. No Irão, o "ayatollah" Khomeini interpretou-o de tal forma que, de um dia para o outro, o país regrediu cinco séculos; no Afeganistão dos taliban, o extremo chegou ao ponto de as mulheres serem proibidas de estudar, trabalhar, sair à rua e até serem atendidas nos hospitais; na Arábia Saudita, as escolas corânicas formaram os ideólogos da Al-Qaeda, e em Marrocos, na Argélia, no Egipto ou no Sudão, formam hostes de assassinos, para quem matar os próprios vizinhos e irmãos é uma forma suprema de cumprir os mandamentos do Profeta. Qual é então, afinal, a verdade única revelada pelo Corão?
Ideólogos e dirigentes como Thami Bréze, que vivem no Ocidente e beneficiam da sua cidadania, não podem, não devem acreditar e, honestamente, também não julgo que acreditem nestas visões extremas do texto sagrado. Mas não só a sua condenação do terrorismo islâmico nunca é linear ou aparece sempre mitigada - como se ele não fosse o Mal absoluto do nosso tempo - mas também a sua visão da república e da liberdade é selectiva. Em França, Thami Bréze é a favor da laicidade do Estado, "porque ela nos protege"; mas, se vivesse em Marrocos, seria seguramente contra. Em França, é a favor das liberdades republicanas de que os muçulmanos podem tirar benefício - a liberdade de expressão, de culto, de voto, de greve, de recurso judicial independente, do ensino laico nas escolas públicas - mas já não seria a favor num Estado islâmico e, mesmo em França, consente (porque não pode impedir), mas não legitima, o uso de outras liberdades como o de as raparigas não irem para a escola sem o "chador".
Porém, ao contrário do que ele defende, nós sabemos que a liberdade não é compartimentável nem fragmentária. Também Álvaro Cunhal jurava sempre defender "as mais amplas liberdades" - como se houvesse liberdade relativa. A liberdade ou é absoluta e idêntica em todas as latitudes ou não é um valor em si mesma, mas apenas um disfarce - e fatalmente provisório. É por isso que, nesta questão da proibição do uso do véu islâmico em França, e contra muitas opiniões bem argumentadas e que dão que pensar, o instinto sempre me disse que a França tem razão. O Estado de direito, o Estado republicano, deve consentir a todos o exercício do seu culto religioso, mas não deve consentir nem a ostentação de símbolos que pretendem invocar uma diferença ou superioridade em razão da religião, nem práticas religiosas que ofendem os princípios em que se funda a democracia e a república. Do mesmo modo que eu, quando vou a um país muçulmano, respeito os valores, os símbolos e as práticas aí existentes e abstenho-me de exibir ou fazer uso dos meus, de modo a poder ofendê-los.
Na sua génese, o terrorismo é uma batalha ideológica, que o Ocidente tem de travar e de vencer.
12 de setembro de 2004
11 de setembro de 2004
O EPC que me faltava na colecção de Verão
105 Anos
Por EDUARDO PRADO COELHO
Segunda-feira, 06 de Setembro de 2004
incrível: Emídio Guerreiro faz hoje 105 anos. António Melo entrevistou-o para a última "Pública". E esta entrevista emociona-nos pelo percurso de uma vida e ao mesmo tempo constitui a homenagem merecida a um grande combatente pela liberdade (a sua biografia é exemplar). E é também um espantoso documento sobre a vida e a velhice. O que impressiona nas palavras de Emídio Guerreiro é a extrema lucidez do seu discurso, a capacidade de desenvolver ainda raciocínios complexos e originais. Por exemplo, quando na sequência de uma interpelação do entrevistador, Emídio Guerreiro faz a distinção extremamente pertinente entre a racionalidade inata e a construção do racionalismo: "O racionalismo é uma grande descoberta da emancipação humana, permite-nos saber que somos homens. Todas as teorias filosóficas admitem o ser, admitem o estar, admitem o dogma. Mas só a partir de Descartes [1596-1650] é que o racionalismo passou a ser um instrumento para construir a própria razão humana. Pela dúvida metódica, passa a passo, procede-se para o conhecimento de uma verdade que permite alcançar o conhecimento de outra verdade. Chega-se a uma verdade formulada sem imposição de uma verdade revelada."
Emídio Guerreiro traz consigo todos os grandes temas do humanismo progressista, mesmo naquilo que tem hoje para nós uma dimensão algo datada. Mas os grandes nomes estão lá: de Descartes e da instituição do espírito crítico até ao mito do Prometeu agrilhoado como narrativa imorredora da liberdade, Emídio Guerreiro, homem de formação científica, vai buscar todos os temas fundamentais e alegorias nucleares para traçar o grande paradigma do progresso: afirmação do pensamento não tutelado e da tolerância, combate da luz contra as trevas, dignidade vertical do ser humano.
Mas é aqui que surge a velhice e surge uma imagem admirável: Sísifo já não é Sísifo, é alguém que desce ao subir. Toda a entrevista é um belíssimo combate entre um António Melo que se pretende optimista e um Emídio Guerreiro que acha que a velhice é pior do que a morte, porque é o declínio de todos as grandes razões de ser do homem livre. A alegoria ganha aqui uma outra dimensão: "Referiu Sísifo, mas já não estou a subir a montanha; é o contrário. É uma projecção que sai da vida. Imagine que o meu amigo está a descer a montanha e tem aos seus pés um espelho enorme. Há uma visão da vida que sobe, mas o caminhante desde. O aspecto real desta visão é o da vida não autónoma. É uma amarração à vida.".
Admirável confronto. De um lado a vida e a morte como formas de vida. Do outro, uma realidade terceira, lateral, insuportável, inaceitável. Emídio Guerreiro afirma: "eu desejo que os meus amigos vivam muito, só que não envelheçam". E quando António Melo pergunta: "Só vê a velhice como decrepitude? Não pode ser uma reflexão da experiência?", Emídio Guerreiro responde com um golpe impiedoso da razão: "Não é. É um naufrágio". Mas nós, que vemos com espanto este homem que atravessa os séculos, só podemos dizer a admiração que ele nos merece.
Por EDUARDO PRADO COELHO
Segunda-feira, 06 de Setembro de 2004
incrível: Emídio Guerreiro faz hoje 105 anos. António Melo entrevistou-o para a última "Pública". E esta entrevista emociona-nos pelo percurso de uma vida e ao mesmo tempo constitui a homenagem merecida a um grande combatente pela liberdade (a sua biografia é exemplar). E é também um espantoso documento sobre a vida e a velhice. O que impressiona nas palavras de Emídio Guerreiro é a extrema lucidez do seu discurso, a capacidade de desenvolver ainda raciocínios complexos e originais. Por exemplo, quando na sequência de uma interpelação do entrevistador, Emídio Guerreiro faz a distinção extremamente pertinente entre a racionalidade inata e a construção do racionalismo: "O racionalismo é uma grande descoberta da emancipação humana, permite-nos saber que somos homens. Todas as teorias filosóficas admitem o ser, admitem o estar, admitem o dogma. Mas só a partir de Descartes [1596-1650] é que o racionalismo passou a ser um instrumento para construir a própria razão humana. Pela dúvida metódica, passa a passo, procede-se para o conhecimento de uma verdade que permite alcançar o conhecimento de outra verdade. Chega-se a uma verdade formulada sem imposição de uma verdade revelada."
Emídio Guerreiro traz consigo todos os grandes temas do humanismo progressista, mesmo naquilo que tem hoje para nós uma dimensão algo datada. Mas os grandes nomes estão lá: de Descartes e da instituição do espírito crítico até ao mito do Prometeu agrilhoado como narrativa imorredora da liberdade, Emídio Guerreiro, homem de formação científica, vai buscar todos os temas fundamentais e alegorias nucleares para traçar o grande paradigma do progresso: afirmação do pensamento não tutelado e da tolerância, combate da luz contra as trevas, dignidade vertical do ser humano.
Mas é aqui que surge a velhice e surge uma imagem admirável: Sísifo já não é Sísifo, é alguém que desce ao subir. Toda a entrevista é um belíssimo combate entre um António Melo que se pretende optimista e um Emídio Guerreiro que acha que a velhice é pior do que a morte, porque é o declínio de todos as grandes razões de ser do homem livre. A alegoria ganha aqui uma outra dimensão: "Referiu Sísifo, mas já não estou a subir a montanha; é o contrário. É uma projecção que sai da vida. Imagine que o meu amigo está a descer a montanha e tem aos seus pés um espelho enorme. Há uma visão da vida que sobe, mas o caminhante desde. O aspecto real desta visão é o da vida não autónoma. É uma amarração à vida.".
Admirável confronto. De um lado a vida e a morte como formas de vida. Do outro, uma realidade terceira, lateral, insuportável, inaceitável. Emídio Guerreiro afirma: "eu desejo que os meus amigos vivam muito, só que não envelheçam". E quando António Melo pergunta: "Só vê a velhice como decrepitude? Não pode ser uma reflexão da experiência?", Emídio Guerreiro responde com um golpe impiedoso da razão: "Não é. É um naufrágio". Mas nós, que vemos com espanto este homem que atravessa os séculos, só podemos dizer a admiração que ele nos merece.
10 de setembro de 2004
Altino do Tojal, autor de "Os Putos"
Altino do Tojal, autor de "Os Putos", e "o que jamais deu uma entrevista"
Altino do Tojal nasceu em 26 de Julho de 1939, em Braga. Criado por sua tia Emília, professora primária, que o ensinou a ler aos cinco anos, teve também o seu avô, professor aposentado, um importante esteio familiar. Ficou só muito novo, em circunstâncias difíceis. Seguiu-se um percurso de autodidacta, de alguém que quis ser, única e simplesmente, escritor, embora, «por razões de pão mais vinho», viesse a trabalhar em vários jornais. Numa obra que contempla contos, romances e novelas, é fundamentalmente conhecido pelo livro Os Putos que já vai na 28ª edição e foi adaptado ao teatro, à televisão e à banda desenhada. A primeira versão de Os Putos surgiu em 1964, ainda com o título Sardinhas e Lua. A partir daí sucederam-se as edições e o livro não tem parado de engrossar. A mais recente edição, abrangendo 145 histórias, acaba de ser publicada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, num alentado volume de quase 700 páginas. Esta edição de Os Putos: contos da luz e das sombras assinala, sem dúvida, a sua entrada no Cânone. «Bastaria este livro para que o seu autor não pudesse ser esquecido», como escreveu José Blanc de Portugal.
Altino do Tojal, o contador de histórias, «aquele que nunca aparece na televisão, o solitário, o bicho do mato, o que jamais deu uma entrevista», no seu dizer autobiográfico, acedeu, relutante, a vir a público...
A Página (Luís Souta) - Sabe-se pouco da sua bibliografia...
Altino do Tojal - Pouco mais que nada, de facto, o que nunca me preocupou muito. Senti que se adensava o silêncio à minha volta, mas depressa me conformei. Se a minha obra tivesse a importância que eu lhe atribuía, o tempo se encarregaria de lhe prestar justiça. E como já transcorreram 37 anos após a primeira edição de Os Putos e as reedições continuam a suceder-se...
- Fala-me da sua infância.
- Dois membros da minha família marcaram-me profundamente: a minha tia Emília e o meu avô. A minha tia Emília levava-me consigo para as aldeolas onde dava aulas: S. Pedro de Valbom, Valdezende... Tempo ainda de iluminação a petróleo, de carros de bois a lamuriar por caminhos primitivos... Acompanhei minha tia nos meus cinco, seis anos. Não tinha ainda idade para andar na escola, mas ela exigia de mim o mesmo que exigia aos alunos.
- Teve uma excelente "pré-primária"...
- Assim o creio. Era uma aventura, um deslumbramento. Ir às segundas-feiras de Braga para essas aldeias era para mim, criança ávida de descoberta, verdadeira magia, magia pura. Mal nos apeávamos da camioneta, lá estavam os garotos à nossa espera. As miúdas ofereciam à senhora professora ramos de flores silvestres e os rapazitos exibiam-se em gritaria heróica, descalços, limpando o monco (risos) à manga do casaco e deixando nela uma espécie de rasto de lesma...
- Uma festa, a chegada da professora?
- Sim, era uma festa. Nós por aqueles caminhitos rumo à escola, à velha escola, minha tia à frente com aquelas flores todas como uma santa num andor. Parecia uma galinha seguida pelos pintos. (Risos). As mocinhas muito compenetradas e sorridentes, os rapazitos aos pinotes, com berros de assustar índios...
- Você conta, com graça, o percurso das professoras...
- Era sempre a mesma coisa. Viajavam numa camioneta incrível, focinhuda, que largava fumo e poeirada e nas subidas gemia que metia dó. De aldeia em aldeia, a camioneta ia parando e em cada paragem apeava-se uma professora, com o respectivo bando à espera. Até que chegava a nossa vez. Tagarelando na camioneta, as professores comentavam animadamente o filme romântico visto na véspera, na cidade, falavam de namoricos e falavam também, de rosto sombrio, das temidas visitas dos inspectores escolares (risos). Era assim, falavam de cinema, de amores, de moda, dos tais inspectores escolares...
- Eram pessoas que durante a semana estavam nas aldeias onde leccionavam e só ao fim-de-semana é que regressavam a Braga?
- Sim. E como se conheciam, acontecia irem às vezes juntas ao cinema. Também eu ia ao cinema com a minha tia, já que por esses tempos não havia classificações etárias. Aos nove anos, por exemplo, vi o Hamlet, do Shakespeare, numa admirável adaptação cinematográfica de Lawrence Olivier. Sabe que me impressionou muito esse filme? Foi o meu primeiro contacto com a morte, através da conhecida cena dos coveiros. Bom, acho que não foi o primeiro; o primeiro acontecera pouco antes, e mais impressivo, quando assisti à exumação dos restos mortais de minha avó. Talvez por isso, a Morte paira sobre muita da minha produção literária.
- Hoje há a tendência para afastar as crianças da imagem da morte. Acha isso negativo?
- No meu caso foi uma fonte de inspiração.
- Fale sobre a vida na aldeia, com sua tia.
- À noite, rezávamos o terço. Minha tinha era muito religiosa. Orações, orações... aquilo nunca mais acabava. Depois do rosário propriamente dito, havia que rezar pelas almas dos parentes já falecidos, uma legião interminável, e depois em prol das almas mais abandonadas. Dava-me o sono, mas eu sabia que a seguir vinha o encantamento, porque minha tia contava-me histórias antes de adormecermos. Contava-as como só ela sabia contar. Tinha um dom para contar histórias como nunca vi em mais ninguém.
- Tem ideia se ela usava esse dom na escola?
- Não, na escola não contava histórias e era, digamos, uma professora severa, competente mas severa.
- Você era o destinatário privilegiado do dom que ela tinha.
- Verdade. À noite, depois das aulas, minha tia contava-me histórias como só ela sabia contar, com um poder sugestivo quase mágico. Tomemos como exemplo A Branca de Neve e os Sete Anões, quando a princesa é abandonada na floresta. Minha tia "colocava-me" no local, falava de medos, de ameaças, de rumores sinistros. Usando onomatopeias, introduzia em mim o bracejar lamentoso do arvoredo ao luar, à hora em que pia o mocho. Tinha uma capacidade invulgar para me pôr no local da acção, com todos os sentidos alerta.
- Foi sua professora durante quanto tempo?
- Oficialmente nunca o foi, pois como lhe disse, eu não tinha idade escolar quando a acompanhava à aldeia. Depois houve um conflito familiar e passei a viver com o meu avô, então professor reformado. Meu avô perdera-se de amores pela criada (risos), minhas tias disseram-lhe que era «uma afronta à memória da mamã» e o velho, indignado, saiu de casa levando-me consigo. Começava outro capítulo da minha vida. Meu avô era muito avarento, mas criatura singular. O elemento mais ilustre de uma dinastia de campónios. Um tio dele, que era padre, tinha-o posto a estudar, a trabalhar numa farmácia e a estudar. A verdade é que conseguiu chegar a mestre-escola, como se dizia naquele tempo.
- Nunca conta histórias do seu avô relacionadas com a escola e com a profissão dele...
- Não o acompanhei no activo, já entrara na reforma. Era um velhote muito avarento, como disse, mas com um agradável toque de loucura. Levava-me amiúde à Citânia de Briteiros e divagava horas esquecidas acerca do povo rude que ali vivera, dos costumes e das lendas. Meu avô foi de certo modo o responsável pelo meu interesse pela arqueologia, que mais tarde, já adulto, me levaria a visitar tudo quanto é ruína, no Egipto, na Grécia, por sítios desses.
- Daí aquele cruzeiro no Nilo, descrito no seu livro Ruínas e Gente, não é assim?
- Já antes disso eu tentara fazer essa viagem, bem antes, nos fins da adolescência e começos da adultez. Minha tia Emília morrera há muito tempo, de cancro, e o meu avô morrera também, de velhice. Vi-me só. Era novo, tinha a cabeça cheia de sonhos, começava a escrever. Não tinha onde cair morto, mas decidi ir ao Egipto. Findava os anos 50, era o tempo da grande emigração. Enfiei as mãos nos bolsos e atravessei a fronteira, por Lindoso, descontraído, a assobiar, sem passaporte, sem dinheiro, mas com a cabeça fervilhante de projectos literários. Propunha-me atravessar uma catrefada de países, trabalhando aqui e acolá (em quê, se eu não sabia fazer nada para além de escrever?), até chegar ao Egipto, onde faria umas escavações, desenterraria uns tesouros, para depois regressar cheio de fama...
- Era a continuação das histórias...
- De certo modo. Mas a minha aventura correu mal. Fui detido e devolveram-me à procedência, por etapas, com algemas nos pulsos. Entre as prisões espanholas que conheci avulta a de Valladolid. E avulta porquê? Porque o meu carcereiro achou que devia levantar-me a moral revelando que na cela pegada à minha tinha estado enclausurado Cristóvão Colombo.
- Más recordações...
- Muito pelo contrário. Recordações excelentes, óptimo material. Não se esqueça de que eu era um contador de histórias...
- Escrevia logo?
- Ia tomando notas.
- No seu livro A Homenagem, diz a certo passo: «Felizmente trago sempre esferográfica em tudo quanto é bolso».
- Está a ver?
- E depois da emigração fracassada?
- Regressei a Braga, onde o director da Biblioteca Pública, Dr. Egídio Guimarães, me contratou para fazer uns pequenos serviços, a troco de uma uma modestíssima quantia que só dava para me hospedar numa espelunca imunda, abaixo de qualquer classificação, frequentada por pobres diabos sem eira nem beira. Situação estranha mas extraordinariamente enriquecedora, pelo contraste, pelo jogo alternante de sombras e luz. Por um lado, a espelunca, com as suas misérias; por outro, a Biblioteca Pública, aquela catedral do saber, com milhares de livros à minha disposição. Dei sequência ao caminho aberto por minha tia Emília, cultivei-me ardentemente, como autodidacta que era.
- Com a escrita sempre presente...
- Sim, vivia exclusivamente para a literatura.
- Nunca pensou noutra coisa?
- Nunca, apenas em escrever. Nascera para escrever, nada mais interessava. Convivia na Biblioteca com pessoas cultas, entre quilómetros de calhamaços fascinantes, e depois havia o programa sórdido da espelunca, com a sombria malta da valeta, os tristes, os explorados, os revoltados, essa gente. Num lado, lampadários e conversa elevada; no outro, pragas e humilhação. Um escritor não poderia desejar melhor. Para mais, o director da Biblioteca apreciava deveras as coisas que eu escrevia e não descansou enquanto não as publiquei em livro. Estava bem mais impaciente que eu... Custa a crer, mas garanto que eu não tinha ansiedade nenhuma em publicar aquilo que seria Os Putos. Era capaz de estar dias e noites virado a uma só página. Mas enquanto não considerasse que ela estava em condições de ser apresentado ao Dr. Egídio Guimarães...
- Ele funcionava como crítico?
- Como um crítico consciencioso e benévolo. Tal como acontecera com a minha tia Emília e meu avô, a sua morte abriu em mim um doloroso vazio que ainda está por preencher. Era um intelectual de fino trato, com cavalheirismos de antanho, amigo discreto mas sólido, um espírito nobre, o embaixador ideal para interceder junto do Eterno pela mesquinha Humanidade. Também intercedia por mim junto das personagens "de peso" que o visitavam na Biblioteca, mostrando-lhes o meu livro Sardinhas e Lua acabado de publicar e exagerando-lhe talvez os méritos. Foi em boa parte graças a ele que estabeleci contactos com o Jornal de Notícias, do Porto, e comecei a experiência jornalística, já que a Literatura, como disse Somerset Maugham, poderá ser uma vistosa bengala, mas não é lá grande muleta. Trabalhei sete anos na redacção do Jornal de Notícias e ao fim desse tempo despediram-me.
- Porquê?
- Porque a já extinta editora Prelo acabara de publicar Os Putos, título definitivo do Sardinhas e Lua em edição bastante aumentada. Entre os novos contos havia dois, "O Campo de Judite" e "O Gancho", que desagradaram aos omnipotentes senhores do Jornal de Notícia. Despediram-me sem ao menos me ouvirem. Foi em Maio de 1973, estava-se a menos de um ano da Revolução dos Cravos...
- Mas Os Putos tiveram êxito.
- Um êxito que contribuiu para me abrir portas em Lisboa, as do velho jornal O Século.
- Também trabalhou nele muito tempo?
- Até o jornal fechar. Aí não foi despedimento (risos).
- Regressou então ao Porto?
- Não. Permaneci em Lisboa. Os Putos estavam a ter uma aceitação tremenda, as reedições sucediam-se e os editores, por esse tempo, portavam-se de forma razoavelmente satisfatória. Cheguei a acalentar o sonho de viver dos meus livros, de viver da Literatura. Ilusão, pura ilusão.
- Reatou a actividade jornalística?
- Sim, trabalhei mais dezassete anos no Comércio do Porto. Antes disso, porém, fiz umas viagens, uma delas a Macau, que me proporcionou material para outro volume de contos, as Histórias de Macau.
- No seu romance A Colina dos Espantalhos Sonhadores diz, às tantas: «O neo-realismo faz-me vómitos». E mais à frente: «Viva o realismo fantástico em vias de nascer entre nós!»
- Bem, eu punha os olhos num texto neo-realista, duro, cruel e mais nada, acabava invariavelmente por desviá-los. Se se der ao trabalho de pesquisar, verá que até nos meus contos mais graníticos há suavidades transfiguradoras, como as neblinas no cume das montanhas.
- Foi a magia da sua tia Emília que o salvou de cair no neo-realismo...
- Contribuiu para isso, não tenho dúvida.
- Nunca publicou poesia?
- Sou um prosador.
- Altino, gostava que falasse um pouco sobre a escola.
- Talvez fosse melhor você ler o último conto de Os Putos, na mais recente edição da "Casa da Moeda". Descreve a escola tal como a conheci em miúdo, aquela velha sala a cair de podre, com os seus cheiros, as suas vozes, as paredes forradas a mapas e por detrás da secretária da professora os retratos do marechal Carmona e de Oliveira Salazar, com Jesus cruxificado de permeio...
- Para além da sua tia Emília, há outras professoras na sua obra, como aquela Domicilia do romance Viagem a Ver o que Dá...
- Tomei como modelo uma professora mazinha que tive... (risos)
- A escola oficial que frequentou era na cidade de Braga?
- Comecei numa escola bracarense, que já não existe, da rua Santa Margarida, e acabei na escola da Sé. Nasci em Braga e vivi lá até aos 27 anos.
- Gostou do tempo em que frequentou a escola? É que nem tudo foi muito bonito, pela maneira como descreve certas situações...
- Se se refere aos castigos, vi dar muita pancada nas escolas, e eu próprio terei apanhado a minha reguadazita, mas a memória esfuma-se e não estou lá muito certo.
- Mas não acha que a escola antiga nos chega com uma imagem cheia de humanidade e de afecto, porque assim a descrevem os escritores-professores?
- A minha escola, especialmente na aldeia, a dos tempos pré-primários, a de minha tia Emília, era algo de mágico. Ir para lá era uma expedição mágica.
- Tem sido convidado, enquanto escritor, a falar nas escolas?
- Poucas vezes, e ainda bem. Gosto tanto de falar em público como de dar entrevistas (risos).
Entrevista conduzida por Luís Souta
Autor do Artigo
Altino Tojal
Escritor
Luís Souta
Instituto Politécnico de Setúbal
lsouta@ese.ips.pt
Jornal "a Página"
Nº 106
Ano 10 | Outubro 2001
Pag. 14
Altino do Tojal nasceu em 26 de Julho de 1939, em Braga. Criado por sua tia Emília, professora primária, que o ensinou a ler aos cinco anos, teve também o seu avô, professor aposentado, um importante esteio familiar. Ficou só muito novo, em circunstâncias difíceis. Seguiu-se um percurso de autodidacta, de alguém que quis ser, única e simplesmente, escritor, embora, «por razões de pão mais vinho», viesse a trabalhar em vários jornais. Numa obra que contempla contos, romances e novelas, é fundamentalmente conhecido pelo livro Os Putos que já vai na 28ª edição e foi adaptado ao teatro, à televisão e à banda desenhada. A primeira versão de Os Putos surgiu em 1964, ainda com o título Sardinhas e Lua. A partir daí sucederam-se as edições e o livro não tem parado de engrossar. A mais recente edição, abrangendo 145 histórias, acaba de ser publicada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, num alentado volume de quase 700 páginas. Esta edição de Os Putos: contos da luz e das sombras assinala, sem dúvida, a sua entrada no Cânone. «Bastaria este livro para que o seu autor não pudesse ser esquecido», como escreveu José Blanc de Portugal.
Altino do Tojal, o contador de histórias, «aquele que nunca aparece na televisão, o solitário, o bicho do mato, o que jamais deu uma entrevista», no seu dizer autobiográfico, acedeu, relutante, a vir a público...
A Página (Luís Souta) - Sabe-se pouco da sua bibliografia...
Altino do Tojal - Pouco mais que nada, de facto, o que nunca me preocupou muito. Senti que se adensava o silêncio à minha volta, mas depressa me conformei. Se a minha obra tivesse a importância que eu lhe atribuía, o tempo se encarregaria de lhe prestar justiça. E como já transcorreram 37 anos após a primeira edição de Os Putos e as reedições continuam a suceder-se...
- Fala-me da sua infância.
- Dois membros da minha família marcaram-me profundamente: a minha tia Emília e o meu avô. A minha tia Emília levava-me consigo para as aldeolas onde dava aulas: S. Pedro de Valbom, Valdezende... Tempo ainda de iluminação a petróleo, de carros de bois a lamuriar por caminhos primitivos... Acompanhei minha tia nos meus cinco, seis anos. Não tinha ainda idade para andar na escola, mas ela exigia de mim o mesmo que exigia aos alunos.
- Teve uma excelente "pré-primária"...
- Assim o creio. Era uma aventura, um deslumbramento. Ir às segundas-feiras de Braga para essas aldeias era para mim, criança ávida de descoberta, verdadeira magia, magia pura. Mal nos apeávamos da camioneta, lá estavam os garotos à nossa espera. As miúdas ofereciam à senhora professora ramos de flores silvestres e os rapazitos exibiam-se em gritaria heróica, descalços, limpando o monco (risos) à manga do casaco e deixando nela uma espécie de rasto de lesma...
- Uma festa, a chegada da professora?
- Sim, era uma festa. Nós por aqueles caminhitos rumo à escola, à velha escola, minha tia à frente com aquelas flores todas como uma santa num andor. Parecia uma galinha seguida pelos pintos. (Risos). As mocinhas muito compenetradas e sorridentes, os rapazitos aos pinotes, com berros de assustar índios...
- Você conta, com graça, o percurso das professoras...
- Era sempre a mesma coisa. Viajavam numa camioneta incrível, focinhuda, que largava fumo e poeirada e nas subidas gemia que metia dó. De aldeia em aldeia, a camioneta ia parando e em cada paragem apeava-se uma professora, com o respectivo bando à espera. Até que chegava a nossa vez. Tagarelando na camioneta, as professores comentavam animadamente o filme romântico visto na véspera, na cidade, falavam de namoricos e falavam também, de rosto sombrio, das temidas visitas dos inspectores escolares (risos). Era assim, falavam de cinema, de amores, de moda, dos tais inspectores escolares...
- Eram pessoas que durante a semana estavam nas aldeias onde leccionavam e só ao fim-de-semana é que regressavam a Braga?
- Sim. E como se conheciam, acontecia irem às vezes juntas ao cinema. Também eu ia ao cinema com a minha tia, já que por esses tempos não havia classificações etárias. Aos nove anos, por exemplo, vi o Hamlet, do Shakespeare, numa admirável adaptação cinematográfica de Lawrence Olivier. Sabe que me impressionou muito esse filme? Foi o meu primeiro contacto com a morte, através da conhecida cena dos coveiros. Bom, acho que não foi o primeiro; o primeiro acontecera pouco antes, e mais impressivo, quando assisti à exumação dos restos mortais de minha avó. Talvez por isso, a Morte paira sobre muita da minha produção literária.
- Hoje há a tendência para afastar as crianças da imagem da morte. Acha isso negativo?
- No meu caso foi uma fonte de inspiração.
- Fale sobre a vida na aldeia, com sua tia.
- À noite, rezávamos o terço. Minha tinha era muito religiosa. Orações, orações... aquilo nunca mais acabava. Depois do rosário propriamente dito, havia que rezar pelas almas dos parentes já falecidos, uma legião interminável, e depois em prol das almas mais abandonadas. Dava-me o sono, mas eu sabia que a seguir vinha o encantamento, porque minha tia contava-me histórias antes de adormecermos. Contava-as como só ela sabia contar. Tinha um dom para contar histórias como nunca vi em mais ninguém.
- Tem ideia se ela usava esse dom na escola?
- Não, na escola não contava histórias e era, digamos, uma professora severa, competente mas severa.
- Você era o destinatário privilegiado do dom que ela tinha.
- Verdade. À noite, depois das aulas, minha tia contava-me histórias como só ela sabia contar, com um poder sugestivo quase mágico. Tomemos como exemplo A Branca de Neve e os Sete Anões, quando a princesa é abandonada na floresta. Minha tia "colocava-me" no local, falava de medos, de ameaças, de rumores sinistros. Usando onomatopeias, introduzia em mim o bracejar lamentoso do arvoredo ao luar, à hora em que pia o mocho. Tinha uma capacidade invulgar para me pôr no local da acção, com todos os sentidos alerta.
- Foi sua professora durante quanto tempo?
- Oficialmente nunca o foi, pois como lhe disse, eu não tinha idade escolar quando a acompanhava à aldeia. Depois houve um conflito familiar e passei a viver com o meu avô, então professor reformado. Meu avô perdera-se de amores pela criada (risos), minhas tias disseram-lhe que era «uma afronta à memória da mamã» e o velho, indignado, saiu de casa levando-me consigo. Começava outro capítulo da minha vida. Meu avô era muito avarento, mas criatura singular. O elemento mais ilustre de uma dinastia de campónios. Um tio dele, que era padre, tinha-o posto a estudar, a trabalhar numa farmácia e a estudar. A verdade é que conseguiu chegar a mestre-escola, como se dizia naquele tempo.
- Nunca conta histórias do seu avô relacionadas com a escola e com a profissão dele...
- Não o acompanhei no activo, já entrara na reforma. Era um velhote muito avarento, como disse, mas com um agradável toque de loucura. Levava-me amiúde à Citânia de Briteiros e divagava horas esquecidas acerca do povo rude que ali vivera, dos costumes e das lendas. Meu avô foi de certo modo o responsável pelo meu interesse pela arqueologia, que mais tarde, já adulto, me levaria a visitar tudo quanto é ruína, no Egipto, na Grécia, por sítios desses.
- Daí aquele cruzeiro no Nilo, descrito no seu livro Ruínas e Gente, não é assim?
- Já antes disso eu tentara fazer essa viagem, bem antes, nos fins da adolescência e começos da adultez. Minha tia Emília morrera há muito tempo, de cancro, e o meu avô morrera também, de velhice. Vi-me só. Era novo, tinha a cabeça cheia de sonhos, começava a escrever. Não tinha onde cair morto, mas decidi ir ao Egipto. Findava os anos 50, era o tempo da grande emigração. Enfiei as mãos nos bolsos e atravessei a fronteira, por Lindoso, descontraído, a assobiar, sem passaporte, sem dinheiro, mas com a cabeça fervilhante de projectos literários. Propunha-me atravessar uma catrefada de países, trabalhando aqui e acolá (em quê, se eu não sabia fazer nada para além de escrever?), até chegar ao Egipto, onde faria umas escavações, desenterraria uns tesouros, para depois regressar cheio de fama...
- Era a continuação das histórias...
- De certo modo. Mas a minha aventura correu mal. Fui detido e devolveram-me à procedência, por etapas, com algemas nos pulsos. Entre as prisões espanholas que conheci avulta a de Valladolid. E avulta porquê? Porque o meu carcereiro achou que devia levantar-me a moral revelando que na cela pegada à minha tinha estado enclausurado Cristóvão Colombo.
- Más recordações...
- Muito pelo contrário. Recordações excelentes, óptimo material. Não se esqueça de que eu era um contador de histórias...
- Escrevia logo?
- Ia tomando notas.
- No seu livro A Homenagem, diz a certo passo: «Felizmente trago sempre esferográfica em tudo quanto é bolso».
- Está a ver?
- E depois da emigração fracassada?
- Regressei a Braga, onde o director da Biblioteca Pública, Dr. Egídio Guimarães, me contratou para fazer uns pequenos serviços, a troco de uma uma modestíssima quantia que só dava para me hospedar numa espelunca imunda, abaixo de qualquer classificação, frequentada por pobres diabos sem eira nem beira. Situação estranha mas extraordinariamente enriquecedora, pelo contraste, pelo jogo alternante de sombras e luz. Por um lado, a espelunca, com as suas misérias; por outro, a Biblioteca Pública, aquela catedral do saber, com milhares de livros à minha disposição. Dei sequência ao caminho aberto por minha tia Emília, cultivei-me ardentemente, como autodidacta que era.
- Com a escrita sempre presente...
- Sim, vivia exclusivamente para a literatura.
- Nunca pensou noutra coisa?
- Nunca, apenas em escrever. Nascera para escrever, nada mais interessava. Convivia na Biblioteca com pessoas cultas, entre quilómetros de calhamaços fascinantes, e depois havia o programa sórdido da espelunca, com a sombria malta da valeta, os tristes, os explorados, os revoltados, essa gente. Num lado, lampadários e conversa elevada; no outro, pragas e humilhação. Um escritor não poderia desejar melhor. Para mais, o director da Biblioteca apreciava deveras as coisas que eu escrevia e não descansou enquanto não as publiquei em livro. Estava bem mais impaciente que eu... Custa a crer, mas garanto que eu não tinha ansiedade nenhuma em publicar aquilo que seria Os Putos. Era capaz de estar dias e noites virado a uma só página. Mas enquanto não considerasse que ela estava em condições de ser apresentado ao Dr. Egídio Guimarães...
- Ele funcionava como crítico?
- Como um crítico consciencioso e benévolo. Tal como acontecera com a minha tia Emília e meu avô, a sua morte abriu em mim um doloroso vazio que ainda está por preencher. Era um intelectual de fino trato, com cavalheirismos de antanho, amigo discreto mas sólido, um espírito nobre, o embaixador ideal para interceder junto do Eterno pela mesquinha Humanidade. Também intercedia por mim junto das personagens "de peso" que o visitavam na Biblioteca, mostrando-lhes o meu livro Sardinhas e Lua acabado de publicar e exagerando-lhe talvez os méritos. Foi em boa parte graças a ele que estabeleci contactos com o Jornal de Notícias, do Porto, e comecei a experiência jornalística, já que a Literatura, como disse Somerset Maugham, poderá ser uma vistosa bengala, mas não é lá grande muleta. Trabalhei sete anos na redacção do Jornal de Notícias e ao fim desse tempo despediram-me.
- Porquê?
- Porque a já extinta editora Prelo acabara de publicar Os Putos, título definitivo do Sardinhas e Lua em edição bastante aumentada. Entre os novos contos havia dois, "O Campo de Judite" e "O Gancho", que desagradaram aos omnipotentes senhores do Jornal de Notícia. Despediram-me sem ao menos me ouvirem. Foi em Maio de 1973, estava-se a menos de um ano da Revolução dos Cravos...
- Mas Os Putos tiveram êxito.
- Um êxito que contribuiu para me abrir portas em Lisboa, as do velho jornal O Século.
- Também trabalhou nele muito tempo?
- Até o jornal fechar. Aí não foi despedimento (risos).
- Regressou então ao Porto?
- Não. Permaneci em Lisboa. Os Putos estavam a ter uma aceitação tremenda, as reedições sucediam-se e os editores, por esse tempo, portavam-se de forma razoavelmente satisfatória. Cheguei a acalentar o sonho de viver dos meus livros, de viver da Literatura. Ilusão, pura ilusão.
- Reatou a actividade jornalística?
- Sim, trabalhei mais dezassete anos no Comércio do Porto. Antes disso, porém, fiz umas viagens, uma delas a Macau, que me proporcionou material para outro volume de contos, as Histórias de Macau.
- No seu romance A Colina dos Espantalhos Sonhadores diz, às tantas: «O neo-realismo faz-me vómitos». E mais à frente: «Viva o realismo fantástico em vias de nascer entre nós!»
- Bem, eu punha os olhos num texto neo-realista, duro, cruel e mais nada, acabava invariavelmente por desviá-los. Se se der ao trabalho de pesquisar, verá que até nos meus contos mais graníticos há suavidades transfiguradoras, como as neblinas no cume das montanhas.
- Foi a magia da sua tia Emília que o salvou de cair no neo-realismo...
- Contribuiu para isso, não tenho dúvida.
- Nunca publicou poesia?
- Sou um prosador.
- Altino, gostava que falasse um pouco sobre a escola.
- Talvez fosse melhor você ler o último conto de Os Putos, na mais recente edição da "Casa da Moeda". Descreve a escola tal como a conheci em miúdo, aquela velha sala a cair de podre, com os seus cheiros, as suas vozes, as paredes forradas a mapas e por detrás da secretária da professora os retratos do marechal Carmona e de Oliveira Salazar, com Jesus cruxificado de permeio...
- Para além da sua tia Emília, há outras professoras na sua obra, como aquela Domicilia do romance Viagem a Ver o que Dá...
- Tomei como modelo uma professora mazinha que tive... (risos)
- A escola oficial que frequentou era na cidade de Braga?
- Comecei numa escola bracarense, que já não existe, da rua Santa Margarida, e acabei na escola da Sé. Nasci em Braga e vivi lá até aos 27 anos.
- Gostou do tempo em que frequentou a escola? É que nem tudo foi muito bonito, pela maneira como descreve certas situações...
- Se se refere aos castigos, vi dar muita pancada nas escolas, e eu próprio terei apanhado a minha reguadazita, mas a memória esfuma-se e não estou lá muito certo.
- Mas não acha que a escola antiga nos chega com uma imagem cheia de humanidade e de afecto, porque assim a descrevem os escritores-professores?
- A minha escola, especialmente na aldeia, a dos tempos pré-primários, a de minha tia Emília, era algo de mágico. Ir para lá era uma expedição mágica.
- Tem sido convidado, enquanto escritor, a falar nas escolas?
- Poucas vezes, e ainda bem. Gosto tanto de falar em público como de dar entrevistas (risos).
Entrevista conduzida por Luís Souta
Autor do Artigo
Altino Tojal
Escritor
Luís Souta
Instituto Politécnico de Setúbal
lsouta@ese.ips.pt
Jornal "a Página"
Nº 106
Ano 10 | Outubro 2001
Pag. 14
Saudade da Natália
Queixa das Almas Jovens Censuradas
Natália Correia
Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prêmio de ser assim
sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
conosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte
Natália Correia
Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prêmio de ser assim
sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
conosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte
Resgatado de montras velhas
Carta de Mia Couto a George Bush
Por Mia Couto
Carta ao Presidente Bush
Senhor Presidente:
Sou um escritor de uma nação pobre, um país que já esteve na vossa lista negra. Milhões de moçambicanos desconheciam que mal vos tínhamos feito.
Éramos pequenos e pobres: que ameaça poderíamos constiuir ? A nossa arma de destruição massiva estava, afinal, virada contra nós: era a fome e a miséria. Alguns de nós estranharam o critério que levava a que o nosso nome fosse manchado enquanto outras nações beneficiavam da vossa simpatia. Por exemplo, o nosso vizinho - a África do Sul do "apartheid" - violava de forma flagrante os direitos humanos. Durante décadas fomos vítimas da agressão desse regime. Mas o regime do "apartheid" mereceu da vossa parte uma atitude mais branda: o chamado "envolvimento positivo". O ANC esteve também na lista negra como uma "organização terrorista!". Estranho critério que levaria a que, anos mais tarde, os taliban e o próprio Bin Laden fossem chamadas de "freedom fighters" por estrategas norte-americanos.
Pois eu, pobre escritor de um pobre país, tive um sonho. Como Martin Luther King certa vez sonhou que a América era uma nação de todos os americanos.
Pois sonhei que eu era não um homem mas um país. Sim, um país que não conseguia dormir. Porque vivia sobressaltado por terríveis factos. E esse temor fez com que proclamasse uma exigência. Uma exigência que tinha a ver consigo, Caro Presidente. E eu exigia que os Estados Unidos da América procedessem à eliminação do seu armamento de destruição massiva. Por razão desses terríveis perigos eu exigia mais: que inspectores das Nações Unidas fossem enviados para o vosso país. Que terríveis perigos me alertavam?
Que receios o vosso país me inspiravam? Não eram produtos de sonho, infelizmente. Eram factos que alimentavam a minha desconfiança. A lista é tão grande que escolherei apenas alguns: Os Estados Unidos foram a única nação do mundo que lançou bombas atómicas sobre outras nações; O seu país foi a única nação a ser condenada por "uso ilegítimo da força" pelo Tribunal Internacional de Justiça; Forças americanas treinaram e armaram fundamentalistas islâmicos mais extremistas (incluindo o terrorista Bin Laden) a pretexto de derrubarem os invasores russos no Afeganistão; O regime de Saddam Hussein foi apoiado pelos EUA enquanto praticava as piores atrocidades contra os iraquianos (incluindo o gaseamento dos curdos em 1998); Como tantos outros dirigentes legítimos, o africano Patrice Lumumba foi assassinado com ajuda da CIA. Depois de preso e torturado e baleado na cabeça o seu corpo foi dissolvido em ácido clorídico; Como tantos outros fantoches, Mobutu Seseseko foi por vossos agentes conduzido ao poder e concedeu facilidades especiais à espionagem americana:
o quartel-general da CIA no Zaire tornou-se o maior em África. A ditadura brutal deste zairense não mereceu nenhum reparo dos EUA até que ele deixou de ser conveniente, em 1992; A invasão de Timor Leste pelos militares indonésios mereceu o apoio dos EUA. Quando as atrocidades foram conhecidas, a resposta da Administração Clinton foi "o assunto é da responsabilidade do governo indonésio e não queremos retirar-lhe essa responsabilidade";O vosso país albergou criminosos como Emmanuel Constant um dos líderes mais sanguinários do Taiti cujas forças para-militares massacraram milhares de inocentes. Constant foi julgado à revelia e as novas autoridades solicitaram a sua extradição. O governo americano recusou o pedido.
Em Agosto de 1998, a força aérea dos EUA bombardeou no Sudão uma fábrica de medicamentos, designada Al-Shifa. Um engano? Não, tratava-se de uma retaliação dos atentados bombistas de Nairobi e Dar-es-Saalam.
Em Dezembro de 1987, os Estados Unidos foi o único país (junto com Israel)a votar contra uma moção de condenação ao terrorismo internacional. Mesmo assim, a moção foi aprovada pelo voto de cento e cinquenta e três países.
Em 1953, a CIA ajudou a preparar o golpe de Estado contra o Irão na sequência do qual milhares de comunistas do Tudeh foram massacrados. A lista de golpes preparados pela CIA é bem longa.
Desde a Segunda Guerra Mundial, os EUA bombardearam: a China (1945-46),a Coreia e a China (1950-53), a Guatemala (1954), a Indonésia (1958), Cuba 1959-1961), a Guatemala (1960), o Congo (1964), o Peru (1965), o Laos (1961-1973), o Vietname (1961-1973), o Camboja (1969-1970), a Guatemala (1967-1973), Granada (1983), Líbano (1983-1984), a Líbia (1986), Salvador (1980), a Nicarágua (1980), o Irão (1987), o Panamá (1989), o Iraque (1990-2001), o Kuwait (1991), a Somália (1993), a Bósnia (1994-95), o Sudão (1998), o Afeganistão (1998), a Jugoslávia (1999)
Acções de terrorismo biológico e químico foram postas em prática pelos EUA: o agente laranja e os desfolhantes no Vietname, o vírus da peste contra Cuba que durante anos devastou a produção suína naquele país.
O Wall Street Journal publicou um relatório que anunciava que 500 000 crianças vietnamitas nasceram deformadas em consequência da guerra química das forças norte-americanas.
Acordei do pesadelo do sono para o pesadelo da realidade. A guerra que o Senhor Presidente teimou em iniciar poderá libertar-nos de um ditador.
Mas ficaremos todos mais pobres. Enfrentaremos maiores dificuldades nas nossas já precárias economias e teremos menos esperança num futuro governado pela razão e pela moral. Teremos menos fé na força reguladora das Nações Unidas e das convenções do direito internacional. Estaremos, enfim, mais sós e mais desamparados.
Senhor Presidente:
O Iraque não é Saddam. São 22 milhões de mães e filhos, e de homens que trabalham e sonham como fazem os comuns norte-americanos. Preocupamo-nos com os males do regime de Saddam Hussein que são reais. Mas esquece-se os horrores da primeira guerra do Golfo em que perderam a vida mais de 150 000 homens.
O que está destruindo massivamente os iraquianos não são as armas de Saddam.
São as sanções que conduziram a uma situação humanitária tão grave que dois
coordenadores para ajuda das Nações Unidas (Dennis Halliday e Hans Von Sponeck) pediram a demissão em protesto contra essas mesmas sanções.
Explicando a razão da sua renúncia, Halliday escreveu: "Estamos destruindo toda uma sociedade. É tão simples e terrível como isso. E isso é ilegal e imoral". Esse tema de sanções já levou à morte meio milhão de crianças iraquianas.
Mas a guerra contra o Iraque não está para começar. Já começou há muito tempo. Nas zonas de restrição aérea a Norte e Sul do Iraque acontecem continuamente bombardeamentos desde há 12 anos. Acredita-se que 500 iraquianos foram mortos desde 1999. O bombardeamento incluiu o uso massivo de urânio empobrecido (300 toneladas, ou seja 30 vezes mais do que o usado no Kosovo)
Livrar-nos-emos de Saddam. Mas continuaremos prisioneiros da lógica da guerra e da arrogância. Não quero que os meus filhos (nem os seus) vivam dominados pelo fantasma do medo. E que pensem que, para viverem tranquilos,precisam de construir uma fortaleza. E que só estarão seguros quando se tiver que gastar fortunas em armas. Como o seu país que despende 270 000 000 000 000 dólares (duzentos e setenta biliões de dólares) por ano para manter o arsenal de guerra. O senhor bem sabe o que essa soma poderia ajudar a mudar o destino miserável de milhões de seres.
O bispo americano Monsenhor Robert Bowan escreveu- lhe no final do ano passado uma carta intitulada "Porque é que o mundo odeia os EUA ?" O bispo da Igreja Católica da Florida é um ex--combatente na guerra do Vietname.
Ele sabe o que é a guerra e escreveu: "O senhor reclama que os EUA são alvo do terrorismo porque defendemos a democracia, a liberdade e os direitos humanos. Que absurdo, Sr. Presidente ! Somos alvos dos terroristas porque, na maior parte do mundo, o nosso governo defendeu a ditadura, a escravidão e a exploração humana. Somos alvos dos terroristas porque somos odiados. E somos odiados porque o nosso governo fez coisas odiosas. Em quantos países agentes do nosso governo depuseram líderes popularmente eleitos substituindo-os por ditadores militares, fantoches desejosos de vender o seu próprio povo às corporações norte-americanas multinacionais? E o bispo conclui: O povo do Canadá desfruta de democracia, de liberdade e de direitos humanos, assim como o povo da Noruega e da Suécia. Alguma vez o senhor ouviu falar de ataques a embaixadas canadianas, norueguesas ou suecas? Nós somos odiados não porque praticamos a democracia, a liberdade ou os direitos humanos. Somos odiados porque o nosso governo nega essas coisas aos povos dos países do Terceiro Mundo, cujos recursos são cobiçados pelas nossas multinacionais."
Senhor Presidente:
Sua Excelência parece não necessitar que uma instituição internacional legitime o seu direito de intervenção militar. Ao menos que possamos nós encontrar moral e verdade na sua argumentação. Eu e mais milhões de cidadãos não ficamos convencidos quando o vimos justificar a guerra. Nós preferíamos vê- lo assinar a Convenção de Kyoto para conter o efeito de estufa.
Preferíamos tê-lo visto em Durban na Conferência Internacional contra o Racismo.
Não se preocupe, senhor Presidente. A nós, nações pequenas deste mundo, não nos passa pela cabeça exigir a vossa demissão por causa desse apoio que as vossas sucessivas administrações concederam apoio a não menos sucessivos ditadores. A maior ameaça que pesa sobre a América não são armamentos de outros. É o universo de mentira que se criou em redor dos vossos cidadãos.
O perigo não é o regime de Saddam, nem nenhum outro regime. Mas o sentimento de superioridade que parece animar o seu governo. O seu inimigo principal não está fora. Está dentro dos EUA. Essa guerra só pode ser vencida pelos próprios americanos.
Eu gostaria de poder festejar o derrube de Saddam Hussein. E festejar com todos os americanos. Mas sem hipocrisia, sem argumentação e consumo de diminuídos mentais. Porque nós, caro Presidente Bush, nós, os povos dos países pequenos, temos uma arma de construção massiva: a capacidade de pensar.
Por Mia Couto
Carta ao Presidente Bush
Senhor Presidente:
Sou um escritor de uma nação pobre, um país que já esteve na vossa lista negra. Milhões de moçambicanos desconheciam que mal vos tínhamos feito.
Éramos pequenos e pobres: que ameaça poderíamos constiuir ? A nossa arma de destruição massiva estava, afinal, virada contra nós: era a fome e a miséria. Alguns de nós estranharam o critério que levava a que o nosso nome fosse manchado enquanto outras nações beneficiavam da vossa simpatia. Por exemplo, o nosso vizinho - a África do Sul do "apartheid" - violava de forma flagrante os direitos humanos. Durante décadas fomos vítimas da agressão desse regime. Mas o regime do "apartheid" mereceu da vossa parte uma atitude mais branda: o chamado "envolvimento positivo". O ANC esteve também na lista negra como uma "organização terrorista!". Estranho critério que levaria a que, anos mais tarde, os taliban e o próprio Bin Laden fossem chamadas de "freedom fighters" por estrategas norte-americanos.
Pois eu, pobre escritor de um pobre país, tive um sonho. Como Martin Luther King certa vez sonhou que a América era uma nação de todos os americanos.
Pois sonhei que eu era não um homem mas um país. Sim, um país que não conseguia dormir. Porque vivia sobressaltado por terríveis factos. E esse temor fez com que proclamasse uma exigência. Uma exigência que tinha a ver consigo, Caro Presidente. E eu exigia que os Estados Unidos da América procedessem à eliminação do seu armamento de destruição massiva. Por razão desses terríveis perigos eu exigia mais: que inspectores das Nações Unidas fossem enviados para o vosso país. Que terríveis perigos me alertavam?
Que receios o vosso país me inspiravam? Não eram produtos de sonho, infelizmente. Eram factos que alimentavam a minha desconfiança. A lista é tão grande que escolherei apenas alguns: Os Estados Unidos foram a única nação do mundo que lançou bombas atómicas sobre outras nações; O seu país foi a única nação a ser condenada por "uso ilegítimo da força" pelo Tribunal Internacional de Justiça; Forças americanas treinaram e armaram fundamentalistas islâmicos mais extremistas (incluindo o terrorista Bin Laden) a pretexto de derrubarem os invasores russos no Afeganistão; O regime de Saddam Hussein foi apoiado pelos EUA enquanto praticava as piores atrocidades contra os iraquianos (incluindo o gaseamento dos curdos em 1998); Como tantos outros dirigentes legítimos, o africano Patrice Lumumba foi assassinado com ajuda da CIA. Depois de preso e torturado e baleado na cabeça o seu corpo foi dissolvido em ácido clorídico; Como tantos outros fantoches, Mobutu Seseseko foi por vossos agentes conduzido ao poder e concedeu facilidades especiais à espionagem americana:
o quartel-general da CIA no Zaire tornou-se o maior em África. A ditadura brutal deste zairense não mereceu nenhum reparo dos EUA até que ele deixou de ser conveniente, em 1992; A invasão de Timor Leste pelos militares indonésios mereceu o apoio dos EUA. Quando as atrocidades foram conhecidas, a resposta da Administração Clinton foi "o assunto é da responsabilidade do governo indonésio e não queremos retirar-lhe essa responsabilidade";O vosso país albergou criminosos como Emmanuel Constant um dos líderes mais sanguinários do Taiti cujas forças para-militares massacraram milhares de inocentes. Constant foi julgado à revelia e as novas autoridades solicitaram a sua extradição. O governo americano recusou o pedido.
Em Agosto de 1998, a força aérea dos EUA bombardeou no Sudão uma fábrica de medicamentos, designada Al-Shifa. Um engano? Não, tratava-se de uma retaliação dos atentados bombistas de Nairobi e Dar-es-Saalam.
Em Dezembro de 1987, os Estados Unidos foi o único país (junto com Israel)a votar contra uma moção de condenação ao terrorismo internacional. Mesmo assim, a moção foi aprovada pelo voto de cento e cinquenta e três países.
Em 1953, a CIA ajudou a preparar o golpe de Estado contra o Irão na sequência do qual milhares de comunistas do Tudeh foram massacrados. A lista de golpes preparados pela CIA é bem longa.
Desde a Segunda Guerra Mundial, os EUA bombardearam: a China (1945-46),a Coreia e a China (1950-53), a Guatemala (1954), a Indonésia (1958), Cuba 1959-1961), a Guatemala (1960), o Congo (1964), o Peru (1965), o Laos (1961-1973), o Vietname (1961-1973), o Camboja (1969-1970), a Guatemala (1967-1973), Granada (1983), Líbano (1983-1984), a Líbia (1986), Salvador (1980), a Nicarágua (1980), o Irão (1987), o Panamá (1989), o Iraque (1990-2001), o Kuwait (1991), a Somália (1993), a Bósnia (1994-95), o Sudão (1998), o Afeganistão (1998), a Jugoslávia (1999)
Acções de terrorismo biológico e químico foram postas em prática pelos EUA: o agente laranja e os desfolhantes no Vietname, o vírus da peste contra Cuba que durante anos devastou a produção suína naquele país.
O Wall Street Journal publicou um relatório que anunciava que 500 000 crianças vietnamitas nasceram deformadas em consequência da guerra química das forças norte-americanas.
Acordei do pesadelo do sono para o pesadelo da realidade. A guerra que o Senhor Presidente teimou em iniciar poderá libertar-nos de um ditador.
Mas ficaremos todos mais pobres. Enfrentaremos maiores dificuldades nas nossas já precárias economias e teremos menos esperança num futuro governado pela razão e pela moral. Teremos menos fé na força reguladora das Nações Unidas e das convenções do direito internacional. Estaremos, enfim, mais sós e mais desamparados.
Senhor Presidente:
O Iraque não é Saddam. São 22 milhões de mães e filhos, e de homens que trabalham e sonham como fazem os comuns norte-americanos. Preocupamo-nos com os males do regime de Saddam Hussein que são reais. Mas esquece-se os horrores da primeira guerra do Golfo em que perderam a vida mais de 150 000 homens.
O que está destruindo massivamente os iraquianos não são as armas de Saddam.
São as sanções que conduziram a uma situação humanitária tão grave que dois
coordenadores para ajuda das Nações Unidas (Dennis Halliday e Hans Von Sponeck) pediram a demissão em protesto contra essas mesmas sanções.
Explicando a razão da sua renúncia, Halliday escreveu: "Estamos destruindo toda uma sociedade. É tão simples e terrível como isso. E isso é ilegal e imoral". Esse tema de sanções já levou à morte meio milhão de crianças iraquianas.
Mas a guerra contra o Iraque não está para começar. Já começou há muito tempo. Nas zonas de restrição aérea a Norte e Sul do Iraque acontecem continuamente bombardeamentos desde há 12 anos. Acredita-se que 500 iraquianos foram mortos desde 1999. O bombardeamento incluiu o uso massivo de urânio empobrecido (300 toneladas, ou seja 30 vezes mais do que o usado no Kosovo)
Livrar-nos-emos de Saddam. Mas continuaremos prisioneiros da lógica da guerra e da arrogância. Não quero que os meus filhos (nem os seus) vivam dominados pelo fantasma do medo. E que pensem que, para viverem tranquilos,precisam de construir uma fortaleza. E que só estarão seguros quando se tiver que gastar fortunas em armas. Como o seu país que despende 270 000 000 000 000 dólares (duzentos e setenta biliões de dólares) por ano para manter o arsenal de guerra. O senhor bem sabe o que essa soma poderia ajudar a mudar o destino miserável de milhões de seres.
O bispo americano Monsenhor Robert Bowan escreveu- lhe no final do ano passado uma carta intitulada "Porque é que o mundo odeia os EUA ?" O bispo da Igreja Católica da Florida é um ex--combatente na guerra do Vietname.
Ele sabe o que é a guerra e escreveu: "O senhor reclama que os EUA são alvo do terrorismo porque defendemos a democracia, a liberdade e os direitos humanos. Que absurdo, Sr. Presidente ! Somos alvos dos terroristas porque, na maior parte do mundo, o nosso governo defendeu a ditadura, a escravidão e a exploração humana. Somos alvos dos terroristas porque somos odiados. E somos odiados porque o nosso governo fez coisas odiosas. Em quantos países agentes do nosso governo depuseram líderes popularmente eleitos substituindo-os por ditadores militares, fantoches desejosos de vender o seu próprio povo às corporações norte-americanas multinacionais? E o bispo conclui: O povo do Canadá desfruta de democracia, de liberdade e de direitos humanos, assim como o povo da Noruega e da Suécia. Alguma vez o senhor ouviu falar de ataques a embaixadas canadianas, norueguesas ou suecas? Nós somos odiados não porque praticamos a democracia, a liberdade ou os direitos humanos. Somos odiados porque o nosso governo nega essas coisas aos povos dos países do Terceiro Mundo, cujos recursos são cobiçados pelas nossas multinacionais."
Senhor Presidente:
Sua Excelência parece não necessitar que uma instituição internacional legitime o seu direito de intervenção militar. Ao menos que possamos nós encontrar moral e verdade na sua argumentação. Eu e mais milhões de cidadãos não ficamos convencidos quando o vimos justificar a guerra. Nós preferíamos vê- lo assinar a Convenção de Kyoto para conter o efeito de estufa.
Preferíamos tê-lo visto em Durban na Conferência Internacional contra o Racismo.
Não se preocupe, senhor Presidente. A nós, nações pequenas deste mundo, não nos passa pela cabeça exigir a vossa demissão por causa desse apoio que as vossas sucessivas administrações concederam apoio a não menos sucessivos ditadores. A maior ameaça que pesa sobre a América não são armamentos de outros. É o universo de mentira que se criou em redor dos vossos cidadãos.
O perigo não é o regime de Saddam, nem nenhum outro regime. Mas o sentimento de superioridade que parece animar o seu governo. O seu inimigo principal não está fora. Está dentro dos EUA. Essa guerra só pode ser vencida pelos próprios americanos.
Eu gostaria de poder festejar o derrube de Saddam Hussein. E festejar com todos os americanos. Mas sem hipocrisia, sem argumentação e consumo de diminuídos mentais. Porque nós, caro Presidente Bush, nós, os povos dos países pequenos, temos uma arma de construção massiva: a capacidade de pensar.
As Escolas do Paraíso: Para que servem os professores?
César de Sousa
Um distinto membro da classe docente do ensino secundário garantia-me, há poucos dias, que os professores, nos ensinos básico e secundário, e muito em especial os directores de turma, não servem só para dar aulas. Têm, por exemplo, de organizar turmas e de fazer as matrículas dos futuros alunos para o ano seguinte. A questão surgiu porque a pessoa em questão mostrava-se preocupada por causa da influência dessas tarefas no usufruto das suas férias. E a secretaria, perguntei, não pode assegurar esse trabalho? Não, respondeu-me, porque não tem tempo.
A argumentação, é forçoso reconhecê-lo, evoluiu. A mesma pessoa dava-me, há tempos, argumentos relacionados com factores pedagógicos e característicos da própria organização escolar, para justificar, pelo menos, essas duas tarefas: receber as matrículas feitas pelos alunos e/ou pelos seus pais e/ou encarregados de educação na própria escola e organizar as turmas em que os professores são, mais do que os alunos, parte interessada por causa das suas agendas.
Esta actividade dos professores tem, é claro, uma explicação histórica: ela faz parte do exercício do que se designou por gestão democrática, que pôs os professores, fossm quais fossm a sua preparação e a sua disposição para a função, a dirigir as escolas por eleição. Foi uma das reviravoltas do 25 de Abril, uma consequência lógica do fim do exercício ditatorial dos directores das escolas.
Há poucos anos, começou a evoluir-se, não sem polémica, para uma mitigada profissionalização da gestão escolar, ao exigir-se aos professores que querem ser gestores alguma preparação na matéria. Supõe-se que, como tudo em Portugal, o êxito há-de ter sido tão limitado como discreto. Sabe-se é que a profissionalização, “latu sensu”, não chegou ao resto: os professores tratam de umas coisas, o pessoal administrativo trata de outras.
O Estado, nisto tudo, desempenha um papel equívoco de “laissez faire, laissez passer”, seja lá qual for a cor do partido do governo e/ou do(s) sindicato(s) que lhe faz(em) frente: como não quer e não pode pagar mais aos professores, deixa-os, normalmente, em paz. Mais férias, menos tempo nas escolas (além disso, garantir gabinetes e outras áreas de trabalho é mais caro), alguma autonomia, a convicção (que agrada aos sindicatos, que também dela lançam mão como bandeira para aterrorizar ministros) de que a gestão democrática ainda funciona. Ou seja: de que os professores é que mandam. É evidente que não advém mal ao mundo desta ilusão e destas actividades extra-curriculares dos professores. Mas há, nisto tudo, uma perversão feita de falsos poderes, de falsas obrigações, de pedagogia nacional-porreirista, de comodismo de um aparelho de Estado que não é, não deixa de ser e não consegue ser ou fazer que seja.
Quanto aos professores, bem... na melhor das hipóteses, fica a ilusão de que estão a ser úteis aos meninos e às meninas. Bem hajam, que deles será o Reino dos Céus...
A resposta está aqui. (13 de Julho)
Um distinto membro da classe docente do ensino secundário garantia-me, há poucos dias, que os professores, nos ensinos básico e secundário, e muito em especial os directores de turma, não servem só para dar aulas. Têm, por exemplo, de organizar turmas e de fazer as matrículas dos futuros alunos para o ano seguinte. A questão surgiu porque a pessoa em questão mostrava-se preocupada por causa da influência dessas tarefas no usufruto das suas férias. E a secretaria, perguntei, não pode assegurar esse trabalho? Não, respondeu-me, porque não tem tempo.
A argumentação, é forçoso reconhecê-lo, evoluiu. A mesma pessoa dava-me, há tempos, argumentos relacionados com factores pedagógicos e característicos da própria organização escolar, para justificar, pelo menos, essas duas tarefas: receber as matrículas feitas pelos alunos e/ou pelos seus pais e/ou encarregados de educação na própria escola e organizar as turmas em que os professores são, mais do que os alunos, parte interessada por causa das suas agendas.
Esta actividade dos professores tem, é claro, uma explicação histórica: ela faz parte do exercício do que se designou por gestão democrática, que pôs os professores, fossm quais fossm a sua preparação e a sua disposição para a função, a dirigir as escolas por eleição. Foi uma das reviravoltas do 25 de Abril, uma consequência lógica do fim do exercício ditatorial dos directores das escolas.
Há poucos anos, começou a evoluir-se, não sem polémica, para uma mitigada profissionalização da gestão escolar, ao exigir-se aos professores que querem ser gestores alguma preparação na matéria. Supõe-se que, como tudo em Portugal, o êxito há-de ter sido tão limitado como discreto. Sabe-se é que a profissionalização, “latu sensu”, não chegou ao resto: os professores tratam de umas coisas, o pessoal administrativo trata de outras.
O Estado, nisto tudo, desempenha um papel equívoco de “laissez faire, laissez passer”, seja lá qual for a cor do partido do governo e/ou do(s) sindicato(s) que lhe faz(em) frente: como não quer e não pode pagar mais aos professores, deixa-os, normalmente, em paz. Mais férias, menos tempo nas escolas (além disso, garantir gabinetes e outras áreas de trabalho é mais caro), alguma autonomia, a convicção (que agrada aos sindicatos, que também dela lançam mão como bandeira para aterrorizar ministros) de que a gestão democrática ainda funciona. Ou seja: de que os professores é que mandam. É evidente que não advém mal ao mundo desta ilusão e destas actividades extra-curriculares dos professores. Mas há, nisto tudo, uma perversão feita de falsos poderes, de falsas obrigações, de pedagogia nacional-porreirista, de comodismo de um aparelho de Estado que não é, não deixa de ser e não consegue ser ou fazer que seja.
Quanto aos professores, bem... na melhor das hipóteses, fica a ilusão de que estão a ser úteis aos meninos e às meninas. Bem hajam, que deles será o Reino dos Céus...
A resposta está aqui. (13 de Julho)
A Cartilha: Os criminosos
Clara Ferreira Alves
O «causídico» Manuel Ayala, representante do Ministério da Defesa no caso do barco do aborto, terá comparado o aborto, a acreditar nos jornais, à eutanásia e às drogas duras. Segundo ele, começa-se no aborto, segue-se para a eutanásia e acaba-se nas drogas duras. É evidente que existe uma comparação entre estes três ilícitos penais, a de serem, justamente, ilícitos penais, crimes punidos pela Código Penal português. Mas, subjacente a esta comparação formal, está uma comparação de ordem moral, essa sim reprovadora e fundadora de todas as atitudes a favor da despenalização do aborto ou das drogas leves ou, se quisermos, da eutanásia. Ora esta comparação moral é errada, equívoca e mete tudo no mesmo saco.
As três situações são diferentes e os casos pessoal e juridicamente intrincados a que respeitam são diferentes. O aborto não devia ser considerado uma prática criminosa, pelas razões que todas as campanhas de despenalização justamente invocaram, e por que se fosse aplicada a lei com rigor, não seriam as mulheres pobres e as parteiras as condenadas e sim uma boa parte dos ginecologistas deste país e das mulheres ricas que recorrem ao aborto em território nacional em «condições de segurança». O aborto pratica-se, mal e bem, os que o praticam mal são apanhados e os outros não e ponto final. A hipocrisia dos políticos que falam do aborto como violação de uma ordem moral intrínseca ao homem, seriam provavelmente os primeiros a ser apanhados caso pudéssemos entrar mais profundamente nas suas vidas. É sempre o caso bíblico do apedrejamento da pecadora, o que não tiver pecado que atire a primeira pedra.
A eutanásia coloca problemas diferentes, embora se trate do direito à vida, e também aqui, ela é discretamente praticada por muitas famílias em casos desesperados e médicos complacentes e compassivos, desde que o estrato social seja muito alto ou muito baixo. No baixo, os hospitais limitam-se a deixar morrer ou a expulsar do hospital por falta de camas. No alto, prolongam indefinidamente a vida ou cortam a pedido, muitas vezes a pedido do doente. A hipocrisia continua.
No caso das drogas duras, mais pacífico, todos parecem de acordo em punir e muitos não concordam em somente tratar. O tráfico, crime organizado, tem muitos tentáculos, e tentáculos poderosos, e só os pequenos traficantes e consumidores acabam por ser apanhados. São mais uma vez situações hipócritas, condicionadas pela importância social do criminoso. O colarinho branco fica de fora, e o branqueamento de dinheiro da droga também. Nos três casos, a única coisa que importa na vida real é isto, quem tem ou não tem dinheiro, e não quem tem consciência.
O «causídico» Manuel Ayala, representante do Ministério da Defesa no caso do barco do aborto, terá comparado o aborto, a acreditar nos jornais, à eutanásia e às drogas duras. Segundo ele, começa-se no aborto, segue-se para a eutanásia e acaba-se nas drogas duras. É evidente que existe uma comparação entre estes três ilícitos penais, a de serem, justamente, ilícitos penais, crimes punidos pela Código Penal português. Mas, subjacente a esta comparação formal, está uma comparação de ordem moral, essa sim reprovadora e fundadora de todas as atitudes a favor da despenalização do aborto ou das drogas leves ou, se quisermos, da eutanásia. Ora esta comparação moral é errada, equívoca e mete tudo no mesmo saco.
As três situações são diferentes e os casos pessoal e juridicamente intrincados a que respeitam são diferentes. O aborto não devia ser considerado uma prática criminosa, pelas razões que todas as campanhas de despenalização justamente invocaram, e por que se fosse aplicada a lei com rigor, não seriam as mulheres pobres e as parteiras as condenadas e sim uma boa parte dos ginecologistas deste país e das mulheres ricas que recorrem ao aborto em território nacional em «condições de segurança». O aborto pratica-se, mal e bem, os que o praticam mal são apanhados e os outros não e ponto final. A hipocrisia dos políticos que falam do aborto como violação de uma ordem moral intrínseca ao homem, seriam provavelmente os primeiros a ser apanhados caso pudéssemos entrar mais profundamente nas suas vidas. É sempre o caso bíblico do apedrejamento da pecadora, o que não tiver pecado que atire a primeira pedra.
A eutanásia coloca problemas diferentes, embora se trate do direito à vida, e também aqui, ela é discretamente praticada por muitas famílias em casos desesperados e médicos complacentes e compassivos, desde que o estrato social seja muito alto ou muito baixo. No baixo, os hospitais limitam-se a deixar morrer ou a expulsar do hospital por falta de camas. No alto, prolongam indefinidamente a vida ou cortam a pedido, muitas vezes a pedido do doente. A hipocrisia continua.
No caso das drogas duras, mais pacífico, todos parecem de acordo em punir e muitos não concordam em somente tratar. O tráfico, crime organizado, tem muitos tentáculos, e tentáculos poderosos, e só os pequenos traficantes e consumidores acabam por ser apanhados. São mais uma vez situações hipócritas, condicionadas pela importância social do criminoso. O colarinho branco fica de fora, e o branqueamento de dinheiro da droga também. Nos três casos, a única coisa que importa na vida real é isto, quem tem ou não tem dinheiro, e não quem tem consciência.
A Cartilha: Crónica dos bons malandros
Clara Ferreira Alves
O senhor Tony Blair, tal como antes deles o senhor Felipe González, acostumou-se ao «high life» e dali não sai, dali ninguém o tira. Apareceu, com a inimitável Cherie, ao lado do primeiro-ministro italiano Berlusconi, com a fachada de uma bela casa na Sardenha por trás. Os Blair foram até à Sardenha e à fortaleza de Berlusconi (numa zona protegida onde o comum dos mortais não poderia construir), e aí aboletaram durante a estação quente.
Quente mas, não tão quente como o Iraque, onde iraquianos, ingleses e americanos continuam a morrer e a ficar cobertos de moscas debaixo do sol e dos quarenta e tal graus de temperatura. O Iraque, transformado na desordem e numa sentença de morte do Médio Oriente, não incomoda a família Blair nem o senhor Berslusconi, que se banham nas águas transparentes do Mediterrâneo e comem lagostins e rizzoto à sombra da palmeira. O senhor Berslusconi apareceu mesmo com um lenço a amarrar a cabeça, estiloso, destinado, segundo um esclarecimento do seu médico pessoal, a esconder os vestígios de um transplante capilar a que se tinha submetido. Repare-se que, este ano, o senhor Berlusconi já tinha feito um lifting. É preciso ficar bem na fotografia e em frente ao holofote.
O primeiro-ministro italiano entra no trabalho depois das férias com a energia renovada e com a cara arrumada, o que decerto fornecerá mais uns anos de sobrevivência política. Governar a Itália era muito fácil, afinal, bastava ser dono das televisões.
Na Inglaterra, Blair também não se safou mal. Destruiu a BBC, escapou ileso dos escândalos e das mentiras e enganos, e David Kelly, o suicidado das armas de destruição maciça, não lhe tira o sono. Como diria o padre Américo, não há rapazes maus, e nesta história do Iraque, custe as vidas que custar, o petróleo há-de acabar por jorrar.
A aliança estival de Blair, o renegado socialista, com Berlusconi, o magnate amoralista, é a prova de que a vergonha morreu no deserto. O deserto ético em que vivemos, onde nada conta, nada se paga, e todos os fins justificam os meios. A fotografia das férias alegres de Blair e de Berslusconi é a prova de que as ideologias e as convicções estão mortas. E enterradas. No admirável mundo novo da imagem e do spinning, das «photo oportunities», vale tudo menos ter coerência. E vale mais ter um transplante capilar. Ainda veremos Barroso a banhos na Sardenha.
O senhor Tony Blair, tal como antes deles o senhor Felipe González, acostumou-se ao «high life» e dali não sai, dali ninguém o tira. Apareceu, com a inimitável Cherie, ao lado do primeiro-ministro italiano Berlusconi, com a fachada de uma bela casa na Sardenha por trás. Os Blair foram até à Sardenha e à fortaleza de Berlusconi (numa zona protegida onde o comum dos mortais não poderia construir), e aí aboletaram durante a estação quente.
Quente mas, não tão quente como o Iraque, onde iraquianos, ingleses e americanos continuam a morrer e a ficar cobertos de moscas debaixo do sol e dos quarenta e tal graus de temperatura. O Iraque, transformado na desordem e numa sentença de morte do Médio Oriente, não incomoda a família Blair nem o senhor Berslusconi, que se banham nas águas transparentes do Mediterrâneo e comem lagostins e rizzoto à sombra da palmeira. O senhor Berslusconi apareceu mesmo com um lenço a amarrar a cabeça, estiloso, destinado, segundo um esclarecimento do seu médico pessoal, a esconder os vestígios de um transplante capilar a que se tinha submetido. Repare-se que, este ano, o senhor Berlusconi já tinha feito um lifting. É preciso ficar bem na fotografia e em frente ao holofote.
O primeiro-ministro italiano entra no trabalho depois das férias com a energia renovada e com a cara arrumada, o que decerto fornecerá mais uns anos de sobrevivência política. Governar a Itália era muito fácil, afinal, bastava ser dono das televisões.
Na Inglaterra, Blair também não se safou mal. Destruiu a BBC, escapou ileso dos escândalos e das mentiras e enganos, e David Kelly, o suicidado das armas de destruição maciça, não lhe tira o sono. Como diria o padre Américo, não há rapazes maus, e nesta história do Iraque, custe as vidas que custar, o petróleo há-de acabar por jorrar.
A aliança estival de Blair, o renegado socialista, com Berlusconi, o magnate amoralista, é a prova de que a vergonha morreu no deserto. O deserto ético em que vivemos, onde nada conta, nada se paga, e todos os fins justificam os meios. A fotografia das férias alegres de Blair e de Berslusconi é a prova de que as ideologias e as convicções estão mortas. E enterradas. No admirável mundo novo da imagem e do spinning, das «photo oportunities», vale tudo menos ter coerência. E vale mais ter um transplante capilar. Ainda veremos Barroso a banhos na Sardenha.
9 de setembro de 2004
Discurso Sobre a Velhice com a Liberdade em Pano de Fundo
Domingo, 05 de Setembro de 2004
António Melo Nelson Garrido
Emídio Guereiro perfaz 105 anos de vida no dia 6 de Setembro. Quando lhe pedem um balanço desta longa existência, diz que ela cabe por inteiro no poema de Paul Éluard, "Liberté", de que evoca os últimos versos: "Pelo poder de uma palavra // Reinício a vida // Nasci para te conhecer // Para te nomear - Liberdade". Nasceu em Guimarães, onde amanhã se vai comemorar o aniversário, numa celebração de projecção nacional, que a municipalidade vimaranense lhe dedica.
Filho de um oficial do Exército, António Guerreiro, que fez parte do corpo expedicionário na Grande Guerra de 1914-18, enviado para defender os territórios ultramarinos da eminente invasão germânica, dele herdou o fervor republicano e o impulso para a intervenção cívica.
Não fosse essa quase ânsia de modificar a sociedade no molde maçónico da liberdade, igualdade e fraternidade, o jovem Emídio teria sido um insigne matemático, com uma carreira académica a fazer-se sob a orientação de mestre Gomes Teixeira, que o escolheu em 1931 para seu assistente extraordinário.
Porém, em Janeiro de 1932 estava já no Aljube de Lisboa, preso por provocar um motim quando o general Carmona, líder da ditadura militar e Presidente da República do Estado Novo, visitou o Porto, em Dezembro de 1931. Do Aljube se evadiu no dia 4 de Abril de 1932, num exílio que só terminaria 42 anos mais tarde, com a Revolução dos Cravos.
Foi partidário dos republicanos na Guerra Civil de Espanha e resistente à ocupação nazi na França de Vichy. Quando regressou a Portugal, em 1974, liderou por curtos meses o PPD e foi deputado à Assembleia Constituinte. Depois aproximou-se do Partido Socialista e chegou a participar em algumas das suas campanhas eleitorais, mas sempre na qualidade de independente.
Nesta entrevista revela uma visão amarga sobre o destino da velhice, que vê como uma quase tragédia da condição humana. Mas o espírito de rebeldia, o fogo criativo do Prometeu agrilhoado, continua a arder-lhe nas entranhas.
P. - Entre a infância e a velhice há idade adulta. São as idades do homem, com que Édipo neutralizou a Esfinge?
R. - A Esfinge que devorava tudo, se não respondessem a uma determinada pergunta. E a reposta de Édipo foi: é o Homem. Assim se desfez a Esfinge e Édipo se fez rei. Mas estava escrito que ele mataria o pai, sem saber quem ele era, e casaria com a mãe. Foi rei incestuoso. Esta lenda é a primeira afirmação da potência humana, porque morrer, sem dar resposta à terrível Esfinge, significa que não se tinha a noção completa do que era a vida. Há um filósofo grego, Epicuro, que tem uma concepção maravilhosa sobre o que é a morte: "Enquanto tu és, a morte não existe, enquanto a morte não está, tu estás". Depois, é o nada absoluto.
O que não quer dizer que não receba a morte quase com alegria. Aquilo de que tenho horror não é da morte, é da velhice. A velhice é que não suporto.
P. - Porquê?
R. - Porque a velhice é uma espécie de condescendência da vida. Chega-se a um termo, que é aquele em que eu estou, em que já não há nada a dar. Sente-se uma espécie de vácuo. Mas é ridículo tentar filosofar aos 105 anos de idade. A meu ver é um limite máximo da vida.
Pessoalmente sinto-me cansado, muito, muito mesmo. O que me resta são fragmentos das noções que tive quando tinha uma verdadeira vida. É um naufrágio.
P. - Não é essa uma atitude dos cínicos, que desdiziam o que diziam. Fez uma proclamação sobre as limitações da velhice. Mas a criança está ainda mais limitada, pois ignora por completo o que é a experiência da vida.
R. - Certo. A vida só o é quando se adquire a consciência. A infância é um prefácio.
O que vou dizer poderá não agradar ao Papa, mas é a minha opinião. A vida humana não começa com o feto, começa com a consciência. A partir daí é que adquirimos uma existência própria. E depois vem a morte.
P. - Aos 105 anos o sopé da montanha é demasiado grande para o homem que está a subi-la?
R. - Quantas vezes não disse já que penso que estou a subir a montanha por ela abaixo? É uma subida negativa. Vejo-me projectado numa imagem ilusória, que me mostra a subir, quando na realidade estou a descer.
A velhice é um naufrágio em que o náufrago se agarra a tudo para continuar a supor que vive.
P. - O filósofo Jacques Derrida, em entrevista recente [Le Monde 19/8/04], falava da velhice como uma "sobre-vivência". Mas acrescentava que os "sobreviventes" são os que estão com a vida, não os que se lhe opõem.
R. - Não suporto essa velhice que se agarra à vida. A parte de uma sobre-vida não é uma super-vida. Eu entendo que a partir do momento em que o homem não é senhor da sua autonomia já não vive.
P. - Não é o sujeito soberano de si mesmo que define a sua capacidade autónoma? Não é a consciência de si que impõe os limites à autonomia? Não é esse o significado de Sísifo?
R. - Quando se pretende ultrapassar o impossível, a autonomia do homem ... Estou cansado... vamos fazer uma pausa...
Referiu Sísifo, mas já não estou a subir a montanha; é o contrário. É uma projecção que sai da vida. Imagine que o meu amigo está a descer a montanha e tem aos seus pés um espelho enorme. Há uma visão da vida que sobe, mas o caminhante desce. O aspecto real desta visão é o da vida não autónoma. É uma amarração à vida.
P. - Mas esse é o mito do Prometeu agrilhoado, que sofre a punição de quem trouxe o fogo criativo.
R. - Ah, a vida do Prometeu é a maravilha da mitologia. Quando penso em Prometeu e me recordo que roubou ao Olimpo o fogo sagrado, para o dar ao homem, vejo nele o primeiro acto da liberdade humana. Um desafio que pagou caro, muito caro, com as vísceras a serem devoradas pelas aves de rapina. É o primeiro passo do homem para a liberdade. O primeiro acto de rebeldia, que é também a primeira afirmação de autonomia da vida humana, que não se limita a ser só vida, é também a razão da vida.
Aí intervém um grande filósofo que acabou definitivamente com a escolástica medieval, Descartes, que nos deixou um formulário para podermos deduzir a verdade. A dúvida metódica é o grande trunfo do ser racional. O racionalismo não é senão a dúvida que o homem se põe e levou a ciência a desvendar e a interpretar os segredos da natureza.
Mas eu desejo que meus amigos vivam muito, só que não envelheçam.
P. - Só vê a velhice como decrepitude? Não pode ser uma reflexão da experiência?
R. - Não é. É um naufrágio.
P. - Tem que o ser necessariamente? Almeida Garrett não escreveu as "Folhas Caídas", que é um poema lírico à vida outonal?
R. - Não me estou a referir ao que vivi durante uma longa vida. Estou a falar do estado presente da velhice. Quer dizer, de um momento a partir do qual a vida já não tem a intensidade que lhe permite ser independente. Compreende?
P. - Não muito bem. Sujeitos soberanos podemos ser, mas em absoluto nunca o somos, precisamos de ser solidários.
R. - Bom, se discutimos assim a autonomia, numa perspectiva de sociedade, há sempre um limite. Não vou ao ponto de admitir o homem como o deus de si próprio, como queriam os anarquistas do tempo do Kroptkine. O que eu digo é que a individualidade é uma coisa muito rica. Combati a vida inteira pela dignidade do homem, e nessa dignidade estão duas coisas fundamentais: a dignidade e a liberdade.
P. - E a solidariedade e a tolerância pelo outro?
R. - Isso são atributos secundários. A individualidade é a marca da humanidade, pois estou convencido que não há dois homens iguais. Há sempre qualquer coisa que os faz singulares. Essa é uma especificidade do ser racional, mesmo que possa haver outras espécies animais com mais ou menos aspectos de atitude racional. Mas a razão humana é particular, porque é ela que faz com que se seja uma individualidade única.
P. - A racionalidade é inata, mas o racionalismo é uma construção?
R. - O racionalismo é uma grande descoberta da emancipação humana, permite-nos saber que somos homens. Todas as teorias filosóficas admitem o ser, admitem o estar, admitem o dogma. Mas só a partir de Descartes [1596-1650] é que o racionalismo passou a ser um instrumento para construir a própria razão humana. Pela dúvida metódica, passo a passo, procede-se para o conhecimento de uma verdade que permite alcançar o conhecimento de outra verdade. Chega-se à verdade formulada, sem imposição de uma verdade revelada.
Não foi pouca coragem a dele para o dizer, pois nessa altura realizava-se o julgamento, terrível, de Galileu Galilei [1564-1642].
P. - Descartes receou ser perseguido?
R. - Ele sabia que os motivos que levaram a Inquisição a perseguir Galileu, ao negar a verdade sagrada que dizia ser o Sol que andava à volta da Terra, também o podiam atingir. Ele pensou muitas e muitas vezes sobre o que se estava a passar com o físico de Pisa e levou a sua prudência a demonstrar, de uma maneira claramente anti-racional, a existência da alma! Ele viu as barbas do vizinho a arder, julgado por cardeais do Santo Ofício... Galileu foi obrigado a desmentir-se [em 1633], a dizer que o Sol andava à volta da Terra, quando ele verificara que não era assim. Ficou sob vigilância censória, para "não cair nos mesmos erros". Até se diz, não sei se é verdade, que ele acatou a sentença, de que a Terra era o centro do Universo, mas lá para dentro ia murmurando, "et per si muove".
P. - Essa evocação de Galileu traz de novo a compreensão da velhice à conversa. A uma criança ser-lhe-ia impossível compreender o que dizia Galileu. Se a idade adulta é a da acção não é a meditação a da velhice?
R. - A velhice não permite nada! É, de facto, a ante-câmara da morte.
P. - Ou é sono, como pretendia Vitor Hugo?
R. - Sejamos sérios, o que pode fazer um homem que chega aos 105 anos?
P. - Não está antes a criticar uma certa publicidade que pratica a discriminação dos idosos, em nome da estética. Não é de todos os tempos o reconhecimento da sageza dos anciães?
R. - Cuidado, há duas etapas, a da velhice que vive e aquela que vegeta. O que se pode extrair de um homem com 105 anos? Recordações de um passado longínquo, algumas muito vagas, com umas poucas ideias.
P. - Não está a contradizer a visão ampla do horizonte que se tem do alto da montanha?
R. - Quando eu disse que ter 105 anos é subir pela montanha abaixo, queria dizer que isso não era mais do que a projecção de uma vida que já passou. A vida activa que faz o homem já se esgotou.
P. - Prometeu traz o fogo consigo, Sísifo transporta a carga do tempo. Há ainda o Fausto da eterna juventude, e o Pigamalião, marioneta social, que acaba por suplantar o original. Não é essa imagem fabricada, que associa juventude a corpo esbelto, que o apoquenta?
R. - É pior do que isso. É mesmo o confronto com a realidade. Quando olho para o espelho e vejo o estado físico em que me encontro, pergunto-me se sou eu mesmo, o que lutou uma vida inteira. Eu estou não a viver, mas a vegetar.
P. - Bom, enquanto houver consciência e pensamento, é difícil de aceitar essa visão depressiva. Não é penoso ver a sociedade que marginaliza o ancião, sonhar em clones, criar uma sociedade de Pigmaliões adestrados?
R. - Aí está uma palavra que é preciso ter em conta - sociedade. Esse é também um dos problemas da vida. O homem nasce bom, dizia Rousseau [1712-1778], o que o torna mau é a imersão na sociedade; daí que para preservarmos a nossa identidade individual, a sociedade tenha que passar um "contrato social" entre os seus membros.
Mas uma sociedade que precisa de um "contrato social" para se justificar é um absurdo. Nesse sentido, está contra a razão. Desde tempos imemoriais que o homem vive em sociedade, pelo menos desde o tempo em que Prometeu lhe comunicou o segredo do fogo. Com a agricultura fixou-se e deixou o estado selvagem. A partir daí teve que sujeitar-se a hábitos, costumes, a leis que ele próprio fez. Data daí a alienação do homem. Ele criou determinadas noções, às quais se sujeitou, e que depois acabaram por aliená-lo, moldá-lo numa outra natureza...
P. - Virou Pigmalião...
R. - ...por exemplo, a noção de deus é aqui em Portugal maioritariamente católica. Mas a história da construção deste ser transcendental, que na origem parece ser uma atitude irracional, é própria do homem, da sua razão humana. Foi uma maneira de interpretar a natureza. Os fenómenos que a ciência não sabia explicar foram atribuídos a uma força superior, o que, independentemente da validade da atribuição, é uma explicação. Daí que para se explicar a si mesmo, tenha criado um deus à sua imagem e semelhança.
P. - E assim se foi alienando. O que nos leva à oposição entre Fausto e Pigmalião. Gostava de ser Fausto?
R. - Pois é. Mas isso é impossível, por isso é que digo que a única razoabilidade da vida é esta - encaminhar-se para o fim. A vida não termina com a morte física, esvai-se antes disso. Falou em Fausto, pois bem, o grande drama da alienação humana é esse, depois de ter inventado toda uma série de regras, sujeita-se aquilo que criou.
P. - A morte e a solidão são sinónimos? A ausência dos entes queridos traz a solidão?
R. - Não é a solidão, é a confusão. Quando estou com amigos passo relativamente bem, mas sozinho a minha cabeça parece um vulcão que se esvazia em cada explosão.
Pessoalmente este foi um ano muito mau para mim. Morreu a minha mulher, tive dissabores pessoais, morreu um grande amigo meu, José Augusto Seabra, que teve um funeral incrível, com missa de corpo presente. Ele foi um grande lutador pela liberdade, contra um regime infame que durou 47 anos. A seguir à revolução democrática, numa lista que eu organizei, ele foi um dos deputados à Constituinte, aquele que lá fez talvez o mais belo discurso. Foi ministro e embaixador. Teve uma carreira académica notável... Teve um funeral que foi uma atitude de esquecimento. É uma injustiça.
António Melo Nelson Garrido
Emídio Guereiro perfaz 105 anos de vida no dia 6 de Setembro. Quando lhe pedem um balanço desta longa existência, diz que ela cabe por inteiro no poema de Paul Éluard, "Liberté", de que evoca os últimos versos: "Pelo poder de uma palavra // Reinício a vida // Nasci para te conhecer // Para te nomear - Liberdade". Nasceu em Guimarães, onde amanhã se vai comemorar o aniversário, numa celebração de projecção nacional, que a municipalidade vimaranense lhe dedica.
Filho de um oficial do Exército, António Guerreiro, que fez parte do corpo expedicionário na Grande Guerra de 1914-18, enviado para defender os territórios ultramarinos da eminente invasão germânica, dele herdou o fervor republicano e o impulso para a intervenção cívica.
Não fosse essa quase ânsia de modificar a sociedade no molde maçónico da liberdade, igualdade e fraternidade, o jovem Emídio teria sido um insigne matemático, com uma carreira académica a fazer-se sob a orientação de mestre Gomes Teixeira, que o escolheu em 1931 para seu assistente extraordinário.
Porém, em Janeiro de 1932 estava já no Aljube de Lisboa, preso por provocar um motim quando o general Carmona, líder da ditadura militar e Presidente da República do Estado Novo, visitou o Porto, em Dezembro de 1931. Do Aljube se evadiu no dia 4 de Abril de 1932, num exílio que só terminaria 42 anos mais tarde, com a Revolução dos Cravos.
Foi partidário dos republicanos na Guerra Civil de Espanha e resistente à ocupação nazi na França de Vichy. Quando regressou a Portugal, em 1974, liderou por curtos meses o PPD e foi deputado à Assembleia Constituinte. Depois aproximou-se do Partido Socialista e chegou a participar em algumas das suas campanhas eleitorais, mas sempre na qualidade de independente.
Nesta entrevista revela uma visão amarga sobre o destino da velhice, que vê como uma quase tragédia da condição humana. Mas o espírito de rebeldia, o fogo criativo do Prometeu agrilhoado, continua a arder-lhe nas entranhas.
P. - Entre a infância e a velhice há idade adulta. São as idades do homem, com que Édipo neutralizou a Esfinge?
R. - A Esfinge que devorava tudo, se não respondessem a uma determinada pergunta. E a reposta de Édipo foi: é o Homem. Assim se desfez a Esfinge e Édipo se fez rei. Mas estava escrito que ele mataria o pai, sem saber quem ele era, e casaria com a mãe. Foi rei incestuoso. Esta lenda é a primeira afirmação da potência humana, porque morrer, sem dar resposta à terrível Esfinge, significa que não se tinha a noção completa do que era a vida. Há um filósofo grego, Epicuro, que tem uma concepção maravilhosa sobre o que é a morte: "Enquanto tu és, a morte não existe, enquanto a morte não está, tu estás". Depois, é o nada absoluto.
O que não quer dizer que não receba a morte quase com alegria. Aquilo de que tenho horror não é da morte, é da velhice. A velhice é que não suporto.
P. - Porquê?
R. - Porque a velhice é uma espécie de condescendência da vida. Chega-se a um termo, que é aquele em que eu estou, em que já não há nada a dar. Sente-se uma espécie de vácuo. Mas é ridículo tentar filosofar aos 105 anos de idade. A meu ver é um limite máximo da vida.
Pessoalmente sinto-me cansado, muito, muito mesmo. O que me resta são fragmentos das noções que tive quando tinha uma verdadeira vida. É um naufrágio.
P. - Não é essa uma atitude dos cínicos, que desdiziam o que diziam. Fez uma proclamação sobre as limitações da velhice. Mas a criança está ainda mais limitada, pois ignora por completo o que é a experiência da vida.
R. - Certo. A vida só o é quando se adquire a consciência. A infância é um prefácio.
O que vou dizer poderá não agradar ao Papa, mas é a minha opinião. A vida humana não começa com o feto, começa com a consciência. A partir daí é que adquirimos uma existência própria. E depois vem a morte.
P. - Aos 105 anos o sopé da montanha é demasiado grande para o homem que está a subi-la?
R. - Quantas vezes não disse já que penso que estou a subir a montanha por ela abaixo? É uma subida negativa. Vejo-me projectado numa imagem ilusória, que me mostra a subir, quando na realidade estou a descer.
A velhice é um naufrágio em que o náufrago se agarra a tudo para continuar a supor que vive.
P. - O filósofo Jacques Derrida, em entrevista recente [Le Monde 19/8/04], falava da velhice como uma "sobre-vivência". Mas acrescentava que os "sobreviventes" são os que estão com a vida, não os que se lhe opõem.
R. - Não suporto essa velhice que se agarra à vida. A parte de uma sobre-vida não é uma super-vida. Eu entendo que a partir do momento em que o homem não é senhor da sua autonomia já não vive.
P. - Não é o sujeito soberano de si mesmo que define a sua capacidade autónoma? Não é a consciência de si que impõe os limites à autonomia? Não é esse o significado de Sísifo?
R. - Quando se pretende ultrapassar o impossível, a autonomia do homem ... Estou cansado... vamos fazer uma pausa...
Referiu Sísifo, mas já não estou a subir a montanha; é o contrário. É uma projecção que sai da vida. Imagine que o meu amigo está a descer a montanha e tem aos seus pés um espelho enorme. Há uma visão da vida que sobe, mas o caminhante desce. O aspecto real desta visão é o da vida não autónoma. É uma amarração à vida.
P. - Mas esse é o mito do Prometeu agrilhoado, que sofre a punição de quem trouxe o fogo criativo.
R. - Ah, a vida do Prometeu é a maravilha da mitologia. Quando penso em Prometeu e me recordo que roubou ao Olimpo o fogo sagrado, para o dar ao homem, vejo nele o primeiro acto da liberdade humana. Um desafio que pagou caro, muito caro, com as vísceras a serem devoradas pelas aves de rapina. É o primeiro passo do homem para a liberdade. O primeiro acto de rebeldia, que é também a primeira afirmação de autonomia da vida humana, que não se limita a ser só vida, é também a razão da vida.
Aí intervém um grande filósofo que acabou definitivamente com a escolástica medieval, Descartes, que nos deixou um formulário para podermos deduzir a verdade. A dúvida metódica é o grande trunfo do ser racional. O racionalismo não é senão a dúvida que o homem se põe e levou a ciência a desvendar e a interpretar os segredos da natureza.
Mas eu desejo que meus amigos vivam muito, só que não envelheçam.
P. - Só vê a velhice como decrepitude? Não pode ser uma reflexão da experiência?
R. - Não é. É um naufrágio.
P. - Tem que o ser necessariamente? Almeida Garrett não escreveu as "Folhas Caídas", que é um poema lírico à vida outonal?
R. - Não me estou a referir ao que vivi durante uma longa vida. Estou a falar do estado presente da velhice. Quer dizer, de um momento a partir do qual a vida já não tem a intensidade que lhe permite ser independente. Compreende?
P. - Não muito bem. Sujeitos soberanos podemos ser, mas em absoluto nunca o somos, precisamos de ser solidários.
R. - Bom, se discutimos assim a autonomia, numa perspectiva de sociedade, há sempre um limite. Não vou ao ponto de admitir o homem como o deus de si próprio, como queriam os anarquistas do tempo do Kroptkine. O que eu digo é que a individualidade é uma coisa muito rica. Combati a vida inteira pela dignidade do homem, e nessa dignidade estão duas coisas fundamentais: a dignidade e a liberdade.
P. - E a solidariedade e a tolerância pelo outro?
R. - Isso são atributos secundários. A individualidade é a marca da humanidade, pois estou convencido que não há dois homens iguais. Há sempre qualquer coisa que os faz singulares. Essa é uma especificidade do ser racional, mesmo que possa haver outras espécies animais com mais ou menos aspectos de atitude racional. Mas a razão humana é particular, porque é ela que faz com que se seja uma individualidade única.
P. - A racionalidade é inata, mas o racionalismo é uma construção?
R. - O racionalismo é uma grande descoberta da emancipação humana, permite-nos saber que somos homens. Todas as teorias filosóficas admitem o ser, admitem o estar, admitem o dogma. Mas só a partir de Descartes [1596-1650] é que o racionalismo passou a ser um instrumento para construir a própria razão humana. Pela dúvida metódica, passo a passo, procede-se para o conhecimento de uma verdade que permite alcançar o conhecimento de outra verdade. Chega-se à verdade formulada, sem imposição de uma verdade revelada.
Não foi pouca coragem a dele para o dizer, pois nessa altura realizava-se o julgamento, terrível, de Galileu Galilei [1564-1642].
P. - Descartes receou ser perseguido?
R. - Ele sabia que os motivos que levaram a Inquisição a perseguir Galileu, ao negar a verdade sagrada que dizia ser o Sol que andava à volta da Terra, também o podiam atingir. Ele pensou muitas e muitas vezes sobre o que se estava a passar com o físico de Pisa e levou a sua prudência a demonstrar, de uma maneira claramente anti-racional, a existência da alma! Ele viu as barbas do vizinho a arder, julgado por cardeais do Santo Ofício... Galileu foi obrigado a desmentir-se [em 1633], a dizer que o Sol andava à volta da Terra, quando ele verificara que não era assim. Ficou sob vigilância censória, para "não cair nos mesmos erros". Até se diz, não sei se é verdade, que ele acatou a sentença, de que a Terra era o centro do Universo, mas lá para dentro ia murmurando, "et per si muove".
P. - Essa evocação de Galileu traz de novo a compreensão da velhice à conversa. A uma criança ser-lhe-ia impossível compreender o que dizia Galileu. Se a idade adulta é a da acção não é a meditação a da velhice?
R. - A velhice não permite nada! É, de facto, a ante-câmara da morte.
P. - Ou é sono, como pretendia Vitor Hugo?
R. - Sejamos sérios, o que pode fazer um homem que chega aos 105 anos?
P. - Não está antes a criticar uma certa publicidade que pratica a discriminação dos idosos, em nome da estética. Não é de todos os tempos o reconhecimento da sageza dos anciães?
R. - Cuidado, há duas etapas, a da velhice que vive e aquela que vegeta. O que se pode extrair de um homem com 105 anos? Recordações de um passado longínquo, algumas muito vagas, com umas poucas ideias.
P. - Não está a contradizer a visão ampla do horizonte que se tem do alto da montanha?
R. - Quando eu disse que ter 105 anos é subir pela montanha abaixo, queria dizer que isso não era mais do que a projecção de uma vida que já passou. A vida activa que faz o homem já se esgotou.
P. - Prometeu traz o fogo consigo, Sísifo transporta a carga do tempo. Há ainda o Fausto da eterna juventude, e o Pigamalião, marioneta social, que acaba por suplantar o original. Não é essa imagem fabricada, que associa juventude a corpo esbelto, que o apoquenta?
R. - É pior do que isso. É mesmo o confronto com a realidade. Quando olho para o espelho e vejo o estado físico em que me encontro, pergunto-me se sou eu mesmo, o que lutou uma vida inteira. Eu estou não a viver, mas a vegetar.
P. - Bom, enquanto houver consciência e pensamento, é difícil de aceitar essa visão depressiva. Não é penoso ver a sociedade que marginaliza o ancião, sonhar em clones, criar uma sociedade de Pigmaliões adestrados?
R. - Aí está uma palavra que é preciso ter em conta - sociedade. Esse é também um dos problemas da vida. O homem nasce bom, dizia Rousseau [1712-1778], o que o torna mau é a imersão na sociedade; daí que para preservarmos a nossa identidade individual, a sociedade tenha que passar um "contrato social" entre os seus membros.
Mas uma sociedade que precisa de um "contrato social" para se justificar é um absurdo. Nesse sentido, está contra a razão. Desde tempos imemoriais que o homem vive em sociedade, pelo menos desde o tempo em que Prometeu lhe comunicou o segredo do fogo. Com a agricultura fixou-se e deixou o estado selvagem. A partir daí teve que sujeitar-se a hábitos, costumes, a leis que ele próprio fez. Data daí a alienação do homem. Ele criou determinadas noções, às quais se sujeitou, e que depois acabaram por aliená-lo, moldá-lo numa outra natureza...
P. - Virou Pigmalião...
R. - ...por exemplo, a noção de deus é aqui em Portugal maioritariamente católica. Mas a história da construção deste ser transcendental, que na origem parece ser uma atitude irracional, é própria do homem, da sua razão humana. Foi uma maneira de interpretar a natureza. Os fenómenos que a ciência não sabia explicar foram atribuídos a uma força superior, o que, independentemente da validade da atribuição, é uma explicação. Daí que para se explicar a si mesmo, tenha criado um deus à sua imagem e semelhança.
P. - E assim se foi alienando. O que nos leva à oposição entre Fausto e Pigmalião. Gostava de ser Fausto?
R. - Pois é. Mas isso é impossível, por isso é que digo que a única razoabilidade da vida é esta - encaminhar-se para o fim. A vida não termina com a morte física, esvai-se antes disso. Falou em Fausto, pois bem, o grande drama da alienação humana é esse, depois de ter inventado toda uma série de regras, sujeita-se aquilo que criou.
P. - A morte e a solidão são sinónimos? A ausência dos entes queridos traz a solidão?
R. - Não é a solidão, é a confusão. Quando estou com amigos passo relativamente bem, mas sozinho a minha cabeça parece um vulcão que se esvazia em cada explosão.
Pessoalmente este foi um ano muito mau para mim. Morreu a minha mulher, tive dissabores pessoais, morreu um grande amigo meu, José Augusto Seabra, que teve um funeral incrível, com missa de corpo presente. Ele foi um grande lutador pela liberdade, contra um regime infame que durou 47 anos. A seguir à revolução democrática, numa lista que eu organizei, ele foi um dos deputados à Constituinte, aquele que lá fez talvez o mais belo discurso. Foi ministro e embaixador. Teve uma carreira académica notável... Teve um funeral que foi uma atitude de esquecimento. É uma injustiça.
O GRITO
Domingo, 05 de Setembro de 2004
José Eduardo Agualusa
O que significa ter? As crianças começam muito cedo a dizer - "Dá!", e, uns meses mais tarde, "isso é meu". Hoje em dia há até muitas que aprendem primeiro a dizer "Dá!", e só depois Mamã e Papá. A seguir formam as primeiras frases: "Dá Mamã!". "Dá Papá!".
Vi recentemente uma reportagem sobre um americano que enriqueceu a vender terrenos na Lua. Largos milhares de pessoas aceitaram pagar uns tantos dólares, não muitos, é certo, para a seguir poderem dizer, apontando a lua, nas noites de lua cheia: "Tenho ali dois hectares". Ou, um outro, igualmente romântico mas mais afortunado: "O Mar da Tranquilidade, sabes?, onde poisou a Apolo 11 em 1969 - pois olha, é todo meu". Uma vasta planície de crateras e poeira a trezentos e oitenta e cinco mil quilómetros de distância.
Suspeita-se (leio nos jornais) que por detrás do recente roubo d' "O Grito", de Edvard Munch, esteja um próspero coleccionador norueguês, actualmente radicado no Sul de Espanha, que fez fortuna traficando álcool e cocaína. Parece-me isto ainda mais estranho - alguém gastar uma fortuna, arriscando ao mesmo tempo a liberdade, apenas para poder contemplar sozinho, e em segredo, uma tela famosa - do que comprar um terreno na Lua. Quem compra um terreno na lua crê que é seu algo que continua a ser de todos, e, na verdade, não pertence a ninguém. Quem quer que aceite comprar a versão roubada d' "O Grito" (conhecem-se quatro) crê que é seu algo que, todavia, continua a ser de todos, pois toda a gente conhece o quadro a partir dos milhões de cópias impressas que circulam pelo mundo, e nem sequer o pode exibir.
Consigo compreender um pouco melhor os coleccionadores cujo prazer consiste não tanto em possuir um qualquer objecto ou obra de arte, mas, sobretudo, em partilhá-lo com outros. Visitei, em São Paulo, a biblioteca de José Mindlin, um homem encantador, talvez o bibliófilo mais experiente e bem sucedido do mundo lusófono, e não pude deixar de experimentar um certo alvoroço quando ele me colocou entre as mãos um exemplar da primeira edição d' "Os Lusíadas", de 1572 (ele tem dois). Não o trocaria, porém, pela edição mais barata do "Livro do Desassossego". Acho muito bem que se valorize, até que se venere, aquele velho exemplar d' "Os Lusíadas". Trata-se, sem dúvida, de um objecto antigo e respeitável. Ainda assim prefiro lê-lo a venerá-lo. Surpreenderam-me mais os manuscritos que José Mindlin guarda na sua biblioteca. Esses, sim, são únicos, e, além do mais, a caligrafia preciosa e, em alguns casos, também as ilustrações, fazem deles legítimas obras de arte. Neles não é a palavra que brilha (a palavra pode brilhar, com idêntico esplendor, sobre o papel vulgar ou sobre o ouro); é o desenho e as cores.
Quanto a mim, se algum dia, graças a um qualquer golpe da sorte, viesse a dispor de meios suficientes para tal, preferia contratar um bom falsificador, para que me copiasse as minhas telas preferidas. Não vejo muita diferença, em termos de conteúdo, entre uma edição actual, barata, d' "Os Lusíadas", e aquelas que José Mindlin me mostrou; da mesma forma também não há diferença sensível entre uma boa cópia d' "O Grito", e os gritos originais.
Em 1911 um carpinteiro do Louvre, o italiano Vincenzo Peruggia, conseguiu roubar a Mona Lisa a mando de um presumível milionário. Este, todavia, nunca apareceu para a reclamar. A única coisa que pretendia era que o alarme fosse dado de forma a poder vender uma série de cópias, quase perfeitas, da famosa tela a coleccionadores (realmente) milionários. Peruggia, coitado, devolveu a obra, com a condição desta ser repatriada para Itália - um gesto nobre, mas inútil. Foi preso e a Mona Lisa continuou no Louvre.
A verdade é que eu preferia roubar, por exemplo, a Marisa Monte a roubar a Mona Lisa. Roubaria a Marisa Monte, a Lura, ou a Adriana Calcanhoto, ou as três, dependendo do custo da operação, para que cantassem só para mim, todos os dias, as vezes que eu quisesse, as minhas canções preferidas. Não tendo dinheiro para tal, compro os discos. Mas, é claro, um disco não se compara com um concerto ao vivo. Nem sempre as cópias, mesmo excelentes, conseguem parecer-se com o original.
José Eduardo Agualusa
O que significa ter? As crianças começam muito cedo a dizer - "Dá!", e, uns meses mais tarde, "isso é meu". Hoje em dia há até muitas que aprendem primeiro a dizer "Dá!", e só depois Mamã e Papá. A seguir formam as primeiras frases: "Dá Mamã!". "Dá Papá!".
Vi recentemente uma reportagem sobre um americano que enriqueceu a vender terrenos na Lua. Largos milhares de pessoas aceitaram pagar uns tantos dólares, não muitos, é certo, para a seguir poderem dizer, apontando a lua, nas noites de lua cheia: "Tenho ali dois hectares". Ou, um outro, igualmente romântico mas mais afortunado: "O Mar da Tranquilidade, sabes?, onde poisou a Apolo 11 em 1969 - pois olha, é todo meu". Uma vasta planície de crateras e poeira a trezentos e oitenta e cinco mil quilómetros de distância.
Suspeita-se (leio nos jornais) que por detrás do recente roubo d' "O Grito", de Edvard Munch, esteja um próspero coleccionador norueguês, actualmente radicado no Sul de Espanha, que fez fortuna traficando álcool e cocaína. Parece-me isto ainda mais estranho - alguém gastar uma fortuna, arriscando ao mesmo tempo a liberdade, apenas para poder contemplar sozinho, e em segredo, uma tela famosa - do que comprar um terreno na Lua. Quem compra um terreno na lua crê que é seu algo que continua a ser de todos, e, na verdade, não pertence a ninguém. Quem quer que aceite comprar a versão roubada d' "O Grito" (conhecem-se quatro) crê que é seu algo que, todavia, continua a ser de todos, pois toda a gente conhece o quadro a partir dos milhões de cópias impressas que circulam pelo mundo, e nem sequer o pode exibir.
Consigo compreender um pouco melhor os coleccionadores cujo prazer consiste não tanto em possuir um qualquer objecto ou obra de arte, mas, sobretudo, em partilhá-lo com outros. Visitei, em São Paulo, a biblioteca de José Mindlin, um homem encantador, talvez o bibliófilo mais experiente e bem sucedido do mundo lusófono, e não pude deixar de experimentar um certo alvoroço quando ele me colocou entre as mãos um exemplar da primeira edição d' "Os Lusíadas", de 1572 (ele tem dois). Não o trocaria, porém, pela edição mais barata do "Livro do Desassossego". Acho muito bem que se valorize, até que se venere, aquele velho exemplar d' "Os Lusíadas". Trata-se, sem dúvida, de um objecto antigo e respeitável. Ainda assim prefiro lê-lo a venerá-lo. Surpreenderam-me mais os manuscritos que José Mindlin guarda na sua biblioteca. Esses, sim, são únicos, e, além do mais, a caligrafia preciosa e, em alguns casos, também as ilustrações, fazem deles legítimas obras de arte. Neles não é a palavra que brilha (a palavra pode brilhar, com idêntico esplendor, sobre o papel vulgar ou sobre o ouro); é o desenho e as cores.
Quanto a mim, se algum dia, graças a um qualquer golpe da sorte, viesse a dispor de meios suficientes para tal, preferia contratar um bom falsificador, para que me copiasse as minhas telas preferidas. Não vejo muita diferença, em termos de conteúdo, entre uma edição actual, barata, d' "Os Lusíadas", e aquelas que José Mindlin me mostrou; da mesma forma também não há diferença sensível entre uma boa cópia d' "O Grito", e os gritos originais.
Em 1911 um carpinteiro do Louvre, o italiano Vincenzo Peruggia, conseguiu roubar a Mona Lisa a mando de um presumível milionário. Este, todavia, nunca apareceu para a reclamar. A única coisa que pretendia era que o alarme fosse dado de forma a poder vender uma série de cópias, quase perfeitas, da famosa tela a coleccionadores (realmente) milionários. Peruggia, coitado, devolveu a obra, com a condição desta ser repatriada para Itália - um gesto nobre, mas inútil. Foi preso e a Mona Lisa continuou no Louvre.
A verdade é que eu preferia roubar, por exemplo, a Marisa Monte a roubar a Mona Lisa. Roubaria a Marisa Monte, a Lura, ou a Adriana Calcanhoto, ou as três, dependendo do custo da operação, para que cantassem só para mim, todos os dias, as vezes que eu quisesse, as minhas canções preferidas. Não tendo dinheiro para tal, compro os discos. Mas, é claro, um disco não se compara com um concerto ao vivo. Nem sempre as cópias, mesmo excelentes, conseguem parecer-se com o original.
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