Embora mantenha na memória o gosto que senti ao longo de todas as histórias, de Mia Couto, em Cronicando, há uma especial: a do filho que dá à luz a mãe.
Chama-se o Filho da Morte e é uma história de morte e de vida, num campo de refugiados, “que se doseavam, na aplicação da tristeza.” Talvez por isso, por terem que dosear a tristeza, não fosse ela consumida em doses mortais, não se ocupavam muito dos mortos, nem mesmo neste caso, tratando-se de uma grávida. “Estavam demasiado ocupados em sobrevivências.” Mas a pele luzidia e volumosa teimava em atrair uma atenção qualquer e a morta entrou em trabalho de parto, porque naquele dia, naquele corpo, a vida “fez horas extraordinárias”. Ninguém se mexeu! Ninguém excepto a “cabistonta” Tazarina, que sofria de tremuras tais que nem a si própria parecia conseguir amparar-se. Mas foi ela que pegou e deu colo àquele ser que vinha do outro lado da vida e, com ela, o choro do recém nascido cessou. O corpo dela ganhou forma e volume quase instantaneamente. Apoderou-se dela a verdadeira maternidade: “os seios se volumavam, os olhos se maternizavam”. “Nunca se viu, dizem, mãe em tanta compostura.”
É impossível falar do texto, sem recorrer às próprias palavras do autor, pois não há no nosso vocabulário palavras que substituam as que ele inventa. Maternizar... significa tornar materno. E foi o que aconteceu à Tazarina, ou melhor aos seus olhos, tornaram-se olhos de mãe.
1 de maio de 2005
29 de abril de 2005
Olhai os Lírios do Campo!
Devia-lhe tudo: a vida, (...) e um milhão de coisas pequenas.
In Olhai os Lírios do Campo, de Erico Veríssimo
Há um dia na nossa vida em que alteamos o salto do sapato, mudamos o penteado, usamos a nossa própria chave de casa... por aí adiante. Isto é: há mesmo um dia, em que deixamos de ser crianças. Aparentemente, de um momento para o outro, como se isso não fosse um processo, por vezes tão demorado, que nos pode tomar conta da vida inteira!
E houve esse dia em que achei que as leituras de criança deviam ser postas de lado e devia começar a ler livros de pessoas crescidas.( Como eu estava enganada! Continuo a ler livros de crianças. E gosto.) Então, aos treze anos, escolhi o livro que devia marcar a minha maioridade “literária”: Olhai os lírios do campo, de Erico Veríssimo.
Quando, alguns anos mais tarde o reli, percebi que os meus treze da altura eram claramente insuficientes, para perceber a complexidade dos livros e das vidas dos crescidos.
Para além dessas vidas complicadas dos adultos, há ainda o processo narrativo, em que os tempos se misturam e se soltam recordações, aparentemente avulsas.
Ao longo de doze capítulos, o Doutor Eugénio percorre um longo caminho entre a sua casa e o hospital, onde Olívia o espera para o ver e depois morrer.
Mergulha em recordações. Sempre as mesmas recordações: a humilhação dos colegas por ter a “calça furada”, a vergonha de confessar que o pai é pobre, os anos da Faculdade, em que conheceu Olívia, estudante de Medicina como ele.
A casa do seus pais e a pobreza, a tristeza, a doença do irmão Ângelo, a vergonha das desordens provocadas por Ernesto. A coragem da mãe, a quem devia tudo, “a vida”, “as meias remendadas”, o “milhão de coisas pequenas” e que não se vergava às catástrofes. Ganhava e reganhava força, repetindo “Deus é grande!”
Mas mais do que essas recordações da infância pobre, atormenta-o a consciência do preço que pagou pela fama, pela fortuna e pelo sucesso do homem presente. Pagou-os com sentimentos, esgotando-os até à penúria. É esse mesmo Eugénio, que emerge dessas recordações, aqui e ali, enfraquecido pelo medo e pela mentira. Olívia quer vê-lo, antes de morrer. Ela está a morrer e sabe-o. E Eugénio tem medo que a mulher, Eunice, descubra a verdade, tanto quanto teme que Olívia morra.
Recorda-a, no dia da entrega dos diplomas. Era a única mulher daquela turma de Medicina e trabalhava num laboratório de análise clínicas, para pagar o curso. Era calma e tranquila. Admirava a sua simplicidade, o que fazia com que se sentisse bem ao pé dela. Não era uma mulher como as outras. Nas outras, via a sofisticação feminina que lhe davam luta de macho, mas não lhe ofereciam a amizade e tranquilidade que Olívia lhe estendia. Tudo parecia uni-los: eram os dois “obscuros e pobres”, ao contrário dos outros estudantes daquela Faculdade.
Nesse dia, ou nessa noite, Eugénio confessou a Olívia o horrível peso da sua condição de pobre, a falta de vocação para a medicina. O curso, queria-o para ser rico e pertencer à esfera brilhante da sociedade.
Olívia tentou oferecer-lhe o sentimento da dignidade que a profissão impõe. Ajudou-o a ultrapassar o fracasso, quando o doente, que o médico mais velho lhe deu para operar, lhe morreu nas mãos. Ensinou-o também a conviver com o sucesso, quando o ajudou a salvar um menino, que morria com difteria.
É, porém, Olívia que um dia o deixa à mercê dos medos e das vergonhas, à mercê de Eunice Torres, menina rica e mimada que caprichosamente vai desejar Eugénio , para ostentar um pobre diabo, como quem exibe uma extravagância rara. Filha de um poderoso industrial, este é o passaporte de Eugénio para o mundo desejado, o dos ricos e poderosos.
Quando Eugénio chega ao Hospital, Olívia já morreu.
Da amálgama de sentimentos e de memórias se faz a determinação de começar uma vida nova, tomando à letra as palavras de Olívia, que dizia que a vida pode começar todos os dias.
A vida vai começar, ou recomeçar, ao lado da filha Ana Maria, legado de Olívia. A personagem reconstrói-se e Eugénio evolui para um homem reconciliado com a condição humana, mesmo a mais pobre.
A história de Eugénio é uma lição de vida e vale a leitura. Obriga-nos a uma reflexão sobre valores, que parecem arredar-se dos comportamentos de hoje, mesmo contra a nossa vontade. E vale também pelo “nosso português” em que Erico Veríssimo se expressava, enriquecido com registos da oralidade do português do Brasil. “Um, dois, feijão com arrois”
Leitura sugerida- Olhai os Lírios do Campo , de Erico Veríssimo
Erico Lopes Veríssimo nasceu a 17 de Dezembro de 1905, em Cruz Alta e faleceu a 28 de Novembro de 1975, Porto Alegre. É considerado pelos críticos “uma das grandes expressões da moderna ficção brasileira”.
Para além da obra, deixou o testemunho de divulgação da cultura Brasileira e da Literatura, através da conferência e mesmo do exercício da função docente, nos Estados Unidos.
In Olhai os Lírios do Campo, de Erico Veríssimo
Há um dia na nossa vida em que alteamos o salto do sapato, mudamos o penteado, usamos a nossa própria chave de casa... por aí adiante. Isto é: há mesmo um dia, em que deixamos de ser crianças. Aparentemente, de um momento para o outro, como se isso não fosse um processo, por vezes tão demorado, que nos pode tomar conta da vida inteira!
E houve esse dia em que achei que as leituras de criança deviam ser postas de lado e devia começar a ler livros de pessoas crescidas.( Como eu estava enganada! Continuo a ler livros de crianças. E gosto.) Então, aos treze anos, escolhi o livro que devia marcar a minha maioridade “literária”: Olhai os lírios do campo, de Erico Veríssimo.
Quando, alguns anos mais tarde o reli, percebi que os meus treze da altura eram claramente insuficientes, para perceber a complexidade dos livros e das vidas dos crescidos.
Para além dessas vidas complicadas dos adultos, há ainda o processo narrativo, em que os tempos se misturam e se soltam recordações, aparentemente avulsas.
Ao longo de doze capítulos, o Doutor Eugénio percorre um longo caminho entre a sua casa e o hospital, onde Olívia o espera para o ver e depois morrer.
Mergulha em recordações. Sempre as mesmas recordações: a humilhação dos colegas por ter a “calça furada”, a vergonha de confessar que o pai é pobre, os anos da Faculdade, em que conheceu Olívia, estudante de Medicina como ele.
A casa do seus pais e a pobreza, a tristeza, a doença do irmão Ângelo, a vergonha das desordens provocadas por Ernesto. A coragem da mãe, a quem devia tudo, “a vida”, “as meias remendadas”, o “milhão de coisas pequenas” e que não se vergava às catástrofes. Ganhava e reganhava força, repetindo “Deus é grande!”
Mas mais do que essas recordações da infância pobre, atormenta-o a consciência do preço que pagou pela fama, pela fortuna e pelo sucesso do homem presente. Pagou-os com sentimentos, esgotando-os até à penúria. É esse mesmo Eugénio, que emerge dessas recordações, aqui e ali, enfraquecido pelo medo e pela mentira. Olívia quer vê-lo, antes de morrer. Ela está a morrer e sabe-o. E Eugénio tem medo que a mulher, Eunice, descubra a verdade, tanto quanto teme que Olívia morra.
Recorda-a, no dia da entrega dos diplomas. Era a única mulher daquela turma de Medicina e trabalhava num laboratório de análise clínicas, para pagar o curso. Era calma e tranquila. Admirava a sua simplicidade, o que fazia com que se sentisse bem ao pé dela. Não era uma mulher como as outras. Nas outras, via a sofisticação feminina que lhe davam luta de macho, mas não lhe ofereciam a amizade e tranquilidade que Olívia lhe estendia. Tudo parecia uni-los: eram os dois “obscuros e pobres”, ao contrário dos outros estudantes daquela Faculdade.
Nesse dia, ou nessa noite, Eugénio confessou a Olívia o horrível peso da sua condição de pobre, a falta de vocação para a medicina. O curso, queria-o para ser rico e pertencer à esfera brilhante da sociedade.
Olívia tentou oferecer-lhe o sentimento da dignidade que a profissão impõe. Ajudou-o a ultrapassar o fracasso, quando o doente, que o médico mais velho lhe deu para operar, lhe morreu nas mãos. Ensinou-o também a conviver com o sucesso, quando o ajudou a salvar um menino, que morria com difteria.
É, porém, Olívia que um dia o deixa à mercê dos medos e das vergonhas, à mercê de Eunice Torres, menina rica e mimada que caprichosamente vai desejar Eugénio , para ostentar um pobre diabo, como quem exibe uma extravagância rara. Filha de um poderoso industrial, este é o passaporte de Eugénio para o mundo desejado, o dos ricos e poderosos.
Quando Eugénio chega ao Hospital, Olívia já morreu.
Da amálgama de sentimentos e de memórias se faz a determinação de começar uma vida nova, tomando à letra as palavras de Olívia, que dizia que a vida pode começar todos os dias.
A vida vai começar, ou recomeçar, ao lado da filha Ana Maria, legado de Olívia. A personagem reconstrói-se e Eugénio evolui para um homem reconciliado com a condição humana, mesmo a mais pobre.
A história de Eugénio é uma lição de vida e vale a leitura. Obriga-nos a uma reflexão sobre valores, que parecem arredar-se dos comportamentos de hoje, mesmo contra a nossa vontade. E vale também pelo “nosso português” em que Erico Veríssimo se expressava, enriquecido com registos da oralidade do português do Brasil. “Um, dois, feijão com arrois”
Leitura sugerida- Olhai os Lírios do Campo , de Erico Veríssimo
Erico Lopes Veríssimo nasceu a 17 de Dezembro de 1905, em Cruz Alta e faleceu a 28 de Novembro de 1975, Porto Alegre. É considerado pelos críticos “uma das grandes expressões da moderna ficção brasileira”.
Para além da obra, deixou o testemunho de divulgação da cultura Brasileira e da Literatura, através da conferência e mesmo do exercício da função docente, nos Estados Unidos.
27 de abril de 2005
Un home une femme
Comme nos voix ba da ba da da da da da da
Chantent tout bas ba da ba da da da da da da
Nos cœurs y voient ba da ba da da da da da da
Comme une chance comme un espoir
Comme nos voix ba da ba da da da da da da
Nos cœurs y croient ba da ba da da da da da da
Encore une fois ba da ba da da da da da da
Tout recommence, la vie repart
Combien de joies
Bien des drames
Et voilà !
C'est une longue histoire
Un homme
Une femme
Ont forgé la trame du hasard.
Comme nos voix
Nos cœurs y voient
Encore une fois
Comme une chance
Comme un espoir.
Comme nos voix
Nos cœurs en joie
On fait le choix
D'une romance
Qui passait là.
Chance qui passait là
Chance pour toi et moi ba da ba da da da da da da
Toi et moi ba da ba da da da da da da
Toi et Toi et moi.
Bon anniversaire, Anouk Aimée!
Chantent tout bas ba da ba da da da da da da
Nos cœurs y voient ba da ba da da da da da da
Comme une chance comme un espoir
Comme nos voix ba da ba da da da da da da
Nos cœurs y croient ba da ba da da da da da da
Encore une fois ba da ba da da da da da da
Tout recommence, la vie repart
Combien de joies
Bien des drames
Et voilà !
C'est une longue histoire
Un homme
Une femme
Ont forgé la trame du hasard.
Comme nos voix
Nos cœurs y voient
Encore une fois
Comme une chance
Comme un espoir.
Comme nos voix
Nos cœurs en joie
On fait le choix
D'une romance
Qui passait là.
Chance qui passait là
Chance pour toi et moi ba da ba da da da da da da
Toi et moi ba da ba da da da da da da
Toi et Toi et moi.
Bon anniversaire, Anouk Aimée!
22 de abril de 2005
Estamos outra vez em Abril!
Estamos em Abril!
Para alguns, já estamos em Abril! Meu Deus, como o tempo voa!
Para outros, ainda estamos em Abril! Para estes, o tempo não tem voado, não tem sido tão veloz, como só ele, o tempo, sabe ser. Embora a escritora sul-americana, Laura Esquível, defenda que veloz, veloz é o desejo....
Hoje dava (me) jeito dizer que já estamos em Abril, ainda estamos em Abril, ou até, estamos em Abril, outra vez!
Estou a falar daquele Abril de cravos e de poesia. Todos os anos se repete, cada vez com menos cravos, cada vez com menos versos. Nesse Abril, tudo rimava com liberdade: verdade, lealdade, sinceridade e, sobretudo, fraternidade. O provérbio acrescentava versos às águas mil.
Nesse Abril, debaixo de um sol que a todos aquecia, os soldados misturaram-se com os civis. Subiram para cima dos tanques e aclamaram a vitória. Havia cravos nas pontas das baionetas.
Os versos chegaram de todo o lado, até do lado de lá do mar, onde a língua portuguesa também mora. Do Brasil. Vieram pela voz de Chico Buarque, poeta irmão dos nossos maiores poetas. Os versos de Chico Buarque traziam a alegria da primavera e pedia que lhe guardassem um cravo só para si. E não se esqueceu de nada no seu poema breve. Não se esqueceu que era uma festa “Sei que estás em festa” e, com cumplicidade e intimidade de irmão, acrescentava “pá”. Estávamos tão contentes, pá! Era mesmo uma festa, pá! Chegaram a mandar-te o tal cheirinho a alecrim, que pedias com urgência? Se calhar esqueceram-se! Sabes, poeta do outro lado do mar, eles esqueceram-se de tanta coisa...
Poucos anos depois, tornavas a escrever quase os mesmos versos. Outra vez “Tanto Mar”, com um sabor amargo, o sabor do fim da festa. Sabes por que é que acabou, Chico Buarque da Holanda? Talvez saibas, porque dizes que ainda guardas “renitente” um velho cravo para ti... Mas há esperança no teu recado: uma semente da festa “nalgum canto de jardim”.
Pá, naquele Abril, até o Alegre, o poeta, Manuel voltou. Vivia longe, a perguntar ao vento que passava notícias o seu país. Estava exilado na Argélia e era lá que resistia, com aquela voz que enche o mundo, a fazer rádio. “Voz da Liberdade”, chamava-se o seu programa. Foi o Portugal de Abril que o fez voltar. Regressar.
“Mesmo na noite mais triste / em tempo de servidão/ há sempre alguém que resiste/ há sempre alguém que diz não.” Diz a última quadra das trovas ao vento que passa.
Há muita saudade nestes versos. A saudade é um preço caro. Viver sem liberdade também. Para além do exílio o poeta Manuel Alegre conheceu as masmorras, em Luanda, na Fortaleza de S. Paulo, onde esteve preso durante seis meses e onde começou a escrever o seu primeiro livro de poemas. Mas também diz outro poeta, Carlos Oliveira, que ninguém corta a raiz ao pensamento, nem um machado.
Há porém, como em Buarque, o adeus à festa. No poema “Última página”, o poeta despede-se do livro, duma vida de poesia que termina.. Ao longo destes versos percorre-a. Lá está “Nambuangongo, onde tu meu amor não viste nada”. “Em Nambuangongo a gente pensa que não volta / cada carta é um adeus em cada carta se morre.” Mas, no poeta, a esperança não morre. “ser poeta é ser mais alto” diz Florbela Espanca. Talvez por isso o poeta convide “a rapariga do País de Abril a soltar a primavera no País de Abril”.
Há um país de Abril. “País de Abril é o sítio do poema./ Não fica nos terraços da saudade / não fica em longes terras. Fica exactamente aqui / tão perto que parece longe.”
Mas neste país de Abril, há muito que as cantigas anunciavam a primavera. José Carlos Ary dos Santos , “poeta castrado, não”, distribuiu os seus versos pelas vozes que lançaram esta semente de esperança. Tordo, Tonicha, Simone e até Amália, a diva do fado, cantaram versos de Ary. A irreverência tomava conta do pensamento através da cantiga e havia de chegar a algum lado. “Quem faz um filho, fá-lo por gosto.” “Oh minha terra minha lonjura/ por mim perdida/ por mim achada”, cantou Simone, com a força que ainda hoje lhe conhecemos.
“Nós vamos pegar o mundo/ pelos cornos da desgraça / e fazermos da tristeza / graça”, cantou Fernando Tordo, com o vigor da razão e da juventude, levando como Simone e Tonicha, os versos para lá das fronteiras da ignorância da censura. O lápis azul não viu, não deu por isso.
Porque os versos de Ary eram sempre assim: contagiantes de um entusiasmo, que não cabe numa vida só. Mas a ele, tal foi concedido: em poucos anos, alguns, viver muito, escrever muito, gritar muito os seus versos, muito alto, numa voz muito forte...
No longo poema “As portas que Abril abriu” conta a revolução, em versos simples, que todos entendem. “Era uma vez um país/ onde entre o mar e a guerra/ vivia o mais infeliz/ dos povos à beira–terra.” Conta em verso tudo desde o princípio, a senha, a cantiga de Paulo de Carvalho, “E Depois do Adeus”, a Grândola Vila Morena, cantiga que se tornou hino dessa madrugada irrepetível nas emoções da História... As manifestações, o primeiro Primeiro de Maio, 28 de Setembro, 11 de Março, reforma agrária, a terra a quem a trabalha...
E o grito final: “ninguém mais cerra as portas que Abril abriu.”
Estamos outra vez em Abril!
O tempo voa!
Para alguns, já estamos em Abril! Meu Deus, como o tempo voa!
Para outros, ainda estamos em Abril! Para estes, o tempo não tem voado, não tem sido tão veloz, como só ele, o tempo, sabe ser. Embora a escritora sul-americana, Laura Esquível, defenda que veloz, veloz é o desejo....
Hoje dava (me) jeito dizer que já estamos em Abril, ainda estamos em Abril, ou até, estamos em Abril, outra vez!
Estou a falar daquele Abril de cravos e de poesia. Todos os anos se repete, cada vez com menos cravos, cada vez com menos versos. Nesse Abril, tudo rimava com liberdade: verdade, lealdade, sinceridade e, sobretudo, fraternidade. O provérbio acrescentava versos às águas mil.
Nesse Abril, debaixo de um sol que a todos aquecia, os soldados misturaram-se com os civis. Subiram para cima dos tanques e aclamaram a vitória. Havia cravos nas pontas das baionetas.
Os versos chegaram de todo o lado, até do lado de lá do mar, onde a língua portuguesa também mora. Do Brasil. Vieram pela voz de Chico Buarque, poeta irmão dos nossos maiores poetas. Os versos de Chico Buarque traziam a alegria da primavera e pedia que lhe guardassem um cravo só para si. E não se esqueceu de nada no seu poema breve. Não se esqueceu que era uma festa “Sei que estás em festa” e, com cumplicidade e intimidade de irmão, acrescentava “pá”. Estávamos tão contentes, pá! Era mesmo uma festa, pá! Chegaram a mandar-te o tal cheirinho a alecrim, que pedias com urgência? Se calhar esqueceram-se! Sabes, poeta do outro lado do mar, eles esqueceram-se de tanta coisa...
Poucos anos depois, tornavas a escrever quase os mesmos versos. Outra vez “Tanto Mar”, com um sabor amargo, o sabor do fim da festa. Sabes por que é que acabou, Chico Buarque da Holanda? Talvez saibas, porque dizes que ainda guardas “renitente” um velho cravo para ti... Mas há esperança no teu recado: uma semente da festa “nalgum canto de jardim”.
Pá, naquele Abril, até o Alegre, o poeta, Manuel voltou. Vivia longe, a perguntar ao vento que passava notícias o seu país. Estava exilado na Argélia e era lá que resistia, com aquela voz que enche o mundo, a fazer rádio. “Voz da Liberdade”, chamava-se o seu programa. Foi o Portugal de Abril que o fez voltar. Regressar.
“Mesmo na noite mais triste / em tempo de servidão/ há sempre alguém que resiste/ há sempre alguém que diz não.” Diz a última quadra das trovas ao vento que passa.
Há muita saudade nestes versos. A saudade é um preço caro. Viver sem liberdade também. Para além do exílio o poeta Manuel Alegre conheceu as masmorras, em Luanda, na Fortaleza de S. Paulo, onde esteve preso durante seis meses e onde começou a escrever o seu primeiro livro de poemas. Mas também diz outro poeta, Carlos Oliveira, que ninguém corta a raiz ao pensamento, nem um machado.
Há porém, como em Buarque, o adeus à festa. No poema “Última página”, o poeta despede-se do livro, duma vida de poesia que termina.. Ao longo destes versos percorre-a. Lá está “Nambuangongo, onde tu meu amor não viste nada”. “Em Nambuangongo a gente pensa que não volta / cada carta é um adeus em cada carta se morre.” Mas, no poeta, a esperança não morre. “ser poeta é ser mais alto” diz Florbela Espanca. Talvez por isso o poeta convide “a rapariga do País de Abril a soltar a primavera no País de Abril”.
Há um país de Abril. “País de Abril é o sítio do poema./ Não fica nos terraços da saudade / não fica em longes terras. Fica exactamente aqui / tão perto que parece longe.”
Mas neste país de Abril, há muito que as cantigas anunciavam a primavera. José Carlos Ary dos Santos , “poeta castrado, não”, distribuiu os seus versos pelas vozes que lançaram esta semente de esperança. Tordo, Tonicha, Simone e até Amália, a diva do fado, cantaram versos de Ary. A irreverência tomava conta do pensamento através da cantiga e havia de chegar a algum lado. “Quem faz um filho, fá-lo por gosto.” “Oh minha terra minha lonjura/ por mim perdida/ por mim achada”, cantou Simone, com a força que ainda hoje lhe conhecemos.
“Nós vamos pegar o mundo/ pelos cornos da desgraça / e fazermos da tristeza / graça”, cantou Fernando Tordo, com o vigor da razão e da juventude, levando como Simone e Tonicha, os versos para lá das fronteiras da ignorância da censura. O lápis azul não viu, não deu por isso.
Porque os versos de Ary eram sempre assim: contagiantes de um entusiasmo, que não cabe numa vida só. Mas a ele, tal foi concedido: em poucos anos, alguns, viver muito, escrever muito, gritar muito os seus versos, muito alto, numa voz muito forte...
No longo poema “As portas que Abril abriu” conta a revolução, em versos simples, que todos entendem. “Era uma vez um país/ onde entre o mar e a guerra/ vivia o mais infeliz/ dos povos à beira–terra.” Conta em verso tudo desde o princípio, a senha, a cantiga de Paulo de Carvalho, “E Depois do Adeus”, a Grândola Vila Morena, cantiga que se tornou hino dessa madrugada irrepetível nas emoções da História... As manifestações, o primeiro Primeiro de Maio, 28 de Setembro, 11 de Março, reforma agrária, a terra a quem a trabalha...
E o grito final: “ninguém mais cerra as portas que Abril abriu.”
Estamos outra vez em Abril!
O tempo voa!
20 de abril de 2005
A Cidade e as Serras
Peguemos no livro!

As primeiras páginas, repletas de adjectivos em dose dupla, como já é hábito em Eça, Zé Fernandes (o narrador/ personagem) apresenta-nos três Jacintos: Jacinto- avô, “gordíssimo e riquíssimo”, que, sem qualquer fundamento ideológico, desenvolve tal fanatismo pela causa miguelista, que tem que largar o país e partir para França, onde sempre viveu e onde morreu de indigestão de uma lampreia de escabeche; Jacinto-pai, “esguio e lívido”, que não viveu, passou pela vida como uma “Sombra”, como era conhecido entre os criados; e finalmente o Jacinto- neto, tido desde o berço como um afortunado, graças à herança genética do avô ou à boa -sorte das mezinhas da avó. A sua boa saúde de criança é resumida na frase “Não teve sarampo e não teve lombrigas.” E quanto à sua inteligência : “As Letras, a Tabuada e o Latim entraram por ele tão facilmente, como o sol por uma vidraça.”
Além de saudável e inteligente, o Jacinto era rico e tinha amigos. O Jacinto tinha tudo para ser feliz. Mas o que é ser feliz? Jacinto tinha concebido a ideia de que o homem só pode ser “superiormente feliz” se for “superiormente civilizado”, o que o arredava definitivamente da possibilidade de viver noutro sítio que não fosse Paris, o centro da civilização. E, enquanto pode, apetrecha a sua vida de civilização: o 202, o seu palácio nos Campos Elíseos, tem tudo o que se pode ter no final do século dezanove: máquina de escrever, máquina de calcular, telefone, fonógrafo, telégrafo, numeradores de páginas, coladores de estampilhas, águas quentes e frias, elevadores para a comida, penas eléctricas, etc. Até um elevador para pessoas, equipado com sofá e biblioteca, para uma viagem de sete segundos...
Depois de ter tudo e de tudo conseguir, Jacinto começa a padecer duma terrível enfermidade, o Tédio, que o abala tão tremendamente, que até o bigode murcha “caído, em fios pensativos”. E sofre muito, o Princípe da Grã-Ventura. Sofre de fartura, um sofrimento doloroso que o afunda num desespero imenso. O seu amigo Zé Fernandes e o fiel criado Grilo assistem, impotentes, ao desmoronar de uma felicidade, construída racionalmente sobre uma teoria, a da civilização.
Quando tudo parece perdido, quando parece não ter fim tão grande padecimento, Jacinto vê-se a braços com um problema legal, que o obriga a viajar até Portugal. Só há uma solução: encaixotar a civilização, transportá-la e aguentar mais este revés da vida.
E é neste revés que Jacinto vai reencontrar-se. É do lado de lá da civilização, é experimentando a absoluta ausência das marcas da dita civilização que Jacinto começa a encontrar-se: primeiro, na capacidade de deslumbrar os sentidos, nas paisagens, nos paladares, depois na satisfação da sua generosidade, cumprindo um sentido de justiça, o seu, o que lhe valia a fama de D. Sebastião, para alguns, e “Pai do Pobres”, para outros. E, por fim, na realização da felicidade pessoal, aquela que vai contrariar o seu pessimismo ao considerar-se o último Jacinto, “Jacinto ponto final”.
O meu avô fez deste livro, com toda a razão, o livro da sua vida!

As primeiras páginas, repletas de adjectivos em dose dupla, como já é hábito em Eça, Zé Fernandes (o narrador/ personagem) apresenta-nos três Jacintos: Jacinto- avô, “gordíssimo e riquíssimo”, que, sem qualquer fundamento ideológico, desenvolve tal fanatismo pela causa miguelista, que tem que largar o país e partir para França, onde sempre viveu e onde morreu de indigestão de uma lampreia de escabeche; Jacinto-pai, “esguio e lívido”, que não viveu, passou pela vida como uma “Sombra”, como era conhecido entre os criados; e finalmente o Jacinto- neto, tido desde o berço como um afortunado, graças à herança genética do avô ou à boa -sorte das mezinhas da avó. A sua boa saúde de criança é resumida na frase “Não teve sarampo e não teve lombrigas.” E quanto à sua inteligência : “As Letras, a Tabuada e o Latim entraram por ele tão facilmente, como o sol por uma vidraça.”
Além de saudável e inteligente, o Jacinto era rico e tinha amigos. O Jacinto tinha tudo para ser feliz. Mas o que é ser feliz? Jacinto tinha concebido a ideia de que o homem só pode ser “superiormente feliz” se for “superiormente civilizado”, o que o arredava definitivamente da possibilidade de viver noutro sítio que não fosse Paris, o centro da civilização. E, enquanto pode, apetrecha a sua vida de civilização: o 202, o seu palácio nos Campos Elíseos, tem tudo o que se pode ter no final do século dezanove: máquina de escrever, máquina de calcular, telefone, fonógrafo, telégrafo, numeradores de páginas, coladores de estampilhas, águas quentes e frias, elevadores para a comida, penas eléctricas, etc. Até um elevador para pessoas, equipado com sofá e biblioteca, para uma viagem de sete segundos...
Depois de ter tudo e de tudo conseguir, Jacinto começa a padecer duma terrível enfermidade, o Tédio, que o abala tão tremendamente, que até o bigode murcha “caído, em fios pensativos”. E sofre muito, o Princípe da Grã-Ventura. Sofre de fartura, um sofrimento doloroso que o afunda num desespero imenso. O seu amigo Zé Fernandes e o fiel criado Grilo assistem, impotentes, ao desmoronar de uma felicidade, construída racionalmente sobre uma teoria, a da civilização.
Quando tudo parece perdido, quando parece não ter fim tão grande padecimento, Jacinto vê-se a braços com um problema legal, que o obriga a viajar até Portugal. Só há uma solução: encaixotar a civilização, transportá-la e aguentar mais este revés da vida.
E é neste revés que Jacinto vai reencontrar-se. É do lado de lá da civilização, é experimentando a absoluta ausência das marcas da dita civilização que Jacinto começa a encontrar-se: primeiro, na capacidade de deslumbrar os sentidos, nas paisagens, nos paladares, depois na satisfação da sua generosidade, cumprindo um sentido de justiça, o seu, o que lhe valia a fama de D. Sebastião, para alguns, e “Pai do Pobres”, para outros. E, por fim, na realização da felicidade pessoal, aquela que vai contrariar o seu pessimismo ao considerar-se o último Jacinto, “Jacinto ponto final”.
O meu avô fez deste livro, com toda a razão, o livro da sua vida!
16 de abril de 2005
Para a Laura Lara!
Uma árvore é uma árvore e as árvores não falam.
In Rosinha Minha Canoa, de José Mauro de Vasconcelos
Deixemos de lado a normalidade. Ela governa o mundo. Governa o homem no dia da Mulher, governa o adulto no dia da Criança, governa o pescador no dia da Árvore e por aí adiante. Esta normalidade distingue-se da realidade porque é cinzenta, preta e branca. Não admite o amarelo, por exemplo. Está repleta de leis e sussurra números, barra, siglas, a torto e a direito... E, sobretudo, não sai do mesmo lugar.
Que fique a normalidade no seu lugar (de vez em quando até dá jeito) e deixemo-nos levar pela loucura. Qual? A poética. A dos livros, dos sonhos e dos filmes. A loucura respeitada e legitimada, pelas histórias invariavelmente trágicas, que lhe deram origem. Histórias guardadas em segredo, ou divulgadas pelos segredos, o que contribui também, para a dignificação da tal certa loucura.
“Rosinha Minha Canoa” é um hino a essa loucura.
O herói é Zé Orocó. A paisagem, que envolve toda a primeira parte e o final, é a selva, onde a natureza é rainha e o homem ainda não plantou betão. É uma “praia branca do rio”, dum rio onde desliza uma canoa “macia como se voasse”, com quem o Zé tem uma história de amor.
- Você gosta de mim?
- Xengo-delengo-tengo. Gosto. E você?
E para a canoa Rosinha acreditar, ele jura pelas cinco chagas de S. Francisco de Assis. A canoa continua desconfiada porque o santo só tem quatro chagas. Mas afinal são mesmo cinco, contando com “uma grandona no coração, que ninguém podia ver”, confirma o Zé..
Um dia, chega o “doutor”. Vem saber das doenças daquela gente tão longe. O Chico do Adeus queixa-se do seu mal: “vontade de viajá”. Depois vem à conversa o Zé Orocó e logo se esboça o mistério da sua existência. Ninguém sabe. “Só Deus mermo. Pruque Zé Orocó num conta nada pra ninguém..”
Mas conta! Conta à Rosinha. Os dois contam muitas histórias um ao outro. São sempre as mesmas, ela adverte, mas ele insiste, porque há sempre qualquer coisa de novo e bonito, que se acrescenta. As dele, pede-lhe a Rosinha, que seja uma das que começam por “Era uma vez”. As histórias dos homens, as mais bonitas, são as que começam assim.
Obrigado pela função de tratar, o médico visita Zé Orocó. Vê um homem com “aspecto saudável e bondade na maneira de olhar notadamente incomum”. Só se queixa de tristeza, mas para isso a intervenção médica é completamente absurda porque “ ou se cura sozinha ou a gente morre”. Tão bem recebido no pedaço de selva do Zé Orocó, o médico não quer acreditar que seja mesmo doença e tenta comunicar também com a canoa. Precisa de mais explicações para o fenómeno e Zé Orocó conta que aprendeu com S. Francisco de Assis. Tão íntimo se tornou do santo que o trata por Chico. Tudo comoveu o “doutor”, mas nada o demoveu.
Zé Orocó é levado para “um grande casarão, cercado de velhas e enferrujadas árvores”. Fez tudo como lhe disseram para fazer, disse tudo certo, até o nome e a idade, mesmo o sítio onde nascera. Mandaram-no e ele despiu-se, constrangido, sem a dignidade com que se despia para se banhar no rio. Deram-lhe roupas grosseiras. Tinham-no levado para um hospício, só porque falava com uma canoa? Não era razão para o seu entendimento. Dizem-lhe que é doido. Jactos de água fria, injecções na veia, choques eléctricos e camisa de forças. Cada vez mais triste, cada vez mais fraco e mais calado. Depois a lição: “uma árvore é uma árvore e as árvores não falam”. E ele aprendeu aquela lição, mas conta à “moça”, por que é que ficou “doido”. Entristece mais, cada vez mais. Veio ter com ele o Deus das Árvores, deus da paciência, mas em vão. Quem conseguiu mesmo qualquer coisa foi o Chico de Assis: fez renascer a paz no coração do Zé Orocó.
O médico diz-lhe que ele está “outro”, “completamente normal”. “Se tristeza quer dizer saúde, sou o homem mais são do mundo.” Curado, para os médicos, volta à sua casa. Repete: uma árvore é uma árvore e evita falar com a Rosinha. Mas só ela mesmo consegue convencê-lo que “loucos são os outros”. Afinal Chico de Assis falava com lobos!... A canoa contou que tinha esperado, com paciência de árvore, o regresso de Zé para se despedir e partir.
Para esquecer as árvores, comprou um animal, uma égua. Como diz o povo, o animal escolhe o dono. Pelo menos foi isso que ela contou, no regresso da feira. “Eu estava doida para você me comprar.”
Regressemos à normalidade, com paciência de árvore.
In Rosinha Minha Canoa, de José Mauro de Vasconcelos
Deixemos de lado a normalidade. Ela governa o mundo. Governa o homem no dia da Mulher, governa o adulto no dia da Criança, governa o pescador no dia da Árvore e por aí adiante. Esta normalidade distingue-se da realidade porque é cinzenta, preta e branca. Não admite o amarelo, por exemplo. Está repleta de leis e sussurra números, barra, siglas, a torto e a direito... E, sobretudo, não sai do mesmo lugar.
Que fique a normalidade no seu lugar (de vez em quando até dá jeito) e deixemo-nos levar pela loucura. Qual? A poética. A dos livros, dos sonhos e dos filmes. A loucura respeitada e legitimada, pelas histórias invariavelmente trágicas, que lhe deram origem. Histórias guardadas em segredo, ou divulgadas pelos segredos, o que contribui também, para a dignificação da tal certa loucura.
“Rosinha Minha Canoa” é um hino a essa loucura.
O herói é Zé Orocó. A paisagem, que envolve toda a primeira parte e o final, é a selva, onde a natureza é rainha e o homem ainda não plantou betão. É uma “praia branca do rio”, dum rio onde desliza uma canoa “macia como se voasse”, com quem o Zé tem uma história de amor.
- Você gosta de mim?
- Xengo-delengo-tengo. Gosto. E você?
E para a canoa Rosinha acreditar, ele jura pelas cinco chagas de S. Francisco de Assis. A canoa continua desconfiada porque o santo só tem quatro chagas. Mas afinal são mesmo cinco, contando com “uma grandona no coração, que ninguém podia ver”, confirma o Zé..
Um dia, chega o “doutor”. Vem saber das doenças daquela gente tão longe. O Chico do Adeus queixa-se do seu mal: “vontade de viajá”. Depois vem à conversa o Zé Orocó e logo se esboça o mistério da sua existência. Ninguém sabe. “Só Deus mermo. Pruque Zé Orocó num conta nada pra ninguém..”
Mas conta! Conta à Rosinha. Os dois contam muitas histórias um ao outro. São sempre as mesmas, ela adverte, mas ele insiste, porque há sempre qualquer coisa de novo e bonito, que se acrescenta. As dele, pede-lhe a Rosinha, que seja uma das que começam por “Era uma vez”. As histórias dos homens, as mais bonitas, são as que começam assim.
Obrigado pela função de tratar, o médico visita Zé Orocó. Vê um homem com “aspecto saudável e bondade na maneira de olhar notadamente incomum”. Só se queixa de tristeza, mas para isso a intervenção médica é completamente absurda porque “ ou se cura sozinha ou a gente morre”. Tão bem recebido no pedaço de selva do Zé Orocó, o médico não quer acreditar que seja mesmo doença e tenta comunicar também com a canoa. Precisa de mais explicações para o fenómeno e Zé Orocó conta que aprendeu com S. Francisco de Assis. Tão íntimo se tornou do santo que o trata por Chico. Tudo comoveu o “doutor”, mas nada o demoveu.
Zé Orocó é levado para “um grande casarão, cercado de velhas e enferrujadas árvores”. Fez tudo como lhe disseram para fazer, disse tudo certo, até o nome e a idade, mesmo o sítio onde nascera. Mandaram-no e ele despiu-se, constrangido, sem a dignidade com que se despia para se banhar no rio. Deram-lhe roupas grosseiras. Tinham-no levado para um hospício, só porque falava com uma canoa? Não era razão para o seu entendimento. Dizem-lhe que é doido. Jactos de água fria, injecções na veia, choques eléctricos e camisa de forças. Cada vez mais triste, cada vez mais fraco e mais calado. Depois a lição: “uma árvore é uma árvore e as árvores não falam”. E ele aprendeu aquela lição, mas conta à “moça”, por que é que ficou “doido”. Entristece mais, cada vez mais. Veio ter com ele o Deus das Árvores, deus da paciência, mas em vão. Quem conseguiu mesmo qualquer coisa foi o Chico de Assis: fez renascer a paz no coração do Zé Orocó.
O médico diz-lhe que ele está “outro”, “completamente normal”. “Se tristeza quer dizer saúde, sou o homem mais são do mundo.” Curado, para os médicos, volta à sua casa. Repete: uma árvore é uma árvore e evita falar com a Rosinha. Mas só ela mesmo consegue convencê-lo que “loucos são os outros”. Afinal Chico de Assis falava com lobos!... A canoa contou que tinha esperado, com paciência de árvore, o regresso de Zé para se despedir e partir.
Para esquecer as árvores, comprou um animal, uma égua. Como diz o povo, o animal escolhe o dono. Pelo menos foi isso que ela contou, no regresso da feira. “Eu estava doida para você me comprar.”
Regressemos à normalidade, com paciência de árvore.
15 de abril de 2005
A Diva da Agulha e do Dedal

Imagem daqui.
Beatrizinha ou Menina Beatriz. É assim que Jorge Amado se refere à nossa diva do cinema a preto e branco, no prefácio do livro de Beatriz Costa, “Sem Papas na Língua”. Este foi o primeiro livro de uma série de seis que viria a publicar, um dos quais baptizou com o quase despudor que, na época, a qualquer outro cairia mal: “Nos Cornos da Vida”.
Mas Beatriz Costa era assim! Viveu assim, desassombrada, tanto que quase roçava o atrevimento, sem nunca deixar quebrar o respeito que a menina da franja, depois senhora da franja, impunha naturalmente.
Todos temos na lembrança essa menina da franja, uma madeixa curta e direita de cabelo negro, um corte de cabelo também curto, liso e direito, o quase-avesso das “sex simbol” de então. O rosto todo rasgado num sorriso, que podia transformar-se em riso em qualquer instante. Uma figurinha frágil, pouco mais de um metro e meio de altura, cuja arte de representar causaria vertigens a muita gente da época e de agora.
A menina atrevida já nasceu atrevida certamente, pois como ela própria diz, até o Inverno se recolheu nesse dia que, de acordo com o calendário, devia ser de Inverno. "Não sei se o Dezembro de 1907 corria invernoso e frio ou se a Primavera se antecipou, desejoso de florir o meu nascimento…"
Foi no Conselho de Mafra, no dia 14 do tal mês de Dezembro que, no Casal do Barreiro, ousadamente, o dia imitou a primavera, para receber Beatriz da Conceição. As referências fazem presumir uma família humilde e alguma agitação da vida de Beatriz, que se mudou aos quatro anos para Lisboa, acompanhando a mãe que viria a trabalhar em casa do pintor José Malhoa.
Nesses tempos as mulheres não iam à escola e Beatriz só aprendeu a ler aos treze anos, já depois de ter sido aprovada noutras provas da vida, como o segundo casamento da mãe, uma passagem por Tomar e outra vez Lisboa. Beatriz opta então pela profissão de bordadeira. Portanto, a tal agulha e o tal dedal não são fantasia. Existiram na tela e na vida.
Pulsavam-lhe no corpo e no jeito outros talentos, outros bordados e, fascinada pelo teatro de revista, consegue um dia uma carta de recomendação dirigida a um empresário do espectáculo.
Aos quinze anos, pisa pela primeira vez o palco do Éden, na revista “Chá e Torradas”, no papel de corista. As coristas, como o nome indica, pertenciam a um grupo, um coro, e este papel era então uma espécie de exame de entrada no teatro.
Só em 1925, no Trindade, em “Ditosa Pátria”, é que o seu nome viria a figurar no cartaz de promoção do espectáculo, já então com o nome artístico, Beatriz Costa.
Do teatro ao cinema, então ainda mudo, do cinema mudo (onde estreou a figurinha da menina da franja) ao cinema sonoro, de simples corista a nome de relevo de primeira figura, tudo foi acontecendo à velocidade do talento. Com Vasco Santana protagonizou o par romântico do primeiro filme sonoro feito em Portugal, com responsabilidade absoluta dos técnicos portugueses.
Ela é Alice, a namorada do Vasquinho da Anatomia, conhecido assim pelos sucessivos insucessos nos exames da dita Anatomia. Em vez de estudar Medicina, o Vasquinho representa o estudante estróina e boémio, noivo leviano. Ganha juízo nos estudos e no amor, terminando o filme com a cena feliz da boda, com o fado da alegroterapia. Alice, Beatriz Costa, Miss Castelinhos, a noiva. Sempre a mesma arte de representar, com a naturalidade que anos mais tarde viria a ser apanágio dos grandes.
A sua última participação no cinema é a inesquecível Gracinda, lavadeira de Caneças, no filme “Aldeia da Roupa Branca”, que estreou no Tivoli a 2 de Janeiro de 1939. É quase um Romeu e Julieta da zona saloia. Como diz a cantiga, “a noiva é de Caneças e o noivo é da Malveira.”.
Partiu então para o Brasil, onde permaneceu dez anos, segundo ela o período mais feliz da sua vida. Foi no Brasil que Beatriz casou com Edmundo Gregorian, homem das artes plásticas e das letras, em 1947, “o homem mais educado, mais inteligente e mais compreensivo deste mundo", tendo-se divorciado dois anos depois, altura em que regressou a Portugal.
No início dos anos sessenta despedia-se do teatro, com a peça “Está bonita a brincadeira”. As aventuras literárias vieram depois de ter abandonado o palco e o cinema. Em 75 publicou “Sem papas na Língua”, tendo atribuído o sucesso à sua verdade e a algum picante, que não era surpresa para ninguém. A sua amizade e dedicação a Vasco Santana viriam a dar origem a um livro que é uma verdadeira homenagem ao actor, com quem trabalhou e ao lado de quem tanto êxito conheceu: “Quando os Vascos eram Santanas”.
Há de facto qualquer coisa de importante nessas obras, conjuntos de pequenas crónicas feitas de histórias e de memórias, à mistura com considerações muito suas sobre a vida, o mundo e a política. Nesse volume, dedicado aos vascos de outras eras, há um texto lindo em que ela fala do pai e das afinidades imensas, que geravam cumplicidades inesquecíveis. Conta que veio do Brasil, para lhe restituir a alegria que o médico lhe tinha retirado com um sem número de proibições. Determinada, cortou tudo ao meio, porque o preferia vivo e feliz durante cinco anos do que triste e apagado durante quinze.
As últimas aparições públicas de Beatriz Costa na televisão caracterizaram-se pela alegria e irreverência, nas intervenções como júri de um concurso, “A Prata da Casa”, sempre protegida pelo respeito da eterna franja.
Nasceu numa primavera a fingir e morreu numa primavera de verdade. Tinha 88 anos. 1996, dia 15 de Abril, Lisboa.
(Publicado pela Ela Por Ela, em Novembro de 2003 - Divas do Cinema, Madalena Santos)
4 de abril de 2005
Notícia do Público
Sócrates visita escola em São Domingos de Rana
Primeiro-ministro quer acabar com furos nos horários dos alunos
04.04.2005 - 13h09 Lusa
José Sócrates afirmou hoje que o Governo quer acabar com os chamados furos nos horários em todas as escolas do país e preencher os tempos sem aulas com actividades alternativas de aprendizagem. O primeiro-ministro e a ministra da Educação visitaram esta manhã a Escola 2+3 Matilde Rosa Araújo, em São Domingos de Rana.
Sócrates saudou o início do terceiro período deste ano lectivo e considerou a Escola Básica de São Domingos de Rana como "um exemplo" no que respeita ao aproveitamento dos tempos em que os alunos ficam sem aulas por ausência do respectivo professor.
A ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, garantiu que a generalização das aulas de substituição em todas as escolas do país "não implicará um aumento do número de professores ou de meios" por parte do Estado.
"O Governo gostaria que, no início do próximo ano lectivo, todas as escolas do país inscrevessem nos respectivos planos de actividades essa prática", acrescentou.
O primeiro-ministro apelou ao empenho dos professores que vão estar envolvidos no final deste ano nos exames do 9º ano de escolaridade. Por seu lado, a ministra completou que serão avaliados "os resultados concretos dos exames e a sua articulação com o sistema de ensino".
Primeiro-ministro quer acabar com furos nos horários dos alunos
04.04.2005 - 13h09 Lusa
José Sócrates afirmou hoje que o Governo quer acabar com os chamados furos nos horários em todas as escolas do país e preencher os tempos sem aulas com actividades alternativas de aprendizagem. O primeiro-ministro e a ministra da Educação visitaram esta manhã a Escola 2+3 Matilde Rosa Araújo, em São Domingos de Rana.
Sócrates saudou o início do terceiro período deste ano lectivo e considerou a Escola Básica de São Domingos de Rana como "um exemplo" no que respeita ao aproveitamento dos tempos em que os alunos ficam sem aulas por ausência do respectivo professor.
A ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, garantiu que a generalização das aulas de substituição em todas as escolas do país "não implicará um aumento do número de professores ou de meios" por parte do Estado.
"O Governo gostaria que, no início do próximo ano lectivo, todas as escolas do país inscrevessem nos respectivos planos de actividades essa prática", acrescentou.
O primeiro-ministro apelou ao empenho dos professores que vão estar envolvidos no final deste ano nos exames do 9º ano de escolaridade. Por seu lado, a ministra completou que serão avaliados "os resultados concretos dos exames e a sua articulação com o sistema de ensino".
3 de abril de 2005
Da Capital- de Alexandre Borges
Notícias explicadas às CriançasEntre o céu e a terra :: Era uma vez na Polónia, um país frio, bem no interior do continente europeu, a muitos, mas a muitos, muitos quilómetros de nós. Num dia de eclipse solar, vinha ao mundo o pequeno Karol. Há 84 anos, o gigante Sol escondia-se, por alguns minutos, atrás da breve Lua, um acontecimento raro e deslumbrante, e parecia anunciar que algo especial estava para acontecer. Ao fim de poucos anos, a mãe e o pai faleciam, bem como outros familiares, e Karol seguiu a sua jornada sozinho, desde muito, muito cedo. Estudou, andou pelo teatro, foi um actor promissor, passeou pelas montanhas e decidiu dedicar a sua vida à igreja. Andou pelo seminário, pelas igrejas, foi padre e bispo.
A pouco e pouco, subia lugares entre os homens mais importantes da imensa Igreja Católica. No fim dos anos 70, o Papa João Paulo I falecia poucos dias depois de chegar ao topo dos homens dessa religião e Karol era o escolhido para o substituir. Em homenagem ao seu antecessor, Karol mudava de nome: era o novo Papa, João Paulo II. Corria o ano do Senhor de 1979.
Durante 26 anos, percorreu o mundo inteiro inúmeras vezes. Foi aos lugares onde era desejado, àqueles onde ninguém o esperava; onde os católicos eram a maioria e onde eram a minoria. Subiu, desceu, andou, falou. Em cada ponto do mundo, ao aterrar, beijava o chão, ajoelhando-se coberto pelas suas vestes brancas e fazendo o sinal da cruz. Falou aos homens de toda a Terra - diante das multidões de gente sem nome, a sós com os líderes das nações. Reuniu, dialogou, discutiu. Por todo o lado, espalhou a fé católica, lutou pelo entendimento entre as religiões, rezou, rezou sempre pela paz entre os homens, contra todas as guerras. Marcou o tempo em que vivemos de uma forma como muito poucos terão conseguido. É claro que nem sempre fez ou disse o que dele se esperava. Nunca pôde agradar a todos. Levantou muitas polémicas. Conservou algumas ideias até ao fim, não cedendo àqueles que as pretendiam mudar, mesmo quando eram muitos.
João Paulo II liderou os católicos num tempo difícil, de guerras e desentendimentos, de grandes transformações em todo o planeta. Tentou abrir a Igreja de séculos ao mundo novo, ao mesmo tempo que fez perdurar aqueles que lhe pareceram ser os seus ideais fundamentais.
No Vaticano, a meio de Roma, a meio da Itália, a meio do mundo, da Praça de S. Pedro, comandou os destinos da lei católica, herdando a missão de Pedro, um dos 12 apóstolos que acompanharam Jesus Cristo em Jerusalém há 2000 anos. Foi sempre criticado e amado, mas, aos domingos, diante de si, tinha permanentemente dezenas de milhares de crentes, à espera das suas palavras, do mistério que nele une o céu e a terra.
A pouco e pouco, subia lugares entre os homens mais importantes da imensa Igreja Católica. No fim dos anos 70, o Papa João Paulo I falecia poucos dias depois de chegar ao topo dos homens dessa religião e Karol era o escolhido para o substituir. Em homenagem ao seu antecessor, Karol mudava de nome: era o novo Papa, João Paulo II. Corria o ano do Senhor de 1979.
Durante 26 anos, percorreu o mundo inteiro inúmeras vezes. Foi aos lugares onde era desejado, àqueles onde ninguém o esperava; onde os católicos eram a maioria e onde eram a minoria. Subiu, desceu, andou, falou. Em cada ponto do mundo, ao aterrar, beijava o chão, ajoelhando-se coberto pelas suas vestes brancas e fazendo o sinal da cruz. Falou aos homens de toda a Terra - diante das multidões de gente sem nome, a sós com os líderes das nações. Reuniu, dialogou, discutiu. Por todo o lado, espalhou a fé católica, lutou pelo entendimento entre as religiões, rezou, rezou sempre pela paz entre os homens, contra todas as guerras. Marcou o tempo em que vivemos de uma forma como muito poucos terão conseguido. É claro que nem sempre fez ou disse o que dele se esperava. Nunca pôde agradar a todos. Levantou muitas polémicas. Conservou algumas ideias até ao fim, não cedendo àqueles que as pretendiam mudar, mesmo quando eram muitos.
João Paulo II liderou os católicos num tempo difícil, de guerras e desentendimentos, de grandes transformações em todo o planeta. Tentou abrir a Igreja de séculos ao mundo novo, ao mesmo tempo que fez perdurar aqueles que lhe pareceram ser os seus ideais fundamentais.
No Vaticano, a meio de Roma, a meio da Itália, a meio do mundo, da Praça de S. Pedro, comandou os destinos da lei católica, herdando a missão de Pedro, um dos 12 apóstolos que acompanharam Jesus Cristo em Jerusalém há 2000 anos. Foi sempre criticado e amado, mas, aos domingos, diante de si, tinha permanentemente dezenas de milhares de crentes, à espera das suas palavras, do mistério que nele une o céu e a terra.
15 de março de 2005
O que ainda faltava explicar
O inexplicável...
Enquanto em Portugal continental continua a seca, no arquipélago dos Açores chove de mais. Por cá, as autoridades estão cada vez mais preocupadas: sem chuva, poderemos ter um verão muito difícil. Para já, teme-se que 10% dos portugueses (isto é, cerca de um millhão de pessoas) fique sem água em casa; os bombeiros prevêem, de novo, um ano de muitos e grandes incêndios; e os agricultores olham em volta e vêem as suas terras secas, incapazes de deixar nascer e crescer as suas plantações e culturas. Fala-se mesmo na hipótese de, para obrigar as pessoas a pouparem a água que, por enquanto existe, multar ou fazer pagar mais àqueles que a gastem em demasia. Por outro lado, no meio do Atlântico, continua a chover muito acima daquilo que seria necessário. De tal maneira que, na segunda-feira, algumas ribeiras (rios pequeninos, digamos assim) da ilha de S. Miguel ficaram demasiado cheias, transbordaram e fizeram com que as terras em volta deslizassem, arrastando, na lama e nas pedras, um automóvel. Das pessoas que iam lá dentro, duas estão desaparecidas e uma foi encontrada já sem vida. Esperemos que os próximos dias tragam uma mudança das coisas: que metade da chuva dos Açores venha para o continente…
Vamos lá a ver se os adultos também se sabem explicar...
Por cá, no final desta semana, tomou posse o novo governo de Portugal. É claro que as eleições já foram há uns bons dias atrás (a 20 de Fevereiro), mas é necessário algum tempo para decidir quem vai fazer o quê nessa grande estrutura, esse grande conjunto de pessoas, que é um governo. A "tomada de posse" é, assim, o momento em que, estando escolhidas as principais figuras da equipa (aqueles que serão os ministros e os secretários de Estado), se fazem, diante do Presidente da República, as assinaturas que tornam o acontecimento oficial. Isto é, na prática, só a partir de agora, temos um novo governo. Na quinta-feira, a Assembleia da República reabriu as suas portas, com todos os novos deputados e tudo está, portanto, finalmente pronto para começar. Portugal tem novos responsáveis num momento bastante difícil, quando continua a aumentar o número de pessoas sem emprego e tudo parece estar mais caro, tornando a vida mais complicada para todos nós.
E finalmente o absolutamente incompreensível:
No ano passado, dar-se-ia o último destes três acontecimentos importantes para o mundo, sempre a 11 de Março. Em Espanha, mesmo aqui ao lado, estava-se em véspera de eleições. De um lado, o PP, o partido que vinha governando o reino até então e que apoiava os americanos na sua luta contra os terroristas árabes; do outro, o PSOE, em quem ninguém apostava muito, mas que defendia, por exemplo, que os soldados espanhóis a combater no Iraque ao lado dos americanos deviam baixar as armas e regressar a casa. Pois bem. Para surpresa de todos, pela primeira vez na Europa, os terroristas árabes atacavam: uma série de explosões nas estações e linhas de comboios da principal cidade espanhola, Madrid, tiravam a vida a 191 pessoas e feriam muitas mais, deixando o mundo inteiro em estado de choque. As eleições realizaram-se na mesma, mas os seus resultados foram muito influenciados pela tragédia. O PSOE acabava por ganhar, o seu líder, Zapatero, tornava-se primeiro-ministro e os soldados espanhóis abandonavam o Iraque.
Por todo o mundo, estes três acontecimentos foram, na última sexta-feira, recordados, em tudo quanto têm de bom e tudo quanto têm de mau, para que, no futuro, os homens sigam os melhores exemplos e não voltem a cometer os mesmos erros.
Belo trabalho o de Alexandre Borges, ao fim de semana, na Capital.
Pena é que a vida destes textos, on line seja tão curta.
Por isso os guardo aqui.
Enquanto em Portugal continental continua a seca, no arquipélago dos Açores chove de mais. Por cá, as autoridades estão cada vez mais preocupadas: sem chuva, poderemos ter um verão muito difícil. Para já, teme-se que 10% dos portugueses (isto é, cerca de um millhão de pessoas) fique sem água em casa; os bombeiros prevêem, de novo, um ano de muitos e grandes incêndios; e os agricultores olham em volta e vêem as suas terras secas, incapazes de deixar nascer e crescer as suas plantações e culturas. Fala-se mesmo na hipótese de, para obrigar as pessoas a pouparem a água que, por enquanto existe, multar ou fazer pagar mais àqueles que a gastem em demasia. Por outro lado, no meio do Atlântico, continua a chover muito acima daquilo que seria necessário. De tal maneira que, na segunda-feira, algumas ribeiras (rios pequeninos, digamos assim) da ilha de S. Miguel ficaram demasiado cheias, transbordaram e fizeram com que as terras em volta deslizassem, arrastando, na lama e nas pedras, um automóvel. Das pessoas que iam lá dentro, duas estão desaparecidas e uma foi encontrada já sem vida. Esperemos que os próximos dias tragam uma mudança das coisas: que metade da chuva dos Açores venha para o continente…
Vamos lá a ver se os adultos também se sabem explicar...
Por cá, no final desta semana, tomou posse o novo governo de Portugal. É claro que as eleições já foram há uns bons dias atrás (a 20 de Fevereiro), mas é necessário algum tempo para decidir quem vai fazer o quê nessa grande estrutura, esse grande conjunto de pessoas, que é um governo. A "tomada de posse" é, assim, o momento em que, estando escolhidas as principais figuras da equipa (aqueles que serão os ministros e os secretários de Estado), se fazem, diante do Presidente da República, as assinaturas que tornam o acontecimento oficial. Isto é, na prática, só a partir de agora, temos um novo governo. Na quinta-feira, a Assembleia da República reabriu as suas portas, com todos os novos deputados e tudo está, portanto, finalmente pronto para começar. Portugal tem novos responsáveis num momento bastante difícil, quando continua a aumentar o número de pessoas sem emprego e tudo parece estar mais caro, tornando a vida mais complicada para todos nós.
E finalmente o absolutamente incompreensível:
No ano passado, dar-se-ia o último destes três acontecimentos importantes para o mundo, sempre a 11 de Março. Em Espanha, mesmo aqui ao lado, estava-se em véspera de eleições. De um lado, o PP, o partido que vinha governando o reino até então e que apoiava os americanos na sua luta contra os terroristas árabes; do outro, o PSOE, em quem ninguém apostava muito, mas que defendia, por exemplo, que os soldados espanhóis a combater no Iraque ao lado dos americanos deviam baixar as armas e regressar a casa. Pois bem. Para surpresa de todos, pela primeira vez na Europa, os terroristas árabes atacavam: uma série de explosões nas estações e linhas de comboios da principal cidade espanhola, Madrid, tiravam a vida a 191 pessoas e feriam muitas mais, deixando o mundo inteiro em estado de choque. As eleições realizaram-se na mesma, mas os seus resultados foram muito influenciados pela tragédia. O PSOE acabava por ganhar, o seu líder, Zapatero, tornava-se primeiro-ministro e os soldados espanhóis abandonavam o Iraque.
Por todo o mundo, estes três acontecimentos foram, na última sexta-feira, recordados, em tudo quanto têm de bom e tudo quanto têm de mau, para que, no futuro, os homens sigam os melhores exemplos e não voltem a cometer os mesmos erros.
Belo trabalho o de Alexandre Borges, ao fim de semana, na Capital.
Pena é que a vida destes textos, on line seja tão curta.
Por isso os guardo aqui.
Era uma vez o mundo, contado às crianças...
também na Capital, por Alexandre Borges.
Há 20 anos, o mundo ainda vivia um tempo que ganhou o nome de "Guerra Fria". Porquê? Porque, na verdade, não existia nenhuma guerra, apenas o medo de que uma pudesse acontecer a qualquer momento. O planeta Terra era, no fundo, dominado por dois grandes países: os Estados Unidos da América (que, hoje, ocupam esse lugar sozinhos) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, ou URSS, um imenso território que, como o nome indica, era a união de muitos povos diferentes, de entre os quais se destacava a Rússia. Os americanos representavam as ideias que ainda hoje conhecemos, da democracia e do capitalismo, em que o dinheiro é, para o bem e para o mal, quem mais ordena; os soviéticos eram um regime comunista, autoritário, de quem pouco se conhecia. Durante muito tempo, houve uma tensão entre eles. Cada um apoiava diferentes países nas diversas guerras que iam acontecendo um pouco por todo o globo. Até que chegou este homem à liderança da URSS – Mikhail Gorbachev. A sua forma de ser moderada e mais próxima dos ideiais do resto do mundo levaria, ao longo dos anos, a que os soviéticos revelassem as suas fraquezas, as suas necessidades, abandonando o comunismo e abrindo-se às regras dos ocidentais. A URSS acabou por desfazer-se e cada um dos países que a compunham conquistou a sua independência. Por exemplo, a Ucrânia, a Letónia, a Estónia, a Lituânia ou a Bielorrússia.
Há 20 anos, o mundo ainda vivia um tempo que ganhou o nome de "Guerra Fria". Porquê? Porque, na verdade, não existia nenhuma guerra, apenas o medo de que uma pudesse acontecer a qualquer momento. O planeta Terra era, no fundo, dominado por dois grandes países: os Estados Unidos da América (que, hoje, ocupam esse lugar sozinhos) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, ou URSS, um imenso território que, como o nome indica, era a união de muitos povos diferentes, de entre os quais se destacava a Rússia. Os americanos representavam as ideias que ainda hoje conhecemos, da democracia e do capitalismo, em que o dinheiro é, para o bem e para o mal, quem mais ordena; os soviéticos eram um regime comunista, autoritário, de quem pouco se conhecia. Durante muito tempo, houve uma tensão entre eles. Cada um apoiava diferentes países nas diversas guerras que iam acontecendo um pouco por todo o globo. Até que chegou este homem à liderança da URSS – Mikhail Gorbachev. A sua forma de ser moderada e mais próxima dos ideiais do resto do mundo levaria, ao longo dos anos, a que os soviéticos revelassem as suas fraquezas, as suas necessidades, abandonando o comunismo e abrindo-se às regras dos ocidentais. A URSS acabou por desfazer-se e cada um dos países que a compunham conquistou a sua independência. Por exemplo, a Ucrânia, a Letónia, a Estónia, a Lituânia ou a Bielorrússia.
O 11 de Março de Portugal
Explicado às crianças, por Alexandre Borges, na Capital:
Eis um dia em que se assinalam três acontecimentos importantes.
Há 30 anos, em Portugal, ainda se viviam os tempos agitados que se seguiam à revolução de 25 de Abril de 1974. Os governos não conseguiam segurar-se muito tempo na liderança do País porque esta era disputada por muitos grupos diferentes de pessoas. Durante meio dia, temeu-se que rebentasse uma guerra civil. O general António de Spínola tentava alcançar o poder atraves de um movimento habitualmente chamado de "golpe de Estado", acompanhado de militares de ideias mais conservadoras do que aquelas que o povo tinha sonhado para o seu futuro. Mas fracassava, acabava por fugir para Espanha num helicóptero e o derramamento de sangue, para bem de todos, era evitado.
Eis um dia em que se assinalam três acontecimentos importantes.
Há 30 anos, em Portugal, ainda se viviam os tempos agitados que se seguiam à revolução de 25 de Abril de 1974. Os governos não conseguiam segurar-se muito tempo na liderança do País porque esta era disputada por muitos grupos diferentes de pessoas. Durante meio dia, temeu-se que rebentasse uma guerra civil. O general António de Spínola tentava alcançar o poder atraves de um movimento habitualmente chamado de "golpe de Estado", acompanhado de militares de ideias mais conservadoras do que aquelas que o povo tinha sonhado para o seu futuro. Mas fracassava, acabava por fugir para Espanha num helicóptero e o derramamento de sangue, para bem de todos, era evitado.
27 de fevereiro de 2005
Pigmalião de Bernard Shaw
Quem é que lhe pediu que me transformasse num cavalheiro? Eu era feliz.
Uma peça de teatro não se lê! Vê-se! O teatro representa-se, por definição literária. Para o dramaturgo não há leitores. Há espectadores!
Mas se a peça valer quatro ou cinco horas de boa leitura...
Além do mais, essa peça pode não estar em cena, em parte nenhuma do mundo, mas o livro está ali, ao nosso alcance. A nossa imaginação prodigiosa encarrega-se da encenação e do resto.
Depois das pancadas de Moliére, sobe o pano.
A acção decorre em Londres, no princípio do século. Vinte, entenda-se.
Tudo começa depois de uma saída do teatro, perto de Convent Garden.
Uma florista tenta vender os seus raminhos às pessoas chiques, que se abrigam da chuva súbita e tentam apanhar um táxi. A florista fala como sabe. Ninguém lhe ensinou mais, nem melhor. De repente, assustada, descobre que um cavalheiro aponta o que ela diz. A sua imaginação sem pecado conclui que se trata de um polícia e brada aos céus a sua inocência. Grita cada vez mais, à medida que o tal cavalheiro lhe vai revelando, com segurança, pormenores da sua origem. E não só! Outros, por ali, vêem escancarada a sua proveniência, as suas terras, os seus bairros e até as suas ruas.
As pessoas continuam à procura de “taxe” , mas “incaminharam-se” para o “otocarro” quando a chuva parou. Pobre florista! Pobre Liza! O homem dos apontamentos humilha-a, do alto da sua imensa sabedoria. Chama-lhe “folha de couve amarfanhada” e, com uma altivez muito pouco cristã, recorda-lhe que a fala é um dom divino e que a língua em que se expressa é a mesma da Bíblia! Depois de traduzida, supomos nós. Mas a sua antipatia dissipa-se levemente, ao reconhecer noutro cavalheiro, que protegia a pobre florista dos insultos deste homem douto, o coronel Pickering, eminente linguista. Seguem os dois para casa de Higgins, antipático professor de Fonética, que entretanto, no enlevo do seu próprio saber, afirma poder ensiná-la em três meses e fazê-la passar por duquesa.
Segundo acto. O cenário é a casa do professor Higgins, em Wimpole Street, mais precisamente o seu laboratório de Fonética, onde se podem encontrar objectos que medem a fala, com rigor científico: fonógrafos, laringoscópios, tubos de órgão, etc. Para adoçar o ambiente, sobre o piano, pode ver-se um recipiente com fruta, doces e chocolates. Mrs Pearce, a dedicada governanta, anuncia a chegada de Liza, que quer aprender a falar bem, correctamente, embalada na promessa, que ouvira na noite anterior, de se transformar noutra pessoa. Talvez até possa vir a ter uma loja de flores! Quem sabe? Nova humilhação, para a pobre vendedeira de flores, que afirma e reafirma a sua seriedade. “Inté lavei as mãos e cara antes de vir...” Até a sua higiene serve de argumento para convencer o professor, que acaba por a considerar “uma proposta quase irresistível”.
O pai de Liza vem a casa de Higgins, reclamando o seu direito a receber qualquer coisinha em troca da filha, desconhecendo completamente as razões por que ela ali está. O pobre homem, bêbado de estado normal, começa a ver as coisas complicarem-se, mas, fascinado pela sua fala, pelos dotes oratórios, pela capacidade argumentativa, o Professor oferece-lhe muito mais do que ele podia esperar. Torna- -se um homem rico, de repente. Mais tarde perceberemos melhor ...
Liza aplica-se e aprende a manter um pequeníssimo diálogo, com a correcção e a elegância da alta sociedade. Mas a primeira prova pública, em casa da mãe do professor, é um desastre. Contudo, os convidados da Sra Higgins, especialmente Freddy, rendem-se à moderna “gíria” das gentes de Londres e ao encanto da jovem.
Ainda não se esgotaram os seis meses de aposta e Liza, ou melhor Eliza Doolittle, acompanha o Coronel Pickering e o Professor a um baile. A anfitriã, cautelosamente, não dispensa a presença de um perito de línguas, preparado para desmascarar qualquer vigarista, que se queira infiltrar na elegância dos salões. É a prova máxima. Nepommuck, assim se chama o especialista, fora discípulo de Higgins e descobre que a “filha adoptiva” do Coronel, é... uma princesa húngara.
Mas a noite não é de festa para Liza, ou Eliza. Os dois homens celebram a sua vitória sobre a ignorância de Nepommuck. Quase esquecem a matéria da aposta: um ser humano. Liza chora bem alto a sua aflição: ela já não pertence às ruas de Londres. “Agora que fez de mim uma senhora, já não sirvo para nada”.
A nossa imaginação é agora chamada a decidir o desfecho romântico: Eliza sai de casa, apanha um táxi com Freddy....E o professor? “Ouça” a conversa dos dois, em casa da Sra Higgins, pela primeira vez, de igual para igual. Eliza, com a correcção e elegância que aprendeu, dá ao professor uma lição de humanidade.
Uma linha mais, apenas para referir a excelência da tradução do Professor Doutor Fernando Moser. Nunca esqueci o que me ensinou, nem o seu modo simples, tranquilo, humano e belo.
George Bernard Shaw nasceu em Dublin em 1856.Dramaturgo, por excelência, escreveu também ensaios e escritos políticos, tendo-se também distinguido como jornalista. Em 1935 recebeu o Nobel da Literatura. Morreu em 1950 e dos seu testamento constava um herdeiro: a língua inglesa. Pretendia que se inventasse um novo alfabeto inglês, cuja base fosse a Fonética.
Uma peça de teatro não se lê! Vê-se! O teatro representa-se, por definição literária. Para o dramaturgo não há leitores. Há espectadores!
Mas se a peça valer quatro ou cinco horas de boa leitura...
Além do mais, essa peça pode não estar em cena, em parte nenhuma do mundo, mas o livro está ali, ao nosso alcance. A nossa imaginação prodigiosa encarrega-se da encenação e do resto.
Depois das pancadas de Moliére, sobe o pano.
A acção decorre em Londres, no princípio do século. Vinte, entenda-se.
Tudo começa depois de uma saída do teatro, perto de Convent Garden.
Uma florista tenta vender os seus raminhos às pessoas chiques, que se abrigam da chuva súbita e tentam apanhar um táxi. A florista fala como sabe. Ninguém lhe ensinou mais, nem melhor. De repente, assustada, descobre que um cavalheiro aponta o que ela diz. A sua imaginação sem pecado conclui que se trata de um polícia e brada aos céus a sua inocência. Grita cada vez mais, à medida que o tal cavalheiro lhe vai revelando, com segurança, pormenores da sua origem. E não só! Outros, por ali, vêem escancarada a sua proveniência, as suas terras, os seus bairros e até as suas ruas.
As pessoas continuam à procura de “taxe” , mas “incaminharam-se” para o “otocarro” quando a chuva parou. Pobre florista! Pobre Liza! O homem dos apontamentos humilha-a, do alto da sua imensa sabedoria. Chama-lhe “folha de couve amarfanhada” e, com uma altivez muito pouco cristã, recorda-lhe que a fala é um dom divino e que a língua em que se expressa é a mesma da Bíblia! Depois de traduzida, supomos nós. Mas a sua antipatia dissipa-se levemente, ao reconhecer noutro cavalheiro, que protegia a pobre florista dos insultos deste homem douto, o coronel Pickering, eminente linguista. Seguem os dois para casa de Higgins, antipático professor de Fonética, que entretanto, no enlevo do seu próprio saber, afirma poder ensiná-la em três meses e fazê-la passar por duquesa.
Segundo acto. O cenário é a casa do professor Higgins, em Wimpole Street, mais precisamente o seu laboratório de Fonética, onde se podem encontrar objectos que medem a fala, com rigor científico: fonógrafos, laringoscópios, tubos de órgão, etc. Para adoçar o ambiente, sobre o piano, pode ver-se um recipiente com fruta, doces e chocolates. Mrs Pearce, a dedicada governanta, anuncia a chegada de Liza, que quer aprender a falar bem, correctamente, embalada na promessa, que ouvira na noite anterior, de se transformar noutra pessoa. Talvez até possa vir a ter uma loja de flores! Quem sabe? Nova humilhação, para a pobre vendedeira de flores, que afirma e reafirma a sua seriedade. “Inté lavei as mãos e cara antes de vir...” Até a sua higiene serve de argumento para convencer o professor, que acaba por a considerar “uma proposta quase irresistível”.
O pai de Liza vem a casa de Higgins, reclamando o seu direito a receber qualquer coisinha em troca da filha, desconhecendo completamente as razões por que ela ali está. O pobre homem, bêbado de estado normal, começa a ver as coisas complicarem-se, mas, fascinado pela sua fala, pelos dotes oratórios, pela capacidade argumentativa, o Professor oferece-lhe muito mais do que ele podia esperar. Torna- -se um homem rico, de repente. Mais tarde perceberemos melhor ...
Liza aplica-se e aprende a manter um pequeníssimo diálogo, com a correcção e a elegância da alta sociedade. Mas a primeira prova pública, em casa da mãe do professor, é um desastre. Contudo, os convidados da Sra Higgins, especialmente Freddy, rendem-se à moderna “gíria” das gentes de Londres e ao encanto da jovem.
Ainda não se esgotaram os seis meses de aposta e Liza, ou melhor Eliza Doolittle, acompanha o Coronel Pickering e o Professor a um baile. A anfitriã, cautelosamente, não dispensa a presença de um perito de línguas, preparado para desmascarar qualquer vigarista, que se queira infiltrar na elegância dos salões. É a prova máxima. Nepommuck, assim se chama o especialista, fora discípulo de Higgins e descobre que a “filha adoptiva” do Coronel, é... uma princesa húngara.
Mas a noite não é de festa para Liza, ou Eliza. Os dois homens celebram a sua vitória sobre a ignorância de Nepommuck. Quase esquecem a matéria da aposta: um ser humano. Liza chora bem alto a sua aflição: ela já não pertence às ruas de Londres. “Agora que fez de mim uma senhora, já não sirvo para nada”.
A nossa imaginação é agora chamada a decidir o desfecho romântico: Eliza sai de casa, apanha um táxi com Freddy....E o professor? “Ouça” a conversa dos dois, em casa da Sra Higgins, pela primeira vez, de igual para igual. Eliza, com a correcção e elegância que aprendeu, dá ao professor uma lição de humanidade.
Uma linha mais, apenas para referir a excelência da tradução do Professor Doutor Fernando Moser. Nunca esqueci o que me ensinou, nem o seu modo simples, tranquilo, humano e belo.
George Bernard Shaw nasceu em Dublin em 1856.Dramaturgo, por excelência, escreveu também ensaios e escritos políticos, tendo-se também distinguido como jornalista. Em 1935 recebeu o Nobel da Literatura. Morreu em 1950 e dos seu testamento constava um herdeiro: a língua inglesa. Pretendia que se inventasse um novo alfabeto inglês, cuja base fosse a Fonética.
6 de fevereiro de 2005
Mais alto é impossível, de David Sobral (18 anos)
“A natureza e as leis da natureza jaziam escondidas na noite;
Deus disse: Haja Newton! E fez-se luz.”
Alexander Pope, Epitáfio para Sir Isaac Newton
Permitam-me que me apresente. Chamo-me Edmond Halley. Devem reconhecer o meu nome devido ao cometa (agora) famoso, que foi visto por alguns de vós em 1986. Bem, na verdade não compreendo por que razão tem ele o meu nome, já que nada tive a ver com a sua descoberta. Limitei-me a verificar que era o mesmo cometa que já tinha sido observado antes. Mas em Ciência raras vezes ficamos com os nossos próprios louros…
Paciência. De qualquer forma não estou aqui para vos falar de mim, ainda que muitos reconheçam que dei um contributo importante para a Ciência. É que a razão que aqui me traz vence qualquer outra. E isto porque não creio que nenhum Homem alguma vez poderá chegar à grandiosidade de Isaac Newton, ainda que ele próprio tenha admitido que só conseguiu ver mais longe por se ter “erguido nos ombros de gigantes”.
Mas vamos ao importante. E isso, por incrível que pareça, começou numa noite. Sim, bem sei que raramente se pode escolher um instante para o início, mas neste caso é possível. E lembro-me como se fosse ontem. Estava junto a Hooke e Wren, a jantar. Sim, o mesmo Hooke que descobriu a célula, e o mesmo Hooke que era extremamente “gabarolas”, ao ponto de, mais tarde, dizer que alguns dos aspectos da divina teoria de Newton eram dele. Todavia, nessa noite, em 1683, tudo isso estava por vir. A humanidade vivia ainda na escuridão. E, se olhássemos o Céu, diriam que era a morada da perfeição, e que na Terra tudo era imperfeito. E assim era, Céu e Terra, regidos por leis totalmente diferentes.
Mas tudo isso iria mudar. E é estranho pensar que tudo derivou de uma conversa sobre o movimento dos astros, que levou a uma aposta. Uma aposta que, indirectamente, mudou o Mundo! Concordámos os três que o primeiro a descobrir por que razão os planetas seguem órbitas elípticas à volta do Sol ganharia dos outros dois cerca de meio ordenado. E assim se combinou.
Claro que Hooke rapidamente se pôs com o seu ar habitual, algo do género “bem, eu já sei, mas não vos vou dizer, para gozar a situação de terem que encontrar a resposta”. Não dei grande importância à sua atitude, porque, para mim, a questão ultrapassava em muito os 40 xelins prometidos. Por isso, logo na manhã seguinte, comecei a pesquisar e a contactar diversos indivíduos influentes da altura. Sabia-se que os planetas descreviam órbitas elípticas graças ao trabalho de Kepler, mas aparentemente ninguém conseguia explicar esse facto. E eu queria saber a explicação!
E foi esse querer que me levou à razão de todo este texto. Um professor de Cambridge (que era já catedrático de Matemática) altamente “estranho”, que se dizia que às vezes acordava e ficava horas a pensar sentado, sem se aperceber disso, ou até que fazia experiências, quase perfurando o próprio olho, até encontrar o osso. Mas a verdade é que Isaac Newton era a minha última esperança. Excêntrico ou não, se ele não tivesse a resposta, então não saberia a quem mais recorrer.
Nervoso, entrei no seu gabinete, perante o ar atento de um sujeito chamado Abraham deMoivre. Cumprimentei Newton e, depois de uma conversa circunstancial, perguntei-lhe sobre o que pensava ser a órbita descrita pelos planetas. Para meu espanto, Newton não esboçou qualquer entusiasmo. E, como se lhe tivesse perguntado quanto era 1+1, respondeu-me, com naturalidade:
- Bem, é óbvio que se tratam de elipses, com o sol num dos focos.
Por isso, curioso, não hesitei em perguntar-lhe por que razão assim era.
- Porque fiz os cálculos – respondeu-me, com a maior das naturalidades. – Deixe-me ver se estão algures para aqui, e dou-lhe já – disse-me depois, vasculhando nas suas gavetas cheias de trabalhos com um potencial enorme e que, para ele, não passavam de rascunhos sem importância. Espantoso como alguém pode descobrir coisas tão profundas e colocar tudo na gaveta!
- Não encontro. Mas volte cá mais tarde, que eu vou fazer tudo de novo.
Newton fez realmente TUDO de novo, e ao fazê-lo apercebeu-se, finalmente, do que tinha em mãos. De tal forma que, indirectamente, acabei por ficar ligado à maior criação do Homem de todos os tempos, que culminou na publicação da obra Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, onde Newton, ao refazer os cálculos que lhe pedi, não só explicou por que razão eram as órbitas elipses, como também revelou a natureza da força que actuava os planetas, unificando a Terra com o Céu.
E assim, de uma só vez, com um só homem, um só génio, a Terra e o Céu eram regidos pelas mesmas leis e não mais fazia sentido distinguir os dois. E de uma só vez, estava nas mãos do Homem a explicação para as marés, para o facto de a Terra não ser totalmente esférica, ou para o porquê das trajectórias dos corpos na Terra e no espaço serem como são. Tudo, numa perfeição de Matemática na sua maioria – imagine-se – inventada pelo próprio Newton, ainda enquanto estudante, quando se aborrecia com o fraco poder da Matemática do seu tempo!
Por tudo isto, não ouso referir o que já disse há séculos atrás. Porque é absolutamente verdade que nenhum mortal se pode aproximar mais dos deuses do que Sir Isaac Newton. Tragam quem vocês quiserem, passado ou futuro, e vos direi que, mesmo em ombros de gigantes, ninguém pôde ver tão longe, nem chegar tão alto como Newton.
E o mais curioso é que Newton, trabalhando imenso para tentar descobrir pistas matemáticas que lhe indicassem a vinda do próximo Messias, acabou por não ter tempo para olhar para tudo o que ele próprio deu à humanidade e poder reconhecer, provavelmente espantado, que o Messias que ele buscava tão incessantemente era ele mesmo...
Q u e m E s c r e v e u . . .
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David Sobral, 18 anos, estudante de Física, Barreiro
Deus disse: Haja Newton! E fez-se luz.”
Alexander Pope, Epitáfio para Sir Isaac Newton
Permitam-me que me apresente. Chamo-me Edmond Halley. Devem reconhecer o meu nome devido ao cometa (agora) famoso, que foi visto por alguns de vós em 1986. Bem, na verdade não compreendo por que razão tem ele o meu nome, já que nada tive a ver com a sua descoberta. Limitei-me a verificar que era o mesmo cometa que já tinha sido observado antes. Mas em Ciência raras vezes ficamos com os nossos próprios louros…
Paciência. De qualquer forma não estou aqui para vos falar de mim, ainda que muitos reconheçam que dei um contributo importante para a Ciência. É que a razão que aqui me traz vence qualquer outra. E isto porque não creio que nenhum Homem alguma vez poderá chegar à grandiosidade de Isaac Newton, ainda que ele próprio tenha admitido que só conseguiu ver mais longe por se ter “erguido nos ombros de gigantes”.
Mas vamos ao importante. E isso, por incrível que pareça, começou numa noite. Sim, bem sei que raramente se pode escolher um instante para o início, mas neste caso é possível. E lembro-me como se fosse ontem. Estava junto a Hooke e Wren, a jantar. Sim, o mesmo Hooke que descobriu a célula, e o mesmo Hooke que era extremamente “gabarolas”, ao ponto de, mais tarde, dizer que alguns dos aspectos da divina teoria de Newton eram dele. Todavia, nessa noite, em 1683, tudo isso estava por vir. A humanidade vivia ainda na escuridão. E, se olhássemos o Céu, diriam que era a morada da perfeição, e que na Terra tudo era imperfeito. E assim era, Céu e Terra, regidos por leis totalmente diferentes.
Mas tudo isso iria mudar. E é estranho pensar que tudo derivou de uma conversa sobre o movimento dos astros, que levou a uma aposta. Uma aposta que, indirectamente, mudou o Mundo! Concordámos os três que o primeiro a descobrir por que razão os planetas seguem órbitas elípticas à volta do Sol ganharia dos outros dois cerca de meio ordenado. E assim se combinou.
Claro que Hooke rapidamente se pôs com o seu ar habitual, algo do género “bem, eu já sei, mas não vos vou dizer, para gozar a situação de terem que encontrar a resposta”. Não dei grande importância à sua atitude, porque, para mim, a questão ultrapassava em muito os 40 xelins prometidos. Por isso, logo na manhã seguinte, comecei a pesquisar e a contactar diversos indivíduos influentes da altura. Sabia-se que os planetas descreviam órbitas elípticas graças ao trabalho de Kepler, mas aparentemente ninguém conseguia explicar esse facto. E eu queria saber a explicação!
E foi esse querer que me levou à razão de todo este texto. Um professor de Cambridge (que era já catedrático de Matemática) altamente “estranho”, que se dizia que às vezes acordava e ficava horas a pensar sentado, sem se aperceber disso, ou até que fazia experiências, quase perfurando o próprio olho, até encontrar o osso. Mas a verdade é que Isaac Newton era a minha última esperança. Excêntrico ou não, se ele não tivesse a resposta, então não saberia a quem mais recorrer.
Nervoso, entrei no seu gabinete, perante o ar atento de um sujeito chamado Abraham deMoivre. Cumprimentei Newton e, depois de uma conversa circunstancial, perguntei-lhe sobre o que pensava ser a órbita descrita pelos planetas. Para meu espanto, Newton não esboçou qualquer entusiasmo. E, como se lhe tivesse perguntado quanto era 1+1, respondeu-me, com naturalidade:
- Bem, é óbvio que se tratam de elipses, com o sol num dos focos.
Por isso, curioso, não hesitei em perguntar-lhe por que razão assim era.
- Porque fiz os cálculos – respondeu-me, com a maior das naturalidades. – Deixe-me ver se estão algures para aqui, e dou-lhe já – disse-me depois, vasculhando nas suas gavetas cheias de trabalhos com um potencial enorme e que, para ele, não passavam de rascunhos sem importância. Espantoso como alguém pode descobrir coisas tão profundas e colocar tudo na gaveta!
- Não encontro. Mas volte cá mais tarde, que eu vou fazer tudo de novo.
Newton fez realmente TUDO de novo, e ao fazê-lo apercebeu-se, finalmente, do que tinha em mãos. De tal forma que, indirectamente, acabei por ficar ligado à maior criação do Homem de todos os tempos, que culminou na publicação da obra Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, onde Newton, ao refazer os cálculos que lhe pedi, não só explicou por que razão eram as órbitas elipses, como também revelou a natureza da força que actuava os planetas, unificando a Terra com o Céu.
E assim, de uma só vez, com um só homem, um só génio, a Terra e o Céu eram regidos pelas mesmas leis e não mais fazia sentido distinguir os dois. E de uma só vez, estava nas mãos do Homem a explicação para as marés, para o facto de a Terra não ser totalmente esférica, ou para o porquê das trajectórias dos corpos na Terra e no espaço serem como são. Tudo, numa perfeição de Matemática na sua maioria – imagine-se – inventada pelo próprio Newton, ainda enquanto estudante, quando se aborrecia com o fraco poder da Matemática do seu tempo!
Por tudo isto, não ouso referir o que já disse há séculos atrás. Porque é absolutamente verdade que nenhum mortal se pode aproximar mais dos deuses do que Sir Isaac Newton. Tragam quem vocês quiserem, passado ou futuro, e vos direi que, mesmo em ombros de gigantes, ninguém pôde ver tão longe, nem chegar tão alto como Newton.
E o mais curioso é que Newton, trabalhando imenso para tentar descobrir pistas matemáticas que lhe indicassem a vinda do próximo Messias, acabou por não ter tempo para olhar para tudo o que ele próprio deu à humanidade e poder reconhecer, provavelmente espantado, que o Messias que ele buscava tão incessantemente era ele mesmo...
Q u e m E s c r e v e u . . .
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David Sobral, 18 anos, estudante de Física, Barreiro
22 de janeiro de 2005
Que honra!
A natureza derrama as suas cores sobre manto verde da terra, tocada e fecundada pelos deuses.
O talento salpicado mas abundante vai desabrochar em espécies sem fim.
O mais ínfimo representante do reino de Flora, presta-lhe a sua homenagem, crescendo em beleza dia após dia, até ao último instante.
Assim, cumprida a sedução, entregar-se-á de novo à volúpia da terra.
O fruto será então o rei. Ou a rainha, qual romã coroada em dia de celebração.
O fruto veste-se de pele fina e colorida, que lhe esconde a carne, por vezes tão suculenta e doce que se tornará néctar.
Os homens enfeitam-se com flores, mordem os frutos, bebem-no na forma de vinho que lhes exalta os sentidos.
O pintor, neste caso a pintora, devolve os sentidos à forma original de folhas, flores e frutos, numa festa de cores em que os verdes das folhas se encostam ao vermelho das cerejas ou ao roxo das ameixas, poisando finalmente os olhares na alvura rosada do nenúfar, que nos convida à acalmia das sensações.
A honra de ser convidada a participar nesta festa!
Que honra ver as minhas palavras no catálogo entre as flores e os frutos!
O talento salpicado mas abundante vai desabrochar em espécies sem fim.
O mais ínfimo representante do reino de Flora, presta-lhe a sua homenagem, crescendo em beleza dia após dia, até ao último instante.
Assim, cumprida a sedução, entregar-se-á de novo à volúpia da terra.
O fruto será então o rei. Ou a rainha, qual romã coroada em dia de celebração.
O fruto veste-se de pele fina e colorida, que lhe esconde a carne, por vezes tão suculenta e doce que se tornará néctar.
Os homens enfeitam-se com flores, mordem os frutos, bebem-no na forma de vinho que lhes exalta os sentidos.
O pintor, neste caso a pintora, devolve os sentidos à forma original de folhas, flores e frutos, numa festa de cores em que os verdes das folhas se encostam ao vermelho das cerejas ou ao roxo das ameixas, poisando finalmente os olhares na alvura rosada do nenúfar, que nos convida à acalmia das sensações.
A honra de ser convidada a participar nesta festa!
Que honra ver as minhas palavras no catálogo entre as flores e os frutos!
17 de janeiro de 2005
Do Público 17 de janeiro de 2005
O escritor que cultivou uma solidão radical
Miguel Torga morreu há dez anos
Carlos Câmara Leme
PÚBLICO
Faz hoje precisamente dez anos, morria em Coimbra, depois de cinco longos meses de agonia no Instituto de Oncologia da cidade banhada pelo Mondego, o contista, romancista, poeta e diarista Miguel Torga (1907-1995), pseudónimo literário de Adolfo Correia da Rocha.
Não foi uma morte qualquer. Como escreveu então no PÚBLICO Eduardo Lourenço, "com a morte de Miguel Torga não é apenas uma referência tutelar da literatura e da cultura portuguesa que desaparece, mas toda uma atitude histórica do criador em relação à Literatura. (...) Torga podia dizer, com razão, que escrevia como quem lavrava a terra." Mais: "Ninguém, entre nós, investiu com tanta paixão e energia na construção da sua estátua interior" que, diga-se, nem sempre foi compreendida pelo mundo que rodeou até ao fim da vida o autor de "Contos da Montanha".
Para construir o seu percurso, Miguel Torga teve que travar a pulso, desde muito cedo, batalhas quixotescas. Nascido a 12 de Julho de 1907, no seio de uma família de camponeses muito pobre de S. Martinho de Anta, Trás-os-Montes, nem dinheiro havia para entrar na escola primária. Pôs-se, como era da praxe, a hipótese do seminário, mas o pequeno Torga acabou por ir parar ao Brasil, depois de uma passagem por uma casa burguesa do Porto como criado. Profeticamente, resume esta fase da sua vida no que viria a ser uma boa parte do seu percurso literário e existencial: "E fui ficando irremediavelmente sozinho no mundo...".
No entanto, será o Brasil (o destino tem destas coisas), onde trabalhará durante cinco anos numa fazenda de Minas Gerais, a permitir-lhe começar a criar o seu universo. Um tio ajuda-o financeiramente e Torga mostra a sua raça quando regressa em 1925: tira, em três anos, o curso geral dos liceus e, em, 1933 é doutor em Medicina pela Universidade de Coimbra, onde se virá a especializar em Otorrinolaringologia.
Início pela poesia
Literariamente, Torga começou pela poesia e, em 1933, já tinha quatro livros em carteira. Mas os anos 30 são definitivamente marcados pelas avenças e desavenças que constituíram a criação da revista e do grupo da "Presença", com João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca e José Régio. Abandona a revista em 1930, com Branquinho da Fonseca e Edmundo de Bettencourt, e é impedioso, mais tarde, quando escreve em "A Criação do Mundo", porventura o seu título mais conseguido: "Intelectualizados da cabeça aos pés, mal tocavam a realidade. Eram platónicos no amor, teóricos no desporto, metafísicos no convívio."
É com "A Terceira Voz", um livro de prosa, que cria o pseudónimo Miguel Torga. A escolha não surge por caso: Torga é o nome de uma urze de Trás-os-Montes; Miguel é uma homenagem do escritor àqueles que o fazem esquecer Aljubarrota e o Tratado de Tordesilhas. Consequências: desde então, Torga não deixou de ser associado ao legado ibérico e, simultaneamente, a ser carimbado como um autor telúrico (que em ambos os casos o foi...).
Em 1941, instala-se em Coimbra, no Largo da Portagem, num consultório que permanece no activo quase até ao fim dos seus dias. Além de estadas regulares em S. Martinho de Anta, viaja pouco. Quando o fez, em 1936, relata o que vê - "O Quarto Dia da Criação do Mundo" (1939) - e não se sai bem: o livro é apreendido pela omnipresente censura de António de Oliveira Salazar; vai parar à prisão do Aljube, em Lisboa, onde fica preso alguns meses; vê os "Contos de Montanha" (1941) ser também retirado das estantes das livrarias e, como se não bastasse, a sua mulher Andrée Cabrée Rocha é impedida de ensinar na universidade.
Nem tudo é negro, porém, nos anos 40. Publica "Os Bichos" e "Novos Contos da Montanha" surge em 1944 (ainda hoje, talvez, os títulos mais conhecidos do grande público). Mas o escritor não se deixa deslumbrar. Sente, como escreve em "A Criação do Mundo" (V Volume), "um silêncio sepulcral à volta de cada obra que dava a lume." Desafaba mais e sobe a parada: "Era como se não existisse no mundo das letras."
Um monólogo pessimista
Este anátema não passa despercebido a Eduardo Lourenço, que, em 1955, publica "O Desespero Humanista de Miguel Torga e as Novas Gerações". Torga podia escrever e publicar sem parar, mas ia construindo, ao mesmo tempo, "um dos monólogos mais radicais de toda a poesia portuguesa" - um monólogo pessimista que Miguel Torga, quer se queira quer não, cultivou até ao fim.
Pode ter continuado a publicar à velocidade de cruzeiro nos anos 50 e 60, altura em que é pela primeira vez proposto para o Prémio Nobel da Literatura. Os vários volumes do "Diário" (chegou ao XVI) podem continuar a ser devorados sempre que sai um volume (um pouco como acontecerá com a "Conta-Corrente", de Vergílio Ferreira), a sua obra chega à meia centena de títulos, os seus livros podem estar traduzidos em 16 línguas, o Governo em 1978 pode mesmo homenageá-lo por ocasião dos 50 anos da sua carreira literária, pode ter sido o primeiro escritor a ganhar o Prémio Camões, em 1989, ou o Prémio Vida Literára/1991, atribuído por Presidente Mário Soares... Não importa, Torga resiste a tudo e não desarma no seu mundo solitário e pessimista.
O romancista Mário Cláudio acertou em cheio quando resumiu a vida do autor de "Orfeu Rebelde", há dez anos, no PÚBLICO, escrevendo que Torga foi "um solitário voluntário, um exilado no próprio país".
A sua obra, porém, está aí. Para ser lida e, muito provavelmente, para ser descoberta.
Miguel Torga morreu há dez anos
Carlos Câmara Leme
PÚBLICO
Faz hoje precisamente dez anos, morria em Coimbra, depois de cinco longos meses de agonia no Instituto de Oncologia da cidade banhada pelo Mondego, o contista, romancista, poeta e diarista Miguel Torga (1907-1995), pseudónimo literário de Adolfo Correia da Rocha.
Não foi uma morte qualquer. Como escreveu então no PÚBLICO Eduardo Lourenço, "com a morte de Miguel Torga não é apenas uma referência tutelar da literatura e da cultura portuguesa que desaparece, mas toda uma atitude histórica do criador em relação à Literatura. (...) Torga podia dizer, com razão, que escrevia como quem lavrava a terra." Mais: "Ninguém, entre nós, investiu com tanta paixão e energia na construção da sua estátua interior" que, diga-se, nem sempre foi compreendida pelo mundo que rodeou até ao fim da vida o autor de "Contos da Montanha".
Para construir o seu percurso, Miguel Torga teve que travar a pulso, desde muito cedo, batalhas quixotescas. Nascido a 12 de Julho de 1907, no seio de uma família de camponeses muito pobre de S. Martinho de Anta, Trás-os-Montes, nem dinheiro havia para entrar na escola primária. Pôs-se, como era da praxe, a hipótese do seminário, mas o pequeno Torga acabou por ir parar ao Brasil, depois de uma passagem por uma casa burguesa do Porto como criado. Profeticamente, resume esta fase da sua vida no que viria a ser uma boa parte do seu percurso literário e existencial: "E fui ficando irremediavelmente sozinho no mundo...".
No entanto, será o Brasil (o destino tem destas coisas), onde trabalhará durante cinco anos numa fazenda de Minas Gerais, a permitir-lhe começar a criar o seu universo. Um tio ajuda-o financeiramente e Torga mostra a sua raça quando regressa em 1925: tira, em três anos, o curso geral dos liceus e, em, 1933 é doutor em Medicina pela Universidade de Coimbra, onde se virá a especializar em Otorrinolaringologia.
Início pela poesia
Literariamente, Torga começou pela poesia e, em 1933, já tinha quatro livros em carteira. Mas os anos 30 são definitivamente marcados pelas avenças e desavenças que constituíram a criação da revista e do grupo da "Presença", com João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca e José Régio. Abandona a revista em 1930, com Branquinho da Fonseca e Edmundo de Bettencourt, e é impedioso, mais tarde, quando escreve em "A Criação do Mundo", porventura o seu título mais conseguido: "Intelectualizados da cabeça aos pés, mal tocavam a realidade. Eram platónicos no amor, teóricos no desporto, metafísicos no convívio."
É com "A Terceira Voz", um livro de prosa, que cria o pseudónimo Miguel Torga. A escolha não surge por caso: Torga é o nome de uma urze de Trás-os-Montes; Miguel é uma homenagem do escritor àqueles que o fazem esquecer Aljubarrota e o Tratado de Tordesilhas. Consequências: desde então, Torga não deixou de ser associado ao legado ibérico e, simultaneamente, a ser carimbado como um autor telúrico (que em ambos os casos o foi...).
Em 1941, instala-se em Coimbra, no Largo da Portagem, num consultório que permanece no activo quase até ao fim dos seus dias. Além de estadas regulares em S. Martinho de Anta, viaja pouco. Quando o fez, em 1936, relata o que vê - "O Quarto Dia da Criação do Mundo" (1939) - e não se sai bem: o livro é apreendido pela omnipresente censura de António de Oliveira Salazar; vai parar à prisão do Aljube, em Lisboa, onde fica preso alguns meses; vê os "Contos de Montanha" (1941) ser também retirado das estantes das livrarias e, como se não bastasse, a sua mulher Andrée Cabrée Rocha é impedida de ensinar na universidade.
Nem tudo é negro, porém, nos anos 40. Publica "Os Bichos" e "Novos Contos da Montanha" surge em 1944 (ainda hoje, talvez, os títulos mais conhecidos do grande público). Mas o escritor não se deixa deslumbrar. Sente, como escreve em "A Criação do Mundo" (V Volume), "um silêncio sepulcral à volta de cada obra que dava a lume." Desafaba mais e sobe a parada: "Era como se não existisse no mundo das letras."
Um monólogo pessimista
Este anátema não passa despercebido a Eduardo Lourenço, que, em 1955, publica "O Desespero Humanista de Miguel Torga e as Novas Gerações". Torga podia escrever e publicar sem parar, mas ia construindo, ao mesmo tempo, "um dos monólogos mais radicais de toda a poesia portuguesa" - um monólogo pessimista que Miguel Torga, quer se queira quer não, cultivou até ao fim.
Pode ter continuado a publicar à velocidade de cruzeiro nos anos 50 e 60, altura em que é pela primeira vez proposto para o Prémio Nobel da Literatura. Os vários volumes do "Diário" (chegou ao XVI) podem continuar a ser devorados sempre que sai um volume (um pouco como acontecerá com a "Conta-Corrente", de Vergílio Ferreira), a sua obra chega à meia centena de títulos, os seus livros podem estar traduzidos em 16 línguas, o Governo em 1978 pode mesmo homenageá-lo por ocasião dos 50 anos da sua carreira literária, pode ter sido o primeiro escritor a ganhar o Prémio Camões, em 1989, ou o Prémio Vida Literára/1991, atribuído por Presidente Mário Soares... Não importa, Torga resiste a tudo e não desarma no seu mundo solitário e pessimista.
O romancista Mário Cláudio acertou em cheio quando resumiu a vida do autor de "Orfeu Rebelde", há dez anos, no PÚBLICO, escrevendo que Torga foi "um solitário voluntário, um exilado no próprio país".
A sua obra, porém, está aí. Para ser lida e, muito provavelmente, para ser descoberta.
9 de janeiro de 2005
UM CICLISTA
Domingo, 09 de Janeiro de 2005
José Eduardo Agualusa
O passado é como o mar: nunca sossega. As casas encolhem, como os velhos, ao passo que as árvores crescem sem parar. Quando regressamos, decorridos muitos anos, aos lugares da nossa infância encontramos árvores gigantescas e, sufocando de terror à sombra delas, as casas minúsculas que um dia foram nossas. Mal reconhecemos a cama de bonecas em que dormimos quando éramos crianças. E o quintal? Era imenso. Tem dois palmos de fundo.
O meu pai dizia-me - "a vida é uma corrida, meu filho. Quem olha para trás enquanto corre, arrisca-se a tropeçar".
Eu não olho para trás. Avanço por vezes de olhos fechados, e tropeço, como os outros, e eventualmente caio, mas não olho para trás. Nunca fui pessoa de cultivar saudades. Não colecciono álbuns de fotografias, e jamais guardei pétalas secas entre as páginas de velhos livros. Sigo sempre em frente. Quando me perguntam para onde vou encolho os ombros. Rio-me:
"Adiante."
O mundo é infinito para quem viaja a pé. Eu viajo a pé, à boleia de algum camião, ou de bicicleta. Andando de camião, ou de bicicleta, o mundo parece um pouquinho menor, mas ainda assim, digo-lhe, é uma imensidão. Não tenho muitos estudos. Aprendi a ler e a contar. Raramente leio o que quer que seja. Quando encontro algum jornal lanço uma vista de olhos à página da necrologia. Como não conheço ninguém, não tenho amigos em parte nenhuma, choro pelos desconhecidos, aqueles que me parecem mais simpáticos, vou pelo semblante, entende?, ou pelo nome. Há sempre algum José por quem chorar. Não choro de pena. Choro apenas para praticar.
Enquanto viajo conto os quilómetros para enganar o tédio. Desconheço o que me espera quando cruzo uma fronteira. Não passo duas vezes pelo mesmo lugar. Cheguei ontem, por exemplo, do Huambo. O senhor conhece? Pois olhe, eu também nasci numa cidade chamada Huambo, mas muito longe deste país, nas montanhas do Peru. Tinha uma leprosaria que o Che Guevara visitou. Não há lugares repetidos. Só os nomes se repetem.
Como faço para sobreviver? Estou atento. Há poucos dias um camponês disse-me apontando em redor: "Tudo o que não é mato engorda". Concordo. Veja bem: as mangas. Durante um mês comi apenas mangas. Só o perfume das mangas, se forem doces, já alimenta. Isso, ou um canavial a arder. Goiabas maduras. Também se pode sobreviver muito tempo comendo unicamente milho ou feijão. Um homem em andamento não morre de fome. Entrei em Angola, pedalando esta bicicleta, e em poucos minutos estava no meio do deserto. Fui subindo. Na primeira noite dei com um acampamento de pastores. Ofereceram-me água e leite azedo. Na tarde seguinte parou um jipe à minha frente. Um branco e um preto. Ficaram muito admirados por verem um tipo assim como eu, meio índio, tão longe de tudo. Também eles me deram água. Levaram-me no jipe até Mossamedes. Depois subi a serra, sozinho, na minha bicicleta, e fiquei uma semana no Lubango, a descansar. Acontece chegar a uma cidade e achar que é agradável e então deixo-me estar um mês ou dois, procuro trabalho, engordo, e sempre ganho algum dinheiro para gastar no caminho. Lavo pratos, esfrego o chão, e além disso sou um bom cozinheiro. Quando sinto que me começo a afeiçoar a um lugar despeço-me e vou-me embora.
Quem não ama não sofre. Quem nada tem, não tem nada a perder. É o que penso.
Um dia adormeci no topo de um enorme despenhadeiro. Acordei com a primeira luz. A manhã pousou-me no ombro, como um pássaro, e ali ficou. Diante de mim havia o mar. Atrás de mim o céu profundo, altas montanhas. Era um lugar sem exemplo, arredado do mundo, como um elefante velho que se perdeu da manada. Até àquele instante eu viajava sem saber porquê. E então, sentado sobre o abismo, ocorreu-me pela primeira vez essa questão. "O que faço aqui?". Pensei em voltar para trás. Porém, tinha caminhado demais, e já tanto fazia recuar como avançar. Continuei em frente. Hoje viajo para saber porquê. Desaponta-o, talvez, este final - esperava outro?
Se tivesse ficado lá atrás, nas montanhas do Peru, onde nasci, venderia botões, como o meu pai. Teria algo a perder, família e dinheiro, por certo sofreria mais. Quanto ao resto não sei se seria, em substância, muito diverso do que sou hoje. Ignoraria certas coisas, sim, o senhor tem razão, mas não me prejudicaria tal ignorância, pois nem sequer daria por ela.
Não sei. Acho que um dia eu paro.
José Eduardo Agualusa
O passado é como o mar: nunca sossega. As casas encolhem, como os velhos, ao passo que as árvores crescem sem parar. Quando regressamos, decorridos muitos anos, aos lugares da nossa infância encontramos árvores gigantescas e, sufocando de terror à sombra delas, as casas minúsculas que um dia foram nossas. Mal reconhecemos a cama de bonecas em que dormimos quando éramos crianças. E o quintal? Era imenso. Tem dois palmos de fundo.
O meu pai dizia-me - "a vida é uma corrida, meu filho. Quem olha para trás enquanto corre, arrisca-se a tropeçar".
Eu não olho para trás. Avanço por vezes de olhos fechados, e tropeço, como os outros, e eventualmente caio, mas não olho para trás. Nunca fui pessoa de cultivar saudades. Não colecciono álbuns de fotografias, e jamais guardei pétalas secas entre as páginas de velhos livros. Sigo sempre em frente. Quando me perguntam para onde vou encolho os ombros. Rio-me:
"Adiante."
O mundo é infinito para quem viaja a pé. Eu viajo a pé, à boleia de algum camião, ou de bicicleta. Andando de camião, ou de bicicleta, o mundo parece um pouquinho menor, mas ainda assim, digo-lhe, é uma imensidão. Não tenho muitos estudos. Aprendi a ler e a contar. Raramente leio o que quer que seja. Quando encontro algum jornal lanço uma vista de olhos à página da necrologia. Como não conheço ninguém, não tenho amigos em parte nenhuma, choro pelos desconhecidos, aqueles que me parecem mais simpáticos, vou pelo semblante, entende?, ou pelo nome. Há sempre algum José por quem chorar. Não choro de pena. Choro apenas para praticar.
Enquanto viajo conto os quilómetros para enganar o tédio. Desconheço o que me espera quando cruzo uma fronteira. Não passo duas vezes pelo mesmo lugar. Cheguei ontem, por exemplo, do Huambo. O senhor conhece? Pois olhe, eu também nasci numa cidade chamada Huambo, mas muito longe deste país, nas montanhas do Peru. Tinha uma leprosaria que o Che Guevara visitou. Não há lugares repetidos. Só os nomes se repetem.
Como faço para sobreviver? Estou atento. Há poucos dias um camponês disse-me apontando em redor: "Tudo o que não é mato engorda". Concordo. Veja bem: as mangas. Durante um mês comi apenas mangas. Só o perfume das mangas, se forem doces, já alimenta. Isso, ou um canavial a arder. Goiabas maduras. Também se pode sobreviver muito tempo comendo unicamente milho ou feijão. Um homem em andamento não morre de fome. Entrei em Angola, pedalando esta bicicleta, e em poucos minutos estava no meio do deserto. Fui subindo. Na primeira noite dei com um acampamento de pastores. Ofereceram-me água e leite azedo. Na tarde seguinte parou um jipe à minha frente. Um branco e um preto. Ficaram muito admirados por verem um tipo assim como eu, meio índio, tão longe de tudo. Também eles me deram água. Levaram-me no jipe até Mossamedes. Depois subi a serra, sozinho, na minha bicicleta, e fiquei uma semana no Lubango, a descansar. Acontece chegar a uma cidade e achar que é agradável e então deixo-me estar um mês ou dois, procuro trabalho, engordo, e sempre ganho algum dinheiro para gastar no caminho. Lavo pratos, esfrego o chão, e além disso sou um bom cozinheiro. Quando sinto que me começo a afeiçoar a um lugar despeço-me e vou-me embora.
Quem não ama não sofre. Quem nada tem, não tem nada a perder. É o que penso.
Um dia adormeci no topo de um enorme despenhadeiro. Acordei com a primeira luz. A manhã pousou-me no ombro, como um pássaro, e ali ficou. Diante de mim havia o mar. Atrás de mim o céu profundo, altas montanhas. Era um lugar sem exemplo, arredado do mundo, como um elefante velho que se perdeu da manada. Até àquele instante eu viajava sem saber porquê. E então, sentado sobre o abismo, ocorreu-me pela primeira vez essa questão. "O que faço aqui?". Pensei em voltar para trás. Porém, tinha caminhado demais, e já tanto fazia recuar como avançar. Continuei em frente. Hoje viajo para saber porquê. Desaponta-o, talvez, este final - esperava outro?
Se tivesse ficado lá atrás, nas montanhas do Peru, onde nasci, venderia botões, como o meu pai. Teria algo a perder, família e dinheiro, por certo sofreria mais. Quanto ao resto não sei se seria, em substância, muito diverso do que sou hoje. Ignoraria certas coisas, sim, o senhor tem razão, mas não me prejudicaria tal ignorância, pois nem sequer daria por ela.
Não sei. Acho que um dia eu paro.
2 de janeiro de 2005
Perguntas à Língua Portuguesa, de Mia Couto
Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.
A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o vôo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem, é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como a escrita e o mundo mutuamente se desobedecem.
Meu anjo da guarda, felizmente, nunca me guardou.
Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica.
Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulburbio.
No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.
Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?
Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas? Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:
Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?
A diferença entre um às no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
O mato desconhecido é que é o anonimato?
O pequeno viaduto é um abreviaduto?
Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente?
Quem vive numa encruzilhada é um encruzilheu?
Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
Tristeza do boi vem dele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
Onde se esgotou a água se deve dizer: "aquabou"?
Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
Mulher desdentada pode usar fio dental?
A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: "finanças"?
Um tufão pequeno: um tufinho?
O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
Em águas doces alguém se pode salpicar?
Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?
Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocamos essoutro português - o nosso português - na travessia dos matos, fizemos que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.
Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas - o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos. Devolver a estrela ao planeta dormente.
Mia Couto - 11/04/1997
A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o vôo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem, é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como a escrita e o mundo mutuamente se desobedecem.
Meu anjo da guarda, felizmente, nunca me guardou.
Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica.
Ora qual é a nossa elegância? Nenhuma, excepto a de irmos ajeitando o pé a um novo chão. Ou estaremos convidando o chão ao molde do pé? Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. Nós estamos deitando molho sobre pouca farinha a ver se o milagre dos pães se repete na periferia do mundo, neste sulburbio.
No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.
Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. O idioma, afinal, o que é senão o ovo das galinhas de ouro?
Estamos, sim, amando o indomesticável, aderindo ao invisível, procurando os outros tempos deste tempo. Precisamos, sim, de senso incomum. Pois, das leis da língua, alguém sabe as certezas delas? Ponho as minhas irreticências. Veja-se, num sumário exemplo, perguntas que se podem colocar à língua:
Se pode dizer de um careca que tenha couro cabeludo?
No caso de alguém dormir com homem de raça branca é então que se aplica a expressão: passar a noite em branco?
A diferença entre um às no volante ou um asno volante é apenas de ordem fonética?
O mato desconhecido é que é o anonimato?
O pequeno viaduto é um abreviaduto?
Como é que o mecânico faz amor? Mecanicamente?
Quem vive numa encruzilhada é um encruzilheu?
Se diz do brado de bicho que não dispõe de vértebras: o invertebrado?
Tristeza do boi vem dele não se lembrar que bicho foi na última reencarnação. Pois se ele, em anterior vida, beneficiou de chifre o que está ocorrendo não é uma reencornação?
O elefante que nunca viu mar, sempre vivendo no rio: devia ter marfim ou riofim?
Onde se esgotou a água se deve dizer: "aquabou"?
Não tendo sucedido em Maio mas em Março o que ele teve foi um desmaio ou um desmarço?
Quando a paisagem é de admirar constrói-se um admiradouro?
Mulher desdentada pode usar fio dental?
A cascavel a quem saiu a casca fica só uma vel?
As reservas de dinheiro são sempre finas. Será daí que vem o nome: "finanças"?
Um tufão pequeno: um tufinho?
O cavalo duplamente linchado é aquele que relincha?
Em águas doces alguém se pode salpicar?
Adulto pratica adultério. E um menor: será que pratica minoritério?
Um viciado no jogo de bilhar pode contrair bilharziose?
Um gordo, tipo barril, é um barrilgudo?
Borboleta que insiste em ser ninfa: é ela a tal ninfomaníaca?
Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. Lembro a camponesa da Zambézia. Eu falo português corta-mato, dizia. Sim, isso que ela fazia é, afinal, trabalho de todos nós. Colocamos essoutro português - o nosso português - na travessia dos matos, fizemos que ele se descalçasse pelos atalhos da savana.
Nesse caminho lhe fomos somando colorações. Devolvemos cores que dela haviam sido desbotadas - o racionalismo trabalha que nem lixívia. Urge ainda adicionar-lhe músicas e enfeites, somar-lhe o volume da superstição e a graça da dança. É urgente recuperar brilhos antigos. Devolver a estrela ao planeta dormente.
Mia Couto - 11/04/1997
30 de dezembro de 2004
Receita de Ano Novo
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
Carlos Drummond de Andrade
23 de dezembro de 2004
Um sonho no sapatinho
O Francisco é um menino como todos os meninos que há na nossa rua, no nosso bairro ou na nossa escola. Mas o Francisco não mora no nosso bairro nem na nossa rua.
Mora numa vila onde a vida de todos se vive para lá e para cá de os muros de uma prisão. Perto, passa uma estrada importante e dessa estrada vêem-se uns grandes edifícios brancos. As pessoas interrogam-se: Será um hospital? Será um asilo? Ninguém se pergunta se ali há flores, crianças, pássaros ou animais, ferozes ou não.
Certamente, quem ali vive não pode estar em contacto com os outros, por perigo de contágio ou por não ser desejado, tendo sido deixado, abandonado...
Porém, o Francisco não é um menino infeliz. Cresceu naquela vila e desde sempre se habituou à paisagem cinzenta e verde, húmida e linda, no Inverno, ou amarela e quente, no Verão.
Com nove anos, o Francisco vai para a escola de mochila às costas e cruza-se com homens sombriamente cobertos de casacos pardos e escuros, de olhos também sombrios, pardos e escuros. Talvez da cor da solidão! Esses homens vão trabalhar para o campo, acompanhados de guardas prisionais.
O pai do Francisco é guarda prisional. Por isso, aquela farda, bem como a arma nunca lhe causaram espécie alguma de terror. Ele conhece bem o homem que se esconde debaixo daquela roupa, tão triste como a dos homens que costuma acompanhar: um homem bom. Um homem bom que diz muitas vezes à mulher, até a propósito de nada:
- O nosso Francisco há-de ter um mundo melhor!
Ele tem a ternura dos pastores, mas sabe que é olhado como um pastor de lobos, que defende as ovelhas que passam; não como um pastor de ovelhas, que as guarda dos lobos que aparecem. Ele conhece os homens que acompanha e sabe o quanto há de ovelha naquelas almas. Por outro lado, teme muitos dos que passam, pois neles pressente algo de lobo disfarçado, escondido.
O Francisco nunca provou um pão de cada dia mais doce, mais fofo, mais quente, mais agradável... No entanto, no fundo da sua consciência, como acontece com todo nós, há uma espécie de sabedoria de uma realidade melhor e mais feliz. Todos sabemos o que é a felicidade, embora possamos nunca a ter provado. Chama-se a isto consciência colectiva e diz-se que a razão reside no facto de todo o homem ter experimentado esta felicidade, pelo menos, no ventre seguro da sua mãe. Às vezes, esta experiência, ou a recordação dela, aparece-nos em sonhos, ou revela-se simplesmente na tendência em acreditar num mundo melhor, como acontece com o pai do Francisco.
E foi possivelmente por isso mesmo que ele, o Francisco, um dia, ou melhor, uma noite, teve um sonho muito lindo...
As pequenas janelas gradeadas das casas altas e frias rasgavam-se em largas janelas envidraçadas, muito transparentes e limpas. Não tinham cortinas: apenas um folho colorido, para enfeitar.
Uma trepadeira muito verde crescia a uma velocidade espantosa, agarrada às paredes brancas, que assim passavam a ser verdes, da cor dos montes ao longe. De minuto a minuto, nascia uma flor diferente. Os enormes muros que rodeavam a prisão derretiam, como derrete a gelatina, tomando depois a forma de bancos de jardim. E havia mesmo um jardim, onde brincavam meninos e meninas, crianças como ele, o Francisco da nossa história.
Os homens, os muitos homens que por ali andavam, já não se cobriam com casacos pardos e escuros! Usavam camisas coloridas, algumas com quadrados, quadrados grandes, também coloridos e bonitos, que em nada faziam lembrar as grades da prisão! Ao pé de cada homem, havia uma mulher como a mãe do Francisco, serena e feliz.
E o pai? Esse organizava a festa da vila, a grande festa da vila, o que sempre secretamente ambicionara. Os outros guardas ajudavam-no, entusiasmados e contentes.
Era realmente tempo de festa!
Era tempo de Natal! Era tempo de paz, de arrependimento e de perdão.
Era tempo de liberdade!
De manhã, o Francisco percebeu que nada tinha acontecido, nada havia mudado: a paisagem era muito fria e não havia cores para lá da janelinha do seu quarto.
Já bem acordado, foi até à sala. Lá estava o presépio que de ano para ano se tornava mais especial e mais bonito, graças à imaginação do Francisco e ao engenho do pai.
Parecia tudo muito perfeito, tal como o sonho. Até o sapatinho do Francisco, que já guardava vez, muito engraxado e brilhante.
Tão brilhante como a ideia do Francisco:
- Vou pôr o meu sonho no sapatinho!
(Publicado no manual "Lições de Português" do 6º ano, das autoras Ana Sousa, Ana Ribeiro dos Santos e Maria de Lurdes Pinto da Fonseca, Texto)
Mora numa vila onde a vida de todos se vive para lá e para cá de os muros de uma prisão. Perto, passa uma estrada importante e dessa estrada vêem-se uns grandes edifícios brancos. As pessoas interrogam-se: Será um hospital? Será um asilo? Ninguém se pergunta se ali há flores, crianças, pássaros ou animais, ferozes ou não.
Certamente, quem ali vive não pode estar em contacto com os outros, por perigo de contágio ou por não ser desejado, tendo sido deixado, abandonado...
Porém, o Francisco não é um menino infeliz. Cresceu naquela vila e desde sempre se habituou à paisagem cinzenta e verde, húmida e linda, no Inverno, ou amarela e quente, no Verão.
Com nove anos, o Francisco vai para a escola de mochila às costas e cruza-se com homens sombriamente cobertos de casacos pardos e escuros, de olhos também sombrios, pardos e escuros. Talvez da cor da solidão! Esses homens vão trabalhar para o campo, acompanhados de guardas prisionais.
O pai do Francisco é guarda prisional. Por isso, aquela farda, bem como a arma nunca lhe causaram espécie alguma de terror. Ele conhece bem o homem que se esconde debaixo daquela roupa, tão triste como a dos homens que costuma acompanhar: um homem bom. Um homem bom que diz muitas vezes à mulher, até a propósito de nada:
- O nosso Francisco há-de ter um mundo melhor!
Ele tem a ternura dos pastores, mas sabe que é olhado como um pastor de lobos, que defende as ovelhas que passam; não como um pastor de ovelhas, que as guarda dos lobos que aparecem. Ele conhece os homens que acompanha e sabe o quanto há de ovelha naquelas almas. Por outro lado, teme muitos dos que passam, pois neles pressente algo de lobo disfarçado, escondido.
O Francisco nunca provou um pão de cada dia mais doce, mais fofo, mais quente, mais agradável... No entanto, no fundo da sua consciência, como acontece com todo nós, há uma espécie de sabedoria de uma realidade melhor e mais feliz. Todos sabemos o que é a felicidade, embora possamos nunca a ter provado. Chama-se a isto consciência colectiva e diz-se que a razão reside no facto de todo o homem ter experimentado esta felicidade, pelo menos, no ventre seguro da sua mãe. Às vezes, esta experiência, ou a recordação dela, aparece-nos em sonhos, ou revela-se simplesmente na tendência em acreditar num mundo melhor, como acontece com o pai do Francisco.
E foi possivelmente por isso mesmo que ele, o Francisco, um dia, ou melhor, uma noite, teve um sonho muito lindo...
As pequenas janelas gradeadas das casas altas e frias rasgavam-se em largas janelas envidraçadas, muito transparentes e limpas. Não tinham cortinas: apenas um folho colorido, para enfeitar.
Uma trepadeira muito verde crescia a uma velocidade espantosa, agarrada às paredes brancas, que assim passavam a ser verdes, da cor dos montes ao longe. De minuto a minuto, nascia uma flor diferente. Os enormes muros que rodeavam a prisão derretiam, como derrete a gelatina, tomando depois a forma de bancos de jardim. E havia mesmo um jardim, onde brincavam meninos e meninas, crianças como ele, o Francisco da nossa história.
Os homens, os muitos homens que por ali andavam, já não se cobriam com casacos pardos e escuros! Usavam camisas coloridas, algumas com quadrados, quadrados grandes, também coloridos e bonitos, que em nada faziam lembrar as grades da prisão! Ao pé de cada homem, havia uma mulher como a mãe do Francisco, serena e feliz.
E o pai? Esse organizava a festa da vila, a grande festa da vila, o que sempre secretamente ambicionara. Os outros guardas ajudavam-no, entusiasmados e contentes.
Era realmente tempo de festa!
Era tempo de Natal! Era tempo de paz, de arrependimento e de perdão.
Era tempo de liberdade!
De manhã, o Francisco percebeu que nada tinha acontecido, nada havia mudado: a paisagem era muito fria e não havia cores para lá da janelinha do seu quarto.
Já bem acordado, foi até à sala. Lá estava o presépio que de ano para ano se tornava mais especial e mais bonito, graças à imaginação do Francisco e ao engenho do pai.
Parecia tudo muito perfeito, tal como o sonho. Até o sapatinho do Francisco, que já guardava vez, muito engraxado e brilhante.
Tão brilhante como a ideia do Francisco:
- Vou pôr o meu sonho no sapatinho!
(Publicado no manual "Lições de Português" do 6º ano, das autoras Ana Sousa, Ana Ribeiro dos Santos e Maria de Lurdes Pinto da Fonseca, Texto)
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