17 de julho de 2005

Manuel Alegre no JL

Manuel Alegre
Viver para cantá-la
Por José Carlos de Vasconcelos

A publicação da Praça da Canção, no final da Primavera de 1965, em Coimbra, foi um verdadeiro acontecimento – poético e político. Tratou-se da revelação em livro de uma voz nova, inconfundível, interveniente, militante, que aliás nos meios estudantis já era muito conhecida e nos meios de combate à ditadura, em geral, já o começava a ser. Manuel Alegre tinha sido actor no TEUC, pertencido a listas de esquerda nas eleições para a Associação Académica, «discursara» em manifestações estudantis, a Trova do Vento que Passa, cantada por Adriano com música de António Portugal, já se transformara numa espécie de hino de resistência, o poeta já tinha sido chamado para a «tropa», estado na guerra colonial e na cadeia, partido para o exílio.

O livro saiu, rodeado de grande segredo (obviamente iria ser apreendido pela polícia política), terceiro título do «Cancioneiro Vértice», uma colecção editada pela conhecida revista do mesmo nome, ligada ao neo-realismo, para cuja redacção, em 1961 ou 62, entraram quatro jovens: Alegre, Fernando Assis Pacheco, J. A. Silva Marques e eu próprio. Pouco depois os dois primeiros seriam chamados para a «tropa» e iriam para a guerra, para Angola, Silva Marques sairia de Coimbra e passaria à clandestinidade, e fiquei só eu (quatro ou cinco anos mais novo e «isento» do serviço militar). Aquela colecção iniciara-se, aliás, com Cuidar dos Vivos, do Assis, em 63, a que se seguiu o meu Corpo de Esperança, em 64.

O impacto de Praça da Canção foi enorme, é difícil a quem não viveu esses tempos imaginá-lo. O Manel (como os amigos lhe chamavam e chamam) sofreu as agruras do exílio em Paris e depois em Argel (onde foi redactor e «locutor» da rádio Voz da Liberdade), tornou-se uma figura muito destacada da luta anti-fascista. Entretanto publicou, em 1967, O Canto e as Armas, que amplia o registo de Praça da Canção, no qual o exílio (o seu e o dos portugueses em concreto, e o exílio como metáfora) tem um grande peso; e, em 1971, o «poema dramático» Um Barco para Ítaca.

Em 1974, com o 25 de Abril e a liberdade, regressa a Portugal, e a partir daí progressivamente vai publicando mais e mais, primeiro só poesia, depois prosa, sobretudo ficção (romance, conto, novela), ensaio criativo, textos políticos. Seria ocioso estar aqui a recensear a sua já vasta bibliografia, assinale-se apenas que, vencendo os (no mínimo) «preconceitos» de muitos críticos e literatos, a sua obra cada vez mais se foi impondo a todos os níveis, sobre ela têm escrito os mais relevantes ensaístas e já recebeu significativas distinções, entre as quais o Prémio Pessoa. Ao mesmo tempo, Alegre manteve uma constante actividade política. Deputado há 30 anos, desde a Assembleia Constituinte, é vice-presidente do Parlamento. No último Congresso do PS, em 2004, aceitou ser candidato a secretário-geral do partido de que tem sido destacado dirigente. E o seu nome é dos mais referidos como eventual candidato a Presidente da República, no início de 2006.

Os 40 anos de Praça da Canção são assinalados designadamente com uma edição especial do livro (ed. Dom Quixote), em «texto definitivo», com belos desenhos de José Rodrigues e um bom prefácio de Paula Morão, que se vem somar ao que de melhor escreveram sobre o poeta Eduardo Lourenço, Maria Helena da Rocha Pereira, Carlos Reis, Mário Sacramento, Victor Aguiar e Silva, entre outros. Oportunidade para um longo diálogo, sobre a poesia e a vida, nele tão inextrincavelmente ligadas (e daí o título desta ‘tirado’ de García Márquez) de que aqui fica o essencial.

Jornal de Letras: Começamos pelo pretexto próximo desta conversa, que são os 40 anos de Praça da Canção. Como é?...
Manuel Alegre: É uma memória muito viva. Em mim e nas pessoas dessa geração. Mas também há malta nova que sabe esses poemas. Tenho ido a escolas, sobretudo quando se comemora o 25 de Abril, e embora de forma não generalizada vejo que isso acontece, graças ao trabalho de alguns professores. Seja como for, 40 anos são 40 anos. O que queres que te diga?

Vamos então a ‘factos’: Praça da Canção, até hoje, quantas edições teve e quanto exemplares terá tirado?

Que eu saiba, deve andar à volta das 13 ou 14 edições autónomas: as primeiras, as da Europa-América e as de bolso da Dom Quixote. Além delas há as incluídas na Obra Poética e outras que eu não controlei, clandestinas. Além das manuscritas e dactilografadas – porque nessa altura ainda não havia máquinas de fotocópias nem computadores. No total, acho que deve ultrapassar os 100 mil exemplares.

Deve ser o livro de poemas difundido pelo menos da segunda metade do século XX. Será?

Sim. Essa é opinião de vários editores. Talvez seja até o livro de poesia mais editado, mais difundido e mais cantado em vida do autor. Mais, mesmo, que os livros do Junqueiro, porque as edições no seu tempo eram menores.

Qual é hoje a tua relação com os poemas da Praça da Canção e as circunstâncias em que apareceram? Ainda te marcam?

Marcam, porque correspondem a uma época decisiva da minha vida. Evidentemente que, hoje, escreveria alguns desses poemas de outra maneira - se calhar pior... Porque uma das suas forças é uma certa ingenuidade, a convicção na força da palavra. Ainda não tinha lido o Ezra Pound, nem as suas teorias sobre os cancioneiros e os trovadores. Quando os escrevi foi por impulso, por instinto, por razões não explicáveis. E isso também tem a ver com uma fase intensa da minha vida.

A fase de Coimbra, das lutas estudantis...

... e, depois, já na tropa, dos Açores, onde escrevi alguns desses poemas, nomeadamente «País de Abril», agora, na edição definitiva, dedicado ao Melo Antunes, a primeira pessoa a quem o li. “País de Abril” que esteve para ser o título do livro, o que só não aconteceu por causa da canção “Avril au Portugal” – podia parecer uma coisa turística. Claro que, nessa altura, não me passava pela cabeça que ia haver uma revolução num mês de Abril e o Melo seria um dos seus líderes.

E depois dos Açores, Angola, a guerra, a prisão.

Apesar dessa vida muito atribulada, eu escrevia intensamente. A poesia foi quase como uma casa, um abrigo, um refúgio, uma forma de resistir a essa situação. Além disso, também tinha a convicção (como tu e outros, acho que todos partilhávamos isso) de que pela palavra poética se podia mudar a realidade, se podia mudar o País. O que está presente nesses poemas. Não esqueço as circunstâncias em que escrevi alguns deles. Por exemplo, naquela altura fazia poemas de cabeça e só depois os passava ao papel. Quando estive na cadeia, isolado durante um largo período, sem caneta e sem papel, fiz e memorizei alguns desses poemas, que só mais tarde escrevi. Isso aconteceu-me muitas vezes.

Como Camilo Pessanha.

Exactamente. O que só mais tarde vim a saber. Nessa época, a poesia tinha para mim uma marca muito oral. Sentia a necessidade de dizer o poema para mim mesmo, e até de o dizer a alguém, às vezes antes de o escrever. O que marcou a minha poesia e talvez explique o seu tom cantabile. Hoje não tenho essa necessidade nem faço isso: quando escrevo, é mesmo um acto de caneta e papel.

A oralidade seria influenciada também pela tua passagem pelo teatro e pelos ‘discursos’ nas lutas académicas?

Talvez. E pela poesia oral, sei lá. No TEUC (Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, dirigido por Paulo Quintela), nós dizíamos muita poesia. De qualquer forma, antes de saber ler, eu já sabia poemas de cor. Os meus pais diziam-se poemas, acompanhavam-se à guitarra e cantavam o fado. A minha mãe era uma repentista fantástica, a cantar ao desafio era imbatível. E tinha uma tia-avó, Maria do Carmo Sampaio, mãe do pintor Fausto Sampaio, que me lia muita poesia. Ensinou-me poemas de António Nobre, Garrett, Guerra Junqueira, até do António Sardinha – porque era monárquica, integralista, ao contrário do irmão, o meu avô, que era republicano, carbonário. O meu pai também me lia versos de Camões e de outros poetas

Qual o primeiro poema de que te lembras?

Lembro-me de, muito pequeno, subir para cima de uma cadeira e recitar um poema, cujo autor não sei quem é, que começava «Lá vão elas, as caravelas». São estes os primeiros versos de que me recordo. Mas também recordo, além dos versos dos fados e dos que me lia a minha tia-avó, incluindo do Cancioneiro de Garrett, da «Nau Catrineta», de «Estava a bela Infanta no seu jardim assentada», dos romances que os ceguinhos cantavam na Rua de Baixo, em Águeda.

Na escola ou no liceu algum professor te influenciou?

No Liceu Alexandre Herculano, no Porto, onde andei, houve um professor que me marcou muito: o António Cobeira, de quem falo num conto de O Homem do País Azul. Fora amigo íntimo do Fernando Pessoa (que uma vez mandou para a Renascença Portuguesa poemas seus) e do Mário Sá-Carneiro, dos quais falava muito. E revelou-me o Sá Carneiro, um poeta importante para mim nessa fase, que também tem uma grande estrutura rítmica. Além disso ele lia poesia, leu-me o soneto de Arvers, que traduzi em Rouxinol do Mundo: nunca o vi escrito, mas nunca mais o esqueci.

E em Coimbra?

Comecei a ler o Rilke e o Hölderlin, por influência do Paulo Quintela. Escrevi mesmo, nessa altura, uma poesia muito empastada, uma grande trapalhada, onde havia marcas dos dois. Mas aí o importante foi o contacto com o Lousã Henriques, com o Herberto Hélder, que passava temporadas em minha casa, com o (Fernando) Assis (Pacheco). O Assis era de todos nós o que lia mais poesia (poetas franceses, ingleses, muito os espanhóis) e se calhar o que sabia mais.

Até que...

... de repente, a minha linguagem soltou-se. Voltando, digamos, a uma estrutura rítmica mais cantabile. Os poemas começaram a aparecer feitos. Os poemas, as trovas. As primeiras foram publicados na Via Latina, em 1961 ou 1962, eras tu o chefe de redacção: a Trova do Amor Lusíada (que mais tarde a Amália haveria de cantar), com um desenho do Topi, em separado, depois uma página inteira com cinco poemas.

A Trova do Vento que Passa, que ficou como um símbolo e uma bandeira, até hoje, já é de 1963, não?

Não. 1964. Venho de Angola, da cadeia, estou com residência fixa em Coimbra, recordo absoluta e exactamente o momento em que ‘nasceram’ os seus primeiros versos. Eu vinha de casa, ia a atravessar a Praça da República com o Adriano (Correia de Oliveira) e havia uns pides a seguir-nos, a minha vida já estava a ficar muito negra. O Adriano disse, «lá vêm eles». E, de repente, saíram-me os últimos versos: «Mesmo na noite mais triste/ em tempo de servidão,/ há sempre alguém que resiste,/ há sempre alguém que diz não». E o Adriano comentou: «Isso é uma coisa fantástica. Agora tens que escrever o resto. Porque podes nunca mais escrever nada, mas esses versos vão ficar, para sempre, na memória de todos». Mal ele imaginava que isso em parte viria a acontecer graças à sua interpretação da música que para ela escreveu o (António) Portugal.

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2 de julho de 2005

Autobiografia de António-Pedro Vasconcelos

O cinema e a vida
Posso dizer que fui salvo – se é que alguém é salvo – pela ficção. Foram os autores – os escritores e, sobretudo, os cineastas – quem me moldou o carácter. Não foram os meus pais – cuja memória eu venero – nem os professores, quem me ensinou a viver. Foi Stendhal e Preminger, Montaigne e Howard Hawks.

Adolescente, interroguei-me sobre a existência de um Deus transcendente, a quem devíamos dar contas e que se encarregava de nos salvar ou condenar; um olho supremo que vigiava os nossos actos e nos ditava os códigos da moralidade. Foi o Marquês de Sade, o divino Marquês, quem me libertou dos preconceitos da fé, foi Sartre quem me ensinou a ser livre, Montaigne quem me ensinou a viver sem garantias.

Aos vinte e poucos anos, em Paris, durante as noites intermináveis em que fui veilleur de nuit num Hotel da Rîve Droite, ao pé da sede do Partido Comunista, devorei todos os livros do mundo, substituí a monotonia das noites tristes dum hotel de duas estrelas pela «ilusion lyrique» dos personagens de Malraux; e, em Julien Sorel, encontrei uma alma gémea com quem partilhei as angústias da solidão e do orgulho: identifiquei-me com aquele jovem ambicioso que esbarrava contra as injustiças do mundo, os paraísos interditos e o preconceito dos poderosos.

Na pele de Robert Jordan, conheci o amor, simples, caloroso e doce, enfiado num saco de couchage, com Maria; e, enquanto os sinos dobram, partilhei com os companheiros de combate a defesa da República, numa Espanha demasiado habituada aos desastres da guerra. Mas «terna é a noite», segredava-me Fitzgerald que logo me devolveu a melancolia e a consciência da morte, esse verme maligno instalado no coração da juventude.

Palmilhei com Rimbaud os caminhos poeirentos de Charleroi a Paris, embarquei com ele no Bateau Ivre e percebi que «je est un autre» e que «la vrai vie est aileurs». Mas o poeta, que se reconciliou com a Beleza, depois de a ter sentado nos joelhos e a ter insultado, abandonou-me no Harrar, depois de ter lançado um grito desdenhoso aos burgueses que o viram morrer com uma gangrena na perna, como um castigo infligido aos que ousam desafiar os deuses e a fortuna: «Qu’est mon néant auprès de la stupeur qui vous attend?»
Ainda guardo alguns livros desses tempos, livres de poche, amarelecidos pelo tempo e roídos pelas traças, a maior parte roubados nas livrarias, alguns sem capa, lidos nos cafés e no metro, onde sublinhei com ênfase juvenil as frases que me guiaram na vida como um vade mecum de algibeira. Abro ao acaso: ouço o velho Ferral da Condição Humana, explicando a Gisors: «Um deus pode possuir, mas não pode conquistar. O ideal de um deus é de se tornar homem, sabendo que não perderá o seu poder; e o sonho de um homem, de se tornar deus sem perder a sua personalidade». E ouço Hemingway comentar o desespero de Thomas Hudson, o seu alter ego nas Ilhas na Corrente, pela perda dos filhos: Ele «esperava poder entender-se a sós com a sua dor, não sabendo, porém, que com a dor ninguém se entende. Cura-a a morte, adormentam-na ou anestesiam-na várias coisas. Supõe-se também que o tempo a cura. Mas se a cura não está só na morte, o mais provável é que não se trate de uma dor verdadeira».

Os livros ensinaram-me a viver comigo, explicaram-me que vivemos livres e morremos sozinhos, e, sobretudo, fizeram-me compreender que eu nunca poderia pensar como um burguês; mas foram os filmes que me libertaram desse solilóquio, dessa solidão que eu partilhava com os meus autores de cabeceira, com quem adormeci, durante anos, e que me deram a consciência de que «o homem é uma paixão inútil» (Sartre) sem outra redenção que o orgulho de o saber.

Foi o cinema que me devolveu a confiança na justiça e no heroísmo e deu um sentido a palavras tão simples como a coragem e a abnegação. James Stewart, o sublime James Stewart, na pele de Mr. Smith, esgotado de fadiga, com a voz embargada pelo esforço, batendo-se pela verdade contra os fariseus do Senado, no filme de Capra; James Dean, sacudindo as golas do casaco de um pai intolerante e maniqueu, como se o quisesse matar ou abraçar; John Wayne, descobrindo a compaixão, como Saúl de Tasso, fulminado por um raio na estrada de Damasco, ao levantar nos braços Nathalie Wood, num plano que Godard disse que era roubado às páginas de Homero; Bogart obrigando a Bergman a entrar no avião - porque há momentos em que há coisas mais importantes do que a nossa mesquinha felicidade -, a mesma Bergman que, anos depois, iria descobrir os outros num vulcão em Stromboli, nos bairros degradados em Europa 51, nos corpos dos amantes calcinados pelas chamas do Vesúvio, milhares de anos antes de Cristo, durante uma Viagem a Itália.

O cinema fez-me conhecer Gene Kelly, dançando e cantando à chuva, imagem da felicidade pura, espontânea, inviolável, como só o cinema sabe dar; e Fred Astaire, em Bandwagon, dançando no parque com Cyd Charisse, harmoniosos e mudos, silenciosos e perfeitos; como me fez conhecer Geoff Carter (Gary Grant) fechando a porta do quarto onde o amigo vai morrer, em Only angels have wings, num gesto viril de pudor, amizade e respeito.

Os filmes não me ensinaram a fazer cinema; ensinaram-me a viver. Foi a vida que me ensinou a fazer filmes.

Um dia li, num diário de Stendhal, uma frase que me ilustra: «Deseja tudo, espera pouco, não peças nada». Sou eu, sem tirar nem pôr.

Não fiz os filmes que queria porque escolhi um médium universal para me exprimir, e porque nasci – e escolhi viver – num país periférico, perdido no mapa da grande cultura popular que é o cinema, onde os filmes nem sequer falam aos seus contemporâneos. Mas tenho vivido como aprendi nos livros que li e nos filmes que amei. Isso me basta. Não tenho outra biografia nem terei outro epitáfio.

Foi a ficção que me ensinou a procurar viver com coragem e justiça, paixão e compaixão; e a aceitar, sem resignação nem azedume, conviver com a imperfeição do mundo e a duplicidade dos homens.

20 de junho de 2005

As portas ao lado

"É um menino. Chama-se Gustavo como o pai.”
In A Porta ao Lado, de Guilherme de Melo

Esta é a história de Guto.
Claro que Guto é um diminutivo carinhoso para Gustavo, aliás Pedro Gustavo. Pedro porque o avô era Pedro. Gustavo porque o pai era Gustavo. Ambos tinham já morrido, quando Guto nasceu.
Nasceu, ou entrou na vida, pela porta certa. Rodeado de mulheres, criado por mulheres e afogado em mimos pelas mulheres, mãe, avó e criada velha, Guto confessa não ter sentido a falta de um pai. Tinha tudo. Só não tinha um pai. Mas sabia que tinha tido e quem ele era. Havia uma fotografia. A mãe contara-lhe que o pai não o chegara a conhecer. Morrera antes dele nascer.
Num romance narrado pelos próprios protagonistas a duas vozes, vai-se desenrolando a verdade. Marta Lemos é professora do Liceu e faz traduções. Estas actividades preenchem-lhe a vida intelectual, enquanto a vida afectiva é preenchida pelo filho Guto, o filho que ela tanto desejou e a quem deu tudo o que uma mãe pode dar: colo, conforto, amor e ensinamentos para o caminho.
Contudo, a vida de Marta nada tem a ver com os sonhos que alimentou, quando adolescente e estudante se apaixonou por Gustavo. Ela em Letras, ele em Direito. A vida dos dois é o retrato fiel dos estudantes dessa época. As convenções começavam a cair, mas ainda havia algum caminho a percorrer. No meio desse caminho, a guerra colonial roubou-lhes os sonhos. A guerra acabou, mas Gustavo não voltou. Uma mina traiçoeira, ainda teimosa em continuar a guerra, tirou a vida àquele soldado já em missão de paz.
As recordações de Guto da primeira infância estão todas no meio daquelas mulheres, dentro daquela grande casa de família, em Castelo Branco. As memórias da família são as da família da mãe e das primas, da tia Mena, que tanto contribuíram também para o excesso de mimo.
Um dia, casualmente, Guto descobre um retrato igual ao que a mãe conservava em casa, o retrato do seu pai. E uma evidência abanou-lhe os nervos todos do corpo, deixando-o sem saber o que fazer. O seu “pai” tinha morrido dois anos antes do seu nascimento. Tinha que procurar a verdade! Ela estava certamente guardada a sete chaves entre as coisas mais íntimas da mãe.
Procurou e encontrou vários recortes dos jornais. Entre eles uma notícia com vinte e três anos, a sua idade. Um bebé tinha sido raptado na Costa da Caparica , perto da Fonte da Telha. Tinha dois meses e chamava-se Abílio. Guto não sabia o que fazer com esta nova identidade. Agora tudo se tornava muito claro na sua cabeça.
Disfarçado de jornalista, visitou a sua família natural. Não reconheceu naquela mãe, a sua mãe, nem naquele pai, o seu pai, sonhado e idealizado pela ausência. Eram pobres e o que mais os interessava era saber como teriam direito ao pequeno apartamento da Picheleira, que estava arrendado em nome da avó. Uma avó doente assistia a estas discussões patéticas e pedia “Fanta”, saindo apenas da sua boca um som semelhante a “anta”. Mais do que pobre, tudo era lúgubre.
Depois de conjecturas várias, a opção tinha que ser dele. E para não magoar nem a mãe que o “trouxe no ventre”, nem a mãe que fez dele “o filho bem amado”, devia guardar para si esta descoberta. “E é o que é, apenas porque, ao invés de nela ( na vida) ter entrado pela porta que me estava reservada desde o berço, nela entrei pela porta ao lado.”
Esta conclusão inquieta do Guto, remeteu-me para as minhas próprias inquietações, para as mais remotas. Muito criança, disseram-me que a idade da razão se atingia aos sete anos. A partir daí sim, todos os pecados contavam e eu admiti-o porque, nesses tempos, havia tempos muito exactos para tudo.
Antes dessa idade atormentou-me um pensamento que só a crença na sorte (que já deve ter nascido comigo) me desatormentou. Eu desconhecia em absoluto o que era a herança genética. Sabia lá por que é que uns era mais claros e outros mais escuros!
Um dia recordo-me de passar em frente às casas onde moravam os pobres que, em África, eram negros. As casas dos pobres em África eram palhotas. E as crianças pobres em África andavam descalças e nuas, com muito ranho no nariz. Como eu não conhecia meninos brancos nus e descalços e com ranho no nariz, a morarem em palhotas, pensei muito dentro de mim que aquilo só acontecia aos meninos que tinham tido menos sorte e tinham nascido pretos. Que sorte eu tinha tido ter nascido branca! Podia não ter tudo, mas pelo menos tinha uma casa de pedra e cal, roupa e brinquedos. Mais tarde acabei por ver meninos brancos descalços, nus e com ranho no nariz.
E, com a mesma inquietação, voltei a interrogar-me se é mesmo a sorte que determina haver ou não “a porta ao lado”.

Guilherme José de Melo nasceu em Lourenço Marques, hoje cidade de Maputo, a 20 de Janeiro de 1931, onde viveu até 1974, exercendo as funções de jornalista, no jornal Notícias. Já então se distinguia pelo carácter mais literário das suas peças. Foi sempre um homem de cultura e a integração em Portugal não foi difícil, nem a nível profissional, nem a nível literário, como provam as obras já publicadas.
Reformou-se do Diário de Notícias em 1997.

10 de junho de 2005

Somewhere over the rainbow

A ideia de que os sonhos têm um tempo e um espaço para se tornarem realidade mora, às vezes quase clandestinamente, dentro de todos nós. A voz de Judy Garland imortalizou essa ideia, cantando-a. “Somewhere over the rainbow skies are blue… And the dreams that you dare to dream really do come true.” A ousadia é sonhar!
Judy era então a pequena Dorothy num filme feito todo de magia, tal como esses sonhos: homens de lata, velhinhas que fazem o seu tricot sentadas numa nuvem, cães maravilha como Toto, uma estrada de tijolos amarelos, o céu azul e o arco-íris da cantiga. E um feiticeiro que transforma qualquer desejo em realidade, o Feiticeiro de Oz. Foi um sucesso, tornou-se um clássico. O New York Daily News, reconheceu de imediato o valor de Judy como actriz e cantora, cuja voz era emocionalmente perfeita para esta magia...
Judy tinha apenas dezassete anos (dezasseis quando rodou o filme) e apaixonou o mundo com a sua voz. Ganhou o Prémio da Academia pela melhor interpretação juvenil. Decorria o ano de 1939 e o mundo precisava de fantasia, pois eclodia a Segunda Guerra Mundial.
Segundo alguns biógrafos, Judy foi a primeira actriz a ter consciência do papel encorajador junto dos soldados e a fazê-lo espontaneamente, mesmo quando o tempo disponível era pouco
Frances Ethel Gumm nasceu a 10 de Junho de 1922, no estado de Minnesota. Terceira filha de dois actores de vaudeville (corruptela do francês "voix de ville", canção parisiense do século XVI),.Frank e Ethel inspiraram-se nos seus nomes para baptizarem a filha que tratavam por Baby ou Frank Jr, porque de facto eles desejariam que Judy tivesse nascido rapaz... De Frank terá Judy herdado o talento de cantar.
A primeira infância foi um período feliz, com uma mãe carinhosa, cuja prioridade era a família, apesar de alguns verem na figura materna apenas o lado empresarial, papel que lhe coube de facto. Tanto o pai como a mãe tentaram transmitir às filhas o gosto pela música e pela arte de entreter. Aos dois anos e meio (dizem) terá feito a sua primeira aparição, num espectáculo de Natal, cantando “Jingle Bells”, incluída numa actuação dos pais.
Dois anos mais tarde, a família mudava-se para a Califórnia, Lancaster, onde Judy e as irmãs cantavam em teatros, clubes e na rádio. Ao pai, Frank Gumm, não seria concedido assistir ao sucesso da filha, pois poucas semanas depois de Judy ter assinado um contrato de sete anos com a poderosa fábrica de estrelas MGM, Frank morreu subitamente, vítima de meningite. Este foi o pior acontecimento da sua vida... A infância feliz tinha chegado ao fim. As três irmãs já tinham mudado o apelido para Garland, por sugestão alheia e razões artísticas, tendo Baby Gumm escolhido Judy para seu primeiro nome.
Judy Garland, para sempre.
Entre os momentos importantes deste princípio de carreira, conta-se a festa de aniversário de Clark Gable, onde Judy cantou, em nome de todas as meninas americanas apaixonadas pelo ídolo, uma versão emocionada de “You made me love you”. Dias depois começaram a surgir pequenos papéis no cinema. E não tardaria a aparecer então o papel que a tornaria para sempre uma das estrelas mais brilhantes desse universo da fama, Dorothy, O Feiticeiro de Oz. Judy tinha apenas dezasseis anos, muito verdadeiros de inocência e naturalidade. Ela era “doce e adorável”, como recorda o actor que interpretou o Homem Lata. “Não era como algumas (actrizes) de dezasseis anos que representam como se tivessem sessenta...”, acrescentava.
Mas quando se recorda Judy Garland não se consegue evitar a lembrança de uma mulher emocionalmente instável, que casou cinco vezes, uma das quais com um nome grande da tela: o realizador Vicent Minelli, por quem se apaixonou durante a rodagem de um outro musical, em 1944, “Meet me in St Louis”. Era o seu segundo casamento e apesar do nascimento da filha Liza, apesar da dedicação de Vincent, o casamento chegava ao fim no início dos anos cinquenta. A inquietação de Judy é normalmente atribuída à medicação que lhe tinha sido prescrita para controlar o peso, que terá acabado por lhe arrasar os nervos, dormindo à custa de uns medicamentos e acordando à custa de outros...
Remando contra a adversidade que já integrava a sua personalidade, tal como a voz e o talento, Judy voltaria a brilhar nos néons de Hollywood: “A Star is born” é outro dos inesquecíveis trabalhos de Judy no cinema, que lhe valeu uma nomeação para o Óscar de Melhor Actriz, em 1955. Estava então casada com Sidney Luft, pai de Lorna e Joseph, seu único filho rapaz. A vida artística continuou, mas este casamento terminou, tendo sido o mais longo dos cinco.
Conta-se ainda entre os momentos altos da vida da “menina pequena de voz grande”, mais uma pobre menina rica, a nomeação para um outro Óscar da Academia, na categoria de actriz secundária, pela sua interpretação no filme “O julgamento de Nuruemberg”, em 1961.
A 22 de Junho de 1969, Judy sucumbiu a uma overdose de barbitúricos, ocasional, segundo os familiares. Tinha quarenta sete anos vividos ao dia, à hora, ao minuto, provavelmente. Quarenta e quatro desses anos foram de trabalho. Parece terem sido todos consumidos na busca da paz interior que não conseguia encontrar.
Judy inspirou uma rosa, amarela matizada de laranja avermelhado, que tem o seu nome e é cultivada nos jardins da Casa Museu. Bela homenagem, plena de simbolismo: a beleza nunca perdida, a tranquilidade jamais encontrada.
Judy e a eterna canção vivem, certamente, num céu azul, para lá do arco-íris...
(Publicado pela Editora Ela Por Ela, Divas do Cinema, em 2003)

1 de junho de 2005

Crianças, "sadinhas" e lua

O escritor que ousou chamar “Os Putos” à sua obra foi Altino do Tojal. A obra consta de uma série de histórias em que os heróis são os tais miúdos. Sobrevivem à custa de uma inocência ainda intocada e guardada, sabe-se lá porquê. O primeiro título foi “Sardinhas e Lua” e a primeira publicação em 1964, em Braga, terra natal do autor.
O menino dessa história, que deu o nome à primeira publicação, leva os dias sentado na soleira da porta, sozinho, à espera que a mãe chegue, de canastra vazia, ou quase vazia. Há sempre a “sadinha” que sobrou para ele para o filho, para a sua “jóia”, como ela lhe chama, carinhosamente.
Depois, é só o tempo de confeccionar a “sadinha” e começam a chegar os homens grandes. Há medo nestas linhas. Há incompreensão. Mas há a ternura imensa do menino que escolhe a Lua, para companhia do seu jantar. O cão e o gato são hóspedes habituais, com quem tem mesmo que partilhar o seu magro jantar. Eles, como ele, também têm a fome escavada nas caras. O cão e o gato também são muito pobres. A Lua, não. A Lua é “branca e gorda”, tem “as faces cheias”, “devia comer muitas sardinhas”... Ela recusava sempre e até parecia que a ouvia dizer: “Tome tu, menino.”
Acabado o jantar, ali ficava na soleira da porta, a conversar com a Lua. Até quase se esquecia dos homens grandes. Até a mãe o vir buscar, para dormir. Ele olhava então para a Lua, despedia-se dela e esperava que ela percebesse aquele triunfo. Ele, o homem pequenino, é que ia dormir com a mãe.

1 de maio de 2005

Dia das Mães

Embora mantenha na memória o gosto que senti ao longo de todas as histórias, de Mia Couto, em Cronicando, há uma especial: a do filho que dá à luz a mãe.
Chama-se o Filho da Morte e é uma história de morte e de vida, num campo de refugiados, “que se doseavam, na aplicação da tristeza.” Talvez por isso, por terem que dosear a tristeza, não fosse ela consumida em doses mortais, não se ocupavam muito dos mortos, nem mesmo neste caso, tratando-se de uma grávida. “Estavam demasiado ocupados em sobrevivências.” Mas a pele luzidia e volumosa teimava em atrair uma atenção qualquer e a morta entrou em trabalho de parto, porque naquele dia, naquele corpo, a vida “fez horas extraordinárias”. Ninguém se mexeu! Ninguém excepto a “cabistonta” Tazarina, que sofria de tremuras tais que nem a si própria parecia conseguir amparar-se. Mas foi ela que pegou e deu colo àquele ser que vinha do outro lado da vida e, com ela, o choro do recém nascido cessou. O corpo dela ganhou forma e volume quase instantaneamente. Apoderou-se dela a verdadeira maternidade: “os seios se volumavam, os olhos se maternizavam”. “Nunca se viu, dizem, mãe em tanta compostura.”
É impossível falar do texto, sem recorrer às próprias palavras do autor, pois não há no nosso vocabulário palavras que substituam as que ele inventa. Maternizar... significa tornar materno. E foi o que aconteceu à Tazarina, ou melhor aos seus olhos, tornaram-se olhos de mãe.

29 de abril de 2005

Olhai os Lírios do Campo!

Devia-lhe tudo: a vida, (...) e um milhão de coisas pequenas.
In Olhai os Lírios do Campo, de Erico Veríssimo

Há um dia na nossa vida em que alteamos o salto do sapato, mudamos o penteado, usamos a nossa própria chave de casa... por aí adiante. Isto é: há mesmo um dia, em que deixamos de ser crianças. Aparentemente, de um momento para o outro, como se isso não fosse um processo, por vezes tão demorado, que nos pode tomar conta da vida inteira!
E houve esse dia em que achei que as leituras de criança deviam ser postas de lado e devia começar a ler livros de pessoas crescidas.( Como eu estava enganada! Continuo a ler livros de crianças. E gosto.) Então, aos treze anos, escolhi o livro que devia marcar a minha maioridade “literária”: Olhai os lírios do campo, de Erico Veríssimo.
Quando, alguns anos mais tarde o reli, percebi que os meus treze da altura eram claramente insuficientes, para perceber a complexidade dos livros e das vidas dos crescidos.
Para além dessas vidas complicadas dos adultos, há ainda o processo narrativo, em que os tempos se misturam e se soltam recordações, aparentemente avulsas.
Ao longo de doze capítulos, o Doutor Eugénio percorre um longo caminho entre a sua casa e o hospital, onde Olívia o espera para o ver e depois morrer.
Mergulha em recordações. Sempre as mesmas recordações: a humilhação dos colegas por ter a “calça furada”, a vergonha de confessar que o pai é pobre, os anos da Faculdade, em que conheceu Olívia, estudante de Medicina como ele.
A casa do seus pais e a pobreza, a tristeza, a doença do irmão Ângelo, a vergonha das desordens provocadas por Ernesto. A coragem da mãe, a quem devia tudo, “a vida”, “as meias remendadas”, o “milhão de coisas pequenas” e que não se vergava às catástrofes. Ganhava e reganhava força, repetindo “Deus é grande!”
Mas mais do que essas recordações da infância pobre, atormenta-o a consciência do preço que pagou pela fama, pela fortuna e pelo sucesso do homem presente. Pagou-os com sentimentos, esgotando-os até à penúria. É esse mesmo Eugénio, que emerge dessas recordações, aqui e ali, enfraquecido pelo medo e pela mentira. Olívia quer vê-lo, antes de morrer. Ela está a morrer e sabe-o. E Eugénio tem medo que a mulher, Eunice, descubra a verdade, tanto quanto teme que Olívia morra.
Recorda-a, no dia da entrega dos diplomas. Era a única mulher daquela turma de Medicina e trabalhava num laboratório de análise clínicas, para pagar o curso. Era calma e tranquila. Admirava a sua simplicidade, o que fazia com que se sentisse bem ao pé dela. Não era uma mulher como as outras. Nas outras, via a sofisticação feminina que lhe davam luta de macho, mas não lhe ofereciam a amizade e tranquilidade que Olívia lhe estendia. Tudo parecia uni-los: eram os dois “obscuros e pobres”, ao contrário dos outros estudantes daquela Faculdade.
Nesse dia, ou nessa noite, Eugénio confessou a Olívia o horrível peso da sua condição de pobre, a falta de vocação para a medicina. O curso, queria-o para ser rico e pertencer à esfera brilhante da sociedade.
Olívia tentou oferecer-lhe o sentimento da dignidade que a profissão impõe. Ajudou-o a ultrapassar o fracasso, quando o doente, que o médico mais velho lhe deu para operar, lhe morreu nas mãos. Ensinou-o também a conviver com o sucesso, quando o ajudou a salvar um menino, que morria com difteria.
É, porém, Olívia que um dia o deixa à mercê dos medos e das vergonhas, à mercê de Eunice Torres, menina rica e mimada que caprichosamente vai desejar Eugénio , para ostentar um pobre diabo, como quem exibe uma extravagância rara. Filha de um poderoso industrial, este é o passaporte de Eugénio para o mundo desejado, o dos ricos e poderosos.
Quando Eugénio chega ao Hospital, Olívia já morreu.
Da amálgama de sentimentos e de memórias se faz a determinação de começar uma vida nova, tomando à letra as palavras de Olívia, que dizia que a vida pode começar todos os dias.
A vida vai começar, ou recomeçar, ao lado da filha Ana Maria, legado de Olívia. A personagem reconstrói-se e Eugénio evolui para um homem reconciliado com a condição humana, mesmo a mais pobre.
A história de Eugénio é uma lição de vida e vale a leitura. Obriga-nos a uma reflexão sobre valores, que parecem arredar-se dos comportamentos de hoje, mesmo contra a nossa vontade. E vale também pelo “nosso português” em que Erico Veríssimo se expressava, enriquecido com registos da oralidade do português do Brasil. “Um, dois, feijão com arrois”

Leitura sugerida- Olhai os Lírios do Campo , de Erico Veríssimo
Erico Lopes Veríssimo nasceu a 17 de Dezembro de 1905, em Cruz Alta e faleceu a 28 de Novembro de 1975, Porto Alegre. É considerado pelos críticos “uma das grandes expressões da moderna ficção brasileira”.
Para além da obra, deixou o testemunho de divulgação da cultura Brasileira e da Literatura, através da conferência e mesmo do exercício da função docente, nos Estados Unidos.

27 de abril de 2005

Un home une femme

Comme nos voix ba da ba da da da da da da
Chantent tout bas ba da ba da da da da da da
Nos cœurs y voient ba da ba da da da da da da
Comme une chance comme un espoir
Comme nos voix ba da ba da da da da da da
Nos cœurs y croient ba da ba da da da da da da
Encore une fois ba da ba da da da da da da
Tout recommence, la vie repart

Combien de joies
Bien des drames
Et voilà !
C'est une longue histoire
Un homme
Une femme
Ont forgé la trame du hasard.

Comme nos voix
Nos cœurs y voient
Encore une fois
Comme une chance
Comme un espoir.

Comme nos voix
Nos cœurs en joie
On fait le choix
D'une romance
Qui passait là.

Chance qui passait là
Chance pour toi et moi ba da ba da da da da da da
Toi et moi ba da ba da da da da da da
Toi et Toi et moi.

Bon anniversaire, Anouk Aimée!

22 de abril de 2005

Estamos outra vez em Abril!

Estamos em Abril!
Para alguns, já estamos em Abril! Meu Deus, como o tempo voa!
Para outros, ainda estamos em Abril! Para estes, o tempo não tem voado, não tem sido tão veloz, como só ele, o tempo, sabe ser. Embora a escritora sul-americana, Laura Esquível, defenda que veloz, veloz é o desejo....
Hoje dava (me) jeito dizer que já estamos em Abril, ainda estamos em Abril, ou até, estamos em Abril, outra vez!
Estou a falar daquele Abril de cravos e de poesia. Todos os anos se repete, cada vez com menos cravos, cada vez com menos versos. Nesse Abril, tudo rimava com liberdade: verdade, lealdade, sinceridade e, sobretudo, fraternidade. O provérbio acrescentava versos às águas mil.
Nesse Abril, debaixo de um sol que a todos aquecia, os soldados misturaram-se com os civis. Subiram para cima dos tanques e aclamaram a vitória. Havia cravos nas pontas das baionetas.
Os versos chegaram de todo o lado, até do lado de lá do mar, onde a língua portuguesa também mora. Do Brasil. Vieram pela voz de Chico Buarque, poeta irmão dos nossos maiores poetas. Os versos de Chico Buarque traziam a alegria da primavera e pedia que lhe guardassem um cravo só para si. E não se esqueceu de nada no seu poema breve. Não se esqueceu que era uma festa “Sei que estás em festa” e, com cumplicidade e intimidade de irmão, acrescentava “pá”. Estávamos tão contentes, pá! Era mesmo uma festa, pá! Chegaram a mandar-te o tal cheirinho a alecrim, que pedias com urgência? Se calhar esqueceram-se! Sabes, poeta do outro lado do mar, eles esqueceram-se de tanta coisa...
Poucos anos depois, tornavas a escrever quase os mesmos versos. Outra vez “Tanto Mar”, com um sabor amargo, o sabor do fim da festa. Sabes por que é que acabou, Chico Buarque da Holanda? Talvez saibas, porque dizes que ainda guardas “renitente” um velho cravo para ti... Mas há esperança no teu recado: uma semente da festa “nalgum canto de jardim”.
Pá, naquele Abril, até o Alegre, o poeta, Manuel voltou. Vivia longe, a perguntar ao vento que passava notícias o seu país. Estava exilado na Argélia e era lá que resistia, com aquela voz que enche o mundo, a fazer rádio. “Voz da Liberdade”, chamava-se o seu programa. Foi o Portugal de Abril que o fez voltar. Regressar.
“Mesmo na noite mais triste / em tempo de servidão/ há sempre alguém que resiste/ há sempre alguém que diz não.” Diz a última quadra das trovas ao vento que passa.
Há muita saudade nestes versos. A saudade é um preço caro. Viver sem liberdade também. Para além do exílio o poeta Manuel Alegre conheceu as masmorras, em Luanda, na Fortaleza de S. Paulo, onde esteve preso durante seis meses e onde começou a escrever o seu primeiro livro de poemas. Mas também diz outro poeta, Carlos Oliveira, que ninguém corta a raiz ao pensamento, nem um machado.
Há porém, como em Buarque, o adeus à festa. No poema “Última página”, o poeta despede-se do livro, duma vida de poesia que termina.. Ao longo destes versos percorre-a. Lá está “Nambuangongo, onde tu meu amor não viste nada”. “Em Nambuangongo a gente pensa que não volta / cada carta é um adeus em cada carta se morre.” Mas, no poeta, a esperança não morre. “ser poeta é ser mais alto” diz Florbela Espanca. Talvez por isso o poeta convide “a rapariga do País de Abril a soltar a primavera no País de Abril”.
Há um país de Abril. “País de Abril é o sítio do poema./ Não fica nos terraços da saudade / não fica em longes terras. Fica exactamente aqui / tão perto que parece longe.”
Mas neste país de Abril, há muito que as cantigas anunciavam a primavera. José Carlos Ary dos Santos , “poeta castrado, não”, distribuiu os seus versos pelas vozes que lançaram esta semente de esperança. Tordo, Tonicha, Simone e até Amália, a diva do fado, cantaram versos de Ary. A irreverência tomava conta do pensamento através da cantiga e havia de chegar a algum lado. “Quem faz um filho, fá-lo por gosto.” “Oh minha terra minha lonjura/ por mim perdida/ por mim achada”, cantou Simone, com a força que ainda hoje lhe conhecemos.
“Nós vamos pegar o mundo/ pelos cornos da desgraça / e fazermos da tristeza / graça”, cantou Fernando Tordo, com o vigor da razão e da juventude, levando como Simone e Tonicha, os versos para lá das fronteiras da ignorância da censura. O lápis azul não viu, não deu por isso.
Porque os versos de Ary eram sempre assim: contagiantes de um entusiasmo, que não cabe numa vida só. Mas a ele, tal foi concedido: em poucos anos, alguns, viver muito, escrever muito, gritar muito os seus versos, muito alto, numa voz muito forte...
No longo poema “As portas que Abril abriu” conta a revolução, em versos simples, que todos entendem. “Era uma vez um país/ onde entre o mar e a guerra/ vivia o mais infeliz/ dos povos à beira–terra.” Conta em verso tudo desde o princípio, a senha, a cantiga de Paulo de Carvalho, “E Depois do Adeus”, a Grândola Vila Morena, cantiga que se tornou hino dessa madrugada irrepetível nas emoções da História... As manifestações, o primeiro Primeiro de Maio, 28 de Setembro, 11 de Março, reforma agrária, a terra a quem a trabalha...
E o grito final: “ninguém mais cerra as portas que Abril abriu.”
Estamos outra vez em Abril!
O tempo voa!

20 de abril de 2005

A Cidade e as Serras

Peguemos no livro!

As primeiras páginas, repletas de adjectivos em dose dupla, como já é hábito em Eça, Zé Fernandes (o narrador/ personagem) apresenta-nos três Jacintos: Jacinto- avô, “gordíssimo e riquíssimo”, que, sem qualquer fundamento ideológico, desenvolve tal fanatismo pela causa miguelista, que tem que largar o país e partir para França, onde sempre viveu e onde morreu de indigestão de uma lampreia de escabeche; Jacinto-pai, “esguio e lívido”, que não viveu, passou pela vida como uma “Sombra”, como era conhecido entre os criados; e finalmente o Jacinto- neto, tido desde o berço como um afortunado, graças à herança genética do avô ou à boa -sorte das mezinhas da avó. A sua boa saúde de criança é resumida na frase “Não teve sarampo e não teve lombrigas.” E quanto à sua inteligência : “As Letras, a Tabuada e o Latim entraram por ele tão facilmente, como o sol por uma vidraça.”
Além de saudável e inteligente, o Jacinto era rico e tinha amigos. O Jacinto tinha tudo para ser feliz. Mas o que é ser feliz? Jacinto tinha concebido a ideia de que o homem só pode ser “superiormente feliz” se for “superiormente civilizado”, o que o arredava definitivamente da possibilidade de viver noutro sítio que não fosse Paris, o centro da civilização. E, enquanto pode, apetrecha a sua vida de civilização: o 202, o seu palácio nos Campos Elíseos, tem tudo o que se pode ter no final do século dezanove: máquina de escrever, máquina de calcular, telefone, fonógrafo, telégrafo, numeradores de páginas, coladores de estampilhas, águas quentes e frias, elevadores para a comida, penas eléctricas, etc. Até um elevador para pessoas, equipado com sofá e biblioteca, para uma viagem de sete segundos...
Depois de ter tudo e de tudo conseguir, Jacinto começa a padecer duma terrível enfermidade, o Tédio, que o abala tão tremendamente, que até o bigode murcha “caído, em fios pensativos”. E sofre muito, o Princípe da Grã-Ventura. Sofre de fartura, um sofrimento doloroso que o afunda num desespero imenso. O seu amigo Zé Fernandes e o fiel criado Grilo assistem, impotentes, ao desmoronar de uma felicidade, construída racionalmente sobre uma teoria, a da civilização.
Quando tudo parece perdido, quando parece não ter fim tão grande padecimento, Jacinto vê-se a braços com um problema legal, que o obriga a viajar até Portugal. Só há uma solução: encaixotar a civilização, transportá-la e aguentar mais este revés da vida.
E é neste revés que Jacinto vai reencontrar-se. É do lado de lá da civilização, é experimentando a absoluta ausência das marcas da dita civilização que Jacinto começa a encontrar-se: primeiro, na capacidade de deslumbrar os sentidos, nas paisagens, nos paladares, depois na satisfação da sua generosidade, cumprindo um sentido de justiça, o seu, o que lhe valia a fama de D. Sebastião, para alguns, e “Pai do Pobres”, para outros. E, por fim, na realização da felicidade pessoal, aquela que vai contrariar o seu pessimismo ao considerar-se o último Jacinto, “Jacinto ponto final”.
O meu avô fez deste livro, com toda a razão, o livro da sua vida!

16 de abril de 2005

Para a Laura Lara!

Uma árvore é uma árvore e as árvores não falam.
In Rosinha Minha Canoa, de José Mauro de Vasconcelos

Deixemos de lado a normalidade. Ela governa o mundo. Governa o homem no dia da Mulher, governa o adulto no dia da Criança, governa o pescador no dia da Árvore e por aí adiante. Esta normalidade distingue-se da realidade porque é cinzenta, preta e branca. Não admite o amarelo, por exemplo. Está repleta de leis e sussurra números, barra, siglas, a torto e a direito... E, sobretudo, não sai do mesmo lugar.
Que fique a normalidade no seu lugar (de vez em quando até dá jeito) e deixemo-nos levar pela loucura. Qual? A poética. A dos livros, dos sonhos e dos filmes. A loucura respeitada e legitimada, pelas histórias invariavelmente trágicas, que lhe deram origem. Histórias guardadas em segredo, ou divulgadas pelos segredos, o que contribui também, para a dignificação da tal certa loucura.
“Rosinha Minha Canoa” é um hino a essa loucura.
O herói é Zé Orocó. A paisagem, que envolve toda a primeira parte e o final, é a selva, onde a natureza é rainha e o homem ainda não plantou betão. É uma “praia branca do rio”, dum rio onde desliza uma canoa “macia como se voasse”, com quem o Zé tem uma história de amor.
- Você gosta de mim?
- Xengo-delengo-tengo. Gosto. E você?
E para a canoa Rosinha acreditar, ele jura pelas cinco chagas de S. Francisco de Assis. A canoa continua desconfiada porque o santo só tem quatro chagas. Mas afinal são mesmo cinco, contando com “uma grandona no coração, que ninguém podia ver”, confirma o Zé..
Um dia, chega o “doutor”. Vem saber das doenças daquela gente tão longe. O Chico do Adeus queixa-se do seu mal: “vontade de viajá”. Depois vem à conversa o Zé Orocó e logo se esboça o mistério da sua existência. Ninguém sabe. “Só Deus mermo. Pruque Zé Orocó num conta nada pra ninguém..”
Mas conta! Conta à Rosinha. Os dois contam muitas histórias um ao outro. São sempre as mesmas, ela adverte, mas ele insiste, porque há sempre qualquer coisa de novo e bonito, que se acrescenta. As dele, pede-lhe a Rosinha, que seja uma das que começam por “Era uma vez”. As histórias dos homens, as mais bonitas, são as que começam assim.
Obrigado pela função de tratar, o médico visita Zé Orocó. Vê um homem com “aspecto saudável e bondade na maneira de olhar notadamente incomum”. Só se queixa de tristeza, mas para isso a intervenção médica é completamente absurda porque “ ou se cura sozinha ou a gente morre”. Tão bem recebido no pedaço de selva do Zé Orocó, o médico não quer acreditar que seja mesmo doença e tenta comunicar também com a canoa. Precisa de mais explicações para o fenómeno e Zé Orocó conta que aprendeu com S. Francisco de Assis. Tão íntimo se tornou do santo que o trata por Chico. Tudo comoveu o “doutor”, mas nada o demoveu.
Zé Orocó é levado para “um grande casarão, cercado de velhas e enferrujadas árvores”. Fez tudo como lhe disseram para fazer, disse tudo certo, até o nome e a idade, mesmo o sítio onde nascera. Mandaram-no e ele despiu-se, constrangido, sem a dignidade com que se despia para se banhar no rio. Deram-lhe roupas grosseiras. Tinham-no levado para um hospício, só porque falava com uma canoa? Não era razão para o seu entendimento. Dizem-lhe que é doido. Jactos de água fria, injecções na veia, choques eléctricos e camisa de forças. Cada vez mais triste, cada vez mais fraco e mais calado. Depois a lição: “uma árvore é uma árvore e as árvores não falam”. E ele aprendeu aquela lição, mas conta à “moça”, por que é que ficou “doido”. Entristece mais, cada vez mais. Veio ter com ele o Deus das Árvores, deus da paciência, mas em vão. Quem conseguiu mesmo qualquer coisa foi o Chico de Assis: fez renascer a paz no coração do Zé Orocó.
O médico diz-lhe que ele está “outro”, “completamente normal”. “Se tristeza quer dizer saúde, sou o homem mais são do mundo.” Curado, para os médicos, volta à sua casa. Repete: uma árvore é uma árvore e evita falar com a Rosinha. Mas só ela mesmo consegue convencê-lo que “loucos são os outros”. Afinal Chico de Assis falava com lobos!... A canoa contou que tinha esperado, com paciência de árvore, o regresso de Zé para se despedir e partir.
Para esquecer as árvores, comprou um animal, uma égua. Como diz o povo, o animal escolhe o dono. Pelo menos foi isso que ela contou, no regresso da feira. “Eu estava doida para você me comprar.”
Regressemos à normalidade, com paciência de árvore.
rosinha

15 de abril de 2005

A Diva da Agulha e do Dedal


Imagem daqui.

Beatrizinha ou Menina Beatriz. É assim que Jorge Amado se refere à nossa diva do cinema a preto e branco, no prefácio do livro de Beatriz Costa, “Sem Papas na Língua”. Este foi o primeiro livro de uma série de seis que viria a publicar, um dos quais baptizou com o quase despudor que, na época, a qualquer outro cairia mal: “Nos Cornos da Vida”.
Mas Beatriz Costa era assim! Viveu assim, desassombrada, tanto que quase roçava o atrevimento, sem nunca deixar quebrar o respeito que a menina da franja, depois senhora da franja, impunha naturalmente.
Todos temos na lembrança essa menina da franja, uma madeixa curta e direita de cabelo negro, um corte de cabelo também curto, liso e direito, o quase-avesso das “sex simbol” de então. O rosto todo rasgado num sorriso, que podia transformar-se em riso em qualquer instante. Uma figurinha frágil, pouco mais de um metro e meio de altura, cuja arte de representar causaria vertigens a muita gente da época e de agora.
A menina atrevida já nasceu atrevida certamente, pois como ela própria diz, até o Inverno se recolheu nesse dia que, de acordo com o calendário, devia ser de Inverno. "Não sei se o Dezembro de 1907 corria invernoso e frio ou se a Primavera se antecipou, desejoso de florir o meu nascimento…"
Foi no Conselho de Mafra, no dia 14 do tal mês de Dezembro que, no Casal do Barreiro, ousadamente, o dia imitou a primavera, para receber Beatriz da Conceição. As referências fazem presumir uma família humilde e alguma agitação da vida de Beatriz, que se mudou aos quatro anos para Lisboa, acompanhando a mãe que viria a trabalhar em casa do pintor José Malhoa.
Nesses tempos as mulheres não iam à escola e Beatriz só aprendeu a ler aos treze anos, já depois de ter sido aprovada noutras provas da vida, como o segundo casamento da mãe, uma passagem por Tomar e outra vez Lisboa. Beatriz opta então pela profissão de bordadeira. Portanto, a tal agulha e o tal dedal não são fantasia. Existiram na tela e na vida.
Pulsavam-lhe no corpo e no jeito outros talentos, outros bordados e, fascinada pelo teatro de revista, consegue um dia uma carta de recomendação dirigida a um empresário do espectáculo.
Aos quinze anos, pisa pela primeira vez o palco do Éden, na revista “Chá e Torradas”, no papel de corista. As coristas, como o nome indica, pertenciam a um grupo, um coro, e este papel era então uma espécie de exame de entrada no teatro.
Só em 1925, no Trindade, em “Ditosa Pátria”, é que o seu nome viria a figurar no cartaz de promoção do espectáculo, já então com o nome artístico, Beatriz Costa.
Do teatro ao cinema, então ainda mudo, do cinema mudo (onde estreou a figurinha da menina da franja) ao cinema sonoro, de simples corista a nome de relevo de primeira figura, tudo foi acontecendo à velocidade do talento. Com Vasco Santana protagonizou o par romântico do primeiro filme sonoro feito em Portugal, com responsabilidade absoluta dos técnicos portugueses.
Ela é Alice, a namorada do Vasquinho da Anatomia, conhecido assim pelos sucessivos insucessos nos exames da dita Anatomia. Em vez de estudar Medicina, o Vasquinho representa o estudante estróina e boémio, noivo leviano. Ganha juízo nos estudos e no amor, terminando o filme com a cena feliz da boda, com o fado da alegroterapia. Alice, Beatriz Costa, Miss Castelinhos, a noiva. Sempre a mesma arte de representar, com a naturalidade que anos mais tarde viria a ser apanágio dos grandes.
A sua última participação no cinema é a inesquecível Gracinda, lavadeira de Caneças, no filme “Aldeia da Roupa Branca”, que estreou no Tivoli a 2 de Janeiro de 1939. É quase um Romeu e Julieta da zona saloia. Como diz a cantiga, “a noiva é de Caneças e o noivo é da Malveira.”.
Partiu então para o Brasil, onde permaneceu dez anos, segundo ela o período mais feliz da sua vida. Foi no Brasil que Beatriz casou com Edmundo Gregorian, homem das artes plásticas e das letras, em 1947, “o homem mais educado, mais inteligente e mais compreensivo deste mundo", tendo-se divorciado dois anos depois, altura em que regressou a Portugal.
No início dos anos sessenta despedia-se do teatro, com a peça “Está bonita a brincadeira”. As aventuras literárias vieram depois de ter abandonado o palco e o cinema. Em 75 publicou “Sem papas na Língua”, tendo atribuído o sucesso à sua verdade e a algum picante, que não era surpresa para ninguém. A sua amizade e dedicação a Vasco Santana viriam a dar origem a um livro que é uma verdadeira homenagem ao actor, com quem trabalhou e ao lado de quem tanto êxito conheceu: “Quando os Vascos eram Santanas”.
Há de facto qualquer coisa de importante nessas obras, conjuntos de pequenas crónicas feitas de histórias e de memórias, à mistura com considerações muito suas sobre a vida, o mundo e a política. Nesse volume, dedicado aos vascos de outras eras, há um texto lindo em que ela fala do pai e das afinidades imensas, que geravam cumplicidades inesquecíveis. Conta que veio do Brasil, para lhe restituir a alegria que o médico lhe tinha retirado com um sem número de proibições. Determinada, cortou tudo ao meio, porque o preferia vivo e feliz durante cinco anos do que triste e apagado durante quinze.
As últimas aparições públicas de Beatriz Costa na televisão caracterizaram-se pela alegria e irreverência, nas intervenções como júri de um concurso, “A Prata da Casa”, sempre protegida pelo respeito da eterna franja.
Nasceu numa primavera a fingir e morreu numa primavera de verdade. Tinha 88 anos. 1996, dia 15 de Abril, Lisboa.
(Publicado pela Ela Por Ela, em Novembro de 2003 - Divas do Cinema, Madalena Santos)

4 de abril de 2005

Notícia do Público

Sócrates visita escola em São Domingos de Rana
Primeiro-ministro quer acabar com furos nos horários dos alunos
04.04.2005 - 13h09 Lusa

José Sócrates afirmou hoje que o Governo quer acabar com os chamados furos nos horários em todas as escolas do país e preencher os tempos sem aulas com actividades alternativas de aprendizagem. O primeiro-ministro e a ministra da Educação visitaram esta manhã a Escola 2+3 Matilde Rosa Araújo, em São Domingos de Rana.

Sócrates saudou o início do terceiro período deste ano lectivo e considerou a Escola Básica de São Domingos de Rana como "um exemplo" no que respeita ao aproveitamento dos tempos em que os alunos ficam sem aulas por ausência do respectivo professor.

A ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, garantiu que a generalização das aulas de substituição em todas as escolas do país "não implicará um aumento do número de professores ou de meios" por parte do Estado.

"O Governo gostaria que, no início do próximo ano lectivo, todas as escolas do país inscrevessem nos respectivos planos de actividades essa prática", acrescentou.

O primeiro-ministro apelou ao empenho dos professores que vão estar envolvidos no final deste ano nos exames do 9º ano de escolaridade. Por seu lado, a ministra completou que serão avaliados "os resultados concretos dos exames e a sua articulação com o sistema de ensino".

3 de abril de 2005

Da Capital- de Alexandre Borges

Notícias explicadas às CriançasEntre o céu e a terra :: Era uma vez na Polónia, um país frio, bem no interior do continente europeu, a muitos, mas a muitos, muitos quilómetros de nós. Num dia de eclipse solar, vinha ao mundo o pequeno Karol. Há 84 anos, o gigante Sol escondia-se, por alguns minutos, atrás da breve Lua, um acontecimento raro e deslumbrante, e parecia anunciar que algo especial estava para acontecer. Ao fim de poucos anos, a mãe e o pai faleciam, bem como outros familiares, e Karol seguiu a sua jornada sozinho, desde muito, muito cedo. Estudou, andou pelo teatro, foi um actor promissor, passeou pelas montanhas e decidiu dedicar a sua vida à igreja. Andou pelo seminário, pelas igrejas, foi padre e bispo.
A pouco e pouco, subia lugares entre os homens mais importantes da imensa Igreja Católica. No fim dos anos 70, o Papa João Paulo I falecia poucos dias depois de chegar ao topo dos homens dessa religião e Karol era o escolhido para o substituir. Em homenagem ao seu antecessor, Karol mudava de nome: era o novo Papa, João Paulo II. Corria o ano do Senhor de 1979.
Durante 26 anos, percorreu o mundo inteiro inúmeras vezes. Foi aos lugares onde era desejado, àqueles onde ninguém o esperava; onde os católicos eram a maioria e onde eram a minoria. Subiu, desceu, andou, falou. Em cada ponto do mundo, ao aterrar, beijava o chão, ajoelhando-se coberto pelas suas vestes brancas e fazendo o sinal da cruz. Falou aos homens de toda a Terra - diante das multidões de gente sem nome, a sós com os líderes das nações. Reuniu, dialogou, discutiu. Por todo o lado, espalhou a fé católica, lutou pelo entendimento entre as religiões, rezou, rezou sempre pela paz entre os homens, contra todas as guerras. Marcou o tempo em que vivemos de uma forma como muito poucos terão conseguido. É claro que nem sempre fez ou disse o que dele se esperava. Nunca pôde agradar a todos. Levantou muitas polémicas. Conservou algumas ideias até ao fim, não cedendo àqueles que as pretendiam mudar, mesmo quando eram muitos.
João Paulo II liderou os católicos num tempo difícil, de guerras e desentendimentos, de grandes transformações em todo o planeta. Tentou abrir a Igreja de séculos ao mundo novo, ao mesmo tempo que fez perdurar aqueles que lhe pareceram ser os seus ideais fundamentais.
No Vaticano, a meio de Roma, a meio da Itália, a meio do mundo, da Praça de S. Pedro, comandou os destinos da lei católica, herdando a missão de Pedro, um dos 12 apóstolos que acompanharam Jesus Cristo em Jerusalém há 2000 anos. Foi sempre criticado e amado, mas, aos domingos, diante de si, tinha permanentemente dezenas de milhares de crentes, à espera das suas palavras, do mistério que nele une o céu e a terra.

15 de março de 2005

O que ainda faltava explicar

O inexplicável...
Enquanto em Portugal continental continua a seca, no arquipélago dos Açores chove de mais. Por cá, as autoridades estão cada vez mais preocupadas: sem chuva, poderemos ter um verão muito difícil. Para já, teme-se que 10% dos portugueses (isto é, cerca de um millhão de pessoas) fique sem água em casa; os bombeiros prevêem, de novo, um ano de muitos e grandes incêndios; e os agricultores olham em volta e vêem as suas terras secas, incapazes de deixar nascer e crescer as suas plantações e culturas. Fala-se mesmo na hipótese de, para obrigar as pessoas a pouparem a água que, por enquanto existe, multar ou fazer pagar mais àqueles que a gastem em demasia. Por outro lado, no meio do Atlântico, continua a chover muito acima daquilo que seria necessário. De tal maneira que, na segunda-feira, algumas ribeiras (rios pequeninos, digamos assim) da ilha de S. Miguel ficaram demasiado cheias, transbordaram e fizeram com que as terras em volta deslizassem, arrastando, na lama e nas pedras, um automóvel. Das pessoas que iam lá dentro, duas estão desaparecidas e uma foi encontrada já sem vida. Esperemos que os próximos dias tragam uma mudança das coisas: que metade da chuva dos Açores venha para o continente…
Vamos lá a ver se os adultos também se sabem explicar...
Por cá, no final desta semana, tomou posse o novo governo de Portugal. É claro que as eleições já foram há uns bons dias atrás (a 20 de Fevereiro), mas é necessário algum tempo para decidir quem vai fazer o quê nessa grande estrutura, esse grande conjunto de pessoas, que é um governo. A "tomada de posse" é, assim, o momento em que, estando escolhidas as principais figuras da equipa (aqueles que serão os ministros e os secretários de Estado), se fazem, diante do Presidente da República, as assinaturas que tornam o acontecimento oficial. Isto é, na prática, só a partir de agora, temos um novo governo. Na quinta-feira, a Assembleia da República reabriu as suas portas, com todos os novos deputados e tudo está, portanto, finalmente pronto para começar. Portugal tem novos responsáveis num momento bastante difícil, quando continua a aumentar o número de pessoas sem emprego e tudo parece estar mais caro, tornando a vida mais complicada para todos nós.
E finalmente o absolutamente incompreensível:
No ano passado, dar-se-ia o último destes três acontecimentos importantes para o mundo, sempre a 11 de Março. Em Espanha, mesmo aqui ao lado, estava-se em véspera de eleições. De um lado, o PP, o partido que vinha governando o reino até então e que apoiava os americanos na sua luta contra os terroristas árabes; do outro, o PSOE, em quem ninguém apostava muito, mas que defendia, por exemplo, que os soldados espanhóis a combater no Iraque ao lado dos americanos deviam baixar as armas e regressar a casa. Pois bem. Para surpresa de todos, pela primeira vez na Europa, os terroristas árabes atacavam: uma série de explosões nas estações e linhas de comboios da principal cidade espanhola, Madrid, tiravam a vida a 191 pessoas e feriam muitas mais, deixando o mundo inteiro em estado de choque. As eleições realizaram-se na mesma, mas os seus resultados foram muito influenciados pela tragédia. O PSOE acabava por ganhar, o seu líder, Zapatero, tornava-se primeiro-ministro e os soldados espanhóis abandonavam o Iraque.
Por todo o mundo, estes três acontecimentos foram, na última sexta-feira, recordados, em tudo quanto têm de bom e tudo quanto têm de mau, para que, no futuro, os homens sigam os melhores exemplos e não voltem a cometer os mesmos erros.

Belo trabalho o de Alexandre Borges, ao fim de semana, na Capital.
Pena é que a vida destes textos, on line seja tão curta.
Por isso os guardo aqui.

Era uma vez o mundo, contado às crianças...

também na Capital, por Alexandre Borges.

Há 20 anos, o mundo ainda vivia um tempo que ganhou o nome de "Guerra Fria". Porquê? Porque, na verdade, não existia nenhuma guerra, apenas o medo de que uma pudesse acontecer a qualquer momento. O planeta Terra era, no fundo, dominado por dois grandes países: os Estados Unidos da América (que, hoje, ocupam esse lugar sozinhos) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, ou URSS, um imenso território que, como o nome indica, era a união de muitos povos diferentes, de entre os quais se destacava a Rússia. Os americanos representavam as ideias que ainda hoje conhecemos, da democracia e do capitalismo, em que o dinheiro é, para o bem e para o mal, quem mais ordena; os soviéticos eram um regime comunista, autoritário, de quem pouco se conhecia. Durante muito tempo, houve uma tensão entre eles. Cada um apoiava diferentes países nas diversas guerras que iam acontecendo um pouco por todo o globo. Até que chegou este homem à liderança da URSS – Mikhail Gorbachev. A sua forma de ser moderada e mais próxima dos ideiais do resto do mundo levaria, ao longo dos anos, a que os soviéticos revelassem as suas fraquezas, as suas necessidades, abandonando o comunismo e abrindo-se às regras dos ocidentais. A URSS acabou por desfazer-se e cada um dos países que a compunham conquistou a sua independência. Por exemplo, a Ucrânia, a Letónia, a Estónia, a Lituânia ou a Bielorrússia.

O 11 de Março de Portugal

Explicado às crianças, por Alexandre Borges, na Capital:
Eis um dia em que se assinalam três acontecimentos importantes.
Há 30 anos, em Portugal, ainda se viviam os tempos agitados que se seguiam à revolução de 25 de Abril de 1974. Os governos não conseguiam segurar-se muito tempo na liderança do País porque esta era disputada por muitos grupos diferentes de pessoas. Durante meio dia, temeu-se que rebentasse uma guerra civil. O general António de Spínola tentava alcançar o poder atraves de um movimento habitualmente chamado de "golpe de Estado", acompanhado de militares de ideias mais conservadoras do que aquelas que o povo tinha sonhado para o seu futuro. Mas fracassava, acabava por fugir para Espanha num helicóptero e o derramamento de sangue, para bem de todos, era evitado.

27 de fevereiro de 2005

Pigmalião de Bernard Shaw

Quem é que lhe pediu que me transformasse num cavalheiro? Eu era feliz.

Uma peça de teatro não se lê! Vê-se! O teatro representa-se, por definição literária. Para o dramaturgo não há leitores. Há espectadores!
Mas se a peça valer quatro ou cinco horas de boa leitura...
Além do mais, essa peça pode não estar em cena, em parte nenhuma do mundo, mas o livro está ali, ao nosso alcance. A nossa imaginação prodigiosa encarrega-se da encenação e do resto.
Depois das pancadas de Moliére, sobe o pano.
A acção decorre em Londres, no princípio do século. Vinte, entenda-se.
Tudo começa depois de uma saída do teatro, perto de Convent Garden.
Uma florista tenta vender os seus raminhos às pessoas chiques, que se abrigam da chuva súbita e tentam apanhar um táxi. A florista fala como sabe. Ninguém lhe ensinou mais, nem melhor. De repente, assustada, descobre que um cavalheiro aponta o que ela diz. A sua imaginação sem pecado conclui que se trata de um polícia e brada aos céus a sua inocência. Grita cada vez mais, à medida que o tal cavalheiro lhe vai revelando, com segurança, pormenores da sua origem. E não só! Outros, por ali, vêem escancarada a sua proveniência, as suas terras, os seus bairros e até as suas ruas.
As pessoas continuam à procura de “taxe” , mas “incaminharam-se” para o “otocarro” quando a chuva parou. Pobre florista! Pobre Liza! O homem dos apontamentos humilha-a, do alto da sua imensa sabedoria. Chama-lhe “folha de couve amarfanhada” e, com uma altivez muito pouco cristã, recorda-lhe que a fala é um dom divino e que a língua em que se expressa é a mesma da Bíblia! Depois de traduzida, supomos nós. Mas a sua antipatia dissipa-se levemente, ao reconhecer noutro cavalheiro, que protegia a pobre florista dos insultos deste homem douto, o coronel Pickering, eminente linguista. Seguem os dois para casa de Higgins, antipático professor de Fonética, que entretanto, no enlevo do seu próprio saber, afirma poder ensiná-la em três meses e fazê-la passar por duquesa.
Segundo acto. O cenário é a casa do professor Higgins, em Wimpole Street, mais precisamente o seu laboratório de Fonética, onde se podem encontrar objectos que medem a fala, com rigor científico: fonógrafos, laringoscópios, tubos de órgão, etc. Para adoçar o ambiente, sobre o piano, pode ver-se um recipiente com fruta, doces e chocolates. Mrs Pearce, a dedicada governanta, anuncia a chegada de Liza, que quer aprender a falar bem, correctamente, embalada na promessa, que ouvira na noite anterior, de se transformar noutra pessoa. Talvez até possa vir a ter uma loja de flores! Quem sabe? Nova humilhação, para a pobre vendedeira de flores, que afirma e reafirma a sua seriedade. “Inté lavei as mãos e cara antes de vir...” Até a sua higiene serve de argumento para convencer o professor, que acaba por a considerar “uma proposta quase irresistível”.
O pai de Liza vem a casa de Higgins, reclamando o seu direito a receber qualquer coisinha em troca da filha, desconhecendo completamente as razões por que ela ali está. O pobre homem, bêbado de estado normal, começa a ver as coisas complicarem-se, mas, fascinado pela sua fala, pelos dotes oratórios, pela capacidade argumentativa, o Professor oferece-lhe muito mais do que ele podia esperar. Torna- -se um homem rico, de repente. Mais tarde perceberemos melhor ...
Liza aplica-se e aprende a manter um pequeníssimo diálogo, com a correcção e a elegância da alta sociedade. Mas a primeira prova pública, em casa da mãe do professor, é um desastre. Contudo, os convidados da Sra Higgins, especialmente Freddy, rendem-se à moderna “gíria” das gentes de Londres e ao encanto da jovem.
Ainda não se esgotaram os seis meses de aposta e Liza, ou melhor Eliza Doolittle, acompanha o Coronel Pickering e o Professor a um baile. A anfitriã, cautelosamente, não dispensa a presença de um perito de línguas, preparado para desmascarar qualquer vigarista, que se queira infiltrar na elegância dos salões. É a prova máxima. Nepommuck, assim se chama o especialista, fora discípulo de Higgins e descobre que a “filha adoptiva” do Coronel, é... uma princesa húngara.
Mas a noite não é de festa para Liza, ou Eliza. Os dois homens celebram a sua vitória sobre a ignorância de Nepommuck. Quase esquecem a matéria da aposta: um ser humano. Liza chora bem alto a sua aflição: ela já não pertence às ruas de Londres. “Agora que fez de mim uma senhora, já não sirvo para nada”.
A nossa imaginação é agora chamada a decidir o desfecho romântico: Eliza sai de casa, apanha um táxi com Freddy....E o professor? “Ouça” a conversa dos dois, em casa da Sra Higgins, pela primeira vez, de igual para igual. Eliza, com a correcção e elegância que aprendeu, dá ao professor uma lição de humanidade.
Uma linha mais, apenas para referir a excelência da tradução do Professor Doutor Fernando Moser. Nunca esqueci o que me ensinou, nem o seu modo simples, tranquilo, humano e belo.
George Bernard Shaw nasceu em Dublin em 1856.Dramaturgo, por excelência, escreveu também ensaios e escritos políticos, tendo-se também distinguido como jornalista. Em 1935 recebeu o Nobel da Literatura. Morreu em 1950 e dos seu testamento constava um herdeiro: a língua inglesa. Pretendia que se inventasse um novo alfabeto inglês, cuja base fosse a Fonética.

6 de fevereiro de 2005

Mais alto é impossível, de David Sobral (18 anos)

“A natureza e as leis da natureza jaziam escondidas na noite;
Deus disse: Haja Newton! E fez-se luz.”
Alexander Pope, Epitáfio para Sir Isaac Newton
Permitam-me que me apresente. Chamo-me Edmond Halley. Devem reconhecer o meu nome devido ao cometa (agora) famoso, que foi visto por alguns de vós em 1986. Bem, na verdade não compreendo por que razão tem ele o meu nome, já que nada tive a ver com a sua descoberta. Limitei-me a verificar que era o mesmo cometa que já tinha sido observado antes. Mas em Ciência raras vezes ficamos com os nossos próprios louros…

Paciência. De qualquer forma não estou aqui para vos falar de mim, ainda que muitos reconheçam que dei um contributo importante para a Ciência. É que a razão que aqui me traz vence qualquer outra. E isto porque não creio que nenhum Homem alguma vez poderá chegar à grandiosidade de Isaac Newton, ainda que ele próprio tenha admitido que só conseguiu ver mais longe por se ter “erguido nos ombros de gigantes”.

Mas vamos ao importante. E isso, por incrível que pareça, começou numa noite. Sim, bem sei que raramente se pode escolher um instante para o início, mas neste caso é possível. E lembro-me como se fosse ontem. Estava junto a Hooke e Wren, a jantar. Sim, o mesmo Hooke que descobriu a célula, e o mesmo Hooke que era extremamente “gabarolas”, ao ponto de, mais tarde, dizer que alguns dos aspectos da divina teoria de Newton eram dele. Todavia, nessa noite, em 1683, tudo isso estava por vir. A humanidade vivia ainda na escuridão. E, se olhássemos o Céu, diriam que era a morada da perfeição, e que na Terra tudo era imperfeito. E assim era, Céu e Terra, regidos por leis totalmente diferentes.

Mas tudo isso iria mudar. E é estranho pensar que tudo derivou de uma conversa sobre o movimento dos astros, que levou a uma aposta. Uma aposta que, indirectamente, mudou o Mundo! Concordámos os três que o primeiro a descobrir por que razão os planetas seguem órbitas elípticas à volta do Sol ganharia dos outros dois cerca de meio ordenado. E assim se combinou.

Claro que Hooke rapidamente se pôs com o seu ar habitual, algo do género “bem, eu já sei, mas não vos vou dizer, para gozar a situação de terem que encontrar a resposta”. Não dei grande importância à sua atitude, porque, para mim, a questão ultrapassava em muito os 40 xelins prometidos. Por isso, logo na manhã seguinte, comecei a pesquisar e a contactar diversos indivíduos influentes da altura. Sabia-se que os planetas descreviam órbitas elípticas graças ao trabalho de Kepler, mas aparentemente ninguém conseguia explicar esse facto. E eu queria saber a explicação!

E foi esse querer que me levou à razão de todo este texto. Um professor de Cambridge (que era já catedrático de Matemática) altamente “estranho”, que se dizia que às vezes acordava e ficava horas a pensar sentado, sem se aperceber disso, ou até que fazia experiências, quase perfurando o próprio olho, até encontrar o osso. Mas a verdade é que Isaac Newton era a minha última esperança. Excêntrico ou não, se ele não tivesse a resposta, então não saberia a quem mais recorrer.

Nervoso, entrei no seu gabinete, perante o ar atento de um sujeito chamado Abraham deMoivre. Cumprimentei Newton e, depois de uma conversa circunstancial, perguntei-lhe sobre o que pensava ser a órbita descrita pelos planetas. Para meu espanto, Newton não esboçou qualquer entusiasmo. E, como se lhe tivesse perguntado quanto era 1+1, respondeu-me, com naturalidade:

- Bem, é óbvio que se tratam de elipses, com o sol num dos focos.

Por isso, curioso, não hesitei em perguntar-lhe por que razão assim era.

- Porque fiz os cálculos – respondeu-me, com a maior das naturalidades. – Deixe-me ver se estão algures para aqui, e dou-lhe já – disse-me depois, vasculhando nas suas gavetas cheias de trabalhos com um potencial enorme e que, para ele, não passavam de rascunhos sem importância. Espantoso como alguém pode descobrir coisas tão profundas e colocar tudo na gaveta!

- Não encontro. Mas volte cá mais tarde, que eu vou fazer tudo de novo.

Newton fez realmente TUDO de novo, e ao fazê-lo apercebeu-se, finalmente, do que tinha em mãos. De tal forma que, indirectamente, acabei por ficar ligado à maior criação do Homem de todos os tempos, que culminou na publicação da obra Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, onde Newton, ao refazer os cálculos que lhe pedi, não só explicou por que razão eram as órbitas elipses, como também revelou a natureza da força que actuava os planetas, unificando a Terra com o Céu.

E assim, de uma só vez, com um só homem, um só génio, a Terra e o Céu eram regidos pelas mesmas leis e não mais fazia sentido distinguir os dois. E de uma só vez, estava nas mãos do Homem a explicação para as marés, para o facto de a Terra não ser totalmente esférica, ou para o porquê das trajectórias dos corpos na Terra e no espaço serem como são. Tudo, numa perfeição de Matemática na sua maioria – imagine-se – inventada pelo próprio Newton, ainda enquanto estudante, quando se aborrecia com o fraco poder da Matemática do seu tempo!

Por tudo isto, não ouso referir o que já disse há séculos atrás. Porque é absolutamente verdade que nenhum mortal se pode aproximar mais dos deuses do que Sir Isaac Newton. Tragam quem vocês quiserem, passado ou futuro, e vos direi que, mesmo em ombros de gigantes, ninguém pôde ver tão longe, nem chegar tão alto como Newton.

E o mais curioso é que Newton, trabalhando imenso para tentar descobrir pistas matemáticas que lhe indicassem a vinda do próximo Messias, acabou por não ter tempo para olhar para tudo o que ele próprio deu à humanidade e poder reconhecer, provavelmente espantado, que o Messias que ele buscava tão incessantemente era ele mesmo...




Q u e m E s c r e v e u . . .
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David Sobral, 18 anos, estudante de Física, Barreiro



22 de janeiro de 2005

Que honra!

A natureza derrama as suas cores sobre manto verde da terra, tocada e fecundada pelos deuses.
O talento salpicado mas abundante vai desabrochar em espécies sem fim.
O mais ínfimo representante do reino de Flora, presta-lhe a sua homenagem, crescendo em beleza dia após dia, até ao último instante.
Assim, cumprida a sedução, entregar-se-á de novo à volúpia da terra.
O fruto será então o rei. Ou a rainha, qual romã coroada em dia de celebração.
O fruto veste-se de pele fina e colorida, que lhe esconde a carne, por vezes tão suculenta e doce que se tornará néctar.
Os homens enfeitam-se com flores, mordem os frutos, bebem-no na forma de vinho que lhes exalta os sentidos.
O pintor, neste caso a pintora, devolve os sentidos à forma original de folhas, flores e frutos, numa festa de cores em que os verdes das folhas se encostam ao vermelho das cerejas ou ao roxo das ameixas, poisando finalmente os olhares na alvura rosada do nenúfar, que nos convida à acalmia das sensações.

A honra de ser convidada a participar nesta festa!
Que honra ver as minhas palavras no catálogo entre as flores e os frutos!