... à geração dos meus filhos
Meus Amigos:
Confio em vocês. Sou a favor do fosso intergeracional e adoro que os mais novos não concordem com os mais velhos. As sociedades avançam por rupturas, as famílias crescem emocionalmente quando se confrontam sem se afrontarem.
Cresci numa família democrática. Os meus pais estimulavam a discussão com os dois filhos e não se importavam de gastar horas a defender os seus pontos de vista. Foi assim que aos doze anos comecei a entender a democracia, quando o meu irmão, sete anos mais velho, me explicou Humberto Delgado.
Não quero recordar-vos Salazar e Caetano. Sei que isso está fora do nosso (meu e vosso) tempo. Apenas quero reivindicar uma coisa: os corajosos da minha geração fizeram o 25 de Abril de 1974 para que vocês, geração dos meus filhos, crescessem em liberdade. Quando digo a alguém da vossa idade que, há trinta anos, não se podia dizer tudo o que apetecia, quase não acreditam. Compreendo: viveram a poder exclamar o amor e a saudade, a ternura e a raiva. Quando queriam, puderam romper, sem medo, com tudo com que não concordavam.
É por isso que peço para estarem muito atentos. Não uso frases do passado, género «fascismo nunca mais» ou «a democracia está em perigo». Não é verdade, e são expressões que vos causam tédio. Quero apenas dizer-vos que, se não ousarem, falharão no essencial: deixarão de construir uma sociedade melhor para os vossos filhos (nesse aspecto, os «velhos» não falharam, vive-se hoje bem melhor do que na juventude dos meus pais).
Pois bem: vejam o «governo» da República. Portugal transformou-se no paraíso dos humoristas. Existem tantas graças sobre os nossos «governantes», que se atropelam nas cabeças dos criativos de humor. E se tantas vezes não sabemos se a «Sit Down Comedy» de Luís Filipe Borges, neste jornal, ou as páginas do Inimigo Público são notícias a brincar ou descrições realistas, a verdade é que nos assalta a certeza de que Portugal vai mal.
Nesta semana vi estudantes espancados e a levarem com gás, como era habitual no meu tempo, mas julgava impossível no vosso tempo; ouvi o director-geral das Prisões a propor a redução das visitas aos presos, para melhorar o problema da droga no sistema prisional; e indignei-me com o ministro da Presidência a falar dos limites à independência, a propósito da televisão pública.
Se deixarmos estes factos sem protesto, o risível «governo» que temos proporá mais: voltarão os jactos de tinta e mais prisões sobre estudantes; serão definitivamente proibidas as visitas aos presos, e o problema da droga no sistema será resolvido; os directores de programação das televisões e os directores de alguns jornais reportarão directamente ao ministro da tutela; o insucesso escolar acabará, graças a um despacho da prof. Maria do Carmo Seabra: todos os alunos com duas negativas no Natal serão automaticamente expulsos da escola. E o «governo» continuará a sorrir, centenas de conselheiros de imagem ajeitarão as gravatas dos ministros e o cabelo das ministras, todos dirão que tudo vai bem.
Sei que vocês não aguentarão mais. Ouço-vos em toda a parte, por enquanto em surdina, em breve até que a voz vos doa. E por isso vos peço: ajudem a derrubar este governo.
Pela verdade e dignidade da vossa geração. Para que, tal como os vossos pais quando contaram 1974, possam dizer aos vossos filhos: sabes, fizemos um segundo 25 de Abril, só com arte e coragem, e o governo foi--se embora.
Com toda a v(n)ossa força
23 de outubro de 2004
17 de outubro de 2004
FÁBULA de Agualusa
Domingo, 17 de Outubro de 2004
José Eduardo Agualusa
Esta é a história de um lobo que se disfarçou de boi, com tal arte, com tal lábia e manha, que conseguiu ser eleito, em assembleia magna, para chefe do rebanho. Pouco a pouco, habilmente, o lobo foi-se livrando dos descontentes, devorando-os a coberto do segredo da noite, ao mesmo tempo que impunha a todo o rebanho um regime de terror.
(O lobo, falando em sua defesa: "comer os inimigos, comê-los realmente, beber o seu sangue, saborear a sua carne, pode ser uma forma de os homenagear. Comer os inimigos, com puré de banana, era até há pouco tempo uma tradição muito respeitada entre algumas tribos indígenas da floresta amazónica. Bem, é certo, eu não tinha puré de banana. Comi-os crus e sem acompanhamento.")
Por vezes, enquanto discursava, levado pelo entusiasmo, o lobo descuidava-se e mostrava os dentes. Corriam rumores de que o grande líder não seria afinal um boi, com pose de lobo, mas um verdadeiro lobo, disfarçado de boi. Os bois mais próximos do lobo, aqueles que comiam à sua mesa, começaram a mostrar-se inquietos.
"Comenta-se por aí, à boca pequena, que tu és um lobo", arriscou um deles, a quem chamavam Boiardo, um tanto a medo, ao ouvido do chefe: "um lobo autêntico."
"Calúnias!", gritou o lobo, e mostrou-lhe os dentes: "o que achas tu?"
O pobre Boiardo, em pânico, já sem quaisquer dúvidas, os olhos presos aos ferozes dentes do lobo, soprou uma desculpa. Depois, firmando a voz, para que o ouvissem os restantes bois, para que o lobo não pudesse colocar em causa a sua lealdade, assegurou:
"És um boi, sim, um belo boi, ou melhor, um touro. Pois então não vejo que és um touro?!"
O boi Boiardo passou a ser desde esse dia o mais zeloso defensor do chefe, denunciando ele próprio os bois com dúvidas, os menos entusiastas, os que ruminavam em manada pelos prados ("sabe-se lá o que ruminam eles"), ao mesmo tempo que por toda a parte, em altos mugidos, exaltava as qualidades bovinas do chefe, a sua, digamos assim, bovinidade. O desaparecimento dos bois tresmalhados, cujas ossadas apareciam mais tarde, muito roídas, nalgum rincão sombrio, era sempre atribuído à acção dos lobos, que se dizia rondarem por ali, ainda que ninguém os visse, justificando tais tragédias a adopção de medidas de segurança cada vez mais rigorosas e apertadas. "Uma democracia vigiada", chamava-lhe o lobo.
(O boi Boiardo, falando em sua defesa: "Era um chefe duro, um verdadeiro lobo, é certo, mas mantinha os rebanhos na ordem e as matilhas à distância. Comeu alguns de nós, sim senhor, mas se não fosse ele outros lobos teriam feito o mesmo. Ao menos fomos comidos por um de nós... Quero dizer, fomos nós, o povo, quem o elegeu, não fomos?")
Então, numa tarde de nuvens baixas, uma ovelha negra, já velha, muito velha e muito negra, a quem as outras ovelhas chamavam simplesmente A Velha, aproximou-se do lobo e disse-lhe, em voz bem alta e sonora, depois de dobrar o corpo numa larga e alquebrada vénia:
"O rebanho está dividido. Dizem alguns que és um lobo; dizem outros que és apenas um boi com dentes de lobo. A mim não me interessa saber se és um lobo ou não. O que interessa é que alguém anda a comer os bois."
(A ovelha chamada A Velha, num aparte, dirigindo-se ao escritor: "Nós, as ovelhas, os bois, os carneiros, não comemos carne. Não matamos para comer. Muitos de nós acham-se, por isso, seres moralmente superiores. Eu acho, simplesmente, que somos herbívoros.")
"Estou velha. O meu destino não me preocupa mais. Não gosto de pensar em mim como comida, ninguém gosta, presumo, nem a erva mais humilde, e todavia todos o somos. Se não for um lobo a comer-me, hoje, hão-de comer-me amanhã as formigas e os vermes. Por isso me atrevi a vir aqui dizer-te isto - tiraste-nos a liberdade, argumentavas tu, para melhor combater os lobos, mas os lobos continuam a vir de noite para comer os bois. Eu escolho a liberdade."
E dizendo isto, com uma agilidade que seu aspecto não deixava adivinhar, arrancou-lhe a máscara. O lobo, atordoado, ainda tentou reagir:
"Prendam-me esta ovelha negra!"
Os bois, porém, não lhe obedeceram. Ao contrário, após um primeiro instante de assombro, baixaram os cornos e lançaram-se contra ele. E o lobo fugiu.
(O lobo, já enfastiado, dirige-se ao escritor: "Tem uma moral, esta tua história?". Ao que o escritor responde encolhendo os ombros: "Não sei. Sou apenas o escritor. Limito-me a contar uma história. Se quiseres uma interpretação vai procurar um rabino, um semiólogo ou um analista político. Agora desanda. A minha história chegou ao fim.")
José Eduardo Agualusa
Esta é a história de um lobo que se disfarçou de boi, com tal arte, com tal lábia e manha, que conseguiu ser eleito, em assembleia magna, para chefe do rebanho. Pouco a pouco, habilmente, o lobo foi-se livrando dos descontentes, devorando-os a coberto do segredo da noite, ao mesmo tempo que impunha a todo o rebanho um regime de terror.
(O lobo, falando em sua defesa: "comer os inimigos, comê-los realmente, beber o seu sangue, saborear a sua carne, pode ser uma forma de os homenagear. Comer os inimigos, com puré de banana, era até há pouco tempo uma tradição muito respeitada entre algumas tribos indígenas da floresta amazónica. Bem, é certo, eu não tinha puré de banana. Comi-os crus e sem acompanhamento.")
Por vezes, enquanto discursava, levado pelo entusiasmo, o lobo descuidava-se e mostrava os dentes. Corriam rumores de que o grande líder não seria afinal um boi, com pose de lobo, mas um verdadeiro lobo, disfarçado de boi. Os bois mais próximos do lobo, aqueles que comiam à sua mesa, começaram a mostrar-se inquietos.
"Comenta-se por aí, à boca pequena, que tu és um lobo", arriscou um deles, a quem chamavam Boiardo, um tanto a medo, ao ouvido do chefe: "um lobo autêntico."
"Calúnias!", gritou o lobo, e mostrou-lhe os dentes: "o que achas tu?"
O pobre Boiardo, em pânico, já sem quaisquer dúvidas, os olhos presos aos ferozes dentes do lobo, soprou uma desculpa. Depois, firmando a voz, para que o ouvissem os restantes bois, para que o lobo não pudesse colocar em causa a sua lealdade, assegurou:
"És um boi, sim, um belo boi, ou melhor, um touro. Pois então não vejo que és um touro?!"
O boi Boiardo passou a ser desde esse dia o mais zeloso defensor do chefe, denunciando ele próprio os bois com dúvidas, os menos entusiastas, os que ruminavam em manada pelos prados ("sabe-se lá o que ruminam eles"), ao mesmo tempo que por toda a parte, em altos mugidos, exaltava as qualidades bovinas do chefe, a sua, digamos assim, bovinidade. O desaparecimento dos bois tresmalhados, cujas ossadas apareciam mais tarde, muito roídas, nalgum rincão sombrio, era sempre atribuído à acção dos lobos, que se dizia rondarem por ali, ainda que ninguém os visse, justificando tais tragédias a adopção de medidas de segurança cada vez mais rigorosas e apertadas. "Uma democracia vigiada", chamava-lhe o lobo.
(O boi Boiardo, falando em sua defesa: "Era um chefe duro, um verdadeiro lobo, é certo, mas mantinha os rebanhos na ordem e as matilhas à distância. Comeu alguns de nós, sim senhor, mas se não fosse ele outros lobos teriam feito o mesmo. Ao menos fomos comidos por um de nós... Quero dizer, fomos nós, o povo, quem o elegeu, não fomos?")
Então, numa tarde de nuvens baixas, uma ovelha negra, já velha, muito velha e muito negra, a quem as outras ovelhas chamavam simplesmente A Velha, aproximou-se do lobo e disse-lhe, em voz bem alta e sonora, depois de dobrar o corpo numa larga e alquebrada vénia:
"O rebanho está dividido. Dizem alguns que és um lobo; dizem outros que és apenas um boi com dentes de lobo. A mim não me interessa saber se és um lobo ou não. O que interessa é que alguém anda a comer os bois."
(A ovelha chamada A Velha, num aparte, dirigindo-se ao escritor: "Nós, as ovelhas, os bois, os carneiros, não comemos carne. Não matamos para comer. Muitos de nós acham-se, por isso, seres moralmente superiores. Eu acho, simplesmente, que somos herbívoros.")
"Estou velha. O meu destino não me preocupa mais. Não gosto de pensar em mim como comida, ninguém gosta, presumo, nem a erva mais humilde, e todavia todos o somos. Se não for um lobo a comer-me, hoje, hão-de comer-me amanhã as formigas e os vermes. Por isso me atrevi a vir aqui dizer-te isto - tiraste-nos a liberdade, argumentavas tu, para melhor combater os lobos, mas os lobos continuam a vir de noite para comer os bois. Eu escolho a liberdade."
E dizendo isto, com uma agilidade que seu aspecto não deixava adivinhar, arrancou-lhe a máscara. O lobo, atordoado, ainda tentou reagir:
"Prendam-me esta ovelha negra!"
Os bois, porém, não lhe obedeceram. Ao contrário, após um primeiro instante de assombro, baixaram os cornos e lançaram-se contra ele. E o lobo fugiu.
(O lobo, já enfastiado, dirige-se ao escritor: "Tem uma moral, esta tua história?". Ao que o escritor responde encolhendo os ombros: "Não sei. Sou apenas o escritor. Limito-me a contar uma história. Se quiseres uma interpretação vai procurar um rabino, um semiólogo ou um analista político. Agora desanda. A minha história chegou ao fim.")
9 de outubro de 2004
Mia Couto, de novo
OS INFELIZES CÁLCULOS DA FELICIDADE
O homem da história é chamado Julio Novesfora. Noutras falas o mestre Novesfora. Homem bastante matemático, vivendo na quantidade exacta, morando sempre no acertado lugar. O mundo, para ele, estava posto em equação de infinito grau. Qualquer situação lhe algebrava o pensamento. Integrais, derivadas, matrizes para tudo existia a devida fórmula. A maior parte das vezes mesmo ele nem incomodava os neurónios:
- É conta que se faz sem cabeça.
Doseava o coração em aplicações regradas, reduzida a paixão ao seu equivalente numérico. Amores, mulheres, filhos tudo isso era hipótese nula. O sentimento, dizia ele, não tem logaritmo. Por isso, nem se justifica a sua equação. Desde menino se abstivera de afectos. Do ponto de vista da algebra, dizia, a ternura é um absurdo. Como o zero negativo. Vocês vejam, dizia ele aos alunos a erva não se enerva, mesmo sabendo-se acabada em ruminagem de boi. E a cobra morde sem ódio. É só o justo praticar da dentadura injectavel dela. Na natureza não se concebe sentimento. Assim, a vida prosseguia e Julio Novesfora era nela um aguarda-factos. Certa vez, porém, o mestre se apaixonou por uma aluna, menina de incorrecta idade, toda a gente advertia essa menina é mais que nova, não dá para si.
- Faça as contas mestre.
Mas o mestre já perdera o calculo. Desvalessem os razoáveis conselhos. Ainda mais grave ele perdia o matemático tino. Já nem sabia o abecedário dos números. Seu pensamento perdia as limpezas da lógica. Dizia coisas sem pés. Parecia, naquele caso, se confirmar o lema quanto mais sexo menos nexo. Agora, a razão vinha tarde de mais. O mestre já tinha traçado a hipotenusa à menina. Em folgas e folguedos, Julio Novesfora se afastava dos rigores da geometria. O oito deitado é um infinito. E, assim, o professor ataratonto, relembrava:
- A paixão é o mundo a dividir por zero.
Não questionassem era aquela a sua paixão. Aquilo era um amor idimensional, desses para os quais nem tanto há mar, nem tanto há guerra. Chamaram um seu tio, único familiar que parecia merecer-lhe as autoritárias confianças. O tio lhe aplicou muita sabedoria, doutrinas de por facto e roubar argumento. Mas o matemático resistia:
- Se reparar, tio, é a primeira vez que estou a viver.
Corolariamente, é natural que cometa erros.
- Mas, sobrinho, você sempre foi de calculo. Faça agora contas à sua vida.
- Essa conta tio, não se faz de cabeça. Faz-se de coração.
O professor demonstrava seu axioma, a irresoluvel paixão pela desidosa menina. Tinha experimentado a fruta nessa altura que o Verão ainda está trabalhando nos açucares da polpa. E de tão regalado, arregalava os olhos. Estava com a cabeça lotada daquela arrebitada menina. O tio ainda desfilou avisos não vislumbrava ele o perigo de um desfecho desilusionista? Não sabia ele que toda a mulher saborosa é dissaborosa? Que o amor é falso como um tecto. Cautela, sobrinho, olho por olho, dente prudente. Novesfora, porém, se renitentava, inóxidável. E o tio foi dali para a sua vida. Os namoros prosseguiram. O mestre levava a menina para a margem do mar onde os coqueiros se vergavam, rumorosos, dando um fingimento de frescura.
- Para bem amar não há como ao pé do mar, ditava ele.
A menina só respondia coisas simples, singelices. Que ela gostava do Verão.
- Do Inverno gosto é para chorar. As lágrimas, no frio, me saem grossas, cheiinhas de água.
A menina falava e o mestre Novesfora ia passeando as mãos pelo corpo dela, mais aplicado que cego lendo braille.
- Vai falando, não pare pedia ele enquanto divertia os dedos pelas secretas humidades da menina. Gostava dessa fingida distracção dela, seus actos lhe pareciam menos pecaminosos. Os transeuntes passavam, deitando culpas no velho professor. Aquilo é idade para nenhumas-vergonhas? Outros faziam graça:
- Sexagenário ou sexogenário?
O mestre se desimportava. Recolhia a lição do embondeiro que é grande mas não dá sombra nenhuma. Vontade de festejar deve eclodir antes de acabar o baile. Tanto tempo decorrera em sua vida e tão pouco tempo tivera para viver. Tudo estando ao alcance da felicidade porque motivo se usufruem tão poucas alegrias? Mas o sapo não sonha com charco se alaga nele. E agora que ele tinha a mão na moça é que iria parar? Uma noite, estando ela em seu leito, estranhos receios invadiram o professor essa menina vai fugir, desaparecida como o arco-íris nas traeiras da chuva. Afinal, os outros bem tinham razão chega sempre o momento em que o amendoim se separa da casca. Novesfora nem chegou de entrar no sono, tal lhe doeram as suspeitas do desfecho. Passaram-se os dias. Até que, certa vez, sob a sombra de um coqueiro, se escutaram os acordes de um lamentochão. O professor carpia as já previsiveis mágoas? Foram a ver, munidos de consolos. Encontraram não o professor mas a menina derramada em pranto, mais triste que cego sentado em miradouro. Se aproximaram, lhe tocaram o ombro. O que passara, então? Onde estava o mestre?
- Ele foi, partiu com outra.
Resposta espantável afinal, o professor é que se fora, no embora, sem remédio. E partira como? Se ainda ontem ele aplicava a ventosa naquele lugar? A ditosa namorada respondeu que ele se fora com outra, extranumerária. E que esta seria ainda muito mais nova, estreável como uma manhã de Domingo. Provado o doce do fruto do verde se quer é o sabor da flor. Enquanto a lagrimosa encharcava réstias de palavras os presentes se foram afastando. Se descuidavam do caso, deixando a menina sob a sombra do coqueiro, solitária e sózinha, no cenário de sua imprevista tristeza. Era Inverno, estação preferida por suas lágrimas.
O homem da história é chamado Julio Novesfora. Noutras falas o mestre Novesfora. Homem bastante matemático, vivendo na quantidade exacta, morando sempre no acertado lugar. O mundo, para ele, estava posto em equação de infinito grau. Qualquer situação lhe algebrava o pensamento. Integrais, derivadas, matrizes para tudo existia a devida fórmula. A maior parte das vezes mesmo ele nem incomodava os neurónios:
- É conta que se faz sem cabeça.
Doseava o coração em aplicações regradas, reduzida a paixão ao seu equivalente numérico. Amores, mulheres, filhos tudo isso era hipótese nula. O sentimento, dizia ele, não tem logaritmo. Por isso, nem se justifica a sua equação. Desde menino se abstivera de afectos. Do ponto de vista da algebra, dizia, a ternura é um absurdo. Como o zero negativo. Vocês vejam, dizia ele aos alunos a erva não se enerva, mesmo sabendo-se acabada em ruminagem de boi. E a cobra morde sem ódio. É só o justo praticar da dentadura injectavel dela. Na natureza não se concebe sentimento. Assim, a vida prosseguia e Julio Novesfora era nela um aguarda-factos. Certa vez, porém, o mestre se apaixonou por uma aluna, menina de incorrecta idade, toda a gente advertia essa menina é mais que nova, não dá para si.
- Faça as contas mestre.
Mas o mestre já perdera o calculo. Desvalessem os razoáveis conselhos. Ainda mais grave ele perdia o matemático tino. Já nem sabia o abecedário dos números. Seu pensamento perdia as limpezas da lógica. Dizia coisas sem pés. Parecia, naquele caso, se confirmar o lema quanto mais sexo menos nexo. Agora, a razão vinha tarde de mais. O mestre já tinha traçado a hipotenusa à menina. Em folgas e folguedos, Julio Novesfora se afastava dos rigores da geometria. O oito deitado é um infinito. E, assim, o professor ataratonto, relembrava:
- A paixão é o mundo a dividir por zero.
Não questionassem era aquela a sua paixão. Aquilo era um amor idimensional, desses para os quais nem tanto há mar, nem tanto há guerra. Chamaram um seu tio, único familiar que parecia merecer-lhe as autoritárias confianças. O tio lhe aplicou muita sabedoria, doutrinas de por facto e roubar argumento. Mas o matemático resistia:
- Se reparar, tio, é a primeira vez que estou a viver.
Corolariamente, é natural que cometa erros.
- Mas, sobrinho, você sempre foi de calculo. Faça agora contas à sua vida.
- Essa conta tio, não se faz de cabeça. Faz-se de coração.
O professor demonstrava seu axioma, a irresoluvel paixão pela desidosa menina. Tinha experimentado a fruta nessa altura que o Verão ainda está trabalhando nos açucares da polpa. E de tão regalado, arregalava os olhos. Estava com a cabeça lotada daquela arrebitada menina. O tio ainda desfilou avisos não vislumbrava ele o perigo de um desfecho desilusionista? Não sabia ele que toda a mulher saborosa é dissaborosa? Que o amor é falso como um tecto. Cautela, sobrinho, olho por olho, dente prudente. Novesfora, porém, se renitentava, inóxidável. E o tio foi dali para a sua vida. Os namoros prosseguiram. O mestre levava a menina para a margem do mar onde os coqueiros se vergavam, rumorosos, dando um fingimento de frescura.
- Para bem amar não há como ao pé do mar, ditava ele.
A menina só respondia coisas simples, singelices. Que ela gostava do Verão.
- Do Inverno gosto é para chorar. As lágrimas, no frio, me saem grossas, cheiinhas de água.
A menina falava e o mestre Novesfora ia passeando as mãos pelo corpo dela, mais aplicado que cego lendo braille.
- Vai falando, não pare pedia ele enquanto divertia os dedos pelas secretas humidades da menina. Gostava dessa fingida distracção dela, seus actos lhe pareciam menos pecaminosos. Os transeuntes passavam, deitando culpas no velho professor. Aquilo é idade para nenhumas-vergonhas? Outros faziam graça:
- Sexagenário ou sexogenário?
O mestre se desimportava. Recolhia a lição do embondeiro que é grande mas não dá sombra nenhuma. Vontade de festejar deve eclodir antes de acabar o baile. Tanto tempo decorrera em sua vida e tão pouco tempo tivera para viver. Tudo estando ao alcance da felicidade porque motivo se usufruem tão poucas alegrias? Mas o sapo não sonha com charco se alaga nele. E agora que ele tinha a mão na moça é que iria parar? Uma noite, estando ela em seu leito, estranhos receios invadiram o professor essa menina vai fugir, desaparecida como o arco-íris nas traeiras da chuva. Afinal, os outros bem tinham razão chega sempre o momento em que o amendoim se separa da casca. Novesfora nem chegou de entrar no sono, tal lhe doeram as suspeitas do desfecho. Passaram-se os dias. Até que, certa vez, sob a sombra de um coqueiro, se escutaram os acordes de um lamentochão. O professor carpia as já previsiveis mágoas? Foram a ver, munidos de consolos. Encontraram não o professor mas a menina derramada em pranto, mais triste que cego sentado em miradouro. Se aproximaram, lhe tocaram o ombro. O que passara, então? Onde estava o mestre?
- Ele foi, partiu com outra.
Resposta espantável afinal, o professor é que se fora, no embora, sem remédio. E partira como? Se ainda ontem ele aplicava a ventosa naquele lugar? A ditosa namorada respondeu que ele se fora com outra, extranumerária. E que esta seria ainda muito mais nova, estreável como uma manhã de Domingo. Provado o doce do fruto do verde se quer é o sabor da flor. Enquanto a lagrimosa encharcava réstias de palavras os presentes se foram afastando. Se descuidavam do caso, deixando a menina sob a sombra do coqueiro, solitária e sózinha, no cenário de sua imprevista tristeza. Era Inverno, estação preferida por suas lágrimas.
6 de outubro de 2004
Com uma dedicatória especial: para a Manel, uma das melhores pessoas do mundo!
SEBASTIÃO DA GAMA
Entre quem é!
(texto acerca do calor humano e da hospitalidade alentejana, publicado no Jornal “Brados do Alentejo” de 11 de Março de 1951)
Isto será defeito meu, mas assim hei-de morrer: só estou bem onde estou. Não que não viaje: viajo. Quantas vezes fui a Paris desde que arribei a Estremoz! E até, vejam lá os senhores!, passei três dias em Margão, que é na Índia Portuguesa! Com Alberto Osório de Castro. Que saudades tive de Portugal, como foi meu este verso: “Meu país português, azulado, na bruma!”
Mas são viagens breves, ausências curtas. Logo regresso às casas brancas de Estremoz e às águas do Gadanha. (Destas nem falo o que tenho a falar. Diriam: “O sujeito é doido. Chamar Oceano àquele palmo cúbico de água encarcerada!; ter descoberto as Molucas no coração do Alentejo!”)
Aqui, com a Torre de Menagem a velar pelo meu sossego, sinto-me em casa. Forasteiro? Qual forasteiro! Não sei ser forasteiro nem hóspede. O tal meu defeito...
É provável que os outros não pensem de mim o mesmo que eu. E digam: “Ora o intruso! Ora o importuno! Ora o forasteiro!” Mas eu não dou por isso, felizmente. – É que me doía, sentir-me em casa alheia. Doía - não é bem. Seria antes um não me sentir à vontade, um acanhar-me, um gaguejar até com as mãos, de provinciano recém-expedido.
Mas o alentejano, pelo menos o alentejano de Estremoz, ou eu erro muito ou é precisamente o português menos inclinado a recusar-me a sua simpatia. “Entre quem é e chegue-se para o lume” - é o que diz a quem lhe bate à porta (ainda ontem o li em Raul Brandão) a voz grossa do trabalhador alentejano. Não se deteve a perguntar quem era. Entre. Entre quem quer que seja que o lume não é menos de quem chega que de quem está. É lume do Alentejo. Achas de azinho? Hão-de lá estar, já em brasa viva e aliciante - tão belo espectáculo só o das ondas. Mas o lume do Alentejo é feito, principalmente, de calor humano, de ternura que se dá sem efusão - simples, discreta, profunda. Entre quem é.
A solidão ai dão ai dão do Alentejo não é de almas. A palavra ecoa, angustiadamente e longamente, é na planície, pela planície fora... Que é das fontes? Mas entre a gente não é assim.. Ainda não consegui, no Alentejo, estar integralmente sozinho; ainda não consegui ter frio. Em vez de solidão, senti à minha volta aconchego, ternura. No ar. Nas pessoas. Até dos que nada dizem e passariam despercebidos a um coração menos atento, sinto que vem até mim, para comover-me, uma onda suave, ou humilde, não sei bem, de compreensão, acolhimento, carinho.
Falam os livros da hospitalidade alentejana. Mas não foi nos livros que eu me habilitei a não estranhar o clima que me recebeu nesta cidade amena e amável. Lá onde a solidão é possível, lá onde a solidão tantas vezes dói, à Lisboa que amo de outro amor - vão dar, e para sempre quedam nostálgicos da paisagem erma que os fez, poetas dos quatro cantos do Alentejo. Exilados, e tristes alguns irremediavelmente, junta-os a mesma saudade e a mesma sede de aconchego. É o Raul de Carvalho, é o Luís Amaro (“velho e fraterno Amigo”, como ainda ontem se dizia ele, a fechar uma longa carta). Junto deles – “Entre quem é e chegue-se para o lume” - é que eu aprendi o Alentejo. Na voz deles, que logo dá a saber, iniludivelmente, com que amizade e com que franqueza se pode contar; e na sua poesia, onde o Alentejo passa mesmo quando parece esquecido.
“Entre quem é.” Era eu. Bem podia responder: “Sou eu - sou o amigo do Luis e do Raul.” Mas ao alentejano, que falta lhe faz a recomendação?... Entrei. Cheguei-me para o lume. Quentes de entendimento, nem precisaram as nossas mãos de apertar-se. Ali, à volta do lume e no mais quente do lume, era o Alentejo.
Entre quem é!
(texto acerca do calor humano e da hospitalidade alentejana, publicado no Jornal “Brados do Alentejo” de 11 de Março de 1951)
Isto será defeito meu, mas assim hei-de morrer: só estou bem onde estou. Não que não viaje: viajo. Quantas vezes fui a Paris desde que arribei a Estremoz! E até, vejam lá os senhores!, passei três dias em Margão, que é na Índia Portuguesa! Com Alberto Osório de Castro. Que saudades tive de Portugal, como foi meu este verso: “Meu país português, azulado, na bruma!”
Mas são viagens breves, ausências curtas. Logo regresso às casas brancas de Estremoz e às águas do Gadanha. (Destas nem falo o que tenho a falar. Diriam: “O sujeito é doido. Chamar Oceano àquele palmo cúbico de água encarcerada!; ter descoberto as Molucas no coração do Alentejo!”)
Aqui, com a Torre de Menagem a velar pelo meu sossego, sinto-me em casa. Forasteiro? Qual forasteiro! Não sei ser forasteiro nem hóspede. O tal meu defeito...
É provável que os outros não pensem de mim o mesmo que eu. E digam: “Ora o intruso! Ora o importuno! Ora o forasteiro!” Mas eu não dou por isso, felizmente. – É que me doía, sentir-me em casa alheia. Doía - não é bem. Seria antes um não me sentir à vontade, um acanhar-me, um gaguejar até com as mãos, de provinciano recém-expedido.
Mas o alentejano, pelo menos o alentejano de Estremoz, ou eu erro muito ou é precisamente o português menos inclinado a recusar-me a sua simpatia. “Entre quem é e chegue-se para o lume” - é o que diz a quem lhe bate à porta (ainda ontem o li em Raul Brandão) a voz grossa do trabalhador alentejano. Não se deteve a perguntar quem era. Entre. Entre quem quer que seja que o lume não é menos de quem chega que de quem está. É lume do Alentejo. Achas de azinho? Hão-de lá estar, já em brasa viva e aliciante - tão belo espectáculo só o das ondas. Mas o lume do Alentejo é feito, principalmente, de calor humano, de ternura que se dá sem efusão - simples, discreta, profunda. Entre quem é.
A solidão ai dão ai dão do Alentejo não é de almas. A palavra ecoa, angustiadamente e longamente, é na planície, pela planície fora... Que é das fontes? Mas entre a gente não é assim.. Ainda não consegui, no Alentejo, estar integralmente sozinho; ainda não consegui ter frio. Em vez de solidão, senti à minha volta aconchego, ternura. No ar. Nas pessoas. Até dos que nada dizem e passariam despercebidos a um coração menos atento, sinto que vem até mim, para comover-me, uma onda suave, ou humilde, não sei bem, de compreensão, acolhimento, carinho.
Falam os livros da hospitalidade alentejana. Mas não foi nos livros que eu me habilitei a não estranhar o clima que me recebeu nesta cidade amena e amável. Lá onde a solidão é possível, lá onde a solidão tantas vezes dói, à Lisboa que amo de outro amor - vão dar, e para sempre quedam nostálgicos da paisagem erma que os fez, poetas dos quatro cantos do Alentejo. Exilados, e tristes alguns irremediavelmente, junta-os a mesma saudade e a mesma sede de aconchego. É o Raul de Carvalho, é o Luís Amaro (“velho e fraterno Amigo”, como ainda ontem se dizia ele, a fechar uma longa carta). Junto deles – “Entre quem é e chegue-se para o lume” - é que eu aprendi o Alentejo. Na voz deles, que logo dá a saber, iniludivelmente, com que amizade e com que franqueza se pode contar; e na sua poesia, onde o Alentejo passa mesmo quando parece esquecido.
“Entre quem é.” Era eu. Bem podia responder: “Sou eu - sou o amigo do Luis e do Raul.” Mas ao alentejano, que falta lhe faz a recomendação?... Entrei. Cheguei-me para o lume. Quentes de entendimento, nem precisaram as nossas mãos de apertar-se. Ali, à volta do lume e no mais quente do lume, era o Alentejo.
5 de outubro de 2004
O Dia em Que Agualusa foi Mia Couto
O Dia em Que Fui Mia Couto
Por JOSÉ EDUARDO AGUALUSA
Segunda-feira, 10 de Junho de 2002
O homem avançou na minha direcção, estava eu sentado, sozinho, em meio ao ruidoso fulgor da primavera, na Feira do Livro de Lisboa. Gente ociosa girava por ali, de barraca em barraca, procurando títulos conhecidos. Era um sujeito assustadiço, o tal homem, todo de preto, de olhar cansado, muito cheio de gestos e ademanes. Parou à minha frente e estendeu-me um livro:
"Pode assinar? Ponha assim: para o meu querido amigo Rufino, lembrando o tempo das lutas, com todo o carinho... Não! Não! Sei lá, ponha antes uma dedicatória à sua maneira... Mas para o Rufino, para o Rufino..."
Era um livro de Mia Couto. A primeira edição de "Vozes Anoitecidas", editada pela Associação dos Escritores Moçambicanos. Senti-me lisonjeado com o equívoco. Agarrei no volume e abri-o na segunda página. Ao menos por alguns segundos poderia ser Mia Couto. Já de caneta em punho, porém, dei-me conta de que me faltava o génio do escritor moçambicano até para uma simples dedicatória. Encarei o sujeito e disse-lhe a verdade:
"Lamento muito. Não fui eu que escrevi este livro."
Lamentava mesmo. Ele encolheu os ombros, ou melhor, encolheu-se nos ombros, encolheu-se todo, como um morcego triste, e depois suspirou - já vencido:
"Não faz mal", disse. "Assine como se fosse. Afinal de contas eu também não sou o Rufino."
Lembrei-me de uma anedota muito conhecida no meio literário carioca. Uma noite tocou o telefone em casa de Carlos Heitor Cony. Era um amigo do famoso romancista, entusiasmado, perdido de riso. Estava numa discoteca, dançando, quando uma bela mulher se aproximou dele:
"Você é o Cony?"
Que sim, que fora sempre, desde criança. "E aí?", quis saber o romancista. O outro exultou: "Bendita confusão. Estou levando a mulher para minha casa. Depois te conto". Na manhã seguinte o telefone voltou a tocar. Era o amigo. "E aí, cara? Comeu?!". O outro foi devagar, demorando-se nos pormenores, fazendo render o peixe. Haviam conversado muito. A mulher lera todos os livros do romancista. Tinha opiniões. Tinha ideias. Ouviram Caetano, dançaram um pouco, e depois ele mostrara-lhe o quarto. Beijara-a. Despira-a: um avião! Uma deusa! Um deslumbramento! Cony ouviu tudo, ansioso:
"E aí?!"
O amigo suspirou:
"E aí, Cony, você brochou..."
Lamentei que o sujeito à minha frente, vestido de preto, olhar cansado, não fosse uma bela mulher. O que é que Mia Couto escreveria se estivesse ali? Uma vez, numa outra feira do livro, em Cabo Verde, pedi-lhe ajuda para um autógrafo porque me sentia sem inspiração. "É fácil", disse-me: "tenho uma fórmula que resulta sempre. É assim: a ti não dedico, dedico-me". Quase me ofendi. Anos antes dedicara-me com essas exactas palavras um exemplar de "Cada Homem é uma Raça". Jurei vingar-me.
Colecciono edições do "Luuanda", de Luandino Vieira, livro que nos inícios dos anos sessenta esteve no centro de um violento escândalo político, ao ser-lhe atribuído o Grande Prémio de Literatura da Associação Portuguesa de Escritores. O romancista angolano estava então detido na Prisão do Tarrafal, suspeito de ligação a uma rede bombista, de forma que o júri do prémio foi acusado de favorecer um terrorista. Possuo uma edição do "Luuanda" com a indicação de ter sido impressa em Belo Horizonte, no Brasil, mas que, na verdade, foi feita em Portugal, ao que parece por iniciativa de um agente da PIDE interessado em lucrar com o tumulto. O livro é enriquecido com uma elaborada dedicatória de Luandino Vieira a uma senhora. Um dia mostrei-o ao próprio escritor. Ele não reconheceu a assinatura - também ela é falsa! Este excesso de falsidade torna o livro, pelo menos aos meus olhos, ainda mais valioso.
Isto tudo me passou pela cabeça no breve instante em que fui Mia Couto. Voltei a abrir o velho exemplar de "Vozes Anoitecidas" na segunda página, alisei-a cuidadosamente, e escrevi:
"Para o Rufino. A si não dedico. Dedico-me. Mia Couto"
Devolvi o livro com um largo sorriso. É quase tão falso agora quanto o meu exemplar do "Luuanda". Acho que estou vingado.
Por JOSÉ EDUARDO AGUALUSA
Segunda-feira, 10 de Junho de 2002
O homem avançou na minha direcção, estava eu sentado, sozinho, em meio ao ruidoso fulgor da primavera, na Feira do Livro de Lisboa. Gente ociosa girava por ali, de barraca em barraca, procurando títulos conhecidos. Era um sujeito assustadiço, o tal homem, todo de preto, de olhar cansado, muito cheio de gestos e ademanes. Parou à minha frente e estendeu-me um livro:
"Pode assinar? Ponha assim: para o meu querido amigo Rufino, lembrando o tempo das lutas, com todo o carinho... Não! Não! Sei lá, ponha antes uma dedicatória à sua maneira... Mas para o Rufino, para o Rufino..."
Era um livro de Mia Couto. A primeira edição de "Vozes Anoitecidas", editada pela Associação dos Escritores Moçambicanos. Senti-me lisonjeado com o equívoco. Agarrei no volume e abri-o na segunda página. Ao menos por alguns segundos poderia ser Mia Couto. Já de caneta em punho, porém, dei-me conta de que me faltava o génio do escritor moçambicano até para uma simples dedicatória. Encarei o sujeito e disse-lhe a verdade:
"Lamento muito. Não fui eu que escrevi este livro."
Lamentava mesmo. Ele encolheu os ombros, ou melhor, encolheu-se nos ombros, encolheu-se todo, como um morcego triste, e depois suspirou - já vencido:
"Não faz mal", disse. "Assine como se fosse. Afinal de contas eu também não sou o Rufino."
Lembrei-me de uma anedota muito conhecida no meio literário carioca. Uma noite tocou o telefone em casa de Carlos Heitor Cony. Era um amigo do famoso romancista, entusiasmado, perdido de riso. Estava numa discoteca, dançando, quando uma bela mulher se aproximou dele:
"Você é o Cony?"
Que sim, que fora sempre, desde criança. "E aí?", quis saber o romancista. O outro exultou: "Bendita confusão. Estou levando a mulher para minha casa. Depois te conto". Na manhã seguinte o telefone voltou a tocar. Era o amigo. "E aí, cara? Comeu?!". O outro foi devagar, demorando-se nos pormenores, fazendo render o peixe. Haviam conversado muito. A mulher lera todos os livros do romancista. Tinha opiniões. Tinha ideias. Ouviram Caetano, dançaram um pouco, e depois ele mostrara-lhe o quarto. Beijara-a. Despira-a: um avião! Uma deusa! Um deslumbramento! Cony ouviu tudo, ansioso:
"E aí?!"
O amigo suspirou:
"E aí, Cony, você brochou..."
Lamentei que o sujeito à minha frente, vestido de preto, olhar cansado, não fosse uma bela mulher. O que é que Mia Couto escreveria se estivesse ali? Uma vez, numa outra feira do livro, em Cabo Verde, pedi-lhe ajuda para um autógrafo porque me sentia sem inspiração. "É fácil", disse-me: "tenho uma fórmula que resulta sempre. É assim: a ti não dedico, dedico-me". Quase me ofendi. Anos antes dedicara-me com essas exactas palavras um exemplar de "Cada Homem é uma Raça". Jurei vingar-me.
Colecciono edições do "Luuanda", de Luandino Vieira, livro que nos inícios dos anos sessenta esteve no centro de um violento escândalo político, ao ser-lhe atribuído o Grande Prémio de Literatura da Associação Portuguesa de Escritores. O romancista angolano estava então detido na Prisão do Tarrafal, suspeito de ligação a uma rede bombista, de forma que o júri do prémio foi acusado de favorecer um terrorista. Possuo uma edição do "Luuanda" com a indicação de ter sido impressa em Belo Horizonte, no Brasil, mas que, na verdade, foi feita em Portugal, ao que parece por iniciativa de um agente da PIDE interessado em lucrar com o tumulto. O livro é enriquecido com uma elaborada dedicatória de Luandino Vieira a uma senhora. Um dia mostrei-o ao próprio escritor. Ele não reconheceu a assinatura - também ela é falsa! Este excesso de falsidade torna o livro, pelo menos aos meus olhos, ainda mais valioso.
Isto tudo me passou pela cabeça no breve instante em que fui Mia Couto. Voltei a abrir o velho exemplar de "Vozes Anoitecidas" na segunda página, alisei-a cuidadosamente, e escrevi:
"Para o Rufino. A si não dedico. Dedico-me. Mia Couto"
Devolvi o livro com um largo sorriso. É quase tão falso agora quanto o meu exemplar do "Luuanda". Acho que estou vingado.
O tempo, segundo Miguel Esteves Cardoso
O tempo, em Portugal, não é tempo - é clima. Ainda não me habituei a ver um boletim meteorológico sem sorrir quando leio a palavra "tempo". E o "tempo" era uma rubrica que eu seguia atentamente; tendo sido assim que conheci e me apaixonei pela minha mulher.
Claro que não é só em português que o clima é tempo; mas em nenhum outro país o clima é tão interessante, e diverso, e bonito. E daí que a confusão entre o tempo que passa e o tempo que está seja mais interessante.
Perguntam-me amigos estrangeiros como é o tempo em Portugal, esperando que lhes fale de sol, mas o tempo em Portugal não é tão aborrecido e constante como eles desejariam.
Digo-lhes que temos, das quatro estações, a colecção completa. Temos um inverno que é inverno; uma primavera que só primavera poderia ser; um verão que não é outra coisa; um outono a que não se podia dar outro nome.
Mas falo assim para que eles me compreendam - e estou a mentir. Porque, ao contrário dos outros países onde o tempo-clima se confunde com o tempo-relógio, não ligamos muito às estações. Ninguém diz "Que bela primavera!" Ninguém se queixa, dizendo "Que horrível inverno!"
Por alguma razão se escrevem as estações do ano com letra minúscula. Não são grandes espingardas. Estão para o tempo como as palavras "homens", "mulheres" e "crianças" estão para cada pessoa. Dão uma ideia. Mas não passam disso.
Nós em Portugal temos meses.
Os meses são a coisa mais linda. Até lhes damos maiúsculas. Até lhes damos, quando se justificam, artigos definidos. Dizemos o Junho e o Julho. Mas Agosto é Agosto e Setembro é Setembro.
Em medida nenhuma se diz, destes meses tão diferentes, que são o verão. Julho é Julho; Setembro é Setembro.
As pessoas mais afeiçoadas ao tempo; aquelas que trabalham a terra ou vendem fruta nas praças; nem sequer em meses pensam - sabem mais.
Pensam em semanas.
Para eles a segunda semana de Maio é um tempo inteiramente separado. Sabem a semana dos pêssegos; a semana das cerejas; a semana da sardinha gorda; a semana das primeiras e últimas laranjas.
Às vezes, quando estou a discutir o mês de Abril - um dos mais interessantes e polémicos(oh coisa maravilhosa!) - com um motorista de táxi particularmente sábio, ele responde-me com meias frases, não querendo perder o latim com um mero amador como eu.
É o Abril que "ainda não entrou" - ou está "bem entrado" - ou "o fim" de Abril, como agora dizem estar a acontecer. Ainda ontem me disseram o seguinte: "Bem podem ficar com o Maio, que eu cá oriento-me bem com o fim do Abril!"
E é só quando se entra neste , que só o nosso clima permite, que se percebe porque chamamos tempo ao clima e clima ao tempo.
É isto:
Fala-se da segunda metade de Abril como quem fala das dez da manhã.
No relógio português, é como se houvesse 24 horas e 48 semanas; em que cada hora corresponde a duas semanas do ano.
E o mais engraçado e bonito é que a primeira metade de Janeiro, logo o primeiro mês do ano, corresponde à hora que vai da meia-noite à uma da manhã.
Como as duas últimas semanas de Dezembro, menos escura, representam, claramente, a hora que vai das onze da noite até à meia-noite.
Quem não compreende - ou, pelo menos, aceita este espanto - nada sabe do tempo português.
Hoje à noite, por exemplo, cinco planetas(Vénus, Mercúrio, Marte, Saturno e Júpiter) estarão invulgarmente próximos uns dos outros e poderão ser vislumbrados a conviver, à vista desarmada, como não voltará a acontecer senão daqui a sessenta anos.
Mas isso aos portugueses nada diz. Diz mais que estamos no princípio, ainda mal entrado, da última metade de Abril - o lindo patamar para a mágica primeira semana de Maio.
Há um poema de Herberto Helder que começa "Era Novembro". E mal lemos as duas palavras sabemos onde estamos, de uma maneira que é impossível para quem lê o famoso verso de Eliot - "April is the cruellest month".
Eliot está a emitir uma opinião discutível. Herberto está a estabelecer um lugar preciso.
E é preciso, também, não saber nada para não perceber que Eliot está a escrever na Inglaterra, onde o Abril é Abril apenas e constitui um arrastamento longínquo e indistinto de Fevereiro; e que Herberto está a pensar no Novembro luminoso e estranho da ilha da Madeira.
Em Portugal os nossos dias são as semanas dos países com um clima menos inteiro. E as semanas são os meses deles. E os nossos meses são as estações dos anos que têm. E as nossas estações são quase anos, como estações de comboios distantes.
Uma das coisas que os meus motoristas gostam sempre de ouvir, porque vai de encontro aos preconceitos políticos que são parte integrante da formação profissional deles, é a frase seguinte, que há muitos anos inventei para meter conversa com tão fascinantes intérpretes do tempo português:
"O que nos vale é o tempo, meu amigo! Se os políticos o pudessem estragar ou vender; já não o tínhamos..."
"É verdade...", dizem eles e começam a discorrer acerca dos políticos; até eu recentrar a discussão para onde mais me interessa, perguntando: "Como era o mês de Abril na sua terra?"
E que comiam ao pequeno-almoço e o que apanhavam da terra...
Eu gosto de falar do tempo. Se calhar foi de ter passado tantos anos a pensar e a escrever, no frio e cinzento Norte da Inglaterra, a minha tese de doutoramento, sobre a saudade.
Percebi que o tempo em Portugal, mais do que o amor, que parte dele, é o que temos de mais diferente. A frase de Mário Sá-Carneiro, "saudades do futuro", é incompreensível ou alegremente abstracta para os intérpretes ingleses. Mas, para nós, pode significar algo tão simples e concreto como "Deus queira que o tempo passe depressa".
Ou mesmo "Que pena nunca mais ser verão outra vez..."
Por que carga de nêsperas rosadinhas é que o nome que damos à estação mais quente é o futuro do verbo ver? Por acaso não é com certeza.
É que o nosso tempo, de horas e minutos, é o mesmo das saudades das nossas infâncias; do cheiro dos figos no fim de Julho; da caruma e das pinhas, da lona quente e do céu caído à volta do sol que não morre nem por mais uma.
Serem agora, por exemplo, nove horas da manhã e estar um dia lindo, ser Abril sem margem para dúvidas, e eu ter 46 anos e estar a mais de meio da minha vida, lembrando-me do meu pai e de brincar aos barcos com o meu irmão no jardim da nossa casa, cada um com um quarto de laranja nevado de açúcar na mão; ter falado há minutos com a minha mulher acerca de um sonho que ela teve, em que a cadela dela, a Cocas, dormia no mesmo cobertor cor de rosa com os nossos três gatos; faltarem quatro horas para ir almoçar; cinco para me apresentar a tribunal como arguido numa merda qualquer e o barulho doce dos passarinhos a tresloucar e a sensação das lojas a abrir e das bicas a saír...para um português como eu, é tudo o mesmo; é tudo o mesmo tempo de mim e de nós.
O mesmo tempo.
Clima ou horas ou vida; mês, semana ou estado de espírito...em nós tudo se pode separar e é por isso mesmo, talvez, que tão felizmente se junta.
Se junta.
Como é que agora e sempre são, só entre nós, sinónimos tão doces? Porque se referem ao passado, talvez. Mas ao passado ainda há poucochinho, que não conta.
Ou então é destes dias.
Claro que não é só em português que o clima é tempo; mas em nenhum outro país o clima é tão interessante, e diverso, e bonito. E daí que a confusão entre o tempo que passa e o tempo que está seja mais interessante.
Perguntam-me amigos estrangeiros como é o tempo em Portugal, esperando que lhes fale de sol, mas o tempo em Portugal não é tão aborrecido e constante como eles desejariam.
Digo-lhes que temos, das quatro estações, a colecção completa. Temos um inverno que é inverno; uma primavera que só primavera poderia ser; um verão que não é outra coisa; um outono a que não se podia dar outro nome.
Mas falo assim para que eles me compreendam - e estou a mentir. Porque, ao contrário dos outros países onde o tempo-clima se confunde com o tempo-relógio, não ligamos muito às estações. Ninguém diz "Que bela primavera!" Ninguém se queixa, dizendo "Que horrível inverno!"
Por alguma razão se escrevem as estações do ano com letra minúscula. Não são grandes espingardas. Estão para o tempo como as palavras "homens", "mulheres" e "crianças" estão para cada pessoa. Dão uma ideia. Mas não passam disso.
Nós em Portugal temos meses.
Os meses são a coisa mais linda. Até lhes damos maiúsculas. Até lhes damos, quando se justificam, artigos definidos. Dizemos o Junho e o Julho. Mas Agosto é Agosto e Setembro é Setembro.
Em medida nenhuma se diz, destes meses tão diferentes, que são o verão. Julho é Julho; Setembro é Setembro.
As pessoas mais afeiçoadas ao tempo; aquelas que trabalham a terra ou vendem fruta nas praças; nem sequer em meses pensam - sabem mais.
Pensam em semanas.
Para eles a segunda semana de Maio é um tempo inteiramente separado. Sabem a semana dos pêssegos; a semana das cerejas; a semana da sardinha gorda; a semana das primeiras e últimas laranjas.
Às vezes, quando estou a discutir o mês de Abril - um dos mais interessantes e polémicos(oh coisa maravilhosa!) - com um motorista de táxi particularmente sábio, ele responde-me com meias frases, não querendo perder o latim com um mero amador como eu.
É o Abril que "ainda não entrou" - ou está "bem entrado" - ou "o fim" de Abril, como agora dizem estar a acontecer. Ainda ontem me disseram o seguinte: "Bem podem ficar com o Maio, que eu cá oriento-me bem com o fim do Abril!"
E é só quando se entra neste , que só o nosso clima permite, que se percebe porque chamamos tempo ao clima e clima ao tempo.
É isto:
Fala-se da segunda metade de Abril como quem fala das dez da manhã.
No relógio português, é como se houvesse 24 horas e 48 semanas; em que cada hora corresponde a duas semanas do ano.
E o mais engraçado e bonito é que a primeira metade de Janeiro, logo o primeiro mês do ano, corresponde à hora que vai da meia-noite à uma da manhã.
Como as duas últimas semanas de Dezembro, menos escura, representam, claramente, a hora que vai das onze da noite até à meia-noite.
Quem não compreende - ou, pelo menos, aceita este espanto - nada sabe do tempo português.
Hoje à noite, por exemplo, cinco planetas(Vénus, Mercúrio, Marte, Saturno e Júpiter) estarão invulgarmente próximos uns dos outros e poderão ser vislumbrados a conviver, à vista desarmada, como não voltará a acontecer senão daqui a sessenta anos.
Mas isso aos portugueses nada diz. Diz mais que estamos no princípio, ainda mal entrado, da última metade de Abril - o lindo patamar para a mágica primeira semana de Maio.
Há um poema de Herberto Helder que começa "Era Novembro". E mal lemos as duas palavras sabemos onde estamos, de uma maneira que é impossível para quem lê o famoso verso de Eliot - "April is the cruellest month".
Eliot está a emitir uma opinião discutível. Herberto está a estabelecer um lugar preciso.
E é preciso, também, não saber nada para não perceber que Eliot está a escrever na Inglaterra, onde o Abril é Abril apenas e constitui um arrastamento longínquo e indistinto de Fevereiro; e que Herberto está a pensar no Novembro luminoso e estranho da ilha da Madeira.
Em Portugal os nossos dias são as semanas dos países com um clima menos inteiro. E as semanas são os meses deles. E os nossos meses são as estações dos anos que têm. E as nossas estações são quase anos, como estações de comboios distantes.
Uma das coisas que os meus motoristas gostam sempre de ouvir, porque vai de encontro aos preconceitos políticos que são parte integrante da formação profissional deles, é a frase seguinte, que há muitos anos inventei para meter conversa com tão fascinantes intérpretes do tempo português:
"O que nos vale é o tempo, meu amigo! Se os políticos o pudessem estragar ou vender; já não o tínhamos..."
"É verdade...", dizem eles e começam a discorrer acerca dos políticos; até eu recentrar a discussão para onde mais me interessa, perguntando: "Como era o mês de Abril na sua terra?"
E que comiam ao pequeno-almoço e o que apanhavam da terra...
Eu gosto de falar do tempo. Se calhar foi de ter passado tantos anos a pensar e a escrever, no frio e cinzento Norte da Inglaterra, a minha tese de doutoramento, sobre a saudade.
Percebi que o tempo em Portugal, mais do que o amor, que parte dele, é o que temos de mais diferente. A frase de Mário Sá-Carneiro, "saudades do futuro", é incompreensível ou alegremente abstracta para os intérpretes ingleses. Mas, para nós, pode significar algo tão simples e concreto como "Deus queira que o tempo passe depressa".
Ou mesmo "Que pena nunca mais ser verão outra vez..."
Por que carga de nêsperas rosadinhas é que o nome que damos à estação mais quente é o futuro do verbo ver? Por acaso não é com certeza.
É que o nosso tempo, de horas e minutos, é o mesmo das saudades das nossas infâncias; do cheiro dos figos no fim de Julho; da caruma e das pinhas, da lona quente e do céu caído à volta do sol que não morre nem por mais uma.
Serem agora, por exemplo, nove horas da manhã e estar um dia lindo, ser Abril sem margem para dúvidas, e eu ter 46 anos e estar a mais de meio da minha vida, lembrando-me do meu pai e de brincar aos barcos com o meu irmão no jardim da nossa casa, cada um com um quarto de laranja nevado de açúcar na mão; ter falado há minutos com a minha mulher acerca de um sonho que ela teve, em que a cadela dela, a Cocas, dormia no mesmo cobertor cor de rosa com os nossos três gatos; faltarem quatro horas para ir almoçar; cinco para me apresentar a tribunal como arguido numa merda qualquer e o barulho doce dos passarinhos a tresloucar e a sensação das lojas a abrir e das bicas a saír...para um português como eu, é tudo o mesmo; é tudo o mesmo tempo de mim e de nós.
O mesmo tempo.
Clima ou horas ou vida; mês, semana ou estado de espírito...em nós tudo se pode separar e é por isso mesmo, talvez, que tão felizmente se junta.
Se junta.
Como é que agora e sempre são, só entre nós, sinónimos tão doces? Porque se referem ao passado, talvez. Mas ao passado ainda há poucochinho, que não conta.
Ou então é destes dias.
O Meu País, isto é: o nosso
É melhor agarrar-lhe de unha
António J. Branco
A saga aventureira – triste e desencantada – das listas de colocação de professores, em que no século vinte e um a informática perdeu em favor do papel e do lápis, traz-me à lembrança uma história já antiga mas com o seu quê de subtileza.
Conta-se na minha terra que há muitos anos atrás, um dos habitantes abastados da aldeia – a minha terra ainda é uma aldeia – tendo tido necessidade de se deslocar à sede do Conselho, por lá ficou durante o dia mais tempo que o previsto e, sentindo necessidade de tomar a sua refeição – um aldeão normal teria, simplesmente, almoçado, mas um aldeão abastado tomava a refeição – entrou numa das casas apropriadas para o efeito, que na altura se chamavam Casas de Pasto e serviam almoços, e que hoje se chamam Restaurantes e servem refeições, e sentando-se numa mesa com assentos livres, mandou vir. O almoço, é claro!
Mas, tal como agora, também naqueles dias nem sempre o espaço chegava para todos em simultâneo de modo a colocar um só cliente em mesa individual e havia que proceder a alguns arranjos. De modo que, vindo o senhor Mário perguntar ao Júlio – Mário era o dono do restaurante e Júlio o freguês da minha terra – se permitia que um outro cliente se sentasse na mesma mesa o Júlio disse que sim, “Faça favor”, terá dito o meu conterrâneo de outros tempos e que eu ainda tive o privilégio de conhecer.
Consta que os dois pediram bife para o almoço - bife era na altura um prato de luxo, digno de fazer distinção entre as pessoas – e, mesmo não sendo carne de vaca perturbada como algumas que por aí enlouqueceram por culpa de gentes e de pastos, não era a dita cuja tenra o suficiente que se lhe pudesse chamar vitela, de modo que só alcançava a designação de bife de vaca. E de vaca foi; vaca velha, enrijecida, musculada e com o sistema nervoso muito alterado. O Júlio, quando à primeira tentativa de corte, notou que o naco de carne se lhe pretendia escorregar do prato, de imediato lhe deitou a unha e, pensando, “Anda cá que és meu”, principiou a mastigação do alimento por via directa, dispensando sem qualquer pudor, a faca e o garfo que o senhor Mário, gentilmente, tinha alinhado na sua frente. O outro senhor, certamente oriundo de uma terra menos aldeia e mais vila ou até mesmo cidade, onde as pessoas são todas bem formadas, civilizadas e afins, mas tendo a mesma sorte em termos de carne, pois a tal vaca devia ser das grandes e corpulentas, atacou o pedaço de carne como mandam as regras que assim seja mas logo à primeira tentativa de serrada da faca, o naco de carne quase escorregava pelo bordo do prato, e o Júlio, atento à tarefa do vizinho disse, “Agarre-lhe de unha”.
Mas o outro, por vaidade ou por pudor, não seguiu o conselho do Júlio que, nas calmas, continuou a mastigar o seu bife entalado um quarto de pão de trigo, que segurava na mão direita. Com a esquerda picava as batatas fritas levando-as à boca alternadamente; ora mordida de bife ora picada de batatas. Não seguindo o conselho, fez nova tentativa de serrar o nervo do bife, nova escorregadela e o Júlio voltou a aconselhar, “Agarre-lhe de unha”. Mas o resultado foi o mesmo.
Quase no fim da refeição – do Júlio – ainda o outro só tinha serrado meio quarto da carne que tinha por missão consumir e já o Júlio limpava os beiços, quando o primeiro, irritado, forçou faca e garfo contra carne e prato e decidiu que daquela vez é que era. Teve azar, as coisas à força nunca costumam funcionar, nem os bifes, e desagrafando-se-lhe a carne do prato escorregadio, estampou-se-lhe sem desplante no peito cabeludo de homem de negócios e ele só teve tempo de dizer, “Ora merda”, ou então disse outra coisa que eu, por pudor, não transcrevo.
Já o Júlio se levantava sem pedir com licença nem nada quando o desastre de deu mas, solidário com o acontecimento acontecido como diz modernamente agora o nosso Primeiro, ainda teve tempo de comentar, “Eu bem lhe disse que era melhor agarrar-lhe de unha, oh amigo”.
António J. Branco
A saga aventureira – triste e desencantada – das listas de colocação de professores, em que no século vinte e um a informática perdeu em favor do papel e do lápis, traz-me à lembrança uma história já antiga mas com o seu quê de subtileza.
Conta-se na minha terra que há muitos anos atrás, um dos habitantes abastados da aldeia – a minha terra ainda é uma aldeia – tendo tido necessidade de se deslocar à sede do Conselho, por lá ficou durante o dia mais tempo que o previsto e, sentindo necessidade de tomar a sua refeição – um aldeão normal teria, simplesmente, almoçado, mas um aldeão abastado tomava a refeição – entrou numa das casas apropriadas para o efeito, que na altura se chamavam Casas de Pasto e serviam almoços, e que hoje se chamam Restaurantes e servem refeições, e sentando-se numa mesa com assentos livres, mandou vir. O almoço, é claro!
Mas, tal como agora, também naqueles dias nem sempre o espaço chegava para todos em simultâneo de modo a colocar um só cliente em mesa individual e havia que proceder a alguns arranjos. De modo que, vindo o senhor Mário perguntar ao Júlio – Mário era o dono do restaurante e Júlio o freguês da minha terra – se permitia que um outro cliente se sentasse na mesma mesa o Júlio disse que sim, “Faça favor”, terá dito o meu conterrâneo de outros tempos e que eu ainda tive o privilégio de conhecer.
Consta que os dois pediram bife para o almoço - bife era na altura um prato de luxo, digno de fazer distinção entre as pessoas – e, mesmo não sendo carne de vaca perturbada como algumas que por aí enlouqueceram por culpa de gentes e de pastos, não era a dita cuja tenra o suficiente que se lhe pudesse chamar vitela, de modo que só alcançava a designação de bife de vaca. E de vaca foi; vaca velha, enrijecida, musculada e com o sistema nervoso muito alterado. O Júlio, quando à primeira tentativa de corte, notou que o naco de carne se lhe pretendia escorregar do prato, de imediato lhe deitou a unha e, pensando, “Anda cá que és meu”, principiou a mastigação do alimento por via directa, dispensando sem qualquer pudor, a faca e o garfo que o senhor Mário, gentilmente, tinha alinhado na sua frente. O outro senhor, certamente oriundo de uma terra menos aldeia e mais vila ou até mesmo cidade, onde as pessoas são todas bem formadas, civilizadas e afins, mas tendo a mesma sorte em termos de carne, pois a tal vaca devia ser das grandes e corpulentas, atacou o pedaço de carne como mandam as regras que assim seja mas logo à primeira tentativa de serrada da faca, o naco de carne quase escorregava pelo bordo do prato, e o Júlio, atento à tarefa do vizinho disse, “Agarre-lhe de unha”.
Mas o outro, por vaidade ou por pudor, não seguiu o conselho do Júlio que, nas calmas, continuou a mastigar o seu bife entalado um quarto de pão de trigo, que segurava na mão direita. Com a esquerda picava as batatas fritas levando-as à boca alternadamente; ora mordida de bife ora picada de batatas. Não seguindo o conselho, fez nova tentativa de serrar o nervo do bife, nova escorregadela e o Júlio voltou a aconselhar, “Agarre-lhe de unha”. Mas o resultado foi o mesmo.
Quase no fim da refeição – do Júlio – ainda o outro só tinha serrado meio quarto da carne que tinha por missão consumir e já o Júlio limpava os beiços, quando o primeiro, irritado, forçou faca e garfo contra carne e prato e decidiu que daquela vez é que era. Teve azar, as coisas à força nunca costumam funcionar, nem os bifes, e desagrafando-se-lhe a carne do prato escorregadio, estampou-se-lhe sem desplante no peito cabeludo de homem de negócios e ele só teve tempo de dizer, “Ora merda”, ou então disse outra coisa que eu, por pudor, não transcrevo.
Já o Júlio se levantava sem pedir com licença nem nada quando o desastre de deu mas, solidário com o acontecimento acontecido como diz modernamente agora o nosso Primeiro, ainda teve tempo de comentar, “Eu bem lhe disse que era melhor agarrar-lhe de unha, oh amigo”.
4 de outubro de 2004
A Velha Carlota
de José Luís Peixoto, na Capital
Ontem, a velha Carlota dos moinhos de vento saiu da mercearia com dois sacos de compras, chegou a casa e pensou em matar-se. Porque chora vossemecê, Ti Carlota? Sentou-se num banco que tem sempre encostado ao lume. No Verão, o lume está apagado e ontem o lume estava apagado. A velha Carlota dos moinhos de vento sentou-se no banco e nem guardou a embalagem de Planta no frigorífico, nem guardou os pacotes de bolacha maria, que comprou para os cachopos que a vêm visitar, no armário de rede. Sentou-se num banco que tem sempre encostado ao lume. Já não presto para nada. Os seus olhos eram grandes. As lágrimas desciam-lhe pelas pregas da pele do rosto. Os lábios da velha Carlota dos moinhos de vento não são beijados há cinquenta anos. Ninguém olha para eles. São finos e secos.
Já não presto pata nada. E levantou-se do banco. As suas mãos são muito magras: a pele solta, as veias, os ossos, as unhas cortadas com a tesoura da costura. As suas mãos começaram a desabotoar a bata negra. Depois de cada botão, um pouco mais da combinação branca de flanela. Porque chora vocessemecê, Ti Carlota? As suas mãos soltaram as alças da combinação. No meio da cozinha, despiu-se toda nua. Uma lágrima caiu-lhe sobre o peito, desceu-lhe pela barriga, pela perna e secou antes de lhe chegar ao joelho. Tirou os ganchos, desprendeu a poupa e os cabelos brancos estenderam-se-lhe pelas costas ligeiramente curvadas. A porta da velha Carlota dos moinhos de vento nunca está fechada ao trinco. Entrei. Ela olhou para mim, toda nua, a chorar. A casa era escura e fresca. Os dois sacos de compras estavam no chão, junto à roupa caída. Porque chora vocessemecê, Ti Carlota? Já não presto para nada. Não diga isso, Ti Carlota, a gente gostamos muito de si.
Ontem, a velha Carlota dos moinhos de vento saiu da mercearia com dois sacos de compras, chegou a casa e pensou em matar-se. Porque chora vossemecê, Ti Carlota? Sentou-se num banco que tem sempre encostado ao lume. No Verão, o lume está apagado e ontem o lume estava apagado. A velha Carlota dos moinhos de vento sentou-se no banco e nem guardou a embalagem de Planta no frigorífico, nem guardou os pacotes de bolacha maria, que comprou para os cachopos que a vêm visitar, no armário de rede. Sentou-se num banco que tem sempre encostado ao lume. Já não presto para nada. Os seus olhos eram grandes. As lágrimas desciam-lhe pelas pregas da pele do rosto. Os lábios da velha Carlota dos moinhos de vento não são beijados há cinquenta anos. Ninguém olha para eles. São finos e secos.
Já não presto pata nada. E levantou-se do banco. As suas mãos são muito magras: a pele solta, as veias, os ossos, as unhas cortadas com a tesoura da costura. As suas mãos começaram a desabotoar a bata negra. Depois de cada botão, um pouco mais da combinação branca de flanela. Porque chora vocessemecê, Ti Carlota? As suas mãos soltaram as alças da combinação. No meio da cozinha, despiu-se toda nua. Uma lágrima caiu-lhe sobre o peito, desceu-lhe pela barriga, pela perna e secou antes de lhe chegar ao joelho. Tirou os ganchos, desprendeu a poupa e os cabelos brancos estenderam-se-lhe pelas costas ligeiramente curvadas. A porta da velha Carlota dos moinhos de vento nunca está fechada ao trinco. Entrei. Ela olhou para mim, toda nua, a chorar. A casa era escura e fresca. Os dois sacos de compras estavam no chão, junto à roupa caída. Porque chora vocessemecê, Ti Carlota? Já não presto para nada. Não diga isso, Ti Carlota, a gente gostamos muito de si.
2 de outubro de 2004
Quando Portugal- Brasil empatou no coração de Edson Athayde
Até breve.
ÀS VEZES IR É TRISTE MAS FICAR NÃO É MELHOR. PARTIR também é quebrar, romper, destroçar o que está mais para o enguiço do que para o que está a funcionar. Partir para outra, como se a outra fosse a amante fogosa, aquela que faz tudo na cama ou na lama, a sedutora despudorada, melhor que a vidinha lá de casa, a vidinha rezingona e despeitada, a vidinha de sempre, mulher obtusa e sem graça, de rolinhos no cabelo, avental sujo de ovo e chinelas gastas. Ir sem data para voltar. Sem saber se vai à ou para, sem saber de nada.
Depois de 13 anos por aqui, estou neste momento (partindo do princípio que hoje é sexta e que está a ler este DNA entre as 10 da manhã e as 10 da noite) dentro de um avião da TAP de regresso ao Brasil, mais precisamente ao Rio de Janeiro. Não, não estou a ir para sempre. Pelo menos essa não é a intenção. Mas quando aqui cheguei também nunca poderia imaginar que viveria quase uma década e meia em Portugal. Que aqui faria tantas coisas a ponto de poder publicar uma «carta de despedida» num jornal. Coloco as aspas pois não se trata de uma despedida verdadeira. Daquelas que alguém que sabe que não voltará escreva para arrancar soluços e choros de quem vai ficar. O plano não é esse. Apenas decidi viver numa ponte aérea continental entre o Rio e Lisboa, as cidades que amo no planeta (e olha que fui bastante infiel na minha procura da cidade perfeita, dando verdadeiras voltas à Terra, fazendo juras de amor eterno a Barcelona para depois abandoná-la sem nem deixar um bilhete, tendo flirts passageiros com Nova lorque, namoros intempestivos com Londres, "one nigth stands" com um sem número de localidades). O plano (se é que há um plano) é esse. Quero tornar-me no telemóvel de mim mesmo. Está aqui e em outra lugar. Sempre contactável e sempre contactando. Conectado em tudo. Mas completamente unplugged, um cidadão acústico do mundo.
Aí pergunta você: «e o que é eu tenho a ver com isso?» Sei lá. Você é que é meu leitor. De si, acho eu, nunca li nada. Nunca fui mexer nas gavetas da sua vida, nem na lata de lixo da sua alma. Nessa relação completamente desproporcional entre um autor e o seu leitor, não controlo as razécs do seu interesse nos meus textos. Mas suponho que de vez em quando preciso dar uma satisfação sobre o que está a acontecer comigo até para que você entenda melhor o que escrevo.
O que escrevo: durante seis meses publiquei aqui pequenas histórias sobre tristes figuras, habitantes de um universo bem pouco realista. Agora, tal proposta chega ao fim. Daí mais uma despedida. Volto para a semana ou daqui, no máximo, a quinze dias, num novo formato de crónica (mas sobre isso, nada melhor do que o Pedro Rolo Duarte, editor desse albergue espanhol, que publica coisas até mesmo de um cronista como eu, explicar).
Então é isso. Até breve. E um abraço do tamanho do oceano atlântico.
ÀS VEZES IR É TRISTE MAS FICAR NÃO É MELHOR. PARTIR também é quebrar, romper, destroçar o que está mais para o enguiço do que para o que está a funcionar. Partir para outra, como se a outra fosse a amante fogosa, aquela que faz tudo na cama ou na lama, a sedutora despudorada, melhor que a vidinha lá de casa, a vidinha rezingona e despeitada, a vidinha de sempre, mulher obtusa e sem graça, de rolinhos no cabelo, avental sujo de ovo e chinelas gastas. Ir sem data para voltar. Sem saber se vai à ou para, sem saber de nada.
Depois de 13 anos por aqui, estou neste momento (partindo do princípio que hoje é sexta e que está a ler este DNA entre as 10 da manhã e as 10 da noite) dentro de um avião da TAP de regresso ao Brasil, mais precisamente ao Rio de Janeiro. Não, não estou a ir para sempre. Pelo menos essa não é a intenção. Mas quando aqui cheguei também nunca poderia imaginar que viveria quase uma década e meia em Portugal. Que aqui faria tantas coisas a ponto de poder publicar uma «carta de despedida» num jornal. Coloco as aspas pois não se trata de uma despedida verdadeira. Daquelas que alguém que sabe que não voltará escreva para arrancar soluços e choros de quem vai ficar. O plano não é esse. Apenas decidi viver numa ponte aérea continental entre o Rio e Lisboa, as cidades que amo no planeta (e olha que fui bastante infiel na minha procura da cidade perfeita, dando verdadeiras voltas à Terra, fazendo juras de amor eterno a Barcelona para depois abandoná-la sem nem deixar um bilhete, tendo flirts passageiros com Nova lorque, namoros intempestivos com Londres, "one nigth stands" com um sem número de localidades). O plano (se é que há um plano) é esse. Quero tornar-me no telemóvel de mim mesmo. Está aqui e em outra lugar. Sempre contactável e sempre contactando. Conectado em tudo. Mas completamente unplugged, um cidadão acústico do mundo.
Aí pergunta você: «e o que é eu tenho a ver com isso?» Sei lá. Você é que é meu leitor. De si, acho eu, nunca li nada. Nunca fui mexer nas gavetas da sua vida, nem na lata de lixo da sua alma. Nessa relação completamente desproporcional entre um autor e o seu leitor, não controlo as razécs do seu interesse nos meus textos. Mas suponho que de vez em quando preciso dar uma satisfação sobre o que está a acontecer comigo até para que você entenda melhor o que escrevo.
O que escrevo: durante seis meses publiquei aqui pequenas histórias sobre tristes figuras, habitantes de um universo bem pouco realista. Agora, tal proposta chega ao fim. Daí mais uma despedida. Volto para a semana ou daqui, no máximo, a quinze dias, num novo formato de crónica (mas sobre isso, nada melhor do que o Pedro Rolo Duarte, editor desse albergue espanhol, que publica coisas até mesmo de um cronista como eu, explicar).
Então é isso. Até breve. E um abraço do tamanho do oceano atlântico.
Cravos de Abril todo o ano
A Cartilha
Um cheiro a cravos
Clara Ferreira Alves
Manuel Alegre prepara-se para dar ao PS da rosa cor-de-rosa e de Guterres, encabeçado pelo engenheiro José Sócrates, um cheirinho a cravos vermelhos. Contra os avisos dos amigos da cabeça e do coração que acham que ele não tem cabeça e coração para isto, Manuel Alegre prepara-se para dar alguns trabalhos aos outros candidatos e ensinar-lhes algumas lições. Lições de uma certa lisura de vida, de princípios, de decência e de convicção.
Na verdade, Manuel Alegre não precisava disto para nada neste ponto da sua vida, em que a carreira literária estava sustentada numa produção ficcional e poética que desmentia o sacrifício da literatura à política que norteou a sua vida. Alegre foi sempre um homem de palavras e de uma só palavra, nunca quis o poder nem o quis exercer, e se cometeu erros, esses erros foram pecadilhos ao lado dos vícios alheios.
O homem é inteiro e é de boa cepa, e não tem medo das palavras. Na fase da política portuguesa em que as imagens e os gabinetes de imagem se substituem à antiquíssima palavra de honra, na era dos fabricantes de marionetas, a candidatura de Manuel Alegre tem o mérito de nos fazer recordar que há outras maneiras, outros modos e, outros ideais. A palavra ideal caíu em desuso e parece-nos hoje romanticamente obsoleta. A candidatura de Alegre a secretário-geral do PS parece-nos, também, romanticamente obsoleta, e destinada a um fracasso nas urnas dos Congresso.
Mas, o candidato que ganhar, e Sócrates tem evidentemente todas as hipóteses contra João Soares, terá de medir as suas insuficiências contra as suficiências de Manuel Alegre e do grupo de pessoas que o apoia, e desta vez não será tão fácil destruir a personalidade de Alegre como foi fácil destruir a de Ferro Rodrigues. Por isso também, Manuel Alegre é um candidato difícil de anular: não deve e não teme, não mente, não desiste.
O PS renova-se por dentro, não como se esperava e nem sequer com gente nova mas, ao limpar-se por dentro depois das malfeitorias e atropelos éticos dos últimos anos, os do salve-se quem puder, renova-se ainda. Em política, o que parece às vezes é.
Um cheiro a cravos
Clara Ferreira Alves
Manuel Alegre prepara-se para dar ao PS da rosa cor-de-rosa e de Guterres, encabeçado pelo engenheiro José Sócrates, um cheirinho a cravos vermelhos. Contra os avisos dos amigos da cabeça e do coração que acham que ele não tem cabeça e coração para isto, Manuel Alegre prepara-se para dar alguns trabalhos aos outros candidatos e ensinar-lhes algumas lições. Lições de uma certa lisura de vida, de princípios, de decência e de convicção.
Na verdade, Manuel Alegre não precisava disto para nada neste ponto da sua vida, em que a carreira literária estava sustentada numa produção ficcional e poética que desmentia o sacrifício da literatura à política que norteou a sua vida. Alegre foi sempre um homem de palavras e de uma só palavra, nunca quis o poder nem o quis exercer, e se cometeu erros, esses erros foram pecadilhos ao lado dos vícios alheios.
O homem é inteiro e é de boa cepa, e não tem medo das palavras. Na fase da política portuguesa em que as imagens e os gabinetes de imagem se substituem à antiquíssima palavra de honra, na era dos fabricantes de marionetas, a candidatura de Manuel Alegre tem o mérito de nos fazer recordar que há outras maneiras, outros modos e, outros ideais. A palavra ideal caíu em desuso e parece-nos hoje romanticamente obsoleta. A candidatura de Alegre a secretário-geral do PS parece-nos, também, romanticamente obsoleta, e destinada a um fracasso nas urnas dos Congresso.
Mas, o candidato que ganhar, e Sócrates tem evidentemente todas as hipóteses contra João Soares, terá de medir as suas insuficiências contra as suficiências de Manuel Alegre e do grupo de pessoas que o apoia, e desta vez não será tão fácil destruir a personalidade de Alegre como foi fácil destruir a de Ferro Rodrigues. Por isso também, Manuel Alegre é um candidato difícil de anular: não deve e não teme, não mente, não desiste.
O PS renova-se por dentro, não como se esperava e nem sequer com gente nova mas, ao limpar-se por dentro depois das malfeitorias e atropelos éticos dos últimos anos, os do salve-se quem puder, renova-se ainda. Em política, o que parece às vezes é.
30 de setembro de 2004
Menina Agustina Bessa Luís
A escala de Richter
A ilusão serve-se fria num dia de Verão
Vou começar assim: «Em filosofia, aquilo que devemos evitar é a verbosidade. Mas uma regra munida duma aplicação prática é sempre correcta.» O que quer dizer que uma história bem contada é a filosofia sem mal-entendidos.
Um dia de Verão, Clarissa, uma senhora morena que vestia um fato de sarja branco como se fosse andar de canoa no Sena em 1720, estava na praça de táxis que, como hoje ainda, não tinha demarcações. A caça urbana que é tomar um carro em plena avenida, no Porto, nunca fora encarada como perigosa. Clarissa, porém, teve nessa tarde a inspiração de viver como Trader Horn o simples facto de conseguir um táxi. Não soube como aquilo começou, mas, de repente, no meio duma turba de rapazes cheios da glória de grupo que é não duvidar dos pequenos actos, ela avançou e instalou-se. Dois mocinhos magros e arrebatados entraram também. «A senhora saia daí» - disse um terceiro. Era pequeno, sério, com ar soberbo, e era provavelmente o líder do bairro. Via-se que estava habituado a dominar as situações, e toda a tribo murmurou com respeito quando ele repetiu: «A senhora tem que sair». Clarissa encarnou subitamente Joana d'Arc na fogueira. Não se tratava duma fé, nem de ganhar batalhas, nem de defender o rei de França; tratava-se de administrar um direito, e este era, nesse momento, o seu táxi. Recusou-se terminantemente a sair.
Os dois moços estavam alarmados; não sabiam como livrar-se daquela mulher sonsa e perseverante, e, o que era pior, o amigo deles, seu herói manifesto, também não sabia.
- Chame a policia - disse Clarissa. A turba teve um movimento já agressivo, e, de pé, fora do carro, o rapaz ponderou a imprudência da mulher, decidiu-se: «Vamos todos então...» De qualquer modo merecia a veneração do grupo, havia nele, acima do prazer da autoridade, a firmeza dos que preferem a responsabilidade ao prestígio. Mas os seus jovens acólitos estavam vexados. E quando Clarissa declarou que os levaria a casa e pagava a corrida; a humilhação foi insuportável. Saíram, mais adiante, e via-se que o pacto de admiração se quebrara entre eles e o seu capitão. Clarissa teve uma ligeira pena por intervir nesse laço fantástico que é a amizade dos jovens com o seu tutor, o seu exemplo, o seu vingador.
- Não me vai dizer que mora longe só para me castigar- disse. O rapaz, de alterado que estava, deixou-se vencer por aquela ingénua confiança dela.
- Moro um bocado longe. Mas o que é mau é que tenho de ir a casa e voltar para a cidade. A senhora tem de esperar.
- Eu espero. Mas veja lá se faz tudo isso só para me castigar...
Ele riu-se. Mas uma parte da intenção maldosa e da velhacaria tinha-se evaporado, e ele não sentiu mais satisfação em causar-lhe prejuízo. Até, no meio da sua contrariedade e indignação, uma paz, entre a melancolia e a surpresa, apoderou-se dele. O trânsito era, àquela hora, turbulento e difícil; havia largas demoras, a cidade palpitava, desordenada, como se estivesse a ser evacuada, com os seus trastes, as suas mercadorias, a sua gente angustiada e incapaz de se orientar. Mas ali, no carro onde entrava o ar ardente, com cheiro de pó e óleo queimado, havia uma estranha paz. Até o motorista, fleumático ou não de todo indiferente nessa história que lhe parecia irreal e um pouco ameaçadora, deixou o modo crispado e, como de costume, amaldiçoou a profissão e os seus azares. Não o ouviam. Clarissa percebeu que, no meio da guerra desenvolvida, algo como uma flor sombria desabrochava. Um analfabeto em coisas mudas e precavidas diria que se tratava de amor. Qual amor, numa tarde barulhenta, clara, com mil personagens frente aos semáforos, como fileiras de romanos na praia de Óstia à espera do embarque para Sagunto! Era algo mais distinto e lúcido, um sentimento de que a vil condição da época fora vencida, que não eram mais pessoas de discurso e método, burocratas do orgulho, da ordem, do conflito quotidiano, ele e ela. Chagaram à morada, e o jovem Bonaparte, troncudo, de olhos frágeis, desceu. «Talvez não volte» - pensou Clarissa; e via-se que o motorista era céptico. O bairro, lúgubre na sua dinâmica, arruado, quase novo. Havia um silêncio pusilânime, ocioso; possivelmente tratava-se dum dormitório periférico, não estava ninguém em casa. E quanta solidão mesquinha nessa ambição cumprida da casa-garagem-varanda! Quanta monotonia sem cálculo, apenas isenta de sordidez e, por isso, mais vulgar! Clarissa viu o rapaz que vinha apressado, e tremeu um pouco por ter desafiado e quase corrompido a honestidade dele. Era melhor que não voltasse, que se não repetisse o encontro, a viagem, o pequeno desastre do capricho e da honra. Mas ele não queria desiludir-se das suas próprias forças, e estava ali, fingindo-se verdadeiro, desgostoso e atento aos recursos para a vencer e, se possível, entender
também. O regresso foi mais demorado ainda; tudo eram obstáculos, peões alvoroçados, cães vagabundos, recadeiras, sinaleiros que pareciam carregados de competência e perjúrio ao mesmo tempo. « Espero que tenha gostado da viagem» - disse ele. Clarissa pensou simplesmente que ele não ia encontrar outro táxi, e isso causou-lhe mal-estar. Porquê essa virtude violenta, o gosto de interessar-se num pequeno abismo? Agora fixara o acontecimento, e tudo ficava irremediável para sempre. Ele saiu e bateu a porta rapidamente. Até ao último minuto talvez duvidasse desse fácil desenlace e teve receio dalgum mesquinho resultado, como ter de pagar, ser denunciado a alguém que lhe pedisse contas. Isso daria lógica à aventura inviolável; uma aventura neutra e perversa como nenhuma outra. Mas nada aconteceu, e Clarissa pediu ao motorista: «Agora leve-me a casa». Ninguém aprendera nada; contudo, a hostilidade cedera, e só ficaram duas pessoas tomadas de estranheza, sucumbidas a uma espécie de prelúdio que ia arrastar-se; às vezes, tudo voltava à mente, o coração partilhava desse estado de assombro e risco, e diziam: «Tive que fazer isso...» Porquê, se não era interessante, não era louvável, não era sequer justo'? Provavelmente ele perdera os amigos, a dignidade, a certeza de ser um homem que resolvia as coisas; e Clarissa enganara-se, porque não importa lutar por um direito quando ele é uma esmola feita à vaidade. Assim mesmo, vestida como para fazer canoagem no Sena, ela parecia disposta a voltar à cidade e a recomeçar tudo. O malentendido, até ao infinito. Mas eram horas de jantar, e o cão de guarda fungava e ladrava esperando que ela abrisse o portão. Não o quis desiludir, e entrou.
(in Jornal de Letras n.º 26, de 16 de Fevereiro de 1982)
A ilusão serve-se fria num dia de Verão
Vou começar assim: «Em filosofia, aquilo que devemos evitar é a verbosidade. Mas uma regra munida duma aplicação prática é sempre correcta.» O que quer dizer que uma história bem contada é a filosofia sem mal-entendidos.
Um dia de Verão, Clarissa, uma senhora morena que vestia um fato de sarja branco como se fosse andar de canoa no Sena em 1720, estava na praça de táxis que, como hoje ainda, não tinha demarcações. A caça urbana que é tomar um carro em plena avenida, no Porto, nunca fora encarada como perigosa. Clarissa, porém, teve nessa tarde a inspiração de viver como Trader Horn o simples facto de conseguir um táxi. Não soube como aquilo começou, mas, de repente, no meio duma turba de rapazes cheios da glória de grupo que é não duvidar dos pequenos actos, ela avançou e instalou-se. Dois mocinhos magros e arrebatados entraram também. «A senhora saia daí» - disse um terceiro. Era pequeno, sério, com ar soberbo, e era provavelmente o líder do bairro. Via-se que estava habituado a dominar as situações, e toda a tribo murmurou com respeito quando ele repetiu: «A senhora tem que sair». Clarissa encarnou subitamente Joana d'Arc na fogueira. Não se tratava duma fé, nem de ganhar batalhas, nem de defender o rei de França; tratava-se de administrar um direito, e este era, nesse momento, o seu táxi. Recusou-se terminantemente a sair.
Os dois moços estavam alarmados; não sabiam como livrar-se daquela mulher sonsa e perseverante, e, o que era pior, o amigo deles, seu herói manifesto, também não sabia.
- Chame a policia - disse Clarissa. A turba teve um movimento já agressivo, e, de pé, fora do carro, o rapaz ponderou a imprudência da mulher, decidiu-se: «Vamos todos então...» De qualquer modo merecia a veneração do grupo, havia nele, acima do prazer da autoridade, a firmeza dos que preferem a responsabilidade ao prestígio. Mas os seus jovens acólitos estavam vexados. E quando Clarissa declarou que os levaria a casa e pagava a corrida; a humilhação foi insuportável. Saíram, mais adiante, e via-se que o pacto de admiração se quebrara entre eles e o seu capitão. Clarissa teve uma ligeira pena por intervir nesse laço fantástico que é a amizade dos jovens com o seu tutor, o seu exemplo, o seu vingador.
- Não me vai dizer que mora longe só para me castigar- disse. O rapaz, de alterado que estava, deixou-se vencer por aquela ingénua confiança dela.
- Moro um bocado longe. Mas o que é mau é que tenho de ir a casa e voltar para a cidade. A senhora tem de esperar.
- Eu espero. Mas veja lá se faz tudo isso só para me castigar...
Ele riu-se. Mas uma parte da intenção maldosa e da velhacaria tinha-se evaporado, e ele não sentiu mais satisfação em causar-lhe prejuízo. Até, no meio da sua contrariedade e indignação, uma paz, entre a melancolia e a surpresa, apoderou-se dele. O trânsito era, àquela hora, turbulento e difícil; havia largas demoras, a cidade palpitava, desordenada, como se estivesse a ser evacuada, com os seus trastes, as suas mercadorias, a sua gente angustiada e incapaz de se orientar. Mas ali, no carro onde entrava o ar ardente, com cheiro de pó e óleo queimado, havia uma estranha paz. Até o motorista, fleumático ou não de todo indiferente nessa história que lhe parecia irreal e um pouco ameaçadora, deixou o modo crispado e, como de costume, amaldiçoou a profissão e os seus azares. Não o ouviam. Clarissa percebeu que, no meio da guerra desenvolvida, algo como uma flor sombria desabrochava. Um analfabeto em coisas mudas e precavidas diria que se tratava de amor. Qual amor, numa tarde barulhenta, clara, com mil personagens frente aos semáforos, como fileiras de romanos na praia de Óstia à espera do embarque para Sagunto! Era algo mais distinto e lúcido, um sentimento de que a vil condição da época fora vencida, que não eram mais pessoas de discurso e método, burocratas do orgulho, da ordem, do conflito quotidiano, ele e ela. Chagaram à morada, e o jovem Bonaparte, troncudo, de olhos frágeis, desceu. «Talvez não volte» - pensou Clarissa; e via-se que o motorista era céptico. O bairro, lúgubre na sua dinâmica, arruado, quase novo. Havia um silêncio pusilânime, ocioso; possivelmente tratava-se dum dormitório periférico, não estava ninguém em casa. E quanta solidão mesquinha nessa ambição cumprida da casa-garagem-varanda! Quanta monotonia sem cálculo, apenas isenta de sordidez e, por isso, mais vulgar! Clarissa viu o rapaz que vinha apressado, e tremeu um pouco por ter desafiado e quase corrompido a honestidade dele. Era melhor que não voltasse, que se não repetisse o encontro, a viagem, o pequeno desastre do capricho e da honra. Mas ele não queria desiludir-se das suas próprias forças, e estava ali, fingindo-se verdadeiro, desgostoso e atento aos recursos para a vencer e, se possível, entender
também. O regresso foi mais demorado ainda; tudo eram obstáculos, peões alvoroçados, cães vagabundos, recadeiras, sinaleiros que pareciam carregados de competência e perjúrio ao mesmo tempo. « Espero que tenha gostado da viagem» - disse ele. Clarissa pensou simplesmente que ele não ia encontrar outro táxi, e isso causou-lhe mal-estar. Porquê essa virtude violenta, o gosto de interessar-se num pequeno abismo? Agora fixara o acontecimento, e tudo ficava irremediável para sempre. Ele saiu e bateu a porta rapidamente. Até ao último minuto talvez duvidasse desse fácil desenlace e teve receio dalgum mesquinho resultado, como ter de pagar, ser denunciado a alguém que lhe pedisse contas. Isso daria lógica à aventura inviolável; uma aventura neutra e perversa como nenhuma outra. Mas nada aconteceu, e Clarissa pediu ao motorista: «Agora leve-me a casa». Ninguém aprendera nada; contudo, a hostilidade cedera, e só ficaram duas pessoas tomadas de estranheza, sucumbidas a uma espécie de prelúdio que ia arrastar-se; às vezes, tudo voltava à mente, o coração partilhava desse estado de assombro e risco, e diziam: «Tive que fazer isso...» Porquê, se não era interessante, não era louvável, não era sequer justo'? Provavelmente ele perdera os amigos, a dignidade, a certeza de ser um homem que resolvia as coisas; e Clarissa enganara-se, porque não importa lutar por um direito quando ele é uma esmola feita à vaidade. Assim mesmo, vestida como para fazer canoagem no Sena, ela parecia disposta a voltar à cidade e a recomeçar tudo. O malentendido, até ao infinito. Mas eram horas de jantar, e o cão de guarda fungava e ladrava esperando que ela abrisse o portão. Não o quis desiludir, e entrou.
(in Jornal de Letras n.º 26, de 16 de Fevereiro de 1982)
29 de setembro de 2004
EDUARDO PRADO COELHO As Mãos e Os Frutos
Quarta-feira, 29 de Setembro de 2004
Vi com atenção Maria do Carmo Seabra na televisão. Que se passará na cabeça desta mulher? - pergunto-me. A situação é suficientemente constrangedora para suscitar a simpatia de qualquer cidadão comum. Contudo, Maria do Carmo Seabra não ajuda, dado que a sua presença está longe de ser simpática. Ela conseguiu pegar num processo em que de facto não tem culpas directas e somar tantas ingenuidades e declarações infelizes que acaba por parecer a principal culpada.
Deve haver algum mistério em tudo isto, mas a verdade é que ainda não percebi por que motivo o processo se deve desenrolar assim. Entendo que haja professores que queiram mudar, que uns se reformem e outros vão viver para a Patagónia, mas não entendo que seja mesmo necessário que um aluno mude de professores todos os anos. Considero, pela simples intuição, que aquilo que é essencial em educação (não apenas a transmissão de um saber precário, mas a criação de uma relação transferencial através do saber transmitido) fica claramente posto em causa. Também não vejo vantagens na mudança constante de um professor para novos ambientes. E dou um exemplo.
Quando comecei a exercer as minhas funções de conselheiro cultural em Paris, muita gente, sobretudo diplomatas de carreira, vinha dizer com a mesma volúpia sádica com que em tempos me perguntavam se já tinha ido à tropa: "Já sabes, são três aninhos." No primeiro ano, realizei a minha instalação e esforcei-me por perceber os problemas. Como sempre, entre a realidade efectiva e as minhas ideias preconcebidas havia uma imensa desproporção. No segundo ano, estabeleci os contactos, organizei projectos, encontrei métodos de actuação. Só no terceiro ano comecei a trabalhar efectivamente. Seria nessa altura, quando começava a perceber alguma coisa do que estava a fazer, que devia vir-me embora?
Com os professores, deve acontecer algo semelhante. Mas a ministra tinha um concurso em andamento e acreditou piamente no que lhe foram dizendo. Talvez todos tenham acreditado, excepto os computadores. A ministra tem uma presença política desastrosa. Mistura um ar de tédio e sobranceria com uma atitude que parece dizer que espera ardentemente que lhe retirem aquele frete. Admito que não durma, que tenha pesadelos, que perceba o ridículo de uma lista que ela dizia estar certa de ser boa durar apenas um fogacho nocturno de 40 minutos, mas tem sempre um ar de que tudo aquilo não tem nada a ver com ela. Podemos estar certos de que à primeira oportunidade salta do barco. Tendo começado tão mal, jamais se poderá afeiçoar à tarefa.
Agora vão resolver tudo manualmente. Vinte e duas equipas ocupam-se do que se passa no país, embora mesmo um leigo entenda que o problema está sempre na coordenação das consequências a nível nacional. Suponho que no Ministério da Educação andam todos cheios de olheiras, com um creme anti-stress, desde a ministra até aos motoristas. "Que está a fazer o senhor Afonso, que deixou o carro na garagem e nunca mais lá foi?" "Anda a colocar professores." Não sei quais serão os frutos de tantas mãos. Nesse dia. a ministra e a drª. Orvalho estarão num hotel SPA a recuperar deste inferno.
Vi com atenção Maria do Carmo Seabra na televisão. Que se passará na cabeça desta mulher? - pergunto-me. A situação é suficientemente constrangedora para suscitar a simpatia de qualquer cidadão comum. Contudo, Maria do Carmo Seabra não ajuda, dado que a sua presença está longe de ser simpática. Ela conseguiu pegar num processo em que de facto não tem culpas directas e somar tantas ingenuidades e declarações infelizes que acaba por parecer a principal culpada.
Deve haver algum mistério em tudo isto, mas a verdade é que ainda não percebi por que motivo o processo se deve desenrolar assim. Entendo que haja professores que queiram mudar, que uns se reformem e outros vão viver para a Patagónia, mas não entendo que seja mesmo necessário que um aluno mude de professores todos os anos. Considero, pela simples intuição, que aquilo que é essencial em educação (não apenas a transmissão de um saber precário, mas a criação de uma relação transferencial através do saber transmitido) fica claramente posto em causa. Também não vejo vantagens na mudança constante de um professor para novos ambientes. E dou um exemplo.
Quando comecei a exercer as minhas funções de conselheiro cultural em Paris, muita gente, sobretudo diplomatas de carreira, vinha dizer com a mesma volúpia sádica com que em tempos me perguntavam se já tinha ido à tropa: "Já sabes, são três aninhos." No primeiro ano, realizei a minha instalação e esforcei-me por perceber os problemas. Como sempre, entre a realidade efectiva e as minhas ideias preconcebidas havia uma imensa desproporção. No segundo ano, estabeleci os contactos, organizei projectos, encontrei métodos de actuação. Só no terceiro ano comecei a trabalhar efectivamente. Seria nessa altura, quando começava a perceber alguma coisa do que estava a fazer, que devia vir-me embora?
Com os professores, deve acontecer algo semelhante. Mas a ministra tinha um concurso em andamento e acreditou piamente no que lhe foram dizendo. Talvez todos tenham acreditado, excepto os computadores. A ministra tem uma presença política desastrosa. Mistura um ar de tédio e sobranceria com uma atitude que parece dizer que espera ardentemente que lhe retirem aquele frete. Admito que não durma, que tenha pesadelos, que perceba o ridículo de uma lista que ela dizia estar certa de ser boa durar apenas um fogacho nocturno de 40 minutos, mas tem sempre um ar de que tudo aquilo não tem nada a ver com ela. Podemos estar certos de que à primeira oportunidade salta do barco. Tendo começado tão mal, jamais se poderá afeiçoar à tarefa.
Agora vão resolver tudo manualmente. Vinte e duas equipas ocupam-se do que se passa no país, embora mesmo um leigo entenda que o problema está sempre na coordenação das consequências a nível nacional. Suponho que no Ministério da Educação andam todos cheios de olheiras, com um creme anti-stress, desde a ministra até aos motoristas. "Que está a fazer o senhor Afonso, que deixou o carro na garagem e nunca mais lá foi?" "Anda a colocar professores." Não sei quais serão os frutos de tantas mãos. Nesse dia. a ministra e a drª. Orvalho estarão num hotel SPA a recuperar deste inferno.
26 de setembro de 2004
Outrora agoras
| Autobiografia de Mário de Carvalho
JL 15 Set. 2004 Não contei a ninguém que o meu primeiro livro estava para sair. Salvo o grupo dos Quatro Elementos Editores, a Lena, muito poucos sabiam que eu ia publicar. Amigos mais chegados nem suspeitavam. Queria que o livro aparecesse fora dos meus circuitos habituais, em território desconhecido, para ter a certeza de que não interferiam favorecimentos. O Ernesto José Rodrigues dera o manuscrito a ler ao João de Melo, na altura consultor da Vega. Eu desconhecia tanto o escritor, como a editora. Fui contactado, resultou. Coisa rara e preciosa, naqueles apertados tempos. Em certa tarde de Julho de 1981, trouxeram-me da tipografia os primeiros exemplares de Contos da Sétima Esfera . Entretanto, a obra dactilografada já havia naufragado em concurso de inéditos da Associação Portuguesa de Escritores. Falira também uma pequena editora que tinha acolhido o manuscrito. Enfim, sobrevivemos à primeira linha de torpedos. O cheiro vivaz do perfume, a rescender a coisa nova e benigna nunca mais foi tão penetrante (romanescamente, eu poderia mesmo dizer «inebriante») como nesse dia. Seguiu-se o sentimento de estranheza, um tanto desconfortável, ao confirmar, nas livrarias, que aquela indiscreta fotografia na contracapa era mesmo a minha. Começava a metamorfose em escritor. Chegava o mundo dos «lançamentos» dos «confrades» (e «consorores») das recensões, dos jornalistas, dos artigos, das viagens, das universidades, dos colóquios, das traduções, das escolas, associações e institutos, das solicitações, entrevistas, fotógrafos, encomendas, crónicas, exibições e habilidades várias, sempre longe e fora de mão. Pelo meio, ingenuidades, espantos, desacertos e distracções. Júbilos. Mal-entendidos, equívocos. Bloqueios e procrastinações. Amizades giras. Furores passageiros. Sofridas vigarices fininhas. Silêncios distraídos. Omissões velhacas. Disparates. Fui-me deixando levar, entre a curiosidade e o susto, o gáudio e a depressão. Tenho perdido algum sono, acrescentado neuras e enfados, aturado traições e rasquices. Exaltações, poucas. Persisto na fraqueza de dar confiança a quem não devo. Nos primórdios levava tudo muito a sério, zangava-me, bramia, interpelava e não ganhava nada com isso. Agora, vamos andando... Não fora aquele passo de há quase vinte e cinco anos, o apoio de Fernando Guerreiro, da Lena e de outros próximos, talvez a Sétima Esfera jazesse, estéril, entre papéis velhos, na gaveta dos tentames esquecidos. Talvez eu vencesse o fastio pela advocacia e ainda esbravejasse hoje pelos tribunais a invocar a «excepção do inadimplemento contratual». *** Sou iniludivelmente um homem do Sul. Em rigor, vim nascer a Lisboa, mas essa circunstância conta menos que o feixe de memórias e afeições que me prende ao Alentejo. Os grandes espaços, a paisagem, a maneira de estar, de falar, de cantar, ficaram-me gravados desde a infância . A minha avó tinha as mãos enrugadas e quentes, era bom adormecer ao colo dela, junto ao lume, naquela enorme lareira, onde a família se dispunha em cadeirinhas de palha, todos conversando, em tons de negro e vermelho. Os gatos, espojados, tisnavam o pêlo de tanto arrimo às brasas. Saltavam faúlhas. De vez em quando, estalava uma bolota a secar ao fumo. Eu ia dormitando, naquela modorra amiga, entre vagos ressoos de voz que ora pareciam altear-se, ora sumir-se. Lá fora, pesavam tempos de humilhação e de vergonha. Nas praças de jorna avaliavam-se músculos e dentes, como a animais. Eram proibidos ajuntamentos. Era proibido cantar. Trabalhava-se de Sol a Sol. Passava-se muita fome. Havia herdades enormes em que dispunha uma gentalha torpe e salafrária, amigada com a pide e com o fascismo. A maior parte das pessoas não tinham nada de seu, a não ser a doença e a miséria. A Guarda Republicana desses tempos «chamava ao posto» e espancava a pobre gente, mesmo para dirimir casos cíveis. Celerada época e não há razoar revisionista que a desculpe ou branqueie. Vivemos por pouco tempo em Setúbal. Depois, Lisboa. Íamos a Alvalade pelas Festas e pelo Verão. Nos primeiros tempos, não havia ponte. Calculava-se a olho o caudal do rio (ali chamam ao Sado «Ribeira») e vadeava-se, arriscando o motor. Mais duma vez vieram as parelhas tirar-nos da água. Na Vila, chusmas de moços corriam atrás do carro. Um automóvel era uma festa. Depois chegávamos ao Monte da Vinha, extensões a perder de vista, pelo menos para a minha estatura, correrias, traquinices e a grande complacência da família. Tudo tinha outras cores, outros sabores, outros cheiros, outro encanto. E eu era curioso... Fazia as perguntas certas. |
Life is like a river
Life is like a river
Let it carry you,
not knowing where
it will take you,
and you will journey
to amazing places;
Or, stay on the shore,
knowing for sure
where you will be,
and you will go nowhere
Let it carry you,
not knowing where
it will take you,
and you will journey
to amazing places;
Or, stay on the shore,
knowing for sure
where you will be,
and you will go nowhere
Biografias
Margarida de Windsor, de Luisa Paiva Boléo
Filha de rei e irmã de rainha, optaria por viver entre artistas e boémios. Com múltiplas e contrariadas paixões. Sem esquecer os deveres da corte. Com a elegância de uma princesa à moda antiga.
Margarida Rosa de Windsor foi uma princesa diferente. Elegante, moderna, viajada, gostava de música, bailado e cinema. Teve um refúgio amoroso numa ilha das Caraíbas e foi a princesa mais cobiçada pelos fotógrafos, nas décadas de 60 e 70, tal como o seria, mais tarde, Diana de Gales. Os seus amores passaram. Apenas o amor dos dois filhos, David e Sara, e depois a alegria dos netos, lhe deram a serenidade de partir deste mundo com a certeza de que a sua vida tinha valido a pena.
Margarida foi uma criança feliz que o pai, então apenas príncipe, acarinhou e protegeu. Brincou com bonecas com casinhas feitas por Hoopers, então responsável pelo design da Rolls Royce. A sua infância foi passada nos verdejantes campos da Escócia, onde nasceu, no castelo de Glamis, a 21 de Agosto de 1930. Aos seis anos, o pai, Jorge VI, subiu ao trono. E a sua vida modificou--se totalmente. A irmã mais velha passou a ser educada para rai-nha e Margarida teve uma adolescência refugiada nos livros, na música e na dança.
Aos 14 anos, passeando pelo palácio, reparou como era bonito e elegante um oficial da RAF, então funcionário da corte do seu pai, de nome Peter Townsend. Mais tarde, Margarida contaria a um dos seus biógrafos como ficara completamente fascinada por Peter logo da primeira vez que o vira. Mas a menina ainda não sabia bem definir os seus sentimentos.
Aos 21 anos, com um vestido Dior, Margarida foi imortalizada por Cecil Beaton. Depois da sessão fotográfica, Beaton comentou que os deslumbrantes "olhos de gata" da princesa eram, ao mesmo tempo, felinos e doces.
Em 1944, a Segunda Guerra Mundial ainda decorria. As conversas entre Peter e Margarida seriam informais e de circunstância, até porque ele era um homem casado e pai de dois filhos. Em 1947, os monarcas, Jorge VI e Elizabeth (a Rainha-mãe), acompanhados das filhas, visitaram a África do Sul. E Peter Townsend ia na comitiva. Será que foi ali que despertou o amor proibido entre os dois?
Em 1952, depois da morte do pai e da subida ao trono da irmã, Isabel II, Margarida, deprimida e sozinha, terá pensado como poderia ser feliz com aquele homem, que ela sabia que também a amava.
Na coroação da rainha Isabel II, em 1953, lá estavam Peter e Margarida, bem perto um do outro. No final da cerimónia, houve um momento em que Margarida, imperceptivelmente, retirou da lapela do fato de Peter uma pequena poeira. Os fotógrafos estavam lá... viram, registaram e imediatamente perceberam que aquele pequeno gesto fazia adivinhar algo de mais íntimo entre os dois. Como esse gesto nos parece hoje incrivelmente ingénuo, comparado com as fotografias comprometedoras das noras da rainha Isabel II, nos anos 90!
A notícia saltou para as primeiras páginas dos jornais. Ficou a saber-se que, aos 23 anos, a irmã da rainha amava Peter Townsend, muito mais velho e já divorciado. A rainha e a mãe ficaram alarmadas e tiveram de tomar uma atitude rápida. Segundo uma lei antiga, os irmãos do monarca, até aos 25 anos, deviam pedir autorização a Sua Majestade para poderem contrair matrimónio. Era o caso de Margarida. Tornou-se imperioso afastá-la de Peter. Assim, Margarida foi viajar com a mãe para a Rodésia (Zimbabwe), enquanto o Governo enviava rapidamente Peter Townsend para Bruxelas, numa missão na embaixada da Grã-Bretanha naquele país.
Peter Townsend, mesmo divorciado, era um impedimento ao casamento, porque para a Igreja Anglicana e para a família real britânica, nos anos 50, uma princesa não podia, de forma alguma, casar com um divorciado. E ainda estava na lembrança de todos a
abdicação do irmão do rei, em 1936: Eduardo VIII, entre o trono e uma americana divorciada, Wallis Simpson, optara pela segunda.
Se Margarida teimasse em casar, faria um casamento civil e deixaria não só de ser Alteza Real, como não teria mais mordomias, nem castelos para viver nem as regalias de uma princesa de nascimento. A pressão da família, do Governo e da Igreja Anglicana era grande. E não era fácil, aos 25 anos, deixar de viver uma vida de luxo para ser apenas a senhora Townsend. Margarida engoliu as lágrimas e, em Outubro de 1955, disse adeus ao seu primeiro amor. Este foi apenas o fim do primeiro capítulo da sua agitada vida amorosa.
Não tinha sido apenas Peter a reparar como Margarida se transformara numa mulher sensual, alegre e muito elegante. Foi precisamente depois desta enorme desilusão amorosa que Margarida começou a sentir-se mais desejada e requestada. Do seu ciclo de amigos, que ficou conhecido por Margaret Set, constavam o milionário escocês conde de Dalkeith, o marquês de Blandford, o duque de Marlborough, Lord Porchester e tantos outros, como Colin Tennant, seu amigo durante toda a vida, que lhe falaria da beleza das Caraíbas, onde Margarida teria mais tarde o seu refúgio, na ilha de Mustique, com o nome Les Jolies Eaux.
Apontava-se então como seu possível noivo o rico Billy Wallace, que foi passar férias às Bahamas, com amigos, gozando os seus "últimos dias de liberdade". Mas, no regresso, teve a surpresa de a princesa Margarida dar o caso por encerrado. Os presumíveis "noivos" de Margarida surgiam, nos jornais da noite para o dia, como cogumelos. Os monarcas e pais da volúvel princesa sempre esperaram que a filha casasse cedo com um aristocrata inglês, mas Margarida não parecia muito interessada em casar, preferindo o convívio de artistas do mundo da música e do cinema.
Das muitas viagens que fez, Margarida visitou Portugal, em 1959, para estar presente na Feira das Indústrias Britânicas. Nesse ano, era já conhecido o seu novo namorado. O casamento, no ano seguinte, teve grande cobertura no nosso país, na revista Flama, que lhe chamou "o idílio do ano". O Século Ilustrado foi mais longe e considerou o enlace como "o casamento do século". Mal sabiam eles que o mais mediático casamento seria nos anos 80.
Um dia, a dama de companhia da princesa Margarida, Elizabeth Cavendish, apresentou-lhe o fotógrafo de moda Antony Armstrong-Jones, também de pequena estatura, como Margarida, e muito divertido. As noitadas e parties sucederam--se. Antony era já um fotógrafo famoso, conhecia o mundo da moda e do cinema e tinha uma vida de boémio que fascinou Margarida. Sabe-se que a primeira reacção da rainha e do seu marido, o duque de Edimburgo, foi negativa. Um fotógrafo na família real britânica?
Porém, desta vez, Margarida não tencionava abdicar dos seus amores. Estava a completar 30 anos e não parecia ter qualquer predilecção pelos príncipes europeus disponíveis de então. Restavam, é certo, muitos aristocratas da velha Albion, que também não a impressionavam. Quando o seu antigo namorado, Peter, lhe telefonou da Bélgica a dizer que ia casar com uma belga, Margarida apressou a irmã a anunciar o seu casamento com o fotógrafo Armstrong-Jones. Três meses depois, em Maio de 1960, numa cerimónia na Abadia de Westminster, a princesa foi conduzida ao altar pelo cunhado, que também foi seu padrinho. Sabe-se que Filipe de Edimburgo não simpatizou particularmente com o noivo de Margarida, mas acabou por aceitá-lo. A rainha só queria a felicidade da irmã e concedeu a Antony Armstrong-Jones o título de Conde de Snowdon. A lua-de-mel foram seis semanas no iate real Britannia. Estiveram na Índia e nas Caraíbas, entre outros lugares de sonho.
Uma nota discordante neste casamento: as casas reais europeias primaram pela ausência. Uma princesa, filha de rei e irmã de rainha, casar com um fotógrafo! Curioso é ainda hoje Lord Snowdon, também visconde de Linley, título concedido pela rai-nha na véspera do nascimento do primeiro filho, ser aos 72 anos um fotógrafo famoso e continuar a receber convites da família real para quase todos os eventos da monarquia. Não apenas por ser pai dos sobrinhos da rainha e os seus filhos serem netos da Rainha-mãe, mas também porque, embora lhe tenham ao longo dos anos oferecido somas irrecusáveis para contar a sua vida privada com a princesa Margarida, jamais a sua boca se ter aberto. Uma das pessoas que tentou entrevistá-lo e que também recebeu uma resposta negativa foi Jacqueline Kennedy Onassis. Depois de enviuvar pela segunda vez, passou a colaborar numa revista americana de grande tiragem e fez tudo para entrevistar o ex-marido de Margarida, que recusou.
Nos primeiros anos, tudo correu bem no casamento de Margarida e Antony. Mas, irreverente e volúvel, Margarida Rosa de Windsor, misto de star e lady, não aguentou muitos anos ao lado de Antony.
Nas décadas de 60 e 70, Margarida foi a mais fotografada princesa do universo. Ela foi, juntamente com os Beatles, James Bond (Sean Connery), o Mini (um automóvel), a pílula contraceptiva, a mini-saia, os vestidos Dior, a lambreta e Julie Christie, um dos ícones desses anos "loucos" para uma juventude irreverente e com muita liberdade.
Margarida gozava a vida. Não perdia um espectáculo de bailado. Era amiga pessoal dos bailarinos Margot Fonteyn (1919- 1991) e Rudolfo Nureyev (1938-1993), que foram durante anos o par romântico do ballet britânico e talvez mundial. Snowdon fez fotos maravilhosas destes bailarinos, bem como da família real, que demonstram o seu enorme talento.
Margarida não se podia furtar às suas obrigações como princesa, representando a rainha em várias viagens. Nos EUA, não houve celebridade do cinema que não se deixasse fotografar com a princesa do glamour - nomes como Elizabeth Taylor, Frank Sinatra e Louis Armstrong, que lhe dedicou uma música. Os viscondes de Linley estiveram várias vezes em Itália e na Grécia, onde o armador Niarkos os convidava para a sua ilha privativa. Enfim, Margarida e Antony foram as vedetas do momento.
E como tudo tem um princípio e um fim, Margarida e o marido, após seis anos de casamento e dois filhos, começaram a mostrar algum desentendimento. Para isso terá contribuído a paixão arrebatadora da princesa pelo pianista Robin Douglas-
-Home, que conheceu num clube nocturno, em 1966. Terá sido uma verdadeira paixão. Mas Margarida, talvez pressionada, pôs um ponto final no romance. Afinal, era uma senhora casada com filhos. Para Robin, foi mais dramático, porque não terá aceite bem a separação. E ano e meio depois, suicidou-se.
Informada a rainha de que a irmã e o cunhado faziam vidas separadas, surgiu no horizonte o tão temido divórcio. O casal continuou a viver na sua residência oficial, Kensington Palace, para manter as aparências, enquanto os filhos foram pequenos. Separaram--se em 1976 e, dois anos depois, foi decretado o divórcio. O primeiro divórcio na família real, desde o de Henrique VIII, em 1529, dispensando o literal rolar de cabeças. E em 1973, ano do casamento da princesa Ana, filha da rainha, falou-se muito do novo amor de Margarida, Roddy Lleweellyn, um jovem arquitecto paisagista com menos 17 anos que ela. Margarida deitou as conveniências para trás das costas e voou para o seu "ninho de amor" na ilha de Mustique, nas Caraíbas, que viria a tornar-se local de festas do jet-set de então. Por lá passaram David Bowie, Raquel Welch, Bryan Ferry, Mick e Bianca Jagger, Elton John, Tommy Hilfiger e muitos outros amigos da princesa irreverente, que exigia que ninguém se fosse deitar antes dela, prolongando as festas até de manhã.
Estas fugas deram origem a pala-vras duras na imprensa. Houve mesmo um jornal que tratou Margarida como "uma princesa decadente e inútil". Também o Governo e o primeiro-ministro chegaram a pressionar a rainha para riscar o nome da irmã da Civil List, onde constam os nomes dos membros da família real, parentes muito próximos e súbditos que prestaram relevantes serviços à monarquia, com residência e despesas pagas pela rainha.
Margarida separou-se de Roddy quando este casou com uma desenhadora de moda. Apesar da separação, permaneceram amigos até à morte da princesa, no passado dia 9 de Fevereiro.
Para Margarida Rosa de Windsor, o seu maior orgulho foram os filhos, David e Sara, ambos com profissões ligadas às artes. São casados e têm filhos. Margarida teria o quarto neto nesta Primavera. Foram os filhos que estiveram junto da mãe nos seus derradeiros minutos.
Com o desaparecimento de Diana de Gales e a morte recente de Margarida, a coroa britânica parece ir perdendo, pouco a pouco, as suas pedras mais cintilantes...
Os ídolos que não escaparam à admiração da Princesa
Filha de rei e irmã de rainha, optaria por viver entre artistas e boémios. Com múltiplas e contrariadas paixões. Sem esquecer os deveres da corte. Com a elegância de uma princesa à moda antiga.
Margarida Rosa de Windsor foi uma princesa diferente. Elegante, moderna, viajada, gostava de música, bailado e cinema. Teve um refúgio amoroso numa ilha das Caraíbas e foi a princesa mais cobiçada pelos fotógrafos, nas décadas de 60 e 70, tal como o seria, mais tarde, Diana de Gales. Os seus amores passaram. Apenas o amor dos dois filhos, David e Sara, e depois a alegria dos netos, lhe deram a serenidade de partir deste mundo com a certeza de que a sua vida tinha valido a pena.
Margarida foi uma criança feliz que o pai, então apenas príncipe, acarinhou e protegeu. Brincou com bonecas com casinhas feitas por Hoopers, então responsável pelo design da Rolls Royce. A sua infância foi passada nos verdejantes campos da Escócia, onde nasceu, no castelo de Glamis, a 21 de Agosto de 1930. Aos seis anos, o pai, Jorge VI, subiu ao trono. E a sua vida modificou--se totalmente. A irmã mais velha passou a ser educada para rai-nha e Margarida teve uma adolescência refugiada nos livros, na música e na dança.
Aos 14 anos, passeando pelo palácio, reparou como era bonito e elegante um oficial da RAF, então funcionário da corte do seu pai, de nome Peter Townsend. Mais tarde, Margarida contaria a um dos seus biógrafos como ficara completamente fascinada por Peter logo da primeira vez que o vira. Mas a menina ainda não sabia bem definir os seus sentimentos.
Aos 21 anos, com um vestido Dior, Margarida foi imortalizada por Cecil Beaton. Depois da sessão fotográfica, Beaton comentou que os deslumbrantes "olhos de gata" da princesa eram, ao mesmo tempo, felinos e doces.
Em 1944, a Segunda Guerra Mundial ainda decorria. As conversas entre Peter e Margarida seriam informais e de circunstância, até porque ele era um homem casado e pai de dois filhos. Em 1947, os monarcas, Jorge VI e Elizabeth (a Rainha-mãe), acompanhados das filhas, visitaram a África do Sul. E Peter Townsend ia na comitiva. Será que foi ali que despertou o amor proibido entre os dois?
Em 1952, depois da morte do pai e da subida ao trono da irmã, Isabel II, Margarida, deprimida e sozinha, terá pensado como poderia ser feliz com aquele homem, que ela sabia que também a amava.
Na coroação da rainha Isabel II, em 1953, lá estavam Peter e Margarida, bem perto um do outro. No final da cerimónia, houve um momento em que Margarida, imperceptivelmente, retirou da lapela do fato de Peter uma pequena poeira. Os fotógrafos estavam lá... viram, registaram e imediatamente perceberam que aquele pequeno gesto fazia adivinhar algo de mais íntimo entre os dois. Como esse gesto nos parece hoje incrivelmente ingénuo, comparado com as fotografias comprometedoras das noras da rainha Isabel II, nos anos 90!
A notícia saltou para as primeiras páginas dos jornais. Ficou a saber-se que, aos 23 anos, a irmã da rainha amava Peter Townsend, muito mais velho e já divorciado. A rainha e a mãe ficaram alarmadas e tiveram de tomar uma atitude rápida. Segundo uma lei antiga, os irmãos do monarca, até aos 25 anos, deviam pedir autorização a Sua Majestade para poderem contrair matrimónio. Era o caso de Margarida. Tornou-se imperioso afastá-la de Peter. Assim, Margarida foi viajar com a mãe para a Rodésia (Zimbabwe), enquanto o Governo enviava rapidamente Peter Townsend para Bruxelas, numa missão na embaixada da Grã-Bretanha naquele país.
Peter Townsend, mesmo divorciado, era um impedimento ao casamento, porque para a Igreja Anglicana e para a família real britânica, nos anos 50, uma princesa não podia, de forma alguma, casar com um divorciado. E ainda estava na lembrança de todos a
abdicação do irmão do rei, em 1936: Eduardo VIII, entre o trono e uma americana divorciada, Wallis Simpson, optara pela segunda.
Se Margarida teimasse em casar, faria um casamento civil e deixaria não só de ser Alteza Real, como não teria mais mordomias, nem castelos para viver nem as regalias de uma princesa de nascimento. A pressão da família, do Governo e da Igreja Anglicana era grande. E não era fácil, aos 25 anos, deixar de viver uma vida de luxo para ser apenas a senhora Townsend. Margarida engoliu as lágrimas e, em Outubro de 1955, disse adeus ao seu primeiro amor. Este foi apenas o fim do primeiro capítulo da sua agitada vida amorosa.
Não tinha sido apenas Peter a reparar como Margarida se transformara numa mulher sensual, alegre e muito elegante. Foi precisamente depois desta enorme desilusão amorosa que Margarida começou a sentir-se mais desejada e requestada. Do seu ciclo de amigos, que ficou conhecido por Margaret Set, constavam o milionário escocês conde de Dalkeith, o marquês de Blandford, o duque de Marlborough, Lord Porchester e tantos outros, como Colin Tennant, seu amigo durante toda a vida, que lhe falaria da beleza das Caraíbas, onde Margarida teria mais tarde o seu refúgio, na ilha de Mustique, com o nome Les Jolies Eaux.
Apontava-se então como seu possível noivo o rico Billy Wallace, que foi passar férias às Bahamas, com amigos, gozando os seus "últimos dias de liberdade". Mas, no regresso, teve a surpresa de a princesa Margarida dar o caso por encerrado. Os presumíveis "noivos" de Margarida surgiam, nos jornais da noite para o dia, como cogumelos. Os monarcas e pais da volúvel princesa sempre esperaram que a filha casasse cedo com um aristocrata inglês, mas Margarida não parecia muito interessada em casar, preferindo o convívio de artistas do mundo da música e do cinema.
Das muitas viagens que fez, Margarida visitou Portugal, em 1959, para estar presente na Feira das Indústrias Britânicas. Nesse ano, era já conhecido o seu novo namorado. O casamento, no ano seguinte, teve grande cobertura no nosso país, na revista Flama, que lhe chamou "o idílio do ano". O Século Ilustrado foi mais longe e considerou o enlace como "o casamento do século". Mal sabiam eles que o mais mediático casamento seria nos anos 80.
Um dia, a dama de companhia da princesa Margarida, Elizabeth Cavendish, apresentou-lhe o fotógrafo de moda Antony Armstrong-Jones, também de pequena estatura, como Margarida, e muito divertido. As noitadas e parties sucederam--se. Antony era já um fotógrafo famoso, conhecia o mundo da moda e do cinema e tinha uma vida de boémio que fascinou Margarida. Sabe-se que a primeira reacção da rainha e do seu marido, o duque de Edimburgo, foi negativa. Um fotógrafo na família real britânica?
Porém, desta vez, Margarida não tencionava abdicar dos seus amores. Estava a completar 30 anos e não parecia ter qualquer predilecção pelos príncipes europeus disponíveis de então. Restavam, é certo, muitos aristocratas da velha Albion, que também não a impressionavam. Quando o seu antigo namorado, Peter, lhe telefonou da Bélgica a dizer que ia casar com uma belga, Margarida apressou a irmã a anunciar o seu casamento com o fotógrafo Armstrong-Jones. Três meses depois, em Maio de 1960, numa cerimónia na Abadia de Westminster, a princesa foi conduzida ao altar pelo cunhado, que também foi seu padrinho. Sabe-se que Filipe de Edimburgo não simpatizou particularmente com o noivo de Margarida, mas acabou por aceitá-lo. A rainha só queria a felicidade da irmã e concedeu a Antony Armstrong-Jones o título de Conde de Snowdon. A lua-de-mel foram seis semanas no iate real Britannia. Estiveram na Índia e nas Caraíbas, entre outros lugares de sonho.
Uma nota discordante neste casamento: as casas reais europeias primaram pela ausência. Uma princesa, filha de rei e irmã de rainha, casar com um fotógrafo! Curioso é ainda hoje Lord Snowdon, também visconde de Linley, título concedido pela rai-nha na véspera do nascimento do primeiro filho, ser aos 72 anos um fotógrafo famoso e continuar a receber convites da família real para quase todos os eventos da monarquia. Não apenas por ser pai dos sobrinhos da rainha e os seus filhos serem netos da Rainha-mãe, mas também porque, embora lhe tenham ao longo dos anos oferecido somas irrecusáveis para contar a sua vida privada com a princesa Margarida, jamais a sua boca se ter aberto. Uma das pessoas que tentou entrevistá-lo e que também recebeu uma resposta negativa foi Jacqueline Kennedy Onassis. Depois de enviuvar pela segunda vez, passou a colaborar numa revista americana de grande tiragem e fez tudo para entrevistar o ex-marido de Margarida, que recusou.
Nos primeiros anos, tudo correu bem no casamento de Margarida e Antony. Mas, irreverente e volúvel, Margarida Rosa de Windsor, misto de star e lady, não aguentou muitos anos ao lado de Antony.
Nas décadas de 60 e 70, Margarida foi a mais fotografada princesa do universo. Ela foi, juntamente com os Beatles, James Bond (Sean Connery), o Mini (um automóvel), a pílula contraceptiva, a mini-saia, os vestidos Dior, a lambreta e Julie Christie, um dos ícones desses anos "loucos" para uma juventude irreverente e com muita liberdade.
Margarida gozava a vida. Não perdia um espectáculo de bailado. Era amiga pessoal dos bailarinos Margot Fonteyn (1919- 1991) e Rudolfo Nureyev (1938-1993), que foram durante anos o par romântico do ballet britânico e talvez mundial. Snowdon fez fotos maravilhosas destes bailarinos, bem como da família real, que demonstram o seu enorme talento.
Margarida não se podia furtar às suas obrigações como princesa, representando a rainha em várias viagens. Nos EUA, não houve celebridade do cinema que não se deixasse fotografar com a princesa do glamour - nomes como Elizabeth Taylor, Frank Sinatra e Louis Armstrong, que lhe dedicou uma música. Os viscondes de Linley estiveram várias vezes em Itália e na Grécia, onde o armador Niarkos os convidava para a sua ilha privativa. Enfim, Margarida e Antony foram as vedetas do momento.
E como tudo tem um princípio e um fim, Margarida e o marido, após seis anos de casamento e dois filhos, começaram a mostrar algum desentendimento. Para isso terá contribuído a paixão arrebatadora da princesa pelo pianista Robin Douglas-
-Home, que conheceu num clube nocturno, em 1966. Terá sido uma verdadeira paixão. Mas Margarida, talvez pressionada, pôs um ponto final no romance. Afinal, era uma senhora casada com filhos. Para Robin, foi mais dramático, porque não terá aceite bem a separação. E ano e meio depois, suicidou-se.
Informada a rainha de que a irmã e o cunhado faziam vidas separadas, surgiu no horizonte o tão temido divórcio. O casal continuou a viver na sua residência oficial, Kensington Palace, para manter as aparências, enquanto os filhos foram pequenos. Separaram--se em 1976 e, dois anos depois, foi decretado o divórcio. O primeiro divórcio na família real, desde o de Henrique VIII, em 1529, dispensando o literal rolar de cabeças. E em 1973, ano do casamento da princesa Ana, filha da rainha, falou-se muito do novo amor de Margarida, Roddy Lleweellyn, um jovem arquitecto paisagista com menos 17 anos que ela. Margarida deitou as conveniências para trás das costas e voou para o seu "ninho de amor" na ilha de Mustique, nas Caraíbas, que viria a tornar-se local de festas do jet-set de então. Por lá passaram David Bowie, Raquel Welch, Bryan Ferry, Mick e Bianca Jagger, Elton John, Tommy Hilfiger e muitos outros amigos da princesa irreverente, que exigia que ninguém se fosse deitar antes dela, prolongando as festas até de manhã.
Estas fugas deram origem a pala-vras duras na imprensa. Houve mesmo um jornal que tratou Margarida como "uma princesa decadente e inútil". Também o Governo e o primeiro-ministro chegaram a pressionar a rainha para riscar o nome da irmã da Civil List, onde constam os nomes dos membros da família real, parentes muito próximos e súbditos que prestaram relevantes serviços à monarquia, com residência e despesas pagas pela rainha.
Margarida separou-se de Roddy quando este casou com uma desenhadora de moda. Apesar da separação, permaneceram amigos até à morte da princesa, no passado dia 9 de Fevereiro.
Para Margarida Rosa de Windsor, o seu maior orgulho foram os filhos, David e Sara, ambos com profissões ligadas às artes. São casados e têm filhos. Margarida teria o quarto neto nesta Primavera. Foram os filhos que estiveram junto da mãe nos seus derradeiros minutos.
Com o desaparecimento de Diana de Gales e a morte recente de Margarida, a coroa britânica parece ir perdendo, pouco a pouco, as suas pedras mais cintilantes...
Os ídolos que não escaparam à admiração da Princesa
21 de setembro de 2004
José Pacheco- Educare
Muitos velhos (velhos de qualquer idade) estão possuídos pelo medo de pensar. Consomem o parco tempo de passagem a repetir o que outros velhos de qualquer idade pensaram, crendo serem suas as ideias, sem saber que as ideias são de todos e de ninguém. Os velhos que são mesmo velhos não percebem que, quando lhes ocorre um mesmo pensamento, ele já não é o mesmo que pensaram. Quando voltam a pensar, já é outro avô que pensa. Como o pássaro que regressa do breve voo e já não o mesmo pássaro da partida.
As ideias velhas envelhecem, tal como os homens. Outras geram novas ideias. Os novos (de qualquer idade) são novos porque são animados por novas ideias. Das que já não nos pertencem (se alguma vez nos pertenceram) e daquelas que nem sequer chegaremos a pensar. Por essa razão, os novos de todas as idades sabem sempre mais que os mais velhos.
É exemplar a história do miúdo que pergunta ao pai se sempre é verdade que os pais sabem mais que os filhos.
- Claro! - respondeu o pai, prontamente - Poderia lá ser de outra maneira! Os pais sabem sempre mais que os seus filhos.
O pimpolho não se deu por satisfeito e rematou:
- Então, paizinho, quem inventou a máquina a vapor? Foi o Watson, ou foi o pai do Watson?
Como para cada facto ou realidade existe um seu oposto - ou complemento, pois nada sei das orientais filosofias - trago à colação uma história em contraponto, achada num recanto da memória.
Certo dia, estava eu descascando ervilhas - óptimo entretém, ao que dizem, propiciador de meditação. Flutuei por instantes acima da miséria dos dias e das suas inefáveis consumições. E eis que troco as bacias: a casca vai para a bacia das vitualhas destinadas à panela, as ervilhas para o saco do lixo... Despertei da búdica meditação ao som das estridentes gargalhadas do meu filho, que me vinha acompanhando na função, e observou o erro de manobra. Comentei:
- Olha que engraçado! Enganei-me no destino!
Profunda reflexão de que não me apercebera não fora o meu filho - que sempre soube mais das coisas e das pessoas do que o pai - gargalhar mais uma vez.
- Por que te ris, André? - inquiri.
- Porque disseste que te enganaste no destino.
E não é que o maroto do miúdo tinha razão? Intuíra o significado da expressão muito para além do comezinho engano do destino da ervilha. Foi bem mais fundo na reflexão, provando a supremacia do saber de um filho sobre o do seu progenitor.
Na verdade, eu sempre me enganei no destino. Porque, se é de pequenino que permitimos que no-lo torçam, também será verdadeiro o aforismo (que agora me apeteceu inventar) que diz que o destino também se pode distorcer. E para o distorcer basta pensar de modo novo. Libertar as ideias afaga o pensamento e tem o condão de reforçar o pensamento divergente, que nos protege de certezas certas. A receita é interrogar o mundo, ininterruptamente, desprendidamente. Vê-lo em cada manhã, como se fora o primeiro homem perante todas as cores da primeira madrugada.
Não fora o não-exemplo do meu avô (talvez um dia conte…), eu acabaria electricista, como estava escrito no meu retorcido destino de criança. E muitos outros seres também não se deixaram pensar. Como aquele jovem que escutei num programa de rádio. Até quase ao fim dos seus estudos para entrar na faculdade, sempre tinha obtido boas notas. Iria, sem entusiasmo mas resolutamente, ser médico ou arquitecto. Durante a sua juventude abominara tudo o que fosse música erudita. Odiava ópera. Até que, no dia do seu aniversário, alguém, à revelia de pais e avós cultores da tradição da música fácil, lhe ofereceu um CD com árias cantadas pela Maria Calas. Confessava o jovem aos microfones da rádio que atirara o disco para um canto. Até que, um dia…
O entrevistador concluiu a conversa, referindo que o jovem entrevistado havia ganho o concurso de canto Maria Tody, um dos mais prestigiados concursos do género no nosso país. Quis saber o entrevistador o porquê da radical transformação. Respondeu o jovem:
- A sementinha estava aqui dentro. Só foi preciso deitar água e cuidar dela.
Para não sufocar a sementinha numa torrente de pensamentos repensados, para não correr o risco de a fazer apodrecer precocemente, preservo o Marcos de presunçosas sapiências de avô. Impeço-me de determinar, do alto dos meus cabelos brancos, os seus desejos e necessidades. A primeira das regras é não tentar ensinar aos netos aquilo que se pensa que eles precisam saber. A segunda, procurar aprender o que eles são, no que pensam e para além do que pensamos que eles hão-de pensar.
Os tempos são outros. Só os avós com certezas absolutas ainda não entenderam.
As ideias velhas envelhecem, tal como os homens. Outras geram novas ideias. Os novos (de qualquer idade) são novos porque são animados por novas ideias. Das que já não nos pertencem (se alguma vez nos pertenceram) e daquelas que nem sequer chegaremos a pensar. Por essa razão, os novos de todas as idades sabem sempre mais que os mais velhos.
É exemplar a história do miúdo que pergunta ao pai se sempre é verdade que os pais sabem mais que os filhos.
- Claro! - respondeu o pai, prontamente - Poderia lá ser de outra maneira! Os pais sabem sempre mais que os seus filhos.
O pimpolho não se deu por satisfeito e rematou:
- Então, paizinho, quem inventou a máquina a vapor? Foi o Watson, ou foi o pai do Watson?
Como para cada facto ou realidade existe um seu oposto - ou complemento, pois nada sei das orientais filosofias - trago à colação uma história em contraponto, achada num recanto da memória.
Certo dia, estava eu descascando ervilhas - óptimo entretém, ao que dizem, propiciador de meditação. Flutuei por instantes acima da miséria dos dias e das suas inefáveis consumições. E eis que troco as bacias: a casca vai para a bacia das vitualhas destinadas à panela, as ervilhas para o saco do lixo... Despertei da búdica meditação ao som das estridentes gargalhadas do meu filho, que me vinha acompanhando na função, e observou o erro de manobra. Comentei:
- Olha que engraçado! Enganei-me no destino!
Profunda reflexão de que não me apercebera não fora o meu filho - que sempre soube mais das coisas e das pessoas do que o pai - gargalhar mais uma vez.
- Por que te ris, André? - inquiri.
- Porque disseste que te enganaste no destino.
E não é que o maroto do miúdo tinha razão? Intuíra o significado da expressão muito para além do comezinho engano do destino da ervilha. Foi bem mais fundo na reflexão, provando a supremacia do saber de um filho sobre o do seu progenitor.
Na verdade, eu sempre me enganei no destino. Porque, se é de pequenino que permitimos que no-lo torçam, também será verdadeiro o aforismo (que agora me apeteceu inventar) que diz que o destino também se pode distorcer. E para o distorcer basta pensar de modo novo. Libertar as ideias afaga o pensamento e tem o condão de reforçar o pensamento divergente, que nos protege de certezas certas. A receita é interrogar o mundo, ininterruptamente, desprendidamente. Vê-lo em cada manhã, como se fora o primeiro homem perante todas as cores da primeira madrugada.
Não fora o não-exemplo do meu avô (talvez um dia conte…), eu acabaria electricista, como estava escrito no meu retorcido destino de criança. E muitos outros seres também não se deixaram pensar. Como aquele jovem que escutei num programa de rádio. Até quase ao fim dos seus estudos para entrar na faculdade, sempre tinha obtido boas notas. Iria, sem entusiasmo mas resolutamente, ser médico ou arquitecto. Durante a sua juventude abominara tudo o que fosse música erudita. Odiava ópera. Até que, no dia do seu aniversário, alguém, à revelia de pais e avós cultores da tradição da música fácil, lhe ofereceu um CD com árias cantadas pela Maria Calas. Confessava o jovem aos microfones da rádio que atirara o disco para um canto. Até que, um dia…
O entrevistador concluiu a conversa, referindo que o jovem entrevistado havia ganho o concurso de canto Maria Tody, um dos mais prestigiados concursos do género no nosso país. Quis saber o entrevistador o porquê da radical transformação. Respondeu o jovem:
- A sementinha estava aqui dentro. Só foi preciso deitar água e cuidar dela.
Para não sufocar a sementinha numa torrente de pensamentos repensados, para não correr o risco de a fazer apodrecer precocemente, preservo o Marcos de presunçosas sapiências de avô. Impeço-me de determinar, do alto dos meus cabelos brancos, os seus desejos e necessidades. A primeira das regras é não tentar ensinar aos netos aquilo que se pensa que eles precisam saber. A segunda, procurar aprender o que eles são, no que pensam e para além do que pensamos que eles hão-de pensar.
Os tempos são outros. Só os avós com certezas absolutas ainda não entenderam.
19 de setembro de 2004
"Antes de entrarmos na poesia propriamente dita de Natália, e numa clara demonstração do seu irreverente carácter, aqui fica o "mimo" com que em 1982 presenteou na Assembleia da Republica o então deputado João Morgado (CDS) que tinha brindado a Assembleia com um "eloquente" discurso onde dizia disparates do seguinte teor: «A igreja Católica proibe o aborto porque entende que o acto sexual é para se ver o nascimento de um filho». Ao que Natália Correia, ao tempo deputada do PSD, ripostou:
«Já que o coito diz Morgado / tem como fim cristalino, / preciso e imaculado / fazer menino ou menina / e cada vez que o varão / sexual petisco manduca, / temos na procriação / prova de que houve truca-truca, / sendo só pai de um rebento, / lógica é a conclusão / de que o viril instrumento / só usou - parca ração! uma vez. / E se a função faz o órgão - diz o ditado - / consumada essa excepção, / ficou capado o Morgado»
Gentil e subtilmente roubado a http://www.alentejodigital.pt/a_margem/poetas/natalia_correia.htm
«Já que o coito diz Morgado / tem como fim cristalino, / preciso e imaculado / fazer menino ou menina / e cada vez que o varão / sexual petisco manduca, / temos na procriação / prova de que houve truca-truca, / sendo só pai de um rebento, / lógica é a conclusão / de que o viril instrumento / só usou - parca ração! uma vez. / E se a função faz o órgão - diz o ditado - / consumada essa excepção, / ficou capado o Morgado»
Gentil e subtilmente roubado a http://www.alentejodigital.pt/a_margem/poetas/natalia_correia.htm
O Outono vem aí
e vai entrar em colisão com o Verão que chegou tarde e não se vai embora tão cedo...
Belas temperaturas a deste fim de Verão.
OS CÃES
Domingo, 19 de Setembro de 2004
José Eduardo Agualusa
"Em criança eu já era ambicioso. Quando me perguntavam - "o que queres ser quando fores grande?" -, punha-me nos bicos dos pés e respondia - "o maior!". Havia de ser o maior. Só não sabia em que ramo".
Jerónimo suspirou. Não disse mais nada. Não era necessário dizer mais nada. Olhando através da janela avistava-se o rio, uma massa de água lamacenta e rumorosa, que descia sempre, e sempre, em meio à ramagem das árvores, ao capim verde, às altas palmas das palmeiras, arrastando para o mar a última luz do dia. Jerónimo levara-me a visitar toda a fazenda. Achei-a imensa. Mostrou-me o lago (salgado) onde pousavam os flamingos. Imitou o canto de diversos pássaros, conseguindo, em alguns casos, que estes lhe respondessem. Deixou que eu fotografasse, pousada numa larga folha de bananeira, uma espécie raríssima de borboleta, mas não me autorizou a capturá-la. Acompanhei-o no jipe, em silêncio, enquanto ele, apontando com o dedo, me ia apresentando às diferentes ervas, ramadas, rebentos e flores, exaltando as virtudes medicinais desta ou daquela ou alertando para os perigos de uma outra.
Ao vê-lo pela primeira vez, na tarde anterior, ficara com a impressão de estar diante de um sujeito capaz de conseguir tudo aquilo que se propunha, duro e determinado. Não imaginei que as flores o comovessem. Os olhos, frios, sombrios, pousaram nos meus, e ele sorriu:
"Não nos conhecemos já?"
O sorriso transformava-o. Enquanto me mostrava a fazenda sorria o tempo todo. Em determinada altura vimos um rapazinho a cruzar um descampado. Jerónimo dirigiu o jipe na direcção dele.
"Estás a caçar pássaros?"
O rapaz assegurou que não. Jerónimo sacudiu os ombros:
"Ainda bem. Seja como for isto é terreno privado. É melhor saíres daqui antes que anoiteça. Depois solto os meus cães e eles dão contigo e comem-te. Não vai sobrar nada de ti. Nem os ossos."
O rapaz riu-se. Jerónimo também se riu e eu imitei-o. A rir parecia um menino. Dali, onde estávamos agora, sentados ambos em cadeirões de verga, podíamos ver o rio, um caminho entre palmeiras e, ao fundo, a jaula onde os cães aguardavam. Eram animais sólidos, ansiosos, que não pareciam feitos de carne, mas de um material simultaneamente mais firme e mais elástico. Tinham uma cabeça enorme, desproporcionada em relação ao corpo, e era evidente que toda a sua energia convergia para os possantes maxilares. Jerónimo reparou no meu olhar:
"Ah, sim, são perigosos. Atacam sem aviso e quando fecham os dentes ninguém consegue que voltem a abrir a boca."
Contou que, meses antes, um animal da mesma ninhada dos que eu via ali mordera um camponês numa das pernas. Nunca mais a largou, nem quando os outros trabalhadores o feriram, no lombo e na cabeça, com paus e com pedras, nem quando o regaram com jactos fortes de água, nem quando lhe lançaram álcool nos olhos, nem sequer depois que o mataram, cortando-lhe o pescoço a golpes de catana.
Há países onde é proibido criar estes cães. A mim, tudo o que é proibido me entusiasma. Agora estão um pouco preguiçosos. Costumava treiná-los todos os dias, com a ajuda de um burro, mas o burro suicidou-se."
"Um burro?!"
"Sim, suicidou-se. Atirou-se ao rio."
Explicou que costumava amarrar o burro a uma árvore e depois açulava os cães contra ele. O burro lutava bravamente, às patadas, às dentadas, até repelir os atacantes.
"Mas não se magoava?"
"É claro. Os cães arrancavam-lhe pedaços de carne. Bifes inteiros."
Riu-se muito. Eu não me ri. Levantei-me e dei alguns passos em direcção à porta. A noite já tinha caído e cobria tudo, agora, com o seu vasto silêncio de estrelas. Voltei a sentar-me. Jerónimo foi soltar os cães.
José Eduardo Agualusa
"Em criança eu já era ambicioso. Quando me perguntavam - "o que queres ser quando fores grande?" -, punha-me nos bicos dos pés e respondia - "o maior!". Havia de ser o maior. Só não sabia em que ramo".
Jerónimo suspirou. Não disse mais nada. Não era necessário dizer mais nada. Olhando através da janela avistava-se o rio, uma massa de água lamacenta e rumorosa, que descia sempre, e sempre, em meio à ramagem das árvores, ao capim verde, às altas palmas das palmeiras, arrastando para o mar a última luz do dia. Jerónimo levara-me a visitar toda a fazenda. Achei-a imensa. Mostrou-me o lago (salgado) onde pousavam os flamingos. Imitou o canto de diversos pássaros, conseguindo, em alguns casos, que estes lhe respondessem. Deixou que eu fotografasse, pousada numa larga folha de bananeira, uma espécie raríssima de borboleta, mas não me autorizou a capturá-la. Acompanhei-o no jipe, em silêncio, enquanto ele, apontando com o dedo, me ia apresentando às diferentes ervas, ramadas, rebentos e flores, exaltando as virtudes medicinais desta ou daquela ou alertando para os perigos de uma outra.
Ao vê-lo pela primeira vez, na tarde anterior, ficara com a impressão de estar diante de um sujeito capaz de conseguir tudo aquilo que se propunha, duro e determinado. Não imaginei que as flores o comovessem. Os olhos, frios, sombrios, pousaram nos meus, e ele sorriu:
"Não nos conhecemos já?"
O sorriso transformava-o. Enquanto me mostrava a fazenda sorria o tempo todo. Em determinada altura vimos um rapazinho a cruzar um descampado. Jerónimo dirigiu o jipe na direcção dele.
"Estás a caçar pássaros?"
O rapaz assegurou que não. Jerónimo sacudiu os ombros:
"Ainda bem. Seja como for isto é terreno privado. É melhor saíres daqui antes que anoiteça. Depois solto os meus cães e eles dão contigo e comem-te. Não vai sobrar nada de ti. Nem os ossos."
O rapaz riu-se. Jerónimo também se riu e eu imitei-o. A rir parecia um menino. Dali, onde estávamos agora, sentados ambos em cadeirões de verga, podíamos ver o rio, um caminho entre palmeiras e, ao fundo, a jaula onde os cães aguardavam. Eram animais sólidos, ansiosos, que não pareciam feitos de carne, mas de um material simultaneamente mais firme e mais elástico. Tinham uma cabeça enorme, desproporcionada em relação ao corpo, e era evidente que toda a sua energia convergia para os possantes maxilares. Jerónimo reparou no meu olhar:
"Ah, sim, são perigosos. Atacam sem aviso e quando fecham os dentes ninguém consegue que voltem a abrir a boca."
Contou que, meses antes, um animal da mesma ninhada dos que eu via ali mordera um camponês numa das pernas. Nunca mais a largou, nem quando os outros trabalhadores o feriram, no lombo e na cabeça, com paus e com pedras, nem quando o regaram com jactos fortes de água, nem quando lhe lançaram álcool nos olhos, nem sequer depois que o mataram, cortando-lhe o pescoço a golpes de catana.
Há países onde é proibido criar estes cães. A mim, tudo o que é proibido me entusiasma. Agora estão um pouco preguiçosos. Costumava treiná-los todos os dias, com a ajuda de um burro, mas o burro suicidou-se."
"Um burro?!"
"Sim, suicidou-se. Atirou-se ao rio."
Explicou que costumava amarrar o burro a uma árvore e depois açulava os cães contra ele. O burro lutava bravamente, às patadas, às dentadas, até repelir os atacantes.
"Mas não se magoava?"
"É claro. Os cães arrancavam-lhe pedaços de carne. Bifes inteiros."
Riu-se muito. Eu não me ri. Levantei-me e dei alguns passos em direcção à porta. A noite já tinha caído e cobria tudo, agora, com o seu vasto silêncio de estrelas. Voltei a sentar-me. Jerónimo foi soltar os cães.
18 de setembro de 2004
O cágado "roubado"
a um site brasileiro.
Ladrão que rouba a ladrão... Almada é nosso!
Havia um homem que era muito senhor da sua vontade. Andava às vezes sozinho pelas estradas a passear. Por uma dessas vezes viu no meio da estrada um animal que parecia não vir a propósito — um cágado.
O homem era muito senhor da sua vontade, nunca tinha visto um cágado; contudo, agora estava a acreditar. Acercou-se mais e viu com os olhos da cara que aquilo era, na verdade, o tal cágado da zoologia.
O homem que era muito senhor da sua vontade ficou radiante, já tinha novidades para contar ao almoço, e deitou a correr para casa. A meio caminho pensou que a família era capaz de não aceitar a novidade por não trazer o cágado com ele, e parou de repente. Como era muito senhor da sua vontade, não poderia suportar que a família imaginasse que aquilo do cágado era história dele, e voltou atrás. 0uando chegou perto do tal sítio, o cágado, que já tinha desconfiado da primeira vez, enfiou buraco abaixo como quem não quer a coisa.
O homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a espreitar para dentro e depois de muito espreitar não conseguiu ver senão o que se pode ver para dentro dos buracos, isto é, muito escuro. Do cágado, nada. Meteu a mão com cautela e nada; a seguir até ao cotovelo e nada; por fim o braço todo e nada. Tinham sido experimentadas todas as cautelas e os recursos naturais de que um homem dispõe até ao comprimento do braço e nada.
Então foi buscar auxílio a uma vara compridíssima, que nem é habitual em varas haver assim tão compridas, enfiou-a pelo buraco abaixo, mas o cágado morava ainda muito mais lá para o fundo. Quando largou a vara, ela foi por ali abaixo, exatamente como uma vara perdida.
Depois de estudar novas maneiras, a ofensiva ficou de fato submetida a nova orientação. Havia um grande tanque de lavadeiras a dois passos e ao lado do tanque estava um bom balde dos maiores que há. Mergulhou o balde no tanque e, cheio até mais não, despejou-o inteiro para dentro do buraco do cágado. Um balde só já ele sabia que não bastava, nem dez, mas quando chegou a noventa e oito baldes e que já faltavam só dois para cem e que a água não havia meio de vir ao de cima, o homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a pensar em todas as espécies de buracos que possa haver.
— E se eu dissesse à minha família que tinha visto o cágado? - pensava para si o homem que era muito senhor da sua vontade. Mas não! Toda a gente pode pensar assim menos eu, que sou muito senhor da minha vontade.
O maldito sol também não ajudava nada. Talvez que fosse melhor não dizer nada do cágado ao almoço. A pensar se sim ou não, os passos dirigiam-se involuntariamente para as horas de almoçar.
— Já não se trata de eu ser um incompreendido com a história do cágado, não; agora trata-se apenas da minha força de vontade. É a minha força de vontade que está em prova, esta é a ocasião propícia, não percamos tempo! Nada de fraquezas!
Ao lado do buraco havia uma pá de ferro, destas dos trabalhadores rurais. Pegou na pá e pôs-se a desfazer o buraco. A primeira pazada de terra, a segunda, a terceira, e era uma maravilha contemplar aquela majestosa visibilidade que punha os nossos olhos em presença do mais eficaz testemunho da tenacidade, depois dos antigos. Na verdade, de cada vez que enfiava a pá na terra, com fé, com robustez, e sem outras intenções a mais, via-se perfeitamente que estava ali uma vontade inteira; e ainda que seja cientificamente impossível que a terra rachasse de cada vez que ele lhe metia a pá, contudo era indiscutivelmente esta a impressão que lhe dava. Ah, não! Não era um vulgar trabalhador rural. Via-se perfeitamente que era alguém muito senhor da sua vontade e que estava por ali por acaso, por imposição própria, contrafeito, por necessidade do espírito, por outras razões diferentes das dos trabalhadores rurais, no cumprimento de um dever, um dever importante, uma questão de vida ou de morte — a vontade.
Já estava na nonagésima pazada de terra; sem afrouxar, com o mesmo ímpeto da inicial, foi completamente indiferente por um almoço a menos. Fosse ou não por um cágado, a humanidade iria ver solidificada a vontade de um homem.
A mil metros de profundidade a pino, o homem que era muito senhor da sua vontade foi surpreendido por dolorosa dúvida — já não tinha nem a certeza se era a qüinquagésima milionésima octogésima quarta. Era impossível recomeçar, mais valia perder uma pazada.
Até ali não havia indícios nem da passagem da vara, da água ou do cágado. Tudo fazia crer que se tratava de um buraco supérfluo; contudo, o homem era muito senhor da sua vontade, sabia que tinha de haver-se de frente com todas as más impressões. De fato, se aquela tarefa não houvesse de ser árdua e difícil, também a vontade não podia resultar superlativamente dura e preciosa.
Todas as noções de tempo e de espaço, e as outras noções pelas quais um homem constata o quotidiano, foram todas uma por uma dispensadas de participar no esburacamento. Agora, que os músculos disciplinados num ritmo único estavam feitos ao que se quer pedir, eram desnecessários todos os raciocínios e outros arabescos cerebrais, não havia outra necessidade além da dos próprios músculos.
Umas vezes a terra era mais capaz de se deixar furar por causa das grandes camadas de areia e de lama; todavia, estas facilidades ficavam bem subtraídas quando acontecia ser a altura de atravessar uma dessas rochas gigantescas que há no subsolo. Sem incitamento nem estímulo possível por aquelas paragens, é absolutamente indispensável recordar a decisão com que o homem muito senhor da sua vontade pegou ao princípio na pá do trabalhador rural para justificarmos a intensidade e a duração desta perseverança. Inclusive, a própria descoberta do centro da Terra, que tão bem podia servir de regozijo ao que se aventura pelas entranhas do nosso planeta, passou infelizmente desapercebida ao homem que era muito senhor da sua vontade. O buraco do cágado era efetivamente interminável. Por mais que se avançasse, o buraco continuava ainda e sempre. Só assim se explica ser tão rara a presença de cágados à superfície devido à extensão dos corredores desde a porta da rua até aos aposentos propriamente ditos.
Entretanto, cá em cima na terra, a família do homem que era muito senhor da sua vontade, tendo começado por o ter dado por desaparecido, optara, por último, pelo luto carregado, não consentindo a entrada no quarto onde ele costumava dormir todas as noites.
Até que uma vez, quando ele já não acreditava no fim das covas, já não havia, de fato, mais continuação daquele buraco, parava exatamente ali, sem apoteose, sem comemoração, sem vitória, exatamente como um simples buraco de estrada onde se vê o fundo ao sol. Enfim, naquele sítio nem a revolta servia para nada.
Caindo em si, o homem que era muito senhor da sua vontade pediu-lhe decisões, novas decisões, outras; mas ali não havia nada a fazer, tinha esquecido tudo, estava despejado de todas as coisas, só lhe restava saber cavar com uma pá. Tinha, sobretudo, muito sono, lembrou-se da cama com lençóis, travesseiro e almofada fofa, tão longe! Maldita pá! 0 cágado! E deu com a pá com força no fundo da cova. Mas a pá safou-se-lhe das mãos e foi mais fundo do que ele supunha, deixando uma greta aberta por onde entrava uma coisa de que ele já se tinha esquecido há muito - a luz do sol. A primeira sensação foi de alegria, mas durou apenas três segundos, a segunda foi de assombro: teria na verdade furado a Terra de lado a lado?
Para se certificar alargou a greta com as unhas e espreitou para fora. Era um país estrangeiro; homens, mulheres, árvores, montes e casas tinham outras proporções diferentes das que ele tinha na memória. 0 sol também não era o mesmo, não era amarelo, era de cobre cheio de azebre e fazia barulho nos reflexos. Mas a sensação mais estranha ainda estava para vir: foi que, quando quis sair da cova, julgava que ficava em pé em cima do chão como os habitantes daquele país estrangeiro, mas a verdade é que a única maneira de poder ver as coisas naturalmente era pondo-se de pernas para o ar...
Como tinha muita sede, resolveu ir beber água ali ao pé e teve de ir de mãos no chão e o corpo a fazer o pino, porque de pé subia-lhe o sangue à cabeça. Então, começou a ver que não tinha nada a esperar daquele país onde nem sequer se falava com a boca, falava-se com o nariz.
Vieram-lhe de uma vez todas as saudades da casa, da família e do quarto de dormir. Felizmente estava aberto o caminho até casa, fora ele próprio quem o abrira com uma pá de ferro. Resolveu-se. Começou a andar o buraco todo ao contrário. Andou, andou, andou; subiu, subiu, subiu...
Quando chegou cá acima, ao lado do buraco estava uma coisa que não havia antigamente — o maior monte da Europa, feito por ele, aos poucochinhos, às pazadas de terra, uma por uma, até ficar enorme, colossal, sem querer, o maior monte da Europa.
Este monte não deixava ver nem a cidade onde estava a casa da família, nem a estrada que dava para a cidade, nem os arredores da cidade que faziam um belo panorama. O monte estava por cima disto tudo e de muito mais.
O homem que era muito senhor da sua vontade estava cansadíssimo por ter feito duas vezes o diâmetro da Terra. Apetecia-lhe dormir na sua querida cama, mas para isso era necessário tirar aquele monte maior da Europa, de cima da cidade, onde estava a casa da sua família. Então, foi buscar outra pá dos trabalhadores rurais e começou logo a desfazer o monte maior da Europa. Foi restituindo à Terra, uma por uma, todas as pazadas com que a tinha esburacado de lado a lado. Começavam já a aparecer as cruzes das torres, os telhados das casas, os cumes dos montes naturais, a casa da sua família, muita gente suja de terra, por ter estado soterrada, outros que ficaram aleijados, e o resto como dantes.
O homem que era muito senhor da sua vontade já podia entrar em casa para descansar, mas quis mais, quis restituir à Terra todas as pazadas, todas. Faltavam poucas, algumas dúzias apenas. Já agora valia a pena fazer tudo bem até ao fim. Quando já era a última pazada de terra que ele ia meter no buraco, portanto a primeira que ele tinha tirado ao princípio, reparou que o torrão estava a mexer por si, sem ninguém lhe tocar; curioso, quis ver porque era — era o cágado.
Almada Negreiros
Ladrão que rouba a ladrão... Almada é nosso!
Havia um homem que era muito senhor da sua vontade. Andava às vezes sozinho pelas estradas a passear. Por uma dessas vezes viu no meio da estrada um animal que parecia não vir a propósito — um cágado.
O homem era muito senhor da sua vontade, nunca tinha visto um cágado; contudo, agora estava a acreditar. Acercou-se mais e viu com os olhos da cara que aquilo era, na verdade, o tal cágado da zoologia.
O homem que era muito senhor da sua vontade ficou radiante, já tinha novidades para contar ao almoço, e deitou a correr para casa. A meio caminho pensou que a família era capaz de não aceitar a novidade por não trazer o cágado com ele, e parou de repente. Como era muito senhor da sua vontade, não poderia suportar que a família imaginasse que aquilo do cágado era história dele, e voltou atrás. 0uando chegou perto do tal sítio, o cágado, que já tinha desconfiado da primeira vez, enfiou buraco abaixo como quem não quer a coisa.
O homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a espreitar para dentro e depois de muito espreitar não conseguiu ver senão o que se pode ver para dentro dos buracos, isto é, muito escuro. Do cágado, nada. Meteu a mão com cautela e nada; a seguir até ao cotovelo e nada; por fim o braço todo e nada. Tinham sido experimentadas todas as cautelas e os recursos naturais de que um homem dispõe até ao comprimento do braço e nada.
Então foi buscar auxílio a uma vara compridíssima, que nem é habitual em varas haver assim tão compridas, enfiou-a pelo buraco abaixo, mas o cágado morava ainda muito mais lá para o fundo. Quando largou a vara, ela foi por ali abaixo, exatamente como uma vara perdida.
Depois de estudar novas maneiras, a ofensiva ficou de fato submetida a nova orientação. Havia um grande tanque de lavadeiras a dois passos e ao lado do tanque estava um bom balde dos maiores que há. Mergulhou o balde no tanque e, cheio até mais não, despejou-o inteiro para dentro do buraco do cágado. Um balde só já ele sabia que não bastava, nem dez, mas quando chegou a noventa e oito baldes e que já faltavam só dois para cem e que a água não havia meio de vir ao de cima, o homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a pensar em todas as espécies de buracos que possa haver.
— E se eu dissesse à minha família que tinha visto o cágado? - pensava para si o homem que era muito senhor da sua vontade. Mas não! Toda a gente pode pensar assim menos eu, que sou muito senhor da minha vontade.
O maldito sol também não ajudava nada. Talvez que fosse melhor não dizer nada do cágado ao almoço. A pensar se sim ou não, os passos dirigiam-se involuntariamente para as horas de almoçar.
— Já não se trata de eu ser um incompreendido com a história do cágado, não; agora trata-se apenas da minha força de vontade. É a minha força de vontade que está em prova, esta é a ocasião propícia, não percamos tempo! Nada de fraquezas!
Ao lado do buraco havia uma pá de ferro, destas dos trabalhadores rurais. Pegou na pá e pôs-se a desfazer o buraco. A primeira pazada de terra, a segunda, a terceira, e era uma maravilha contemplar aquela majestosa visibilidade que punha os nossos olhos em presença do mais eficaz testemunho da tenacidade, depois dos antigos. Na verdade, de cada vez que enfiava a pá na terra, com fé, com robustez, e sem outras intenções a mais, via-se perfeitamente que estava ali uma vontade inteira; e ainda que seja cientificamente impossível que a terra rachasse de cada vez que ele lhe metia a pá, contudo era indiscutivelmente esta a impressão que lhe dava. Ah, não! Não era um vulgar trabalhador rural. Via-se perfeitamente que era alguém muito senhor da sua vontade e que estava por ali por acaso, por imposição própria, contrafeito, por necessidade do espírito, por outras razões diferentes das dos trabalhadores rurais, no cumprimento de um dever, um dever importante, uma questão de vida ou de morte — a vontade.
Já estava na nonagésima pazada de terra; sem afrouxar, com o mesmo ímpeto da inicial, foi completamente indiferente por um almoço a menos. Fosse ou não por um cágado, a humanidade iria ver solidificada a vontade de um homem.
A mil metros de profundidade a pino, o homem que era muito senhor da sua vontade foi surpreendido por dolorosa dúvida — já não tinha nem a certeza se era a qüinquagésima milionésima octogésima quarta. Era impossível recomeçar, mais valia perder uma pazada.
Até ali não havia indícios nem da passagem da vara, da água ou do cágado. Tudo fazia crer que se tratava de um buraco supérfluo; contudo, o homem era muito senhor da sua vontade, sabia que tinha de haver-se de frente com todas as más impressões. De fato, se aquela tarefa não houvesse de ser árdua e difícil, também a vontade não podia resultar superlativamente dura e preciosa.
Todas as noções de tempo e de espaço, e as outras noções pelas quais um homem constata o quotidiano, foram todas uma por uma dispensadas de participar no esburacamento. Agora, que os músculos disciplinados num ritmo único estavam feitos ao que se quer pedir, eram desnecessários todos os raciocínios e outros arabescos cerebrais, não havia outra necessidade além da dos próprios músculos.
Umas vezes a terra era mais capaz de se deixar furar por causa das grandes camadas de areia e de lama; todavia, estas facilidades ficavam bem subtraídas quando acontecia ser a altura de atravessar uma dessas rochas gigantescas que há no subsolo. Sem incitamento nem estímulo possível por aquelas paragens, é absolutamente indispensável recordar a decisão com que o homem muito senhor da sua vontade pegou ao princípio na pá do trabalhador rural para justificarmos a intensidade e a duração desta perseverança. Inclusive, a própria descoberta do centro da Terra, que tão bem podia servir de regozijo ao que se aventura pelas entranhas do nosso planeta, passou infelizmente desapercebida ao homem que era muito senhor da sua vontade. O buraco do cágado era efetivamente interminável. Por mais que se avançasse, o buraco continuava ainda e sempre. Só assim se explica ser tão rara a presença de cágados à superfície devido à extensão dos corredores desde a porta da rua até aos aposentos propriamente ditos.
Entretanto, cá em cima na terra, a família do homem que era muito senhor da sua vontade, tendo começado por o ter dado por desaparecido, optara, por último, pelo luto carregado, não consentindo a entrada no quarto onde ele costumava dormir todas as noites.
Até que uma vez, quando ele já não acreditava no fim das covas, já não havia, de fato, mais continuação daquele buraco, parava exatamente ali, sem apoteose, sem comemoração, sem vitória, exatamente como um simples buraco de estrada onde se vê o fundo ao sol. Enfim, naquele sítio nem a revolta servia para nada.
Caindo em si, o homem que era muito senhor da sua vontade pediu-lhe decisões, novas decisões, outras; mas ali não havia nada a fazer, tinha esquecido tudo, estava despejado de todas as coisas, só lhe restava saber cavar com uma pá. Tinha, sobretudo, muito sono, lembrou-se da cama com lençóis, travesseiro e almofada fofa, tão longe! Maldita pá! 0 cágado! E deu com a pá com força no fundo da cova. Mas a pá safou-se-lhe das mãos e foi mais fundo do que ele supunha, deixando uma greta aberta por onde entrava uma coisa de que ele já se tinha esquecido há muito - a luz do sol. A primeira sensação foi de alegria, mas durou apenas três segundos, a segunda foi de assombro: teria na verdade furado a Terra de lado a lado?
Para se certificar alargou a greta com as unhas e espreitou para fora. Era um país estrangeiro; homens, mulheres, árvores, montes e casas tinham outras proporções diferentes das que ele tinha na memória. 0 sol também não era o mesmo, não era amarelo, era de cobre cheio de azebre e fazia barulho nos reflexos. Mas a sensação mais estranha ainda estava para vir: foi que, quando quis sair da cova, julgava que ficava em pé em cima do chão como os habitantes daquele país estrangeiro, mas a verdade é que a única maneira de poder ver as coisas naturalmente era pondo-se de pernas para o ar...
Como tinha muita sede, resolveu ir beber água ali ao pé e teve de ir de mãos no chão e o corpo a fazer o pino, porque de pé subia-lhe o sangue à cabeça. Então, começou a ver que não tinha nada a esperar daquele país onde nem sequer se falava com a boca, falava-se com o nariz.
Vieram-lhe de uma vez todas as saudades da casa, da família e do quarto de dormir. Felizmente estava aberto o caminho até casa, fora ele próprio quem o abrira com uma pá de ferro. Resolveu-se. Começou a andar o buraco todo ao contrário. Andou, andou, andou; subiu, subiu, subiu...
Quando chegou cá acima, ao lado do buraco estava uma coisa que não havia antigamente — o maior monte da Europa, feito por ele, aos poucochinhos, às pazadas de terra, uma por uma, até ficar enorme, colossal, sem querer, o maior monte da Europa.
Este monte não deixava ver nem a cidade onde estava a casa da família, nem a estrada que dava para a cidade, nem os arredores da cidade que faziam um belo panorama. O monte estava por cima disto tudo e de muito mais.
O homem que era muito senhor da sua vontade estava cansadíssimo por ter feito duas vezes o diâmetro da Terra. Apetecia-lhe dormir na sua querida cama, mas para isso era necessário tirar aquele monte maior da Europa, de cima da cidade, onde estava a casa da sua família. Então, foi buscar outra pá dos trabalhadores rurais e começou logo a desfazer o monte maior da Europa. Foi restituindo à Terra, uma por uma, todas as pazadas com que a tinha esburacado de lado a lado. Começavam já a aparecer as cruzes das torres, os telhados das casas, os cumes dos montes naturais, a casa da sua família, muita gente suja de terra, por ter estado soterrada, outros que ficaram aleijados, e o resto como dantes.
O homem que era muito senhor da sua vontade já podia entrar em casa para descansar, mas quis mais, quis restituir à Terra todas as pazadas, todas. Faltavam poucas, algumas dúzias apenas. Já agora valia a pena fazer tudo bem até ao fim. Quando já era a última pazada de terra que ele ia meter no buraco, portanto a primeira que ele tinha tirado ao princípio, reparou que o torrão estava a mexer por si, sem ninguém lhe tocar; curioso, quis ver porque era — era o cágado.
Almada Negreiros
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