Quarta-feira, 29 de Setembro de 2004
Vi com atenção Maria do Carmo Seabra na televisão. Que se passará na cabeça desta mulher? - pergunto-me. A situação é suficientemente constrangedora para suscitar a simpatia de qualquer cidadão comum. Contudo, Maria do Carmo Seabra não ajuda, dado que a sua presença está longe de ser simpática. Ela conseguiu pegar num processo em que de facto não tem culpas directas e somar tantas ingenuidades e declarações infelizes que acaba por parecer a principal culpada.
Deve haver algum mistério em tudo isto, mas a verdade é que ainda não percebi por que motivo o processo se deve desenrolar assim. Entendo que haja professores que queiram mudar, que uns se reformem e outros vão viver para a Patagónia, mas não entendo que seja mesmo necessário que um aluno mude de professores todos os anos. Considero, pela simples intuição, que aquilo que é essencial em educação (não apenas a transmissão de um saber precário, mas a criação de uma relação transferencial através do saber transmitido) fica claramente posto em causa. Também não vejo vantagens na mudança constante de um professor para novos ambientes. E dou um exemplo.
Quando comecei a exercer as minhas funções de conselheiro cultural em Paris, muita gente, sobretudo diplomatas de carreira, vinha dizer com a mesma volúpia sádica com que em tempos me perguntavam se já tinha ido à tropa: "Já sabes, são três aninhos." No primeiro ano, realizei a minha instalação e esforcei-me por perceber os problemas. Como sempre, entre a realidade efectiva e as minhas ideias preconcebidas havia uma imensa desproporção. No segundo ano, estabeleci os contactos, organizei projectos, encontrei métodos de actuação. Só no terceiro ano comecei a trabalhar efectivamente. Seria nessa altura, quando começava a perceber alguma coisa do que estava a fazer, que devia vir-me embora?
Com os professores, deve acontecer algo semelhante. Mas a ministra tinha um concurso em andamento e acreditou piamente no que lhe foram dizendo. Talvez todos tenham acreditado, excepto os computadores. A ministra tem uma presença política desastrosa. Mistura um ar de tédio e sobranceria com uma atitude que parece dizer que espera ardentemente que lhe retirem aquele frete. Admito que não durma, que tenha pesadelos, que perceba o ridículo de uma lista que ela dizia estar certa de ser boa durar apenas um fogacho nocturno de 40 minutos, mas tem sempre um ar de que tudo aquilo não tem nada a ver com ela. Podemos estar certos de que à primeira oportunidade salta do barco. Tendo começado tão mal, jamais se poderá afeiçoar à tarefa.
Agora vão resolver tudo manualmente. Vinte e duas equipas ocupam-se do que se passa no país, embora mesmo um leigo entenda que o problema está sempre na coordenação das consequências a nível nacional. Suponho que no Ministério da Educação andam todos cheios de olheiras, com um creme anti-stress, desde a ministra até aos motoristas. "Que está a fazer o senhor Afonso, que deixou o carro na garagem e nunca mais lá foi?" "Anda a colocar professores." Não sei quais serão os frutos de tantas mãos. Nesse dia. a ministra e a drª. Orvalho estarão num hotel SPA a recuperar deste inferno.
29 de setembro de 2004
26 de setembro de 2004
Outrora agoras
| Autobiografia de Mário de Carvalho
JL 15 Set. 2004 Não contei a ninguém que o meu primeiro livro estava para sair. Salvo o grupo dos Quatro Elementos Editores, a Lena, muito poucos sabiam que eu ia publicar. Amigos mais chegados nem suspeitavam. Queria que o livro aparecesse fora dos meus circuitos habituais, em território desconhecido, para ter a certeza de que não interferiam favorecimentos. O Ernesto José Rodrigues dera o manuscrito a ler ao João de Melo, na altura consultor da Vega. Eu desconhecia tanto o escritor, como a editora. Fui contactado, resultou. Coisa rara e preciosa, naqueles apertados tempos. Em certa tarde de Julho de 1981, trouxeram-me da tipografia os primeiros exemplares de Contos da Sétima Esfera . Entretanto, a obra dactilografada já havia naufragado em concurso de inéditos da Associação Portuguesa de Escritores. Falira também uma pequena editora que tinha acolhido o manuscrito. Enfim, sobrevivemos à primeira linha de torpedos. O cheiro vivaz do perfume, a rescender a coisa nova e benigna nunca mais foi tão penetrante (romanescamente, eu poderia mesmo dizer «inebriante») como nesse dia. Seguiu-se o sentimento de estranheza, um tanto desconfortável, ao confirmar, nas livrarias, que aquela indiscreta fotografia na contracapa era mesmo a minha. Começava a metamorfose em escritor. Chegava o mundo dos «lançamentos» dos «confrades» (e «consorores») das recensões, dos jornalistas, dos artigos, das viagens, das universidades, dos colóquios, das traduções, das escolas, associações e institutos, das solicitações, entrevistas, fotógrafos, encomendas, crónicas, exibições e habilidades várias, sempre longe e fora de mão. Pelo meio, ingenuidades, espantos, desacertos e distracções. Júbilos. Mal-entendidos, equívocos. Bloqueios e procrastinações. Amizades giras. Furores passageiros. Sofridas vigarices fininhas. Silêncios distraídos. Omissões velhacas. Disparates. Fui-me deixando levar, entre a curiosidade e o susto, o gáudio e a depressão. Tenho perdido algum sono, acrescentado neuras e enfados, aturado traições e rasquices. Exaltações, poucas. Persisto na fraqueza de dar confiança a quem não devo. Nos primórdios levava tudo muito a sério, zangava-me, bramia, interpelava e não ganhava nada com isso. Agora, vamos andando... Não fora aquele passo de há quase vinte e cinco anos, o apoio de Fernando Guerreiro, da Lena e de outros próximos, talvez a Sétima Esfera jazesse, estéril, entre papéis velhos, na gaveta dos tentames esquecidos. Talvez eu vencesse o fastio pela advocacia e ainda esbravejasse hoje pelos tribunais a invocar a «excepção do inadimplemento contratual». *** Sou iniludivelmente um homem do Sul. Em rigor, vim nascer a Lisboa, mas essa circunstância conta menos que o feixe de memórias e afeições que me prende ao Alentejo. Os grandes espaços, a paisagem, a maneira de estar, de falar, de cantar, ficaram-me gravados desde a infância . A minha avó tinha as mãos enrugadas e quentes, era bom adormecer ao colo dela, junto ao lume, naquela enorme lareira, onde a família se dispunha em cadeirinhas de palha, todos conversando, em tons de negro e vermelho. Os gatos, espojados, tisnavam o pêlo de tanto arrimo às brasas. Saltavam faúlhas. De vez em quando, estalava uma bolota a secar ao fumo. Eu ia dormitando, naquela modorra amiga, entre vagos ressoos de voz que ora pareciam altear-se, ora sumir-se. Lá fora, pesavam tempos de humilhação e de vergonha. Nas praças de jorna avaliavam-se músculos e dentes, como a animais. Eram proibidos ajuntamentos. Era proibido cantar. Trabalhava-se de Sol a Sol. Passava-se muita fome. Havia herdades enormes em que dispunha uma gentalha torpe e salafrária, amigada com a pide e com o fascismo. A maior parte das pessoas não tinham nada de seu, a não ser a doença e a miséria. A Guarda Republicana desses tempos «chamava ao posto» e espancava a pobre gente, mesmo para dirimir casos cíveis. Celerada época e não há razoar revisionista que a desculpe ou branqueie. Vivemos por pouco tempo em Setúbal. Depois, Lisboa. Íamos a Alvalade pelas Festas e pelo Verão. Nos primeiros tempos, não havia ponte. Calculava-se a olho o caudal do rio (ali chamam ao Sado «Ribeira») e vadeava-se, arriscando o motor. Mais duma vez vieram as parelhas tirar-nos da água. Na Vila, chusmas de moços corriam atrás do carro. Um automóvel era uma festa. Depois chegávamos ao Monte da Vinha, extensões a perder de vista, pelo menos para a minha estatura, correrias, traquinices e a grande complacência da família. Tudo tinha outras cores, outros sabores, outros cheiros, outro encanto. E eu era curioso... Fazia as perguntas certas. |
Life is like a river
Life is like a river
Let it carry you,
not knowing where
it will take you,
and you will journey
to amazing places;
Or, stay on the shore,
knowing for sure
where you will be,
and you will go nowhere
Let it carry you,
not knowing where
it will take you,
and you will journey
to amazing places;
Or, stay on the shore,
knowing for sure
where you will be,
and you will go nowhere
Biografias
Margarida de Windsor, de Luisa Paiva Boléo
Filha de rei e irmã de rainha, optaria por viver entre artistas e boémios. Com múltiplas e contrariadas paixões. Sem esquecer os deveres da corte. Com a elegância de uma princesa à moda antiga.
Margarida Rosa de Windsor foi uma princesa diferente. Elegante, moderna, viajada, gostava de música, bailado e cinema. Teve um refúgio amoroso numa ilha das Caraíbas e foi a princesa mais cobiçada pelos fotógrafos, nas décadas de 60 e 70, tal como o seria, mais tarde, Diana de Gales. Os seus amores passaram. Apenas o amor dos dois filhos, David e Sara, e depois a alegria dos netos, lhe deram a serenidade de partir deste mundo com a certeza de que a sua vida tinha valido a pena.
Margarida foi uma criança feliz que o pai, então apenas príncipe, acarinhou e protegeu. Brincou com bonecas com casinhas feitas por Hoopers, então responsável pelo design da Rolls Royce. A sua infância foi passada nos verdejantes campos da Escócia, onde nasceu, no castelo de Glamis, a 21 de Agosto de 1930. Aos seis anos, o pai, Jorge VI, subiu ao trono. E a sua vida modificou--se totalmente. A irmã mais velha passou a ser educada para rai-nha e Margarida teve uma adolescência refugiada nos livros, na música e na dança.
Aos 14 anos, passeando pelo palácio, reparou como era bonito e elegante um oficial da RAF, então funcionário da corte do seu pai, de nome Peter Townsend. Mais tarde, Margarida contaria a um dos seus biógrafos como ficara completamente fascinada por Peter logo da primeira vez que o vira. Mas a menina ainda não sabia bem definir os seus sentimentos.
Aos 21 anos, com um vestido Dior, Margarida foi imortalizada por Cecil Beaton. Depois da sessão fotográfica, Beaton comentou que os deslumbrantes "olhos de gata" da princesa eram, ao mesmo tempo, felinos e doces.
Em 1944, a Segunda Guerra Mundial ainda decorria. As conversas entre Peter e Margarida seriam informais e de circunstância, até porque ele era um homem casado e pai de dois filhos. Em 1947, os monarcas, Jorge VI e Elizabeth (a Rainha-mãe), acompanhados das filhas, visitaram a África do Sul. E Peter Townsend ia na comitiva. Será que foi ali que despertou o amor proibido entre os dois?
Em 1952, depois da morte do pai e da subida ao trono da irmã, Isabel II, Margarida, deprimida e sozinha, terá pensado como poderia ser feliz com aquele homem, que ela sabia que também a amava.
Na coroação da rainha Isabel II, em 1953, lá estavam Peter e Margarida, bem perto um do outro. No final da cerimónia, houve um momento em que Margarida, imperceptivelmente, retirou da lapela do fato de Peter uma pequena poeira. Os fotógrafos estavam lá... viram, registaram e imediatamente perceberam que aquele pequeno gesto fazia adivinhar algo de mais íntimo entre os dois. Como esse gesto nos parece hoje incrivelmente ingénuo, comparado com as fotografias comprometedoras das noras da rainha Isabel II, nos anos 90!
A notícia saltou para as primeiras páginas dos jornais. Ficou a saber-se que, aos 23 anos, a irmã da rainha amava Peter Townsend, muito mais velho e já divorciado. A rainha e a mãe ficaram alarmadas e tiveram de tomar uma atitude rápida. Segundo uma lei antiga, os irmãos do monarca, até aos 25 anos, deviam pedir autorização a Sua Majestade para poderem contrair matrimónio. Era o caso de Margarida. Tornou-se imperioso afastá-la de Peter. Assim, Margarida foi viajar com a mãe para a Rodésia (Zimbabwe), enquanto o Governo enviava rapidamente Peter Townsend para Bruxelas, numa missão na embaixada da Grã-Bretanha naquele país.
Peter Townsend, mesmo divorciado, era um impedimento ao casamento, porque para a Igreja Anglicana e para a família real britânica, nos anos 50, uma princesa não podia, de forma alguma, casar com um divorciado. E ainda estava na lembrança de todos a
abdicação do irmão do rei, em 1936: Eduardo VIII, entre o trono e uma americana divorciada, Wallis Simpson, optara pela segunda.
Se Margarida teimasse em casar, faria um casamento civil e deixaria não só de ser Alteza Real, como não teria mais mordomias, nem castelos para viver nem as regalias de uma princesa de nascimento. A pressão da família, do Governo e da Igreja Anglicana era grande. E não era fácil, aos 25 anos, deixar de viver uma vida de luxo para ser apenas a senhora Townsend. Margarida engoliu as lágrimas e, em Outubro de 1955, disse adeus ao seu primeiro amor. Este foi apenas o fim do primeiro capítulo da sua agitada vida amorosa.
Não tinha sido apenas Peter a reparar como Margarida se transformara numa mulher sensual, alegre e muito elegante. Foi precisamente depois desta enorme desilusão amorosa que Margarida começou a sentir-se mais desejada e requestada. Do seu ciclo de amigos, que ficou conhecido por Margaret Set, constavam o milionário escocês conde de Dalkeith, o marquês de Blandford, o duque de Marlborough, Lord Porchester e tantos outros, como Colin Tennant, seu amigo durante toda a vida, que lhe falaria da beleza das Caraíbas, onde Margarida teria mais tarde o seu refúgio, na ilha de Mustique, com o nome Les Jolies Eaux.
Apontava-se então como seu possível noivo o rico Billy Wallace, que foi passar férias às Bahamas, com amigos, gozando os seus "últimos dias de liberdade". Mas, no regresso, teve a surpresa de a princesa Margarida dar o caso por encerrado. Os presumíveis "noivos" de Margarida surgiam, nos jornais da noite para o dia, como cogumelos. Os monarcas e pais da volúvel princesa sempre esperaram que a filha casasse cedo com um aristocrata inglês, mas Margarida não parecia muito interessada em casar, preferindo o convívio de artistas do mundo da música e do cinema.
Das muitas viagens que fez, Margarida visitou Portugal, em 1959, para estar presente na Feira das Indústrias Britânicas. Nesse ano, era já conhecido o seu novo namorado. O casamento, no ano seguinte, teve grande cobertura no nosso país, na revista Flama, que lhe chamou "o idílio do ano". O Século Ilustrado foi mais longe e considerou o enlace como "o casamento do século". Mal sabiam eles que o mais mediático casamento seria nos anos 80.
Um dia, a dama de companhia da princesa Margarida, Elizabeth Cavendish, apresentou-lhe o fotógrafo de moda Antony Armstrong-Jones, também de pequena estatura, como Margarida, e muito divertido. As noitadas e parties sucederam--se. Antony era já um fotógrafo famoso, conhecia o mundo da moda e do cinema e tinha uma vida de boémio que fascinou Margarida. Sabe-se que a primeira reacção da rainha e do seu marido, o duque de Edimburgo, foi negativa. Um fotógrafo na família real britânica?
Porém, desta vez, Margarida não tencionava abdicar dos seus amores. Estava a completar 30 anos e não parecia ter qualquer predilecção pelos príncipes europeus disponíveis de então. Restavam, é certo, muitos aristocratas da velha Albion, que também não a impressionavam. Quando o seu antigo namorado, Peter, lhe telefonou da Bélgica a dizer que ia casar com uma belga, Margarida apressou a irmã a anunciar o seu casamento com o fotógrafo Armstrong-Jones. Três meses depois, em Maio de 1960, numa cerimónia na Abadia de Westminster, a princesa foi conduzida ao altar pelo cunhado, que também foi seu padrinho. Sabe-se que Filipe de Edimburgo não simpatizou particularmente com o noivo de Margarida, mas acabou por aceitá-lo. A rainha só queria a felicidade da irmã e concedeu a Antony Armstrong-Jones o título de Conde de Snowdon. A lua-de-mel foram seis semanas no iate real Britannia. Estiveram na Índia e nas Caraíbas, entre outros lugares de sonho.
Uma nota discordante neste casamento: as casas reais europeias primaram pela ausência. Uma princesa, filha de rei e irmã de rainha, casar com um fotógrafo! Curioso é ainda hoje Lord Snowdon, também visconde de Linley, título concedido pela rai-nha na véspera do nascimento do primeiro filho, ser aos 72 anos um fotógrafo famoso e continuar a receber convites da família real para quase todos os eventos da monarquia. Não apenas por ser pai dos sobrinhos da rainha e os seus filhos serem netos da Rainha-mãe, mas também porque, embora lhe tenham ao longo dos anos oferecido somas irrecusáveis para contar a sua vida privada com a princesa Margarida, jamais a sua boca se ter aberto. Uma das pessoas que tentou entrevistá-lo e que também recebeu uma resposta negativa foi Jacqueline Kennedy Onassis. Depois de enviuvar pela segunda vez, passou a colaborar numa revista americana de grande tiragem e fez tudo para entrevistar o ex-marido de Margarida, que recusou.
Nos primeiros anos, tudo correu bem no casamento de Margarida e Antony. Mas, irreverente e volúvel, Margarida Rosa de Windsor, misto de star e lady, não aguentou muitos anos ao lado de Antony.
Nas décadas de 60 e 70, Margarida foi a mais fotografada princesa do universo. Ela foi, juntamente com os Beatles, James Bond (Sean Connery), o Mini (um automóvel), a pílula contraceptiva, a mini-saia, os vestidos Dior, a lambreta e Julie Christie, um dos ícones desses anos "loucos" para uma juventude irreverente e com muita liberdade.
Margarida gozava a vida. Não perdia um espectáculo de bailado. Era amiga pessoal dos bailarinos Margot Fonteyn (1919- 1991) e Rudolfo Nureyev (1938-1993), que foram durante anos o par romântico do ballet britânico e talvez mundial. Snowdon fez fotos maravilhosas destes bailarinos, bem como da família real, que demonstram o seu enorme talento.
Margarida não se podia furtar às suas obrigações como princesa, representando a rainha em várias viagens. Nos EUA, não houve celebridade do cinema que não se deixasse fotografar com a princesa do glamour - nomes como Elizabeth Taylor, Frank Sinatra e Louis Armstrong, que lhe dedicou uma música. Os viscondes de Linley estiveram várias vezes em Itália e na Grécia, onde o armador Niarkos os convidava para a sua ilha privativa. Enfim, Margarida e Antony foram as vedetas do momento.
E como tudo tem um princípio e um fim, Margarida e o marido, após seis anos de casamento e dois filhos, começaram a mostrar algum desentendimento. Para isso terá contribuído a paixão arrebatadora da princesa pelo pianista Robin Douglas-
-Home, que conheceu num clube nocturno, em 1966. Terá sido uma verdadeira paixão. Mas Margarida, talvez pressionada, pôs um ponto final no romance. Afinal, era uma senhora casada com filhos. Para Robin, foi mais dramático, porque não terá aceite bem a separação. E ano e meio depois, suicidou-se.
Informada a rainha de que a irmã e o cunhado faziam vidas separadas, surgiu no horizonte o tão temido divórcio. O casal continuou a viver na sua residência oficial, Kensington Palace, para manter as aparências, enquanto os filhos foram pequenos. Separaram--se em 1976 e, dois anos depois, foi decretado o divórcio. O primeiro divórcio na família real, desde o de Henrique VIII, em 1529, dispensando o literal rolar de cabeças. E em 1973, ano do casamento da princesa Ana, filha da rainha, falou-se muito do novo amor de Margarida, Roddy Lleweellyn, um jovem arquitecto paisagista com menos 17 anos que ela. Margarida deitou as conveniências para trás das costas e voou para o seu "ninho de amor" na ilha de Mustique, nas Caraíbas, que viria a tornar-se local de festas do jet-set de então. Por lá passaram David Bowie, Raquel Welch, Bryan Ferry, Mick e Bianca Jagger, Elton John, Tommy Hilfiger e muitos outros amigos da princesa irreverente, que exigia que ninguém se fosse deitar antes dela, prolongando as festas até de manhã.
Estas fugas deram origem a pala-vras duras na imprensa. Houve mesmo um jornal que tratou Margarida como "uma princesa decadente e inútil". Também o Governo e o primeiro-ministro chegaram a pressionar a rainha para riscar o nome da irmã da Civil List, onde constam os nomes dos membros da família real, parentes muito próximos e súbditos que prestaram relevantes serviços à monarquia, com residência e despesas pagas pela rainha.
Margarida separou-se de Roddy quando este casou com uma desenhadora de moda. Apesar da separação, permaneceram amigos até à morte da princesa, no passado dia 9 de Fevereiro.
Para Margarida Rosa de Windsor, o seu maior orgulho foram os filhos, David e Sara, ambos com profissões ligadas às artes. São casados e têm filhos. Margarida teria o quarto neto nesta Primavera. Foram os filhos que estiveram junto da mãe nos seus derradeiros minutos.
Com o desaparecimento de Diana de Gales e a morte recente de Margarida, a coroa britânica parece ir perdendo, pouco a pouco, as suas pedras mais cintilantes...
Os ídolos que não escaparam à admiração da Princesa
Filha de rei e irmã de rainha, optaria por viver entre artistas e boémios. Com múltiplas e contrariadas paixões. Sem esquecer os deveres da corte. Com a elegância de uma princesa à moda antiga.
Margarida Rosa de Windsor foi uma princesa diferente. Elegante, moderna, viajada, gostava de música, bailado e cinema. Teve um refúgio amoroso numa ilha das Caraíbas e foi a princesa mais cobiçada pelos fotógrafos, nas décadas de 60 e 70, tal como o seria, mais tarde, Diana de Gales. Os seus amores passaram. Apenas o amor dos dois filhos, David e Sara, e depois a alegria dos netos, lhe deram a serenidade de partir deste mundo com a certeza de que a sua vida tinha valido a pena.
Margarida foi uma criança feliz que o pai, então apenas príncipe, acarinhou e protegeu. Brincou com bonecas com casinhas feitas por Hoopers, então responsável pelo design da Rolls Royce. A sua infância foi passada nos verdejantes campos da Escócia, onde nasceu, no castelo de Glamis, a 21 de Agosto de 1930. Aos seis anos, o pai, Jorge VI, subiu ao trono. E a sua vida modificou--se totalmente. A irmã mais velha passou a ser educada para rai-nha e Margarida teve uma adolescência refugiada nos livros, na música e na dança.
Aos 14 anos, passeando pelo palácio, reparou como era bonito e elegante um oficial da RAF, então funcionário da corte do seu pai, de nome Peter Townsend. Mais tarde, Margarida contaria a um dos seus biógrafos como ficara completamente fascinada por Peter logo da primeira vez que o vira. Mas a menina ainda não sabia bem definir os seus sentimentos.
Aos 21 anos, com um vestido Dior, Margarida foi imortalizada por Cecil Beaton. Depois da sessão fotográfica, Beaton comentou que os deslumbrantes "olhos de gata" da princesa eram, ao mesmo tempo, felinos e doces.
Em 1944, a Segunda Guerra Mundial ainda decorria. As conversas entre Peter e Margarida seriam informais e de circunstância, até porque ele era um homem casado e pai de dois filhos. Em 1947, os monarcas, Jorge VI e Elizabeth (a Rainha-mãe), acompanhados das filhas, visitaram a África do Sul. E Peter Townsend ia na comitiva. Será que foi ali que despertou o amor proibido entre os dois?
Em 1952, depois da morte do pai e da subida ao trono da irmã, Isabel II, Margarida, deprimida e sozinha, terá pensado como poderia ser feliz com aquele homem, que ela sabia que também a amava.
Na coroação da rainha Isabel II, em 1953, lá estavam Peter e Margarida, bem perto um do outro. No final da cerimónia, houve um momento em que Margarida, imperceptivelmente, retirou da lapela do fato de Peter uma pequena poeira. Os fotógrafos estavam lá... viram, registaram e imediatamente perceberam que aquele pequeno gesto fazia adivinhar algo de mais íntimo entre os dois. Como esse gesto nos parece hoje incrivelmente ingénuo, comparado com as fotografias comprometedoras das noras da rainha Isabel II, nos anos 90!
A notícia saltou para as primeiras páginas dos jornais. Ficou a saber-se que, aos 23 anos, a irmã da rainha amava Peter Townsend, muito mais velho e já divorciado. A rainha e a mãe ficaram alarmadas e tiveram de tomar uma atitude rápida. Segundo uma lei antiga, os irmãos do monarca, até aos 25 anos, deviam pedir autorização a Sua Majestade para poderem contrair matrimónio. Era o caso de Margarida. Tornou-se imperioso afastá-la de Peter. Assim, Margarida foi viajar com a mãe para a Rodésia (Zimbabwe), enquanto o Governo enviava rapidamente Peter Townsend para Bruxelas, numa missão na embaixada da Grã-Bretanha naquele país.
Peter Townsend, mesmo divorciado, era um impedimento ao casamento, porque para a Igreja Anglicana e para a família real britânica, nos anos 50, uma princesa não podia, de forma alguma, casar com um divorciado. E ainda estava na lembrança de todos a
abdicação do irmão do rei, em 1936: Eduardo VIII, entre o trono e uma americana divorciada, Wallis Simpson, optara pela segunda.
Se Margarida teimasse em casar, faria um casamento civil e deixaria não só de ser Alteza Real, como não teria mais mordomias, nem castelos para viver nem as regalias de uma princesa de nascimento. A pressão da família, do Governo e da Igreja Anglicana era grande. E não era fácil, aos 25 anos, deixar de viver uma vida de luxo para ser apenas a senhora Townsend. Margarida engoliu as lágrimas e, em Outubro de 1955, disse adeus ao seu primeiro amor. Este foi apenas o fim do primeiro capítulo da sua agitada vida amorosa.
Não tinha sido apenas Peter a reparar como Margarida se transformara numa mulher sensual, alegre e muito elegante. Foi precisamente depois desta enorme desilusão amorosa que Margarida começou a sentir-se mais desejada e requestada. Do seu ciclo de amigos, que ficou conhecido por Margaret Set, constavam o milionário escocês conde de Dalkeith, o marquês de Blandford, o duque de Marlborough, Lord Porchester e tantos outros, como Colin Tennant, seu amigo durante toda a vida, que lhe falaria da beleza das Caraíbas, onde Margarida teria mais tarde o seu refúgio, na ilha de Mustique, com o nome Les Jolies Eaux.
Apontava-se então como seu possível noivo o rico Billy Wallace, que foi passar férias às Bahamas, com amigos, gozando os seus "últimos dias de liberdade". Mas, no regresso, teve a surpresa de a princesa Margarida dar o caso por encerrado. Os presumíveis "noivos" de Margarida surgiam, nos jornais da noite para o dia, como cogumelos. Os monarcas e pais da volúvel princesa sempre esperaram que a filha casasse cedo com um aristocrata inglês, mas Margarida não parecia muito interessada em casar, preferindo o convívio de artistas do mundo da música e do cinema.
Das muitas viagens que fez, Margarida visitou Portugal, em 1959, para estar presente na Feira das Indústrias Britânicas. Nesse ano, era já conhecido o seu novo namorado. O casamento, no ano seguinte, teve grande cobertura no nosso país, na revista Flama, que lhe chamou "o idílio do ano". O Século Ilustrado foi mais longe e considerou o enlace como "o casamento do século". Mal sabiam eles que o mais mediático casamento seria nos anos 80.
Um dia, a dama de companhia da princesa Margarida, Elizabeth Cavendish, apresentou-lhe o fotógrafo de moda Antony Armstrong-Jones, também de pequena estatura, como Margarida, e muito divertido. As noitadas e parties sucederam--se. Antony era já um fotógrafo famoso, conhecia o mundo da moda e do cinema e tinha uma vida de boémio que fascinou Margarida. Sabe-se que a primeira reacção da rainha e do seu marido, o duque de Edimburgo, foi negativa. Um fotógrafo na família real britânica?
Porém, desta vez, Margarida não tencionava abdicar dos seus amores. Estava a completar 30 anos e não parecia ter qualquer predilecção pelos príncipes europeus disponíveis de então. Restavam, é certo, muitos aristocratas da velha Albion, que também não a impressionavam. Quando o seu antigo namorado, Peter, lhe telefonou da Bélgica a dizer que ia casar com uma belga, Margarida apressou a irmã a anunciar o seu casamento com o fotógrafo Armstrong-Jones. Três meses depois, em Maio de 1960, numa cerimónia na Abadia de Westminster, a princesa foi conduzida ao altar pelo cunhado, que também foi seu padrinho. Sabe-se que Filipe de Edimburgo não simpatizou particularmente com o noivo de Margarida, mas acabou por aceitá-lo. A rainha só queria a felicidade da irmã e concedeu a Antony Armstrong-Jones o título de Conde de Snowdon. A lua-de-mel foram seis semanas no iate real Britannia. Estiveram na Índia e nas Caraíbas, entre outros lugares de sonho.
Uma nota discordante neste casamento: as casas reais europeias primaram pela ausência. Uma princesa, filha de rei e irmã de rainha, casar com um fotógrafo! Curioso é ainda hoje Lord Snowdon, também visconde de Linley, título concedido pela rai-nha na véspera do nascimento do primeiro filho, ser aos 72 anos um fotógrafo famoso e continuar a receber convites da família real para quase todos os eventos da monarquia. Não apenas por ser pai dos sobrinhos da rainha e os seus filhos serem netos da Rainha-mãe, mas também porque, embora lhe tenham ao longo dos anos oferecido somas irrecusáveis para contar a sua vida privada com a princesa Margarida, jamais a sua boca se ter aberto. Uma das pessoas que tentou entrevistá-lo e que também recebeu uma resposta negativa foi Jacqueline Kennedy Onassis. Depois de enviuvar pela segunda vez, passou a colaborar numa revista americana de grande tiragem e fez tudo para entrevistar o ex-marido de Margarida, que recusou.
Nos primeiros anos, tudo correu bem no casamento de Margarida e Antony. Mas, irreverente e volúvel, Margarida Rosa de Windsor, misto de star e lady, não aguentou muitos anos ao lado de Antony.
Nas décadas de 60 e 70, Margarida foi a mais fotografada princesa do universo. Ela foi, juntamente com os Beatles, James Bond (Sean Connery), o Mini (um automóvel), a pílula contraceptiva, a mini-saia, os vestidos Dior, a lambreta e Julie Christie, um dos ícones desses anos "loucos" para uma juventude irreverente e com muita liberdade.
Margarida gozava a vida. Não perdia um espectáculo de bailado. Era amiga pessoal dos bailarinos Margot Fonteyn (1919- 1991) e Rudolfo Nureyev (1938-1993), que foram durante anos o par romântico do ballet britânico e talvez mundial. Snowdon fez fotos maravilhosas destes bailarinos, bem como da família real, que demonstram o seu enorme talento.
Margarida não se podia furtar às suas obrigações como princesa, representando a rainha em várias viagens. Nos EUA, não houve celebridade do cinema que não se deixasse fotografar com a princesa do glamour - nomes como Elizabeth Taylor, Frank Sinatra e Louis Armstrong, que lhe dedicou uma música. Os viscondes de Linley estiveram várias vezes em Itália e na Grécia, onde o armador Niarkos os convidava para a sua ilha privativa. Enfim, Margarida e Antony foram as vedetas do momento.
E como tudo tem um princípio e um fim, Margarida e o marido, após seis anos de casamento e dois filhos, começaram a mostrar algum desentendimento. Para isso terá contribuído a paixão arrebatadora da princesa pelo pianista Robin Douglas-
-Home, que conheceu num clube nocturno, em 1966. Terá sido uma verdadeira paixão. Mas Margarida, talvez pressionada, pôs um ponto final no romance. Afinal, era uma senhora casada com filhos. Para Robin, foi mais dramático, porque não terá aceite bem a separação. E ano e meio depois, suicidou-se.
Informada a rainha de que a irmã e o cunhado faziam vidas separadas, surgiu no horizonte o tão temido divórcio. O casal continuou a viver na sua residência oficial, Kensington Palace, para manter as aparências, enquanto os filhos foram pequenos. Separaram--se em 1976 e, dois anos depois, foi decretado o divórcio. O primeiro divórcio na família real, desde o de Henrique VIII, em 1529, dispensando o literal rolar de cabeças. E em 1973, ano do casamento da princesa Ana, filha da rainha, falou-se muito do novo amor de Margarida, Roddy Lleweellyn, um jovem arquitecto paisagista com menos 17 anos que ela. Margarida deitou as conveniências para trás das costas e voou para o seu "ninho de amor" na ilha de Mustique, nas Caraíbas, que viria a tornar-se local de festas do jet-set de então. Por lá passaram David Bowie, Raquel Welch, Bryan Ferry, Mick e Bianca Jagger, Elton John, Tommy Hilfiger e muitos outros amigos da princesa irreverente, que exigia que ninguém se fosse deitar antes dela, prolongando as festas até de manhã.
Estas fugas deram origem a pala-vras duras na imprensa. Houve mesmo um jornal que tratou Margarida como "uma princesa decadente e inútil". Também o Governo e o primeiro-ministro chegaram a pressionar a rainha para riscar o nome da irmã da Civil List, onde constam os nomes dos membros da família real, parentes muito próximos e súbditos que prestaram relevantes serviços à monarquia, com residência e despesas pagas pela rainha.
Margarida separou-se de Roddy quando este casou com uma desenhadora de moda. Apesar da separação, permaneceram amigos até à morte da princesa, no passado dia 9 de Fevereiro.
Para Margarida Rosa de Windsor, o seu maior orgulho foram os filhos, David e Sara, ambos com profissões ligadas às artes. São casados e têm filhos. Margarida teria o quarto neto nesta Primavera. Foram os filhos que estiveram junto da mãe nos seus derradeiros minutos.
Com o desaparecimento de Diana de Gales e a morte recente de Margarida, a coroa britânica parece ir perdendo, pouco a pouco, as suas pedras mais cintilantes...
Os ídolos que não escaparam à admiração da Princesa
21 de setembro de 2004
José Pacheco- Educare
Muitos velhos (velhos de qualquer idade) estão possuídos pelo medo de pensar. Consomem o parco tempo de passagem a repetir o que outros velhos de qualquer idade pensaram, crendo serem suas as ideias, sem saber que as ideias são de todos e de ninguém. Os velhos que são mesmo velhos não percebem que, quando lhes ocorre um mesmo pensamento, ele já não é o mesmo que pensaram. Quando voltam a pensar, já é outro avô que pensa. Como o pássaro que regressa do breve voo e já não o mesmo pássaro da partida.
As ideias velhas envelhecem, tal como os homens. Outras geram novas ideias. Os novos (de qualquer idade) são novos porque são animados por novas ideias. Das que já não nos pertencem (se alguma vez nos pertenceram) e daquelas que nem sequer chegaremos a pensar. Por essa razão, os novos de todas as idades sabem sempre mais que os mais velhos.
É exemplar a história do miúdo que pergunta ao pai se sempre é verdade que os pais sabem mais que os filhos.
- Claro! - respondeu o pai, prontamente - Poderia lá ser de outra maneira! Os pais sabem sempre mais que os seus filhos.
O pimpolho não se deu por satisfeito e rematou:
- Então, paizinho, quem inventou a máquina a vapor? Foi o Watson, ou foi o pai do Watson?
Como para cada facto ou realidade existe um seu oposto - ou complemento, pois nada sei das orientais filosofias - trago à colação uma história em contraponto, achada num recanto da memória.
Certo dia, estava eu descascando ervilhas - óptimo entretém, ao que dizem, propiciador de meditação. Flutuei por instantes acima da miséria dos dias e das suas inefáveis consumições. E eis que troco as bacias: a casca vai para a bacia das vitualhas destinadas à panela, as ervilhas para o saco do lixo... Despertei da búdica meditação ao som das estridentes gargalhadas do meu filho, que me vinha acompanhando na função, e observou o erro de manobra. Comentei:
- Olha que engraçado! Enganei-me no destino!
Profunda reflexão de que não me apercebera não fora o meu filho - que sempre soube mais das coisas e das pessoas do que o pai - gargalhar mais uma vez.
- Por que te ris, André? - inquiri.
- Porque disseste que te enganaste no destino.
E não é que o maroto do miúdo tinha razão? Intuíra o significado da expressão muito para além do comezinho engano do destino da ervilha. Foi bem mais fundo na reflexão, provando a supremacia do saber de um filho sobre o do seu progenitor.
Na verdade, eu sempre me enganei no destino. Porque, se é de pequenino que permitimos que no-lo torçam, também será verdadeiro o aforismo (que agora me apeteceu inventar) que diz que o destino também se pode distorcer. E para o distorcer basta pensar de modo novo. Libertar as ideias afaga o pensamento e tem o condão de reforçar o pensamento divergente, que nos protege de certezas certas. A receita é interrogar o mundo, ininterruptamente, desprendidamente. Vê-lo em cada manhã, como se fora o primeiro homem perante todas as cores da primeira madrugada.
Não fora o não-exemplo do meu avô (talvez um dia conte…), eu acabaria electricista, como estava escrito no meu retorcido destino de criança. E muitos outros seres também não se deixaram pensar. Como aquele jovem que escutei num programa de rádio. Até quase ao fim dos seus estudos para entrar na faculdade, sempre tinha obtido boas notas. Iria, sem entusiasmo mas resolutamente, ser médico ou arquitecto. Durante a sua juventude abominara tudo o que fosse música erudita. Odiava ópera. Até que, no dia do seu aniversário, alguém, à revelia de pais e avós cultores da tradição da música fácil, lhe ofereceu um CD com árias cantadas pela Maria Calas. Confessava o jovem aos microfones da rádio que atirara o disco para um canto. Até que, um dia…
O entrevistador concluiu a conversa, referindo que o jovem entrevistado havia ganho o concurso de canto Maria Tody, um dos mais prestigiados concursos do género no nosso país. Quis saber o entrevistador o porquê da radical transformação. Respondeu o jovem:
- A sementinha estava aqui dentro. Só foi preciso deitar água e cuidar dela.
Para não sufocar a sementinha numa torrente de pensamentos repensados, para não correr o risco de a fazer apodrecer precocemente, preservo o Marcos de presunçosas sapiências de avô. Impeço-me de determinar, do alto dos meus cabelos brancos, os seus desejos e necessidades. A primeira das regras é não tentar ensinar aos netos aquilo que se pensa que eles precisam saber. A segunda, procurar aprender o que eles são, no que pensam e para além do que pensamos que eles hão-de pensar.
Os tempos são outros. Só os avós com certezas absolutas ainda não entenderam.
As ideias velhas envelhecem, tal como os homens. Outras geram novas ideias. Os novos (de qualquer idade) são novos porque são animados por novas ideias. Das que já não nos pertencem (se alguma vez nos pertenceram) e daquelas que nem sequer chegaremos a pensar. Por essa razão, os novos de todas as idades sabem sempre mais que os mais velhos.
É exemplar a história do miúdo que pergunta ao pai se sempre é verdade que os pais sabem mais que os filhos.
- Claro! - respondeu o pai, prontamente - Poderia lá ser de outra maneira! Os pais sabem sempre mais que os seus filhos.
O pimpolho não se deu por satisfeito e rematou:
- Então, paizinho, quem inventou a máquina a vapor? Foi o Watson, ou foi o pai do Watson?
Como para cada facto ou realidade existe um seu oposto - ou complemento, pois nada sei das orientais filosofias - trago à colação uma história em contraponto, achada num recanto da memória.
Certo dia, estava eu descascando ervilhas - óptimo entretém, ao que dizem, propiciador de meditação. Flutuei por instantes acima da miséria dos dias e das suas inefáveis consumições. E eis que troco as bacias: a casca vai para a bacia das vitualhas destinadas à panela, as ervilhas para o saco do lixo... Despertei da búdica meditação ao som das estridentes gargalhadas do meu filho, que me vinha acompanhando na função, e observou o erro de manobra. Comentei:
- Olha que engraçado! Enganei-me no destino!
Profunda reflexão de que não me apercebera não fora o meu filho - que sempre soube mais das coisas e das pessoas do que o pai - gargalhar mais uma vez.
- Por que te ris, André? - inquiri.
- Porque disseste que te enganaste no destino.
E não é que o maroto do miúdo tinha razão? Intuíra o significado da expressão muito para além do comezinho engano do destino da ervilha. Foi bem mais fundo na reflexão, provando a supremacia do saber de um filho sobre o do seu progenitor.
Na verdade, eu sempre me enganei no destino. Porque, se é de pequenino que permitimos que no-lo torçam, também será verdadeiro o aforismo (que agora me apeteceu inventar) que diz que o destino também se pode distorcer. E para o distorcer basta pensar de modo novo. Libertar as ideias afaga o pensamento e tem o condão de reforçar o pensamento divergente, que nos protege de certezas certas. A receita é interrogar o mundo, ininterruptamente, desprendidamente. Vê-lo em cada manhã, como se fora o primeiro homem perante todas as cores da primeira madrugada.
Não fora o não-exemplo do meu avô (talvez um dia conte…), eu acabaria electricista, como estava escrito no meu retorcido destino de criança. E muitos outros seres também não se deixaram pensar. Como aquele jovem que escutei num programa de rádio. Até quase ao fim dos seus estudos para entrar na faculdade, sempre tinha obtido boas notas. Iria, sem entusiasmo mas resolutamente, ser médico ou arquitecto. Durante a sua juventude abominara tudo o que fosse música erudita. Odiava ópera. Até que, no dia do seu aniversário, alguém, à revelia de pais e avós cultores da tradição da música fácil, lhe ofereceu um CD com árias cantadas pela Maria Calas. Confessava o jovem aos microfones da rádio que atirara o disco para um canto. Até que, um dia…
O entrevistador concluiu a conversa, referindo que o jovem entrevistado havia ganho o concurso de canto Maria Tody, um dos mais prestigiados concursos do género no nosso país. Quis saber o entrevistador o porquê da radical transformação. Respondeu o jovem:
- A sementinha estava aqui dentro. Só foi preciso deitar água e cuidar dela.
Para não sufocar a sementinha numa torrente de pensamentos repensados, para não correr o risco de a fazer apodrecer precocemente, preservo o Marcos de presunçosas sapiências de avô. Impeço-me de determinar, do alto dos meus cabelos brancos, os seus desejos e necessidades. A primeira das regras é não tentar ensinar aos netos aquilo que se pensa que eles precisam saber. A segunda, procurar aprender o que eles são, no que pensam e para além do que pensamos que eles hão-de pensar.
Os tempos são outros. Só os avós com certezas absolutas ainda não entenderam.
19 de setembro de 2004
"Antes de entrarmos na poesia propriamente dita de Natália, e numa clara demonstração do seu irreverente carácter, aqui fica o "mimo" com que em 1982 presenteou na Assembleia da Republica o então deputado João Morgado (CDS) que tinha brindado a Assembleia com um "eloquente" discurso onde dizia disparates do seguinte teor: «A igreja Católica proibe o aborto porque entende que o acto sexual é para se ver o nascimento de um filho». Ao que Natália Correia, ao tempo deputada do PSD, ripostou:
«Já que o coito diz Morgado / tem como fim cristalino, / preciso e imaculado / fazer menino ou menina / e cada vez que o varão / sexual petisco manduca, / temos na procriação / prova de que houve truca-truca, / sendo só pai de um rebento, / lógica é a conclusão / de que o viril instrumento / só usou - parca ração! uma vez. / E se a função faz o órgão - diz o ditado - / consumada essa excepção, / ficou capado o Morgado»
Gentil e subtilmente roubado a http://www.alentejodigital.pt/a_margem/poetas/natalia_correia.htm
«Já que o coito diz Morgado / tem como fim cristalino, / preciso e imaculado / fazer menino ou menina / e cada vez que o varão / sexual petisco manduca, / temos na procriação / prova de que houve truca-truca, / sendo só pai de um rebento, / lógica é a conclusão / de que o viril instrumento / só usou - parca ração! uma vez. / E se a função faz o órgão - diz o ditado - / consumada essa excepção, / ficou capado o Morgado»
Gentil e subtilmente roubado a http://www.alentejodigital.pt/a_margem/poetas/natalia_correia.htm
O Outono vem aí
e vai entrar em colisão com o Verão que chegou tarde e não se vai embora tão cedo...
Belas temperaturas a deste fim de Verão.
OS CÃES
Domingo, 19 de Setembro de 2004
José Eduardo Agualusa
"Em criança eu já era ambicioso. Quando me perguntavam - "o que queres ser quando fores grande?" -, punha-me nos bicos dos pés e respondia - "o maior!". Havia de ser o maior. Só não sabia em que ramo".
Jerónimo suspirou. Não disse mais nada. Não era necessário dizer mais nada. Olhando através da janela avistava-se o rio, uma massa de água lamacenta e rumorosa, que descia sempre, e sempre, em meio à ramagem das árvores, ao capim verde, às altas palmas das palmeiras, arrastando para o mar a última luz do dia. Jerónimo levara-me a visitar toda a fazenda. Achei-a imensa. Mostrou-me o lago (salgado) onde pousavam os flamingos. Imitou o canto de diversos pássaros, conseguindo, em alguns casos, que estes lhe respondessem. Deixou que eu fotografasse, pousada numa larga folha de bananeira, uma espécie raríssima de borboleta, mas não me autorizou a capturá-la. Acompanhei-o no jipe, em silêncio, enquanto ele, apontando com o dedo, me ia apresentando às diferentes ervas, ramadas, rebentos e flores, exaltando as virtudes medicinais desta ou daquela ou alertando para os perigos de uma outra.
Ao vê-lo pela primeira vez, na tarde anterior, ficara com a impressão de estar diante de um sujeito capaz de conseguir tudo aquilo que se propunha, duro e determinado. Não imaginei que as flores o comovessem. Os olhos, frios, sombrios, pousaram nos meus, e ele sorriu:
"Não nos conhecemos já?"
O sorriso transformava-o. Enquanto me mostrava a fazenda sorria o tempo todo. Em determinada altura vimos um rapazinho a cruzar um descampado. Jerónimo dirigiu o jipe na direcção dele.
"Estás a caçar pássaros?"
O rapaz assegurou que não. Jerónimo sacudiu os ombros:
"Ainda bem. Seja como for isto é terreno privado. É melhor saíres daqui antes que anoiteça. Depois solto os meus cães e eles dão contigo e comem-te. Não vai sobrar nada de ti. Nem os ossos."
O rapaz riu-se. Jerónimo também se riu e eu imitei-o. A rir parecia um menino. Dali, onde estávamos agora, sentados ambos em cadeirões de verga, podíamos ver o rio, um caminho entre palmeiras e, ao fundo, a jaula onde os cães aguardavam. Eram animais sólidos, ansiosos, que não pareciam feitos de carne, mas de um material simultaneamente mais firme e mais elástico. Tinham uma cabeça enorme, desproporcionada em relação ao corpo, e era evidente que toda a sua energia convergia para os possantes maxilares. Jerónimo reparou no meu olhar:
"Ah, sim, são perigosos. Atacam sem aviso e quando fecham os dentes ninguém consegue que voltem a abrir a boca."
Contou que, meses antes, um animal da mesma ninhada dos que eu via ali mordera um camponês numa das pernas. Nunca mais a largou, nem quando os outros trabalhadores o feriram, no lombo e na cabeça, com paus e com pedras, nem quando o regaram com jactos fortes de água, nem quando lhe lançaram álcool nos olhos, nem sequer depois que o mataram, cortando-lhe o pescoço a golpes de catana.
Há países onde é proibido criar estes cães. A mim, tudo o que é proibido me entusiasma. Agora estão um pouco preguiçosos. Costumava treiná-los todos os dias, com a ajuda de um burro, mas o burro suicidou-se."
"Um burro?!"
"Sim, suicidou-se. Atirou-se ao rio."
Explicou que costumava amarrar o burro a uma árvore e depois açulava os cães contra ele. O burro lutava bravamente, às patadas, às dentadas, até repelir os atacantes.
"Mas não se magoava?"
"É claro. Os cães arrancavam-lhe pedaços de carne. Bifes inteiros."
Riu-se muito. Eu não me ri. Levantei-me e dei alguns passos em direcção à porta. A noite já tinha caído e cobria tudo, agora, com o seu vasto silêncio de estrelas. Voltei a sentar-me. Jerónimo foi soltar os cães.
José Eduardo Agualusa
"Em criança eu já era ambicioso. Quando me perguntavam - "o que queres ser quando fores grande?" -, punha-me nos bicos dos pés e respondia - "o maior!". Havia de ser o maior. Só não sabia em que ramo".
Jerónimo suspirou. Não disse mais nada. Não era necessário dizer mais nada. Olhando através da janela avistava-se o rio, uma massa de água lamacenta e rumorosa, que descia sempre, e sempre, em meio à ramagem das árvores, ao capim verde, às altas palmas das palmeiras, arrastando para o mar a última luz do dia. Jerónimo levara-me a visitar toda a fazenda. Achei-a imensa. Mostrou-me o lago (salgado) onde pousavam os flamingos. Imitou o canto de diversos pássaros, conseguindo, em alguns casos, que estes lhe respondessem. Deixou que eu fotografasse, pousada numa larga folha de bananeira, uma espécie raríssima de borboleta, mas não me autorizou a capturá-la. Acompanhei-o no jipe, em silêncio, enquanto ele, apontando com o dedo, me ia apresentando às diferentes ervas, ramadas, rebentos e flores, exaltando as virtudes medicinais desta ou daquela ou alertando para os perigos de uma outra.
Ao vê-lo pela primeira vez, na tarde anterior, ficara com a impressão de estar diante de um sujeito capaz de conseguir tudo aquilo que se propunha, duro e determinado. Não imaginei que as flores o comovessem. Os olhos, frios, sombrios, pousaram nos meus, e ele sorriu:
"Não nos conhecemos já?"
O sorriso transformava-o. Enquanto me mostrava a fazenda sorria o tempo todo. Em determinada altura vimos um rapazinho a cruzar um descampado. Jerónimo dirigiu o jipe na direcção dele.
"Estás a caçar pássaros?"
O rapaz assegurou que não. Jerónimo sacudiu os ombros:
"Ainda bem. Seja como for isto é terreno privado. É melhor saíres daqui antes que anoiteça. Depois solto os meus cães e eles dão contigo e comem-te. Não vai sobrar nada de ti. Nem os ossos."
O rapaz riu-se. Jerónimo também se riu e eu imitei-o. A rir parecia um menino. Dali, onde estávamos agora, sentados ambos em cadeirões de verga, podíamos ver o rio, um caminho entre palmeiras e, ao fundo, a jaula onde os cães aguardavam. Eram animais sólidos, ansiosos, que não pareciam feitos de carne, mas de um material simultaneamente mais firme e mais elástico. Tinham uma cabeça enorme, desproporcionada em relação ao corpo, e era evidente que toda a sua energia convergia para os possantes maxilares. Jerónimo reparou no meu olhar:
"Ah, sim, são perigosos. Atacam sem aviso e quando fecham os dentes ninguém consegue que voltem a abrir a boca."
Contou que, meses antes, um animal da mesma ninhada dos que eu via ali mordera um camponês numa das pernas. Nunca mais a largou, nem quando os outros trabalhadores o feriram, no lombo e na cabeça, com paus e com pedras, nem quando o regaram com jactos fortes de água, nem quando lhe lançaram álcool nos olhos, nem sequer depois que o mataram, cortando-lhe o pescoço a golpes de catana.
Há países onde é proibido criar estes cães. A mim, tudo o que é proibido me entusiasma. Agora estão um pouco preguiçosos. Costumava treiná-los todos os dias, com a ajuda de um burro, mas o burro suicidou-se."
"Um burro?!"
"Sim, suicidou-se. Atirou-se ao rio."
Explicou que costumava amarrar o burro a uma árvore e depois açulava os cães contra ele. O burro lutava bravamente, às patadas, às dentadas, até repelir os atacantes.
"Mas não se magoava?"
"É claro. Os cães arrancavam-lhe pedaços de carne. Bifes inteiros."
Riu-se muito. Eu não me ri. Levantei-me e dei alguns passos em direcção à porta. A noite já tinha caído e cobria tudo, agora, com o seu vasto silêncio de estrelas. Voltei a sentar-me. Jerónimo foi soltar os cães.
18 de setembro de 2004
O cágado "roubado"
a um site brasileiro.
Ladrão que rouba a ladrão... Almada é nosso!
Havia um homem que era muito senhor da sua vontade. Andava às vezes sozinho pelas estradas a passear. Por uma dessas vezes viu no meio da estrada um animal que parecia não vir a propósito — um cágado.
O homem era muito senhor da sua vontade, nunca tinha visto um cágado; contudo, agora estava a acreditar. Acercou-se mais e viu com os olhos da cara que aquilo era, na verdade, o tal cágado da zoologia.
O homem que era muito senhor da sua vontade ficou radiante, já tinha novidades para contar ao almoço, e deitou a correr para casa. A meio caminho pensou que a família era capaz de não aceitar a novidade por não trazer o cágado com ele, e parou de repente. Como era muito senhor da sua vontade, não poderia suportar que a família imaginasse que aquilo do cágado era história dele, e voltou atrás. 0uando chegou perto do tal sítio, o cágado, que já tinha desconfiado da primeira vez, enfiou buraco abaixo como quem não quer a coisa.
O homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a espreitar para dentro e depois de muito espreitar não conseguiu ver senão o que se pode ver para dentro dos buracos, isto é, muito escuro. Do cágado, nada. Meteu a mão com cautela e nada; a seguir até ao cotovelo e nada; por fim o braço todo e nada. Tinham sido experimentadas todas as cautelas e os recursos naturais de que um homem dispõe até ao comprimento do braço e nada.
Então foi buscar auxílio a uma vara compridíssima, que nem é habitual em varas haver assim tão compridas, enfiou-a pelo buraco abaixo, mas o cágado morava ainda muito mais lá para o fundo. Quando largou a vara, ela foi por ali abaixo, exatamente como uma vara perdida.
Depois de estudar novas maneiras, a ofensiva ficou de fato submetida a nova orientação. Havia um grande tanque de lavadeiras a dois passos e ao lado do tanque estava um bom balde dos maiores que há. Mergulhou o balde no tanque e, cheio até mais não, despejou-o inteiro para dentro do buraco do cágado. Um balde só já ele sabia que não bastava, nem dez, mas quando chegou a noventa e oito baldes e que já faltavam só dois para cem e que a água não havia meio de vir ao de cima, o homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a pensar em todas as espécies de buracos que possa haver.
— E se eu dissesse à minha família que tinha visto o cágado? - pensava para si o homem que era muito senhor da sua vontade. Mas não! Toda a gente pode pensar assim menos eu, que sou muito senhor da minha vontade.
O maldito sol também não ajudava nada. Talvez que fosse melhor não dizer nada do cágado ao almoço. A pensar se sim ou não, os passos dirigiam-se involuntariamente para as horas de almoçar.
— Já não se trata de eu ser um incompreendido com a história do cágado, não; agora trata-se apenas da minha força de vontade. É a minha força de vontade que está em prova, esta é a ocasião propícia, não percamos tempo! Nada de fraquezas!
Ao lado do buraco havia uma pá de ferro, destas dos trabalhadores rurais. Pegou na pá e pôs-se a desfazer o buraco. A primeira pazada de terra, a segunda, a terceira, e era uma maravilha contemplar aquela majestosa visibilidade que punha os nossos olhos em presença do mais eficaz testemunho da tenacidade, depois dos antigos. Na verdade, de cada vez que enfiava a pá na terra, com fé, com robustez, e sem outras intenções a mais, via-se perfeitamente que estava ali uma vontade inteira; e ainda que seja cientificamente impossível que a terra rachasse de cada vez que ele lhe metia a pá, contudo era indiscutivelmente esta a impressão que lhe dava. Ah, não! Não era um vulgar trabalhador rural. Via-se perfeitamente que era alguém muito senhor da sua vontade e que estava por ali por acaso, por imposição própria, contrafeito, por necessidade do espírito, por outras razões diferentes das dos trabalhadores rurais, no cumprimento de um dever, um dever importante, uma questão de vida ou de morte — a vontade.
Já estava na nonagésima pazada de terra; sem afrouxar, com o mesmo ímpeto da inicial, foi completamente indiferente por um almoço a menos. Fosse ou não por um cágado, a humanidade iria ver solidificada a vontade de um homem.
A mil metros de profundidade a pino, o homem que era muito senhor da sua vontade foi surpreendido por dolorosa dúvida — já não tinha nem a certeza se era a qüinquagésima milionésima octogésima quarta. Era impossível recomeçar, mais valia perder uma pazada.
Até ali não havia indícios nem da passagem da vara, da água ou do cágado. Tudo fazia crer que se tratava de um buraco supérfluo; contudo, o homem era muito senhor da sua vontade, sabia que tinha de haver-se de frente com todas as más impressões. De fato, se aquela tarefa não houvesse de ser árdua e difícil, também a vontade não podia resultar superlativamente dura e preciosa.
Todas as noções de tempo e de espaço, e as outras noções pelas quais um homem constata o quotidiano, foram todas uma por uma dispensadas de participar no esburacamento. Agora, que os músculos disciplinados num ritmo único estavam feitos ao que se quer pedir, eram desnecessários todos os raciocínios e outros arabescos cerebrais, não havia outra necessidade além da dos próprios músculos.
Umas vezes a terra era mais capaz de se deixar furar por causa das grandes camadas de areia e de lama; todavia, estas facilidades ficavam bem subtraídas quando acontecia ser a altura de atravessar uma dessas rochas gigantescas que há no subsolo. Sem incitamento nem estímulo possível por aquelas paragens, é absolutamente indispensável recordar a decisão com que o homem muito senhor da sua vontade pegou ao princípio na pá do trabalhador rural para justificarmos a intensidade e a duração desta perseverança. Inclusive, a própria descoberta do centro da Terra, que tão bem podia servir de regozijo ao que se aventura pelas entranhas do nosso planeta, passou infelizmente desapercebida ao homem que era muito senhor da sua vontade. O buraco do cágado era efetivamente interminável. Por mais que se avançasse, o buraco continuava ainda e sempre. Só assim se explica ser tão rara a presença de cágados à superfície devido à extensão dos corredores desde a porta da rua até aos aposentos propriamente ditos.
Entretanto, cá em cima na terra, a família do homem que era muito senhor da sua vontade, tendo começado por o ter dado por desaparecido, optara, por último, pelo luto carregado, não consentindo a entrada no quarto onde ele costumava dormir todas as noites.
Até que uma vez, quando ele já não acreditava no fim das covas, já não havia, de fato, mais continuação daquele buraco, parava exatamente ali, sem apoteose, sem comemoração, sem vitória, exatamente como um simples buraco de estrada onde se vê o fundo ao sol. Enfim, naquele sítio nem a revolta servia para nada.
Caindo em si, o homem que era muito senhor da sua vontade pediu-lhe decisões, novas decisões, outras; mas ali não havia nada a fazer, tinha esquecido tudo, estava despejado de todas as coisas, só lhe restava saber cavar com uma pá. Tinha, sobretudo, muito sono, lembrou-se da cama com lençóis, travesseiro e almofada fofa, tão longe! Maldita pá! 0 cágado! E deu com a pá com força no fundo da cova. Mas a pá safou-se-lhe das mãos e foi mais fundo do que ele supunha, deixando uma greta aberta por onde entrava uma coisa de que ele já se tinha esquecido há muito - a luz do sol. A primeira sensação foi de alegria, mas durou apenas três segundos, a segunda foi de assombro: teria na verdade furado a Terra de lado a lado?
Para se certificar alargou a greta com as unhas e espreitou para fora. Era um país estrangeiro; homens, mulheres, árvores, montes e casas tinham outras proporções diferentes das que ele tinha na memória. 0 sol também não era o mesmo, não era amarelo, era de cobre cheio de azebre e fazia barulho nos reflexos. Mas a sensação mais estranha ainda estava para vir: foi que, quando quis sair da cova, julgava que ficava em pé em cima do chão como os habitantes daquele país estrangeiro, mas a verdade é que a única maneira de poder ver as coisas naturalmente era pondo-se de pernas para o ar...
Como tinha muita sede, resolveu ir beber água ali ao pé e teve de ir de mãos no chão e o corpo a fazer o pino, porque de pé subia-lhe o sangue à cabeça. Então, começou a ver que não tinha nada a esperar daquele país onde nem sequer se falava com a boca, falava-se com o nariz.
Vieram-lhe de uma vez todas as saudades da casa, da família e do quarto de dormir. Felizmente estava aberto o caminho até casa, fora ele próprio quem o abrira com uma pá de ferro. Resolveu-se. Começou a andar o buraco todo ao contrário. Andou, andou, andou; subiu, subiu, subiu...
Quando chegou cá acima, ao lado do buraco estava uma coisa que não havia antigamente — o maior monte da Europa, feito por ele, aos poucochinhos, às pazadas de terra, uma por uma, até ficar enorme, colossal, sem querer, o maior monte da Europa.
Este monte não deixava ver nem a cidade onde estava a casa da família, nem a estrada que dava para a cidade, nem os arredores da cidade que faziam um belo panorama. O monte estava por cima disto tudo e de muito mais.
O homem que era muito senhor da sua vontade estava cansadíssimo por ter feito duas vezes o diâmetro da Terra. Apetecia-lhe dormir na sua querida cama, mas para isso era necessário tirar aquele monte maior da Europa, de cima da cidade, onde estava a casa da sua família. Então, foi buscar outra pá dos trabalhadores rurais e começou logo a desfazer o monte maior da Europa. Foi restituindo à Terra, uma por uma, todas as pazadas com que a tinha esburacado de lado a lado. Começavam já a aparecer as cruzes das torres, os telhados das casas, os cumes dos montes naturais, a casa da sua família, muita gente suja de terra, por ter estado soterrada, outros que ficaram aleijados, e o resto como dantes.
O homem que era muito senhor da sua vontade já podia entrar em casa para descansar, mas quis mais, quis restituir à Terra todas as pazadas, todas. Faltavam poucas, algumas dúzias apenas. Já agora valia a pena fazer tudo bem até ao fim. Quando já era a última pazada de terra que ele ia meter no buraco, portanto a primeira que ele tinha tirado ao princípio, reparou que o torrão estava a mexer por si, sem ninguém lhe tocar; curioso, quis ver porque era — era o cágado.
Almada Negreiros
Ladrão que rouba a ladrão... Almada é nosso!
Havia um homem que era muito senhor da sua vontade. Andava às vezes sozinho pelas estradas a passear. Por uma dessas vezes viu no meio da estrada um animal que parecia não vir a propósito — um cágado.
O homem era muito senhor da sua vontade, nunca tinha visto um cágado; contudo, agora estava a acreditar. Acercou-se mais e viu com os olhos da cara que aquilo era, na verdade, o tal cágado da zoologia.
O homem que era muito senhor da sua vontade ficou radiante, já tinha novidades para contar ao almoço, e deitou a correr para casa. A meio caminho pensou que a família era capaz de não aceitar a novidade por não trazer o cágado com ele, e parou de repente. Como era muito senhor da sua vontade, não poderia suportar que a família imaginasse que aquilo do cágado era história dele, e voltou atrás. 0uando chegou perto do tal sítio, o cágado, que já tinha desconfiado da primeira vez, enfiou buraco abaixo como quem não quer a coisa.
O homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a espreitar para dentro e depois de muito espreitar não conseguiu ver senão o que se pode ver para dentro dos buracos, isto é, muito escuro. Do cágado, nada. Meteu a mão com cautela e nada; a seguir até ao cotovelo e nada; por fim o braço todo e nada. Tinham sido experimentadas todas as cautelas e os recursos naturais de que um homem dispõe até ao comprimento do braço e nada.
Então foi buscar auxílio a uma vara compridíssima, que nem é habitual em varas haver assim tão compridas, enfiou-a pelo buraco abaixo, mas o cágado morava ainda muito mais lá para o fundo. Quando largou a vara, ela foi por ali abaixo, exatamente como uma vara perdida.
Depois de estudar novas maneiras, a ofensiva ficou de fato submetida a nova orientação. Havia um grande tanque de lavadeiras a dois passos e ao lado do tanque estava um bom balde dos maiores que há. Mergulhou o balde no tanque e, cheio até mais não, despejou-o inteiro para dentro do buraco do cágado. Um balde só já ele sabia que não bastava, nem dez, mas quando chegou a noventa e oito baldes e que já faltavam só dois para cem e que a água não havia meio de vir ao de cima, o homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a pensar em todas as espécies de buracos que possa haver.
— E se eu dissesse à minha família que tinha visto o cágado? - pensava para si o homem que era muito senhor da sua vontade. Mas não! Toda a gente pode pensar assim menos eu, que sou muito senhor da minha vontade.
O maldito sol também não ajudava nada. Talvez que fosse melhor não dizer nada do cágado ao almoço. A pensar se sim ou não, os passos dirigiam-se involuntariamente para as horas de almoçar.
— Já não se trata de eu ser um incompreendido com a história do cágado, não; agora trata-se apenas da minha força de vontade. É a minha força de vontade que está em prova, esta é a ocasião propícia, não percamos tempo! Nada de fraquezas!
Ao lado do buraco havia uma pá de ferro, destas dos trabalhadores rurais. Pegou na pá e pôs-se a desfazer o buraco. A primeira pazada de terra, a segunda, a terceira, e era uma maravilha contemplar aquela majestosa visibilidade que punha os nossos olhos em presença do mais eficaz testemunho da tenacidade, depois dos antigos. Na verdade, de cada vez que enfiava a pá na terra, com fé, com robustez, e sem outras intenções a mais, via-se perfeitamente que estava ali uma vontade inteira; e ainda que seja cientificamente impossível que a terra rachasse de cada vez que ele lhe metia a pá, contudo era indiscutivelmente esta a impressão que lhe dava. Ah, não! Não era um vulgar trabalhador rural. Via-se perfeitamente que era alguém muito senhor da sua vontade e que estava por ali por acaso, por imposição própria, contrafeito, por necessidade do espírito, por outras razões diferentes das dos trabalhadores rurais, no cumprimento de um dever, um dever importante, uma questão de vida ou de morte — a vontade.
Já estava na nonagésima pazada de terra; sem afrouxar, com o mesmo ímpeto da inicial, foi completamente indiferente por um almoço a menos. Fosse ou não por um cágado, a humanidade iria ver solidificada a vontade de um homem.
A mil metros de profundidade a pino, o homem que era muito senhor da sua vontade foi surpreendido por dolorosa dúvida — já não tinha nem a certeza se era a qüinquagésima milionésima octogésima quarta. Era impossível recomeçar, mais valia perder uma pazada.
Até ali não havia indícios nem da passagem da vara, da água ou do cágado. Tudo fazia crer que se tratava de um buraco supérfluo; contudo, o homem era muito senhor da sua vontade, sabia que tinha de haver-se de frente com todas as más impressões. De fato, se aquela tarefa não houvesse de ser árdua e difícil, também a vontade não podia resultar superlativamente dura e preciosa.
Todas as noções de tempo e de espaço, e as outras noções pelas quais um homem constata o quotidiano, foram todas uma por uma dispensadas de participar no esburacamento. Agora, que os músculos disciplinados num ritmo único estavam feitos ao que se quer pedir, eram desnecessários todos os raciocínios e outros arabescos cerebrais, não havia outra necessidade além da dos próprios músculos.
Umas vezes a terra era mais capaz de se deixar furar por causa das grandes camadas de areia e de lama; todavia, estas facilidades ficavam bem subtraídas quando acontecia ser a altura de atravessar uma dessas rochas gigantescas que há no subsolo. Sem incitamento nem estímulo possível por aquelas paragens, é absolutamente indispensável recordar a decisão com que o homem muito senhor da sua vontade pegou ao princípio na pá do trabalhador rural para justificarmos a intensidade e a duração desta perseverança. Inclusive, a própria descoberta do centro da Terra, que tão bem podia servir de regozijo ao que se aventura pelas entranhas do nosso planeta, passou infelizmente desapercebida ao homem que era muito senhor da sua vontade. O buraco do cágado era efetivamente interminável. Por mais que se avançasse, o buraco continuava ainda e sempre. Só assim se explica ser tão rara a presença de cágados à superfície devido à extensão dos corredores desde a porta da rua até aos aposentos propriamente ditos.
Entretanto, cá em cima na terra, a família do homem que era muito senhor da sua vontade, tendo começado por o ter dado por desaparecido, optara, por último, pelo luto carregado, não consentindo a entrada no quarto onde ele costumava dormir todas as noites.
Até que uma vez, quando ele já não acreditava no fim das covas, já não havia, de fato, mais continuação daquele buraco, parava exatamente ali, sem apoteose, sem comemoração, sem vitória, exatamente como um simples buraco de estrada onde se vê o fundo ao sol. Enfim, naquele sítio nem a revolta servia para nada.
Caindo em si, o homem que era muito senhor da sua vontade pediu-lhe decisões, novas decisões, outras; mas ali não havia nada a fazer, tinha esquecido tudo, estava despejado de todas as coisas, só lhe restava saber cavar com uma pá. Tinha, sobretudo, muito sono, lembrou-se da cama com lençóis, travesseiro e almofada fofa, tão longe! Maldita pá! 0 cágado! E deu com a pá com força no fundo da cova. Mas a pá safou-se-lhe das mãos e foi mais fundo do que ele supunha, deixando uma greta aberta por onde entrava uma coisa de que ele já se tinha esquecido há muito - a luz do sol. A primeira sensação foi de alegria, mas durou apenas três segundos, a segunda foi de assombro: teria na verdade furado a Terra de lado a lado?
Para se certificar alargou a greta com as unhas e espreitou para fora. Era um país estrangeiro; homens, mulheres, árvores, montes e casas tinham outras proporções diferentes das que ele tinha na memória. 0 sol também não era o mesmo, não era amarelo, era de cobre cheio de azebre e fazia barulho nos reflexos. Mas a sensação mais estranha ainda estava para vir: foi que, quando quis sair da cova, julgava que ficava em pé em cima do chão como os habitantes daquele país estrangeiro, mas a verdade é que a única maneira de poder ver as coisas naturalmente era pondo-se de pernas para o ar...
Como tinha muita sede, resolveu ir beber água ali ao pé e teve de ir de mãos no chão e o corpo a fazer o pino, porque de pé subia-lhe o sangue à cabeça. Então, começou a ver que não tinha nada a esperar daquele país onde nem sequer se falava com a boca, falava-se com o nariz.
Vieram-lhe de uma vez todas as saudades da casa, da família e do quarto de dormir. Felizmente estava aberto o caminho até casa, fora ele próprio quem o abrira com uma pá de ferro. Resolveu-se. Começou a andar o buraco todo ao contrário. Andou, andou, andou; subiu, subiu, subiu...
Quando chegou cá acima, ao lado do buraco estava uma coisa que não havia antigamente — o maior monte da Europa, feito por ele, aos poucochinhos, às pazadas de terra, uma por uma, até ficar enorme, colossal, sem querer, o maior monte da Europa.
Este monte não deixava ver nem a cidade onde estava a casa da família, nem a estrada que dava para a cidade, nem os arredores da cidade que faziam um belo panorama. O monte estava por cima disto tudo e de muito mais.
O homem que era muito senhor da sua vontade estava cansadíssimo por ter feito duas vezes o diâmetro da Terra. Apetecia-lhe dormir na sua querida cama, mas para isso era necessário tirar aquele monte maior da Europa, de cima da cidade, onde estava a casa da sua família. Então, foi buscar outra pá dos trabalhadores rurais e começou logo a desfazer o monte maior da Europa. Foi restituindo à Terra, uma por uma, todas as pazadas com que a tinha esburacado de lado a lado. Começavam já a aparecer as cruzes das torres, os telhados das casas, os cumes dos montes naturais, a casa da sua família, muita gente suja de terra, por ter estado soterrada, outros que ficaram aleijados, e o resto como dantes.
O homem que era muito senhor da sua vontade já podia entrar em casa para descansar, mas quis mais, quis restituir à Terra todas as pazadas, todas. Faltavam poucas, algumas dúzias apenas. Já agora valia a pena fazer tudo bem até ao fim. Quando já era a última pazada de terra que ele ia meter no buraco, portanto a primeira que ele tinha tirado ao princípio, reparou que o torrão estava a mexer por si, sem ninguém lhe tocar; curioso, quis ver porque era — era o cágado.
Almada Negreiros
17 de setembro de 2004
Abruptamente
Media-esfera, Blogosfera e Atmosfera
Por JOSÉ PACHECO PEREIRA
Quinta-feira, 16 de Setembro de 2004
Há cerca de um ano, escrevi sobre os blogues no PÚBLICO, coincidindo com a sua descoberta por um público mais vasto. Houve, em seguida, o habitual surto de breve fama, centenas de blogues foram criados e dezenas de artigos mais ou menos apressados, mais ou menos informados, foram publicados. Tudo quanto era órgão de comunicação social publicou pelo menos um artigo sobre os blogues. Depois os blogues passaram de moda, muitos dos blogues criados desapareceram, embora a "audiência" global dos blogues tenha aumentado significativamente, mantendo-se esse efeito até hoje. É altura de fazer um balanço deste novo tipo de publicação electrónica.
A blogosfera portuguesa mudou muito durante este ano, deixou de ser constituída por um pequeno grupo pioneiro, que a usava quase como um "espaço íntimo", para se tornar, de um dia para o outro (a rapidez é uma característica do meio), mais agressiva, politizada no mau sentido, ressentida e implicativa. Mas essa fase também já passou e o melhor dos primeiros tempos "íntimos" e o melhor da fase de democratização da blogosfera permaneceram. Cerca de 20 a 30 blogues portugueses fornecem todos os dias novas ideias, reflexões, informações, que um cidadão avisado e culto não deve perder.
Não tenho nenhumas dúvidas de que os blogues vieram para ficar, enquanto a evolução tecnológica não permitir a migração do que hoje se pode fazer num blogue para outra plataforma mais eficaz e superior. Enquanto tal, uma revolução está em curso, principalmente no âmbito do sistema comunicacional, e, a partir daí, afectando os sistemas que lhe são próximos: a política nacional e local, a crítica literária e artística, a divulgação científica, entre outros.
Nenhuma análise hoje do estado da comunicação social em qualquer país onde existe um sistema mediático - jornais, rádios, televisões - pode ser feita sem incluir os blogues. Veja-se o recente caso americano: dois blogues (Power Line e Little Green Footballs) contestaram a autenticidade dos documentos sobre o serviço militar de George Bush, que o prestigiado Dan Rather tinha divulgado no influente programa 60 Minutos da poderosa CBS. Prestigiado, influente, poderoso. Os documentos faziam imensos estragos na imagem de Bush, mostrando a existência de cunhas e tentativas de alterar os relatórios sobre a sua capacidade como piloto. Foram tratados pelos grandes media americanos como uma notícia de primeiríssima página, capaz de alterar a vantagem que Bush obtivera nas sondagens sobre Kerry, em suma, capazes de definir a contenda eleitoral. Os dois blogues, logo seguidos por muitos outros, analisaram os documentos e começaram a levantar questões: nenhuma máquina de escrever, à data putativa dos memorandos, era capaz de manter aquela ordem de espaços entre as letras, sobrepondo-se as mesmas frases escritas com o processador de texto Word sobre o texto antigo, não havia discrepâncias, etc., etc.
Outros blogues levantaram questões de conteúdo - um militar não colocaria aquelas questões no papel, havia uma discrepância entre a linguagem e a forma de outros memorandos do mesmo militar (que já morreu) e os apresentados pela CBS, etc. Outros blogues refutaram que houvesse falsificações e a CBS disse que tinha feito analisar os documentos por vários grafólogos. Foi só uma questão de tempo até que o assunto chegasse à grande imprensa, ao "Washington Post", que tem outros meios de investigação, e as dúvidas sobre a autenticidade cresceram. Analistas e grafólogos mostraram que não havia a unanimidade que a CBS garantia e toda uma nova série de investigações e depoimentos aprofundaram as dúvidas. A questão está em aberto, mas a controvérsia só existiu porque existem blogues e a Internet lhes dá uma audiência universal.
Em Portugal, o mesmo já se passa hoje. Excluam-se os blogues e a comunicação social seria diferente. Não porque os blogues sejam lidos por muita gente, mas sim porque são lidos pela gente certa. Os blogues são escritos por uma elite para uma elite, são escritos por estudantes, literatos, políticos, cientistas, investigadores, jornalistas, na maioria dos casos jovens e no início de carreira, e são lidos pelos mesmos grupos sociais e profissionais dos que os escrevem. Um grupo tem relevo especial neste ecossistema que é a blogosfera: são os jornalistas.
Os jornalistas, principalmente da imprensa escrita, vão hoje buscar imensa coisa aos blogues, umas vezes citam, outras não, e os leitores dos jornais desconhecem a importância dessa contribuição. Ainda recentemente uma notícia de primeira página do PÚBLICO teve origem num blogue. O jornal demorou uns dias a referir a fonte, mas depois fê-lo quando por todo o lado na blogosfera havia protestos. Num blogue, essa ausência de citação seria impossível porque a cultura do hipertexto torna a citação do outro um elemento identitário da blogosfera.
Ideias, frases e factos circulam na blogosfera e, quando verificados, dão ao resto da comunicação social uma dimensão complementar - mais memória, mais conhecimento especializado, mais variedade de temas, novos ângulos de aproximação a um assunto, mais imaginação, maior cobertura regional através de blogues locais. Uma leitura a fundo dos blogues locais poderia suprir muitas deficiências resultantes da ausência de correspondentes locais e revelar histórias bem interessantes. A verificação é fundamental, dado que há textos ficcionais, construções e pastiches que já enganaram alguns jornalistas (e autores de blogues) como sendo verdadeiros, dando origem a alguns embaraços. Há muito lixo, como é da natureza democrática e não editada da rede, mas há também muita coisa boa.
Querem exemplos, dos últimos dias, de questões umas pertinentes, outras testemunhais, outras curiosas? Por que razão os jornalistas, que são tão activos na "transparência" foram tão parcos em nos relatar a cerimónia maçónica nos funerais do presidente do Tribunal Constitucional? Quem lá esteve? Alguém tentou fotografar? Novas do interior dos concertos de Madonna por quem assistiu, pequenos detalhes saborosos. Teorias conspirativas sobre as saídas dos administradores da CGD com algum inside trading. Como é que se come (mal) nos aviões da TAP. Críticas aos números usados por António Barreto nos artigos do PÚBLICO sobre educação. A informação de que ainda está disponível nas livrarias um livro de Hayek, supostamente esgotado. Testemunhos de levar as "encomendinhas" à escola por jovens pais e mães. Desmontagens várias do spin governamental, com exemplos para se perceber muito bem como funciona a "central de informações" e, de passagem, muito incómodos para os jornalistas que lhe dão ouvidos e caneta. Notas críticas da UE, da Constituição europeia, que quase não existem na grande imprensa, toda "europeísta". Por aí adiante.
Esta circulação rica e diversificada, em tempo quase real, constrói um tecido mais complexo à volta de notícias e interpretações e, em consequência, resulta muito crítica dos media tradicionais. É nos blogues, e na sua diversidade política e cultural, que se encontram as críticas muito duras à manipulação informativa que são impossíveis de fazer nos media. Estes são muito pouco sensíveis às críticas, quando não arrogantes, e os jornalistas não são exemplares na abertura ao escrutínio das suas práticas profissionais. Os noticiários manipulados de Rádio Bagdad (o petit nom da TSF) ou as críticas às fabulosas "análises" políticas de Luís Delgado são o "pão nosso de cada dia" nos blogues, e merecem ser lidas porque não são invectivas genéricas - têm exemplos que deviam incomodar todos, e, a prazo, incomodam cada vez mais.
Claro que os blogues estão longe de ser apenas um órgão de "jornalismo informal", como Mário Mesquita lhes chamou, e incluem outras dimensões que podem ter um carácter literário, sociológico e mesmo científico, como instrumentos de investigação. Penso, aliás, que as virtualidades literárias e estéticas da fórmula "diário-em-linha", em conjugação com inovações tecnológicas do software como o MyLifeBits da Microsoft podem vir a permitir novas formas de criação estética. Mas, a curto prazo, tem sido o efeito na media-esfera o de maior impacto.
Por JOSÉ PACHECO PEREIRA
Quinta-feira, 16 de Setembro de 2004
Há cerca de um ano, escrevi sobre os blogues no PÚBLICO, coincidindo com a sua descoberta por um público mais vasto. Houve, em seguida, o habitual surto de breve fama, centenas de blogues foram criados e dezenas de artigos mais ou menos apressados, mais ou menos informados, foram publicados. Tudo quanto era órgão de comunicação social publicou pelo menos um artigo sobre os blogues. Depois os blogues passaram de moda, muitos dos blogues criados desapareceram, embora a "audiência" global dos blogues tenha aumentado significativamente, mantendo-se esse efeito até hoje. É altura de fazer um balanço deste novo tipo de publicação electrónica.
A blogosfera portuguesa mudou muito durante este ano, deixou de ser constituída por um pequeno grupo pioneiro, que a usava quase como um "espaço íntimo", para se tornar, de um dia para o outro (a rapidez é uma característica do meio), mais agressiva, politizada no mau sentido, ressentida e implicativa. Mas essa fase também já passou e o melhor dos primeiros tempos "íntimos" e o melhor da fase de democratização da blogosfera permaneceram. Cerca de 20 a 30 blogues portugueses fornecem todos os dias novas ideias, reflexões, informações, que um cidadão avisado e culto não deve perder.
Não tenho nenhumas dúvidas de que os blogues vieram para ficar, enquanto a evolução tecnológica não permitir a migração do que hoje se pode fazer num blogue para outra plataforma mais eficaz e superior. Enquanto tal, uma revolução está em curso, principalmente no âmbito do sistema comunicacional, e, a partir daí, afectando os sistemas que lhe são próximos: a política nacional e local, a crítica literária e artística, a divulgação científica, entre outros.
Nenhuma análise hoje do estado da comunicação social em qualquer país onde existe um sistema mediático - jornais, rádios, televisões - pode ser feita sem incluir os blogues. Veja-se o recente caso americano: dois blogues (Power Line e Little Green Footballs) contestaram a autenticidade dos documentos sobre o serviço militar de George Bush, que o prestigiado Dan Rather tinha divulgado no influente programa 60 Minutos da poderosa CBS. Prestigiado, influente, poderoso. Os documentos faziam imensos estragos na imagem de Bush, mostrando a existência de cunhas e tentativas de alterar os relatórios sobre a sua capacidade como piloto. Foram tratados pelos grandes media americanos como uma notícia de primeiríssima página, capaz de alterar a vantagem que Bush obtivera nas sondagens sobre Kerry, em suma, capazes de definir a contenda eleitoral. Os dois blogues, logo seguidos por muitos outros, analisaram os documentos e começaram a levantar questões: nenhuma máquina de escrever, à data putativa dos memorandos, era capaz de manter aquela ordem de espaços entre as letras, sobrepondo-se as mesmas frases escritas com o processador de texto Word sobre o texto antigo, não havia discrepâncias, etc., etc.
Outros blogues levantaram questões de conteúdo - um militar não colocaria aquelas questões no papel, havia uma discrepância entre a linguagem e a forma de outros memorandos do mesmo militar (que já morreu) e os apresentados pela CBS, etc. Outros blogues refutaram que houvesse falsificações e a CBS disse que tinha feito analisar os documentos por vários grafólogos. Foi só uma questão de tempo até que o assunto chegasse à grande imprensa, ao "Washington Post", que tem outros meios de investigação, e as dúvidas sobre a autenticidade cresceram. Analistas e grafólogos mostraram que não havia a unanimidade que a CBS garantia e toda uma nova série de investigações e depoimentos aprofundaram as dúvidas. A questão está em aberto, mas a controvérsia só existiu porque existem blogues e a Internet lhes dá uma audiência universal.
Em Portugal, o mesmo já se passa hoje. Excluam-se os blogues e a comunicação social seria diferente. Não porque os blogues sejam lidos por muita gente, mas sim porque são lidos pela gente certa. Os blogues são escritos por uma elite para uma elite, são escritos por estudantes, literatos, políticos, cientistas, investigadores, jornalistas, na maioria dos casos jovens e no início de carreira, e são lidos pelos mesmos grupos sociais e profissionais dos que os escrevem. Um grupo tem relevo especial neste ecossistema que é a blogosfera: são os jornalistas.
Os jornalistas, principalmente da imprensa escrita, vão hoje buscar imensa coisa aos blogues, umas vezes citam, outras não, e os leitores dos jornais desconhecem a importância dessa contribuição. Ainda recentemente uma notícia de primeira página do PÚBLICO teve origem num blogue. O jornal demorou uns dias a referir a fonte, mas depois fê-lo quando por todo o lado na blogosfera havia protestos. Num blogue, essa ausência de citação seria impossível porque a cultura do hipertexto torna a citação do outro um elemento identitário da blogosfera.
Ideias, frases e factos circulam na blogosfera e, quando verificados, dão ao resto da comunicação social uma dimensão complementar - mais memória, mais conhecimento especializado, mais variedade de temas, novos ângulos de aproximação a um assunto, mais imaginação, maior cobertura regional através de blogues locais. Uma leitura a fundo dos blogues locais poderia suprir muitas deficiências resultantes da ausência de correspondentes locais e revelar histórias bem interessantes. A verificação é fundamental, dado que há textos ficcionais, construções e pastiches que já enganaram alguns jornalistas (e autores de blogues) como sendo verdadeiros, dando origem a alguns embaraços. Há muito lixo, como é da natureza democrática e não editada da rede, mas há também muita coisa boa.
Querem exemplos, dos últimos dias, de questões umas pertinentes, outras testemunhais, outras curiosas? Por que razão os jornalistas, que são tão activos na "transparência" foram tão parcos em nos relatar a cerimónia maçónica nos funerais do presidente do Tribunal Constitucional? Quem lá esteve? Alguém tentou fotografar? Novas do interior dos concertos de Madonna por quem assistiu, pequenos detalhes saborosos. Teorias conspirativas sobre as saídas dos administradores da CGD com algum inside trading. Como é que se come (mal) nos aviões da TAP. Críticas aos números usados por António Barreto nos artigos do PÚBLICO sobre educação. A informação de que ainda está disponível nas livrarias um livro de Hayek, supostamente esgotado. Testemunhos de levar as "encomendinhas" à escola por jovens pais e mães. Desmontagens várias do spin governamental, com exemplos para se perceber muito bem como funciona a "central de informações" e, de passagem, muito incómodos para os jornalistas que lhe dão ouvidos e caneta. Notas críticas da UE, da Constituição europeia, que quase não existem na grande imprensa, toda "europeísta". Por aí adiante.
Esta circulação rica e diversificada, em tempo quase real, constrói um tecido mais complexo à volta de notícias e interpretações e, em consequência, resulta muito crítica dos media tradicionais. É nos blogues, e na sua diversidade política e cultural, que se encontram as críticas muito duras à manipulação informativa que são impossíveis de fazer nos media. Estes são muito pouco sensíveis às críticas, quando não arrogantes, e os jornalistas não são exemplares na abertura ao escrutínio das suas práticas profissionais. Os noticiários manipulados de Rádio Bagdad (o petit nom da TSF) ou as críticas às fabulosas "análises" políticas de Luís Delgado são o "pão nosso de cada dia" nos blogues, e merecem ser lidas porque não são invectivas genéricas - têm exemplos que deviam incomodar todos, e, a prazo, incomodam cada vez mais.
Claro que os blogues estão longe de ser apenas um órgão de "jornalismo informal", como Mário Mesquita lhes chamou, e incluem outras dimensões que podem ter um carácter literário, sociológico e mesmo científico, como instrumentos de investigação. Penso, aliás, que as virtualidades literárias e estéticas da fórmula "diário-em-linha", em conjugação com inovações tecnológicas do software como o MyLifeBits da Microsoft podem vir a permitir novas formas de criação estética. Mas, a curto prazo, tem sido o efeito na media-esfera o de maior impacto.
12 de setembro de 2004
Olá, como vai? versão Lobo Antunes
A Consequência dos Semáforos
"Odeio os semáforos. Em primeiro lugar porque estão sempre vermelhos quando tenho pressa e verdes quando não tenho nenhuma, sem falar do amarelo, que provoca em mim uma indecisão horrível: travo ou acelero? Travo ao acelero?, acelero, depois travo, e ao travar de novo já me entrou uma furgoneta pela porta, já se juntou uma data de gente na esperança de sangue, já um tipo, de chave-inglesa na mão, saiu da furgoneta a chamar-me camelo, já a companhia de seguros me propões calorosamente que a troque por um rival qualquer, já não tenho carro por uma semana, já me ponho na borda do passeio a fazer sinais de náufrago aos táxis, já pago um dinheirão por cada viagem e, ainda por cima, tenho de aturar o pirilampo mágico e a Nossa Senhora do Alumínio do «tablier», o espelho de plástico pendurado do retrovisor, o autocolante da menina, de cabelos compridos e chapéu, ao lado do aviso «Não fume que sou asmático», proximidade que me leva a supor que os problemas respiratórios se acentuaram devido a alguma perfídia secreta da menina que não consigo perceber qual seja.
A Segunda e principal razão que me leva a odiar os semáforos é porque, de cada vez que paro, me surgem, no vidro da janela, criaturas inverosímeis: vendedores de jornais, vendedores de pensos rápidos, as senhoras vistosas, com uma caixa de metal ao peito, que nos colam autoritariamente, sobre o coração, o caranguejo do cancro, os matulões da Liga do Cegos João de deus, nas vizinhanças de um antifalante sobre uma camioneta com um espadalhão novo em folha em cima, o sujeito digno, a quem roubaram a carteira e que precisa de dinheiro para o comboio do Porto, o tuberculoso com o seu atestado comprovativo, toda a casta de aleijões (microcefálicos, macrocefálicos, coxos, marrecas, estrábicos divergentes e convergentes, bócios, braços mirrados, mãos com seis dedos, mãos sem dedo nenhum, mongolóides, dirigentes de partidos políticos, etc.), sem contar o grupo de Bombeiros Voluntários que necessita de uma ambulância, os novos finalistas de Coimbra, de capa e batina, que decidiram fazer uma viagem de fim de curso à Birmânia, e a rapaziada da heroína que não conseguiu roubar nenhum leitor de cassetes nesse dia.
Resultado: no primeiro semáforo já não tenho trocos. No segundo já não tenho casaco. No terceiro não tenho sapatos. No quinto estou nu. No sexto dei o Volkswagen. No sétimo aguardo que a luz passe a encarnado para assaltar por meu turno, de mistura com uma multidão de bombeiros, de estudantes, de drogados e de microcefálicos, o primeiro automóvel que aparece. Em média, mudo cinco vezes de vestimenta e de carro até chegar ao meu destino, e quando chego, ao volante de um camião TIR, a dançar numas calças enormes, os meus amigos queixam-se de eu não ser pontual."
"Odeio os semáforos. Em primeiro lugar porque estão sempre vermelhos quando tenho pressa e verdes quando não tenho nenhuma, sem falar do amarelo, que provoca em mim uma indecisão horrível: travo ou acelero? Travo ao acelero?, acelero, depois travo, e ao travar de novo já me entrou uma furgoneta pela porta, já se juntou uma data de gente na esperança de sangue, já um tipo, de chave-inglesa na mão, saiu da furgoneta a chamar-me camelo, já a companhia de seguros me propões calorosamente que a troque por um rival qualquer, já não tenho carro por uma semana, já me ponho na borda do passeio a fazer sinais de náufrago aos táxis, já pago um dinheirão por cada viagem e, ainda por cima, tenho de aturar o pirilampo mágico e a Nossa Senhora do Alumínio do «tablier», o espelho de plástico pendurado do retrovisor, o autocolante da menina, de cabelos compridos e chapéu, ao lado do aviso «Não fume que sou asmático», proximidade que me leva a supor que os problemas respiratórios se acentuaram devido a alguma perfídia secreta da menina que não consigo perceber qual seja.
A Segunda e principal razão que me leva a odiar os semáforos é porque, de cada vez que paro, me surgem, no vidro da janela, criaturas inverosímeis: vendedores de jornais, vendedores de pensos rápidos, as senhoras vistosas, com uma caixa de metal ao peito, que nos colam autoritariamente, sobre o coração, o caranguejo do cancro, os matulões da Liga do Cegos João de deus, nas vizinhanças de um antifalante sobre uma camioneta com um espadalhão novo em folha em cima, o sujeito digno, a quem roubaram a carteira e que precisa de dinheiro para o comboio do Porto, o tuberculoso com o seu atestado comprovativo, toda a casta de aleijões (microcefálicos, macrocefálicos, coxos, marrecas, estrábicos divergentes e convergentes, bócios, braços mirrados, mãos com seis dedos, mãos sem dedo nenhum, mongolóides, dirigentes de partidos políticos, etc.), sem contar o grupo de Bombeiros Voluntários que necessita de uma ambulância, os novos finalistas de Coimbra, de capa e batina, que decidiram fazer uma viagem de fim de curso à Birmânia, e a rapaziada da heroína que não conseguiu roubar nenhum leitor de cassetes nesse dia.
Resultado: no primeiro semáforo já não tenho trocos. No segundo já não tenho casaco. No terceiro não tenho sapatos. No quinto estou nu. No sexto dei o Volkswagen. No sétimo aguardo que a luz passe a encarnado para assaltar por meu turno, de mistura com uma multidão de bombeiros, de estudantes, de drogados e de microcefálicos, o primeiro automóvel que aparece. Em média, mudo cinco vezes de vestimenta e de carro até chegar ao meu destino, e quando chego, ao volante de um camião TIR, a dançar numas calças enormes, os meus amigos queixam-se de eu não ser pontual."
O Fim do Mundo, também segundo Lobo Antunes
O Fim Do Mundo
"Isto não pode ter acabado mas não sou tão parvo que vá chorar à tua frente. Pelo contrário: apareço-te com um sorriso como se não fosse nada, sento-me à mesa, ponho o guardanapo ao pescoço por causa dos salpicos na camisa ( a minha mãe, coitada, que já vê mal, vê-se agora grega com as nódoas), digo
- Boa noite, Manuela
e como a sopa até ao fim, a falar disto e daquilo, sem dar a entender que estou triste, sem dar a entender que tenho um nó na garganta, sem dar a entender que sinto a minha vida em cacos porque juro-te que não sou tão parvo que vá chorar à tua frente. Tu levantas-te, tiras-me a colher, pões o meu prato em cima do teu, trazes o arroz de coelho da cozinha, e eu abrir uma garrafa de cerveja que às vezes sempre ajuda um bocadinho a dissolver a tristeza e o nó na garganta, e enquanto me sirvo do arroz fico à espera que me fales do Carlos.
No fundo pode ser que a culpa seja minha por adiar constantemente o casamento contigo, por vir aqui às segundas e às quintas e ir-me embora, à uma da manhã, com a desculpa de que, com a idade, deixa a porta aberta e se esquece do gás, com a desculpa de que sou filho único e só me tem a mim, quando a verdade é que os compromissos me assustam, me assusta a ideia de quereres ter crianças (não tenho jeito nenhum para crianças), e com tantas desculpas e tantos adiamentos era mais que certo que acabavas por te cansar e que se não fosse o Carlos era outro, o Carlos pelo menos é um rapaz sossegado, gosta de ti, a mãe dele é quinze anos mais nova que a minha e tem uma saúde de ferro, e uma mulher não pode passar a vida inteira à espera que um fulano decida, não pode passar a maior parte das noites sem companhia a ver vídeos na televisão, uma mulher precisa de conversar, precisa de um homem para tomar conta e eu não sirvo para isso, Manuela, levo o serão a olhar para o relógio com receio de perder o barco, despeço-me à pressa com um beijo na testa, telefono de fugida do emprego até que, na semana passada, me avisaste
- Preciso imenso de falar contigo
e eu entendi que me querias explicar que o Carlos estava disposto a dar-te o que eu nunca te dei, que não ligava com o teu feitio ficares sozinha, ires sozinha à praia, ires sozinha ao cinema, aguentar as anginas sem ninguém ao pé, e oiço a minha voz
- o coelho está óptimo
farto de saber que não era isso que tu querias ouvir, farto de saber que o que querias ouvir era
- eu caso-me contigo, esquece o Carlos
mas não consigo, não sou capaz, gosto de ti no entanto não me vejo, percebes, a viver contigo, o amor é uma coisa tão esquisita, Manuela, garanto-te que tenho amor por ti, garanto-te que adorava pegar-te na mão
- Eu caso contigo, esquece o Carlos
e as palavras não saem, tu a garantires-me em silêncio
- Se ficares quero lá saber do Carlos
e tudo o que sou capaz, que idiotice, é elogiar-te o coelho em lugar de te elogiar a ti, de te pegar na mão de te jurar
- Amo-te
porque te amo, porque não conheço quem faça macramé tão bem, quem tenha a casa tão linda, a roupa tão asseada, nem um grão de pó na mobília, não conheço quem me trate como tu me tratas, acho que o Carlos tem uma sorte danada, acho que vou sentir a tua falta a doer-me e todavia não sou tão parvo que vá chorar à tua frente, falo contigo como se não fosse nada, enfio o guardanapo na argola, levanto-me, abotoo o casaco, e tu
- Preciso imenso de falar contigo
e eu, que não sou tão parvo que vá chorar à tua frente, eu a agarrar a maçaneta da porta
- Amanhã, amanhã
sabendo perfeitamente que não vou vir amanhã, que não vou vir nunca mais, que se viesse encontrava a mesa posta e o Carlos sentado no meu lugar, a comer o meu arroz de coelho e a propor-te
- vamos tratar da papelada no Registo
sabendo perfeitamente que daqui a dois ou três meses vou espreitar ao jardim da Gulbenkian, e lá estarão vocês e os padrinhos a tirarem fotografias junto à estátua, junto ao lago, e pode ser que me vejas, Manuela, pode ser que me distingas no meio dos arbustos, pode ser que olhes para mim como olhas agora
- preciso imenso de falar contigo
só que não dirás nada porque é tarde, porque não podes passar o resto da vida a ires sozinha à praia, a ires sozinha ao cinema, a aguentar as anginas sen«m ninguém ao pé, talvez me acenes, talvez eu te acene e apanhe logo o autocarro porque a velhota precisa de mim, com a idade deixa aporta aberta e esquece-se do gás, e ao entrar a minha mãe preocupada
- Vens pálido, Jorginho
e eu, muito depressa
- Não é nada, mãe
e sento-me no quintal das traseiras até ser noite e sem chorar, claro, que não sou tão parvo que comece a chorar, que mariquice chorar, eu não choro, não penses que choro, não choro, sento-me no quintal das traseiras até ser noite, a dar milho às galinhas, a dar milho às galinhas, a dar milho às galinhas."
"Isto não pode ter acabado mas não sou tão parvo que vá chorar à tua frente. Pelo contrário: apareço-te com um sorriso como se não fosse nada, sento-me à mesa, ponho o guardanapo ao pescoço por causa dos salpicos na camisa ( a minha mãe, coitada, que já vê mal, vê-se agora grega com as nódoas), digo
- Boa noite, Manuela
e como a sopa até ao fim, a falar disto e daquilo, sem dar a entender que estou triste, sem dar a entender que tenho um nó na garganta, sem dar a entender que sinto a minha vida em cacos porque juro-te que não sou tão parvo que vá chorar à tua frente. Tu levantas-te, tiras-me a colher, pões o meu prato em cima do teu, trazes o arroz de coelho da cozinha, e eu abrir uma garrafa de cerveja que às vezes sempre ajuda um bocadinho a dissolver a tristeza e o nó na garganta, e enquanto me sirvo do arroz fico à espera que me fales do Carlos.
No fundo pode ser que a culpa seja minha por adiar constantemente o casamento contigo, por vir aqui às segundas e às quintas e ir-me embora, à uma da manhã, com a desculpa de que, com a idade, deixa a porta aberta e se esquece do gás, com a desculpa de que sou filho único e só me tem a mim, quando a verdade é que os compromissos me assustam, me assusta a ideia de quereres ter crianças (não tenho jeito nenhum para crianças), e com tantas desculpas e tantos adiamentos era mais que certo que acabavas por te cansar e que se não fosse o Carlos era outro, o Carlos pelo menos é um rapaz sossegado, gosta de ti, a mãe dele é quinze anos mais nova que a minha e tem uma saúde de ferro, e uma mulher não pode passar a vida inteira à espera que um fulano decida, não pode passar a maior parte das noites sem companhia a ver vídeos na televisão, uma mulher precisa de conversar, precisa de um homem para tomar conta e eu não sirvo para isso, Manuela, levo o serão a olhar para o relógio com receio de perder o barco, despeço-me à pressa com um beijo na testa, telefono de fugida do emprego até que, na semana passada, me avisaste
- Preciso imenso de falar contigo
e eu entendi que me querias explicar que o Carlos estava disposto a dar-te o que eu nunca te dei, que não ligava com o teu feitio ficares sozinha, ires sozinha à praia, ires sozinha ao cinema, aguentar as anginas sem ninguém ao pé, e oiço a minha voz
- o coelho está óptimo
farto de saber que não era isso que tu querias ouvir, farto de saber que o que querias ouvir era
- eu caso-me contigo, esquece o Carlos
mas não consigo, não sou capaz, gosto de ti no entanto não me vejo, percebes, a viver contigo, o amor é uma coisa tão esquisita, Manuela, garanto-te que tenho amor por ti, garanto-te que adorava pegar-te na mão
- Eu caso contigo, esquece o Carlos
e as palavras não saem, tu a garantires-me em silêncio
- Se ficares quero lá saber do Carlos
e tudo o que sou capaz, que idiotice, é elogiar-te o coelho em lugar de te elogiar a ti, de te pegar na mão de te jurar
- Amo-te
porque te amo, porque não conheço quem faça macramé tão bem, quem tenha a casa tão linda, a roupa tão asseada, nem um grão de pó na mobília, não conheço quem me trate como tu me tratas, acho que o Carlos tem uma sorte danada, acho que vou sentir a tua falta a doer-me e todavia não sou tão parvo que vá chorar à tua frente, falo contigo como se não fosse nada, enfio o guardanapo na argola, levanto-me, abotoo o casaco, e tu
- Preciso imenso de falar contigo
e eu, que não sou tão parvo que vá chorar à tua frente, eu a agarrar a maçaneta da porta
- Amanhã, amanhã
sabendo perfeitamente que não vou vir amanhã, que não vou vir nunca mais, que se viesse encontrava a mesa posta e o Carlos sentado no meu lugar, a comer o meu arroz de coelho e a propor-te
- vamos tratar da papelada no Registo
sabendo perfeitamente que daqui a dois ou três meses vou espreitar ao jardim da Gulbenkian, e lá estarão vocês e os padrinhos a tirarem fotografias junto à estátua, junto ao lago, e pode ser que me vejas, Manuela, pode ser que me distingas no meio dos arbustos, pode ser que olhes para mim como olhas agora
- preciso imenso de falar contigo
só que não dirás nada porque é tarde, porque não podes passar o resto da vida a ires sozinha à praia, a ires sozinha ao cinema, a aguentar as anginas sen«m ninguém ao pé, talvez me acenes, talvez eu te acene e apanhe logo o autocarro porque a velhota precisa de mim, com a idade deixa aporta aberta e esquece-se do gás, e ao entrar a minha mãe preocupada
- Vens pálido, Jorginho
e eu, muito depressa
- Não é nada, mãe
e sento-me no quintal das traseiras até ser noite e sem chorar, claro, que não sou tão parvo que comece a chorar, que mariquice chorar, eu não choro, não penses que choro, não choro, sento-me no quintal das traseiras até ser noite, a dar milho às galinhas, a dar milho às galinhas, a dar milho às galinhas."
A vida , segundo Lobo Antunes
A Propósito de Ti
"Somos felizes. Acabámos de pagar a casa em Outubro, fechámos a marquise, substituímos a alcatifa por tacos, nenhum de nós foi despedido, as prestações do Opel estão no fim. Somos felizes: preferimos a mesma novela, nunca discutimos por causa do comando, quando compras a «TV Guia» sublinhas a encarnado os programas que me interessam, lembras-te sempre da hora daquela série policial que eu gosto tanto, com o preto cheio de anéis a dar cabo dos Italianos da Mafia.
Somos felizes: aos domingos vamos ao Feijó visitar a tua mãe, ficas a conversar com ela na cozinha e eu passeio com o Indiano, filho de uma senhora que mora lá no pátio; assistimos ao básquete dos sobrinhos dele no pavilhão polivalente, comemos uma salada de polvo no café durante os resumos do futebol, e voltamos para Almada à noite, com o jantar que atua mãe nos deu numa marmita embrulhada no «Record», a tempo de assistir às perguntas sobre «factos e personalidades» do concurso em que a apresentadora se parece com a tua prima Beatriz, a que montou um pronto-a-vestir no centro comercial do Prior Velho.
Somos felizes. A prova de que somos felizes é que comprámos o cão no mês passado e foi por causa do cão que tirámos a alcatifa, que as unhas do animalzinho rasparam de tal forma que já se notava o cimento do construtor por baixo. Andamos a ensiná-lo a não estragar as cortinas, pusemos-lhe uma coleira contra as pulgas depois de uma semana inteira a coçarmo-nos sem entender porquê, passados dois dias o Fernando começou a coçar-se também e a acusar-me de cheirar a cachorro e levar pulgas para a repartição, o chefe avisou-me do fundo
- Veja-me lá isso, Antunes
de modo que pus também uma coleira contra as pulgas debaixo da camisa e o Dionísio, espantado
- Deste em cónego ou quê?
E eu, envergonhado, a abotoar o colarinho
- É uma coisa chinesa para o reumatismo, a Jóia Magnética Vitafor é uma porcaria ao pé disto
e como nas Finanças se respeitam o reumatismo e as coisas chinesas, nunca mais me maçaram.
Às segundas, quartas e sextas sou eu que vou lá abaixo levar o cão a fazer chichi contra a palmeira, às terças, quintas e sábados é a tua vez, e o que não vai lá abaixo fica à janela a olhar o bichinho a cheirar os pneus dos automóveis, com um ar sério de quem resolve problemas de palavras cruzadas que os cães têm sempre que farejam postes e Unos.
Somos felizes. Por isso não me preocupei no Sábado com o animal, muito entretido na praceta, e tu atrás dele, de trela enrolada na mão, sem olhares para cima nem dizeres adeus, a nadares devagarinho até desapareceres na travessa para a estação dos barcos. Foi anteontem. Às onze horas tirei o cozido do forno e comi sozinho. Ontem também. Hoje também. Não levaste roupa, nem pinturas, nem a fotografia do teu pai, nada.
Ainda há bocadinho acabei de gravar o episódio da novela para ti. A tua mãe telefonou, a saber porque é que não fomos ao Feijó, e eu disse-lhe que daqui a nada lhe ligavas. Porque tenho a certeza de que tu não te foste embora, visto sermos felizes. Tão felizes que um dia destes vou comprar um micro-ondas para, se chegares a casa, teres a comida quente à tua espera."
"Somos felizes. Acabámos de pagar a casa em Outubro, fechámos a marquise, substituímos a alcatifa por tacos, nenhum de nós foi despedido, as prestações do Opel estão no fim. Somos felizes: preferimos a mesma novela, nunca discutimos por causa do comando, quando compras a «TV Guia» sublinhas a encarnado os programas que me interessam, lembras-te sempre da hora daquela série policial que eu gosto tanto, com o preto cheio de anéis a dar cabo dos Italianos da Mafia.
Somos felizes: aos domingos vamos ao Feijó visitar a tua mãe, ficas a conversar com ela na cozinha e eu passeio com o Indiano, filho de uma senhora que mora lá no pátio; assistimos ao básquete dos sobrinhos dele no pavilhão polivalente, comemos uma salada de polvo no café durante os resumos do futebol, e voltamos para Almada à noite, com o jantar que atua mãe nos deu numa marmita embrulhada no «Record», a tempo de assistir às perguntas sobre «factos e personalidades» do concurso em que a apresentadora se parece com a tua prima Beatriz, a que montou um pronto-a-vestir no centro comercial do Prior Velho.
Somos felizes. A prova de que somos felizes é que comprámos o cão no mês passado e foi por causa do cão que tirámos a alcatifa, que as unhas do animalzinho rasparam de tal forma que já se notava o cimento do construtor por baixo. Andamos a ensiná-lo a não estragar as cortinas, pusemos-lhe uma coleira contra as pulgas depois de uma semana inteira a coçarmo-nos sem entender porquê, passados dois dias o Fernando começou a coçar-se também e a acusar-me de cheirar a cachorro e levar pulgas para a repartição, o chefe avisou-me do fundo
- Veja-me lá isso, Antunes
de modo que pus também uma coleira contra as pulgas debaixo da camisa e o Dionísio, espantado
- Deste em cónego ou quê?
E eu, envergonhado, a abotoar o colarinho
- É uma coisa chinesa para o reumatismo, a Jóia Magnética Vitafor é uma porcaria ao pé disto
e como nas Finanças se respeitam o reumatismo e as coisas chinesas, nunca mais me maçaram.
Às segundas, quartas e sextas sou eu que vou lá abaixo levar o cão a fazer chichi contra a palmeira, às terças, quintas e sábados é a tua vez, e o que não vai lá abaixo fica à janela a olhar o bichinho a cheirar os pneus dos automóveis, com um ar sério de quem resolve problemas de palavras cruzadas que os cães têm sempre que farejam postes e Unos.
Somos felizes. Por isso não me preocupei no Sábado com o animal, muito entretido na praceta, e tu atrás dele, de trela enrolada na mão, sem olhares para cima nem dizeres adeus, a nadares devagarinho até desapareceres na travessa para a estação dos barcos. Foi anteontem. Às onze horas tirei o cozido do forno e comi sozinho. Ontem também. Hoje também. Não levaste roupa, nem pinturas, nem a fotografia do teu pai, nada.
Ainda há bocadinho acabei de gravar o episódio da novela para ti. A tua mãe telefonou, a saber porque é que não fomos ao Feijó, e eu disse-lhe que daqui a nada lhe ligavas. Porque tenho a certeza de que tu não te foste embora, visto sermos felizes. Tão felizes que um dia destes vou comprar um micro-ondas para, se chegares a casa, teres a comida quente à tua espera."
António Lobo Antunes e a arte de cuscar as almas femininas
Exemplo de uma Crónica
A Solidão Das Mulheres Divorciadas
"Aos fins-de-semana, quando não saio com a minha prima Bé, fico em casa a ver televisão. Ver televisão quer dizer regar as plantas da marquise, ler o meu horóscopo nas revistas, desfazer o tricot do domingo anterior, mudar de canal de vinte em vinte segundos a pensar em matar-me. O problema é que assim que me levanto para tomar os lexotans todos de uma vez a minha mãe telefona-me de Alcobaça a saber como estou, oiço-lhe os gritos no atendedor de chamadas (a minha mãe, que tem um medo danado dos telefones, sempre falou aos gritos) e como não é possível a gente suicidar-se e conversar com a mãe ao mesmo tempo desisto das pastilhas e garanto-lhe que estou óptima, que não tenho febre, que fumo no máximo três cigarros por dia, que como bem, que não emagreci
(- De certeza que não emagreceste?)
que para a semana a visito em Alcobaça sem falta e que qualquer dia, palavra, encontro um rapaz como deve ser
(- Não acredito que não haja um rapaz como deve ser no teu emprego, filha)
e me torno a casar, e desligo o telefone com um tal cansaço e uma tal dor de cabeça que a única coisa de que tenho vontade é de um aspegic e silêncio, e deixei de ter ganas de me suicidar visto que uma pessoa não consegue matar-se se estiver maldisposta.
Nos fins-de-semana em que saio com a minha prima Bé, vamos à Loja das Meias e à Escada sonhar com blazers de cachemira
(- Pode ser que com o subsídio de Natal lá chegue)
e casacos compridos, chateamo-nos como nos peruas nos filmes de que os jornais gostam, encontramo-nos num bar com colegas da escola dela que descobriram na semana passada, um restaurante italiano baratíssimo em Alcântara, e já me sucedeu acordar, aos domingos de manhã num apartamento de Campo de Ourique ou do Beato ao lado de professores de Matemática com iogurtes fora do prazo no congelador, um chinelo esquecido no bidé e um cinzeiro de folha a transbordar beatas no soalho, junto de uma chávena de café quebrada. Incapaz de tomar banho num chuveiro em que faltam sabonete e a água para além de se achar ocupado por um montão de jornais velhos, volto a toque de caixa para o Lumiar sem me despedir do barbudo que ressona de queixo na almofada
(- Não acredito que a Bé não conheça um rapaz como deve ser)
com um ombro fora do pijama descosido, e adormeço até que os gritos de Alcobaça me acordam, de coração aos pulos para inquirirem, ansiosos, no atendedor de chamadas, se tenho abusado dos fritos.
Não abuso dos fritos, não abuso do tabaco, não abuso do álcool, não abuso do sexo, não abuso de nada, mãe: oiço crescer o pêlo da alcatifa, mudo de vinte em vinte segundos de canal e leio o meu horóscopo na penúltima página dos magazines femininos, a seguir ao caderno da moda e a um artigo que explica como um cinto de ligas e uns sapatos vermelhos poderiam mudar a minha vida afectiva. Com um cinto de ligas os iogurtes fora do prazo desapareceriam do congelador? Com sapatos vermelhos encontraria chuveiros sem jornais? O meu horóscopo para esta semana, dividido como sempre em três partes, Saúde (cuidado com o fígado!), Finanças (atenção às despesas excessivas!) e Amor, prevê para quarta-feira, no que respeita às paixões, um encontro inesperado que me alterará para sempre a existência. Quarta-feira foi ontem e o encontro inesperado que tive consistiu em esbarrar com o meu ex-marido no metropolitano: deixou crescer o bigode, vinha acompanhado por uma mulata com metade da idade dele e nem sequer me viu. Ter-me-á visto alguma vez? Em todos os canais de televisão só passam novelas brasileiras. Oiço a chuva de Outubro contra os vidros e o casal do andar de cima a gemer ao ritmo da cama. Se me levantar para tomar os lexotans todos a minha mãe vai desatar aos gritos no atendedor de chamadas, de modo que o melhor é ficar quietinha no sofá a olhar as plantas e o retrato do meu sobrinho bebé sem pensar no suicídio. Para quê? Durante seis meses poupo nos almoços (uma bica, um croissant e um pastel de bacalhau comidos em pé ali no Centro) compro o blazer da Escada e uns sapatos vermelhos, a colega que vende ouro no escritório prometeu baixar-me as prestações do anel, e passo o serão sozinha, de blazer, sapatos e cachucho, lindíssima, a mudar de canal e a ouvir o pêlo da alcatifa crescer."
A Solidão Das Mulheres Divorciadas
"Aos fins-de-semana, quando não saio com a minha prima Bé, fico em casa a ver televisão. Ver televisão quer dizer regar as plantas da marquise, ler o meu horóscopo nas revistas, desfazer o tricot do domingo anterior, mudar de canal de vinte em vinte segundos a pensar em matar-me. O problema é que assim que me levanto para tomar os lexotans todos de uma vez a minha mãe telefona-me de Alcobaça a saber como estou, oiço-lhe os gritos no atendedor de chamadas (a minha mãe, que tem um medo danado dos telefones, sempre falou aos gritos) e como não é possível a gente suicidar-se e conversar com a mãe ao mesmo tempo desisto das pastilhas e garanto-lhe que estou óptima, que não tenho febre, que fumo no máximo três cigarros por dia, que como bem, que não emagreci
(- De certeza que não emagreceste?)
que para a semana a visito em Alcobaça sem falta e que qualquer dia, palavra, encontro um rapaz como deve ser
(- Não acredito que não haja um rapaz como deve ser no teu emprego, filha)
e me torno a casar, e desligo o telefone com um tal cansaço e uma tal dor de cabeça que a única coisa de que tenho vontade é de um aspegic e silêncio, e deixei de ter ganas de me suicidar visto que uma pessoa não consegue matar-se se estiver maldisposta.
Nos fins-de-semana em que saio com a minha prima Bé, vamos à Loja das Meias e à Escada sonhar com blazers de cachemira
(- Pode ser que com o subsídio de Natal lá chegue)
e casacos compridos, chateamo-nos como nos peruas nos filmes de que os jornais gostam, encontramo-nos num bar com colegas da escola dela que descobriram na semana passada, um restaurante italiano baratíssimo em Alcântara, e já me sucedeu acordar, aos domingos de manhã num apartamento de Campo de Ourique ou do Beato ao lado de professores de Matemática com iogurtes fora do prazo no congelador, um chinelo esquecido no bidé e um cinzeiro de folha a transbordar beatas no soalho, junto de uma chávena de café quebrada. Incapaz de tomar banho num chuveiro em que faltam sabonete e a água para além de se achar ocupado por um montão de jornais velhos, volto a toque de caixa para o Lumiar sem me despedir do barbudo que ressona de queixo na almofada
(- Não acredito que a Bé não conheça um rapaz como deve ser)
com um ombro fora do pijama descosido, e adormeço até que os gritos de Alcobaça me acordam, de coração aos pulos para inquirirem, ansiosos, no atendedor de chamadas, se tenho abusado dos fritos.
Não abuso dos fritos, não abuso do tabaco, não abuso do álcool, não abuso do sexo, não abuso de nada, mãe: oiço crescer o pêlo da alcatifa, mudo de vinte em vinte segundos de canal e leio o meu horóscopo na penúltima página dos magazines femininos, a seguir ao caderno da moda e a um artigo que explica como um cinto de ligas e uns sapatos vermelhos poderiam mudar a minha vida afectiva. Com um cinto de ligas os iogurtes fora do prazo desapareceriam do congelador? Com sapatos vermelhos encontraria chuveiros sem jornais? O meu horóscopo para esta semana, dividido como sempre em três partes, Saúde (cuidado com o fígado!), Finanças (atenção às despesas excessivas!) e Amor, prevê para quarta-feira, no que respeita às paixões, um encontro inesperado que me alterará para sempre a existência. Quarta-feira foi ontem e o encontro inesperado que tive consistiu em esbarrar com o meu ex-marido no metropolitano: deixou crescer o bigode, vinha acompanhado por uma mulata com metade da idade dele e nem sequer me viu. Ter-me-á visto alguma vez? Em todos os canais de televisão só passam novelas brasileiras. Oiço a chuva de Outubro contra os vidros e o casal do andar de cima a gemer ao ritmo da cama. Se me levantar para tomar os lexotans todos a minha mãe vai desatar aos gritos no atendedor de chamadas, de modo que o melhor é ficar quietinha no sofá a olhar as plantas e o retrato do meu sobrinho bebé sem pensar no suicídio. Para quê? Durante seis meses poupo nos almoços (uma bica, um croissant e um pastel de bacalhau comidos em pé ali no Centro) compro o blazer da Escada e uns sapatos vermelhos, a colega que vende ouro no escritório prometeu baixar-me as prestações do anel, e passo o serão sozinha, de blazer, sapatos e cachucho, lindíssima, a mudar de canal e a ouvir o pêlo da alcatifa crescer."
É proibido esquecer o terror
O Islão e o Terror
Por MIGUEL SOUSA TAVARES
Sábado, 11 de Setembro de 2004
Finalmente, alguém no mundo islâmico pôs a mão na consciência e ousou dizer alto a terrível verdade: "Todos os terroristas do mundo são muçulmanos." O autor desta frase, tão verdadeira quanto cruel, não foi (ainda) algum imã, algum dirigente religioso islâmico, mas sim um "civil": o jornalista Abdul-Rahman al-Rashed, director da televisão Al-Arabya e colunista do jornal "Ashark al-Awsat". Seguramente que al-Rashed irá passar por traidor entre os círculos religiosos e grande parte do mundo árabe e muçulmano, tanto mais que à constatação de facto ele acrescenta uma justificação que contém em si mesma a condenação moral da sociedade islâmica de hoje: "Os nossos filhos terroristas são o produto final da nossa cultura corrompida."
Manda a verdade que se diga que nem todos os terroristas, rigorosamente, são muçulmanos: Israel pratica, com a justificação da autodefesa, uma forma de terrorismo que, nem por ser aprovado e executado ao nível do Estado, deixa de o ser também. O terrorismo político, social e securitário de Israel constitui ainda hoje, aliás, a fonte de legitimação do terrorismo muçulmano aos olhos de uma crescente comunidade de crentes do islão. Reconhecesse Israel, sem subterfúgios de qualquer espécie, o direito dos palestinianos de viverem numa pátria livre e viável, a par do seu próprio direito de viver em fronteiras seguras, e grande parte das justificações políticas ou teológicas do terrorismo islâmico cairia por terra, no mesmo dia.
À parte, porém, a excepção importante de Israel, o que os factos mostram é que desde o assalto de um comando palestiniano à aldeia olímpica israelita, nos Jogos de Munique - uma espécie de "acto fundador" do terrorismo moderno - até ao massacre de Beslan, sábado passado, toda esta desumana barbárie que nos vamos tragicamente habituando a viver tem sempre, na sua génese e na sua autoria, a assinatura de gente que se reclama dos ensinamentos do Corão e das "fatwas" do clero islâmico. Vai um pequeno passo daí até podermos concluir que o mal está no islão, naquilo em que ele se transformou e naquilo que, acima de tudo, ele representa hoje em dia: uma escola de intolerância, ressentimento e ódio, devotada ao ressurgimento de um espírito de cruzada contra os "infiéis", que remete a humanidade para um mundo medieval e obscurantista, onde o serviço de Deus, fosse Ele cristão, muçulmano ou hindu, justificava toda a espécie de crimes. Em nome de Deus, o catolicismo promoveu ou legitimou, sucessivamente, as Cruzadas, a Inquisição, a exterminação dos índios das Américas, a perseguição e a intolerância dos missionários da Índia contra os "gentios" e o tráfico de escravos de África. E, no fim, não foi nenhum movimento redentor, nenhum acto de contrição nascido dentro da própria Igreja Católica, que veio deslegitimar a barbárie e o arbítrio em nome de Deus: foram as ideias da Revolução Francesa, a proclamação dos Direitos do Homem, os movimentos civilistas que finalmente se impuseram no Ocidente às sociedades civilizadas.
É justamente o que não se vê existir hoje no mundo islâmico e, em particular, no mundo árabe: um movimento civilista, o triunfo do homem, da ciência e do progresso sobre o fanatismo religioso. O que outrora fez o esplendor da civilização árabe parece ter sucumbido para sempre na trágica rendição de Granada, como se em 1482 não tivesse caído apenas uma cidade, mas verdadeiramente toda uma civilização. Hoje, sentados sobre os lençóis de petróleo de que depende a sustentação económica do Ocidente, tanto parece bastar aos árabes para justificar a sua superioridade. Mas, em todos os domínios que caracterizam as sociedades evoluídas do nosso tempo - a saúde, o sistema de ensino, o domínio das tecnologias modernas, o sistema de segurança e protecção social, a produtividade do trabalho, a tributação fiscal e o exercício inteiro da cidadania -, não há uma só contribuição que não tenha origem no Ocidente. Quer sigam ou não à risca os mandamentos da sua religião, sempre e sempre invocada, quer respeitem ou desprezem os valores do Ocidente, todos os dias há multidões de cidadãos de países muçulmanos que tentam atravessar o estreito de Gibraltar para Espanha, que tentam emigrar da Argélia para França, da Turquia para a Alemanha, do Paquistão para Inglaterra ou da Palestina para os Estados Unidos. Não vão apenas à procura de trabalho e de condições materiais de vida dignas - que é uma vergonha não encontrarem nos seus países de origem -, mas vão também à procura de tudo o que lhes pode oferecer uma sociedade livre e laica. E é por isso que não existe o movimento contrário: que, mesmo os ocidentais fascinados com o mundo árabe, como eu próprio, não estão dispostos a trocar o modo de vida em que se funda a sua cultura e os seus valores por um outro mundo onde quem manda em nós, na nossa casa, nos nossos hábitos, na nossa família e no nosso país são uns guardiões de um texto dito sagrado, escrito por um Profeta há mais de mil e quinhentos anos, e destinado a povos nómadas do deserto e a sociedades que ou já não existem ou há muito deveriam ter deixado de existir.
É preciso que não haja confusão nem pudor algum sobre isto: nós temos razão e eles não. O quinto mandamento dado a Moisés, "não matarás!", é o que distingue os homens dos assassinos. A liberdade individual é infinitamente mais justa e própria da condição humana do que o cumprimento das "verdades" reveladas no código penal medieval que é o Corão. O Estado laico é o único que assegura a liberdade e a dignidade da pessoa, face ao arbítrio e ao obscurantismo do Estado religioso. Deus é um assunto e uma vontade individual de cada um, inalienável a favor do Estado, da escola ou de intermediários autonomeados.
Na última edição da PÚBLICA vem uma entrevista feita por Paulo Moura ao marroquino-francês Thami Bréze, presidente da UOIF, a maior organização muçulmana actuante em França. O objectivo que ele diz pretender é conciliar os valores do islão com os da República Francesa. Ora, isto é, em si mesmo, impossível, contraditório e deve levar-nos a desconfiar e a ficar imediatamente alerta: trata-se de um cavalo de Tróia. Não há convivência possível entre os ensinamentos do Corão e os valores civilistas de 1789. Repare-se, por exemplo, como ele coloca a questão do uso do véu islâmico: as raparigas muçulmanas têm a "liberdade" de o não usar, mas, se quiserem seguir a "verdade" que lhes é ensinada nas escolas corânicas e dentro de casa, têm de o usar - ou seja, resta-lhes a liberdade de poderem trair, porque a verdade, essa, há-de permanecer imutável para sempre.
Mas Thami Bréze também sabe que o Corão é um texto datado, cuja leitura literal não faz hoje o mais pequeno sentido, mesmo para os próprios crentes. Isso torna-o, reconhece ele, um "texto muito perigoso", que requer interpretação e regras, "não se faz como se quer". Logo, "o problema é quem faz a interpretação, quem é a autoridade". Justamente: eis a fragilidade do islão. Não subsiste sem autoridade religiosa, sem clero, sem intérpretes autolegitimados da palavra divina. Só que, ao contrário do catolicismo, não existe uma autoridade suprema que fixe a melhor doutrina, não há concílios, não há encíclicas: cada escola interpreta o Corão como entende ou como melhor lhe serve para outros fins. No Irão, o "ayatollah" Khomeini interpretou-o de tal forma que, de um dia para o outro, o país regrediu cinco séculos; no Afeganistão dos taliban, o extremo chegou ao ponto de as mulheres serem proibidas de estudar, trabalhar, sair à rua e até serem atendidas nos hospitais; na Arábia Saudita, as escolas corânicas formaram os ideólogos da Al-Qaeda, e em Marrocos, na Argélia, no Egipto ou no Sudão, formam hostes de assassinos, para quem matar os próprios vizinhos e irmãos é uma forma suprema de cumprir os mandamentos do Profeta. Qual é então, afinal, a verdade única revelada pelo Corão?
Ideólogos e dirigentes como Thami Bréze, que vivem no Ocidente e beneficiam da sua cidadania, não podem, não devem acreditar e, honestamente, também não julgo que acreditem nestas visões extremas do texto sagrado. Mas não só a sua condenação do terrorismo islâmico nunca é linear ou aparece sempre mitigada - como se ele não fosse o Mal absoluto do nosso tempo - mas também a sua visão da república e da liberdade é selectiva. Em França, Thami Bréze é a favor da laicidade do Estado, "porque ela nos protege"; mas, se vivesse em Marrocos, seria seguramente contra. Em França, é a favor das liberdades republicanas de que os muçulmanos podem tirar benefício - a liberdade de expressão, de culto, de voto, de greve, de recurso judicial independente, do ensino laico nas escolas públicas - mas já não seria a favor num Estado islâmico e, mesmo em França, consente (porque não pode impedir), mas não legitima, o uso de outras liberdades como o de as raparigas não irem para a escola sem o "chador".
Porém, ao contrário do que ele defende, nós sabemos que a liberdade não é compartimentável nem fragmentária. Também Álvaro Cunhal jurava sempre defender "as mais amplas liberdades" - como se houvesse liberdade relativa. A liberdade ou é absoluta e idêntica em todas as latitudes ou não é um valor em si mesma, mas apenas um disfarce - e fatalmente provisório. É por isso que, nesta questão da proibição do uso do véu islâmico em França, e contra muitas opiniões bem argumentadas e que dão que pensar, o instinto sempre me disse que a França tem razão. O Estado de direito, o Estado republicano, deve consentir a todos o exercício do seu culto religioso, mas não deve consentir nem a ostentação de símbolos que pretendem invocar uma diferença ou superioridade em razão da religião, nem práticas religiosas que ofendem os princípios em que se funda a democracia e a república. Do mesmo modo que eu, quando vou a um país muçulmano, respeito os valores, os símbolos e as práticas aí existentes e abstenho-me de exibir ou fazer uso dos meus, de modo a poder ofendê-los.
Na sua génese, o terrorismo é uma batalha ideológica, que o Ocidente tem de travar e de vencer.
Por MIGUEL SOUSA TAVARES
Sábado, 11 de Setembro de 2004
Finalmente, alguém no mundo islâmico pôs a mão na consciência e ousou dizer alto a terrível verdade: "Todos os terroristas do mundo são muçulmanos." O autor desta frase, tão verdadeira quanto cruel, não foi (ainda) algum imã, algum dirigente religioso islâmico, mas sim um "civil": o jornalista Abdul-Rahman al-Rashed, director da televisão Al-Arabya e colunista do jornal "Ashark al-Awsat". Seguramente que al-Rashed irá passar por traidor entre os círculos religiosos e grande parte do mundo árabe e muçulmano, tanto mais que à constatação de facto ele acrescenta uma justificação que contém em si mesma a condenação moral da sociedade islâmica de hoje: "Os nossos filhos terroristas são o produto final da nossa cultura corrompida."
Manda a verdade que se diga que nem todos os terroristas, rigorosamente, são muçulmanos: Israel pratica, com a justificação da autodefesa, uma forma de terrorismo que, nem por ser aprovado e executado ao nível do Estado, deixa de o ser também. O terrorismo político, social e securitário de Israel constitui ainda hoje, aliás, a fonte de legitimação do terrorismo muçulmano aos olhos de uma crescente comunidade de crentes do islão. Reconhecesse Israel, sem subterfúgios de qualquer espécie, o direito dos palestinianos de viverem numa pátria livre e viável, a par do seu próprio direito de viver em fronteiras seguras, e grande parte das justificações políticas ou teológicas do terrorismo islâmico cairia por terra, no mesmo dia.
À parte, porém, a excepção importante de Israel, o que os factos mostram é que desde o assalto de um comando palestiniano à aldeia olímpica israelita, nos Jogos de Munique - uma espécie de "acto fundador" do terrorismo moderno - até ao massacre de Beslan, sábado passado, toda esta desumana barbárie que nos vamos tragicamente habituando a viver tem sempre, na sua génese e na sua autoria, a assinatura de gente que se reclama dos ensinamentos do Corão e das "fatwas" do clero islâmico. Vai um pequeno passo daí até podermos concluir que o mal está no islão, naquilo em que ele se transformou e naquilo que, acima de tudo, ele representa hoje em dia: uma escola de intolerância, ressentimento e ódio, devotada ao ressurgimento de um espírito de cruzada contra os "infiéis", que remete a humanidade para um mundo medieval e obscurantista, onde o serviço de Deus, fosse Ele cristão, muçulmano ou hindu, justificava toda a espécie de crimes. Em nome de Deus, o catolicismo promoveu ou legitimou, sucessivamente, as Cruzadas, a Inquisição, a exterminação dos índios das Américas, a perseguição e a intolerância dos missionários da Índia contra os "gentios" e o tráfico de escravos de África. E, no fim, não foi nenhum movimento redentor, nenhum acto de contrição nascido dentro da própria Igreja Católica, que veio deslegitimar a barbárie e o arbítrio em nome de Deus: foram as ideias da Revolução Francesa, a proclamação dos Direitos do Homem, os movimentos civilistas que finalmente se impuseram no Ocidente às sociedades civilizadas.
É justamente o que não se vê existir hoje no mundo islâmico e, em particular, no mundo árabe: um movimento civilista, o triunfo do homem, da ciência e do progresso sobre o fanatismo religioso. O que outrora fez o esplendor da civilização árabe parece ter sucumbido para sempre na trágica rendição de Granada, como se em 1482 não tivesse caído apenas uma cidade, mas verdadeiramente toda uma civilização. Hoje, sentados sobre os lençóis de petróleo de que depende a sustentação económica do Ocidente, tanto parece bastar aos árabes para justificar a sua superioridade. Mas, em todos os domínios que caracterizam as sociedades evoluídas do nosso tempo - a saúde, o sistema de ensino, o domínio das tecnologias modernas, o sistema de segurança e protecção social, a produtividade do trabalho, a tributação fiscal e o exercício inteiro da cidadania -, não há uma só contribuição que não tenha origem no Ocidente. Quer sigam ou não à risca os mandamentos da sua religião, sempre e sempre invocada, quer respeitem ou desprezem os valores do Ocidente, todos os dias há multidões de cidadãos de países muçulmanos que tentam atravessar o estreito de Gibraltar para Espanha, que tentam emigrar da Argélia para França, da Turquia para a Alemanha, do Paquistão para Inglaterra ou da Palestina para os Estados Unidos. Não vão apenas à procura de trabalho e de condições materiais de vida dignas - que é uma vergonha não encontrarem nos seus países de origem -, mas vão também à procura de tudo o que lhes pode oferecer uma sociedade livre e laica. E é por isso que não existe o movimento contrário: que, mesmo os ocidentais fascinados com o mundo árabe, como eu próprio, não estão dispostos a trocar o modo de vida em que se funda a sua cultura e os seus valores por um outro mundo onde quem manda em nós, na nossa casa, nos nossos hábitos, na nossa família e no nosso país são uns guardiões de um texto dito sagrado, escrito por um Profeta há mais de mil e quinhentos anos, e destinado a povos nómadas do deserto e a sociedades que ou já não existem ou há muito deveriam ter deixado de existir.
É preciso que não haja confusão nem pudor algum sobre isto: nós temos razão e eles não. O quinto mandamento dado a Moisés, "não matarás!", é o que distingue os homens dos assassinos. A liberdade individual é infinitamente mais justa e própria da condição humana do que o cumprimento das "verdades" reveladas no código penal medieval que é o Corão. O Estado laico é o único que assegura a liberdade e a dignidade da pessoa, face ao arbítrio e ao obscurantismo do Estado religioso. Deus é um assunto e uma vontade individual de cada um, inalienável a favor do Estado, da escola ou de intermediários autonomeados.
Na última edição da PÚBLICA vem uma entrevista feita por Paulo Moura ao marroquino-francês Thami Bréze, presidente da UOIF, a maior organização muçulmana actuante em França. O objectivo que ele diz pretender é conciliar os valores do islão com os da República Francesa. Ora, isto é, em si mesmo, impossível, contraditório e deve levar-nos a desconfiar e a ficar imediatamente alerta: trata-se de um cavalo de Tróia. Não há convivência possível entre os ensinamentos do Corão e os valores civilistas de 1789. Repare-se, por exemplo, como ele coloca a questão do uso do véu islâmico: as raparigas muçulmanas têm a "liberdade" de o não usar, mas, se quiserem seguir a "verdade" que lhes é ensinada nas escolas corânicas e dentro de casa, têm de o usar - ou seja, resta-lhes a liberdade de poderem trair, porque a verdade, essa, há-de permanecer imutável para sempre.
Mas Thami Bréze também sabe que o Corão é um texto datado, cuja leitura literal não faz hoje o mais pequeno sentido, mesmo para os próprios crentes. Isso torna-o, reconhece ele, um "texto muito perigoso", que requer interpretação e regras, "não se faz como se quer". Logo, "o problema é quem faz a interpretação, quem é a autoridade". Justamente: eis a fragilidade do islão. Não subsiste sem autoridade religiosa, sem clero, sem intérpretes autolegitimados da palavra divina. Só que, ao contrário do catolicismo, não existe uma autoridade suprema que fixe a melhor doutrina, não há concílios, não há encíclicas: cada escola interpreta o Corão como entende ou como melhor lhe serve para outros fins. No Irão, o "ayatollah" Khomeini interpretou-o de tal forma que, de um dia para o outro, o país regrediu cinco séculos; no Afeganistão dos taliban, o extremo chegou ao ponto de as mulheres serem proibidas de estudar, trabalhar, sair à rua e até serem atendidas nos hospitais; na Arábia Saudita, as escolas corânicas formaram os ideólogos da Al-Qaeda, e em Marrocos, na Argélia, no Egipto ou no Sudão, formam hostes de assassinos, para quem matar os próprios vizinhos e irmãos é uma forma suprema de cumprir os mandamentos do Profeta. Qual é então, afinal, a verdade única revelada pelo Corão?
Ideólogos e dirigentes como Thami Bréze, que vivem no Ocidente e beneficiam da sua cidadania, não podem, não devem acreditar e, honestamente, também não julgo que acreditem nestas visões extremas do texto sagrado. Mas não só a sua condenação do terrorismo islâmico nunca é linear ou aparece sempre mitigada - como se ele não fosse o Mal absoluto do nosso tempo - mas também a sua visão da república e da liberdade é selectiva. Em França, Thami Bréze é a favor da laicidade do Estado, "porque ela nos protege"; mas, se vivesse em Marrocos, seria seguramente contra. Em França, é a favor das liberdades republicanas de que os muçulmanos podem tirar benefício - a liberdade de expressão, de culto, de voto, de greve, de recurso judicial independente, do ensino laico nas escolas públicas - mas já não seria a favor num Estado islâmico e, mesmo em França, consente (porque não pode impedir), mas não legitima, o uso de outras liberdades como o de as raparigas não irem para a escola sem o "chador".
Porém, ao contrário do que ele defende, nós sabemos que a liberdade não é compartimentável nem fragmentária. Também Álvaro Cunhal jurava sempre defender "as mais amplas liberdades" - como se houvesse liberdade relativa. A liberdade ou é absoluta e idêntica em todas as latitudes ou não é um valor em si mesma, mas apenas um disfarce - e fatalmente provisório. É por isso que, nesta questão da proibição do uso do véu islâmico em França, e contra muitas opiniões bem argumentadas e que dão que pensar, o instinto sempre me disse que a França tem razão. O Estado de direito, o Estado republicano, deve consentir a todos o exercício do seu culto religioso, mas não deve consentir nem a ostentação de símbolos que pretendem invocar uma diferença ou superioridade em razão da religião, nem práticas religiosas que ofendem os princípios em que se funda a democracia e a república. Do mesmo modo que eu, quando vou a um país muçulmano, respeito os valores, os símbolos e as práticas aí existentes e abstenho-me de exibir ou fazer uso dos meus, de modo a poder ofendê-los.
Na sua génese, o terrorismo é uma batalha ideológica, que o Ocidente tem de travar e de vencer.
11 de setembro de 2004
O EPC que me faltava na colecção de Verão
105 Anos
Por EDUARDO PRADO COELHO
Segunda-feira, 06 de Setembro de 2004
incrível: Emídio Guerreiro faz hoje 105 anos. António Melo entrevistou-o para a última "Pública". E esta entrevista emociona-nos pelo percurso de uma vida e ao mesmo tempo constitui a homenagem merecida a um grande combatente pela liberdade (a sua biografia é exemplar). E é também um espantoso documento sobre a vida e a velhice. O que impressiona nas palavras de Emídio Guerreiro é a extrema lucidez do seu discurso, a capacidade de desenvolver ainda raciocínios complexos e originais. Por exemplo, quando na sequência de uma interpelação do entrevistador, Emídio Guerreiro faz a distinção extremamente pertinente entre a racionalidade inata e a construção do racionalismo: "O racionalismo é uma grande descoberta da emancipação humana, permite-nos saber que somos homens. Todas as teorias filosóficas admitem o ser, admitem o estar, admitem o dogma. Mas só a partir de Descartes [1596-1650] é que o racionalismo passou a ser um instrumento para construir a própria razão humana. Pela dúvida metódica, passa a passo, procede-se para o conhecimento de uma verdade que permite alcançar o conhecimento de outra verdade. Chega-se a uma verdade formulada sem imposição de uma verdade revelada."
Emídio Guerreiro traz consigo todos os grandes temas do humanismo progressista, mesmo naquilo que tem hoje para nós uma dimensão algo datada. Mas os grandes nomes estão lá: de Descartes e da instituição do espírito crítico até ao mito do Prometeu agrilhoado como narrativa imorredora da liberdade, Emídio Guerreiro, homem de formação científica, vai buscar todos os temas fundamentais e alegorias nucleares para traçar o grande paradigma do progresso: afirmação do pensamento não tutelado e da tolerância, combate da luz contra as trevas, dignidade vertical do ser humano.
Mas é aqui que surge a velhice e surge uma imagem admirável: Sísifo já não é Sísifo, é alguém que desce ao subir. Toda a entrevista é um belíssimo combate entre um António Melo que se pretende optimista e um Emídio Guerreiro que acha que a velhice é pior do que a morte, porque é o declínio de todos as grandes razões de ser do homem livre. A alegoria ganha aqui uma outra dimensão: "Referiu Sísifo, mas já não estou a subir a montanha; é o contrário. É uma projecção que sai da vida. Imagine que o meu amigo está a descer a montanha e tem aos seus pés um espelho enorme. Há uma visão da vida que sobe, mas o caminhante desde. O aspecto real desta visão é o da vida não autónoma. É uma amarração à vida.".
Admirável confronto. De um lado a vida e a morte como formas de vida. Do outro, uma realidade terceira, lateral, insuportável, inaceitável. Emídio Guerreiro afirma: "eu desejo que os meus amigos vivam muito, só que não envelheçam". E quando António Melo pergunta: "Só vê a velhice como decrepitude? Não pode ser uma reflexão da experiência?", Emídio Guerreiro responde com um golpe impiedoso da razão: "Não é. É um naufrágio". Mas nós, que vemos com espanto este homem que atravessa os séculos, só podemos dizer a admiração que ele nos merece.
Por EDUARDO PRADO COELHO
Segunda-feira, 06 de Setembro de 2004
incrível: Emídio Guerreiro faz hoje 105 anos. António Melo entrevistou-o para a última "Pública". E esta entrevista emociona-nos pelo percurso de uma vida e ao mesmo tempo constitui a homenagem merecida a um grande combatente pela liberdade (a sua biografia é exemplar). E é também um espantoso documento sobre a vida e a velhice. O que impressiona nas palavras de Emídio Guerreiro é a extrema lucidez do seu discurso, a capacidade de desenvolver ainda raciocínios complexos e originais. Por exemplo, quando na sequência de uma interpelação do entrevistador, Emídio Guerreiro faz a distinção extremamente pertinente entre a racionalidade inata e a construção do racionalismo: "O racionalismo é uma grande descoberta da emancipação humana, permite-nos saber que somos homens. Todas as teorias filosóficas admitem o ser, admitem o estar, admitem o dogma. Mas só a partir de Descartes [1596-1650] é que o racionalismo passou a ser um instrumento para construir a própria razão humana. Pela dúvida metódica, passa a passo, procede-se para o conhecimento de uma verdade que permite alcançar o conhecimento de outra verdade. Chega-se a uma verdade formulada sem imposição de uma verdade revelada."
Emídio Guerreiro traz consigo todos os grandes temas do humanismo progressista, mesmo naquilo que tem hoje para nós uma dimensão algo datada. Mas os grandes nomes estão lá: de Descartes e da instituição do espírito crítico até ao mito do Prometeu agrilhoado como narrativa imorredora da liberdade, Emídio Guerreiro, homem de formação científica, vai buscar todos os temas fundamentais e alegorias nucleares para traçar o grande paradigma do progresso: afirmação do pensamento não tutelado e da tolerância, combate da luz contra as trevas, dignidade vertical do ser humano.
Mas é aqui que surge a velhice e surge uma imagem admirável: Sísifo já não é Sísifo, é alguém que desce ao subir. Toda a entrevista é um belíssimo combate entre um António Melo que se pretende optimista e um Emídio Guerreiro que acha que a velhice é pior do que a morte, porque é o declínio de todos as grandes razões de ser do homem livre. A alegoria ganha aqui uma outra dimensão: "Referiu Sísifo, mas já não estou a subir a montanha; é o contrário. É uma projecção que sai da vida. Imagine que o meu amigo está a descer a montanha e tem aos seus pés um espelho enorme. Há uma visão da vida que sobe, mas o caminhante desde. O aspecto real desta visão é o da vida não autónoma. É uma amarração à vida.".
Admirável confronto. De um lado a vida e a morte como formas de vida. Do outro, uma realidade terceira, lateral, insuportável, inaceitável. Emídio Guerreiro afirma: "eu desejo que os meus amigos vivam muito, só que não envelheçam". E quando António Melo pergunta: "Só vê a velhice como decrepitude? Não pode ser uma reflexão da experiência?", Emídio Guerreiro responde com um golpe impiedoso da razão: "Não é. É um naufrágio". Mas nós, que vemos com espanto este homem que atravessa os séculos, só podemos dizer a admiração que ele nos merece.
10 de setembro de 2004
Altino do Tojal, autor de "Os Putos"
Altino do Tojal, autor de "Os Putos", e "o que jamais deu uma entrevista"
Altino do Tojal nasceu em 26 de Julho de 1939, em Braga. Criado por sua tia Emília, professora primária, que o ensinou a ler aos cinco anos, teve também o seu avô, professor aposentado, um importante esteio familiar. Ficou só muito novo, em circunstâncias difíceis. Seguiu-se um percurso de autodidacta, de alguém que quis ser, única e simplesmente, escritor, embora, «por razões de pão mais vinho», viesse a trabalhar em vários jornais. Numa obra que contempla contos, romances e novelas, é fundamentalmente conhecido pelo livro Os Putos que já vai na 28ª edição e foi adaptado ao teatro, à televisão e à banda desenhada. A primeira versão de Os Putos surgiu em 1964, ainda com o título Sardinhas e Lua. A partir daí sucederam-se as edições e o livro não tem parado de engrossar. A mais recente edição, abrangendo 145 histórias, acaba de ser publicada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, num alentado volume de quase 700 páginas. Esta edição de Os Putos: contos da luz e das sombras assinala, sem dúvida, a sua entrada no Cânone. «Bastaria este livro para que o seu autor não pudesse ser esquecido», como escreveu José Blanc de Portugal.
Altino do Tojal, o contador de histórias, «aquele que nunca aparece na televisão, o solitário, o bicho do mato, o que jamais deu uma entrevista», no seu dizer autobiográfico, acedeu, relutante, a vir a público...
A Página (Luís Souta) - Sabe-se pouco da sua bibliografia...
Altino do Tojal - Pouco mais que nada, de facto, o que nunca me preocupou muito. Senti que se adensava o silêncio à minha volta, mas depressa me conformei. Se a minha obra tivesse a importância que eu lhe atribuía, o tempo se encarregaria de lhe prestar justiça. E como já transcorreram 37 anos após a primeira edição de Os Putos e as reedições continuam a suceder-se...
- Fala-me da sua infância.
- Dois membros da minha família marcaram-me profundamente: a minha tia Emília e o meu avô. A minha tia Emília levava-me consigo para as aldeolas onde dava aulas: S. Pedro de Valbom, Valdezende... Tempo ainda de iluminação a petróleo, de carros de bois a lamuriar por caminhos primitivos... Acompanhei minha tia nos meus cinco, seis anos. Não tinha ainda idade para andar na escola, mas ela exigia de mim o mesmo que exigia aos alunos.
- Teve uma excelente "pré-primária"...
- Assim o creio. Era uma aventura, um deslumbramento. Ir às segundas-feiras de Braga para essas aldeias era para mim, criança ávida de descoberta, verdadeira magia, magia pura. Mal nos apeávamos da camioneta, lá estavam os garotos à nossa espera. As miúdas ofereciam à senhora professora ramos de flores silvestres e os rapazitos exibiam-se em gritaria heróica, descalços, limpando o monco (risos) à manga do casaco e deixando nela uma espécie de rasto de lesma...
- Uma festa, a chegada da professora?
- Sim, era uma festa. Nós por aqueles caminhitos rumo à escola, à velha escola, minha tia à frente com aquelas flores todas como uma santa num andor. Parecia uma galinha seguida pelos pintos. (Risos). As mocinhas muito compenetradas e sorridentes, os rapazitos aos pinotes, com berros de assustar índios...
- Você conta, com graça, o percurso das professoras...
- Era sempre a mesma coisa. Viajavam numa camioneta incrível, focinhuda, que largava fumo e poeirada e nas subidas gemia que metia dó. De aldeia em aldeia, a camioneta ia parando e em cada paragem apeava-se uma professora, com o respectivo bando à espera. Até que chegava a nossa vez. Tagarelando na camioneta, as professores comentavam animadamente o filme romântico visto na véspera, na cidade, falavam de namoricos e falavam também, de rosto sombrio, das temidas visitas dos inspectores escolares (risos). Era assim, falavam de cinema, de amores, de moda, dos tais inspectores escolares...
- Eram pessoas que durante a semana estavam nas aldeias onde leccionavam e só ao fim-de-semana é que regressavam a Braga?
- Sim. E como se conheciam, acontecia irem às vezes juntas ao cinema. Também eu ia ao cinema com a minha tia, já que por esses tempos não havia classificações etárias. Aos nove anos, por exemplo, vi o Hamlet, do Shakespeare, numa admirável adaptação cinematográfica de Lawrence Olivier. Sabe que me impressionou muito esse filme? Foi o meu primeiro contacto com a morte, através da conhecida cena dos coveiros. Bom, acho que não foi o primeiro; o primeiro acontecera pouco antes, e mais impressivo, quando assisti à exumação dos restos mortais de minha avó. Talvez por isso, a Morte paira sobre muita da minha produção literária.
- Hoje há a tendência para afastar as crianças da imagem da morte. Acha isso negativo?
- No meu caso foi uma fonte de inspiração.
- Fale sobre a vida na aldeia, com sua tia.
- À noite, rezávamos o terço. Minha tinha era muito religiosa. Orações, orações... aquilo nunca mais acabava. Depois do rosário propriamente dito, havia que rezar pelas almas dos parentes já falecidos, uma legião interminável, e depois em prol das almas mais abandonadas. Dava-me o sono, mas eu sabia que a seguir vinha o encantamento, porque minha tia contava-me histórias antes de adormecermos. Contava-as como só ela sabia contar. Tinha um dom para contar histórias como nunca vi em mais ninguém.
- Tem ideia se ela usava esse dom na escola?
- Não, na escola não contava histórias e era, digamos, uma professora severa, competente mas severa.
- Você era o destinatário privilegiado do dom que ela tinha.
- Verdade. À noite, depois das aulas, minha tia contava-me histórias como só ela sabia contar, com um poder sugestivo quase mágico. Tomemos como exemplo A Branca de Neve e os Sete Anões, quando a princesa é abandonada na floresta. Minha tia "colocava-me" no local, falava de medos, de ameaças, de rumores sinistros. Usando onomatopeias, introduzia em mim o bracejar lamentoso do arvoredo ao luar, à hora em que pia o mocho. Tinha uma capacidade invulgar para me pôr no local da acção, com todos os sentidos alerta.
- Foi sua professora durante quanto tempo?
- Oficialmente nunca o foi, pois como lhe disse, eu não tinha idade escolar quando a acompanhava à aldeia. Depois houve um conflito familiar e passei a viver com o meu avô, então professor reformado. Meu avô perdera-se de amores pela criada (risos), minhas tias disseram-lhe que era «uma afronta à memória da mamã» e o velho, indignado, saiu de casa levando-me consigo. Começava outro capítulo da minha vida. Meu avô era muito avarento, mas criatura singular. O elemento mais ilustre de uma dinastia de campónios. Um tio dele, que era padre, tinha-o posto a estudar, a trabalhar numa farmácia e a estudar. A verdade é que conseguiu chegar a mestre-escola, como se dizia naquele tempo.
- Nunca conta histórias do seu avô relacionadas com a escola e com a profissão dele...
- Não o acompanhei no activo, já entrara na reforma. Era um velhote muito avarento, como disse, mas com um agradável toque de loucura. Levava-me amiúde à Citânia de Briteiros e divagava horas esquecidas acerca do povo rude que ali vivera, dos costumes e das lendas. Meu avô foi de certo modo o responsável pelo meu interesse pela arqueologia, que mais tarde, já adulto, me levaria a visitar tudo quanto é ruína, no Egipto, na Grécia, por sítios desses.
- Daí aquele cruzeiro no Nilo, descrito no seu livro Ruínas e Gente, não é assim?
- Já antes disso eu tentara fazer essa viagem, bem antes, nos fins da adolescência e começos da adultez. Minha tia Emília morrera há muito tempo, de cancro, e o meu avô morrera também, de velhice. Vi-me só. Era novo, tinha a cabeça cheia de sonhos, começava a escrever. Não tinha onde cair morto, mas decidi ir ao Egipto. Findava os anos 50, era o tempo da grande emigração. Enfiei as mãos nos bolsos e atravessei a fronteira, por Lindoso, descontraído, a assobiar, sem passaporte, sem dinheiro, mas com a cabeça fervilhante de projectos literários. Propunha-me atravessar uma catrefada de países, trabalhando aqui e acolá (em quê, se eu não sabia fazer nada para além de escrever?), até chegar ao Egipto, onde faria umas escavações, desenterraria uns tesouros, para depois regressar cheio de fama...
- Era a continuação das histórias...
- De certo modo. Mas a minha aventura correu mal. Fui detido e devolveram-me à procedência, por etapas, com algemas nos pulsos. Entre as prisões espanholas que conheci avulta a de Valladolid. E avulta porquê? Porque o meu carcereiro achou que devia levantar-me a moral revelando que na cela pegada à minha tinha estado enclausurado Cristóvão Colombo.
- Más recordações...
- Muito pelo contrário. Recordações excelentes, óptimo material. Não se esqueça de que eu era um contador de histórias...
- Escrevia logo?
- Ia tomando notas.
- No seu livro A Homenagem, diz a certo passo: «Felizmente trago sempre esferográfica em tudo quanto é bolso».
- Está a ver?
- E depois da emigração fracassada?
- Regressei a Braga, onde o director da Biblioteca Pública, Dr. Egídio Guimarães, me contratou para fazer uns pequenos serviços, a troco de uma uma modestíssima quantia que só dava para me hospedar numa espelunca imunda, abaixo de qualquer classificação, frequentada por pobres diabos sem eira nem beira. Situação estranha mas extraordinariamente enriquecedora, pelo contraste, pelo jogo alternante de sombras e luz. Por um lado, a espelunca, com as suas misérias; por outro, a Biblioteca Pública, aquela catedral do saber, com milhares de livros à minha disposição. Dei sequência ao caminho aberto por minha tia Emília, cultivei-me ardentemente, como autodidacta que era.
- Com a escrita sempre presente...
- Sim, vivia exclusivamente para a literatura.
- Nunca pensou noutra coisa?
- Nunca, apenas em escrever. Nascera para escrever, nada mais interessava. Convivia na Biblioteca com pessoas cultas, entre quilómetros de calhamaços fascinantes, e depois havia o programa sórdido da espelunca, com a sombria malta da valeta, os tristes, os explorados, os revoltados, essa gente. Num lado, lampadários e conversa elevada; no outro, pragas e humilhação. Um escritor não poderia desejar melhor. Para mais, o director da Biblioteca apreciava deveras as coisas que eu escrevia e não descansou enquanto não as publiquei em livro. Estava bem mais impaciente que eu... Custa a crer, mas garanto que eu não tinha ansiedade nenhuma em publicar aquilo que seria Os Putos. Era capaz de estar dias e noites virado a uma só página. Mas enquanto não considerasse que ela estava em condições de ser apresentado ao Dr. Egídio Guimarães...
- Ele funcionava como crítico?
- Como um crítico consciencioso e benévolo. Tal como acontecera com a minha tia Emília e meu avô, a sua morte abriu em mim um doloroso vazio que ainda está por preencher. Era um intelectual de fino trato, com cavalheirismos de antanho, amigo discreto mas sólido, um espírito nobre, o embaixador ideal para interceder junto do Eterno pela mesquinha Humanidade. Também intercedia por mim junto das personagens "de peso" que o visitavam na Biblioteca, mostrando-lhes o meu livro Sardinhas e Lua acabado de publicar e exagerando-lhe talvez os méritos. Foi em boa parte graças a ele que estabeleci contactos com o Jornal de Notícias, do Porto, e comecei a experiência jornalística, já que a Literatura, como disse Somerset Maugham, poderá ser uma vistosa bengala, mas não é lá grande muleta. Trabalhei sete anos na redacção do Jornal de Notícias e ao fim desse tempo despediram-me.
- Porquê?
- Porque a já extinta editora Prelo acabara de publicar Os Putos, título definitivo do Sardinhas e Lua em edição bastante aumentada. Entre os novos contos havia dois, "O Campo de Judite" e "O Gancho", que desagradaram aos omnipotentes senhores do Jornal de Notícia. Despediram-me sem ao menos me ouvirem. Foi em Maio de 1973, estava-se a menos de um ano da Revolução dos Cravos...
- Mas Os Putos tiveram êxito.
- Um êxito que contribuiu para me abrir portas em Lisboa, as do velho jornal O Século.
- Também trabalhou nele muito tempo?
- Até o jornal fechar. Aí não foi despedimento (risos).
- Regressou então ao Porto?
- Não. Permaneci em Lisboa. Os Putos estavam a ter uma aceitação tremenda, as reedições sucediam-se e os editores, por esse tempo, portavam-se de forma razoavelmente satisfatória. Cheguei a acalentar o sonho de viver dos meus livros, de viver da Literatura. Ilusão, pura ilusão.
- Reatou a actividade jornalística?
- Sim, trabalhei mais dezassete anos no Comércio do Porto. Antes disso, porém, fiz umas viagens, uma delas a Macau, que me proporcionou material para outro volume de contos, as Histórias de Macau.
- No seu romance A Colina dos Espantalhos Sonhadores diz, às tantas: «O neo-realismo faz-me vómitos». E mais à frente: «Viva o realismo fantástico em vias de nascer entre nós!»
- Bem, eu punha os olhos num texto neo-realista, duro, cruel e mais nada, acabava invariavelmente por desviá-los. Se se der ao trabalho de pesquisar, verá que até nos meus contos mais graníticos há suavidades transfiguradoras, como as neblinas no cume das montanhas.
- Foi a magia da sua tia Emília que o salvou de cair no neo-realismo...
- Contribuiu para isso, não tenho dúvida.
- Nunca publicou poesia?
- Sou um prosador.
- Altino, gostava que falasse um pouco sobre a escola.
- Talvez fosse melhor você ler o último conto de Os Putos, na mais recente edição da "Casa da Moeda". Descreve a escola tal como a conheci em miúdo, aquela velha sala a cair de podre, com os seus cheiros, as suas vozes, as paredes forradas a mapas e por detrás da secretária da professora os retratos do marechal Carmona e de Oliveira Salazar, com Jesus cruxificado de permeio...
- Para além da sua tia Emília, há outras professoras na sua obra, como aquela Domicilia do romance Viagem a Ver o que Dá...
- Tomei como modelo uma professora mazinha que tive... (risos)
- A escola oficial que frequentou era na cidade de Braga?
- Comecei numa escola bracarense, que já não existe, da rua Santa Margarida, e acabei na escola da Sé. Nasci em Braga e vivi lá até aos 27 anos.
- Gostou do tempo em que frequentou a escola? É que nem tudo foi muito bonito, pela maneira como descreve certas situações...
- Se se refere aos castigos, vi dar muita pancada nas escolas, e eu próprio terei apanhado a minha reguadazita, mas a memória esfuma-se e não estou lá muito certo.
- Mas não acha que a escola antiga nos chega com uma imagem cheia de humanidade e de afecto, porque assim a descrevem os escritores-professores?
- A minha escola, especialmente na aldeia, a dos tempos pré-primários, a de minha tia Emília, era algo de mágico. Ir para lá era uma expedição mágica.
- Tem sido convidado, enquanto escritor, a falar nas escolas?
- Poucas vezes, e ainda bem. Gosto tanto de falar em público como de dar entrevistas (risos).
Entrevista conduzida por Luís Souta
Autor do Artigo
Altino Tojal
Escritor
Luís Souta
Instituto Politécnico de Setúbal
lsouta@ese.ips.pt
Jornal "a Página"
Nº 106
Ano 10 | Outubro 2001
Pag. 14
Altino do Tojal nasceu em 26 de Julho de 1939, em Braga. Criado por sua tia Emília, professora primária, que o ensinou a ler aos cinco anos, teve também o seu avô, professor aposentado, um importante esteio familiar. Ficou só muito novo, em circunstâncias difíceis. Seguiu-se um percurso de autodidacta, de alguém que quis ser, única e simplesmente, escritor, embora, «por razões de pão mais vinho», viesse a trabalhar em vários jornais. Numa obra que contempla contos, romances e novelas, é fundamentalmente conhecido pelo livro Os Putos que já vai na 28ª edição e foi adaptado ao teatro, à televisão e à banda desenhada. A primeira versão de Os Putos surgiu em 1964, ainda com o título Sardinhas e Lua. A partir daí sucederam-se as edições e o livro não tem parado de engrossar. A mais recente edição, abrangendo 145 histórias, acaba de ser publicada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, num alentado volume de quase 700 páginas. Esta edição de Os Putos: contos da luz e das sombras assinala, sem dúvida, a sua entrada no Cânone. «Bastaria este livro para que o seu autor não pudesse ser esquecido», como escreveu José Blanc de Portugal.
Altino do Tojal, o contador de histórias, «aquele que nunca aparece na televisão, o solitário, o bicho do mato, o que jamais deu uma entrevista», no seu dizer autobiográfico, acedeu, relutante, a vir a público...
A Página (Luís Souta) - Sabe-se pouco da sua bibliografia...
Altino do Tojal - Pouco mais que nada, de facto, o que nunca me preocupou muito. Senti que se adensava o silêncio à minha volta, mas depressa me conformei. Se a minha obra tivesse a importância que eu lhe atribuía, o tempo se encarregaria de lhe prestar justiça. E como já transcorreram 37 anos após a primeira edição de Os Putos e as reedições continuam a suceder-se...
- Fala-me da sua infância.
- Dois membros da minha família marcaram-me profundamente: a minha tia Emília e o meu avô. A minha tia Emília levava-me consigo para as aldeolas onde dava aulas: S. Pedro de Valbom, Valdezende... Tempo ainda de iluminação a petróleo, de carros de bois a lamuriar por caminhos primitivos... Acompanhei minha tia nos meus cinco, seis anos. Não tinha ainda idade para andar na escola, mas ela exigia de mim o mesmo que exigia aos alunos.
- Teve uma excelente "pré-primária"...
- Assim o creio. Era uma aventura, um deslumbramento. Ir às segundas-feiras de Braga para essas aldeias era para mim, criança ávida de descoberta, verdadeira magia, magia pura. Mal nos apeávamos da camioneta, lá estavam os garotos à nossa espera. As miúdas ofereciam à senhora professora ramos de flores silvestres e os rapazitos exibiam-se em gritaria heróica, descalços, limpando o monco (risos) à manga do casaco e deixando nela uma espécie de rasto de lesma...
- Uma festa, a chegada da professora?
- Sim, era uma festa. Nós por aqueles caminhitos rumo à escola, à velha escola, minha tia à frente com aquelas flores todas como uma santa num andor. Parecia uma galinha seguida pelos pintos. (Risos). As mocinhas muito compenetradas e sorridentes, os rapazitos aos pinotes, com berros de assustar índios...
- Você conta, com graça, o percurso das professoras...
- Era sempre a mesma coisa. Viajavam numa camioneta incrível, focinhuda, que largava fumo e poeirada e nas subidas gemia que metia dó. De aldeia em aldeia, a camioneta ia parando e em cada paragem apeava-se uma professora, com o respectivo bando à espera. Até que chegava a nossa vez. Tagarelando na camioneta, as professores comentavam animadamente o filme romântico visto na véspera, na cidade, falavam de namoricos e falavam também, de rosto sombrio, das temidas visitas dos inspectores escolares (risos). Era assim, falavam de cinema, de amores, de moda, dos tais inspectores escolares...
- Eram pessoas que durante a semana estavam nas aldeias onde leccionavam e só ao fim-de-semana é que regressavam a Braga?
- Sim. E como se conheciam, acontecia irem às vezes juntas ao cinema. Também eu ia ao cinema com a minha tia, já que por esses tempos não havia classificações etárias. Aos nove anos, por exemplo, vi o Hamlet, do Shakespeare, numa admirável adaptação cinematográfica de Lawrence Olivier. Sabe que me impressionou muito esse filme? Foi o meu primeiro contacto com a morte, através da conhecida cena dos coveiros. Bom, acho que não foi o primeiro; o primeiro acontecera pouco antes, e mais impressivo, quando assisti à exumação dos restos mortais de minha avó. Talvez por isso, a Morte paira sobre muita da minha produção literária.
- Hoje há a tendência para afastar as crianças da imagem da morte. Acha isso negativo?
- No meu caso foi uma fonte de inspiração.
- Fale sobre a vida na aldeia, com sua tia.
- À noite, rezávamos o terço. Minha tinha era muito religiosa. Orações, orações... aquilo nunca mais acabava. Depois do rosário propriamente dito, havia que rezar pelas almas dos parentes já falecidos, uma legião interminável, e depois em prol das almas mais abandonadas. Dava-me o sono, mas eu sabia que a seguir vinha o encantamento, porque minha tia contava-me histórias antes de adormecermos. Contava-as como só ela sabia contar. Tinha um dom para contar histórias como nunca vi em mais ninguém.
- Tem ideia se ela usava esse dom na escola?
- Não, na escola não contava histórias e era, digamos, uma professora severa, competente mas severa.
- Você era o destinatário privilegiado do dom que ela tinha.
- Verdade. À noite, depois das aulas, minha tia contava-me histórias como só ela sabia contar, com um poder sugestivo quase mágico. Tomemos como exemplo A Branca de Neve e os Sete Anões, quando a princesa é abandonada na floresta. Minha tia "colocava-me" no local, falava de medos, de ameaças, de rumores sinistros. Usando onomatopeias, introduzia em mim o bracejar lamentoso do arvoredo ao luar, à hora em que pia o mocho. Tinha uma capacidade invulgar para me pôr no local da acção, com todos os sentidos alerta.
- Foi sua professora durante quanto tempo?
- Oficialmente nunca o foi, pois como lhe disse, eu não tinha idade escolar quando a acompanhava à aldeia. Depois houve um conflito familiar e passei a viver com o meu avô, então professor reformado. Meu avô perdera-se de amores pela criada (risos), minhas tias disseram-lhe que era «uma afronta à memória da mamã» e o velho, indignado, saiu de casa levando-me consigo. Começava outro capítulo da minha vida. Meu avô era muito avarento, mas criatura singular. O elemento mais ilustre de uma dinastia de campónios. Um tio dele, que era padre, tinha-o posto a estudar, a trabalhar numa farmácia e a estudar. A verdade é que conseguiu chegar a mestre-escola, como se dizia naquele tempo.
- Nunca conta histórias do seu avô relacionadas com a escola e com a profissão dele...
- Não o acompanhei no activo, já entrara na reforma. Era um velhote muito avarento, como disse, mas com um agradável toque de loucura. Levava-me amiúde à Citânia de Briteiros e divagava horas esquecidas acerca do povo rude que ali vivera, dos costumes e das lendas. Meu avô foi de certo modo o responsável pelo meu interesse pela arqueologia, que mais tarde, já adulto, me levaria a visitar tudo quanto é ruína, no Egipto, na Grécia, por sítios desses.
- Daí aquele cruzeiro no Nilo, descrito no seu livro Ruínas e Gente, não é assim?
- Já antes disso eu tentara fazer essa viagem, bem antes, nos fins da adolescência e começos da adultez. Minha tia Emília morrera há muito tempo, de cancro, e o meu avô morrera também, de velhice. Vi-me só. Era novo, tinha a cabeça cheia de sonhos, começava a escrever. Não tinha onde cair morto, mas decidi ir ao Egipto. Findava os anos 50, era o tempo da grande emigração. Enfiei as mãos nos bolsos e atravessei a fronteira, por Lindoso, descontraído, a assobiar, sem passaporte, sem dinheiro, mas com a cabeça fervilhante de projectos literários. Propunha-me atravessar uma catrefada de países, trabalhando aqui e acolá (em quê, se eu não sabia fazer nada para além de escrever?), até chegar ao Egipto, onde faria umas escavações, desenterraria uns tesouros, para depois regressar cheio de fama...
- Era a continuação das histórias...
- De certo modo. Mas a minha aventura correu mal. Fui detido e devolveram-me à procedência, por etapas, com algemas nos pulsos. Entre as prisões espanholas que conheci avulta a de Valladolid. E avulta porquê? Porque o meu carcereiro achou que devia levantar-me a moral revelando que na cela pegada à minha tinha estado enclausurado Cristóvão Colombo.
- Más recordações...
- Muito pelo contrário. Recordações excelentes, óptimo material. Não se esqueça de que eu era um contador de histórias...
- Escrevia logo?
- Ia tomando notas.
- No seu livro A Homenagem, diz a certo passo: «Felizmente trago sempre esferográfica em tudo quanto é bolso».
- Está a ver?
- E depois da emigração fracassada?
- Regressei a Braga, onde o director da Biblioteca Pública, Dr. Egídio Guimarães, me contratou para fazer uns pequenos serviços, a troco de uma uma modestíssima quantia que só dava para me hospedar numa espelunca imunda, abaixo de qualquer classificação, frequentada por pobres diabos sem eira nem beira. Situação estranha mas extraordinariamente enriquecedora, pelo contraste, pelo jogo alternante de sombras e luz. Por um lado, a espelunca, com as suas misérias; por outro, a Biblioteca Pública, aquela catedral do saber, com milhares de livros à minha disposição. Dei sequência ao caminho aberto por minha tia Emília, cultivei-me ardentemente, como autodidacta que era.
- Com a escrita sempre presente...
- Sim, vivia exclusivamente para a literatura.
- Nunca pensou noutra coisa?
- Nunca, apenas em escrever. Nascera para escrever, nada mais interessava. Convivia na Biblioteca com pessoas cultas, entre quilómetros de calhamaços fascinantes, e depois havia o programa sórdido da espelunca, com a sombria malta da valeta, os tristes, os explorados, os revoltados, essa gente. Num lado, lampadários e conversa elevada; no outro, pragas e humilhação. Um escritor não poderia desejar melhor. Para mais, o director da Biblioteca apreciava deveras as coisas que eu escrevia e não descansou enquanto não as publiquei em livro. Estava bem mais impaciente que eu... Custa a crer, mas garanto que eu não tinha ansiedade nenhuma em publicar aquilo que seria Os Putos. Era capaz de estar dias e noites virado a uma só página. Mas enquanto não considerasse que ela estava em condições de ser apresentado ao Dr. Egídio Guimarães...
- Ele funcionava como crítico?
- Como um crítico consciencioso e benévolo. Tal como acontecera com a minha tia Emília e meu avô, a sua morte abriu em mim um doloroso vazio que ainda está por preencher. Era um intelectual de fino trato, com cavalheirismos de antanho, amigo discreto mas sólido, um espírito nobre, o embaixador ideal para interceder junto do Eterno pela mesquinha Humanidade. Também intercedia por mim junto das personagens "de peso" que o visitavam na Biblioteca, mostrando-lhes o meu livro Sardinhas e Lua acabado de publicar e exagerando-lhe talvez os méritos. Foi em boa parte graças a ele que estabeleci contactos com o Jornal de Notícias, do Porto, e comecei a experiência jornalística, já que a Literatura, como disse Somerset Maugham, poderá ser uma vistosa bengala, mas não é lá grande muleta. Trabalhei sete anos na redacção do Jornal de Notícias e ao fim desse tempo despediram-me.
- Porquê?
- Porque a já extinta editora Prelo acabara de publicar Os Putos, título definitivo do Sardinhas e Lua em edição bastante aumentada. Entre os novos contos havia dois, "O Campo de Judite" e "O Gancho", que desagradaram aos omnipotentes senhores do Jornal de Notícia. Despediram-me sem ao menos me ouvirem. Foi em Maio de 1973, estava-se a menos de um ano da Revolução dos Cravos...
- Mas Os Putos tiveram êxito.
- Um êxito que contribuiu para me abrir portas em Lisboa, as do velho jornal O Século.
- Também trabalhou nele muito tempo?
- Até o jornal fechar. Aí não foi despedimento (risos).
- Regressou então ao Porto?
- Não. Permaneci em Lisboa. Os Putos estavam a ter uma aceitação tremenda, as reedições sucediam-se e os editores, por esse tempo, portavam-se de forma razoavelmente satisfatória. Cheguei a acalentar o sonho de viver dos meus livros, de viver da Literatura. Ilusão, pura ilusão.
- Reatou a actividade jornalística?
- Sim, trabalhei mais dezassete anos no Comércio do Porto. Antes disso, porém, fiz umas viagens, uma delas a Macau, que me proporcionou material para outro volume de contos, as Histórias de Macau.
- No seu romance A Colina dos Espantalhos Sonhadores diz, às tantas: «O neo-realismo faz-me vómitos». E mais à frente: «Viva o realismo fantástico em vias de nascer entre nós!»
- Bem, eu punha os olhos num texto neo-realista, duro, cruel e mais nada, acabava invariavelmente por desviá-los. Se se der ao trabalho de pesquisar, verá que até nos meus contos mais graníticos há suavidades transfiguradoras, como as neblinas no cume das montanhas.
- Foi a magia da sua tia Emília que o salvou de cair no neo-realismo...
- Contribuiu para isso, não tenho dúvida.
- Nunca publicou poesia?
- Sou um prosador.
- Altino, gostava que falasse um pouco sobre a escola.
- Talvez fosse melhor você ler o último conto de Os Putos, na mais recente edição da "Casa da Moeda". Descreve a escola tal como a conheci em miúdo, aquela velha sala a cair de podre, com os seus cheiros, as suas vozes, as paredes forradas a mapas e por detrás da secretária da professora os retratos do marechal Carmona e de Oliveira Salazar, com Jesus cruxificado de permeio...
- Para além da sua tia Emília, há outras professoras na sua obra, como aquela Domicilia do romance Viagem a Ver o que Dá...
- Tomei como modelo uma professora mazinha que tive... (risos)
- A escola oficial que frequentou era na cidade de Braga?
- Comecei numa escola bracarense, que já não existe, da rua Santa Margarida, e acabei na escola da Sé. Nasci em Braga e vivi lá até aos 27 anos.
- Gostou do tempo em que frequentou a escola? É que nem tudo foi muito bonito, pela maneira como descreve certas situações...
- Se se refere aos castigos, vi dar muita pancada nas escolas, e eu próprio terei apanhado a minha reguadazita, mas a memória esfuma-se e não estou lá muito certo.
- Mas não acha que a escola antiga nos chega com uma imagem cheia de humanidade e de afecto, porque assim a descrevem os escritores-professores?
- A minha escola, especialmente na aldeia, a dos tempos pré-primários, a de minha tia Emília, era algo de mágico. Ir para lá era uma expedição mágica.
- Tem sido convidado, enquanto escritor, a falar nas escolas?
- Poucas vezes, e ainda bem. Gosto tanto de falar em público como de dar entrevistas (risos).
Entrevista conduzida por Luís Souta
Autor do Artigo
Altino Tojal
Escritor
Luís Souta
Instituto Politécnico de Setúbal
lsouta@ese.ips.pt
Jornal "a Página"
Nº 106
Ano 10 | Outubro 2001
Pag. 14
Saudade da Natália
Queixa das Almas Jovens Censuradas
Natália Correia
Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prêmio de ser assim
sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
conosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte
Natália Correia
Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prêmio de ser assim
sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
conosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte
Resgatado de montras velhas
Carta de Mia Couto a George Bush
Por Mia Couto
Carta ao Presidente Bush
Senhor Presidente:
Sou um escritor de uma nação pobre, um país que já esteve na vossa lista negra. Milhões de moçambicanos desconheciam que mal vos tínhamos feito.
Éramos pequenos e pobres: que ameaça poderíamos constiuir ? A nossa arma de destruição massiva estava, afinal, virada contra nós: era a fome e a miséria. Alguns de nós estranharam o critério que levava a que o nosso nome fosse manchado enquanto outras nações beneficiavam da vossa simpatia. Por exemplo, o nosso vizinho - a África do Sul do "apartheid" - violava de forma flagrante os direitos humanos. Durante décadas fomos vítimas da agressão desse regime. Mas o regime do "apartheid" mereceu da vossa parte uma atitude mais branda: o chamado "envolvimento positivo". O ANC esteve também na lista negra como uma "organização terrorista!". Estranho critério que levaria a que, anos mais tarde, os taliban e o próprio Bin Laden fossem chamadas de "freedom fighters" por estrategas norte-americanos.
Pois eu, pobre escritor de um pobre país, tive um sonho. Como Martin Luther King certa vez sonhou que a América era uma nação de todos os americanos.
Pois sonhei que eu era não um homem mas um país. Sim, um país que não conseguia dormir. Porque vivia sobressaltado por terríveis factos. E esse temor fez com que proclamasse uma exigência. Uma exigência que tinha a ver consigo, Caro Presidente. E eu exigia que os Estados Unidos da América procedessem à eliminação do seu armamento de destruição massiva. Por razão desses terríveis perigos eu exigia mais: que inspectores das Nações Unidas fossem enviados para o vosso país. Que terríveis perigos me alertavam?
Que receios o vosso país me inspiravam? Não eram produtos de sonho, infelizmente. Eram factos que alimentavam a minha desconfiança. A lista é tão grande que escolherei apenas alguns: Os Estados Unidos foram a única nação do mundo que lançou bombas atómicas sobre outras nações; O seu país foi a única nação a ser condenada por "uso ilegítimo da força" pelo Tribunal Internacional de Justiça; Forças americanas treinaram e armaram fundamentalistas islâmicos mais extremistas (incluindo o terrorista Bin Laden) a pretexto de derrubarem os invasores russos no Afeganistão; O regime de Saddam Hussein foi apoiado pelos EUA enquanto praticava as piores atrocidades contra os iraquianos (incluindo o gaseamento dos curdos em 1998); Como tantos outros dirigentes legítimos, o africano Patrice Lumumba foi assassinado com ajuda da CIA. Depois de preso e torturado e baleado na cabeça o seu corpo foi dissolvido em ácido clorídico; Como tantos outros fantoches, Mobutu Seseseko foi por vossos agentes conduzido ao poder e concedeu facilidades especiais à espionagem americana:
o quartel-general da CIA no Zaire tornou-se o maior em África. A ditadura brutal deste zairense não mereceu nenhum reparo dos EUA até que ele deixou de ser conveniente, em 1992; A invasão de Timor Leste pelos militares indonésios mereceu o apoio dos EUA. Quando as atrocidades foram conhecidas, a resposta da Administração Clinton foi "o assunto é da responsabilidade do governo indonésio e não queremos retirar-lhe essa responsabilidade";O vosso país albergou criminosos como Emmanuel Constant um dos líderes mais sanguinários do Taiti cujas forças para-militares massacraram milhares de inocentes. Constant foi julgado à revelia e as novas autoridades solicitaram a sua extradição. O governo americano recusou o pedido.
Em Agosto de 1998, a força aérea dos EUA bombardeou no Sudão uma fábrica de medicamentos, designada Al-Shifa. Um engano? Não, tratava-se de uma retaliação dos atentados bombistas de Nairobi e Dar-es-Saalam.
Em Dezembro de 1987, os Estados Unidos foi o único país (junto com Israel)a votar contra uma moção de condenação ao terrorismo internacional. Mesmo assim, a moção foi aprovada pelo voto de cento e cinquenta e três países.
Em 1953, a CIA ajudou a preparar o golpe de Estado contra o Irão na sequência do qual milhares de comunistas do Tudeh foram massacrados. A lista de golpes preparados pela CIA é bem longa.
Desde a Segunda Guerra Mundial, os EUA bombardearam: a China (1945-46),a Coreia e a China (1950-53), a Guatemala (1954), a Indonésia (1958), Cuba 1959-1961), a Guatemala (1960), o Congo (1964), o Peru (1965), o Laos (1961-1973), o Vietname (1961-1973), o Camboja (1969-1970), a Guatemala (1967-1973), Granada (1983), Líbano (1983-1984), a Líbia (1986), Salvador (1980), a Nicarágua (1980), o Irão (1987), o Panamá (1989), o Iraque (1990-2001), o Kuwait (1991), a Somália (1993), a Bósnia (1994-95), o Sudão (1998), o Afeganistão (1998), a Jugoslávia (1999)
Acções de terrorismo biológico e químico foram postas em prática pelos EUA: o agente laranja e os desfolhantes no Vietname, o vírus da peste contra Cuba que durante anos devastou a produção suína naquele país.
O Wall Street Journal publicou um relatório que anunciava que 500 000 crianças vietnamitas nasceram deformadas em consequência da guerra química das forças norte-americanas.
Acordei do pesadelo do sono para o pesadelo da realidade. A guerra que o Senhor Presidente teimou em iniciar poderá libertar-nos de um ditador.
Mas ficaremos todos mais pobres. Enfrentaremos maiores dificuldades nas nossas já precárias economias e teremos menos esperança num futuro governado pela razão e pela moral. Teremos menos fé na força reguladora das Nações Unidas e das convenções do direito internacional. Estaremos, enfim, mais sós e mais desamparados.
Senhor Presidente:
O Iraque não é Saddam. São 22 milhões de mães e filhos, e de homens que trabalham e sonham como fazem os comuns norte-americanos. Preocupamo-nos com os males do regime de Saddam Hussein que são reais. Mas esquece-se os horrores da primeira guerra do Golfo em que perderam a vida mais de 150 000 homens.
O que está destruindo massivamente os iraquianos não são as armas de Saddam.
São as sanções que conduziram a uma situação humanitária tão grave que dois
coordenadores para ajuda das Nações Unidas (Dennis Halliday e Hans Von Sponeck) pediram a demissão em protesto contra essas mesmas sanções.
Explicando a razão da sua renúncia, Halliday escreveu: "Estamos destruindo toda uma sociedade. É tão simples e terrível como isso. E isso é ilegal e imoral". Esse tema de sanções já levou à morte meio milhão de crianças iraquianas.
Mas a guerra contra o Iraque não está para começar. Já começou há muito tempo. Nas zonas de restrição aérea a Norte e Sul do Iraque acontecem continuamente bombardeamentos desde há 12 anos. Acredita-se que 500 iraquianos foram mortos desde 1999. O bombardeamento incluiu o uso massivo de urânio empobrecido (300 toneladas, ou seja 30 vezes mais do que o usado no Kosovo)
Livrar-nos-emos de Saddam. Mas continuaremos prisioneiros da lógica da guerra e da arrogância. Não quero que os meus filhos (nem os seus) vivam dominados pelo fantasma do medo. E que pensem que, para viverem tranquilos,precisam de construir uma fortaleza. E que só estarão seguros quando se tiver que gastar fortunas em armas. Como o seu país que despende 270 000 000 000 000 dólares (duzentos e setenta biliões de dólares) por ano para manter o arsenal de guerra. O senhor bem sabe o que essa soma poderia ajudar a mudar o destino miserável de milhões de seres.
O bispo americano Monsenhor Robert Bowan escreveu- lhe no final do ano passado uma carta intitulada "Porque é que o mundo odeia os EUA ?" O bispo da Igreja Católica da Florida é um ex--combatente na guerra do Vietname.
Ele sabe o que é a guerra e escreveu: "O senhor reclama que os EUA são alvo do terrorismo porque defendemos a democracia, a liberdade e os direitos humanos. Que absurdo, Sr. Presidente ! Somos alvos dos terroristas porque, na maior parte do mundo, o nosso governo defendeu a ditadura, a escravidão e a exploração humana. Somos alvos dos terroristas porque somos odiados. E somos odiados porque o nosso governo fez coisas odiosas. Em quantos países agentes do nosso governo depuseram líderes popularmente eleitos substituindo-os por ditadores militares, fantoches desejosos de vender o seu próprio povo às corporações norte-americanas multinacionais? E o bispo conclui: O povo do Canadá desfruta de democracia, de liberdade e de direitos humanos, assim como o povo da Noruega e da Suécia. Alguma vez o senhor ouviu falar de ataques a embaixadas canadianas, norueguesas ou suecas? Nós somos odiados não porque praticamos a democracia, a liberdade ou os direitos humanos. Somos odiados porque o nosso governo nega essas coisas aos povos dos países do Terceiro Mundo, cujos recursos são cobiçados pelas nossas multinacionais."
Senhor Presidente:
Sua Excelência parece não necessitar que uma instituição internacional legitime o seu direito de intervenção militar. Ao menos que possamos nós encontrar moral e verdade na sua argumentação. Eu e mais milhões de cidadãos não ficamos convencidos quando o vimos justificar a guerra. Nós preferíamos vê- lo assinar a Convenção de Kyoto para conter o efeito de estufa.
Preferíamos tê-lo visto em Durban na Conferência Internacional contra o Racismo.
Não se preocupe, senhor Presidente. A nós, nações pequenas deste mundo, não nos passa pela cabeça exigir a vossa demissão por causa desse apoio que as vossas sucessivas administrações concederam apoio a não menos sucessivos ditadores. A maior ameaça que pesa sobre a América não são armamentos de outros. É o universo de mentira que se criou em redor dos vossos cidadãos.
O perigo não é o regime de Saddam, nem nenhum outro regime. Mas o sentimento de superioridade que parece animar o seu governo. O seu inimigo principal não está fora. Está dentro dos EUA. Essa guerra só pode ser vencida pelos próprios americanos.
Eu gostaria de poder festejar o derrube de Saddam Hussein. E festejar com todos os americanos. Mas sem hipocrisia, sem argumentação e consumo de diminuídos mentais. Porque nós, caro Presidente Bush, nós, os povos dos países pequenos, temos uma arma de construção massiva: a capacidade de pensar.
Por Mia Couto
Carta ao Presidente Bush
Senhor Presidente:
Sou um escritor de uma nação pobre, um país que já esteve na vossa lista negra. Milhões de moçambicanos desconheciam que mal vos tínhamos feito.
Éramos pequenos e pobres: que ameaça poderíamos constiuir ? A nossa arma de destruição massiva estava, afinal, virada contra nós: era a fome e a miséria. Alguns de nós estranharam o critério que levava a que o nosso nome fosse manchado enquanto outras nações beneficiavam da vossa simpatia. Por exemplo, o nosso vizinho - a África do Sul do "apartheid" - violava de forma flagrante os direitos humanos. Durante décadas fomos vítimas da agressão desse regime. Mas o regime do "apartheid" mereceu da vossa parte uma atitude mais branda: o chamado "envolvimento positivo". O ANC esteve também na lista negra como uma "organização terrorista!". Estranho critério que levaria a que, anos mais tarde, os taliban e o próprio Bin Laden fossem chamadas de "freedom fighters" por estrategas norte-americanos.
Pois eu, pobre escritor de um pobre país, tive um sonho. Como Martin Luther King certa vez sonhou que a América era uma nação de todos os americanos.
Pois sonhei que eu era não um homem mas um país. Sim, um país que não conseguia dormir. Porque vivia sobressaltado por terríveis factos. E esse temor fez com que proclamasse uma exigência. Uma exigência que tinha a ver consigo, Caro Presidente. E eu exigia que os Estados Unidos da América procedessem à eliminação do seu armamento de destruição massiva. Por razão desses terríveis perigos eu exigia mais: que inspectores das Nações Unidas fossem enviados para o vosso país. Que terríveis perigos me alertavam?
Que receios o vosso país me inspiravam? Não eram produtos de sonho, infelizmente. Eram factos que alimentavam a minha desconfiança. A lista é tão grande que escolherei apenas alguns: Os Estados Unidos foram a única nação do mundo que lançou bombas atómicas sobre outras nações; O seu país foi a única nação a ser condenada por "uso ilegítimo da força" pelo Tribunal Internacional de Justiça; Forças americanas treinaram e armaram fundamentalistas islâmicos mais extremistas (incluindo o terrorista Bin Laden) a pretexto de derrubarem os invasores russos no Afeganistão; O regime de Saddam Hussein foi apoiado pelos EUA enquanto praticava as piores atrocidades contra os iraquianos (incluindo o gaseamento dos curdos em 1998); Como tantos outros dirigentes legítimos, o africano Patrice Lumumba foi assassinado com ajuda da CIA. Depois de preso e torturado e baleado na cabeça o seu corpo foi dissolvido em ácido clorídico; Como tantos outros fantoches, Mobutu Seseseko foi por vossos agentes conduzido ao poder e concedeu facilidades especiais à espionagem americana:
o quartel-general da CIA no Zaire tornou-se o maior em África. A ditadura brutal deste zairense não mereceu nenhum reparo dos EUA até que ele deixou de ser conveniente, em 1992; A invasão de Timor Leste pelos militares indonésios mereceu o apoio dos EUA. Quando as atrocidades foram conhecidas, a resposta da Administração Clinton foi "o assunto é da responsabilidade do governo indonésio e não queremos retirar-lhe essa responsabilidade";O vosso país albergou criminosos como Emmanuel Constant um dos líderes mais sanguinários do Taiti cujas forças para-militares massacraram milhares de inocentes. Constant foi julgado à revelia e as novas autoridades solicitaram a sua extradição. O governo americano recusou o pedido.
Em Agosto de 1998, a força aérea dos EUA bombardeou no Sudão uma fábrica de medicamentos, designada Al-Shifa. Um engano? Não, tratava-se de uma retaliação dos atentados bombistas de Nairobi e Dar-es-Saalam.
Em Dezembro de 1987, os Estados Unidos foi o único país (junto com Israel)a votar contra uma moção de condenação ao terrorismo internacional. Mesmo assim, a moção foi aprovada pelo voto de cento e cinquenta e três países.
Em 1953, a CIA ajudou a preparar o golpe de Estado contra o Irão na sequência do qual milhares de comunistas do Tudeh foram massacrados. A lista de golpes preparados pela CIA é bem longa.
Desde a Segunda Guerra Mundial, os EUA bombardearam: a China (1945-46),a Coreia e a China (1950-53), a Guatemala (1954), a Indonésia (1958), Cuba 1959-1961), a Guatemala (1960), o Congo (1964), o Peru (1965), o Laos (1961-1973), o Vietname (1961-1973), o Camboja (1969-1970), a Guatemala (1967-1973), Granada (1983), Líbano (1983-1984), a Líbia (1986), Salvador (1980), a Nicarágua (1980), o Irão (1987), o Panamá (1989), o Iraque (1990-2001), o Kuwait (1991), a Somália (1993), a Bósnia (1994-95), o Sudão (1998), o Afeganistão (1998), a Jugoslávia (1999)
Acções de terrorismo biológico e químico foram postas em prática pelos EUA: o agente laranja e os desfolhantes no Vietname, o vírus da peste contra Cuba que durante anos devastou a produção suína naquele país.
O Wall Street Journal publicou um relatório que anunciava que 500 000 crianças vietnamitas nasceram deformadas em consequência da guerra química das forças norte-americanas.
Acordei do pesadelo do sono para o pesadelo da realidade. A guerra que o Senhor Presidente teimou em iniciar poderá libertar-nos de um ditador.
Mas ficaremos todos mais pobres. Enfrentaremos maiores dificuldades nas nossas já precárias economias e teremos menos esperança num futuro governado pela razão e pela moral. Teremos menos fé na força reguladora das Nações Unidas e das convenções do direito internacional. Estaremos, enfim, mais sós e mais desamparados.
Senhor Presidente:
O Iraque não é Saddam. São 22 milhões de mães e filhos, e de homens que trabalham e sonham como fazem os comuns norte-americanos. Preocupamo-nos com os males do regime de Saddam Hussein que são reais. Mas esquece-se os horrores da primeira guerra do Golfo em que perderam a vida mais de 150 000 homens.
O que está destruindo massivamente os iraquianos não são as armas de Saddam.
São as sanções que conduziram a uma situação humanitária tão grave que dois
coordenadores para ajuda das Nações Unidas (Dennis Halliday e Hans Von Sponeck) pediram a demissão em protesto contra essas mesmas sanções.
Explicando a razão da sua renúncia, Halliday escreveu: "Estamos destruindo toda uma sociedade. É tão simples e terrível como isso. E isso é ilegal e imoral". Esse tema de sanções já levou à morte meio milhão de crianças iraquianas.
Mas a guerra contra o Iraque não está para começar. Já começou há muito tempo. Nas zonas de restrição aérea a Norte e Sul do Iraque acontecem continuamente bombardeamentos desde há 12 anos. Acredita-se que 500 iraquianos foram mortos desde 1999. O bombardeamento incluiu o uso massivo de urânio empobrecido (300 toneladas, ou seja 30 vezes mais do que o usado no Kosovo)
Livrar-nos-emos de Saddam. Mas continuaremos prisioneiros da lógica da guerra e da arrogância. Não quero que os meus filhos (nem os seus) vivam dominados pelo fantasma do medo. E que pensem que, para viverem tranquilos,precisam de construir uma fortaleza. E que só estarão seguros quando se tiver que gastar fortunas em armas. Como o seu país que despende 270 000 000 000 000 dólares (duzentos e setenta biliões de dólares) por ano para manter o arsenal de guerra. O senhor bem sabe o que essa soma poderia ajudar a mudar o destino miserável de milhões de seres.
O bispo americano Monsenhor Robert Bowan escreveu- lhe no final do ano passado uma carta intitulada "Porque é que o mundo odeia os EUA ?" O bispo da Igreja Católica da Florida é um ex--combatente na guerra do Vietname.
Ele sabe o que é a guerra e escreveu: "O senhor reclama que os EUA são alvo do terrorismo porque defendemos a democracia, a liberdade e os direitos humanos. Que absurdo, Sr. Presidente ! Somos alvos dos terroristas porque, na maior parte do mundo, o nosso governo defendeu a ditadura, a escravidão e a exploração humana. Somos alvos dos terroristas porque somos odiados. E somos odiados porque o nosso governo fez coisas odiosas. Em quantos países agentes do nosso governo depuseram líderes popularmente eleitos substituindo-os por ditadores militares, fantoches desejosos de vender o seu próprio povo às corporações norte-americanas multinacionais? E o bispo conclui: O povo do Canadá desfruta de democracia, de liberdade e de direitos humanos, assim como o povo da Noruega e da Suécia. Alguma vez o senhor ouviu falar de ataques a embaixadas canadianas, norueguesas ou suecas? Nós somos odiados não porque praticamos a democracia, a liberdade ou os direitos humanos. Somos odiados porque o nosso governo nega essas coisas aos povos dos países do Terceiro Mundo, cujos recursos são cobiçados pelas nossas multinacionais."
Senhor Presidente:
Sua Excelência parece não necessitar que uma instituição internacional legitime o seu direito de intervenção militar. Ao menos que possamos nós encontrar moral e verdade na sua argumentação. Eu e mais milhões de cidadãos não ficamos convencidos quando o vimos justificar a guerra. Nós preferíamos vê- lo assinar a Convenção de Kyoto para conter o efeito de estufa.
Preferíamos tê-lo visto em Durban na Conferência Internacional contra o Racismo.
Não se preocupe, senhor Presidente. A nós, nações pequenas deste mundo, não nos passa pela cabeça exigir a vossa demissão por causa desse apoio que as vossas sucessivas administrações concederam apoio a não menos sucessivos ditadores. A maior ameaça que pesa sobre a América não são armamentos de outros. É o universo de mentira que se criou em redor dos vossos cidadãos.
O perigo não é o regime de Saddam, nem nenhum outro regime. Mas o sentimento de superioridade que parece animar o seu governo. O seu inimigo principal não está fora. Está dentro dos EUA. Essa guerra só pode ser vencida pelos próprios americanos.
Eu gostaria de poder festejar o derrube de Saddam Hussein. E festejar com todos os americanos. Mas sem hipocrisia, sem argumentação e consumo de diminuídos mentais. Porque nós, caro Presidente Bush, nós, os povos dos países pequenos, temos uma arma de construção massiva: a capacidade de pensar.
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