A natureza derrama as suas cores sobre manto verde da terra, tocada e fecundada pelos deuses.
O talento salpicado mas abundante vai desabrochar em espécies sem fim.
O mais ínfimo representante do reino de Flora, presta-lhe a sua homenagem, crescendo em beleza dia após dia, até ao último instante.
Assim, cumprida a sedução, entregar-se-á de novo à volúpia da terra.
O fruto será então o rei. Ou a rainha, qual romã coroada em dia de celebração.
O fruto veste-se de pele fina e colorida, que lhe esconde a carne, por vezes tão suculenta e doce que se tornará néctar.
Os homens enfeitam-se com flores, mordem os frutos, bebem-no na forma de vinho que lhes exalta os sentidos.
O pintor, neste caso a pintora, devolve os sentidos à forma original de folhas, flores e frutos, numa festa de cores em que os verdes das folhas se encostam ao vermelho das cerejas ou ao roxo das ameixas, poisando finalmente os olhares na alvura rosada do nenúfar, que nos convida à acalmia das sensações.
A honra de ser convidada a participar nesta festa!
Que honra ver as minhas palavras no catálogo entre as flores e os frutos!
22 de janeiro de 2005
17 de janeiro de 2005
Do Público 17 de janeiro de 2005
O escritor que cultivou uma solidão radical
Miguel Torga morreu há dez anos
Carlos Câmara Leme
PÚBLICO
Faz hoje precisamente dez anos, morria em Coimbra, depois de cinco longos meses de agonia no Instituto de Oncologia da cidade banhada pelo Mondego, o contista, romancista, poeta e diarista Miguel Torga (1907-1995), pseudónimo literário de Adolfo Correia da Rocha.
Não foi uma morte qualquer. Como escreveu então no PÚBLICO Eduardo Lourenço, "com a morte de Miguel Torga não é apenas uma referência tutelar da literatura e da cultura portuguesa que desaparece, mas toda uma atitude histórica do criador em relação à Literatura. (...) Torga podia dizer, com razão, que escrevia como quem lavrava a terra." Mais: "Ninguém, entre nós, investiu com tanta paixão e energia na construção da sua estátua interior" que, diga-se, nem sempre foi compreendida pelo mundo que rodeou até ao fim da vida o autor de "Contos da Montanha".
Para construir o seu percurso, Miguel Torga teve que travar a pulso, desde muito cedo, batalhas quixotescas. Nascido a 12 de Julho de 1907, no seio de uma família de camponeses muito pobre de S. Martinho de Anta, Trás-os-Montes, nem dinheiro havia para entrar na escola primária. Pôs-se, como era da praxe, a hipótese do seminário, mas o pequeno Torga acabou por ir parar ao Brasil, depois de uma passagem por uma casa burguesa do Porto como criado. Profeticamente, resume esta fase da sua vida no que viria a ser uma boa parte do seu percurso literário e existencial: "E fui ficando irremediavelmente sozinho no mundo...".
No entanto, será o Brasil (o destino tem destas coisas), onde trabalhará durante cinco anos numa fazenda de Minas Gerais, a permitir-lhe começar a criar o seu universo. Um tio ajuda-o financeiramente e Torga mostra a sua raça quando regressa em 1925: tira, em três anos, o curso geral dos liceus e, em, 1933 é doutor em Medicina pela Universidade de Coimbra, onde se virá a especializar em Otorrinolaringologia.
Início pela poesia
Literariamente, Torga começou pela poesia e, em 1933, já tinha quatro livros em carteira. Mas os anos 30 são definitivamente marcados pelas avenças e desavenças que constituíram a criação da revista e do grupo da "Presença", com João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca e José Régio. Abandona a revista em 1930, com Branquinho da Fonseca e Edmundo de Bettencourt, e é impedioso, mais tarde, quando escreve em "A Criação do Mundo", porventura o seu título mais conseguido: "Intelectualizados da cabeça aos pés, mal tocavam a realidade. Eram platónicos no amor, teóricos no desporto, metafísicos no convívio."
É com "A Terceira Voz", um livro de prosa, que cria o pseudónimo Miguel Torga. A escolha não surge por caso: Torga é o nome de uma urze de Trás-os-Montes; Miguel é uma homenagem do escritor àqueles que o fazem esquecer Aljubarrota e o Tratado de Tordesilhas. Consequências: desde então, Torga não deixou de ser associado ao legado ibérico e, simultaneamente, a ser carimbado como um autor telúrico (que em ambos os casos o foi...).
Em 1941, instala-se em Coimbra, no Largo da Portagem, num consultório que permanece no activo quase até ao fim dos seus dias. Além de estadas regulares em S. Martinho de Anta, viaja pouco. Quando o fez, em 1936, relata o que vê - "O Quarto Dia da Criação do Mundo" (1939) - e não se sai bem: o livro é apreendido pela omnipresente censura de António de Oliveira Salazar; vai parar à prisão do Aljube, em Lisboa, onde fica preso alguns meses; vê os "Contos de Montanha" (1941) ser também retirado das estantes das livrarias e, como se não bastasse, a sua mulher Andrée Cabrée Rocha é impedida de ensinar na universidade.
Nem tudo é negro, porém, nos anos 40. Publica "Os Bichos" e "Novos Contos da Montanha" surge em 1944 (ainda hoje, talvez, os títulos mais conhecidos do grande público). Mas o escritor não se deixa deslumbrar. Sente, como escreve em "A Criação do Mundo" (V Volume), "um silêncio sepulcral à volta de cada obra que dava a lume." Desafaba mais e sobe a parada: "Era como se não existisse no mundo das letras."
Um monólogo pessimista
Este anátema não passa despercebido a Eduardo Lourenço, que, em 1955, publica "O Desespero Humanista de Miguel Torga e as Novas Gerações". Torga podia escrever e publicar sem parar, mas ia construindo, ao mesmo tempo, "um dos monólogos mais radicais de toda a poesia portuguesa" - um monólogo pessimista que Miguel Torga, quer se queira quer não, cultivou até ao fim.
Pode ter continuado a publicar à velocidade de cruzeiro nos anos 50 e 60, altura em que é pela primeira vez proposto para o Prémio Nobel da Literatura. Os vários volumes do "Diário" (chegou ao XVI) podem continuar a ser devorados sempre que sai um volume (um pouco como acontecerá com a "Conta-Corrente", de Vergílio Ferreira), a sua obra chega à meia centena de títulos, os seus livros podem estar traduzidos em 16 línguas, o Governo em 1978 pode mesmo homenageá-lo por ocasião dos 50 anos da sua carreira literária, pode ter sido o primeiro escritor a ganhar o Prémio Camões, em 1989, ou o Prémio Vida Literára/1991, atribuído por Presidente Mário Soares... Não importa, Torga resiste a tudo e não desarma no seu mundo solitário e pessimista.
O romancista Mário Cláudio acertou em cheio quando resumiu a vida do autor de "Orfeu Rebelde", há dez anos, no PÚBLICO, escrevendo que Torga foi "um solitário voluntário, um exilado no próprio país".
A sua obra, porém, está aí. Para ser lida e, muito provavelmente, para ser descoberta.
Miguel Torga morreu há dez anos
Carlos Câmara Leme
PÚBLICO
Faz hoje precisamente dez anos, morria em Coimbra, depois de cinco longos meses de agonia no Instituto de Oncologia da cidade banhada pelo Mondego, o contista, romancista, poeta e diarista Miguel Torga (1907-1995), pseudónimo literário de Adolfo Correia da Rocha.
Não foi uma morte qualquer. Como escreveu então no PÚBLICO Eduardo Lourenço, "com a morte de Miguel Torga não é apenas uma referência tutelar da literatura e da cultura portuguesa que desaparece, mas toda uma atitude histórica do criador em relação à Literatura. (...) Torga podia dizer, com razão, que escrevia como quem lavrava a terra." Mais: "Ninguém, entre nós, investiu com tanta paixão e energia na construção da sua estátua interior" que, diga-se, nem sempre foi compreendida pelo mundo que rodeou até ao fim da vida o autor de "Contos da Montanha".
Para construir o seu percurso, Miguel Torga teve que travar a pulso, desde muito cedo, batalhas quixotescas. Nascido a 12 de Julho de 1907, no seio de uma família de camponeses muito pobre de S. Martinho de Anta, Trás-os-Montes, nem dinheiro havia para entrar na escola primária. Pôs-se, como era da praxe, a hipótese do seminário, mas o pequeno Torga acabou por ir parar ao Brasil, depois de uma passagem por uma casa burguesa do Porto como criado. Profeticamente, resume esta fase da sua vida no que viria a ser uma boa parte do seu percurso literário e existencial: "E fui ficando irremediavelmente sozinho no mundo...".
No entanto, será o Brasil (o destino tem destas coisas), onde trabalhará durante cinco anos numa fazenda de Minas Gerais, a permitir-lhe começar a criar o seu universo. Um tio ajuda-o financeiramente e Torga mostra a sua raça quando regressa em 1925: tira, em três anos, o curso geral dos liceus e, em, 1933 é doutor em Medicina pela Universidade de Coimbra, onde se virá a especializar em Otorrinolaringologia.
Início pela poesia
Literariamente, Torga começou pela poesia e, em 1933, já tinha quatro livros em carteira. Mas os anos 30 são definitivamente marcados pelas avenças e desavenças que constituíram a criação da revista e do grupo da "Presença", com João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca e José Régio. Abandona a revista em 1930, com Branquinho da Fonseca e Edmundo de Bettencourt, e é impedioso, mais tarde, quando escreve em "A Criação do Mundo", porventura o seu título mais conseguido: "Intelectualizados da cabeça aos pés, mal tocavam a realidade. Eram platónicos no amor, teóricos no desporto, metafísicos no convívio."
É com "A Terceira Voz", um livro de prosa, que cria o pseudónimo Miguel Torga. A escolha não surge por caso: Torga é o nome de uma urze de Trás-os-Montes; Miguel é uma homenagem do escritor àqueles que o fazem esquecer Aljubarrota e o Tratado de Tordesilhas. Consequências: desde então, Torga não deixou de ser associado ao legado ibérico e, simultaneamente, a ser carimbado como um autor telúrico (que em ambos os casos o foi...).
Em 1941, instala-se em Coimbra, no Largo da Portagem, num consultório que permanece no activo quase até ao fim dos seus dias. Além de estadas regulares em S. Martinho de Anta, viaja pouco. Quando o fez, em 1936, relata o que vê - "O Quarto Dia da Criação do Mundo" (1939) - e não se sai bem: o livro é apreendido pela omnipresente censura de António de Oliveira Salazar; vai parar à prisão do Aljube, em Lisboa, onde fica preso alguns meses; vê os "Contos de Montanha" (1941) ser também retirado das estantes das livrarias e, como se não bastasse, a sua mulher Andrée Cabrée Rocha é impedida de ensinar na universidade.
Nem tudo é negro, porém, nos anos 40. Publica "Os Bichos" e "Novos Contos da Montanha" surge em 1944 (ainda hoje, talvez, os títulos mais conhecidos do grande público). Mas o escritor não se deixa deslumbrar. Sente, como escreve em "A Criação do Mundo" (V Volume), "um silêncio sepulcral à volta de cada obra que dava a lume." Desafaba mais e sobe a parada: "Era como se não existisse no mundo das letras."
Um monólogo pessimista
Este anátema não passa despercebido a Eduardo Lourenço, que, em 1955, publica "O Desespero Humanista de Miguel Torga e as Novas Gerações". Torga podia escrever e publicar sem parar, mas ia construindo, ao mesmo tempo, "um dos monólogos mais radicais de toda a poesia portuguesa" - um monólogo pessimista que Miguel Torga, quer se queira quer não, cultivou até ao fim.
Pode ter continuado a publicar à velocidade de cruzeiro nos anos 50 e 60, altura em que é pela primeira vez proposto para o Prémio Nobel da Literatura. Os vários volumes do "Diário" (chegou ao XVI) podem continuar a ser devorados sempre que sai um volume (um pouco como acontecerá com a "Conta-Corrente", de Vergílio Ferreira), a sua obra chega à meia centena de títulos, os seus livros podem estar traduzidos em 16 línguas, o Governo em 1978 pode mesmo homenageá-lo por ocasião dos 50 anos da sua carreira literária, pode ter sido o primeiro escritor a ganhar o Prémio Camões, em 1989, ou o Prémio Vida Literára/1991, atribuído por Presidente Mário Soares... Não importa, Torga resiste a tudo e não desarma no seu mundo solitário e pessimista.
O romancista Mário Cláudio acertou em cheio quando resumiu a vida do autor de "Orfeu Rebelde", há dez anos, no PÚBLICO, escrevendo que Torga foi "um solitário voluntário, um exilado no próprio país".
A sua obra, porém, está aí. Para ser lida e, muito provavelmente, para ser descoberta.
9 de janeiro de 2005
UM CICLISTA
Domingo, 09 de Janeiro de 2005
José Eduardo Agualusa
O passado é como o mar: nunca sossega. As casas encolhem, como os velhos, ao passo que as árvores crescem sem parar. Quando regressamos, decorridos muitos anos, aos lugares da nossa infância encontramos árvores gigantescas e, sufocando de terror à sombra delas, as casas minúsculas que um dia foram nossas. Mal reconhecemos a cama de bonecas em que dormimos quando éramos crianças. E o quintal? Era imenso. Tem dois palmos de fundo.
O meu pai dizia-me - "a vida é uma corrida, meu filho. Quem olha para trás enquanto corre, arrisca-se a tropeçar".
Eu não olho para trás. Avanço por vezes de olhos fechados, e tropeço, como os outros, e eventualmente caio, mas não olho para trás. Nunca fui pessoa de cultivar saudades. Não colecciono álbuns de fotografias, e jamais guardei pétalas secas entre as páginas de velhos livros. Sigo sempre em frente. Quando me perguntam para onde vou encolho os ombros. Rio-me:
"Adiante."
O mundo é infinito para quem viaja a pé. Eu viajo a pé, à boleia de algum camião, ou de bicicleta. Andando de camião, ou de bicicleta, o mundo parece um pouquinho menor, mas ainda assim, digo-lhe, é uma imensidão. Não tenho muitos estudos. Aprendi a ler e a contar. Raramente leio o que quer que seja. Quando encontro algum jornal lanço uma vista de olhos à página da necrologia. Como não conheço ninguém, não tenho amigos em parte nenhuma, choro pelos desconhecidos, aqueles que me parecem mais simpáticos, vou pelo semblante, entende?, ou pelo nome. Há sempre algum José por quem chorar. Não choro de pena. Choro apenas para praticar.
Enquanto viajo conto os quilómetros para enganar o tédio. Desconheço o que me espera quando cruzo uma fronteira. Não passo duas vezes pelo mesmo lugar. Cheguei ontem, por exemplo, do Huambo. O senhor conhece? Pois olhe, eu também nasci numa cidade chamada Huambo, mas muito longe deste país, nas montanhas do Peru. Tinha uma leprosaria que o Che Guevara visitou. Não há lugares repetidos. Só os nomes se repetem.
Como faço para sobreviver? Estou atento. Há poucos dias um camponês disse-me apontando em redor: "Tudo o que não é mato engorda". Concordo. Veja bem: as mangas. Durante um mês comi apenas mangas. Só o perfume das mangas, se forem doces, já alimenta. Isso, ou um canavial a arder. Goiabas maduras. Também se pode sobreviver muito tempo comendo unicamente milho ou feijão. Um homem em andamento não morre de fome. Entrei em Angola, pedalando esta bicicleta, e em poucos minutos estava no meio do deserto. Fui subindo. Na primeira noite dei com um acampamento de pastores. Ofereceram-me água e leite azedo. Na tarde seguinte parou um jipe à minha frente. Um branco e um preto. Ficaram muito admirados por verem um tipo assim como eu, meio índio, tão longe de tudo. Também eles me deram água. Levaram-me no jipe até Mossamedes. Depois subi a serra, sozinho, na minha bicicleta, e fiquei uma semana no Lubango, a descansar. Acontece chegar a uma cidade e achar que é agradável e então deixo-me estar um mês ou dois, procuro trabalho, engordo, e sempre ganho algum dinheiro para gastar no caminho. Lavo pratos, esfrego o chão, e além disso sou um bom cozinheiro. Quando sinto que me começo a afeiçoar a um lugar despeço-me e vou-me embora.
Quem não ama não sofre. Quem nada tem, não tem nada a perder. É o que penso.
Um dia adormeci no topo de um enorme despenhadeiro. Acordei com a primeira luz. A manhã pousou-me no ombro, como um pássaro, e ali ficou. Diante de mim havia o mar. Atrás de mim o céu profundo, altas montanhas. Era um lugar sem exemplo, arredado do mundo, como um elefante velho que se perdeu da manada. Até àquele instante eu viajava sem saber porquê. E então, sentado sobre o abismo, ocorreu-me pela primeira vez essa questão. "O que faço aqui?". Pensei em voltar para trás. Porém, tinha caminhado demais, e já tanto fazia recuar como avançar. Continuei em frente. Hoje viajo para saber porquê. Desaponta-o, talvez, este final - esperava outro?
Se tivesse ficado lá atrás, nas montanhas do Peru, onde nasci, venderia botões, como o meu pai. Teria algo a perder, família e dinheiro, por certo sofreria mais. Quanto ao resto não sei se seria, em substância, muito diverso do que sou hoje. Ignoraria certas coisas, sim, o senhor tem razão, mas não me prejudicaria tal ignorância, pois nem sequer daria por ela.
Não sei. Acho que um dia eu paro.
José Eduardo Agualusa
O passado é como o mar: nunca sossega. As casas encolhem, como os velhos, ao passo que as árvores crescem sem parar. Quando regressamos, decorridos muitos anos, aos lugares da nossa infância encontramos árvores gigantescas e, sufocando de terror à sombra delas, as casas minúsculas que um dia foram nossas. Mal reconhecemos a cama de bonecas em que dormimos quando éramos crianças. E o quintal? Era imenso. Tem dois palmos de fundo.
O meu pai dizia-me - "a vida é uma corrida, meu filho. Quem olha para trás enquanto corre, arrisca-se a tropeçar".
Eu não olho para trás. Avanço por vezes de olhos fechados, e tropeço, como os outros, e eventualmente caio, mas não olho para trás. Nunca fui pessoa de cultivar saudades. Não colecciono álbuns de fotografias, e jamais guardei pétalas secas entre as páginas de velhos livros. Sigo sempre em frente. Quando me perguntam para onde vou encolho os ombros. Rio-me:
"Adiante."
O mundo é infinito para quem viaja a pé. Eu viajo a pé, à boleia de algum camião, ou de bicicleta. Andando de camião, ou de bicicleta, o mundo parece um pouquinho menor, mas ainda assim, digo-lhe, é uma imensidão. Não tenho muitos estudos. Aprendi a ler e a contar. Raramente leio o que quer que seja. Quando encontro algum jornal lanço uma vista de olhos à página da necrologia. Como não conheço ninguém, não tenho amigos em parte nenhuma, choro pelos desconhecidos, aqueles que me parecem mais simpáticos, vou pelo semblante, entende?, ou pelo nome. Há sempre algum José por quem chorar. Não choro de pena. Choro apenas para praticar.
Enquanto viajo conto os quilómetros para enganar o tédio. Desconheço o que me espera quando cruzo uma fronteira. Não passo duas vezes pelo mesmo lugar. Cheguei ontem, por exemplo, do Huambo. O senhor conhece? Pois olhe, eu também nasci numa cidade chamada Huambo, mas muito longe deste país, nas montanhas do Peru. Tinha uma leprosaria que o Che Guevara visitou. Não há lugares repetidos. Só os nomes se repetem.
Como faço para sobreviver? Estou atento. Há poucos dias um camponês disse-me apontando em redor: "Tudo o que não é mato engorda". Concordo. Veja bem: as mangas. Durante um mês comi apenas mangas. Só o perfume das mangas, se forem doces, já alimenta. Isso, ou um canavial a arder. Goiabas maduras. Também se pode sobreviver muito tempo comendo unicamente milho ou feijão. Um homem em andamento não morre de fome. Entrei em Angola, pedalando esta bicicleta, e em poucos minutos estava no meio do deserto. Fui subindo. Na primeira noite dei com um acampamento de pastores. Ofereceram-me água e leite azedo. Na tarde seguinte parou um jipe à minha frente. Um branco e um preto. Ficaram muito admirados por verem um tipo assim como eu, meio índio, tão longe de tudo. Também eles me deram água. Levaram-me no jipe até Mossamedes. Depois subi a serra, sozinho, na minha bicicleta, e fiquei uma semana no Lubango, a descansar. Acontece chegar a uma cidade e achar que é agradável e então deixo-me estar um mês ou dois, procuro trabalho, engordo, e sempre ganho algum dinheiro para gastar no caminho. Lavo pratos, esfrego o chão, e além disso sou um bom cozinheiro. Quando sinto que me começo a afeiçoar a um lugar despeço-me e vou-me embora.
Quem não ama não sofre. Quem nada tem, não tem nada a perder. É o que penso.
Um dia adormeci no topo de um enorme despenhadeiro. Acordei com a primeira luz. A manhã pousou-me no ombro, como um pássaro, e ali ficou. Diante de mim havia o mar. Atrás de mim o céu profundo, altas montanhas. Era um lugar sem exemplo, arredado do mundo, como um elefante velho que se perdeu da manada. Até àquele instante eu viajava sem saber porquê. E então, sentado sobre o abismo, ocorreu-me pela primeira vez essa questão. "O que faço aqui?". Pensei em voltar para trás. Porém, tinha caminhado demais, e já tanto fazia recuar como avançar. Continuei em frente. Hoje viajo para saber porquê. Desaponta-o, talvez, este final - esperava outro?
Se tivesse ficado lá atrás, nas montanhas do Peru, onde nasci, venderia botões, como o meu pai. Teria algo a perder, família e dinheiro, por certo sofreria mais. Quanto ao resto não sei se seria, em substância, muito diverso do que sou hoje. Ignoraria certas coisas, sim, o senhor tem razão, mas não me prejudicaria tal ignorância, pois nem sequer daria por ela.
Não sei. Acho que um dia eu paro.
2 de janeiro de 2005
Perguntas à Língua Portuguesa, de Mia Couto
Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.
A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o vôo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem, é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como a escrita e o mundo mutuamente se desobedecem.
Meu anjo da guarda, felizmente, nunca me guardou.
Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica.
Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulburbio.
No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.
Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?
Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas? Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:
Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?
A diferença entre um às no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
O mato desconhecido é que é o anonimato?
O pequeno viaduto é um abreviaduto?
Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente?
Quem vive numa encruzilhada é um encruzilheu?
Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
Tristeza do boi vem dele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
Onde se esgotou a água se deve dizer: "aquabou"?
Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
Mulher desdentada pode usar fio dental?
A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: "finanças"?
Um tufão pequeno: um tufinho?
O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
Em águas doces alguém se pode salpicar?
Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?
Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocamos essoutro português - o nosso português - na travessia dos matos, fizemos que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.
Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas - o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos. Devolver a estrela ao planeta dormente.
Mia Couto - 11/04/1997
A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o vôo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem, é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como a escrita e o mundo mutuamente se desobedecem.
Meu anjo da guarda, felizmente, nunca me guardou.
Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica.
Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulburbio.
No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.
Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?
Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas? Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:
Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?
A diferença entre um às no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
O mato desconhecido é que é o anonimato?
O pequeno viaduto é um abreviaduto?
Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente?
Quem vive numa encruzilhada é um encruzilheu?
Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
Tristeza do boi vem dele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
Onde se esgotou a água se deve dizer: "aquabou"?
Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
Mulher desdentada pode usar fio dental?
A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: "finanças"?
Um tufão pequeno: um tufinho?
O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
Em águas doces alguém se pode salpicar?
Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?
Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocamos essoutro português - o nosso português - na travessia dos matos, fizemos que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.
Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas - o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos. Devolver a estrela ao planeta dormente.
Mia Couto - 11/04/1997
30 de dezembro de 2004
Receita de Ano Novo
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
23 de dezembro de 2004
Um sonho no sapatinho
O Francisco é um menino como todos os meninos que há na nossa rua, no nosso bairro ou na nossa escola. Mas o Francisco não mora no nosso bairro nem na nossa rua.
Mora numa vila onde a vida de todos se vive para lá e para cá de os muros de uma prisão. Perto, passa uma estrada importante e dessa estrada vêem-se uns grandes edifícios brancos. As pessoas interrogam-se: Será um hospital? Será um asilo? Ninguém se pergunta se ali há flores, crianças, pássaros ou animais, ferozes ou não.
Certamente, quem ali vive não pode estar em contacto com os outros, por perigo de contágio ou por não ser desejado, tendo sido deixado, abandonado...
Porém, o Francisco não é um menino infeliz. Cresceu naquela vila e desde sempre se habituou à paisagem cinzenta e verde, húmida e linda, no Inverno, ou amarela e quente, no Verão.
Com nove anos, o Francisco vai para a escola de mochila às costas e cruza-se com homens sombriamente cobertos de casacos pardos e escuros, de olhos também sombrios, pardos e escuros. Talvez da cor da solidão! Esses homens vão trabalhar para o campo, acompanhados de guardas prisionais.
O pai do Francisco é guarda prisional. Por isso, aquela farda, bem como a arma nunca lhe causaram espécie alguma de terror. Ele conhece bem o homem que se esconde debaixo daquela roupa, tão triste como a dos homens que costuma acompanhar: um homem bom. Um homem bom que diz muitas vezes à mulher, até a propósito de nada:
- O nosso Francisco há-de ter um mundo melhor!
Ele tem a ternura dos pastores, mas sabe que é olhado como um pastor de lobos, que defende as ovelhas que passam; não como um pastor de ovelhas, que as guarda dos lobos que aparecem. Ele conhece os homens que acompanha e sabe o quanto há de ovelha naquelas almas. Por outro lado, teme muitos dos que passam, pois neles pressente algo de lobo disfarçado, escondido.
O Francisco nunca provou um pão de cada dia mais doce, mais fofo, mais quente, mais agradável... No entanto, no fundo da sua consciência, como acontece com todo nós, há uma espécie de sabedoria de uma realidade melhor e mais feliz. Todos sabemos o que é a felicidade, embora possamos nunca a ter provado. Chama-se a isto consciência colectiva e diz-se que a razão reside no facto de todo o homem ter experimentado esta felicidade, pelo menos, no ventre seguro da sua mãe. Às vezes, esta experiência, ou a recordação dela, aparece-nos em sonhos, ou revela-se simplesmente na tendência em acreditar num mundo melhor, como acontece com o pai do Francisco.
E foi possivelmente por isso mesmo que ele, o Francisco, um dia, ou melhor, uma noite, teve um sonho muito lindo...
As pequenas janelas gradeadas das casas altas e frias rasgavam-se em largas janelas envidraçadas, muito transparentes e limpas. Não tinham cortinas: apenas um folho colorido, para enfeitar.
Uma trepadeira muito verde crescia a uma velocidade espantosa, agarrada às paredes brancas, que assim passavam a ser verdes, da cor dos montes ao longe. De minuto a minuto, nascia uma flor diferente. Os enormes muros que rodeavam a prisão derretiam, como derrete a gelatina, tomando depois a forma de bancos de jardim. E havia mesmo um jardim, onde brincavam meninos e meninas, crianças como ele, o Francisco da nossa história.
Os homens, os muitos homens que por ali andavam, já não se cobriam com casacos pardos e escuros! Usavam camisas coloridas, algumas com quadrados, quadrados grandes, também coloridos e bonitos, que em nada faziam lembrar as grades da prisão! Ao pé de cada homem, havia uma mulher como a mãe do Francisco, serena e feliz.
E o pai? Esse organizava a festa da vila, a grande festa da vila, o que sempre secretamente ambicionara. Os outros guardas ajudavam-no, entusiasmados e contentes.
Era realmente tempo de festa!
Era tempo de Natal! Era tempo de paz, de arrependimento e de perdão.
Era tempo de liberdade!
De manhã, o Francisco percebeu que nada tinha acontecido, nada havia mudado: a paisagem era muito fria e não havia cores para lá da janelinha do seu quarto.
Já bem acordado, foi até à sala. Lá estava o presépio que de ano para ano se tornava mais especial e mais bonito, graças à imaginação do Francisco e ao engenho do pai.
Parecia tudo muito perfeito, tal como o sonho. Até o sapatinho do Francisco, que já guardava vez, muito engraxado e brilhante.
Tão brilhante como a ideia do Francisco:
- Vou pôr o meu sonho no sapatinho!
(Publicado no manual "Lições de Português" do 6º ano, das autoras Ana Sousa, Ana Ribeiro dos Santos e Maria de Lurdes Pinto da Fonseca, Texto)
Mora numa vila onde a vida de todos se vive para lá e para cá de os muros de uma prisão. Perto, passa uma estrada importante e dessa estrada vêem-se uns grandes edifícios brancos. As pessoas interrogam-se: Será um hospital? Será um asilo? Ninguém se pergunta se ali há flores, crianças, pássaros ou animais, ferozes ou não.
Certamente, quem ali vive não pode estar em contacto com os outros, por perigo de contágio ou por não ser desejado, tendo sido deixado, abandonado...
Porém, o Francisco não é um menino infeliz. Cresceu naquela vila e desde sempre se habituou à paisagem cinzenta e verde, húmida e linda, no Inverno, ou amarela e quente, no Verão.
Com nove anos, o Francisco vai para a escola de mochila às costas e cruza-se com homens sombriamente cobertos de casacos pardos e escuros, de olhos também sombrios, pardos e escuros. Talvez da cor da solidão! Esses homens vão trabalhar para o campo, acompanhados de guardas prisionais.
O pai do Francisco é guarda prisional. Por isso, aquela farda, bem como a arma nunca lhe causaram espécie alguma de terror. Ele conhece bem o homem que se esconde debaixo daquela roupa, tão triste como a dos homens que costuma acompanhar: um homem bom. Um homem bom que diz muitas vezes à mulher, até a propósito de nada:
- O nosso Francisco há-de ter um mundo melhor!
Ele tem a ternura dos pastores, mas sabe que é olhado como um pastor de lobos, que defende as ovelhas que passam; não como um pastor de ovelhas, que as guarda dos lobos que aparecem. Ele conhece os homens que acompanha e sabe o quanto há de ovelha naquelas almas. Por outro lado, teme muitos dos que passam, pois neles pressente algo de lobo disfarçado, escondido.
O Francisco nunca provou um pão de cada dia mais doce, mais fofo, mais quente, mais agradável... No entanto, no fundo da sua consciência, como acontece com todo nós, há uma espécie de sabedoria de uma realidade melhor e mais feliz. Todos sabemos o que é a felicidade, embora possamos nunca a ter provado. Chama-se a isto consciência colectiva e diz-se que a razão reside no facto de todo o homem ter experimentado esta felicidade, pelo menos, no ventre seguro da sua mãe. Às vezes, esta experiência, ou a recordação dela, aparece-nos em sonhos, ou revela-se simplesmente na tendência em acreditar num mundo melhor, como acontece com o pai do Francisco.
E foi possivelmente por isso mesmo que ele, o Francisco, um dia, ou melhor, uma noite, teve um sonho muito lindo...
As pequenas janelas gradeadas das casas altas e frias rasgavam-se em largas janelas envidraçadas, muito transparentes e limpas. Não tinham cortinas: apenas um folho colorido, para enfeitar.
Uma trepadeira muito verde crescia a uma velocidade espantosa, agarrada às paredes brancas, que assim passavam a ser verdes, da cor dos montes ao longe. De minuto a minuto, nascia uma flor diferente. Os enormes muros que rodeavam a prisão derretiam, como derrete a gelatina, tomando depois a forma de bancos de jardim. E havia mesmo um jardim, onde brincavam meninos e meninas, crianças como ele, o Francisco da nossa história.
Os homens, os muitos homens que por ali andavam, já não se cobriam com casacos pardos e escuros! Usavam camisas coloridas, algumas com quadrados, quadrados grandes, também coloridos e bonitos, que em nada faziam lembrar as grades da prisão! Ao pé de cada homem, havia uma mulher como a mãe do Francisco, serena e feliz.
E o pai? Esse organizava a festa da vila, a grande festa da vila, o que sempre secretamente ambicionara. Os outros guardas ajudavam-no, entusiasmados e contentes.
Era realmente tempo de festa!
Era tempo de Natal! Era tempo de paz, de arrependimento e de perdão.
Era tempo de liberdade!
De manhã, o Francisco percebeu que nada tinha acontecido, nada havia mudado: a paisagem era muito fria e não havia cores para lá da janelinha do seu quarto.
Já bem acordado, foi até à sala. Lá estava o presépio que de ano para ano se tornava mais especial e mais bonito, graças à imaginação do Francisco e ao engenho do pai.
Parecia tudo muito perfeito, tal como o sonho. Até o sapatinho do Francisco, que já guardava vez, muito engraxado e brilhante.
Tão brilhante como a ideia do Francisco:
- Vou pôr o meu sonho no sapatinho!
(Publicado no manual "Lições de Português" do 6º ano, das autoras Ana Sousa, Ana Ribeiro dos Santos e Maria de Lurdes Pinto da Fonseca, Texto)
8 de dezembro de 2004
Dias da Mãe
Um filho não cabe num domingo de Maio! Uma mãe não cabe num domingo de Maio!
É uma intimidade universal e infinita! Não há tempos nem espaços que possam, de algum modo, confinar uma celebração, que é permanente e eterna, ao primeiro domingo de Maio.
Na celebração do calendário, existe ainda a ideia subjacente de que esta relação é de alegria, de ambos os lados, e de reconhecimento, de um. Ficam relegados, para outros planos, outras mães e outros filhos. E convenientemente esquecidos, outros sentimentos e outros estados de espírito, como a dor, o sofrimento, a aflição.
E foi a propósito de mães e de filhos que me lembrei, entre outros, do Suave Milagre. Uma mãe e um filho. Ambos tocados pela doença e pela pobreza. Viviam “num casebre desgarrado, sumido na prega de um cerro.” Ela, viúva, era “a mais desgraçada mulher de todas as mulheres de Israel.” O filho de sete anos vivia com ela, na mais terrível miséria.
Não fora a história de Cristo e os seus milagres, que antecede a apresentação da viúva e de seu filho; não fora o indício de esperança nesse milagre e certamente qualquer leitor, suficientemente castigado pelas notícias de guerra nas mesmas paragens, fecharia o livro e perderia a coragem de se condoer com mais uma história pungente. Não fora o seu autor Eça de Queirós e, provavelmente, a leitura ficaria pela metade...
Este conto ilustra a resistência, a conformação, a resignação, virtudes tão pregadas pelas várias doutrinas e tão difíceis de pôr em prática. Ilustra ainda a virtude maior: a esperança, que nasce nem se sabe muitas vezes porquê e alimenta os tristes até ao fim. E salva-os! Esta “mãe amargurada” ouve falar do doce Rabi e escuta “com olhos famintos”. A pobre criança também! E pede à mãe que o leve a ver Jesus. A mãe desesperada diz-lhe que não o pode deixar, para ir à procura do Rabi da Galileia. “Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora connosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos prende.” O filho insiste, com uma esperança ainda maior, mais firme. “Jesus ama todos os pequeninos” diz. A mãe soluça, a porta abre-se e Jesus entra naquele casebre esquecido.
Não é preciso ser cristão nem católico, para encontrar neste texto o sentido da esperança. Não é preciso ser muito impressionável, para se sentir o alívio daquela dor extrema, para o sentir como justo merecimento, para o tomar por milagre...
Entre outras personagens de Eça de Queirós, vamos encontrar outras mães. Maria Monforte deixa um filho bebé entregue a um pai fraco e abatido pelo desgosto da separação e do abandono da mulher.
Estudiosos de Eça de Queirós explicam estas personagens à luz da vida do autor, ele próprio alvo de rejeição. Os pais apenas se casaram depois do seu nascimento e a sua presença era incómoda para as moralidades burguesas da época.
Mas há mais mães, nas páginas e na vida de Eça de Queirós.
O conto A Aia celebra a mãe biológica, como hoje se diz, em termos de ciência, mas celebra também a mãe de leite, a ama. Quando a tecnologia ainda não produzia os leites artificiais, havia mães de leite. Produziam-no em quantidade suficiente para dar de mamar ao seu filho e a outro bebé que precisasse.
Todos sabemos que o acto de amamentar acrescenta muito afecto à ligação mãe e filho, o que é, nos dias de hoje, felizmente, aconselhado pelos médicos. E quando não vinga o conselho médico, vinga a moda! Se a causa é boa...
A aia amamenta o príncipe, ao mesmo tempo que amamenta o seu filho, um escravozinho moreno que dorme num berço pobre, de verga, ao lado do berço real, rico e de marfim. “A leal escrava, porém, a ambos cercava de carinho igual, porque, se um era o seu filho, o outro seria o seu rei.” E, em apenas algumas linhas, o autor explica a dedicação e o afecto que, tal como o leite do seu seio, dividia pelas duas crianças. Para as duas tinha sonhos. Se para um eram de realeza, para o outro eram de liberdade. E era pelo bebé real que mais temia. Como mãe de sangue, pressentia os perigos.
Depois de mãos inimigas terem assassinado o rei, assaltaram o palácio para roubarem o pequenino príncipe. Entre dois deveres, a dedicada mãe e fiel serva teve que escolher. A rainha, pálida de aflição, entrou nos aposentos dos bebés. Mas o príncipe dormia tranquilamente no berço pobre. Após esse lampejo de alegria por ver o filhinho salvo, “abraçou apaixonadamente a mãe dolorosa”, beijou-a, e chamou-lhe “irmã do seu coração”.
Todo o reino vibrava com a notícia da morte do “irmão bastardo do rei, homem depravado e vadio” e com a salvação do pequeno príncipe. A rainha, contudo, sabia que a vida do seu filho tinha custado outra vida, igualmente tenra e cheia de promessas. Numa tentativa de recompensar a aia, conduzia-a à Câmara dos Tesoiros, para que escolhesse o que quisesse, assinalando assim a sua gratidão.
A aia escolheu um punhal, cravou-o no peito, dizendo: “Salvei o meu príncipe, e agora... vou dar de mamar ao meu filho.”
Há trezentos e sessenta e cinco dias, quando ano é comum e mais um, quando o ano é bissexto, para celebrar estas mães e todas as outras, na mais perfeita e discreta intimidade.
É uma intimidade universal e infinita! Não há tempos nem espaços que possam, de algum modo, confinar uma celebração, que é permanente e eterna, ao primeiro domingo de Maio.
Na celebração do calendário, existe ainda a ideia subjacente de que esta relação é de alegria, de ambos os lados, e de reconhecimento, de um. Ficam relegados, para outros planos, outras mães e outros filhos. E convenientemente esquecidos, outros sentimentos e outros estados de espírito, como a dor, o sofrimento, a aflição.
E foi a propósito de mães e de filhos que me lembrei, entre outros, do Suave Milagre. Uma mãe e um filho. Ambos tocados pela doença e pela pobreza. Viviam “num casebre desgarrado, sumido na prega de um cerro.” Ela, viúva, era “a mais desgraçada mulher de todas as mulheres de Israel.” O filho de sete anos vivia com ela, na mais terrível miséria.
Não fora a história de Cristo e os seus milagres, que antecede a apresentação da viúva e de seu filho; não fora o indício de esperança nesse milagre e certamente qualquer leitor, suficientemente castigado pelas notícias de guerra nas mesmas paragens, fecharia o livro e perderia a coragem de se condoer com mais uma história pungente. Não fora o seu autor Eça de Queirós e, provavelmente, a leitura ficaria pela metade...
Este conto ilustra a resistência, a conformação, a resignação, virtudes tão pregadas pelas várias doutrinas e tão difíceis de pôr em prática. Ilustra ainda a virtude maior: a esperança, que nasce nem se sabe muitas vezes porquê e alimenta os tristes até ao fim. E salva-os! Esta “mãe amargurada” ouve falar do doce Rabi e escuta “com olhos famintos”. A pobre criança também! E pede à mãe que o leve a ver Jesus. A mãe desesperada diz-lhe que não o pode deixar, para ir à procura do Rabi da Galileia. “Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora connosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos prende.” O filho insiste, com uma esperança ainda maior, mais firme. “Jesus ama todos os pequeninos” diz. A mãe soluça, a porta abre-se e Jesus entra naquele casebre esquecido.
Não é preciso ser cristão nem católico, para encontrar neste texto o sentido da esperança. Não é preciso ser muito impressionável, para se sentir o alívio daquela dor extrema, para o sentir como justo merecimento, para o tomar por milagre...
Entre outras personagens de Eça de Queirós, vamos encontrar outras mães. Maria Monforte deixa um filho bebé entregue a um pai fraco e abatido pelo desgosto da separação e do abandono da mulher.
Estudiosos de Eça de Queirós explicam estas personagens à luz da vida do autor, ele próprio alvo de rejeição. Os pais apenas se casaram depois do seu nascimento e a sua presença era incómoda para as moralidades burguesas da época.
Mas há mais mães, nas páginas e na vida de Eça de Queirós.
O conto A Aia celebra a mãe biológica, como hoje se diz, em termos de ciência, mas celebra também a mãe de leite, a ama. Quando a tecnologia ainda não produzia os leites artificiais, havia mães de leite. Produziam-no em quantidade suficiente para dar de mamar ao seu filho e a outro bebé que precisasse.
Todos sabemos que o acto de amamentar acrescenta muito afecto à ligação mãe e filho, o que é, nos dias de hoje, felizmente, aconselhado pelos médicos. E quando não vinga o conselho médico, vinga a moda! Se a causa é boa...
A aia amamenta o príncipe, ao mesmo tempo que amamenta o seu filho, um escravozinho moreno que dorme num berço pobre, de verga, ao lado do berço real, rico e de marfim. “A leal escrava, porém, a ambos cercava de carinho igual, porque, se um era o seu filho, o outro seria o seu rei.” E, em apenas algumas linhas, o autor explica a dedicação e o afecto que, tal como o leite do seu seio, dividia pelas duas crianças. Para as duas tinha sonhos. Se para um eram de realeza, para o outro eram de liberdade. E era pelo bebé real que mais temia. Como mãe de sangue, pressentia os perigos.
Depois de mãos inimigas terem assassinado o rei, assaltaram o palácio para roubarem o pequenino príncipe. Entre dois deveres, a dedicada mãe e fiel serva teve que escolher. A rainha, pálida de aflição, entrou nos aposentos dos bebés. Mas o príncipe dormia tranquilamente no berço pobre. Após esse lampejo de alegria por ver o filhinho salvo, “abraçou apaixonadamente a mãe dolorosa”, beijou-a, e chamou-lhe “irmã do seu coração”.
Todo o reino vibrava com a notícia da morte do “irmão bastardo do rei, homem depravado e vadio” e com a salvação do pequeno príncipe. A rainha, contudo, sabia que a vida do seu filho tinha custado outra vida, igualmente tenra e cheia de promessas. Numa tentativa de recompensar a aia, conduzia-a à Câmara dos Tesoiros, para que escolhesse o que quisesse, assinalando assim a sua gratidão.
A aia escolheu um punhal, cravou-o no peito, dizendo: “Salvei o meu príncipe, e agora... vou dar de mamar ao meu filho.”
Há trezentos e sessenta e cinco dias, quando ano é comum e mais um, quando o ano é bissexto, para celebrar estas mães e todas as outras, na mais perfeita e discreta intimidade.
30 de novembro de 2004
MORREU FERNANDO PESSOA
Grande poeta de Portugal
Fernando Pessoa, o poeta extraordinário da Mensagem, poema de exaltação nacionalista, dos mais belos que se tem escrito, foi ontem a enterrar.
Surpreendeu-o a morte, num leito cristão do Hospital de S. Luís, no sábado à noite.
A sua passagem pela vida foi um rastro de luz e de originalidade. Em 1915, com Luís de Montalvor, Mário de Sá-Carneiro e Ronald de Carvalho - estes dois já mortos para a vida - lançou o Orpheu, que tão profunda influência exerceu no nosso meio litarário, e a sua personalidade foi-se depois afirmando mais e mais. Do fundo da sua~«tertúlia» a uma mesa do Martinho da Arcada, Fernando Pessoa era sempre o mais novo de todos os novos que em volta dele se sentavam. Desconcertante, profundamente original e estruturalmente verdadeiro, a sua personalidade era vária como vário o rumo da sua vida. Ele não tinha uma actividade «una», uma actividade dirigida: tinha múltiplas actividades.
Na poesia não era só ele: Fernando Pessoa; ele era também Álvaro de Campos e alberto Caeiro e Ricardo Reis. E era-os profundamente, como só ele sabia ser. E na poesia como na vida. E na vida como na arte.
Tudo nele era inesperado. Desde a sua vida, até aos seus poemas, até à sua morte.
Inesperadamente, como se se anunciasse um livro ou uma nova corrente literária por ele idealizada e vitalizada, correu a notícia da sua morte. Um grupo de amigos conduziu-o ontem a um jazigo banal do Cemitério dos Prazeres. Lá ficou, vizinho deoutro grande poeta que ele muito admirava, junto do seu querido Cesário, desse Cesário que ele não conhecera e que, como ninguém, compreendia.
Se Fernando Pessoa morreu, se a matéria abandonou o corpo, o seu espírito não abandonará nunca o coração e o cérebro dos que o amavam e admiravam. Entre eles fica a sua obra e a sua alma. A eles compete velar para que o nome daquele que foi grande não caia na vala comum do esquecimento.
Tinha 47 anos o poeta que ontem foi a enterrar. Quarenta e sete anos e um grande amor à Vida, à Arte, à Beleza. Quando novo, acasos do Destino, a que ele obedecia inteiramente - Fernando Pessoa teósofo, cristão, que conhecia todas as seitas religiosas e as negativistas, pagãos como só os artistas o sabem ser, Fernando Pessoa obedecia cegamente ao Destino - levaram-no para a África do Sul. E na Universidade do Cabo cursou o inglês. E de tal maneira estudou a língua que Shakespeare e Milton imortalizaram que, anos passados, apresentava nos cercles literários da serena Albion quatro livros de poemas - English Poems, I, II, III, IV; Antinous e 35 Sonnets. E num concurso de língua inglesa alcançou o primeiro prémio.
Depois, uma vez em Portugal, a sua actividade literária aumentou. É de então que data a sua colaboração na Águia, onde o seu messianismo metafísico, num célebre e elevado estudo, anunciou o aparecimento do Super Camões da literatura portuguesa.
1915. «Orpheu». Movimento intenso de renovação. Entretanto, colabora no Centauro, Exílio, Portugal Futurista, Contemporâna. Começa a ser amado e compreendido.
1924. Funda com Rui Vaz a revista Athena. Depois, de então para cá, a sua actividade multiplica-se. Colabora em revistas modernistas, como Presença, Momento e, há um mês ainda, no Sudoeste, que Almada Negreiros fundou com notável desassombro. Traduziu Shakespeare e Edgar Poe. Estas são, em linhas muito esquemáticas e gerais, as obras que definem a sua personalidade. Quem o quiser compreender folheie a sua obra vasta e dispersa. Começará a amá-lo.
*
Da capela do Cemitério dos Prazeres, para jazigo de família, cerca das onze horas de ontem, partiu o corpo do grande poeta. Alguns amigos de sempre acompanharam-no. Foram eles, pelo Orpheu, Luís de Montalvor, António Ferro, Raul Leal, Alfredo Guisado e Almada Negreiros; pela Presença, João Gaspar Simões; pelo Momento, Artus Augusto e José Augusto; e Ferreira Gomes, Diogo de Macedo, Dr. Celestino Soares, António Botto, Castelo de Morais, João de Sousa Fonseca, Dr. Jaime Neves, António Pedro, Albino Lapa, Silva Tavares, Vitoriano Braga, Augusto de Santa-Rita, Luís Pedro, Luís Moita, Manuel Serras, Dr. Boto de Carvalho, Rogério Perez, Celestino Silva, Telmo Felgueiras, Nogueira de Brito, Dante Silva Ramos, Carlos Queirós, Mário de Barros, Dr. Rui Santos, Marques Matias, Gil Vaz, Luís Teixeira e poucos mais.
O Sr. Capitão Caetano Dias, cunhado do poeta, representava a família.
Em frente do jazigo que Fernando Pessoa passa a habitar, Luís de Montalvor, seu companheiro de vinte e quatro anos de vida literária, proferiu simples e emotivas palavras em nome dos sobreviventes do grupo do «Orpheu».
E disse:
«Duas palavras sobre o trânsito mortal de Fernando Pessoa.
Para ele chegam duas palavras, ou nenhumas. Preferível fora o silêncio, o silêncio que já o envolve a ele e a nós, que é da estatura do seu espírito.
Com ele só está bem o que está perto de Deus. Mas também não deviam, nem podiam, os que foram pares com ele no convívio da sua Beleza, vê-lo descer à terra, ou antes, subir, ganhar as linhas definitivas da Eternidade, sem anunciar o protesto calmo, mas humano, da raiva que nos fica da sua partida.
Não podiam os seus companheiros de «Orpheu», antes os seus irmãos do mesmo sangue ideal da sua Beleza, não podiam repito, deixá-lo aqui, na terra extrema, sem ao menos terem desfolhado, sobra a sua morte gentil, o lírio branco do seu silêncio e da sua dor.
Lastimamos o homem, que a morte nos rouba, e com ele a perda do prodigio do seu convívio e da graça da sua presença humana. Somente o homem, é duro dizê-lo, pois que ao seu espírito e ao seu poder criador, a esses deu-lhes o Destino uma estranha formosura, que não morre.
O resto é com o génio de Fernando Pessoa. »
Os serviços fúnebres estiveram a cargo da Agência Barata.
Fernando Pessoa, o poeta extraordinário da Mensagem, poema de exaltação nacionalista, dos mais belos que se tem escrito, foi ontem a enterrar.
Surpreendeu-o a morte, num leito cristão do Hospital de S. Luís, no sábado à noite.
A sua passagem pela vida foi um rastro de luz e de originalidade. Em 1915, com Luís de Montalvor, Mário de Sá-Carneiro e Ronald de Carvalho - estes dois já mortos para a vida - lançou o Orpheu, que tão profunda influência exerceu no nosso meio litarário, e a sua personalidade foi-se depois afirmando mais e mais. Do fundo da sua~«tertúlia» a uma mesa do Martinho da Arcada, Fernando Pessoa era sempre o mais novo de todos os novos que em volta dele se sentavam. Desconcertante, profundamente original e estruturalmente verdadeiro, a sua personalidade era vária como vário o rumo da sua vida. Ele não tinha uma actividade «una», uma actividade dirigida: tinha múltiplas actividades.
Na poesia não era só ele: Fernando Pessoa; ele era também Álvaro de Campos e alberto Caeiro e Ricardo Reis. E era-os profundamente, como só ele sabia ser. E na poesia como na vida. E na vida como na arte.
Tudo nele era inesperado. Desde a sua vida, até aos seus poemas, até à sua morte.
Inesperadamente, como se se anunciasse um livro ou uma nova corrente literária por ele idealizada e vitalizada, correu a notícia da sua morte. Um grupo de amigos conduziu-o ontem a um jazigo banal do Cemitério dos Prazeres. Lá ficou, vizinho deoutro grande poeta que ele muito admirava, junto do seu querido Cesário, desse Cesário que ele não conhecera e que, como ninguém, compreendia.
Se Fernando Pessoa morreu, se a matéria abandonou o corpo, o seu espírito não abandonará nunca o coração e o cérebro dos que o amavam e admiravam. Entre eles fica a sua obra e a sua alma. A eles compete velar para que o nome daquele que foi grande não caia na vala comum do esquecimento.
Tinha 47 anos o poeta que ontem foi a enterrar. Quarenta e sete anos e um grande amor à Vida, à Arte, à Beleza. Quando novo, acasos do Destino, a que ele obedecia inteiramente - Fernando Pessoa teósofo, cristão, que conhecia todas as seitas religiosas e as negativistas, pagãos como só os artistas o sabem ser, Fernando Pessoa obedecia cegamente ao Destino - levaram-no para a África do Sul. E na Universidade do Cabo cursou o inglês. E de tal maneira estudou a língua que Shakespeare e Milton imortalizaram que, anos passados, apresentava nos cercles literários da serena Albion quatro livros de poemas - English Poems, I, II, III, IV; Antinous e 35 Sonnets. E num concurso de língua inglesa alcançou o primeiro prémio.
Depois, uma vez em Portugal, a sua actividade literária aumentou. É de então que data a sua colaboração na Águia, onde o seu messianismo metafísico, num célebre e elevado estudo, anunciou o aparecimento do Super Camões da literatura portuguesa.
1915. «Orpheu». Movimento intenso de renovação. Entretanto, colabora no Centauro, Exílio, Portugal Futurista, Contemporâna. Começa a ser amado e compreendido.
1924. Funda com Rui Vaz a revista Athena. Depois, de então para cá, a sua actividade multiplica-se. Colabora em revistas modernistas, como Presença, Momento e, há um mês ainda, no Sudoeste, que Almada Negreiros fundou com notável desassombro. Traduziu Shakespeare e Edgar Poe. Estas são, em linhas muito esquemáticas e gerais, as obras que definem a sua personalidade. Quem o quiser compreender folheie a sua obra vasta e dispersa. Começará a amá-lo.
*
Da capela do Cemitério dos Prazeres, para jazigo de família, cerca das onze horas de ontem, partiu o corpo do grande poeta. Alguns amigos de sempre acompanharam-no. Foram eles, pelo Orpheu, Luís de Montalvor, António Ferro, Raul Leal, Alfredo Guisado e Almada Negreiros; pela Presença, João Gaspar Simões; pelo Momento, Artus Augusto e José Augusto; e Ferreira Gomes, Diogo de Macedo, Dr. Celestino Soares, António Botto, Castelo de Morais, João de Sousa Fonseca, Dr. Jaime Neves, António Pedro, Albino Lapa, Silva Tavares, Vitoriano Braga, Augusto de Santa-Rita, Luís Pedro, Luís Moita, Manuel Serras, Dr. Boto de Carvalho, Rogério Perez, Celestino Silva, Telmo Felgueiras, Nogueira de Brito, Dante Silva Ramos, Carlos Queirós, Mário de Barros, Dr. Rui Santos, Marques Matias, Gil Vaz, Luís Teixeira e poucos mais.
O Sr. Capitão Caetano Dias, cunhado do poeta, representava a família.
Em frente do jazigo que Fernando Pessoa passa a habitar, Luís de Montalvor, seu companheiro de vinte e quatro anos de vida literária, proferiu simples e emotivas palavras em nome dos sobreviventes do grupo do «Orpheu».
E disse:
«Duas palavras sobre o trânsito mortal de Fernando Pessoa.
Para ele chegam duas palavras, ou nenhumas. Preferível fora o silêncio, o silêncio que já o envolve a ele e a nós, que é da estatura do seu espírito.
Com ele só está bem o que está perto de Deus. Mas também não deviam, nem podiam, os que foram pares com ele no convívio da sua Beleza, vê-lo descer à terra, ou antes, subir, ganhar as linhas definitivas da Eternidade, sem anunciar o protesto calmo, mas humano, da raiva que nos fica da sua partida.
Não podiam os seus companheiros de «Orpheu», antes os seus irmãos do mesmo sangue ideal da sua Beleza, não podiam repito, deixá-lo aqui, na terra extrema, sem ao menos terem desfolhado, sobra a sua morte gentil, o lírio branco do seu silêncio e da sua dor.
Lastimamos o homem, que a morte nos rouba, e com ele a perda do prodigio do seu convívio e da graça da sua presença humana. Somente o homem, é duro dizê-lo, pois que ao seu espírito e ao seu poder criador, a esses deu-lhes o Destino uma estranha formosura, que não morre.
O resto é com o génio de Fernando Pessoa. »
Os serviços fúnebres estiveram a cargo da Agência Barata.
NOTA BIOGRÁFICA ESCRITA POR FERNANDO PESSOA
Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa
Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freqguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de São Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888.
Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e que foi director-geral do Ministério do Reino e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral - misto de fidalgos e de judeus.
Estado: Solteiro.
Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exacta a de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». o ser poeta e escritor não constitui profissão mas vocação.
Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1.º dt.º, Lisboa. (Endereço postal - Caixa Postal 147, Lisboa).
Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.
Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto por várias revistas e publicações ocasionais. o que, de livros eou folhetos, considera como válido, é o seguinte: «35 Sonnets» (em inglês), 1918; «English Poems I-II» e «English Poems III», (em inglês também), 1922 e o livro «Mensagem», 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria «Poemas». o folheto «O Interregno», publicado em 1928 e constituindo uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.
Educação: Em virtude de, falecido o seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.
Ideologia política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservadorismo, e absolutamente anti-reaccionário.
Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo á Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais diante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da maçonaria.
Posição iniciática: Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.
Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo mítico, de onde seja abolida toda a infiltração católica-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade, nada contra a Nação».
Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.
Resumo destas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, grão-mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.
Lisboa, 30 de Março de 1935.
Fonte
Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freqguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de São Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888.
Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e que foi director-geral do Ministério do Reino e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral - misto de fidalgos e de judeus.
Estado: Solteiro.
Profissão: A designação mais própria será «tradutor», a mais exacta a de «correspondente estrangeiro em casas comerciais». o ser poeta e escritor não constitui profissão mas vocação.
Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1.º dt.º, Lisboa. (Endereço postal - Caixa Postal 147, Lisboa).
Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.
Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto por várias revistas e publicações ocasionais. o que, de livros eou folhetos, considera como válido, é o seguinte: «35 Sonnets» (em inglês), 1918; «English Poems I-II» e «English Poems III», (em inglês também), 1922 e o livro «Mensagem», 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional, na categoria «Poemas». o folheto «O Interregno», publicado em 1928 e constituindo uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.
Educação: Em virtude de, falecido o seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o comandante João Miguel Rosa, cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.
Ideologia política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservadorismo, e absolutamente anti-reaccionário.
Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo á Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais diante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da maçonaria.
Posição iniciática: Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.
Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo mítico, de onde seja abolida toda a infiltração católica-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade, nada contra a Nação».
Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.
Resumo destas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, grão-mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.
Lisboa, 30 de Março de 1935.
Fonte
28 de novembro de 2004
Um Agualusa quase natalício
LIVRE ARBÍTRIO
Domingo, 28 de Novembro de 2004
José Eduardo Agualusa
Um anjo caiu do futuro e estatelou-se em pleno Chiado. Levantou-se, sacudiu a poeira das asas, ensaiou dois ou três passos, ainda um tanto aturdido, e finalmente interrogou Fernando Pessoa:
"Pode dizer-me em que tempo estou?"
Era inverno mas a noite, límpida e seca, poderia ser de Verão - excepto pelo frio. Nas ruas não se via viva alma. O poeta ergueu-se devagar do seu silêncio de bronze e espreguiçou-se. Estudou, sem surpresa, o viajante. Suspirou, enfim, morto de tédio:
"Em toda a parte o tempo é semelhante. De onde você vem, por exemplo, não há com certeza mais nem melhor futuro do que aqui. Eventualmente, haverá apenas um pouco mais de passado."
O anjo era um tipo pálido e esguio. A sua silhueta recortava-se na noite como um simples traço de giz num quadro negro. Estava inteiramente nu e todavia isso não parecia incomodá-lo. Dir-se-ia imune ao frio. Fernando Pessoa esforçou-se durante um breve instante por aparentar alguma simpatia (há que ser simpático com os estrangeiros).
"Lá, de onde você vem, não se usam roupas?"
"Usam, mas ninguém viaja vestido através do tempo."
Pessoa desinteressou-se do viajante e voltou a sentar-se. O outro postou-se muito sério diante dele; os olhos, de um azul etéreo, quase transparentes, fixaram-se nos olhos absortos do poeta. Falava pausadamente, num esforço por dar às palavras a sua inteira substância, sílaba a sílaba, como quem só há pouco aprendeu o idioma. O sotaque era macio e quente, um pouco cantado:
"O que eu quero é saber se este é o tempo das guerras."
Fernando Pessoa encolheu os ombros magros:
"É o tempo dos homens, o que vai dar ao mesmo". Indicou a cadeira ao seu lado esquerdo: "Não se quer sentar? Podemos fazer de conta que estamos os dois a beber um café..."
O anjo sentou-se de cócoras na cadeira, como um adolescente, o queixo apoiado nos joelhos e os braços prendendo as pernas. A cabeleira comprida, muito loira, quase lhe ocultava as asas.
"Vim em busca do ódio."
"Veio ao tempo certo. Lembro-me do ódio desde muito novo. Lembro-me do quanto eu lhe era alheio... Posso saber porque lhe interessa esse tema?"
"Curiosidade. Pense em mim como um investigador."
"Compreendo", murmurou Pessoa: "como um antropólogo entre os canibais".
"Não", corrigiu o anjo: "como um zoólogo entre os chacais."
Fernando Pessoa concordou. Visitavam-no ali, n' "A Brasileira", toda a espécie de excêntricos. Um viajante do futuro, nu e com asas, em busca do mal, era do mal o menos. Sentia pesar-lhe sobre as pálpebras um grande sono metálico. Queria fechar os olhos e dormir. O anjo, porém, não o largava:
"Veja bem, o livre arbítrio..."
"O que tem o livre arbítrio?"
"O livre arbítrio permite que o senhor adormeça nessa cadeira, agora, ou que se levante e vá pela cidade em busca da beleza da vida. O livre arbítrio permite que os homens escolham entre o ódio e o amor..."
Fernando Pessoa começava a sentir um nervoso miudinho a subir-lhe pelas pernas. Seria o sono; seria aquele tipo com asas e a sua vã filosofia, ou tudo isso junto numa noite de inverno. Cortou irritado:
"Pois o que eu quero é dormir!..."
O anjo assustou-se com a veemência do poeta.
"Certo. Consigo compreender a sua escolha. Mas entre o amor e o ódio o que leva um homem a escolher o ódio?"
Fernando Pessoa não respondeu. Vieram-lhe à memória, sem motivo algum, imagens perdidas da sua infância em África. Ele nunca falava daquele tempo. Os dias eram cheios de vento. Os ossos estalavam, ao sol, sob a pele, como coisas antigas. Algures, na imensidão das tardes, ladravam cães. Voltou a ouvir o eco disperso dos gritos. Um menino, numa bicicleta, fugindo da turba (teria roubado a bicicleta?). Certa ocasião, numa estrada abandonada, vira uma coisa incrível: uma roseira explodindo em pleno asfalto.
"Não sei", disse. "Talvez o vazio. Talvez as pessoas se tenham esquecido de que existe livre arbítrio."
O tempo mudou com a madrugada. Choveu. Uma água mole, exausta, que a luz do sol atravessava com esforço. Os primeiros transeuntes que passaram, apressados, diante d' "A Brasileira", estranharam um pouco: não havia ninguém sentado à mesa do poeta.
Domingo, 28 de Novembro de 2004
José Eduardo Agualusa
Um anjo caiu do futuro e estatelou-se em pleno Chiado. Levantou-se, sacudiu a poeira das asas, ensaiou dois ou três passos, ainda um tanto aturdido, e finalmente interrogou Fernando Pessoa:
"Pode dizer-me em que tempo estou?"
Era inverno mas a noite, límpida e seca, poderia ser de Verão - excepto pelo frio. Nas ruas não se via viva alma. O poeta ergueu-se devagar do seu silêncio de bronze e espreguiçou-se. Estudou, sem surpresa, o viajante. Suspirou, enfim, morto de tédio:
"Em toda a parte o tempo é semelhante. De onde você vem, por exemplo, não há com certeza mais nem melhor futuro do que aqui. Eventualmente, haverá apenas um pouco mais de passado."
O anjo era um tipo pálido e esguio. A sua silhueta recortava-se na noite como um simples traço de giz num quadro negro. Estava inteiramente nu e todavia isso não parecia incomodá-lo. Dir-se-ia imune ao frio. Fernando Pessoa esforçou-se durante um breve instante por aparentar alguma simpatia (há que ser simpático com os estrangeiros).
"Lá, de onde você vem, não se usam roupas?"
"Usam, mas ninguém viaja vestido através do tempo."
Pessoa desinteressou-se do viajante e voltou a sentar-se. O outro postou-se muito sério diante dele; os olhos, de um azul etéreo, quase transparentes, fixaram-se nos olhos absortos do poeta. Falava pausadamente, num esforço por dar às palavras a sua inteira substância, sílaba a sílaba, como quem só há pouco aprendeu o idioma. O sotaque era macio e quente, um pouco cantado:
"O que eu quero é saber se este é o tempo das guerras."
Fernando Pessoa encolheu os ombros magros:
"É o tempo dos homens, o que vai dar ao mesmo". Indicou a cadeira ao seu lado esquerdo: "Não se quer sentar? Podemos fazer de conta que estamos os dois a beber um café..."
O anjo sentou-se de cócoras na cadeira, como um adolescente, o queixo apoiado nos joelhos e os braços prendendo as pernas. A cabeleira comprida, muito loira, quase lhe ocultava as asas.
"Vim em busca do ódio."
"Veio ao tempo certo. Lembro-me do ódio desde muito novo. Lembro-me do quanto eu lhe era alheio... Posso saber porque lhe interessa esse tema?"
"Curiosidade. Pense em mim como um investigador."
"Compreendo", murmurou Pessoa: "como um antropólogo entre os canibais".
"Não", corrigiu o anjo: "como um zoólogo entre os chacais."
Fernando Pessoa concordou. Visitavam-no ali, n' "A Brasileira", toda a espécie de excêntricos. Um viajante do futuro, nu e com asas, em busca do mal, era do mal o menos. Sentia pesar-lhe sobre as pálpebras um grande sono metálico. Queria fechar os olhos e dormir. O anjo, porém, não o largava:
"Veja bem, o livre arbítrio..."
"O que tem o livre arbítrio?"
"O livre arbítrio permite que o senhor adormeça nessa cadeira, agora, ou que se levante e vá pela cidade em busca da beleza da vida. O livre arbítrio permite que os homens escolham entre o ódio e o amor..."
Fernando Pessoa começava a sentir um nervoso miudinho a subir-lhe pelas pernas. Seria o sono; seria aquele tipo com asas e a sua vã filosofia, ou tudo isso junto numa noite de inverno. Cortou irritado:
"Pois o que eu quero é dormir!..."
O anjo assustou-se com a veemência do poeta.
"Certo. Consigo compreender a sua escolha. Mas entre o amor e o ódio o que leva um homem a escolher o ódio?"
Fernando Pessoa não respondeu. Vieram-lhe à memória, sem motivo algum, imagens perdidas da sua infância em África. Ele nunca falava daquele tempo. Os dias eram cheios de vento. Os ossos estalavam, ao sol, sob a pele, como coisas antigas. Algures, na imensidão das tardes, ladravam cães. Voltou a ouvir o eco disperso dos gritos. Um menino, numa bicicleta, fugindo da turba (teria roubado a bicicleta?). Certa ocasião, numa estrada abandonada, vira uma coisa incrível: uma roseira explodindo em pleno asfalto.
"Não sei", disse. "Talvez o vazio. Talvez as pessoas se tenham esquecido de que existe livre arbítrio."
O tempo mudou com a madrugada. Choveu. Uma água mole, exausta, que a luz do sol atravessava com esforço. Os primeiros transeuntes que passaram, apressados, diante d' "A Brasileira", estranharam um pouco: não havia ninguém sentado à mesa do poeta.
19 de novembro de 2004
Todas as infâncias têm mistérios
- Sua Excelência sofre de fartura!
In A Cidade e as Serras , de Eça de Queirós
Todas as infâncias têm mistérios.
O tempo, normalmente, encarrega-se de explicar alguns: a maior parte das vezes, porque a compreensão do mundo e dos factos torna evidência o que antes era mistério.
Mas há outros que permanecem mistérios.
O meu avô não era homem de muitas letras, mas via-o frequentemente embrenhado na leitura ( ou então de ouvido colado à telefonia, para ouvir o futebol). Em dado momento, reparei que o livro era sempre o mesmo: A Cidade e as Serras.
Mais tarde, quando a frequência do Liceu, me exigiu a leitura de romances de Eça de Queirós, Maias, Primo Basílio, o mistério avolumou-se : aquela leituras eram pesadas, carregadas, povoadas de personagens perversas, e havia incesto, havia adultério, suicídio...e nada disto me podia sugerir que o livro que o meu avô lia e relia fosse, o que mais tarde entendi, uma homenagem às coisas simples e verdadeiras.
Peguemos no livro! As primeiras páginas, repletas de adjectivos em dose dupla, como já é hábito em Eça, Zé Fernandes (o narrador/ personagem) apresenta-nos três Jacintos: Jacinto- avô, “gordíssimo e riquíssimo”, que, sem qualquer fundamento ideológico, desenvolve tal fanatismo pela causa miguelista, que tem que largar o país e partir para França, onde sempre viveu e onde morreu de indigestão de uma lampreia de escabeche; Jacinto-pai, “esguio e lívido”, que não viveu, passou pela vida como uma “Sombra”, como era conhecido entre os criados; e finalmente o Jacinto- neto, tido desde o berço como um afortunado, graças à herança genética do avô ou à boa -sorte das mezinhas da avó. A sua boa saúde de criança é resumida na frase “Não teve sarampo e não teve lombrigas.” E quanto à sua inteligência : “As Letras, a Tabuada e o Latim entraram por ele tão facilmente, como o sol por uma vidraça.”
Além de saudável e inteligente, o Jacinto era rico e tinha amigos. O Jacinto tinha tudo para ser feliz. Mas o que é ser feliz? Jacinto tinha concebido a ideia de que o homem só pode ser “superiormente feliz” se for “superiormente civilizado”, o que o arredava definitivamente da possibilidade de viver noutro sítio que não fosse Paris, o centro da civilização. E, enquanto pode, apetrecha a sua vida de civilização: o 202, o seu palácio nos Campos Elíseos, tem tudo o que se pode ter no final do século dezanove: máquina de escrever, máquina de calcular, telefone, fonógrafo, telégrafo, numeradores de páginas, coladores de estampilhas, águas quentes e frias, elevadores para a comida, penas eléctricas, etc. Até um elevador para pessoas, equipado com sofá e biblioteca, para uma viagem de sete segundos...
Depois de ter tudo e de tudo conseguir, Jacinto começa a padecer duma terrível enfermidade, o Tédio, que o abala tão tremendamente, que até o bigode murcha “caído, em fios pensativos”. E sofre muito, o Princípe da Grã-Ventura. Sofre de fartura, um sofrimento doloroso que o afunda num desespero imenso. O seu amigo Zé Fernandes e o fiel criado Grilo assistem, impotentes, ao desmoronar de uma felicidade, construída racionalmente sobre uma teoria, a da civilização.
Quando tudo parece perdido, quando parece não ter fim tão grande padecimento, Jacinto vê-se a braços com um problema legal, que o obriga a viajar até Portugal. Só há uma solução: encaixotar a civilização, transportá-la e aguentar mais este revés da vida.
E é neste revés que Jacinto vai reencontrar-se. É do lado de lá da civilização, é experimentando a absoluta ausência das marcas da dita civilização que Jacinto começa a encontrar-se: primeiro, na capacidade de deslumbrar os sentidos, nas paisagens, nos paladares, depois na satisfação da sua generosidade, cumprindo um sentido de justiça, o seu, o que lhe valia a fama de D. Sebastião, para alguns, e “Pai do Pobres”, para outros. E, por fim, na realização da felicidade pessoal, aquela que vai contrariar o seu pessimismo ao considerar-se o último Jacinto, “Jacinto ponto final”.
E o mistério reaparece: qual a razão da preferência desta leitura? Nunca cheguei a perguntar, porque adiei a leitura.
Algumas razões, eu adivinho. Outras, pressinto ainda descobrir, um dia que visite Tormes.
Leitura sugerida- A Cidade e as Serras de Eça de Queirós
José Maria Eça de Queirós nasceu na Póvoa de Varzim, a 25 de Novembro de 1845 e faleceu em Paris, a 16 de Agosto de 1900. Licenciado em Direito, pela Universidade de Coimbra, seguiu a vida diplomática, mas foi a carreira de escritor que lhe conferiu toda a notariedade. A sua intervenção intelectual revolucionou a mentalidade da sua época, tornando-o na figura mais emblemática da geração de escritores realistas.
Publicada a 23 de Fevereiro de 2001, na Nova Gazeta, Montijo
In A Cidade e as Serras , de Eça de Queirós
Todas as infâncias têm mistérios.
O tempo, normalmente, encarrega-se de explicar alguns: a maior parte das vezes, porque a compreensão do mundo e dos factos torna evidência o que antes era mistério.
Mas há outros que permanecem mistérios.
O meu avô não era homem de muitas letras, mas via-o frequentemente embrenhado na leitura ( ou então de ouvido colado à telefonia, para ouvir o futebol). Em dado momento, reparei que o livro era sempre o mesmo: A Cidade e as Serras.
Mais tarde, quando a frequência do Liceu, me exigiu a leitura de romances de Eça de Queirós, Maias, Primo Basílio, o mistério avolumou-se : aquela leituras eram pesadas, carregadas, povoadas de personagens perversas, e havia incesto, havia adultério, suicídio...e nada disto me podia sugerir que o livro que o meu avô lia e relia fosse, o que mais tarde entendi, uma homenagem às coisas simples e verdadeiras.
Peguemos no livro! As primeiras páginas, repletas de adjectivos em dose dupla, como já é hábito em Eça, Zé Fernandes (o narrador/ personagem) apresenta-nos três Jacintos: Jacinto- avô, “gordíssimo e riquíssimo”, que, sem qualquer fundamento ideológico, desenvolve tal fanatismo pela causa miguelista, que tem que largar o país e partir para França, onde sempre viveu e onde morreu de indigestão de uma lampreia de escabeche; Jacinto-pai, “esguio e lívido”, que não viveu, passou pela vida como uma “Sombra”, como era conhecido entre os criados; e finalmente o Jacinto- neto, tido desde o berço como um afortunado, graças à herança genética do avô ou à boa -sorte das mezinhas da avó. A sua boa saúde de criança é resumida na frase “Não teve sarampo e não teve lombrigas.” E quanto à sua inteligência : “As Letras, a Tabuada e o Latim entraram por ele tão facilmente, como o sol por uma vidraça.”
Além de saudável e inteligente, o Jacinto era rico e tinha amigos. O Jacinto tinha tudo para ser feliz. Mas o que é ser feliz? Jacinto tinha concebido a ideia de que o homem só pode ser “superiormente feliz” se for “superiormente civilizado”, o que o arredava definitivamente da possibilidade de viver noutro sítio que não fosse Paris, o centro da civilização. E, enquanto pode, apetrecha a sua vida de civilização: o 202, o seu palácio nos Campos Elíseos, tem tudo o que se pode ter no final do século dezanove: máquina de escrever, máquina de calcular, telefone, fonógrafo, telégrafo, numeradores de páginas, coladores de estampilhas, águas quentes e frias, elevadores para a comida, penas eléctricas, etc. Até um elevador para pessoas, equipado com sofá e biblioteca, para uma viagem de sete segundos...
Depois de ter tudo e de tudo conseguir, Jacinto começa a padecer duma terrível enfermidade, o Tédio, que o abala tão tremendamente, que até o bigode murcha “caído, em fios pensativos”. E sofre muito, o Princípe da Grã-Ventura. Sofre de fartura, um sofrimento doloroso que o afunda num desespero imenso. O seu amigo Zé Fernandes e o fiel criado Grilo assistem, impotentes, ao desmoronar de uma felicidade, construída racionalmente sobre uma teoria, a da civilização.
Quando tudo parece perdido, quando parece não ter fim tão grande padecimento, Jacinto vê-se a braços com um problema legal, que o obriga a viajar até Portugal. Só há uma solução: encaixotar a civilização, transportá-la e aguentar mais este revés da vida.
E é neste revés que Jacinto vai reencontrar-se. É do lado de lá da civilização, é experimentando a absoluta ausência das marcas da dita civilização que Jacinto começa a encontrar-se: primeiro, na capacidade de deslumbrar os sentidos, nas paisagens, nos paladares, depois na satisfação da sua generosidade, cumprindo um sentido de justiça, o seu, o que lhe valia a fama de D. Sebastião, para alguns, e “Pai do Pobres”, para outros. E, por fim, na realização da felicidade pessoal, aquela que vai contrariar o seu pessimismo ao considerar-se o último Jacinto, “Jacinto ponto final”.
E o mistério reaparece: qual a razão da preferência desta leitura? Nunca cheguei a perguntar, porque adiei a leitura.
Algumas razões, eu adivinho. Outras, pressinto ainda descobrir, um dia que visite Tormes.
Leitura sugerida- A Cidade e as Serras de Eça de Queirós
José Maria Eça de Queirós nasceu na Póvoa de Varzim, a 25 de Novembro de 1845 e faleceu em Paris, a 16 de Agosto de 1900. Licenciado em Direito, pela Universidade de Coimbra, seguiu a vida diplomática, mas foi a carreira de escritor que lhe conferiu toda a notariedade. A sua intervenção intelectual revolucionou a mentalidade da sua época, tornando-o na figura mais emblemática da geração de escritores realistas.
Publicada a 23 de Fevereiro de 2001, na Nova Gazeta, Montijo
16 de novembro de 2004
A biblioteca do macua
Cirila é uma menina que vive na Idade Média. Ela perde os pais e é obrigada a ir viver com o tio, o irmão do pai. Cirila vê-se envolvida numa aventura, ' incübida pelo tio, que às portas da morte lhe pede para descobrir o tesouro da família, enterrado algures perto da casa. Numa ponta do Arco-íris.
Cirila estava cansada.
Quando ela e Vicente, um dos criados
de Dom Afonso, saíram de sua casa, o sol,
lá no alto, ainda era pequeno e amarelo.
Agora, tinha baixado, estava maior e laranja,
querendo desaparecer no horizonte.
E isso dizia-lhe que já estavam a andar
há bastante tempo.
- Dom Afonso não pôde emprestar a carroça.
Foi precisa para carregar lenha para a lareira
- dissera o criado - A égua está à espera de cria
e a mula está muito velha.
Vicente veio buscar Cirila a mando do seu senhor
quando este soube que a sua cunhada,
mãe de Cirila, tinha morrido.
Em seis meses, as suas duas irmãs, o pai
e a mãe adoeceram e morreram.
E ninguém soube explicar como e porquê.
A não ser o padre lá do sítio que disse
que tinha sido a vontade de Deus.
Naquela altura, na Idade Média,
as pessoas adoeciam e morriam com frequência
e pouco se sabia acerca das doenças.
Cirila gostava de Dom Afonso
que era uma visita assídua de sua casa,
pernoitando lá várias vezes,
quando se afastava um pouco mais
por essas florestas para caçar lebres,
faisões e perdizes, deixando sempre para o irmão
metade da caça.
Algumas vezes, durante a caminhada,
Vicente achou que para chegarem mais depressa
ao destino, podiam fugir ao caminho
de terra batida cheio de altos e baixos
e, assim, atravessar alguns campos de trigo
onde algumas papoilas vermelhinhas
apareciam aqui e acolá, esquecendo-se que,
segundo o provérbio popular,
quem se mete por atalhos, mete-se em trabalhos.
Cirila tinha fome. O bocadinho de pão
que a sua vizinha dera para a viagem
acabara num instante.
Ela sabia que Vicente tinha qualquer coisa
dentro da sacola - um homem não se mete à estrada
assim sem mais nem menos,
de trouxa vazia - mas não se atrevia a pedir.
Era a primeira vez que Cirila se afastava tanto
do lugar onde tinha nascido.
Não fazia ideia que o mundo era tão grande.
Percorrido a pé então parecia nunca mais acabar.
Quando a casa de Dom Afonso apareceu ao longe,
o sovina do Vicente principiou a dizer que o melhor
seria alargarem o passo pois nessa noite
começava a lua cheia e podiam dar de caras
com algum lobisomem ou coisa parecida.
Cirila arrastava o passo.
A sua trouxa de serapilheira, contendo
a sua pouca roupa pesava-lhe toneladas no ombro
e nem a visão da casa a aumentar de tamanho,
à medida que se aproximavam,
lhe dava ânimo para continuar a marcha.
Porém, ao ouvir o nome de tal criatura - o lobisomem-
nurn instante endireitou as costas,
deu novo alento às pernas, e num instante
ultrapassou aquele unha de fome
que se recusava a partilhar
um bocado de côdea com ela,
e que além de sovina também era medricas.
Ele sim! É que parecia um lobisomem
com aquele cabelo desgrenhado,
os dentes esverdeados e aquele hálito fedorento
que lembrava peixe podre,
deixando-a quase moribunda
sempre que se virava na sua direcção
para lhe proferir alguma sentença.
Ela não sabia como era um lobisomem.
Durante os seus catorze anos
nunca tinha visto nenhum, felizmente!
Mas pelas histórias que já tinha ouvido contar,
vezes sem conta, imaginava de sobra
e sem ponta de dúvida, como seria a figura
desse homem transformado em lobo que,
errando pelos campos, atacava pessoas e animais.
ANABELA MÁXIMO DE SOUSA E SOUSA PASSOS (natural de Moçambique) é professora do 1.° ciclo em Lisboa.
Interessada desde sempre pela literatura infantil, entre outros textos que escreveu, o livro publicado agora pelo Instituto Piaget, NUMA PONTA DO ARCO-IRIS, foi distinguido com uma menção honrosa no concurso do Prémio de Poesia e Ficção de Almada 2002.
Cirila estava cansada.
Quando ela e Vicente, um dos criados
de Dom Afonso, saíram de sua casa, o sol,
lá no alto, ainda era pequeno e amarelo.
Agora, tinha baixado, estava maior e laranja,
querendo desaparecer no horizonte.
E isso dizia-lhe que já estavam a andar
há bastante tempo.
- Dom Afonso não pôde emprestar a carroça.
Foi precisa para carregar lenha para a lareira
- dissera o criado - A égua está à espera de cria
e a mula está muito velha.
Vicente veio buscar Cirila a mando do seu senhor
quando este soube que a sua cunhada,
mãe de Cirila, tinha morrido.
Em seis meses, as suas duas irmãs, o pai
e a mãe adoeceram e morreram.
E ninguém soube explicar como e porquê.
A não ser o padre lá do sítio que disse
que tinha sido a vontade de Deus.
Naquela altura, na Idade Média,
as pessoas adoeciam e morriam com frequência
e pouco se sabia acerca das doenças.
Cirila gostava de Dom Afonso
que era uma visita assídua de sua casa,
pernoitando lá várias vezes,
quando se afastava um pouco mais
por essas florestas para caçar lebres,
faisões e perdizes, deixando sempre para o irmão
metade da caça.
Algumas vezes, durante a caminhada,
Vicente achou que para chegarem mais depressa
ao destino, podiam fugir ao caminho
de terra batida cheio de altos e baixos
e, assim, atravessar alguns campos de trigo
onde algumas papoilas vermelhinhas
apareciam aqui e acolá, esquecendo-se que,
segundo o provérbio popular,
quem se mete por atalhos, mete-se em trabalhos.
Cirila tinha fome. O bocadinho de pão
que a sua vizinha dera para a viagem
acabara num instante.
Ela sabia que Vicente tinha qualquer coisa
dentro da sacola - um homem não se mete à estrada
assim sem mais nem menos,
de trouxa vazia - mas não se atrevia a pedir.
Era a primeira vez que Cirila se afastava tanto
do lugar onde tinha nascido.
Não fazia ideia que o mundo era tão grande.
Percorrido a pé então parecia nunca mais acabar.
Quando a casa de Dom Afonso apareceu ao longe,
o sovina do Vicente principiou a dizer que o melhor
seria alargarem o passo pois nessa noite
começava a lua cheia e podiam dar de caras
com algum lobisomem ou coisa parecida.
Cirila arrastava o passo.
A sua trouxa de serapilheira, contendo
a sua pouca roupa pesava-lhe toneladas no ombro
e nem a visão da casa a aumentar de tamanho,
à medida que se aproximavam,
lhe dava ânimo para continuar a marcha.
Porém, ao ouvir o nome de tal criatura - o lobisomem-
nurn instante endireitou as costas,
deu novo alento às pernas, e num instante
ultrapassou aquele unha de fome
que se recusava a partilhar
um bocado de côdea com ela,
e que além de sovina também era medricas.
Ele sim! É que parecia um lobisomem
com aquele cabelo desgrenhado,
os dentes esverdeados e aquele hálito fedorento
que lembrava peixe podre,
deixando-a quase moribunda
sempre que se virava na sua direcção
para lhe proferir alguma sentença.
Ela não sabia como era um lobisomem.
Durante os seus catorze anos
nunca tinha visto nenhum, felizmente!
Mas pelas histórias que já tinha ouvido contar,
vezes sem conta, imaginava de sobra
e sem ponta de dúvida, como seria a figura
desse homem transformado em lobo que,
errando pelos campos, atacava pessoas e animais.
ANABELA MÁXIMO DE SOUSA E SOUSA PASSOS (natural de Moçambique) é professora do 1.° ciclo em Lisboa.
Interessada desde sempre pela literatura infantil, entre outros textos que escreveu, o livro publicado agora pelo Instituto Piaget, NUMA PONTA DO ARCO-IRIS, foi distinguido com uma menção honrosa no concurso do Prémio de Poesia e Ficção de Almada 2002.
13 de novembro de 2004
Lobo Antunes, aos 25 anos... de escrita
"Não Sou Eu Que Escrevo Os Livros. É a Minha Mão, Autónoma"
Por Adelino Gomes
Vai para quatro meses que António Lobo Antunes mergulhou no universo ficcional que há-de constituir o seu 18º romance. Dele, apenas saberemos o ponto de partida - como a noite se faz dia; que o habitam duas mulheres e um homem; e que este terá pertencido à Pide. O resto é uma "nebulosa" que a "mão, autónoma" do escritor percorre e desvenda através das palavras. Várias horas por dia, numa acanhada mesa de tampo de vidro, onde se misturam as folhas já escritas, com originais enviados, para apreciação, por candidatos a escritores.
A celebração dos seus 25 anos de actividade literária, assinalada pela sua editora, Publicações Dom Quixote, com o lançamento de "Eu Hei-de Amar uma Pedra", obrigou Lobo Antunes, porém, a regressar ao convívio das personagens que habitam as 616 páginas deste seu último romance.
A história é do domínio público desde o lançamento do romance anterior, "Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo", em 2003. Os leitores não conheciam ainda o seu novo livro, e já o escritor, impressionado, lhes desvendava a trama do próximo - o desencontro amoroso de um homem e de uma mulher que se amaram aos 17 anos; se perderam (ela doente num sanatório, ele a tirar um curso superior, em Lisboa, e a supô-la morta); se reencontram quando ele, tirado o curso, já tem mulher e duas filhas; e se voltam a amar, de um amor nunca consumado, na clandestinidade de um quarto de uma pensão na Graça, de passeios ocasionais a Sintra, do aluguer de toldos quase contíguos na praia de Tavira, durante as férias do Verão - a mulher a fazer crochet, sem levantar os olhos nunca para o homem estendido ao sol com filhas, genros, esposa. O homem morrerá já octogenário, num dos encontros platónicos no quarto da hospedaria da Graça.
António Lobo Antunes passou todos estes dados pela sua refinadora literária. É desse processo criativo "prodigioso e singular" que o autor nos fala.
Mil Folhas - "Eu Hei-de Amar Uma Pedra" nasceu de uma história que lhe contaram no Miguel Bombarda, quando ia a passar uma senhora de 80 e tal anos. Mas dela está só o osso...
António Lobo Antunes - Está toda desmantelada...
P. - Porquê?
R. - Como digo sempre, só começo um livro quando estou certo de não ser capaz de o escrever. Para contar aquela história assim, é necessária uma delicadeza de mão que eu não tenho.
P. - Pensei que ia responder com outra coisa, que costuma dizer também: "A intriga é o prego onde se pendura o quadro."
R. - Não imagina: dos primeiros capítulos fiz oito, nove, dez versões. Eram todas muito más. Normalmente são-no, mas depois consegue-se tirar delas o capítulo. Fui deixando passar o tempo, deixando que aquilo dentro de mim se transformasse. O livro nasceu sem plano. Tinha pensado fazer o livro com fotografias. Mas percebi que não era possível, que tinha que mudar de voz. Aquilo no fundo é polifónico. É uma voz sempre a falar.
P. - Polifónico, mas dissonante. As suas frases têm vozes que soam como música concreta...
R. - É uma única voz que fala. Mas eu não quero magoar nenhuma daquelas pessoas. Não as conheço, mas elas estão vivas. Vi a senhora três segundos, a passar, numa porta. A partir do que vi, podia fantasiar.
P. - Quando ouvi a história, contada por si nas sucessivas entrevistas, também a "vi" - no toldo em Tavira, a passear em Sintra, na hospedaria na Graça. Mas fiquei quase 90 páginas à espera que me aparecessem os primeiros sinais dela. Esteve a esconder-nos aquilo que sabia que queríamos? Porque, como já disse, é uma história "desgarradoramente bela"?
R. - É muito difícil de contar. Tem que ser contada com uma mão de escriturário, quase. Há um ponto essencial, também no jornalismo, que é a retenção da informação. E dá-la de uma forma lateral. Como os grandes romancistas policiais fazem. Olhe, esses manuscritos aí [três ou quatro, pousados do lado direito da secretária de vidro] são primeiros romances. Dizem tudo. São maus porque dizem tudo.
Pudor na vida, pudor na escritaP. - Achou que a melhor maneira de defender a história era sugeri-la apenas?
R. - Isso seria de uma grande elegância da minha parte, mas não seria honesto dizer que foi por isso. Há quatro ou cinco meses recebi uma carta que vem na "Fotobiografia" [organizada por Tereza Coelho e que acaba de ser lançada pelas Publicações Dom Quixote], na qual o meu editor francês, Christian Bourgois, dizia: "Tenho um cancro." Depois pediu-me para o ir ver. O patrão dele, que era o [René] Juliard, tinha morrido com um cancro do esófago. A coragem e a serenidade dele deixaram-me estupefacto. Quando me despedi, disse-me: "Não te preocupes comigo." Foi operado, está melhor, construíram-lhe o esófago a partir do estômago, há dois dias telefonei à mulher e disse-lhe que ele tinha uma coragem extraordinária. Ela respondeu: "Não. É elegante." Encontrei isso no Ernesto [Melo Antunes, seu comandante na guerra em Angola, falecido em 1999]. Tinha um cancro do pulmão, inoperável. Dois dias antes de morrer disse-me: "Esta manhã acordei todo molhado. Não me deixes morrer sem dignidade." Foi a única vez que ele se referiu à doença. Aqui há uns temos a filha mais velha - comove-me até as lágrimas ver a miúda, é tão parecida com o pai - contou-me que estavam a almoçar (são três irmãos, duas raparigas e um rapaz) e o pai disse-lhes, no meio da sopa: "Tenho um cancro do pulmão." E continuou a comer. É este pudor, é esta contenção que a gente tem que tentar transpor para aquilo que escreve. E para a nossa vida, até. O meu pai, no fim da vida, já muito mal, o que dizia era: "Nada de pieguices." P. - O contar desta história é também assim. Mas há um paradoxo aí, porque, no fim de contas, desnuda tudo.
R. - Um amigo tem dentro de si um lugar insubstituível, a gente perde-o e continua a ter saudades dele. E depois cada um tem o seu lugar. Estou a chegar à idade em que, como gosto de homens mais velhos do que eu, com quem aprendo, os meus amigos vão morrendo e isso custa-me muito. Ver o Eugénio de Andrade no estado em que está... Outro dia estava a olhar para o Eduardo Lourenço e a pensar: "Livra-te de morreres antes de mim!" A morte de um amigo é muito dolorosa. P. - Esta senhora que perpassa no livro e que viu três segundos podia ser sua amiga? Ela no livro não diz nada, faz "crochet" e deixa que a mão do amado pouse sobre a dela, todas as quartas-feiras, num quarto alugado de uma hospedaria. Não teve a tentação de a conhecer?
R. - Não quis conhecê-la porque senão depois não podia escrever. Não posso agarrar em si e pô-lo num romance. P. - Ora essa, tem tantas personagens reais nos seus livros...
R. - Reais? É um pouco como a Lisboa cenário de alguns livros, é uma Lisboa inventada. P. - Não tem tias nos livros?
R. - As tias que aparecem nos livros também as conheci assim. Eram tias do meu avô. Eram senhoras que vinham do Brasil e que viviam nuns andares muito escuros. Eu era pequeno e ia lá com o meu avô. Ficava ali, num canto. Seria incapaz de pôr um irmão meu como personagem. O Ernesto, por exemplo, aparece em "Os Cus de Judas". Mas a nossa relação nessa altura não era a relação de irmãos em que se foi tornando. O que ponho num romance são um nariz que apanho ali, uma feição, um gesto. P. - Neste livro há apenas o pequeníssimo círculo familiar e mesmo esse reduzido a breves frases, ou a cenas escondidas, às vezes de ordem sexual. O meio ambiente é assim tão irrelevante?
R. - Tenho a sensação que não sou eu que escrevo os livros. É a mão. Escrevo sempre à mão. O meu problema é estar suficientemente cansado até a mão estar autónoma e tornar-se feliz. P. - A isso chamava-se dantes, romanticamente, musas.
R. - Por que é que um dia faço uma página, outro dia faço quatro linhas e outro dia estou três horas e nem uma palavra sai? O que é que faz que isto varie? Depois, comecei a dar-me conta de que adormeço a ler. Há aquela altura em que se está entre o dormir e o acordar e se flutua. Depois, quando despertava, percebia que não estava a ler o que estava ali escrito, estava a ler outras coisas que eu julgava que estava a ler e que não eram o livro. Então pensei (isto já foi há uns anos): eu tenho é que conseguir um estádio próximo deste para escrever. E depois, bem desperto, estruturar isto tudo. P. - Precisava de inventar um heterónimo, porque já não é o António Lobo Antunes que está a escrever?
R. - É qualquer coisa dentro de mim que é anterior às palavras e em relação à qual a crítica racional não funciona. O meu problema é atingir esse estado. Preciso de estar cansado para aquilo começar a sair. P. - Um pouco esotérico, isso, não acha?
R. - Não acho nada. Não vê que em todos nós existe isto? Por exemplo, está a sonhar e de repente compreende que descobriu o segredo do mundo e da vida. Tem consciência de que está a dormir e quer acordar. E, à medida que vai acordando, isto vai-se esfumando, esfumando, esfumando. Quando chega à superfície, isto não tem nada. Nunca lhe aconteceu? P. - O que me dá ideia é que isso é a parte em que eu sou menos eu. É a parte em que eu tenho menos mérito. Aliás, costuma dizer que trabalha dez, 12 horas por dia.
R. - Mas eu não penso em termos de mérito. E isso não é mérito. Muito mais trabalha um operário. Não faço mais nada, sou pago para isso. P. -E fica à espera de entrar em estado de dormência?
R. -Não preciso de estar à espera, preciso de provocá-lo. Isso consegue-se através do cansaço.
"'Ulisses', de Joyce, irrita-me"
P. - Não acha que está a menorizar o seu talento, a sua inspiração?
R. - É qualquer coisa que existe dentro de si e em lugares a que a gente não tem acesso - que nos aparece nos sonhos, nos aparece nos impulsos, nos aparece, por exemplo, na escolha dos amigos. É completamente irracional. Porque é que eu hei-de gostar de A e não de B? Até a escolha dos partidos tem muito de afectivo. Eu não escrevo aquilo que quero. Escrevo aquilo que o livro quer.
P. - Escrever o que o livro quer não poderá levar o autor ao culto da forma, paradoxalmente?
R. - O "Ulisses", de Joyce, irrita-me. Por um lado, não posso deixar de admirar as habilidades formais dele; por outro, irrita-me, porque é uma pirueta, não é eficaz. Convidam-me muitas vezes, porque pensam que um escritor diz coisas inteligentes. Esperar que um escritor diga coisas inteligentes é o mesmo que esperar que um acrobata ande aos saltos mortais pela rua. O que eu sou fundamentalmente é um homem comum, cujo trabalho é este. Construí toda a minha vida, desde que me conheço, para isto. Não tem mérito nenhum. É preciso trabalhar muito. Ler muito. Ter uma atitude humilde perante a vida. Ser uma espécie de esponja onde as coisas entram e saem.
P. - Ser um grande escritor é isso que me diz?
R. - Ser um grande escritor é produzir um objecto que, quando eu o leio, foi escrito só para mim. Os outros exemplares dizem coisas diferentes. E não o empresto, porque há uma relação pessoal entre mim e esse livro, que me está a falar de mim mesmo e que me está a mostrar zonas minhas que me iluminam. Um grande escritor é um homem que faz um espelho onde eu vejo o homem nu que sou.
Contar só a história não dáP. -Neste último livro são várias as alusões a situações sexuais de carácter incestuoso. É novidade nos seus livros, não é?
R. - Neste [que o autor já está a escrever], há bocado, também notei que havia isso. P. - Há o pai com a filha, naqueles apertares de mão no circo. E há depois na relação mãe-filho algo que decorre no plano onírico...
R. - Não era uma decisão consciente, não era uma ideia clara na minha cabeça. Agora este está a fugir-me por todos os lados. P. - E já lhe apareceu também o incesto?
R. - Há aqui um capítulo... O tipo da Pide [personagem do próximo romance, sobre a madrugada e a a manhã - ver entrevista do autor ao PÚBLICO de 9.11.04]... este homem... não se percebe bem, está sempre à procura de justificações... Está uma nebulosa ainda muito grande. P. - No novo livro está portanto ainda à procura. Mas no anterior não: partiu já com a história toda. Do que é que andou à procura, naquelas primeiras páginas e páginas iniciais, em que não nos dá a ver os dois amantes centrais?
R. - Quando eu comecei a fazer consultas de psicoterapia, o homem com quem eu tinha aprendido a técnica toda dizia-me: "Agora esqueça-se e vá lá para dentro." Você tem a história. Mas ela vai aparecer-lhe fragmentada. É um desafio óptimo, do ponto de vista técnico. Nem imagina o que tem que se lutar para reter aquilo. Dá vontade de dar logo aquele bombom. P. - Mas depois acaba e nós sentimo-nos ainda com um pouco de fome da história. A sua mão cheia de pudor deu-nos os traços e foi-se embora.
R. - A tendência natural é: "Toma lá!" O difícil é mantermo-nos no gume. Mas contar só a história, depois escrita, não dá. Já reparou nos grandes romances? [O que é] "O Velho e o Mar" [1952, Ernest Hemingway]? É um velho que vai buscar um peixe, os outros peixes comem-lhe o peixe e ele chega a casa sem peixe. "Anna Karenina" [1877, Leão Tolstoi]? Uma mulher que é casada, está farta do marido, vai para a cama com outro, arrepende-se e morre. O que é a "Odisseia" [escrito por Homero, provavelmente no século VIII a.C.]? Tenho a minha mulher à espera. É só isto, umas coisas que o gajo arranja para não ir para casa. P. - Este livro é sobre um homem e uma mulher que se amaram uma vez, perderam-se e reencontraram-se, quando já não se podiam amar. Mas que se amavam e por isso se encontravam às escondidas sem quase se consentirem amar...
R. - ... e aparece muito menos no livro toda essa dimensão amorosa. Como é que se faz isso? Desmantela-se a história. E, no entanto, mantém-se lá. P. - Desenhada em pinceladas muito vagas, assim à Renoir.
R. - Então fico contente. Mas penso que a leitura não oferece problemas. P. - Que lugar ocupa na sua lista das melhores obras?
R. - Aí estou de acordo com o meu agente: tenho feito livros [cada vez] melhores. Por enquanto. E daí o meu medo com este agora [que está a escrever]. Esse que sai já o acabei há um ano. Continuo contente com ele. Tenho orgulho em tê-lo escrito.
CAIXA
Muro de Berlim e o "ilimitado"
O escritor habitava em Berlim, ainda separada por um muro que dividia a Alemanha em dois regimes antagónicos. Além da experiência vivencial "extraordinária", foi esse o momento em que descobriu outra forma de escrever um romance.
Mil Folhas - Diz que não escreve aquilo que quer, mas aquilo que o livro quer. Pode explicar melhor?
António Lobo Antunes - Não sei. Não é nada racional. Ao princípio fazia planos todos muito detalhados - antes de começar a escrever, o que me tirava a surpresa do livro. Comecei assim o "Tratado das Paixões da Alma" [1990]. Com um plano. Na altura [1989] vivia em Berlim, com uma bolsa. O meu vizinho de andar era o Luigi Nono, compositor [italiano, falecido no ano seguinte], casado com a filha do [compositor, falecido em 1951 Arnold] Schönberg. P. - Também estava lá com uma bolsa?
R. - Sim, uma bolsa da cidade de Berlim Ocidental. Era uma cidade espantosa: na mesma noite tínhamos um concerto da Filarmónica, um concerto da Sinfónica de Karajan, outro do Charlie Mingus... P. - ... e mais 400 espectáculos na área do "off-off"...
R. - ... galerias abertas toda a noite, discotecas, sítios com poetas a dizerem poesia... E depois, de repente, caiu o Muro. Uma experiência extraordinária. P. - E o António a escrever.
R. - Tinha começado o livro dois meses antes. Andei ali, para trás e para a frente com o primeiro capítulo, e percebi que aquilo não voava. Depois lembrei-me de uns versos do Apollinaire ["La jolie rousse", poema a Jacqueline Kolb, 1917]:
"Pitié pour nous qui combattons toujours aux frontières
De l'illimité et de l'avenir"
Pensei: "Eu tenho que escrever coisas passadas no ilimitado..." Correr mais riscos. Ser mais honesto para comigo mesmo, ou seja, não me mover num terreno que já conheço mais ou menos bem, até do ponto de vista verbal. Tentar escrever aquilo que eu não sou capaz de escrever. Por exemplo, no "Eu Hei-de Amar Uma Pedra", aquilo estava uma luta. Depois de escrever isto e isto e isto, dizia: "Não presta, não presta, não presta." Depois: "Não vou deixar que um livro me vença." Julgo que era o Jules Renard que dizia que não havia talento, havia bois. P. - Havia?...
R. -Bois. Que não havia nenhuma frase que um principiante não pudesse fazer, que um livro é trabalho. Eu penso que é. E então temos que o escrever com a chamada "eficácia". Eu entendo por eficácia o não sacrificar a tentação de uma bela metáfora, de uma imagem bonita, ao seu material. Não estarmos a dizer ao leitor: "Repara no que eu sou capaz de fazer." O livro é que tem que ser inteligente, não o escritor. P. - Esse encantamento em Berlim, que o levou a mudar de registo, faz lembrar a noite de êxtase contada por um escritor de quem, julgo, não gosta muito, sobre o nascimento de um heterónimo: Fernando Pessoa [sobre Alberto Caeiro, em 8 de Março de 1914]. O António Lobo Antunes, que fala em trabalho e em eficácia, em êxtase?
R. - Às vezes a gente põe-se a pensar: como é que eles descobriram os Açores? E a Madeira? A gente trabalha no escuro, mas tem que navegar na direcção certa. Não é por acaso que aquilo acontece. Não é por acaso.
DESTAQUES
Estou a chegar à idade em que, como gosto de homens mais velhos do que eu, com quem aprendo, os meus amigos vão morrendo e isso custa-me muito.
Esses manuscritos aí [três ou quatro, pousados do lado direito da secretária de vidro] são primeiros romances. Dizem tudo. São maus, porque dizem tudo.
[Escrever] é qualquer coisa dentro de mim que é anterior às palavras e em relação à qual a crítica racional não funciona.
Ser um grande escritor é produzir um objecto que, quando eu o leio, foi escrito só para mim. Os outros exemplares dizem coisas diferentes.
Tenho feito livros [cada vez] melhores. Por enquanto.
Por Adelino Gomes
Vai para quatro meses que António Lobo Antunes mergulhou no universo ficcional que há-de constituir o seu 18º romance. Dele, apenas saberemos o ponto de partida - como a noite se faz dia; que o habitam duas mulheres e um homem; e que este terá pertencido à Pide. O resto é uma "nebulosa" que a "mão, autónoma" do escritor percorre e desvenda através das palavras. Várias horas por dia, numa acanhada mesa de tampo de vidro, onde se misturam as folhas já escritas, com originais enviados, para apreciação, por candidatos a escritores.
A celebração dos seus 25 anos de actividade literária, assinalada pela sua editora, Publicações Dom Quixote, com o lançamento de "Eu Hei-de Amar uma Pedra", obrigou Lobo Antunes, porém, a regressar ao convívio das personagens que habitam as 616 páginas deste seu último romance.
A história é do domínio público desde o lançamento do romance anterior, "Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo", em 2003. Os leitores não conheciam ainda o seu novo livro, e já o escritor, impressionado, lhes desvendava a trama do próximo - o desencontro amoroso de um homem e de uma mulher que se amaram aos 17 anos; se perderam (ela doente num sanatório, ele a tirar um curso superior, em Lisboa, e a supô-la morta); se reencontram quando ele, tirado o curso, já tem mulher e duas filhas; e se voltam a amar, de um amor nunca consumado, na clandestinidade de um quarto de uma pensão na Graça, de passeios ocasionais a Sintra, do aluguer de toldos quase contíguos na praia de Tavira, durante as férias do Verão - a mulher a fazer crochet, sem levantar os olhos nunca para o homem estendido ao sol com filhas, genros, esposa. O homem morrerá já octogenário, num dos encontros platónicos no quarto da hospedaria da Graça.
António Lobo Antunes passou todos estes dados pela sua refinadora literária. É desse processo criativo "prodigioso e singular" que o autor nos fala.
Mil Folhas - "Eu Hei-de Amar Uma Pedra" nasceu de uma história que lhe contaram no Miguel Bombarda, quando ia a passar uma senhora de 80 e tal anos. Mas dela está só o osso...
António Lobo Antunes - Está toda desmantelada...
P. - Porquê?
R. - Como digo sempre, só começo um livro quando estou certo de não ser capaz de o escrever. Para contar aquela história assim, é necessária uma delicadeza de mão que eu não tenho.
P. - Pensei que ia responder com outra coisa, que costuma dizer também: "A intriga é o prego onde se pendura o quadro."
R. - Não imagina: dos primeiros capítulos fiz oito, nove, dez versões. Eram todas muito más. Normalmente são-no, mas depois consegue-se tirar delas o capítulo. Fui deixando passar o tempo, deixando que aquilo dentro de mim se transformasse. O livro nasceu sem plano. Tinha pensado fazer o livro com fotografias. Mas percebi que não era possível, que tinha que mudar de voz. Aquilo no fundo é polifónico. É uma voz sempre a falar.
P. - Polifónico, mas dissonante. As suas frases têm vozes que soam como música concreta...
R. - É uma única voz que fala. Mas eu não quero magoar nenhuma daquelas pessoas. Não as conheço, mas elas estão vivas. Vi a senhora três segundos, a passar, numa porta. A partir do que vi, podia fantasiar.
P. - Quando ouvi a história, contada por si nas sucessivas entrevistas, também a "vi" - no toldo em Tavira, a passear em Sintra, na hospedaria na Graça. Mas fiquei quase 90 páginas à espera que me aparecessem os primeiros sinais dela. Esteve a esconder-nos aquilo que sabia que queríamos? Porque, como já disse, é uma história "desgarradoramente bela"?
R. - É muito difícil de contar. Tem que ser contada com uma mão de escriturário, quase. Há um ponto essencial, também no jornalismo, que é a retenção da informação. E dá-la de uma forma lateral. Como os grandes romancistas policiais fazem. Olhe, esses manuscritos aí [três ou quatro, pousados do lado direito da secretária de vidro] são primeiros romances. Dizem tudo. São maus porque dizem tudo.
Pudor na vida, pudor na escritaP. - Achou que a melhor maneira de defender a história era sugeri-la apenas?
R. - Isso seria de uma grande elegância da minha parte, mas não seria honesto dizer que foi por isso. Há quatro ou cinco meses recebi uma carta que vem na "Fotobiografia" [organizada por Tereza Coelho e que acaba de ser lançada pelas Publicações Dom Quixote], na qual o meu editor francês, Christian Bourgois, dizia: "Tenho um cancro." Depois pediu-me para o ir ver. O patrão dele, que era o [René] Juliard, tinha morrido com um cancro do esófago. A coragem e a serenidade dele deixaram-me estupefacto. Quando me despedi, disse-me: "Não te preocupes comigo." Foi operado, está melhor, construíram-lhe o esófago a partir do estômago, há dois dias telefonei à mulher e disse-lhe que ele tinha uma coragem extraordinária. Ela respondeu: "Não. É elegante." Encontrei isso no Ernesto [Melo Antunes, seu comandante na guerra em Angola, falecido em 1999]. Tinha um cancro do pulmão, inoperável. Dois dias antes de morrer disse-me: "Esta manhã acordei todo molhado. Não me deixes morrer sem dignidade." Foi a única vez que ele se referiu à doença. Aqui há uns temos a filha mais velha - comove-me até as lágrimas ver a miúda, é tão parecida com o pai - contou-me que estavam a almoçar (são três irmãos, duas raparigas e um rapaz) e o pai disse-lhes, no meio da sopa: "Tenho um cancro do pulmão." E continuou a comer. É este pudor, é esta contenção que a gente tem que tentar transpor para aquilo que escreve. E para a nossa vida, até. O meu pai, no fim da vida, já muito mal, o que dizia era: "Nada de pieguices." P. - O contar desta história é também assim. Mas há um paradoxo aí, porque, no fim de contas, desnuda tudo.
R. - Um amigo tem dentro de si um lugar insubstituível, a gente perde-o e continua a ter saudades dele. E depois cada um tem o seu lugar. Estou a chegar à idade em que, como gosto de homens mais velhos do que eu, com quem aprendo, os meus amigos vão morrendo e isso custa-me muito. Ver o Eugénio de Andrade no estado em que está... Outro dia estava a olhar para o Eduardo Lourenço e a pensar: "Livra-te de morreres antes de mim!" A morte de um amigo é muito dolorosa. P. - Esta senhora que perpassa no livro e que viu três segundos podia ser sua amiga? Ela no livro não diz nada, faz "crochet" e deixa que a mão do amado pouse sobre a dela, todas as quartas-feiras, num quarto alugado de uma hospedaria. Não teve a tentação de a conhecer?
R. - Não quis conhecê-la porque senão depois não podia escrever. Não posso agarrar em si e pô-lo num romance. P. - Ora essa, tem tantas personagens reais nos seus livros...
R. - Reais? É um pouco como a Lisboa cenário de alguns livros, é uma Lisboa inventada. P. - Não tem tias nos livros?
R. - As tias que aparecem nos livros também as conheci assim. Eram tias do meu avô. Eram senhoras que vinham do Brasil e que viviam nuns andares muito escuros. Eu era pequeno e ia lá com o meu avô. Ficava ali, num canto. Seria incapaz de pôr um irmão meu como personagem. O Ernesto, por exemplo, aparece em "Os Cus de Judas". Mas a nossa relação nessa altura não era a relação de irmãos em que se foi tornando. O que ponho num romance são um nariz que apanho ali, uma feição, um gesto. P. - Neste livro há apenas o pequeníssimo círculo familiar e mesmo esse reduzido a breves frases, ou a cenas escondidas, às vezes de ordem sexual. O meio ambiente é assim tão irrelevante?
R. - Tenho a sensação que não sou eu que escrevo os livros. É a mão. Escrevo sempre à mão. O meu problema é estar suficientemente cansado até a mão estar autónoma e tornar-se feliz. P. - A isso chamava-se dantes, romanticamente, musas.
R. - Por que é que um dia faço uma página, outro dia faço quatro linhas e outro dia estou três horas e nem uma palavra sai? O que é que faz que isto varie? Depois, comecei a dar-me conta de que adormeço a ler. Há aquela altura em que se está entre o dormir e o acordar e se flutua. Depois, quando despertava, percebia que não estava a ler o que estava ali escrito, estava a ler outras coisas que eu julgava que estava a ler e que não eram o livro. Então pensei (isto já foi há uns anos): eu tenho é que conseguir um estádio próximo deste para escrever. E depois, bem desperto, estruturar isto tudo. P. - Precisava de inventar um heterónimo, porque já não é o António Lobo Antunes que está a escrever?
R. - É qualquer coisa dentro de mim que é anterior às palavras e em relação à qual a crítica racional não funciona. O meu problema é atingir esse estado. Preciso de estar cansado para aquilo começar a sair. P. - Um pouco esotérico, isso, não acha?
R. - Não acho nada. Não vê que em todos nós existe isto? Por exemplo, está a sonhar e de repente compreende que descobriu o segredo do mundo e da vida. Tem consciência de que está a dormir e quer acordar. E, à medida que vai acordando, isto vai-se esfumando, esfumando, esfumando. Quando chega à superfície, isto não tem nada. Nunca lhe aconteceu? P. - O que me dá ideia é que isso é a parte em que eu sou menos eu. É a parte em que eu tenho menos mérito. Aliás, costuma dizer que trabalha dez, 12 horas por dia.
R. - Mas eu não penso em termos de mérito. E isso não é mérito. Muito mais trabalha um operário. Não faço mais nada, sou pago para isso. P. -E fica à espera de entrar em estado de dormência?
R. -Não preciso de estar à espera, preciso de provocá-lo. Isso consegue-se através do cansaço.
"'Ulisses', de Joyce, irrita-me"
P. - Não acha que está a menorizar o seu talento, a sua inspiração?
R. - É qualquer coisa que existe dentro de si e em lugares a que a gente não tem acesso - que nos aparece nos sonhos, nos aparece nos impulsos, nos aparece, por exemplo, na escolha dos amigos. É completamente irracional. Porque é que eu hei-de gostar de A e não de B? Até a escolha dos partidos tem muito de afectivo. Eu não escrevo aquilo que quero. Escrevo aquilo que o livro quer.
P. - Escrever o que o livro quer não poderá levar o autor ao culto da forma, paradoxalmente?
R. - O "Ulisses", de Joyce, irrita-me. Por um lado, não posso deixar de admirar as habilidades formais dele; por outro, irrita-me, porque é uma pirueta, não é eficaz. Convidam-me muitas vezes, porque pensam que um escritor diz coisas inteligentes. Esperar que um escritor diga coisas inteligentes é o mesmo que esperar que um acrobata ande aos saltos mortais pela rua. O que eu sou fundamentalmente é um homem comum, cujo trabalho é este. Construí toda a minha vida, desde que me conheço, para isto. Não tem mérito nenhum. É preciso trabalhar muito. Ler muito. Ter uma atitude humilde perante a vida. Ser uma espécie de esponja onde as coisas entram e saem.
P. - Ser um grande escritor é isso que me diz?
R. - Ser um grande escritor é produzir um objecto que, quando eu o leio, foi escrito só para mim. Os outros exemplares dizem coisas diferentes. E não o empresto, porque há uma relação pessoal entre mim e esse livro, que me está a falar de mim mesmo e que me está a mostrar zonas minhas que me iluminam. Um grande escritor é um homem que faz um espelho onde eu vejo o homem nu que sou.
Contar só a história não dáP. -Neste último livro são várias as alusões a situações sexuais de carácter incestuoso. É novidade nos seus livros, não é?
R. - Neste [que o autor já está a escrever], há bocado, também notei que havia isso. P. - Há o pai com a filha, naqueles apertares de mão no circo. E há depois na relação mãe-filho algo que decorre no plano onírico...
R. - Não era uma decisão consciente, não era uma ideia clara na minha cabeça. Agora este está a fugir-me por todos os lados. P. - E já lhe apareceu também o incesto?
R. - Há aqui um capítulo... O tipo da Pide [personagem do próximo romance, sobre a madrugada e a a manhã - ver entrevista do autor ao PÚBLICO de 9.11.04]... este homem... não se percebe bem, está sempre à procura de justificações... Está uma nebulosa ainda muito grande. P. - No novo livro está portanto ainda à procura. Mas no anterior não: partiu já com a história toda. Do que é que andou à procura, naquelas primeiras páginas e páginas iniciais, em que não nos dá a ver os dois amantes centrais?
R. - Quando eu comecei a fazer consultas de psicoterapia, o homem com quem eu tinha aprendido a técnica toda dizia-me: "Agora esqueça-se e vá lá para dentro." Você tem a história. Mas ela vai aparecer-lhe fragmentada. É um desafio óptimo, do ponto de vista técnico. Nem imagina o que tem que se lutar para reter aquilo. Dá vontade de dar logo aquele bombom. P. - Mas depois acaba e nós sentimo-nos ainda com um pouco de fome da história. A sua mão cheia de pudor deu-nos os traços e foi-se embora.
R. - A tendência natural é: "Toma lá!" O difícil é mantermo-nos no gume. Mas contar só a história, depois escrita, não dá. Já reparou nos grandes romances? [O que é] "O Velho e o Mar" [1952, Ernest Hemingway]? É um velho que vai buscar um peixe, os outros peixes comem-lhe o peixe e ele chega a casa sem peixe. "Anna Karenina" [1877, Leão Tolstoi]? Uma mulher que é casada, está farta do marido, vai para a cama com outro, arrepende-se e morre. O que é a "Odisseia" [escrito por Homero, provavelmente no século VIII a.C.]? Tenho a minha mulher à espera. É só isto, umas coisas que o gajo arranja para não ir para casa. P. - Este livro é sobre um homem e uma mulher que se amaram uma vez, perderam-se e reencontraram-se, quando já não se podiam amar. Mas que se amavam e por isso se encontravam às escondidas sem quase se consentirem amar...
R. - ... e aparece muito menos no livro toda essa dimensão amorosa. Como é que se faz isso? Desmantela-se a história. E, no entanto, mantém-se lá. P. - Desenhada em pinceladas muito vagas, assim à Renoir.
R. - Então fico contente. Mas penso que a leitura não oferece problemas. P. - Que lugar ocupa na sua lista das melhores obras?
R. - Aí estou de acordo com o meu agente: tenho feito livros [cada vez] melhores. Por enquanto. E daí o meu medo com este agora [que está a escrever]. Esse que sai já o acabei há um ano. Continuo contente com ele. Tenho orgulho em tê-lo escrito.
CAIXA
Muro de Berlim e o "ilimitado"
O escritor habitava em Berlim, ainda separada por um muro que dividia a Alemanha em dois regimes antagónicos. Além da experiência vivencial "extraordinária", foi esse o momento em que descobriu outra forma de escrever um romance.
Mil Folhas - Diz que não escreve aquilo que quer, mas aquilo que o livro quer. Pode explicar melhor?
António Lobo Antunes - Não sei. Não é nada racional. Ao princípio fazia planos todos muito detalhados - antes de começar a escrever, o que me tirava a surpresa do livro. Comecei assim o "Tratado das Paixões da Alma" [1990]. Com um plano. Na altura [1989] vivia em Berlim, com uma bolsa. O meu vizinho de andar era o Luigi Nono, compositor [italiano, falecido no ano seguinte], casado com a filha do [compositor, falecido em 1951 Arnold] Schönberg. P. - Também estava lá com uma bolsa?
R. - Sim, uma bolsa da cidade de Berlim Ocidental. Era uma cidade espantosa: na mesma noite tínhamos um concerto da Filarmónica, um concerto da Sinfónica de Karajan, outro do Charlie Mingus... P. - ... e mais 400 espectáculos na área do "off-off"...
R. - ... galerias abertas toda a noite, discotecas, sítios com poetas a dizerem poesia... E depois, de repente, caiu o Muro. Uma experiência extraordinária. P. - E o António a escrever.
R. - Tinha começado o livro dois meses antes. Andei ali, para trás e para a frente com o primeiro capítulo, e percebi que aquilo não voava. Depois lembrei-me de uns versos do Apollinaire ["La jolie rousse", poema a Jacqueline Kolb, 1917]:
"Pitié pour nous qui combattons toujours aux frontières
De l'illimité et de l'avenir"
Pensei: "Eu tenho que escrever coisas passadas no ilimitado..." Correr mais riscos. Ser mais honesto para comigo mesmo, ou seja, não me mover num terreno que já conheço mais ou menos bem, até do ponto de vista verbal. Tentar escrever aquilo que eu não sou capaz de escrever. Por exemplo, no "Eu Hei-de Amar Uma Pedra", aquilo estava uma luta. Depois de escrever isto e isto e isto, dizia: "Não presta, não presta, não presta." Depois: "Não vou deixar que um livro me vença." Julgo que era o Jules Renard que dizia que não havia talento, havia bois. P. - Havia?...
R. -Bois. Que não havia nenhuma frase que um principiante não pudesse fazer, que um livro é trabalho. Eu penso que é. E então temos que o escrever com a chamada "eficácia". Eu entendo por eficácia o não sacrificar a tentação de uma bela metáfora, de uma imagem bonita, ao seu material. Não estarmos a dizer ao leitor: "Repara no que eu sou capaz de fazer." O livro é que tem que ser inteligente, não o escritor. P. - Esse encantamento em Berlim, que o levou a mudar de registo, faz lembrar a noite de êxtase contada por um escritor de quem, julgo, não gosta muito, sobre o nascimento de um heterónimo: Fernando Pessoa [sobre Alberto Caeiro, em 8 de Março de 1914]. O António Lobo Antunes, que fala em trabalho e em eficácia, em êxtase?
R. - Às vezes a gente põe-se a pensar: como é que eles descobriram os Açores? E a Madeira? A gente trabalha no escuro, mas tem que navegar na direcção certa. Não é por acaso que aquilo acontece. Não é por acaso.
DESTAQUES
Estou a chegar à idade em que, como gosto de homens mais velhos do que eu, com quem aprendo, os meus amigos vão morrendo e isso custa-me muito.
Esses manuscritos aí [três ou quatro, pousados do lado direito da secretária de vidro] são primeiros romances. Dizem tudo. São maus, porque dizem tudo.
[Escrever] é qualquer coisa dentro de mim que é anterior às palavras e em relação à qual a crítica racional não funciona.
Ser um grande escritor é produzir um objecto que, quando eu o leio, foi escrito só para mim. Os outros exemplares dizem coisas diferentes.
Tenho feito livros [cada vez] melhores. Por enquanto.
8 de novembro de 2004
Agualusa e a felicidade
(…) Antigamente todos os contos para crianças terminavam com a mesma frase, e foram felizes para sempre, isto depois de o Príncipe casar com a Princesa e de terem muitos filhos. Na vida, é claro, nenhum enredo remata assim. As Princesas casam com os guarda-costas, casam com os trapezistas, a vida continua, e os dois são infelizes até que se separam. Anos mais tarde, como todos nós, morrem. Só somos felizes, verdadeiramente felizes, quando é para sempre, mas só as crianças habitam esse tempo no qual todas as coisas duram para sempre. Eu fui feliz para sempre na minha infância, lá na Gabela, durante as férias grandes, enquanto tentava construir uma cabana nos troncos de uma acácia. Fui feliz para sempre nas margens de um riacho, uma corrente de água tão humilde que dispensava o luxo de um nome, embora orgulhoso o suficiente para que o achássemos mais do que simples riacho - era o Rio. Corria entre lavras de milho e mandioca, e íamos para lá caçar girinos, passear improvisados barcos a vapor, e também, à tardinha, espreitar as lavadeiras a tomar banho. Fui feliz com o meu cão, o Cabiri, fomos os dois felizes para sempre, perseguindo rolas e coelhos através das tardes longas, jogando às escondidas em meio ao capim alto. Fui feliz no convés do Príncipe Perfeito, numa viagem eterna entre Luanda e Lisboa, lançando ao mar garrafas com mensagens ingénuas. A quem encontrar esta garrafa agradeço que me escreva. Nunca ninguém me escreveu. Nas aulas de catequese um velho padre de voz sumida e olhar cansado tentou, sem convicção, explicar-me em que consistia a Eternidade. Eu achava que era um outro nome para as férias grandes. O padre falava em anjos e eu via galinhas. Até hoje, aliás, as galinhas são o que conheço mais aparentado aos anjos. Ele falava-nos na bem-aventurança e eu via as galinhas ciscando ao sol, escavando ninhos na areia, revirando os pequenos olhos de vidro, num puro êxtase místico. Não consigo imaginar o Paraíso sem galinhas. Nem sequer consigo imaginar o Bom Deus, estendido preguiçosamente numa fofa cama de nuvens, sem que o rodeie uma mansa legião de galinhas. Aliás, nunca conheci uma galinha má - você conheceu? As galinhas, como os salalés, como as borboletas, são imunes ao mal.»
A chuva redobra de intensidade. É raro chover assim em Luanda. Félix Ventura limpa o rosto a um lenço. Ele ainda usa lenços de algodão, enormes, em padrões clássicos, com o nome bordado a um canto. Invejo a infância dele. Pode ser falsa. Ainda assim a invejo.
Autor do Artigo
José Eduardo Agualusa
Jornal "a Página" , Outubro 2004
A chuva redobra de intensidade. É raro chover assim em Luanda. Félix Ventura limpa o rosto a um lenço. Ele ainda usa lenços de algodão, enormes, em padrões clássicos, com o nome bordado a um canto. Invejo a infância dele. Pode ser falsa. Ainda assim a invejo.
Autor do Artigo
José Eduardo Agualusa
Jornal "a Página" , Outubro 2004
31 de outubro de 2004
Diário de uma Terapia - Apresentação da obra, perante uma centena de amigos da autora
Não podia pois deixar ao acaso, ou quase ao acaso, o desempenho das minha funções, que quero agradecer à Ana, pois apesar de me intimidar este papel, sinto-me muito lisonjeada.
Por isso preparei-me ou tentei preparar-me, como nunca tinha feito antes para prova nenhuma. Espero estar à altura.
É mesmo uma honra.
Investida por essa honra e pela amizade fraterna que já tem mais de trinta anos , abro, ou reabro, os trabalhos desta assembleia, dos quais consta um ponto único: celebrar a vida, saudando um manual de instruções que nasce hoje aqui, “Diário de uma terapia”.
A vida é assim mesmo.
Dia a dia, construímos os nossos dias!
Dia a dia, ou melhor, sessão a sessão, a dona de uma maminha agredida conta-nos como se pode passar “além da dor”:
(Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor),
como é que se retoma o leme, como se enfrentam adamastores, como se prossegue o caminho, atracando a um porto seguro aqui, outro porto seguro acolá.
Quando falamos de Adamastores, estamos a falar de medos.
Não sei se é fácil, nem sei se não é. Certezas tenho de que, não é habitual as pessoas referirem os seus medos mais profundos.
A maminha matreira ousou abrir caminho até esses recônditos da alma.
“Sabemos bem do que estamos a falar, quando falamos de cancro da mama!”, dizemos nós, mulheres. Sabemos, sim.
É de dor.
É de medo.
Mas, como tudo na vida, a experiência é que dá a verdadeira medida. A maturidade dá-nos esse saber. A humildade, porém, dá-nos a dica: Podes e deves aprender com a experiência dos outros.
É também por isso que a Ana escreveu o livro e é também por isso que o devemos ler com atenção.
Vamos conhecer uma mulher como nós tantas que estamos aqui, que tem uma vida profissional e familiar organizada, feita. Ou quase feita, pois nada está terminado. Tudo tem um amanhã.
“trave do teu lar, lume da tua lareira”,
disse Saramago, quando descreveu a avó Josefa. Todas nós somos, ou julgamos ser, o suporte, o aconchego dos nossos e isso dá-nos uma sensação aproximada de felicidade. Sabemos que não há pessoas insubstituíveis, pois todas somos algo especialistas em senso comum. Mas, lá no fundo, acreditamos na excepção, que somos nós, cada uma de nós.
Vamos conhecê-la: quarenta e nove anos, professora de Biologia, casada e mãe de três filhos.
A vida tem um curso. Terá cinquenta e muitos mais, a reforma há-de chegar na altura certa, os filhos seguirão as suas vidas, embora um deles, o mais novo, o mais bebé precise muito ainda de mãe, de colo, de maminha...
O último reduto da satisfação plena da maternidade?! Talvez não.
A filha é uma menina e uma menina precisa tanto de uma mãe! Apesar de já andar na faculdade, a tirar medicina. Mas precisa. Com certeza que precisa!
E lá está outro, a espreitar aflito, do seu cantinho privado no coração da mãe: o filho mais velho. Claro que já tem a sua vida a sua namorada, mas precisa, claro que também precisa.
E o marido? É adulto, crescido e tem mãe!!! Não, não é bem assim. Houve uma transmissão de poderes ao longo da vida e ele precisa dela.
Naquele projecto de família que ao longo destes vinte e sete anos construíram ele é o pilar/par...
E desfilam mais personagens: os familiares mais próximos e os amigos.
Um dia, aparece o nódulo na mama e todas as certezas absolutas se desmoronam.
Talvez não, totalmente não!
As forças entretanto aparecem e vão lentamente impondo uma nova ordem das coisas.
Há decisões a tomar: contar ou não contar, lidar com a própria dor e com a dos outros, com o medo...
Como é que se lida com o medo dos outros, quando esse medo é tão nosso?
É disto que nos fala a Ana, pela voz de alguém atingido por um cancro da mama.
As histórias não se resumem a descobrir um nódulo, ir ao médico, fazer biopsias e operação, quimio e radioterapia. Há um ser inteiro por onde tudo passa. Há uma maminha que nasce junto ao coração, corre em direcção ao pensamento e desagua em estuários vários.
Este estuário é o consultório de uma psicoterapeuta, onde em estilo confessional e intimista se desconstrói e reconstrói a mulher e até a maminha.
Há uma mulher renascida, qual Fénix como podemos ler no poe-mama da contracapa.
Afinal a psicoterapeuta é alguém que também tem mama e também tem medo. Está ali para entender, ouvir e ajudar a murar com sólida esperança o curso de um cancro de mama.
Ouvi-la ou lê-la mexe com os lados todos da sensibilidade.
E aqui estamos, banhados e abençoados pela tal emoção, a agradecer-te, querida Ana, (Querida Nini) teres posto o teu entendimento destas coisas da alma e do sofrimento e da maminha ao dispor de todos, com tanto gosto, tanta arte e tanta informação.
Obrigada.
Não contente com registo belo, poético muitas vezes e enriquecido de referências que nos dão a dimensão da sua cultura literária, artística, a Ana elaborou um glossário, com as palavras todas que são necessárias para escrever a coragem desta e de todas as mulheres que rejeitam ser olhadas apenas com olhos apiedados e tristes.
A vida está do lado dela, do lado delas. Do lado, da Maria a quem é endereçada uma carta, ou seja, uma homenagem em estilo epistolar.
Falta referir ainda os dois depoimentos médicos, eivados de humanidade, daquela humanidade de “gente” que todos e todas os que sofrem querem encontrar, para lá da bata, do bisturi, do estetoscópio.
Por tudo isto, repito, só há uma coisa a fazer hoje aqui: celebrar a vida!
Estamos todos aqui por tua causa e por causa do teu livro. Estamos aqui para celebrar o momento em que simbolicamente passas as tuas palavras para os outros, para nós, para todos os outros que nós hoje aqui representamos: o universo dos teus leitores.
Mais uma vez, obrigada.
Por isso preparei-me ou tentei preparar-me, como nunca tinha feito antes para prova nenhuma. Espero estar à altura.
É mesmo uma honra.
Investida por essa honra e pela amizade fraterna que já tem mais de trinta anos , abro, ou reabro, os trabalhos desta assembleia, dos quais consta um ponto único: celebrar a vida, saudando um manual de instruções que nasce hoje aqui, “Diário de uma terapia”.
A vida é assim mesmo.
Dia a dia, construímos os nossos dias!
Dia a dia, ou melhor, sessão a sessão, a dona de uma maminha agredida conta-nos como se pode passar “além da dor”:
(Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor),
como é que se retoma o leme, como se enfrentam adamastores, como se prossegue o caminho, atracando a um porto seguro aqui, outro porto seguro acolá.
Quando falamos de Adamastores, estamos a falar de medos.
Não sei se é fácil, nem sei se não é. Certezas tenho de que, não é habitual as pessoas referirem os seus medos mais profundos.
A maminha matreira ousou abrir caminho até esses recônditos da alma.
“Sabemos bem do que estamos a falar, quando falamos de cancro da mama!”, dizemos nós, mulheres. Sabemos, sim.
É de dor.
É de medo.
Mas, como tudo na vida, a experiência é que dá a verdadeira medida. A maturidade dá-nos esse saber. A humildade, porém, dá-nos a dica: Podes e deves aprender com a experiência dos outros.
É também por isso que a Ana escreveu o livro e é também por isso que o devemos ler com atenção.
Vamos conhecer uma mulher como nós tantas que estamos aqui, que tem uma vida profissional e familiar organizada, feita. Ou quase feita, pois nada está terminado. Tudo tem um amanhã.
“trave do teu lar, lume da tua lareira”,
disse Saramago, quando descreveu a avó Josefa. Todas nós somos, ou julgamos ser, o suporte, o aconchego dos nossos e isso dá-nos uma sensação aproximada de felicidade. Sabemos que não há pessoas insubstituíveis, pois todas somos algo especialistas em senso comum. Mas, lá no fundo, acreditamos na excepção, que somos nós, cada uma de nós.
Vamos conhecê-la: quarenta e nove anos, professora de Biologia, casada e mãe de três filhos.
A vida tem um curso. Terá cinquenta e muitos mais, a reforma há-de chegar na altura certa, os filhos seguirão as suas vidas, embora um deles, o mais novo, o mais bebé precise muito ainda de mãe, de colo, de maminha...
O último reduto da satisfação plena da maternidade?! Talvez não.
A filha é uma menina e uma menina precisa tanto de uma mãe! Apesar de já andar na faculdade, a tirar medicina. Mas precisa. Com certeza que precisa!
E lá está outro, a espreitar aflito, do seu cantinho privado no coração da mãe: o filho mais velho. Claro que já tem a sua vida a sua namorada, mas precisa, claro que também precisa.
E o marido? É adulto, crescido e tem mãe!!! Não, não é bem assim. Houve uma transmissão de poderes ao longo da vida e ele precisa dela.
Naquele projecto de família que ao longo destes vinte e sete anos construíram ele é o pilar/par...
E desfilam mais personagens: os familiares mais próximos e os amigos.
Um dia, aparece o nódulo na mama e todas as certezas absolutas se desmoronam.
Talvez não, totalmente não!
As forças entretanto aparecem e vão lentamente impondo uma nova ordem das coisas.
Há decisões a tomar: contar ou não contar, lidar com a própria dor e com a dos outros, com o medo...
Como é que se lida com o medo dos outros, quando esse medo é tão nosso?
É disto que nos fala a Ana, pela voz de alguém atingido por um cancro da mama.
As histórias não se resumem a descobrir um nódulo, ir ao médico, fazer biopsias e operação, quimio e radioterapia. Há um ser inteiro por onde tudo passa. Há uma maminha que nasce junto ao coração, corre em direcção ao pensamento e desagua em estuários vários.
Este estuário é o consultório de uma psicoterapeuta, onde em estilo confessional e intimista se desconstrói e reconstrói a mulher e até a maminha.
Há uma mulher renascida, qual Fénix como podemos ler no poe-mama da contracapa.
Afinal a psicoterapeuta é alguém que também tem mama e também tem medo. Está ali para entender, ouvir e ajudar a murar com sólida esperança o curso de um cancro de mama.
Ouvi-la ou lê-la mexe com os lados todos da sensibilidade.
E aqui estamos, banhados e abençoados pela tal emoção, a agradecer-te, querida Ana, (Querida Nini) teres posto o teu entendimento destas coisas da alma e do sofrimento e da maminha ao dispor de todos, com tanto gosto, tanta arte e tanta informação.
Obrigada.
Não contente com registo belo, poético muitas vezes e enriquecido de referências que nos dão a dimensão da sua cultura literária, artística, a Ana elaborou um glossário, com as palavras todas que são necessárias para escrever a coragem desta e de todas as mulheres que rejeitam ser olhadas apenas com olhos apiedados e tristes.
A vida está do lado dela, do lado delas. Do lado, da Maria a quem é endereçada uma carta, ou seja, uma homenagem em estilo epistolar.
Falta referir ainda os dois depoimentos médicos, eivados de humanidade, daquela humanidade de “gente” que todos e todas os que sofrem querem encontrar, para lá da bata, do bisturi, do estetoscópio.
Por tudo isto, repito, só há uma coisa a fazer hoje aqui: celebrar a vida!
Estamos todos aqui por tua causa e por causa do teu livro. Estamos aqui para celebrar o momento em que simbolicamente passas as tuas palavras para os outros, para nós, para todos os outros que nós hoje aqui representamos: o universo dos teus leitores.
Mais uma vez, obrigada.
23 de outubro de 2004
Carta aberta (de Daniel Sampaio) ...
... à geração dos meus filhos
Meus Amigos:
Confio em vocês. Sou a favor do fosso intergeracional e adoro que os mais novos não concordem com os mais velhos. As sociedades avançam por rupturas, as famílias crescem emocionalmente quando se confrontam sem se afrontarem.
Cresci numa família democrática. Os meus pais estimulavam a discussão com os dois filhos e não se importavam de gastar horas a defender os seus pontos de vista. Foi assim que aos doze anos comecei a entender a democracia, quando o meu irmão, sete anos mais velho, me explicou Humberto Delgado.
Não quero recordar-vos Salazar e Caetano. Sei que isso está fora do nosso (meu e vosso) tempo. Apenas quero reivindicar uma coisa: os corajosos da minha geração fizeram o 25 de Abril de 1974 para que vocês, geração dos meus filhos, crescessem em liberdade. Quando digo a alguém da vossa idade que, há trinta anos, não se podia dizer tudo o que apetecia, quase não acreditam. Compreendo: viveram a poder exclamar o amor e a saudade, a ternura e a raiva. Quando queriam, puderam romper, sem medo, com tudo com que não concordavam.
É por isso que peço para estarem muito atentos. Não uso frases do passado, género «fascismo nunca mais» ou «a democracia está em perigo». Não é verdade, e são expressões que vos causam tédio. Quero apenas dizer-vos que, se não ousarem, falharão no essencial: deixarão de construir uma sociedade melhor para os vossos filhos (nesse aspecto, os «velhos» não falharam, vive-se hoje bem melhor do que na juventude dos meus pais).
Pois bem: vejam o «governo» da República. Portugal transformou-se no paraíso dos humoristas. Existem tantas graças sobre os nossos «governantes», que se atropelam nas cabeças dos criativos de humor. E se tantas vezes não sabemos se a «Sit Down Comedy» de Luís Filipe Borges, neste jornal, ou as páginas do Inimigo Público são notícias a brincar ou descrições realistas, a verdade é que nos assalta a certeza de que Portugal vai mal.
Nesta semana vi estudantes espancados e a levarem com gás, como era habitual no meu tempo, mas julgava impossível no vosso tempo; ouvi o director-geral das Prisões a propor a redução das visitas aos presos, para melhorar o problema da droga no sistema prisional; e indignei-me com o ministro da Presidência a falar dos limites à independência, a propósito da televisão pública.
Se deixarmos estes factos sem protesto, o risível «governo» que temos proporá mais: voltarão os jactos de tinta e mais prisões sobre estudantes; serão definitivamente proibidas as visitas aos presos, e o problema da droga no sistema será resolvido; os directores de programação das televisões e os directores de alguns jornais reportarão directamente ao ministro da tutela; o insucesso escolar acabará, graças a um despacho da prof. Maria do Carmo Seabra: todos os alunos com duas negativas no Natal serão automaticamente expulsos da escola. E o «governo» continuará a sorrir, centenas de conselheiros de imagem ajeitarão as gravatas dos ministros e o cabelo das ministras, todos dirão que tudo vai bem.
Sei que vocês não aguentarão mais. Ouço-vos em toda a parte, por enquanto em surdina, em breve até que a voz vos doa. E por isso vos peço: ajudem a derrubar este governo.
Pela verdade e dignidade da vossa geração. Para que, tal como os vossos pais quando contaram 1974, possam dizer aos vossos filhos: sabes, fizemos um segundo 25 de Abril, só com arte e coragem, e o governo foi--se embora.
Com toda a v(n)ossa força
Meus Amigos:
Confio em vocês. Sou a favor do fosso intergeracional e adoro que os mais novos não concordem com os mais velhos. As sociedades avançam por rupturas, as famílias crescem emocionalmente quando se confrontam sem se afrontarem.
Cresci numa família democrática. Os meus pais estimulavam a discussão com os dois filhos e não se importavam de gastar horas a defender os seus pontos de vista. Foi assim que aos doze anos comecei a entender a democracia, quando o meu irmão, sete anos mais velho, me explicou Humberto Delgado.
Não quero recordar-vos Salazar e Caetano. Sei que isso está fora do nosso (meu e vosso) tempo. Apenas quero reivindicar uma coisa: os corajosos da minha geração fizeram o 25 de Abril de 1974 para que vocês, geração dos meus filhos, crescessem em liberdade. Quando digo a alguém da vossa idade que, há trinta anos, não se podia dizer tudo o que apetecia, quase não acreditam. Compreendo: viveram a poder exclamar o amor e a saudade, a ternura e a raiva. Quando queriam, puderam romper, sem medo, com tudo com que não concordavam.
É por isso que peço para estarem muito atentos. Não uso frases do passado, género «fascismo nunca mais» ou «a democracia está em perigo». Não é verdade, e são expressões que vos causam tédio. Quero apenas dizer-vos que, se não ousarem, falharão no essencial: deixarão de construir uma sociedade melhor para os vossos filhos (nesse aspecto, os «velhos» não falharam, vive-se hoje bem melhor do que na juventude dos meus pais).
Pois bem: vejam o «governo» da República. Portugal transformou-se no paraíso dos humoristas. Existem tantas graças sobre os nossos «governantes», que se atropelam nas cabeças dos criativos de humor. E se tantas vezes não sabemos se a «Sit Down Comedy» de Luís Filipe Borges, neste jornal, ou as páginas do Inimigo Público são notícias a brincar ou descrições realistas, a verdade é que nos assalta a certeza de que Portugal vai mal.
Nesta semana vi estudantes espancados e a levarem com gás, como era habitual no meu tempo, mas julgava impossível no vosso tempo; ouvi o director-geral das Prisões a propor a redução das visitas aos presos, para melhorar o problema da droga no sistema prisional; e indignei-me com o ministro da Presidência a falar dos limites à independência, a propósito da televisão pública.
Se deixarmos estes factos sem protesto, o risível «governo» que temos proporá mais: voltarão os jactos de tinta e mais prisões sobre estudantes; serão definitivamente proibidas as visitas aos presos, e o problema da droga no sistema será resolvido; os directores de programação das televisões e os directores de alguns jornais reportarão directamente ao ministro da tutela; o insucesso escolar acabará, graças a um despacho da prof. Maria do Carmo Seabra: todos os alunos com duas negativas no Natal serão automaticamente expulsos da escola. E o «governo» continuará a sorrir, centenas de conselheiros de imagem ajeitarão as gravatas dos ministros e o cabelo das ministras, todos dirão que tudo vai bem.
Sei que vocês não aguentarão mais. Ouço-vos em toda a parte, por enquanto em surdina, em breve até que a voz vos doa. E por isso vos peço: ajudem a derrubar este governo.
Pela verdade e dignidade da vossa geração. Para que, tal como os vossos pais quando contaram 1974, possam dizer aos vossos filhos: sabes, fizemos um segundo 25 de Abril, só com arte e coragem, e o governo foi--se embora.
Com toda a v(n)ossa força
17 de outubro de 2004
FÁBULA de Agualusa
Domingo, 17 de Outubro de 2004
José Eduardo Agualusa
Esta é a história de um lobo que se disfarçou de boi, com tal arte, com tal lábia e manha, que conseguiu ser eleito, em assembleia magna, para chefe do rebanho. Pouco a pouco, habilmente, o lobo foi-se livrando dos descontentes, devorando-os a coberto do segredo da noite, ao mesmo tempo que impunha a todo o rebanho um regime de terror.
(O lobo, falando em sua defesa: "comer os inimigos, comê-los realmente, beber o seu sangue, saborear a sua carne, pode ser uma forma de os homenagear. Comer os inimigos, com puré de banana, era até há pouco tempo uma tradição muito respeitada entre algumas tribos indígenas da floresta amazónica. Bem, é certo, eu não tinha puré de banana. Comi-os crus e sem acompanhamento.")
Por vezes, enquanto discursava, levado pelo entusiasmo, o lobo descuidava-se e mostrava os dentes. Corriam rumores de que o grande líder não seria afinal um boi, com pose de lobo, mas um verdadeiro lobo, disfarçado de boi. Os bois mais próximos do lobo, aqueles que comiam à sua mesa, começaram a mostrar-se inquietos.
"Comenta-se por aí, à boca pequena, que tu és um lobo", arriscou um deles, a quem chamavam Boiardo, um tanto a medo, ao ouvido do chefe: "um lobo autêntico."
"Calúnias!", gritou o lobo, e mostrou-lhe os dentes: "o que achas tu?"
O pobre Boiardo, em pânico, já sem quaisquer dúvidas, os olhos presos aos ferozes dentes do lobo, soprou uma desculpa. Depois, firmando a voz, para que o ouvissem os restantes bois, para que o lobo não pudesse colocar em causa a sua lealdade, assegurou:
"És um boi, sim, um belo boi, ou melhor, um touro. Pois então não vejo que és um touro?!"
O boi Boiardo passou a ser desde esse dia o mais zeloso defensor do chefe, denunciando ele próprio os bois com dúvidas, os menos entusiastas, os que ruminavam em manada pelos prados ("sabe-se lá o que ruminam eles"), ao mesmo tempo que por toda a parte, em altos mugidos, exaltava as qualidades bovinas do chefe, a sua, digamos assim, bovinidade. O desaparecimento dos bois tresmalhados, cujas ossadas apareciam mais tarde, muito roídas, nalgum rincão sombrio, era sempre atribuído à acção dos lobos, que se dizia rondarem por ali, ainda que ninguém os visse, justificando tais tragédias a adopção de medidas de segurança cada vez mais rigorosas e apertadas. "Uma democracia vigiada", chamava-lhe o lobo.
(O boi Boiardo, falando em sua defesa: "Era um chefe duro, um verdadeiro lobo, é certo, mas mantinha os rebanhos na ordem e as matilhas à distância. Comeu alguns de nós, sim senhor, mas se não fosse ele outros lobos teriam feito o mesmo. Ao menos fomos comidos por um de nós... Quero dizer, fomos nós, o povo, quem o elegeu, não fomos?")
Então, numa tarde de nuvens baixas, uma ovelha negra, já velha, muito velha e muito negra, a quem as outras ovelhas chamavam simplesmente A Velha, aproximou-se do lobo e disse-lhe, em voz bem alta e sonora, depois de dobrar o corpo numa larga e alquebrada vénia:
"O rebanho está dividido. Dizem alguns que és um lobo; dizem outros que és apenas um boi com dentes de lobo. A mim não me interessa saber se és um lobo ou não. O que interessa é que alguém anda a comer os bois."
(A ovelha chamada A Velha, num aparte, dirigindo-se ao escritor: "Nós, as ovelhas, os bois, os carneiros, não comemos carne. Não matamos para comer. Muitos de nós acham-se, por isso, seres moralmente superiores. Eu acho, simplesmente, que somos herbívoros.")
"Estou velha. O meu destino não me preocupa mais. Não gosto de pensar em mim como comida, ninguém gosta, presumo, nem a erva mais humilde, e todavia todos o somos. Se não for um lobo a comer-me, hoje, hão-de comer-me amanhã as formigas e os vermes. Por isso me atrevi a vir aqui dizer-te isto - tiraste-nos a liberdade, argumentavas tu, para melhor combater os lobos, mas os lobos continuam a vir de noite para comer os bois. Eu escolho a liberdade."
E dizendo isto, com uma agilidade que seu aspecto não deixava adivinhar, arrancou-lhe a máscara. O lobo, atordoado, ainda tentou reagir:
"Prendam-me esta ovelha negra!"
Os bois, porém, não lhe obedeceram. Ao contrário, após um primeiro instante de assombro, baixaram os cornos e lançaram-se contra ele. E o lobo fugiu.
(O lobo, já enfastiado, dirige-se ao escritor: "Tem uma moral, esta tua história?". Ao que o escritor responde encolhendo os ombros: "Não sei. Sou apenas o escritor. Limito-me a contar uma história. Se quiseres uma interpretação vai procurar um rabino, um semiólogo ou um analista político. Agora desanda. A minha história chegou ao fim.")
José Eduardo Agualusa
Esta é a história de um lobo que se disfarçou de boi, com tal arte, com tal lábia e manha, que conseguiu ser eleito, em assembleia magna, para chefe do rebanho. Pouco a pouco, habilmente, o lobo foi-se livrando dos descontentes, devorando-os a coberto do segredo da noite, ao mesmo tempo que impunha a todo o rebanho um regime de terror.
(O lobo, falando em sua defesa: "comer os inimigos, comê-los realmente, beber o seu sangue, saborear a sua carne, pode ser uma forma de os homenagear. Comer os inimigos, com puré de banana, era até há pouco tempo uma tradição muito respeitada entre algumas tribos indígenas da floresta amazónica. Bem, é certo, eu não tinha puré de banana. Comi-os crus e sem acompanhamento.")
Por vezes, enquanto discursava, levado pelo entusiasmo, o lobo descuidava-se e mostrava os dentes. Corriam rumores de que o grande líder não seria afinal um boi, com pose de lobo, mas um verdadeiro lobo, disfarçado de boi. Os bois mais próximos do lobo, aqueles que comiam à sua mesa, começaram a mostrar-se inquietos.
"Comenta-se por aí, à boca pequena, que tu és um lobo", arriscou um deles, a quem chamavam Boiardo, um tanto a medo, ao ouvido do chefe: "um lobo autêntico."
"Calúnias!", gritou o lobo, e mostrou-lhe os dentes: "o que achas tu?"
O pobre Boiardo, em pânico, já sem quaisquer dúvidas, os olhos presos aos ferozes dentes do lobo, soprou uma desculpa. Depois, firmando a voz, para que o ouvissem os restantes bois, para que o lobo não pudesse colocar em causa a sua lealdade, assegurou:
"És um boi, sim, um belo boi, ou melhor, um touro. Pois então não vejo que és um touro?!"
O boi Boiardo passou a ser desde esse dia o mais zeloso defensor do chefe, denunciando ele próprio os bois com dúvidas, os menos entusiastas, os que ruminavam em manada pelos prados ("sabe-se lá o que ruminam eles"), ao mesmo tempo que por toda a parte, em altos mugidos, exaltava as qualidades bovinas do chefe, a sua, digamos assim, bovinidade. O desaparecimento dos bois tresmalhados, cujas ossadas apareciam mais tarde, muito roídas, nalgum rincão sombrio, era sempre atribuído à acção dos lobos, que se dizia rondarem por ali, ainda que ninguém os visse, justificando tais tragédias a adopção de medidas de segurança cada vez mais rigorosas e apertadas. "Uma democracia vigiada", chamava-lhe o lobo.
(O boi Boiardo, falando em sua defesa: "Era um chefe duro, um verdadeiro lobo, é certo, mas mantinha os rebanhos na ordem e as matilhas à distância. Comeu alguns de nós, sim senhor, mas se não fosse ele outros lobos teriam feito o mesmo. Ao menos fomos comidos por um de nós... Quero dizer, fomos nós, o povo, quem o elegeu, não fomos?")
Então, numa tarde de nuvens baixas, uma ovelha negra, já velha, muito velha e muito negra, a quem as outras ovelhas chamavam simplesmente A Velha, aproximou-se do lobo e disse-lhe, em voz bem alta e sonora, depois de dobrar o corpo numa larga e alquebrada vénia:
"O rebanho está dividido. Dizem alguns que és um lobo; dizem outros que és apenas um boi com dentes de lobo. A mim não me interessa saber se és um lobo ou não. O que interessa é que alguém anda a comer os bois."
(A ovelha chamada A Velha, num aparte, dirigindo-se ao escritor: "Nós, as ovelhas, os bois, os carneiros, não comemos carne. Não matamos para comer. Muitos de nós acham-se, por isso, seres moralmente superiores. Eu acho, simplesmente, que somos herbívoros.")
"Estou velha. O meu destino não me preocupa mais. Não gosto de pensar em mim como comida, ninguém gosta, presumo, nem a erva mais humilde, e todavia todos o somos. Se não for um lobo a comer-me, hoje, hão-de comer-me amanhã as formigas e os vermes. Por isso me atrevi a vir aqui dizer-te isto - tiraste-nos a liberdade, argumentavas tu, para melhor combater os lobos, mas os lobos continuam a vir de noite para comer os bois. Eu escolho a liberdade."
E dizendo isto, com uma agilidade que seu aspecto não deixava adivinhar, arrancou-lhe a máscara. O lobo, atordoado, ainda tentou reagir:
"Prendam-me esta ovelha negra!"
Os bois, porém, não lhe obedeceram. Ao contrário, após um primeiro instante de assombro, baixaram os cornos e lançaram-se contra ele. E o lobo fugiu.
(O lobo, já enfastiado, dirige-se ao escritor: "Tem uma moral, esta tua história?". Ao que o escritor responde encolhendo os ombros: "Não sei. Sou apenas o escritor. Limito-me a contar uma história. Se quiseres uma interpretação vai procurar um rabino, um semiólogo ou um analista político. Agora desanda. A minha história chegou ao fim.")
9 de outubro de 2004
Mia Couto, de novo
OS INFELIZES CÁLCULOS DA FELICIDADE
O homem da história é chamado Julio Novesfora. Noutras falas o mestre Novesfora. Homem bastante matemático, vivendo na quantidade exacta, morando sempre no acertado lugar. O mundo, para ele, estava posto em equação de infinito grau. Qualquer situação lhe algebrava o pensamento. Integrais, derivadas, matrizes para tudo existia a devida fórmula. A maior parte das vezes mesmo ele nem incomodava os neurónios:
- É conta que se faz sem cabeça.
Doseava o coração em aplicações regradas, reduzida a paixão ao seu equivalente numérico. Amores, mulheres, filhos tudo isso era hipótese nula. O sentimento, dizia ele, não tem logaritmo. Por isso, nem se justifica a sua equação. Desde menino se abstivera de afectos. Do ponto de vista da algebra, dizia, a ternura é um absurdo. Como o zero negativo. Vocês vejam, dizia ele aos alunos a erva não se enerva, mesmo sabendo-se acabada em ruminagem de boi. E a cobra morde sem ódio. É só o justo praticar da dentadura injectavel dela. Na natureza não se concebe sentimento. Assim, a vida prosseguia e Julio Novesfora era nela um aguarda-factos. Certa vez, porém, o mestre se apaixonou por uma aluna, menina de incorrecta idade, toda a gente advertia essa menina é mais que nova, não dá para si.
- Faça as contas mestre.
Mas o mestre já perdera o calculo. Desvalessem os razoáveis conselhos. Ainda mais grave ele perdia o matemático tino. Já nem sabia o abecedário dos números. Seu pensamento perdia as limpezas da lógica. Dizia coisas sem pés. Parecia, naquele caso, se confirmar o lema quanto mais sexo menos nexo. Agora, a razão vinha tarde de mais. O mestre já tinha traçado a hipotenusa à menina. Em folgas e folguedos, Julio Novesfora se afastava dos rigores da geometria. O oito deitado é um infinito. E, assim, o professor ataratonto, relembrava:
- A paixão é o mundo a dividir por zero.
Não questionassem era aquela a sua paixão. Aquilo era um amor idimensional, desses para os quais nem tanto há mar, nem tanto há guerra. Chamaram um seu tio, único familiar que parecia merecer-lhe as autoritárias confianças. O tio lhe aplicou muita sabedoria, doutrinas de por facto e roubar argumento. Mas o matemático resistia:
- Se reparar, tio, é a primeira vez que estou a viver.
Corolariamente, é natural que cometa erros.
- Mas, sobrinho, você sempre foi de calculo. Faça agora contas à sua vida.
- Essa conta tio, não se faz de cabeça. Faz-se de coração.
O professor demonstrava seu axioma, a irresoluvel paixão pela desidosa menina. Tinha experimentado a fruta nessa altura que o Verão ainda está trabalhando nos açucares da polpa. E de tão regalado, arregalava os olhos. Estava com a cabeça lotada daquela arrebitada menina. O tio ainda desfilou avisos não vislumbrava ele o perigo de um desfecho desilusionista? Não sabia ele que toda a mulher saborosa é dissaborosa? Que o amor é falso como um tecto. Cautela, sobrinho, olho por olho, dente prudente. Novesfora, porém, se renitentava, inóxidável. E o tio foi dali para a sua vida. Os namoros prosseguiram. O mestre levava a menina para a margem do mar onde os coqueiros se vergavam, rumorosos, dando um fingimento de frescura.
- Para bem amar não há como ao pé do mar, ditava ele.
A menina só respondia coisas simples, singelices. Que ela gostava do Verão.
- Do Inverno gosto é para chorar. As lágrimas, no frio, me saem grossas, cheiinhas de água.
A menina falava e o mestre Novesfora ia passeando as mãos pelo corpo dela, mais aplicado que cego lendo braille.
- Vai falando, não pare pedia ele enquanto divertia os dedos pelas secretas humidades da menina. Gostava dessa fingida distracção dela, seus actos lhe pareciam menos pecaminosos. Os transeuntes passavam, deitando culpas no velho professor. Aquilo é idade para nenhumas-vergonhas? Outros faziam graça:
- Sexagenário ou sexogenário?
O mestre se desimportava. Recolhia a lição do embondeiro que é grande mas não dá sombra nenhuma. Vontade de festejar deve eclodir antes de acabar o baile. Tanto tempo decorrera em sua vida e tão pouco tempo tivera para viver. Tudo estando ao alcance da felicidade porque motivo se usufruem tão poucas alegrias? Mas o sapo não sonha com charco se alaga nele. E agora que ele tinha a mão na moça é que iria parar? Uma noite, estando ela em seu leito, estranhos receios invadiram o professor essa menina vai fugir, desaparecida como o arco-íris nas traeiras da chuva. Afinal, os outros bem tinham razão chega sempre o momento em que o amendoim se separa da casca. Novesfora nem chegou de entrar no sono, tal lhe doeram as suspeitas do desfecho. Passaram-se os dias. Até que, certa vez, sob a sombra de um coqueiro, se escutaram os acordes de um lamentochão. O professor carpia as já previsiveis mágoas? Foram a ver, munidos de consolos. Encontraram não o professor mas a menina derramada em pranto, mais triste que cego sentado em miradouro. Se aproximaram, lhe tocaram o ombro. O que passara, então? Onde estava o mestre?
- Ele foi, partiu com outra.
Resposta espantável afinal, o professor é que se fora, no embora, sem remédio. E partira como? Se ainda ontem ele aplicava a ventosa naquele lugar? A ditosa namorada respondeu que ele se fora com outra, extranumerária. E que esta seria ainda muito mais nova, estreável como uma manhã de Domingo. Provado o doce do fruto do verde se quer é o sabor da flor. Enquanto a lagrimosa encharcava réstias de palavras os presentes se foram afastando. Se descuidavam do caso, deixando a menina sob a sombra do coqueiro, solitária e sózinha, no cenário de sua imprevista tristeza. Era Inverno, estação preferida por suas lágrimas.
O homem da história é chamado Julio Novesfora. Noutras falas o mestre Novesfora. Homem bastante matemático, vivendo na quantidade exacta, morando sempre no acertado lugar. O mundo, para ele, estava posto em equação de infinito grau. Qualquer situação lhe algebrava o pensamento. Integrais, derivadas, matrizes para tudo existia a devida fórmula. A maior parte das vezes mesmo ele nem incomodava os neurónios:
- É conta que se faz sem cabeça.
Doseava o coração em aplicações regradas, reduzida a paixão ao seu equivalente numérico. Amores, mulheres, filhos tudo isso era hipótese nula. O sentimento, dizia ele, não tem logaritmo. Por isso, nem se justifica a sua equação. Desde menino se abstivera de afectos. Do ponto de vista da algebra, dizia, a ternura é um absurdo. Como o zero negativo. Vocês vejam, dizia ele aos alunos a erva não se enerva, mesmo sabendo-se acabada em ruminagem de boi. E a cobra morde sem ódio. É só o justo praticar da dentadura injectavel dela. Na natureza não se concebe sentimento. Assim, a vida prosseguia e Julio Novesfora era nela um aguarda-factos. Certa vez, porém, o mestre se apaixonou por uma aluna, menina de incorrecta idade, toda a gente advertia essa menina é mais que nova, não dá para si.
- Faça as contas mestre.
Mas o mestre já perdera o calculo. Desvalessem os razoáveis conselhos. Ainda mais grave ele perdia o matemático tino. Já nem sabia o abecedário dos números. Seu pensamento perdia as limpezas da lógica. Dizia coisas sem pés. Parecia, naquele caso, se confirmar o lema quanto mais sexo menos nexo. Agora, a razão vinha tarde de mais. O mestre já tinha traçado a hipotenusa à menina. Em folgas e folguedos, Julio Novesfora se afastava dos rigores da geometria. O oito deitado é um infinito. E, assim, o professor ataratonto, relembrava:
- A paixão é o mundo a dividir por zero.
Não questionassem era aquela a sua paixão. Aquilo era um amor idimensional, desses para os quais nem tanto há mar, nem tanto há guerra. Chamaram um seu tio, único familiar que parecia merecer-lhe as autoritárias confianças. O tio lhe aplicou muita sabedoria, doutrinas de por facto e roubar argumento. Mas o matemático resistia:
- Se reparar, tio, é a primeira vez que estou a viver.
Corolariamente, é natural que cometa erros.
- Mas, sobrinho, você sempre foi de calculo. Faça agora contas à sua vida.
- Essa conta tio, não se faz de cabeça. Faz-se de coração.
O professor demonstrava seu axioma, a irresoluvel paixão pela desidosa menina. Tinha experimentado a fruta nessa altura que o Verão ainda está trabalhando nos açucares da polpa. E de tão regalado, arregalava os olhos. Estava com a cabeça lotada daquela arrebitada menina. O tio ainda desfilou avisos não vislumbrava ele o perigo de um desfecho desilusionista? Não sabia ele que toda a mulher saborosa é dissaborosa? Que o amor é falso como um tecto. Cautela, sobrinho, olho por olho, dente prudente. Novesfora, porém, se renitentava, inóxidável. E o tio foi dali para a sua vida. Os namoros prosseguiram. O mestre levava a menina para a margem do mar onde os coqueiros se vergavam, rumorosos, dando um fingimento de frescura.
- Para bem amar não há como ao pé do mar, ditava ele.
A menina só respondia coisas simples, singelices. Que ela gostava do Verão.
- Do Inverno gosto é para chorar. As lágrimas, no frio, me saem grossas, cheiinhas de água.
A menina falava e o mestre Novesfora ia passeando as mãos pelo corpo dela, mais aplicado que cego lendo braille.
- Vai falando, não pare pedia ele enquanto divertia os dedos pelas secretas humidades da menina. Gostava dessa fingida distracção dela, seus actos lhe pareciam menos pecaminosos. Os transeuntes passavam, deitando culpas no velho professor. Aquilo é idade para nenhumas-vergonhas? Outros faziam graça:
- Sexagenário ou sexogenário?
O mestre se desimportava. Recolhia a lição do embondeiro que é grande mas não dá sombra nenhuma. Vontade de festejar deve eclodir antes de acabar o baile. Tanto tempo decorrera em sua vida e tão pouco tempo tivera para viver. Tudo estando ao alcance da felicidade porque motivo se usufruem tão poucas alegrias? Mas o sapo não sonha com charco se alaga nele. E agora que ele tinha a mão na moça é que iria parar? Uma noite, estando ela em seu leito, estranhos receios invadiram o professor essa menina vai fugir, desaparecida como o arco-íris nas traeiras da chuva. Afinal, os outros bem tinham razão chega sempre o momento em que o amendoim se separa da casca. Novesfora nem chegou de entrar no sono, tal lhe doeram as suspeitas do desfecho. Passaram-se os dias. Até que, certa vez, sob a sombra de um coqueiro, se escutaram os acordes de um lamentochão. O professor carpia as já previsiveis mágoas? Foram a ver, munidos de consolos. Encontraram não o professor mas a menina derramada em pranto, mais triste que cego sentado em miradouro. Se aproximaram, lhe tocaram o ombro. O que passara, então? Onde estava o mestre?
- Ele foi, partiu com outra.
Resposta espantável afinal, o professor é que se fora, no embora, sem remédio. E partira como? Se ainda ontem ele aplicava a ventosa naquele lugar? A ditosa namorada respondeu que ele se fora com outra, extranumerária. E que esta seria ainda muito mais nova, estreável como uma manhã de Domingo. Provado o doce do fruto do verde se quer é o sabor da flor. Enquanto a lagrimosa encharcava réstias de palavras os presentes se foram afastando. Se descuidavam do caso, deixando a menina sob a sombra do coqueiro, solitária e sózinha, no cenário de sua imprevista tristeza. Era Inverno, estação preferida por suas lágrimas.
6 de outubro de 2004
Com uma dedicatória especial: para a Manel, uma das melhores pessoas do mundo!
SEBASTIÃO DA GAMA
Entre quem é!
(texto acerca do calor humano e da hospitalidade alentejana, publicado no Jornal “Brados do Alentejo” de 11 de Março de 1951)
Isto será defeito meu, mas assim hei-de morrer: só estou bem onde estou. Não que não viaje: viajo. Quantas vezes fui a Paris desde que arribei a Estremoz! E até, vejam lá os senhores!, passei três dias em Margão, que é na Índia Portuguesa! Com Alberto Osório de Castro. Que saudades tive de Portugal, como foi meu este verso: “Meu país português, azulado, na bruma!”
Mas são viagens breves, ausências curtas. Logo regresso às casas brancas de Estremoz e às águas do Gadanha. (Destas nem falo o que tenho a falar. Diriam: “O sujeito é doido. Chamar Oceano àquele palmo cúbico de água encarcerada!; ter descoberto as Molucas no coração do Alentejo!”)
Aqui, com a Torre de Menagem a velar pelo meu sossego, sinto-me em casa. Forasteiro? Qual forasteiro! Não sei ser forasteiro nem hóspede. O tal meu defeito...
É provável que os outros não pensem de mim o mesmo que eu. E digam: “Ora o intruso! Ora o importuno! Ora o forasteiro!” Mas eu não dou por isso, felizmente. – É que me doía, sentir-me em casa alheia. Doía - não é bem. Seria antes um não me sentir à vontade, um acanhar-me, um gaguejar até com as mãos, de provinciano recém-expedido.
Mas o alentejano, pelo menos o alentejano de Estremoz, ou eu erro muito ou é precisamente o português menos inclinado a recusar-me a sua simpatia. “Entre quem é e chegue-se para o lume” - é o que diz a quem lhe bate à porta (ainda ontem o li em Raul Brandão) a voz grossa do trabalhador alentejano. Não se deteve a perguntar quem era. Entre. Entre quem quer que seja que o lume não é menos de quem chega que de quem está. É lume do Alentejo. Achas de azinho? Hão-de lá estar, já em brasa viva e aliciante - tão belo espectáculo só o das ondas. Mas o lume do Alentejo é feito, principalmente, de calor humano, de ternura que se dá sem efusão - simples, discreta, profunda. Entre quem é.
A solidão ai dão ai dão do Alentejo não é de almas. A palavra ecoa, angustiadamente e longamente, é na planície, pela planície fora... Que é das fontes? Mas entre a gente não é assim.. Ainda não consegui, no Alentejo, estar integralmente sozinho; ainda não consegui ter frio. Em vez de solidão, senti à minha volta aconchego, ternura. No ar. Nas pessoas. Até dos que nada dizem e passariam despercebidos a um coração menos atento, sinto que vem até mim, para comover-me, uma onda suave, ou humilde, não sei bem, de compreensão, acolhimento, carinho.
Falam os livros da hospitalidade alentejana. Mas não foi nos livros que eu me habilitei a não estranhar o clima que me recebeu nesta cidade amena e amável. Lá onde a solidão é possível, lá onde a solidão tantas vezes dói, à Lisboa que amo de outro amor - vão dar, e para sempre quedam nostálgicos da paisagem erma que os fez, poetas dos quatro cantos do Alentejo. Exilados, e tristes alguns irremediavelmente, junta-os a mesma saudade e a mesma sede de aconchego. É o Raul de Carvalho, é o Luís Amaro (“velho e fraterno Amigo”, como ainda ontem se dizia ele, a fechar uma longa carta). Junto deles – “Entre quem é e chegue-se para o lume” - é que eu aprendi o Alentejo. Na voz deles, que logo dá a saber, iniludivelmente, com que amizade e com que franqueza se pode contar; e na sua poesia, onde o Alentejo passa mesmo quando parece esquecido.
“Entre quem é.” Era eu. Bem podia responder: “Sou eu - sou o amigo do Luis e do Raul.” Mas ao alentejano, que falta lhe faz a recomendação?... Entrei. Cheguei-me para o lume. Quentes de entendimento, nem precisaram as nossas mãos de apertar-se. Ali, à volta do lume e no mais quente do lume, era o Alentejo.
Entre quem é!
(texto acerca do calor humano e da hospitalidade alentejana, publicado no Jornal “Brados do Alentejo” de 11 de Março de 1951)
Isto será defeito meu, mas assim hei-de morrer: só estou bem onde estou. Não que não viaje: viajo. Quantas vezes fui a Paris desde que arribei a Estremoz! E até, vejam lá os senhores!, passei três dias em Margão, que é na Índia Portuguesa! Com Alberto Osório de Castro. Que saudades tive de Portugal, como foi meu este verso: “Meu país português, azulado, na bruma!”
Mas são viagens breves, ausências curtas. Logo regresso às casas brancas de Estremoz e às águas do Gadanha. (Destas nem falo o que tenho a falar. Diriam: “O sujeito é doido. Chamar Oceano àquele palmo cúbico de água encarcerada!; ter descoberto as Molucas no coração do Alentejo!”)
Aqui, com a Torre de Menagem a velar pelo meu sossego, sinto-me em casa. Forasteiro? Qual forasteiro! Não sei ser forasteiro nem hóspede. O tal meu defeito...
É provável que os outros não pensem de mim o mesmo que eu. E digam: “Ora o intruso! Ora o importuno! Ora o forasteiro!” Mas eu não dou por isso, felizmente. – É que me doía, sentir-me em casa alheia. Doía - não é bem. Seria antes um não me sentir à vontade, um acanhar-me, um gaguejar até com as mãos, de provinciano recém-expedido.
Mas o alentejano, pelo menos o alentejano de Estremoz, ou eu erro muito ou é precisamente o português menos inclinado a recusar-me a sua simpatia. “Entre quem é e chegue-se para o lume” - é o que diz a quem lhe bate à porta (ainda ontem o li em Raul Brandão) a voz grossa do trabalhador alentejano. Não se deteve a perguntar quem era. Entre. Entre quem quer que seja que o lume não é menos de quem chega que de quem está. É lume do Alentejo. Achas de azinho? Hão-de lá estar, já em brasa viva e aliciante - tão belo espectáculo só o das ondas. Mas o lume do Alentejo é feito, principalmente, de calor humano, de ternura que se dá sem efusão - simples, discreta, profunda. Entre quem é.
A solidão ai dão ai dão do Alentejo não é de almas. A palavra ecoa, angustiadamente e longamente, é na planície, pela planície fora... Que é das fontes? Mas entre a gente não é assim.. Ainda não consegui, no Alentejo, estar integralmente sozinho; ainda não consegui ter frio. Em vez de solidão, senti à minha volta aconchego, ternura. No ar. Nas pessoas. Até dos que nada dizem e passariam despercebidos a um coração menos atento, sinto que vem até mim, para comover-me, uma onda suave, ou humilde, não sei bem, de compreensão, acolhimento, carinho.
Falam os livros da hospitalidade alentejana. Mas não foi nos livros que eu me habilitei a não estranhar o clima que me recebeu nesta cidade amena e amável. Lá onde a solidão é possível, lá onde a solidão tantas vezes dói, à Lisboa que amo de outro amor - vão dar, e para sempre quedam nostálgicos da paisagem erma que os fez, poetas dos quatro cantos do Alentejo. Exilados, e tristes alguns irremediavelmente, junta-os a mesma saudade e a mesma sede de aconchego. É o Raul de Carvalho, é o Luís Amaro (“velho e fraterno Amigo”, como ainda ontem se dizia ele, a fechar uma longa carta). Junto deles – “Entre quem é e chegue-se para o lume” - é que eu aprendi o Alentejo. Na voz deles, que logo dá a saber, iniludivelmente, com que amizade e com que franqueza se pode contar; e na sua poesia, onde o Alentejo passa mesmo quando parece esquecido.
“Entre quem é.” Era eu. Bem podia responder: “Sou eu - sou o amigo do Luis e do Raul.” Mas ao alentejano, que falta lhe faz a recomendação?... Entrei. Cheguei-me para o lume. Quentes de entendimento, nem precisaram as nossas mãos de apertar-se. Ali, à volta do lume e no mais quente do lume, era o Alentejo.
5 de outubro de 2004
O Dia em Que Agualusa foi Mia Couto
O Dia em Que Fui Mia Couto
Por JOSÉ EDUARDO AGUALUSA
Segunda-feira, 10 de Junho de 2002
O homem avançou na minha direcção, estava eu sentado, sozinho, em meio ao ruidoso fulgor da primavera, na Feira do Livro de Lisboa. Gente ociosa girava por ali, de barraca em barraca, procurando títulos conhecidos. Era um sujeito assustadiço, o tal homem, todo de preto, de olhar cansado, muito cheio de gestos e ademanes. Parou à minha frente e estendeu-me um livro:
"Pode assinar? Ponha assim: para o meu querido amigo Rufino, lembrando o tempo das lutas, com todo o carinho... Não! Não! Sei lá, ponha antes uma dedicatória à sua maneira... Mas para o Rufino, para o Rufino..."
Era um livro de Mia Couto. A primeira edição de "Vozes Anoitecidas", editada pela Associação dos Escritores Moçambicanos. Senti-me lisonjeado com o equívoco. Agarrei no volume e abri-o na segunda página. Ao menos por alguns segundos poderia ser Mia Couto. Já de caneta em punho, porém, dei-me conta de que me faltava o génio do escritor moçambicano até para uma simples dedicatória. Encarei o sujeito e disse-lhe a verdade:
"Lamento muito. Não fui eu que escrevi este livro."
Lamentava mesmo. Ele encolheu os ombros, ou melhor, encolheu-se nos ombros, encolheu-se todo, como um morcego triste, e depois suspirou - já vencido:
"Não faz mal", disse. "Assine como se fosse. Afinal de contas eu também não sou o Rufino."
Lembrei-me de uma anedota muito conhecida no meio literário carioca. Uma noite tocou o telefone em casa de Carlos Heitor Cony. Era um amigo do famoso romancista, entusiasmado, perdido de riso. Estava numa discoteca, dançando, quando uma bela mulher se aproximou dele:
"Você é o Cony?"
Que sim, que fora sempre, desde criança. "E aí?", quis saber o romancista. O outro exultou: "Bendita confusão. Estou levando a mulher para minha casa. Depois te conto". Na manhã seguinte o telefone voltou a tocar. Era o amigo. "E aí, cara? Comeu?!". O outro foi devagar, demorando-se nos pormenores, fazendo render o peixe. Haviam conversado muito. A mulher lera todos os livros do romancista. Tinha opiniões. Tinha ideias. Ouviram Caetano, dançaram um pouco, e depois ele mostrara-lhe o quarto. Beijara-a. Despira-a: um avião! Uma deusa! Um deslumbramento! Cony ouviu tudo, ansioso:
"E aí?!"
O amigo suspirou:
"E aí, Cony, você brochou..."
Lamentei que o sujeito à minha frente, vestido de preto, olhar cansado, não fosse uma bela mulher. O que é que Mia Couto escreveria se estivesse ali? Uma vez, numa outra feira do livro, em Cabo Verde, pedi-lhe ajuda para um autógrafo porque me sentia sem inspiração. "É fácil", disse-me: "tenho uma fórmula que resulta sempre. É assim: a ti não dedico, dedico-me". Quase me ofendi. Anos antes dedicara-me com essas exactas palavras um exemplar de "Cada Homem é uma Raça". Jurei vingar-me.
Colecciono edições do "Luuanda", de Luandino Vieira, livro que nos inícios dos anos sessenta esteve no centro de um violento escândalo político, ao ser-lhe atribuído o Grande Prémio de Literatura da Associação Portuguesa de Escritores. O romancista angolano estava então detido na Prisão do Tarrafal, suspeito de ligação a uma rede bombista, de forma que o júri do prémio foi acusado de favorecer um terrorista. Possuo uma edição do "Luuanda" com a indicação de ter sido impressa em Belo Horizonte, no Brasil, mas que, na verdade, foi feita em Portugal, ao que parece por iniciativa de um agente da PIDE interessado em lucrar com o tumulto. O livro é enriquecido com uma elaborada dedicatória de Luandino Vieira a uma senhora. Um dia mostrei-o ao próprio escritor. Ele não reconheceu a assinatura - também ela é falsa! Este excesso de falsidade torna o livro, pelo menos aos meus olhos, ainda mais valioso.
Isto tudo me passou pela cabeça no breve instante em que fui Mia Couto. Voltei a abrir o velho exemplar de "Vozes Anoitecidas" na segunda página, alisei-a cuidadosamente, e escrevi:
"Para o Rufino. A si não dedico. Dedico-me. Mia Couto"
Devolvi o livro com um largo sorriso. É quase tão falso agora quanto o meu exemplar do "Luuanda". Acho que estou vingado.
Por JOSÉ EDUARDO AGUALUSA
Segunda-feira, 10 de Junho de 2002
O homem avançou na minha direcção, estava eu sentado, sozinho, em meio ao ruidoso fulgor da primavera, na Feira do Livro de Lisboa. Gente ociosa girava por ali, de barraca em barraca, procurando títulos conhecidos. Era um sujeito assustadiço, o tal homem, todo de preto, de olhar cansado, muito cheio de gestos e ademanes. Parou à minha frente e estendeu-me um livro:
"Pode assinar? Ponha assim: para o meu querido amigo Rufino, lembrando o tempo das lutas, com todo o carinho... Não! Não! Sei lá, ponha antes uma dedicatória à sua maneira... Mas para o Rufino, para o Rufino..."
Era um livro de Mia Couto. A primeira edição de "Vozes Anoitecidas", editada pela Associação dos Escritores Moçambicanos. Senti-me lisonjeado com o equívoco. Agarrei no volume e abri-o na segunda página. Ao menos por alguns segundos poderia ser Mia Couto. Já de caneta em punho, porém, dei-me conta de que me faltava o génio do escritor moçambicano até para uma simples dedicatória. Encarei o sujeito e disse-lhe a verdade:
"Lamento muito. Não fui eu que escrevi este livro."
Lamentava mesmo. Ele encolheu os ombros, ou melhor, encolheu-se nos ombros, encolheu-se todo, como um morcego triste, e depois suspirou - já vencido:
"Não faz mal", disse. "Assine como se fosse. Afinal de contas eu também não sou o Rufino."
Lembrei-me de uma anedota muito conhecida no meio literário carioca. Uma noite tocou o telefone em casa de Carlos Heitor Cony. Era um amigo do famoso romancista, entusiasmado, perdido de riso. Estava numa discoteca, dançando, quando uma bela mulher se aproximou dele:
"Você é o Cony?"
Que sim, que fora sempre, desde criança. "E aí?", quis saber o romancista. O outro exultou: "Bendita confusão. Estou levando a mulher para minha casa. Depois te conto". Na manhã seguinte o telefone voltou a tocar. Era o amigo. "E aí, cara? Comeu?!". O outro foi devagar, demorando-se nos pormenores, fazendo render o peixe. Haviam conversado muito. A mulher lera todos os livros do romancista. Tinha opiniões. Tinha ideias. Ouviram Caetano, dançaram um pouco, e depois ele mostrara-lhe o quarto. Beijara-a. Despira-a: um avião! Uma deusa! Um deslumbramento! Cony ouviu tudo, ansioso:
"E aí?!"
O amigo suspirou:
"E aí, Cony, você brochou..."
Lamentei que o sujeito à minha frente, vestido de preto, olhar cansado, não fosse uma bela mulher. O que é que Mia Couto escreveria se estivesse ali? Uma vez, numa outra feira do livro, em Cabo Verde, pedi-lhe ajuda para um autógrafo porque me sentia sem inspiração. "É fácil", disse-me: "tenho uma fórmula que resulta sempre. É assim: a ti não dedico, dedico-me". Quase me ofendi. Anos antes dedicara-me com essas exactas palavras um exemplar de "Cada Homem é uma Raça". Jurei vingar-me.
Colecciono edições do "Luuanda", de Luandino Vieira, livro que nos inícios dos anos sessenta esteve no centro de um violento escândalo político, ao ser-lhe atribuído o Grande Prémio de Literatura da Associação Portuguesa de Escritores. O romancista angolano estava então detido na Prisão do Tarrafal, suspeito de ligação a uma rede bombista, de forma que o júri do prémio foi acusado de favorecer um terrorista. Possuo uma edição do "Luuanda" com a indicação de ter sido impressa em Belo Horizonte, no Brasil, mas que, na verdade, foi feita em Portugal, ao que parece por iniciativa de um agente da PIDE interessado em lucrar com o tumulto. O livro é enriquecido com uma elaborada dedicatória de Luandino Vieira a uma senhora. Um dia mostrei-o ao próprio escritor. Ele não reconheceu a assinatura - também ela é falsa! Este excesso de falsidade torna o livro, pelo menos aos meus olhos, ainda mais valioso.
Isto tudo me passou pela cabeça no breve instante em que fui Mia Couto. Voltei a abrir o velho exemplar de "Vozes Anoitecidas" na segunda página, alisei-a cuidadosamente, e escrevi:
"Para o Rufino. A si não dedico. Dedico-me. Mia Couto"
Devolvi o livro com um largo sorriso. É quase tão falso agora quanto o meu exemplar do "Luuanda". Acho que estou vingado.
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