O que a Senhora Ministra acabou de explicar à Sic Notícias é que quer acabar com os números negros da ignorância e da iliteracia.
Quem não se rende a este propósito tão nobre?
Eu rendo-me, claro!
Porém, recuso-me a acreditar que a maneira de o fazer seja à custa dos professores. A troco de quê? De aulas de substituição que não servem para nada e desgastam inutilmente as reservas de entusiasmo dos professores? A troco da ameaça velada, e a partir de agora continuada, de uma avaliação injusta por parte de qualquer encarregado de educação muito, pouco ou nada instruído, pois não é isso que está em causa?
Eu sou velha nisto e sempre ouvi os professores dizerem que eram permanentemente avaliados por todos: pais, alunos, colegas, funcionários... Só faltava mesmo a formalização dessa avaliação e a validação por parte do Ministério.
E a indisciplina Senhora Ministra? E os programas? E a carga horária das disciplinas? E as áreas projecto e os estudos acompanhados? Sabem os senhores em geral que, no quinto ano, as disciplinas de Inglês, História e Ciências têm a mesma carga horária do Estudo Acompanhado? E os noventa minutos, em que sobeja tempo útil de aula, ao contrário dos quarenta e cinco, em que falta? E as carências dos meninos mais pobres? E as pobrezas morais que por aí há que "animam" muito os telejornais? Na escola, nós temos de lidar com elas antes da "Alice no País das Maravilhas" Senhora Ministra!!!!
Já percebi, Senhora Ministra, são só os professores que estão mal, para si. Ou melhor, são só os sindicatos. Pensando melhor, é só a Fenprof, que a incomoda de facto.
Estou cansada e estou vencida!
6 de janeiro de 2006
13 de dezembro de 2005
José Eduardo Agualusa
A VIDA DOS PARDAIS
Destaque: "A humanidade divide-se entre aquelas pessoas que são capazes de apertar a mão a um político, e as que não são. Eu sofro de um excesso de civilização - não sou."
"Não sou pessimista", assegurou o pessimista: "mas o que hei-de fazer se o mundo é um lugar péssimo?"
A pergunta não presumia uma resposta. Parecia uma citação. O pessimista ergueu o copo e bebeu mais um gole de vinho. A mulher, Flávia, trinta anos mais nova, com uma longa cabeleira dourada, solta, que lhe chegava à cintura, repetiu-lhe o gesto. O optimista riu-se:
"Eu cá gosto do mundo. Há muitas coisas terríveis, guerras, fomes, epidemias, homens-bombas, desastres ecológicos, música pimba, enfim, o que vocês quiserem, mas viver é maravilhoso!"
Os outros olharam-no com estranheza, senão mesmo (um ou outro) com mal disfarçada hostilidade. Raramente alguém ousava contestar o pessimista.
"Vejam bem, o Natal, as multidões enchendo as ruas! Eu gosto disto, da alegria das crianças, das luzes nas árvores, da ideia de que, quando Dezembro chegar ao fim, nos será dada a possibilidade de apagar os nossos erros e recomeçar tudo outra vez. Ano novo, vida nova. Ah, que maravilha!..."
"Odeio o Natal", cortou, sombrio, o pessimista: "Puro mercantilismo. Odeio em particular a figura do Pai Natal. Às vezes imagino-me na pele de um serial killer especializado em degolar Pais Natais..."
A ideia divertiu o grupo. O pessimista não tinha aspecto de serial killer. Era um homem já de certa idade, isto é, passara a idade em que seria possível imaginá-lo a degolar Pais Natais. Vinha de uma família com dinheiro e um nome nobre e sonante. Mantinha, apesar dos anos, uma forma física invejável, seco, sempre muito direito. As mulheres achavam-no charmoso. Ele não gostava da palavra. Ironizava:
"Isso a que vocês chamam charme não é outra coisa senão a simples combinação entre boa postura e boa educação."
O optimista, pelo contrário, era um sujeito um tanto desajeitado, nascido e criado numa remota aldeia alentejana (definia-se a si próprio como um luso-alentejano), que subira na vida a muito custo, mas sem nunca perder a gargalhada franca, e a capacidade de rir das próprias desgraças. Estavam numa varanda debruçada sobre o casario, o rio quase ao alcance da mão. Entardecia. Alguém lembrou o espectáculo melancólico da campanha eleitoral para a Presidência da República. Um outro comensal, um homem triste, pálido, condenou o vazio de ideias, e o afã populista dos candidatos:
"Eu não poderia ser político. Não seria capaz de andar mergulhado no meio das multidões, a beijar criancinhas e peixeiras, cartomantes e carteiristas, eu sei lá!, a apertar a mão a desconhecidos."
O pessimista concordou. Ele ia além. O que mais o horrorizava era apertar a mão promíscua dos políticos que afagavam as multidões:
"A humanidade divide-se entre aquelas pessoas que são capazes de apertar a mão a um político, e as que não são. Eu sofro de um excesso de civilização - não sou."
O optimista era tão optimista que, inclusive, acreditava nos políticos, ou pelo menos em alguns políticos, e na democracia. Aquilo pareceu a todos um exagero. Riram-se com gosto da ingenuidade dele. Bem, todos não. Flávia ouviu-o com atenção. O optimista não se esforçava por alcançar a aprovação dos outros. Falava com paixão das vidas minúsculas dos pardais e dos matizes das rosas que plantava no jardim. Ouvindo-o falar a vida parecia um facto inédito, uma festa. Flávia reparou que ele tinha umas mãos bonitas, eloquentes, marcadas pela dureza do passado, mas de unhas limpas e bem cuidadas. Gostou da forma como sorria. Houve um momento de silêncio. A seguir o pessimista propôs que criassem ali mesmo uma associação secreta destinada a eliminar do planeta a figura rídicula do Pai Natal. Flávia não se riu.
O sol inclinou-se gravemente, diante deles, como um mordomo antigo. Tocou com os cabelos em chamas a lenta água em movimento. O pessimista fechou os olhos, absorto, enquanto em redor a luz se extinguia. Quando os reabriu Flávia fora-se embora. O optimista também. Juntos, mas isso ele só descobriu alguns dias depois.
Destaque: "A humanidade divide-se entre aquelas pessoas que são capazes de apertar a mão a um político, e as que não são. Eu sofro de um excesso de civilização - não sou."
"Não sou pessimista", assegurou o pessimista: "mas o que hei-de fazer se o mundo é um lugar péssimo?"
A pergunta não presumia uma resposta. Parecia uma citação. O pessimista ergueu o copo e bebeu mais um gole de vinho. A mulher, Flávia, trinta anos mais nova, com uma longa cabeleira dourada, solta, que lhe chegava à cintura, repetiu-lhe o gesto. O optimista riu-se:
"Eu cá gosto do mundo. Há muitas coisas terríveis, guerras, fomes, epidemias, homens-bombas, desastres ecológicos, música pimba, enfim, o que vocês quiserem, mas viver é maravilhoso!"
Os outros olharam-no com estranheza, senão mesmo (um ou outro) com mal disfarçada hostilidade. Raramente alguém ousava contestar o pessimista.
"Vejam bem, o Natal, as multidões enchendo as ruas! Eu gosto disto, da alegria das crianças, das luzes nas árvores, da ideia de que, quando Dezembro chegar ao fim, nos será dada a possibilidade de apagar os nossos erros e recomeçar tudo outra vez. Ano novo, vida nova. Ah, que maravilha!..."
"Odeio o Natal", cortou, sombrio, o pessimista: "Puro mercantilismo. Odeio em particular a figura do Pai Natal. Às vezes imagino-me na pele de um serial killer especializado em degolar Pais Natais..."
A ideia divertiu o grupo. O pessimista não tinha aspecto de serial killer. Era um homem já de certa idade, isto é, passara a idade em que seria possível imaginá-lo a degolar Pais Natais. Vinha de uma família com dinheiro e um nome nobre e sonante. Mantinha, apesar dos anos, uma forma física invejável, seco, sempre muito direito. As mulheres achavam-no charmoso. Ele não gostava da palavra. Ironizava:
"Isso a que vocês chamam charme não é outra coisa senão a simples combinação entre boa postura e boa educação."
O optimista, pelo contrário, era um sujeito um tanto desajeitado, nascido e criado numa remota aldeia alentejana (definia-se a si próprio como um luso-alentejano), que subira na vida a muito custo, mas sem nunca perder a gargalhada franca, e a capacidade de rir das próprias desgraças. Estavam numa varanda debruçada sobre o casario, o rio quase ao alcance da mão. Entardecia. Alguém lembrou o espectáculo melancólico da campanha eleitoral para a Presidência da República. Um outro comensal, um homem triste, pálido, condenou o vazio de ideias, e o afã populista dos candidatos:
"Eu não poderia ser político. Não seria capaz de andar mergulhado no meio das multidões, a beijar criancinhas e peixeiras, cartomantes e carteiristas, eu sei lá!, a apertar a mão a desconhecidos."
O pessimista concordou. Ele ia além. O que mais o horrorizava era apertar a mão promíscua dos políticos que afagavam as multidões:
"A humanidade divide-se entre aquelas pessoas que são capazes de apertar a mão a um político, e as que não são. Eu sofro de um excesso de civilização - não sou."
O optimista era tão optimista que, inclusive, acreditava nos políticos, ou pelo menos em alguns políticos, e na democracia. Aquilo pareceu a todos um exagero. Riram-se com gosto da ingenuidade dele. Bem, todos não. Flávia ouviu-o com atenção. O optimista não se esforçava por alcançar a aprovação dos outros. Falava com paixão das vidas minúsculas dos pardais e dos matizes das rosas que plantava no jardim. Ouvindo-o falar a vida parecia um facto inédito, uma festa. Flávia reparou que ele tinha umas mãos bonitas, eloquentes, marcadas pela dureza do passado, mas de unhas limpas e bem cuidadas. Gostou da forma como sorria. Houve um momento de silêncio. A seguir o pessimista propôs que criassem ali mesmo uma associação secreta destinada a eliminar do planeta a figura rídicula do Pai Natal. Flávia não se riu.
O sol inclinou-se gravemente, diante deles, como um mordomo antigo. Tocou com os cabelos em chamas a lenta água em movimento. O pessimista fechou os olhos, absorto, enquanto em redor a luz se extinguia. Quando os reabriu Flávia fora-se embora. O optimista também. Juntos, mas isso ele só descobriu alguns dias depois.
2 de dezembro de 2005
Depois...
Cinco anos mais tarde, Evangelia e George separam-se e a mãe regressa à Grécia com as duas filhas, mudando novamente o apelido para Kalogeropoulos. No ano seguinte, Maria é admitida no Conservatório Nacional de Atenas, apesar da idade não ser a legalmente exigida. Começa então os estudos musicais, sob a orientação de Maria Trivella e no mesmo ano, a 11 de Abril, faz a primeira aparição em público, num recital, juntamente com os outros estudantes do Conservatório.
Os dados do destino estavam lançados, pelo menos no que dizia respeito ao talento e à voz da diva do bel canto. Ainda na Grécia, viveu momentos difíceis. No entanto, foi aqui que começou o deslumbramento dos músicos com a sua voz. Maria é convidada a substituir a soprano, que adoecera subitamente, na Opera “Tosca” de Puccini, numa representação ao ar livre. Maria, ao longo desses anos, não tinha parado nunca de estudar, de aprender e de cantar, mas esta foi a sua oportunidade.
No ano seguinte começa a preparar o seu regresso aos Estados Unidos, em busca de sucesso, à procura do pai, mas sobretudo de estabilidade política, da paz, que entretanto já se anunciava na Europa, com o fim da guerra. A 3 de Agosto de 1945, Maria despede-se de Atenas num concerto, o primeiro recital a solo, iniciativa que tem como objectivo angariar fundos para a passagem. Em Setembro parte para os Estados Unidos.
Apesar das audições quase imediatas para a Ópera Metroplitana, não parecia fácil arranjar trabalho, um contrato que lhe trouxesse aquilo que sonhava, que procurava e merecia, não só pelo talento natural, como também pelo trabalho árduo, que nem em tempos de glória e de sucesso deixou de ter. “Eu não confio na glória.” Diria um dia, numa entrevista, bem mais tarde. Cedo terá aprendido a não confiar.
Porém, em 1947, o mundo reconhecia o valor desta voz, mais uma vez de um modo inesperado... Quando tudo parecia dar uma volta, deu outra e outra ainda, como se de uma dança se tratasse... A Companhia de Chicago, com quem tinha um contrato, faliu, dias antes da representação tão esperada, onde se encontrariam outras vozes célebres da Europa! Mas Giovanni Zanatello estava nos Estados Unidos, precisamente à procura de vozes, para o Festival de Ópera de Verona desse ano. Contrata-a para cantar “A Gioconda”. Era o sucesso a rondar a vida de Maria Callas.
Durante os ensaios, conhece um amante de ópera, Giovanni Baptista Meneghini, industrial muito rico, com quem casa a 21 de Abril de 1949. Marido, Meneghini torna-se também empresário de Callas, gerindo o êxito quase absoluto dos anos cinquenta, com momentos inesquecíveis da Divina, desde o Scala de Milão a outros lados. No próprio dia do casamento embarcara para a Argentina, para cantar no “Teatro Colon”, em Buenos Aires.
Os anos cinquenta são também de convívio social intenso e, acompanhada do marido, Callas frequenta os ambientes mais ricos e sofisticados. Assim conhece Aristóteles Onassis, o mítico armador milionário grego, em Veneza, por intermédio de Elsa Maxwell, uma anfitriã americana.
A determinada altura, tremendamente magra e frágil, Callas começa a evidenciar sinais de fadiga. A diva abandona uma gala, onde se encontrava o Presidente Italiano, em Roma, a 2 de Janeiro de 1958, a seguir ao primeiro acto de “Norma” de Bellini. A crítica foi severa, mas a diva seguiu, aparentemente indiferente, envolvendo-se em novos incidentes, como uma discussão com o Director de La Scala, em Maio do mesmo ano.
Em Dezembro, reaparece com todo o seu esplendor, na Ópera de Paris. Onassis assiste e percebe-se que o seu interesse vai para além da voz. Ele quer a mulher que não lhe resiste. No ano seguinte, o casamento com Meneghini termina, depois de um cruzeiro no célebre iate Christina, onde também viajou Winston Churchill.
São dois anos de envolvimento amoroso com um dos homens mais poderosos do mundo do dinheiro e Callas abdica de quase toda a sua vida artística para o acompanhar. Os fotógrafos perseguem-na, porque o mundo devora escândalos e a imprensa vende-os a alto preço. É um preço bem alto que Callas começa a pagar com este romance: primeiro o afastamento dos palcos e finalmente a rejeição de Onassis, que casa em 1968 com Jackeline Kennedy, uma das mulheres mais bonitas da época, viúva do presidente John Kennedy.
São várias as tentativas de regressar às luzes e aos aplausos, mas Callas apenas voltará aos palcos para um canto de cisne, doloroso e prolongado. Um amigo de longa data, tenor, Di Stefano, convence-a a participar com ele, numa série de recitais. A causa é nobre: o dinheiro destina-se ao tratamento da filha do tenor. “...um êxito pessoal, mas um insucesso artístico...” dizem os críticos, em jeito de balanço, depois de terminada a tournée, em 74.
Onassis morre em 75 e dois anos mais tarde, em Paris, no seu apartamento, a 16 de Setembro, Callas morre também, no meio da mais completa solidão e tristeza.
Caiu o pano, sem palmas. Calou-se a voz da protagonista grega de uma tragédia: a sua própria vida.
Os dados do destino estavam lançados, pelo menos no que dizia respeito ao talento e à voz da diva do bel canto. Ainda na Grécia, viveu momentos difíceis. No entanto, foi aqui que começou o deslumbramento dos músicos com a sua voz. Maria é convidada a substituir a soprano, que adoecera subitamente, na Opera “Tosca” de Puccini, numa representação ao ar livre. Maria, ao longo desses anos, não tinha parado nunca de estudar, de aprender e de cantar, mas esta foi a sua oportunidade.
No ano seguinte começa a preparar o seu regresso aos Estados Unidos, em busca de sucesso, à procura do pai, mas sobretudo de estabilidade política, da paz, que entretanto já se anunciava na Europa, com o fim da guerra. A 3 de Agosto de 1945, Maria despede-se de Atenas num concerto, o primeiro recital a solo, iniciativa que tem como objectivo angariar fundos para a passagem. Em Setembro parte para os Estados Unidos.
Apesar das audições quase imediatas para a Ópera Metroplitana, não parecia fácil arranjar trabalho, um contrato que lhe trouxesse aquilo que sonhava, que procurava e merecia, não só pelo talento natural, como também pelo trabalho árduo, que nem em tempos de glória e de sucesso deixou de ter. “Eu não confio na glória.” Diria um dia, numa entrevista, bem mais tarde. Cedo terá aprendido a não confiar.
Porém, em 1947, o mundo reconhecia o valor desta voz, mais uma vez de um modo inesperado... Quando tudo parecia dar uma volta, deu outra e outra ainda, como se de uma dança se tratasse... A Companhia de Chicago, com quem tinha um contrato, faliu, dias antes da representação tão esperada, onde se encontrariam outras vozes célebres da Europa! Mas Giovanni Zanatello estava nos Estados Unidos, precisamente à procura de vozes, para o Festival de Ópera de Verona desse ano. Contrata-a para cantar “A Gioconda”. Era o sucesso a rondar a vida de Maria Callas.
Durante os ensaios, conhece um amante de ópera, Giovanni Baptista Meneghini, industrial muito rico, com quem casa a 21 de Abril de 1949. Marido, Meneghini torna-se também empresário de Callas, gerindo o êxito quase absoluto dos anos cinquenta, com momentos inesquecíveis da Divina, desde o Scala de Milão a outros lados. No próprio dia do casamento embarcara para a Argentina, para cantar no “Teatro Colon”, em Buenos Aires.
Os anos cinquenta são também de convívio social intenso e, acompanhada do marido, Callas frequenta os ambientes mais ricos e sofisticados. Assim conhece Aristóteles Onassis, o mítico armador milionário grego, em Veneza, por intermédio de Elsa Maxwell, uma anfitriã americana.
A determinada altura, tremendamente magra e frágil, Callas começa a evidenciar sinais de fadiga. A diva abandona uma gala, onde se encontrava o Presidente Italiano, em Roma, a 2 de Janeiro de 1958, a seguir ao primeiro acto de “Norma” de Bellini. A crítica foi severa, mas a diva seguiu, aparentemente indiferente, envolvendo-se em novos incidentes, como uma discussão com o Director de La Scala, em Maio do mesmo ano.
Em Dezembro, reaparece com todo o seu esplendor, na Ópera de Paris. Onassis assiste e percebe-se que o seu interesse vai para além da voz. Ele quer a mulher que não lhe resiste. No ano seguinte, o casamento com Meneghini termina, depois de um cruzeiro no célebre iate Christina, onde também viajou Winston Churchill.
São dois anos de envolvimento amoroso com um dos homens mais poderosos do mundo do dinheiro e Callas abdica de quase toda a sua vida artística para o acompanhar. Os fotógrafos perseguem-na, porque o mundo devora escândalos e a imprensa vende-os a alto preço. É um preço bem alto que Callas começa a pagar com este romance: primeiro o afastamento dos palcos e finalmente a rejeição de Onassis, que casa em 1968 com Jackeline Kennedy, uma das mulheres mais bonitas da época, viúva do presidente John Kennedy.
São várias as tentativas de regressar às luzes e aos aplausos, mas Callas apenas voltará aos palcos para um canto de cisne, doloroso e prolongado. Um amigo de longa data, tenor, Di Stefano, convence-a a participar com ele, numa série de recitais. A causa é nobre: o dinheiro destina-se ao tratamento da filha do tenor. “...um êxito pessoal, mas um insucesso artístico...” dizem os críticos, em jeito de balanço, depois de terminada a tournée, em 74.
Onassis morre em 75 e dois anos mais tarde, em Paris, no seu apartamento, a 16 de Setembro, Callas morre também, no meio da mais completa solidão e tristeza.
Caiu o pano, sem palmas. Calou-se a voz da protagonista grega de uma tragédia: a sua própria vida.
30 de novembro de 2005
da Pública para mim
SAL E ESQUECIMENTO
José Eduardo Agualusa
Carlos Escuder vendeu facilmente as fotografias que fez na Ilha. Eram todas elas muito boas. Publicou-as numa conhecida revista madrilena. Só as vi, porém, no mesmo dia em que, por uma dessas incríveis coincidências que fazem com que, tantas vezes, a vida pareça menos verosímil do que a literatura, li a notícia da morte de Mauro. Na revista madrilena havia uma foto dele, extraordinária, contemplando absorto a Fortaleza de São Sebastião.
Cheguei à ilha na companhia de Escuder, jovem fotógrafo catalão, que se propunha construir, para uma tese de mestrado, um portfolio sobre o esquecimento. Carles lera no Le Monde uma reportagem com o título, não muito original, convenhamos, "A Ilha Esquecida", e fora isso que o trouxera até ali. A mim trouxera-me a poesia de Rui Knopfli:
"A fortaleza mergulha no mar / os cansados flancos / e sonha com impossíveis / naves moiras. / Tudo o mais são ruas prisioneiras / e casas velhas a mirar o tédio. / As gentes calam na / voz / uma vontade antiga de lágrimas / e um riquexó de sono / desce a Travessa da Amizade. / Em pleno dia claro / vejo-te adormecer na distância, / Ilha de Moçambique, / e faço-te estes versos / de sal e esquecimento".
Estava sentado a uma das mesas do restaurante África Blues, na área internacional do aeroporto de Joanesburgo, e tinha nas mãos "A Ilha de Próspero", com fotografias do próprio Knopfli, quando Carles me abordou:
"Vai para a Ilha?"
Fizemos juntos a viagem de avião para Maputo, e de Maputo para Nampula. Em Nampula alugámos um taxi. O motorista era um velho seco, frágil, de cabelo inteiramente branco e o rosto sulcado por fundas rugas, mas um sorriso intacto, luminoso, que parecia ter sido estreado naquele mesmo dia. Chamava-se Ben, diminutivo de Benigno, Benigno Meigos, o que me pareceu um bom presságio, sabendo-se que a palavra meigo provém do grego magikós, pertencente à magia, aquele que encanta.
A Ilha, que foi capital de Moçambique até 1898, está ligada ao continente por uma estreita e compridíssima ponte, ferrugenta, como uma corrente a prender um barco ao cais. O abandono não me surpreendeu. Era o que eu esperava: velhos casarões atordoados sob um sol feroz. Um lento cerco de praias, um mar cor de esmeralda, as enormes árvores fatigadas, cobertas de poeira. Havia também jovens à sombra jogando ntchuva, ou simplesmente imóveis, silenciosos, de braços cruzados. Mais tarde, nas varandas, vi mulheres, em capulanas coloridas, alongadas sobre esteiras (algumas delas com o telemóvel pousado junto à cabeça). Naturalmente, já não encontrámos riquexós.
Benigno parou o carro junto a um largo portão - uma pousada -, recebeu o que lhe era devido e prometeu regressar à tarde, para nos levar a conhecer a Ilha, e uma praia, no continente, que era a única, assegurava, onde nos convinha tomar banho. O proprietário da pousada, Mauro, um italiano ruivo, de meia idade, trazia vestida uma t-shirt cor de laranja na qual se podia ler - "Deus acredita em mim". Não fiquei muito convencido. A cabeleira ruiva, desordenada, dava-lhe um ar meio atónito, implausível. O próprio Deus, vendo-o assim, talvez o colocasse em dúvida.
"Esta ilha é um sumidouro", disse, num português triunfante, depois que nos sentámos diante dele, à sombra lilás de um caramanchão coberto por buganvílias. Mandou que nos servissem um sumo de caju, muito fresco, e continuou:
"Vejam bem, os estrangeiros vêm para esta Ilha para esquecerem algo, ou alguém, ou para serem esquecidos. O poeta Tomás António Gonzaga, por exemplo, e os seus companheiros da inconfidência mineira. As pessoas chegam a este lugar e são esquecidas e depois elas próprias se esquecem de quem foram. Gonzaga esqueceu-se da bela Marília. Talvez até se tenha esquecido do Brasil. Deixou descendentes aqui, sabiam?"
"E o senhor?", perguntei-lhe: "veio para esquecer ou para ser esquecido?"
O italiano sacudiu a áspera cabeleira ruiva:
"Ambas as coisas."
Carles quis saber se lhe poderia fazer um retrato, ali mesmo, sentado à mesa, sob aquela luz de fantasia. Mauro assustou-se:
"Não, não! Fotografias não!..."
A veemêcia com que se recusou a ser fotografado irritou Carles.
"Não é italiano", assegurou-me nessa noite, enquanto passeávamos pela Ilha: "é basco. Disfarça o sotaque, talvez tenha passado alguns anos em Itália antes de vir para aqui, mas de vez em quando distrai-se e então volta a ser basco. E também não é ruivo, não percebeste?, pinta o cabelo."
No dia seguinte, ao almoço, Mauro bebeu um pouco para além da conta. Bebemos todos. Abraçou-se a mim:
"Numa outra vida fiz muitos disparates, muita confusão."
Repetiu a palavra confusão. No geral é uma palavra que agrada aos estrangeiros que vivem, ou visitam, Angola ou Moçambique. Kapuscinski, na sua delirante reportagem sobre a independência de Angola, "Mais um dia de vida", dedica-lhe vários parágrafos.
"É isso", insistiu Mauro: "fiz maning confusão. Mais tarde arrependi-me. Arrepender-me foi a parte pior. Agora só quero esquecer, ser esquecido. Espero consegui-lo..."
Quando li a notícia da sua morte soube que não o conseguira. Um homem branco montado numa moto, dizia o jornal. Passou diante da varanda onde Mauro descansava, estendido numa rede, e disparou um único tiro. Depois desapareceu.
José Eduardo Agualusa
Carlos Escuder vendeu facilmente as fotografias que fez na Ilha. Eram todas elas muito boas. Publicou-as numa conhecida revista madrilena. Só as vi, porém, no mesmo dia em que, por uma dessas incríveis coincidências que fazem com que, tantas vezes, a vida pareça menos verosímil do que a literatura, li a notícia da morte de Mauro. Na revista madrilena havia uma foto dele, extraordinária, contemplando absorto a Fortaleza de São Sebastião.
Cheguei à ilha na companhia de Escuder, jovem fotógrafo catalão, que se propunha construir, para uma tese de mestrado, um portfolio sobre o esquecimento. Carles lera no Le Monde uma reportagem com o título, não muito original, convenhamos, "A Ilha Esquecida", e fora isso que o trouxera até ali. A mim trouxera-me a poesia de Rui Knopfli:
"A fortaleza mergulha no mar / os cansados flancos / e sonha com impossíveis / naves moiras. / Tudo o mais são ruas prisioneiras / e casas velhas a mirar o tédio. / As gentes calam na / voz / uma vontade antiga de lágrimas / e um riquexó de sono / desce a Travessa da Amizade. / Em pleno dia claro / vejo-te adormecer na distância, / Ilha de Moçambique, / e faço-te estes versos / de sal e esquecimento".
Estava sentado a uma das mesas do restaurante África Blues, na área internacional do aeroporto de Joanesburgo, e tinha nas mãos "A Ilha de Próspero", com fotografias do próprio Knopfli, quando Carles me abordou:
"Vai para a Ilha?"
Fizemos juntos a viagem de avião para Maputo, e de Maputo para Nampula. Em Nampula alugámos um taxi. O motorista era um velho seco, frágil, de cabelo inteiramente branco e o rosto sulcado por fundas rugas, mas um sorriso intacto, luminoso, que parecia ter sido estreado naquele mesmo dia. Chamava-se Ben, diminutivo de Benigno, Benigno Meigos, o que me pareceu um bom presságio, sabendo-se que a palavra meigo provém do grego magikós, pertencente à magia, aquele que encanta.
A Ilha, que foi capital de Moçambique até 1898, está ligada ao continente por uma estreita e compridíssima ponte, ferrugenta, como uma corrente a prender um barco ao cais. O abandono não me surpreendeu. Era o que eu esperava: velhos casarões atordoados sob um sol feroz. Um lento cerco de praias, um mar cor de esmeralda, as enormes árvores fatigadas, cobertas de poeira. Havia também jovens à sombra jogando ntchuva, ou simplesmente imóveis, silenciosos, de braços cruzados. Mais tarde, nas varandas, vi mulheres, em capulanas coloridas, alongadas sobre esteiras (algumas delas com o telemóvel pousado junto à cabeça). Naturalmente, já não encontrámos riquexós.
Benigno parou o carro junto a um largo portão - uma pousada -, recebeu o que lhe era devido e prometeu regressar à tarde, para nos levar a conhecer a Ilha, e uma praia, no continente, que era a única, assegurava, onde nos convinha tomar banho. O proprietário da pousada, Mauro, um italiano ruivo, de meia idade, trazia vestida uma t-shirt cor de laranja na qual se podia ler - "Deus acredita em mim". Não fiquei muito convencido. A cabeleira ruiva, desordenada, dava-lhe um ar meio atónito, implausível. O próprio Deus, vendo-o assim, talvez o colocasse em dúvida.
"Esta ilha é um sumidouro", disse, num português triunfante, depois que nos sentámos diante dele, à sombra lilás de um caramanchão coberto por buganvílias. Mandou que nos servissem um sumo de caju, muito fresco, e continuou:
"Vejam bem, os estrangeiros vêm para esta Ilha para esquecerem algo, ou alguém, ou para serem esquecidos. O poeta Tomás António Gonzaga, por exemplo, e os seus companheiros da inconfidência mineira. As pessoas chegam a este lugar e são esquecidas e depois elas próprias se esquecem de quem foram. Gonzaga esqueceu-se da bela Marília. Talvez até se tenha esquecido do Brasil. Deixou descendentes aqui, sabiam?"
"E o senhor?", perguntei-lhe: "veio para esquecer ou para ser esquecido?"
O italiano sacudiu a áspera cabeleira ruiva:
"Ambas as coisas."
Carles quis saber se lhe poderia fazer um retrato, ali mesmo, sentado à mesa, sob aquela luz de fantasia. Mauro assustou-se:
"Não, não! Fotografias não!..."
A veemêcia com que se recusou a ser fotografado irritou Carles.
"Não é italiano", assegurou-me nessa noite, enquanto passeávamos pela Ilha: "é basco. Disfarça o sotaque, talvez tenha passado alguns anos em Itália antes de vir para aqui, mas de vez em quando distrai-se e então volta a ser basco. E também não é ruivo, não percebeste?, pinta o cabelo."
No dia seguinte, ao almoço, Mauro bebeu um pouco para além da conta. Bebemos todos. Abraçou-se a mim:
"Numa outra vida fiz muitos disparates, muita confusão."
Repetiu a palavra confusão. No geral é uma palavra que agrada aos estrangeiros que vivem, ou visitam, Angola ou Moçambique. Kapuscinski, na sua delirante reportagem sobre a independência de Angola, "Mais um dia de vida", dedica-lhe vários parágrafos.
"É isso", insistiu Mauro: "fiz maning confusão. Mais tarde arrependi-me. Arrepender-me foi a parte pior. Agora só quero esquecer, ser esquecido. Espero consegui-lo..."
Quando li a notícia da sua morte soube que não o conseguira. Um homem branco montado numa moto, dizia o jornal. Passou diante da varanda onde Mauro descansava, estendido numa rede, e disparou um único tiro. Depois desapareceu.
25 de novembro de 2005
EPC Aulas de substituição e mais
Eduardo Prado Coelho
o fio do horizonte
Fui ver o Prós e Contras com a maior curiosidade. Queria perceber que terá levado professores à greve, que me dizem que foi muito participada (não estava cá para ver de mais perto). Mas nas actuais circunstâncias difíceis do país, um sector tão importante como é a educação só poderia, pensava eu, fazer greve com ponderosas razões. Devo dizer desde já que fiquei convencido que todos estavam de acordo no essencial e que aquilo que os dividia eram questões formais, de lana-caprina, que não justificavam a irresponsabilidade demonstrada. Cheguei à conclusão de que o que teria movido os sindicatos seria uma vez mais uma lamentável ausência de solidariedade para com um governo que tomou medidas corajosas que até agora mais ninguém havia tomado (e isso deve-se à coragem e determinação de José Sócrates), e que deu uma linha orçamental para o país, e aquela tendência dos sindicatos para se tornarem forças de conservação e mesmo reaccionarismo face às mudanças do mundo que manifestamente não entendem (e que conduz a uma dessindicalização vertiginosa em toda a Europa). É triste, quando se trata de profissionais que têm por função compreender o mundo.
Diga-se desde já que a ministra foi excelente. Sem nenhuma arrogância, revelando o espírito de diálogo e abertura que muitos lhe contestam, Maria de Lurdes Rodrigues mostrou entusiasmo na sua missão e foi mesmo ao ponto de reconhecer que esse entusiasmo poderia ter efeitos negativos no modo como por vezes queria resolver as coisas. Parabéns também para David Justino, que, com um sentido de justiça que se sobrepôs a razões políticas (essas que levaram à desgraça parlamentar de Marques Mendes), soube dizer como estava de acordo com quase todas as medidas da actual ministra.
Para além dos aspectos que dizem respeito à função pública em geral (e que todos aceitam para os outros, mas ninguém quer aceitar para si), julgava que a grande questão era a das aulas de substituição. Ouvi sobre isso dizerem-se coisas extraordinárias: que os professores não tinham que ficar a tomar conta de meninos, e que um professor de Geografia não poderia substituir uma aula de Educação Física. Estávamos na demagogia mais despudorada. Substituir uma aula em que um professor falta não é necessariamente dar a matéria que ele estava a dar. Mas qualquer professor que não seja um debilóide sabe estabelecer uma relação com turmas de alunos que não conhece e conversar descontraidamente sobre aspectos genéricos das disciplinas e as suas correlações (nada é estanque), sobre os modos de tirar notas na aula, sobre a procura de um livro ou de um artigo na biblioteca, sobre o uso produtivo da Internet e outras questões metodológicas. O único problema que vejo na permanência dos professores nas escolas está na necessidade de encontrar espaços onde eles possam trabalhar sossegadamente, ler os livros que lhes interessam ou preparar aulas. Esta é a questão que me parece que cada escola, na sua autonomia, tem de resolver.
Quanto à greve, foi certamente um equívoco de que alguns se aproveitaram politicamente. Professor universitário
Depressões
Eduardo Prado Coelho o fio do horizonte
Há qualquer coisa que não pode deixar de me impressionar: à minha volta vejo cada vez mais pessoas em estado de acentuada depressão. Talvez eu antes fosse mais desatento e elas já existissem também. Mas a verdade é que a atmosfera é agora um pouco desesperante: como se a sociedade adoecesse à nossa vista.
Muitas têm um psicanalista e arrastam análises intermináveis. Mas a maior parte recorre a psicoterapeutas. As razões são as mais diversas: há o Dom Juan compulsivo, que não consegue fixar-se afectivamente e se sente numa espécie de exílio permanente; há aquele que chega a uma certa idade, a idade dos balanços, e acha que falhou tudo na vida; há o outro que considera que ninguém o reconhece na sua qualidade profissional ou na sua vontade de amar louca e perdidamente; há aquele que de repente se sente terrivelmente só porque os pais morreram, e a casa dos pais, onde se refugiava, deixou de existir; há aquele que sente o terrível aproximar da morte e ele não queria morrer; há o hipocondríaco que acumula doenças sobre doenças, lê livros de medicina e tem um medo terrível da dor; há inúmeros professores que perderam o gosto de ensinar e já não suportam a violência das escolas; há os militantes políticos que deixaram de acreditar em qualquer militância e ficaram à deriva; há aqueles que acham que a vida política se tornou num espaço de interesses concorrenciais e perdeu qualquer sentido de utopia e ideal; há os que odeiam o país, a nossa mediocridade, a nossa desordem, a nossa oscilação temperamental, o nosso estilo de patos-bravos endinheirados e gostariam de ir viver para outros lugares, ou em Nova Iorque, ou no Maputo.
Muitos deles têm um traço em comum: pertencem à classe média, mas de súbito perderam o estatuto económico que usufruíam e sentem-se em plena fossa, incapazes de fazer face ao modo de vida a que estavam habituados. Por tudo isto culpam o país, que faz diagnósticos sobre diagnósticos, mas tem dificuldade em encetar uma verdadeira recuperação, culpam o Governo, culpam José Sócrates e vão começar a culpar Cavaco Silva, que nem sempre parece ter uma visão optimista do nosso futuro próximo. Embora quisessem que o país mudasse, gostariam que mudasse para voltar a ser o que era antes (e nós tendemos a idealizar o passado) e não para vir a ser o que virá a ser depois. Nesse plano, os sindicatos são exemplares. Embora haja quem reconheça que precisam de se adaptar aos novos desafios, qualquer mudança surge sempre como uma violência e um atentado aos direitos dos trabalhadores.
Temos agora algo que poderia melhorar a auto-estima dos portugueses: o Campeonato do Mundo de futebol. Falamos como se a vitória final nos estivesse reservada, coisa que não é evidente, longe disso, aos olhos dos observadores estrangeiros. E sobrecarregamos de tanta responsabilidade a nossa selecção que esta só pode sentir ansiedade pelo peso que nela recai.
Mas, se vencermos, será o Verão do nosso contentamento. Nesse caso, talvez Sócrates (que tem a enorme vantagem de não fazer política com estados de alma) pudesse fazer uma remodelaçãozita... Professor universitário
A arte de perder
Eduardo Prado Coelho o fio do horizonte
Tantas coisas que perdemos ao longo de uma vida!
Perdemos as casas onde vivemos, que habitámos por dentro, naquilo que uma casa tem de mais dentro de si mesma. Perdi a casa de infância dos meus pais na adolescência - no mesmo ritmo que os perdi. Perdi a casa da Avenida do Uruguai, a casa da Rua de Entrecampos, a casa do Lumiar, que os meus pais me ofereceram, a casa do Marais, em Paris, onde vivi dez anos, a casa da Parede. Cada casa corresponde a um ritmo de vida, uma forma de cadência do quotidiano. Mas perdi-as e encontrei outros lugares.
Perdi lugares. Cafés - tantos - onde estudava: perdi a Granfina e o Nova Iorque, perdi o Vavá de que tanto gostava, povoado de amigos e cúmplices, perdi o Monte Carlo e raramente volto ao Toni dos Bifes, onde o Carlos de Oliveira ou o Abelaira se encontravam. Perdi um pouco o hábito regular de ir à Versalhes.
Perdi a Faculdade de Letras e o seu bar fumarento e ruidoso, invadido por vagas de alunos de Direito. Perdi o Estádio Universitário, o dos plenários do movimento de estudantes, onde falavam o Jorge Sampaio ou o Eurico de Figueiredo. Perdi o bar do Estádio Universitário, para onde ia estudar, mal chegava a Primavera. Perdi a casa de gelados Monte Branco, ali ao Saldanha, para onde ia ler e escrever nas noites de Verão. Perdi a praia de São Martinho do Porto, a praia dos primeiros namoros. Não a reconheço, porque fui reencontrá-la massacrada por uma urbanização selvagem e incomodativa. Encontrei a foz do Arelho.
Perdi Paris, o Centro Pompidou, os cinemas do boulevard Saint-Germain, os cafés La Hune e Les Deux Magots, as livrarias Le Divan, que já não existe, e La Hune. Perdi o Teatro de la Ville, onde vi espectáculos magníficos, descobri muito da dança contemporânea, e encontrei pela primeira vez a Pina Bausch. Perdi o Châtelet (o Castelinho, como gostava de dizer o Pierre), onde tive a revelação de William Forsythe e de Bob Wilson. Perdi La Gamin de Paris, no Marais, assim como a livraria (asfixiada economicamente com a guerra do Golfo) ou a pequena loja de discos de música clássica. Perdi o quiosque de Saint-Paul, onde ia todas as manhãs com o meu cão Spinoza, e este aguardava sempre com impaciência que a dona do quiosque lhe desse o brioche que estava tacitamente prometido.
Perdi amigos, muitos. O Zé Ribeiro da Fonte, a Margarida Vieira Mendes, o Al Berto aparecem por vezes nos meus sonos. Perdi mulheres, muitas, algumas no Brasil, outras em Portugal. Perdi livros, que ficaram noutras casas, que desapareceram sem que eu saiba porquê, que emprestei e não recuperei. Perdi também alguma memória de tudo o que perdi.
Mas há um poema de Elizabeth Bishop que se chama precisamente "Uma arte" e é sobre essa difícil arte de perder. Diz assim: "A arte de perder não é nenhum mistério; / tantas coisas contém em si o acidente / de perdê-las, que perder não é nada sério. (...) Perdi duas cidades lindas. E um império / que era meu, dois rios e mais um continente. / Tenho saudades deles. Mas não é nada sério. // Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo / que eu amo) não muda nada. Pois é evidente / que a arte de perder não chega a ser mistério / por muito que pareça (Escreve!) muito sério." Professor universitário
o fio do horizonte
Fui ver o Prós e Contras com a maior curiosidade. Queria perceber que terá levado professores à greve, que me dizem que foi muito participada (não estava cá para ver de mais perto). Mas nas actuais circunstâncias difíceis do país, um sector tão importante como é a educação só poderia, pensava eu, fazer greve com ponderosas razões. Devo dizer desde já que fiquei convencido que todos estavam de acordo no essencial e que aquilo que os dividia eram questões formais, de lana-caprina, que não justificavam a irresponsabilidade demonstrada. Cheguei à conclusão de que o que teria movido os sindicatos seria uma vez mais uma lamentável ausência de solidariedade para com um governo que tomou medidas corajosas que até agora mais ninguém havia tomado (e isso deve-se à coragem e determinação de José Sócrates), e que deu uma linha orçamental para o país, e aquela tendência dos sindicatos para se tornarem forças de conservação e mesmo reaccionarismo face às mudanças do mundo que manifestamente não entendem (e que conduz a uma dessindicalização vertiginosa em toda a Europa). É triste, quando se trata de profissionais que têm por função compreender o mundo.
Diga-se desde já que a ministra foi excelente. Sem nenhuma arrogância, revelando o espírito de diálogo e abertura que muitos lhe contestam, Maria de Lurdes Rodrigues mostrou entusiasmo na sua missão e foi mesmo ao ponto de reconhecer que esse entusiasmo poderia ter efeitos negativos no modo como por vezes queria resolver as coisas. Parabéns também para David Justino, que, com um sentido de justiça que se sobrepôs a razões políticas (essas que levaram à desgraça parlamentar de Marques Mendes), soube dizer como estava de acordo com quase todas as medidas da actual ministra.
Para além dos aspectos que dizem respeito à função pública em geral (e que todos aceitam para os outros, mas ninguém quer aceitar para si), julgava que a grande questão era a das aulas de substituição. Ouvi sobre isso dizerem-se coisas extraordinárias: que os professores não tinham que ficar a tomar conta de meninos, e que um professor de Geografia não poderia substituir uma aula de Educação Física. Estávamos na demagogia mais despudorada. Substituir uma aula em que um professor falta não é necessariamente dar a matéria que ele estava a dar. Mas qualquer professor que não seja um debilóide sabe estabelecer uma relação com turmas de alunos que não conhece e conversar descontraidamente sobre aspectos genéricos das disciplinas e as suas correlações (nada é estanque), sobre os modos de tirar notas na aula, sobre a procura de um livro ou de um artigo na biblioteca, sobre o uso produtivo da Internet e outras questões metodológicas. O único problema que vejo na permanência dos professores nas escolas está na necessidade de encontrar espaços onde eles possam trabalhar sossegadamente, ler os livros que lhes interessam ou preparar aulas. Esta é a questão que me parece que cada escola, na sua autonomia, tem de resolver.
Quanto à greve, foi certamente um equívoco de que alguns se aproveitaram politicamente. Professor universitário
Depressões
Eduardo Prado Coelho o fio do horizonte
Há qualquer coisa que não pode deixar de me impressionar: à minha volta vejo cada vez mais pessoas em estado de acentuada depressão. Talvez eu antes fosse mais desatento e elas já existissem também. Mas a verdade é que a atmosfera é agora um pouco desesperante: como se a sociedade adoecesse à nossa vista.
Muitas têm um psicanalista e arrastam análises intermináveis. Mas a maior parte recorre a psicoterapeutas. As razões são as mais diversas: há o Dom Juan compulsivo, que não consegue fixar-se afectivamente e se sente numa espécie de exílio permanente; há aquele que chega a uma certa idade, a idade dos balanços, e acha que falhou tudo na vida; há o outro que considera que ninguém o reconhece na sua qualidade profissional ou na sua vontade de amar louca e perdidamente; há aquele que de repente se sente terrivelmente só porque os pais morreram, e a casa dos pais, onde se refugiava, deixou de existir; há aquele que sente o terrível aproximar da morte e ele não queria morrer; há o hipocondríaco que acumula doenças sobre doenças, lê livros de medicina e tem um medo terrível da dor; há inúmeros professores que perderam o gosto de ensinar e já não suportam a violência das escolas; há os militantes políticos que deixaram de acreditar em qualquer militância e ficaram à deriva; há aqueles que acham que a vida política se tornou num espaço de interesses concorrenciais e perdeu qualquer sentido de utopia e ideal; há os que odeiam o país, a nossa mediocridade, a nossa desordem, a nossa oscilação temperamental, o nosso estilo de patos-bravos endinheirados e gostariam de ir viver para outros lugares, ou em Nova Iorque, ou no Maputo.
Muitos deles têm um traço em comum: pertencem à classe média, mas de súbito perderam o estatuto económico que usufruíam e sentem-se em plena fossa, incapazes de fazer face ao modo de vida a que estavam habituados. Por tudo isto culpam o país, que faz diagnósticos sobre diagnósticos, mas tem dificuldade em encetar uma verdadeira recuperação, culpam o Governo, culpam José Sócrates e vão começar a culpar Cavaco Silva, que nem sempre parece ter uma visão optimista do nosso futuro próximo. Embora quisessem que o país mudasse, gostariam que mudasse para voltar a ser o que era antes (e nós tendemos a idealizar o passado) e não para vir a ser o que virá a ser depois. Nesse plano, os sindicatos são exemplares. Embora haja quem reconheça que precisam de se adaptar aos novos desafios, qualquer mudança surge sempre como uma violência e um atentado aos direitos dos trabalhadores.
Temos agora algo que poderia melhorar a auto-estima dos portugueses: o Campeonato do Mundo de futebol. Falamos como se a vitória final nos estivesse reservada, coisa que não é evidente, longe disso, aos olhos dos observadores estrangeiros. E sobrecarregamos de tanta responsabilidade a nossa selecção que esta só pode sentir ansiedade pelo peso que nela recai.
Mas, se vencermos, será o Verão do nosso contentamento. Nesse caso, talvez Sócrates (que tem a enorme vantagem de não fazer política com estados de alma) pudesse fazer uma remodelaçãozita... Professor universitário
A arte de perder
Eduardo Prado Coelho o fio do horizonte
Tantas coisas que perdemos ao longo de uma vida!
Perdemos as casas onde vivemos, que habitámos por dentro, naquilo que uma casa tem de mais dentro de si mesma. Perdi a casa de infância dos meus pais na adolescência - no mesmo ritmo que os perdi. Perdi a casa da Avenida do Uruguai, a casa da Rua de Entrecampos, a casa do Lumiar, que os meus pais me ofereceram, a casa do Marais, em Paris, onde vivi dez anos, a casa da Parede. Cada casa corresponde a um ritmo de vida, uma forma de cadência do quotidiano. Mas perdi-as e encontrei outros lugares.
Perdi lugares. Cafés - tantos - onde estudava: perdi a Granfina e o Nova Iorque, perdi o Vavá de que tanto gostava, povoado de amigos e cúmplices, perdi o Monte Carlo e raramente volto ao Toni dos Bifes, onde o Carlos de Oliveira ou o Abelaira se encontravam. Perdi um pouco o hábito regular de ir à Versalhes.
Perdi a Faculdade de Letras e o seu bar fumarento e ruidoso, invadido por vagas de alunos de Direito. Perdi o Estádio Universitário, o dos plenários do movimento de estudantes, onde falavam o Jorge Sampaio ou o Eurico de Figueiredo. Perdi o bar do Estádio Universitário, para onde ia estudar, mal chegava a Primavera. Perdi a casa de gelados Monte Branco, ali ao Saldanha, para onde ia ler e escrever nas noites de Verão. Perdi a praia de São Martinho do Porto, a praia dos primeiros namoros. Não a reconheço, porque fui reencontrá-la massacrada por uma urbanização selvagem e incomodativa. Encontrei a foz do Arelho.
Perdi Paris, o Centro Pompidou, os cinemas do boulevard Saint-Germain, os cafés La Hune e Les Deux Magots, as livrarias Le Divan, que já não existe, e La Hune. Perdi o Teatro de la Ville, onde vi espectáculos magníficos, descobri muito da dança contemporânea, e encontrei pela primeira vez a Pina Bausch. Perdi o Châtelet (o Castelinho, como gostava de dizer o Pierre), onde tive a revelação de William Forsythe e de Bob Wilson. Perdi La Gamin de Paris, no Marais, assim como a livraria (asfixiada economicamente com a guerra do Golfo) ou a pequena loja de discos de música clássica. Perdi o quiosque de Saint-Paul, onde ia todas as manhãs com o meu cão Spinoza, e este aguardava sempre com impaciência que a dona do quiosque lhe desse o brioche que estava tacitamente prometido.
Perdi amigos, muitos. O Zé Ribeiro da Fonte, a Margarida Vieira Mendes, o Al Berto aparecem por vezes nos meus sonos. Perdi mulheres, muitas, algumas no Brasil, outras em Portugal. Perdi livros, que ficaram noutras casas, que desapareceram sem que eu saiba porquê, que emprestei e não recuperei. Perdi também alguma memória de tudo o que perdi.
Mas há um poema de Elizabeth Bishop que se chama precisamente "Uma arte" e é sobre essa difícil arte de perder. Diz assim: "A arte de perder não é nenhum mistério; / tantas coisas contém em si o acidente / de perdê-las, que perder não é nada sério. (...) Perdi duas cidades lindas. E um império / que era meu, dois rios e mais um continente. / Tenho saudades deles. Mas não é nada sério. // Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo / que eu amo) não muda nada. Pois é evidente / que a arte de perder não chega a ser mistério / por muito que pareça (Escreve!) muito sério." Professor universitário
Aulas de substituição (2)
Eduardo Prado Coelho
Embora já imaginasse uma certa reacção, nunca pensei que a classe dos professores se manifestasse com tanta violência em relação ao meu texto anterior sob o mesmo título. Há aqui aspectos irracionais que têm certamente a ver com uma experiência da escola profundamente traumática. Uma das mensagens que recebi no telemóvel dizia: "Sou debilóide, fiz greve." Como se trata de uma das minhas melhores amigas, e como sempre a considerei extremamente inteligente, fui ver o que tinha escrito: 1) eu nunca disse, nem diria, que os professores que fizeram greve são "debilóides"; 2) o que eu escrevi é que aqueles que por serem de Matemática dizem que não podem dar actividades de substituição quando falta o professor de História se manifestam como "debilóides". Não se pode generalizar a palavra a todas as situações - e convém que um professor leia os textos com a devida atenção e não se precipite quando vê um vocábulo que julga mais insultuoso, achando que necessariamente tem a ver com ele. Quanto ao mais, não retiro uma só vírgula de tudo o que escrevi.
Ouvi a ministra dizer até o que me parece ser importante: que não se trata de dar aulas, mas de conduzir actividades de substituição. Isso implica a possibilidade de utilizar material que não sei se as escolas possuem: seria útil que tivessem filmes, CD, DVD, discos de poesia dita, jornais e revistas de todos os géneros e que se habituassem a pensar com exercícios lúdicos propostos pelo professor - isto é, existe uma metodologia das actividades de substituição.
O que me respondem é que em muitas escolas os professores vivem um clima de terror. Alguém me contava que havia professores que vomitavam de reacção nervosa antes de entrarem na aula. Sem falar nos casos absolutamente inadmissíveis de agressão dos professores, muitas vezes com a cobertura vitimizadora dos próprios pais. Um correspondente do PÚBLICO escrevia há dias, numa carta do maior interesse, que se assistia (não apenas em Portugal, sublinhe-se) a uma transferência das responsabilidades tradicionais da família e do papel psicanalítico do pai para o espaço da escola e para uma sociedade sem pais. Que resulta daqui? Uma saturação explosiva do espaço da escola sobre a qual recai um excesso de expectativas. Mas conheço muitos professores excelentes que sabem lidar com os alunos e estabelecer com eles nexos de cumplicidade. É possível, portanto. E também devo reconhecer que alguns professores vivem das matérias que aprenderam na faculdade e não têm aquele mínimo de cultura geral que se exige a quem ensina.
Concluo, portanto, que é necessário restabelecer níveis justos de disciplina na escola. E (para agravar ainda mais o meu caso) gostaria de dizer o que já repeti por várias vezes: que muitos dos males da escola vêm da propagação de ideias no ministério desses profissionais de uma ciência inexistente a que dão o nome de "pedagogia". Cuidado, senhora ministra! Professor universitário
Embora já imaginasse uma certa reacção, nunca pensei que a classe dos professores se manifestasse com tanta violência em relação ao meu texto anterior sob o mesmo título. Há aqui aspectos irracionais que têm certamente a ver com uma experiência da escola profundamente traumática. Uma das mensagens que recebi no telemóvel dizia: "Sou debilóide, fiz greve." Como se trata de uma das minhas melhores amigas, e como sempre a considerei extremamente inteligente, fui ver o que tinha escrito: 1) eu nunca disse, nem diria, que os professores que fizeram greve são "debilóides"; 2) o que eu escrevi é que aqueles que por serem de Matemática dizem que não podem dar actividades de substituição quando falta o professor de História se manifestam como "debilóides". Não se pode generalizar a palavra a todas as situações - e convém que um professor leia os textos com a devida atenção e não se precipite quando vê um vocábulo que julga mais insultuoso, achando que necessariamente tem a ver com ele. Quanto ao mais, não retiro uma só vírgula de tudo o que escrevi.
Ouvi a ministra dizer até o que me parece ser importante: que não se trata de dar aulas, mas de conduzir actividades de substituição. Isso implica a possibilidade de utilizar material que não sei se as escolas possuem: seria útil que tivessem filmes, CD, DVD, discos de poesia dita, jornais e revistas de todos os géneros e que se habituassem a pensar com exercícios lúdicos propostos pelo professor - isto é, existe uma metodologia das actividades de substituição.
O que me respondem é que em muitas escolas os professores vivem um clima de terror. Alguém me contava que havia professores que vomitavam de reacção nervosa antes de entrarem na aula. Sem falar nos casos absolutamente inadmissíveis de agressão dos professores, muitas vezes com a cobertura vitimizadora dos próprios pais. Um correspondente do PÚBLICO escrevia há dias, numa carta do maior interesse, que se assistia (não apenas em Portugal, sublinhe-se) a uma transferência das responsabilidades tradicionais da família e do papel psicanalítico do pai para o espaço da escola e para uma sociedade sem pais. Que resulta daqui? Uma saturação explosiva do espaço da escola sobre a qual recai um excesso de expectativas. Mas conheço muitos professores excelentes que sabem lidar com os alunos e estabelecer com eles nexos de cumplicidade. É possível, portanto. E também devo reconhecer que alguns professores vivem das matérias que aprenderam na faculdade e não têm aquele mínimo de cultura geral que se exige a quem ensina.
Concluo, portanto, que é necessário restabelecer níveis justos de disciplina na escola. E (para agravar ainda mais o meu caso) gostaria de dizer o que já repeti por várias vezes: que muitos dos males da escola vêm da propagação de ideias no ministério desses profissionais de uma ciência inexistente a que dão o nome de "pedagogia". Cuidado, senhora ministra! Professor universitário
25 de outubro de 2005
Ler ou não ler...eis a questão
Os Franceses levaram a cabo sobre os hábitos e preferências de leitura.
Com a colaboração da Fnac e do jornal “Le Monde”, seis mil cidadãos franceses responderam a um inquérito, ou melhor escolheram entre duzentos livros seleccionados, aquele que julgariam dignos de figurar entre os cinquenta livros do século. Isto durante o Verão de 1999.
A pré-selecção de livros foi de livreiros e críticos e diga-se em abono da verdade, estavam representadas figuras da Literatura Francesa do século vinte, mas também não foram esquecidos os mais emblemáticos escritores estrangeiros, nomeadamente Fernando Pessoa.
Para mim tenho que Fernando pessoa não será entre nós o mais lido. A poesia pressupõe já um critério selectivo e o nosso poeta maior do século vinte não é certamente de fácil leitura. Será que Saramago, Lobo Antunes ou Torga faziam parte desta lista? O próprio Paulo Coelho, que em França tem um invejável mercado de leitores? Eu própria soube da sua existência, através dos Franceses que num escaparate de supermercado, davam grande relevo à sua última obra (nessa altura O Alquimista). E Jorge amado, tão grande entre os seus pares?
A partir dessa escolha, a partir desses resultados, Frédéric Beigbeber, romancista e crítico, leu e comentou as cinquenta obras, dando origem a um trabalho que se chamou “Dernier Inventaire Avant Liquidation”. Trata-se de cinquenta obras-primas e o sue propósito é deitar por terra o conceito generalizado de obra-prima: “um livro de que toda a gente fala mas ninguém lê”.Estas obras não são para venerar, mas sim para ler, contestar, triturar... A convicção com que o diz é simplesmente contagiosa. E, conforme afirma de modo bem explícito, o seu propósito é levar os seus leitores a lerme essas obras e outras, eventualmente melhores...Aqui podemos finalmente propor os nossos, se é que alguém o não fez já.
Em tom talvez tocado ao de leve por uma certa amargura, pergunta o que procuramos nós nos livros. Pergunta que ficará sem resposta. Nos livros encontramos tudo o que temos na vida, na mais comum existência. Ou não? Individualmente daremos as nossas respostas, na intimidade do nosso pensamento, porque de pensamento se trata, quando se trata de ler.
E, finalmente a lista. Para mim, que não sou francesa, a primeira surpresa, desilusão quase: Le Petit Prince não está no topo da lista. Nem em segundo, nem em terceiro lugar. Somente em quarto, depois de O Estrangeiro, de Camus, Em Busca Do Tempo Perdido, de Proust, e de O Processo, de Kafka. John Steinbeck e As Vinhas da Ira, bem como Ernest Hemimgway e Por Quem Os Sinos Dobram aparecem entre os dez primeiros.
E essa surpresa, essa desilusão leva-me a deixar aqui registada a opinião deste crítico sobre Le Petit Prince: “O único conto de fadas do século vinte”. E, como todos nós deixa-se embalar pela lembrança dessa leitura inesquecível, dessa personagem não menos inesquecível que desperta sempre a mesma ternura. Não resisto a citar: “Este conto podia intitular-se Em Busca Da Infância Perdida.” Considera-a uma obra de contestação contra a idade adulta e contra as pessoas muito racionais. ET e Alice poderão considerar-se os setes mais próximos do menino que um dia largou o planeta B612, para dizer qualquer coisa de muito importante aos homens. Não só uma mensagem de ternura, também de responsabilidade. Somos todos responsáveis por todos os que chamamos ou aceitamos ao pé de nós.
É inevitável referir o primeiro da lista. O Estrangeiro de Camus.
Ao elegerem esta obra , os franceses pronunciaram-se contra a xenofobia e isso é muito relevante na opinião do crítico. Este pequeno romance de cento e vinte e três páginas conta a história de Mersault, um homem estranho, indiferente a tudo. Condenado à morte por homicídio, nem isso parece perturbá-lo. Nem a morte da mãe, acontecimento que abre a narrativa, parece importante, a ponto de ser apontada com precisão no calendário: “ A mamã morreu hoje. Ou talvez ontem, não sei.” É provavelmente a vitória do anti-herói. Hoje que vivemos rodeados de heróis, talvez nos interesse mais conhecer um anti-herói. Tudo parece absurdo, menos o estilo de Camus: frases curtas.
Recorda ainda a própria figura de Camus, o mais novo Nobel da Literatura depois de Kypling, ele próprio a personificação do absurdo. Sósia de Humphrey Bogart até a sua morte foi absurda. Apesar de sofrer de tuberculose, mal da época, “Camus foi assassinado aos 47 anos por um plátano na berma da Nacional 6, entre Villeblevin e Villeneuve-la-Guymard, com a cumplicidade de Michel Galiimard e de um descapotável Facel Vega.” Os amantes dos automóveis talvez reconheçam o modelo, eu não. Mas haveria maneira mais elegante de descrever um acidente e as suas causas? Eu penso que não. E penso também que isso pode ser uma singela homenagem ao autor, que apesar da cor morena da pele e do modo absurdo como viveu e escreveu, venceu as preferências dos Franceses.
Pensemos qual seria o autor que nós, Portugueses, gostaríamos de ver ganhar este primeiro lugar. Cada um terá a sua resposta. Deixemo-la na intimidade do nosso pensamento... Eu também tenho a minha resposta....
Com a colaboração da Fnac e do jornal “Le Monde”, seis mil cidadãos franceses responderam a um inquérito, ou melhor escolheram entre duzentos livros seleccionados, aquele que julgariam dignos de figurar entre os cinquenta livros do século. Isto durante o Verão de 1999.
A pré-selecção de livros foi de livreiros e críticos e diga-se em abono da verdade, estavam representadas figuras da Literatura Francesa do século vinte, mas também não foram esquecidos os mais emblemáticos escritores estrangeiros, nomeadamente Fernando Pessoa.
Para mim tenho que Fernando pessoa não será entre nós o mais lido. A poesia pressupõe já um critério selectivo e o nosso poeta maior do século vinte não é certamente de fácil leitura. Será que Saramago, Lobo Antunes ou Torga faziam parte desta lista? O próprio Paulo Coelho, que em França tem um invejável mercado de leitores? Eu própria soube da sua existência, através dos Franceses que num escaparate de supermercado, davam grande relevo à sua última obra (nessa altura O Alquimista). E Jorge amado, tão grande entre os seus pares?
A partir dessa escolha, a partir desses resultados, Frédéric Beigbeber, romancista e crítico, leu e comentou as cinquenta obras, dando origem a um trabalho que se chamou “Dernier Inventaire Avant Liquidation”. Trata-se de cinquenta obras-primas e o sue propósito é deitar por terra o conceito generalizado de obra-prima: “um livro de que toda a gente fala mas ninguém lê”.Estas obras não são para venerar, mas sim para ler, contestar, triturar... A convicção com que o diz é simplesmente contagiosa. E, conforme afirma de modo bem explícito, o seu propósito é levar os seus leitores a lerme essas obras e outras, eventualmente melhores...Aqui podemos finalmente propor os nossos, se é que alguém o não fez já.
Em tom talvez tocado ao de leve por uma certa amargura, pergunta o que procuramos nós nos livros. Pergunta que ficará sem resposta. Nos livros encontramos tudo o que temos na vida, na mais comum existência. Ou não? Individualmente daremos as nossas respostas, na intimidade do nosso pensamento, porque de pensamento se trata, quando se trata de ler.
E, finalmente a lista. Para mim, que não sou francesa, a primeira surpresa, desilusão quase: Le Petit Prince não está no topo da lista. Nem em segundo, nem em terceiro lugar. Somente em quarto, depois de O Estrangeiro, de Camus, Em Busca Do Tempo Perdido, de Proust, e de O Processo, de Kafka. John Steinbeck e As Vinhas da Ira, bem como Ernest Hemimgway e Por Quem Os Sinos Dobram aparecem entre os dez primeiros.
E essa surpresa, essa desilusão leva-me a deixar aqui registada a opinião deste crítico sobre Le Petit Prince: “O único conto de fadas do século vinte”. E, como todos nós deixa-se embalar pela lembrança dessa leitura inesquecível, dessa personagem não menos inesquecível que desperta sempre a mesma ternura. Não resisto a citar: “Este conto podia intitular-se Em Busca Da Infância Perdida.” Considera-a uma obra de contestação contra a idade adulta e contra as pessoas muito racionais. ET e Alice poderão considerar-se os setes mais próximos do menino que um dia largou o planeta B612, para dizer qualquer coisa de muito importante aos homens. Não só uma mensagem de ternura, também de responsabilidade. Somos todos responsáveis por todos os que chamamos ou aceitamos ao pé de nós.
É inevitável referir o primeiro da lista. O Estrangeiro de Camus.
Ao elegerem esta obra , os franceses pronunciaram-se contra a xenofobia e isso é muito relevante na opinião do crítico. Este pequeno romance de cento e vinte e três páginas conta a história de Mersault, um homem estranho, indiferente a tudo. Condenado à morte por homicídio, nem isso parece perturbá-lo. Nem a morte da mãe, acontecimento que abre a narrativa, parece importante, a ponto de ser apontada com precisão no calendário: “ A mamã morreu hoje. Ou talvez ontem, não sei.” É provavelmente a vitória do anti-herói. Hoje que vivemos rodeados de heróis, talvez nos interesse mais conhecer um anti-herói. Tudo parece absurdo, menos o estilo de Camus: frases curtas.
Recorda ainda a própria figura de Camus, o mais novo Nobel da Literatura depois de Kypling, ele próprio a personificação do absurdo. Sósia de Humphrey Bogart até a sua morte foi absurda. Apesar de sofrer de tuberculose, mal da época, “Camus foi assassinado aos 47 anos por um plátano na berma da Nacional 6, entre Villeblevin e Villeneuve-la-Guymard, com a cumplicidade de Michel Galiimard e de um descapotável Facel Vega.” Os amantes dos automóveis talvez reconheçam o modelo, eu não. Mas haveria maneira mais elegante de descrever um acidente e as suas causas? Eu penso que não. E penso também que isso pode ser uma singela homenagem ao autor, que apesar da cor morena da pele e do modo absurdo como viveu e escreveu, venceu as preferências dos Franceses.
Pensemos qual seria o autor que nós, Portugueses, gostaríamos de ver ganhar este primeiro lugar. Cada um terá a sua resposta. Deixemo-la na intimidade do nosso pensamento... Eu também tenho a minha resposta....
26 de agosto de 2005
Hommage à Horst Tappe
A La Désirade, ce mercredi 24 août
Nous venions de passer à table, hier soir, avec des amis, lorsque Bernard Campiche m’a appris au téléphone la triste nouvelle de la mort de Horst Tappe, rongé par un vilain crabe dont il a été délivré dimanche dernier, dans le même hôpital du Samaritain où s’est éteint Vladimir Nabokov qu’il avait portraituré comme aucun autre, et du coup je suis allé chercher une quinzaine d’autres de ses portraits, de Lobo Antunes et de Patricia Highsmith, d’Ezra Pound et de Picasso, de Nancy Huston et de Judith Hermann, touts marqués par la même qualité de lumière et de présence, qui caractérisait le grand art de notre ami ; et plus tard, nos invités nous ayant quittés, j’ai repensé aux heures passées ensemble avec Horst depuis notre première rencontre, à Saint-Malo, puis à son domicile de Territtet, dans son logis de vieux garçon au visage embellissant quand il se sentait valorisé, où nous nous racontions nos lectures et nos pérégrinations en picolant comme il l’aimait pour s’adoucir la vie. De fait, affligé d’une difformité physique allant s’aggravant, le cher homme, quoique ne se plaignant jamais, devait souffrir de se sentir tenu à distance des femmes, même si deux d’entre elles (les jeunes historiennes de l’art Sarah Benoit et Charlotte Contesse) l’ont entouré, ces dernières années, de prévenances particulières en l’aidant à réaliser plusieurs expositions et ses deux livres consacrés à Nabokov et Kokoschka, jusqu’à la triste fin que lui a valu sa tumeur au visage.
Certains êtres marqués dans leur chair, comme l’était aussi Flannery O’Connor avec son affreux lupus, trouvent dans leur douleur une énergie productrice de beauté, et c’est ce qui me frappe le plus dans le portraits que nous laisse Horst Tappe, au-delà de tout esthétisme de studio : c’est cette beauté intérieure, liée à l’aura de la personne, qu’il parvenait à restituer. La douceur et la gravité qui se dégagent des portraits de Nancy Huston ou de Judith Hermann, la morgue impériale de vieille tortue d’un Somerset Maugham ou le charme ravageusement mélancolique d’un Antonio Lobo Antunes, entre tant d’autres visages réellement révélés, en disent beaucoup sans doute, aussi, sur la qualité d’un artiste et d’un homme auquel, plus que le prestige des noms et des titres, la relation simple et vraie importait pour l’essentiel. Tout cela que j'ai tâché de ramasser dans cet hommage à paraître demain...
Un portraitiste des êtres
Le photographe allemand Horst Tappe, dont les portraits de grands auteurs et artistes contemporains (de Nabokov, Pound, Picasso ou Kokoschka, à presque tous les Nobel de littérature) ont fait le tour du monde, est mort dimanche dernier à l’hôpital du Samaritain, à Vevey, à l’âge de 64 ans, des suites d’une cruelle maladie.
Né en 1941 en Westphalie, Horst Tappe avait acquis les bases de son métier dans un atelier traditionnel de sa ville natale, suivi les cours de Martha Hoepffner dans l’esprit du Bauhaus, et achevé sa formation à l’Ecole de photographie de Vevey, auprès d’Oswald Ruppen. Installé à Montreux depuis 1965, il était membre de l’American Society of Magazine Photographers et collaborateur permanent de périodiques et d’éditeurs du monde entier. En Suisse romande, il était devenu, dès 1986, le photographe attitré des auteurs de Bernard Campiche.
Passionné d’art et de littérature dès ses jeunes années, Horst Tappe avait rencontré « son » premier sujet au début des années 60, en la personne de Jean Giono. Suivirent Oskar Kokoschka, à Villeneuve, qui aimait à s’entretenir avec lui à grand renfort de « lait » (ainsi que le peintre appelait son scotch…), le mythique Ezra Pound à Rapallo, puis Vladimir Nabokov son illustre voisin montreusien, qui l’emmena sur les hauts gazons à la chasse aux papillons, et dont il réalisa une série de portraits unique au monde, déjà présentée à Montreux et Saint-Pétersbourg, en attendant d’autres escales.
De Noël Coward posant en son castel des Avants, à Picasso torse nu et l’air d’un empereur inca, Somerset Maugham au faciès de vieux bonze à peau de lézard ou Patricia Highsmith en sa naturelle élégance d’éternelle jeune fille bohème, entre tant d’autres, Horst Tappe, captant l’aura de chacun dans ses lumière magiques, restituait à tout coup le frémissement d’une présence, évitant à la fois l’anecdote et la pose désincarnée.
Evoquant son arrivée en Suisse romande, Horst Tappe m'avait déclaré un jour: « Après l’Allemagne d’Adenauer, si lourdement matérialiste, je me suis senti revivre au bord du Léman ! ». La reconnaissance inverse, de la part des instances culturelles vaudoises et suisses, ne lui fut guère concédée en revanche, et l’indifférence que lui manifesta notamment le Musée de l’Elysée n’est pas à l’honneur de celui-ci. Du moins trouva-t-il ces dernières années, auprès des historiennes de l’art Sarah Benoit et Charlotte Contesse, une aide précieuse pour la réalisation de livres (sur Vladimir Nabokov et Oskar Kokoschka) et d’expositions mettant en valeur ses précieuses archives, représentant environ 5000 portraits. La destinée de ce trésor reste actuellement incertaine, soumise à la décision du frère légataire du photographe. Quoi qu’il advienne, il faut espérer que le legs artistique de Horst Tappe, intéressant l’art photographique autant que les archives littéraires du XXe siècle, soit traité avec autant de respect que le photographe vouait à son art et aux êtres qu’il a « immortalisés »…
Montreux, Musée, 35 portraits de Kokoschka. Jusqu’au 31 octobre.
Horst Tappe. Kokoschka. Préface de Christoph Vitali. Merian Verlag, 95p.Cet hommage a paru dans l'édition de 24 Heures du 25 août 2005
Nous venions de passer à table, hier soir, avec des amis, lorsque Bernard Campiche m’a appris au téléphone la triste nouvelle de la mort de Horst Tappe, rongé par un vilain crabe dont il a été délivré dimanche dernier, dans le même hôpital du Samaritain où s’est éteint Vladimir Nabokov qu’il avait portraituré comme aucun autre, et du coup je suis allé chercher une quinzaine d’autres de ses portraits, de Lobo Antunes et de Patricia Highsmith, d’Ezra Pound et de Picasso, de Nancy Huston et de Judith Hermann, touts marqués par la même qualité de lumière et de présence, qui caractérisait le grand art de notre ami ; et plus tard, nos invités nous ayant quittés, j’ai repensé aux heures passées ensemble avec Horst depuis notre première rencontre, à Saint-Malo, puis à son domicile de Territtet, dans son logis de vieux garçon au visage embellissant quand il se sentait valorisé, où nous nous racontions nos lectures et nos pérégrinations en picolant comme il l’aimait pour s’adoucir la vie. De fait, affligé d’une difformité physique allant s’aggravant, le cher homme, quoique ne se plaignant jamais, devait souffrir de se sentir tenu à distance des femmes, même si deux d’entre elles (les jeunes historiennes de l’art Sarah Benoit et Charlotte Contesse) l’ont entouré, ces dernières années, de prévenances particulières en l’aidant à réaliser plusieurs expositions et ses deux livres consacrés à Nabokov et Kokoschka, jusqu’à la triste fin que lui a valu sa tumeur au visage.
Certains êtres marqués dans leur chair, comme l’était aussi Flannery O’Connor avec son affreux lupus, trouvent dans leur douleur une énergie productrice de beauté, et c’est ce qui me frappe le plus dans le portraits que nous laisse Horst Tappe, au-delà de tout esthétisme de studio : c’est cette beauté intérieure, liée à l’aura de la personne, qu’il parvenait à restituer. La douceur et la gravité qui se dégagent des portraits de Nancy Huston ou de Judith Hermann, la morgue impériale de vieille tortue d’un Somerset Maugham ou le charme ravageusement mélancolique d’un Antonio Lobo Antunes, entre tant d’autres visages réellement révélés, en disent beaucoup sans doute, aussi, sur la qualité d’un artiste et d’un homme auquel, plus que le prestige des noms et des titres, la relation simple et vraie importait pour l’essentiel. Tout cela que j'ai tâché de ramasser dans cet hommage à paraître demain...
Un portraitiste des êtres
Le photographe allemand Horst Tappe, dont les portraits de grands auteurs et artistes contemporains (de Nabokov, Pound, Picasso ou Kokoschka, à presque tous les Nobel de littérature) ont fait le tour du monde, est mort dimanche dernier à l’hôpital du Samaritain, à Vevey, à l’âge de 64 ans, des suites d’une cruelle maladie.
Né en 1941 en Westphalie, Horst Tappe avait acquis les bases de son métier dans un atelier traditionnel de sa ville natale, suivi les cours de Martha Hoepffner dans l’esprit du Bauhaus, et achevé sa formation à l’Ecole de photographie de Vevey, auprès d’Oswald Ruppen. Installé à Montreux depuis 1965, il était membre de l’American Society of Magazine Photographers et collaborateur permanent de périodiques et d’éditeurs du monde entier. En Suisse romande, il était devenu, dès 1986, le photographe attitré des auteurs de Bernard Campiche.
Passionné d’art et de littérature dès ses jeunes années, Horst Tappe avait rencontré « son » premier sujet au début des années 60, en la personne de Jean Giono. Suivirent Oskar Kokoschka, à Villeneuve, qui aimait à s’entretenir avec lui à grand renfort de « lait » (ainsi que le peintre appelait son scotch…), le mythique Ezra Pound à Rapallo, puis Vladimir Nabokov son illustre voisin montreusien, qui l’emmena sur les hauts gazons à la chasse aux papillons, et dont il réalisa une série de portraits unique au monde, déjà présentée à Montreux et Saint-Pétersbourg, en attendant d’autres escales.
De Noël Coward posant en son castel des Avants, à Picasso torse nu et l’air d’un empereur inca, Somerset Maugham au faciès de vieux bonze à peau de lézard ou Patricia Highsmith en sa naturelle élégance d’éternelle jeune fille bohème, entre tant d’autres, Horst Tappe, captant l’aura de chacun dans ses lumière magiques, restituait à tout coup le frémissement d’une présence, évitant à la fois l’anecdote et la pose désincarnée.
Evoquant son arrivée en Suisse romande, Horst Tappe m'avait déclaré un jour: « Après l’Allemagne d’Adenauer, si lourdement matérialiste, je me suis senti revivre au bord du Léman ! ». La reconnaissance inverse, de la part des instances culturelles vaudoises et suisses, ne lui fut guère concédée en revanche, et l’indifférence que lui manifesta notamment le Musée de l’Elysée n’est pas à l’honneur de celui-ci. Du moins trouva-t-il ces dernières années, auprès des historiennes de l’art Sarah Benoit et Charlotte Contesse, une aide précieuse pour la réalisation de livres (sur Vladimir Nabokov et Oskar Kokoschka) et d’expositions mettant en valeur ses précieuses archives, représentant environ 5000 portraits. La destinée de ce trésor reste actuellement incertaine, soumise à la décision du frère légataire du photographe. Quoi qu’il advienne, il faut espérer que le legs artistique de Horst Tappe, intéressant l’art photographique autant que les archives littéraires du XXe siècle, soit traité avec autant de respect que le photographe vouait à son art et aux êtres qu’il a « immortalisés »…
Montreux, Musée, 35 portraits de Kokoschka. Jusqu’au 31 octobre.
Horst Tappe. Kokoschka. Préface de Christoph Vitali. Merian Verlag, 95p.Cet hommage a paru dans l'édition de 24 Heures du 25 août 2005
17 de agosto de 2005
Carta Aberta à Escola
Aqui para nós, a escola é um mal necessário que os alunos contestam por todos os lados.
Dentro desse aglomerado de salas , passam-se coisas dignas de se contar.
Antigamente, no tempo da minha avozinha, até havia uma régua grossa e os meninos andavam separados das meninas por turmas. Para não falar já naquela bata ridícula que eram obrigados a usar.
Hoje é um bocadinho diferente: existe maior compreensão da parte dos professores e dos alunos. Já não é preciso a batinha e anda tudo misturado.
Hoje é assim...
O toque da entrada já lá vai e o professor já está sentado, mas falta metade da turma; o segundo toque vem aí e, com ele, a outra metade da turma:
- Stor, posso entrar?
A aula começa e o professor pede para abrir o livro na página quarenta e cinco. Metade da turma não tem livro, mas, apesar disso, o António vai tentar ler, com mais uns cinco em cima dele. É a inflação dos livros...
No silêncio da leitura, ouve-se a voz do Carlos a perguntar que horas são, ao Aíta! O professor faz uma cara de irritado e diz-lhe que vá já, se está com muita pressa, mas com falta, claro! O Carlos, como é evidente, cala-se e dá um sorrisinho sem graça.
A aula continua a desenrolar-se quando é avistado um “aeroplano” de papel a sobrevoar a turma, desde o fundo da sala. O professor, mais uma vez irritado, pergunta quem é que fez o avião. Ninguém se acusa. Apesar das risotas e das insinuações dos da frente, não há outro remédio senão continuar a dar matéria.
Mais adiante, é novamente interrompida a aula.
O que foi desta vez? Não se sabe. Só se vê o Vítor e o Russo, vermelhões, escondendo a cara no livro. Por fim, o professor, sempre irritado, ameaça-nos de, para a próxima, irmos todos para a rua.
Mas eis que o toque da saída atrapalha o raspanete e eis também que ninguém mais ouve nada, todos se levantam, gritam, batendo nas mesas com os livros, arrastando mesas e cadeiras.
Assim acaba a aula, já sem ninguém na sala.
O professor fica perplexo. Foi mais uma aula em que ninguém ficou a saber “como é a raiz quadrada das invasões napoleónicas, na lei de Lavoisier com o auxiliar do verbo parler, junto à cadeia alimentar ou à espiral das ilhas dos Açores”...
No recreio, sim, talvez esteja a única coisa que aprendemos bem: a conviver.
Todos fumam ou comem, cravando cinco ou dez escudos ao parceiro. Aí, sim, fazem-se amizades e dezamizades. Todos se abraçam e riem, ao serem criticados pelos vizinho que moram mesmo ali muito perto, neste convívio em que se discute tudo, desde o primeiro namorado da Isabel ao último disco dos Rolling Stones.
Por isso, viva o recreio!
Ana Paula, aluna do oitavo ano do Externato de Odivelas, 1981/82
Dentro desse aglomerado de salas , passam-se coisas dignas de se contar.
Antigamente, no tempo da minha avozinha, até havia uma régua grossa e os meninos andavam separados das meninas por turmas. Para não falar já naquela bata ridícula que eram obrigados a usar.
Hoje é um bocadinho diferente: existe maior compreensão da parte dos professores e dos alunos. Já não é preciso a batinha e anda tudo misturado.
Hoje é assim...
O toque da entrada já lá vai e o professor já está sentado, mas falta metade da turma; o segundo toque vem aí e, com ele, a outra metade da turma:
- Stor, posso entrar?
A aula começa e o professor pede para abrir o livro na página quarenta e cinco. Metade da turma não tem livro, mas, apesar disso, o António vai tentar ler, com mais uns cinco em cima dele. É a inflação dos livros...
No silêncio da leitura, ouve-se a voz do Carlos a perguntar que horas são, ao Aíta! O professor faz uma cara de irritado e diz-lhe que vá já, se está com muita pressa, mas com falta, claro! O Carlos, como é evidente, cala-se e dá um sorrisinho sem graça.
A aula continua a desenrolar-se quando é avistado um “aeroplano” de papel a sobrevoar a turma, desde o fundo da sala. O professor, mais uma vez irritado, pergunta quem é que fez o avião. Ninguém se acusa. Apesar das risotas e das insinuações dos da frente, não há outro remédio senão continuar a dar matéria.
Mais adiante, é novamente interrompida a aula.
O que foi desta vez? Não se sabe. Só se vê o Vítor e o Russo, vermelhões, escondendo a cara no livro. Por fim, o professor, sempre irritado, ameaça-nos de, para a próxima, irmos todos para a rua.
Mas eis que o toque da saída atrapalha o raspanete e eis também que ninguém mais ouve nada, todos se levantam, gritam, batendo nas mesas com os livros, arrastando mesas e cadeiras.
Assim acaba a aula, já sem ninguém na sala.
O professor fica perplexo. Foi mais uma aula em que ninguém ficou a saber “como é a raiz quadrada das invasões napoleónicas, na lei de Lavoisier com o auxiliar do verbo parler, junto à cadeia alimentar ou à espiral das ilhas dos Açores”...
No recreio, sim, talvez esteja a única coisa que aprendemos bem: a conviver.
Todos fumam ou comem, cravando cinco ou dez escudos ao parceiro. Aí, sim, fazem-se amizades e dezamizades. Todos se abraçam e riem, ao serem criticados pelos vizinho que moram mesmo ali muito perto, neste convívio em que se discute tudo, desde o primeiro namorado da Isabel ao último disco dos Rolling Stones.
Por isso, viva o recreio!
Ana Paula, aluna do oitavo ano do Externato de Odivelas, 1981/82
9 de agosto de 2005
28 de julho de 2005
"Lembro-me que fiquei muito triste quando descobri que, no mundo, havia gente pobre e gente rica..."
Talvez a sua compreensão do mundo tenha ficado para sempre moldada por esta conclusão da infância. Talvez todas as compreensões do mundo, de todos nós, nasçam na infância.
Nessa altura, Evita estava ainda desse lado da vida. Do lado da gente pobre.
Terá sido esse tempo que lhe deu a convicção para tomar o partido dos desfavorecidos, dos mais fracos, e a lembrança desse tempo forneceu-lhe a força dessa convicção.
“Eu sou uma de vós. Eu sei o que é ter fome.”
Esta frase, ou outras frases como esta, punham os pobres todos ao lado de Evita. E estes são muito mais numerosos do que os ricos. Evita contaria sempre com eles, ao longo da sua vida, e mesmo depois, para chegar onde queria.
Em vida, Evita quis ter um lugar de poder. Eles ajudaram-na a chegar lá.
Evita não queria ser esquecida, queria tornar-se lenda, mito. Eles tomaram conta deste seu desejo.
Viveu à velocidade da luz, deixando de brilhar no firmamento dos pobres, dos "descamisados", demasiado cedo, com apenas trinta e três anos.
Eva Peron, Evita, morreu a 26 de Julho de 1952.
Não é a luz da História a que confere mais brilho à figura de Evita. É a luz dos mitos. Ela própria preparou o mito que havia de perpetuar a sua memória e dourá-la cada vez mais.
Talvez a sua compreensão do mundo tenha ficado para sempre moldada por esta conclusão da infância. Talvez todas as compreensões do mundo, de todos nós, nasçam na infância.
Nessa altura, Evita estava ainda desse lado da vida. Do lado da gente pobre.
Terá sido esse tempo que lhe deu a convicção para tomar o partido dos desfavorecidos, dos mais fracos, e a lembrança desse tempo forneceu-lhe a força dessa convicção.
“Eu sou uma de vós. Eu sei o que é ter fome.”
Esta frase, ou outras frases como esta, punham os pobres todos ao lado de Evita. E estes são muito mais numerosos do que os ricos. Evita contaria sempre com eles, ao longo da sua vida, e mesmo depois, para chegar onde queria.
Em vida, Evita quis ter um lugar de poder. Eles ajudaram-na a chegar lá.
Evita não queria ser esquecida, queria tornar-se lenda, mito. Eles tomaram conta deste seu desejo.
Viveu à velocidade da luz, deixando de brilhar no firmamento dos pobres, dos "descamisados", demasiado cedo, com apenas trinta e três anos.
Eva Peron, Evita, morreu a 26 de Julho de 1952.
Não é a luz da História a que confere mais brilho à figura de Evita. É a luz dos mitos. Ela própria preparou o mito que havia de perpetuar a sua memória e dourá-la cada vez mais.
17 de julho de 2005
UNESCO aprova monumentos de Macau...
...para Património da Humanidade
15.07.2005 - 12h54
A UNESCO aprovou hoje a inclusão de zonas históricas de Macau na lista de Património Mundial da Humanidade, numa decisão tomada na reunião que decorre em Durban, na África do Sul, revelou fonte oficial.
Do Largo da Barra, onde está situado o Templo de A-Má, a deusa protectora dos pescadores e da cidade, passando pelo Largo do Lilau, junto ao qual se ergue a denominada Casa do Mandarim e que marca as recordações da comunidade macaense, seguindo pelo Largo de Santo Agostinho, do Senado, da Sé, S.Domingos e da Companhia de Jesus atravessamos parte da cidade marcada por construções chinesas misturadas com a traça europeia. Essa influência europeia está vincada nas fachadas das igrejas como S. Lourenço ou São José.
Entre templos chineses, igrejas católicas, edifícios antigos, como o do Leal Senado, e fortalezas como o Quartel dos Mouros, a Fortaleza do Monte ou a Fortaleza da Guia, em redor da qual estavam situados alguns dos principais pontos de defesa da cidade, a história de Macau é revisitada e deixa à vista a evolução da cidade e convivência das culturas.
"O património histórico de Macau é produto único de mais de 400 anos de intercâmbio cultural entre o Mundo ocidental e a civilização chinesa", lê-se na apresentação da candidatura de Macau.
Segundo o documento, a candidatura macaense justifica-se porque o "património arquitectónico predominantemente de raiz portuguesa, ergue-se por entre construções de arquitectura tradicional chinesa no povoado histórico, evidenciando um notório contraste".
"Parte dos monumentos existentes constituem o grupo de monumentos arquitectónicos de raiz europeia mais antigo, mais completo e mais bem consolidado que ainda se mantém intacto em solo chinês", refere o texto da candidatura.
A zona de candidatura, apresentada à UNESCO, coincide com núcleo da área correspondente ao primeiro povoado ocidental em Macau, também conhecido como "cidadã-cristã" no contexto da história do território.
"O estabelecimento de Macau por navegadores portugueses, em meados do século XVI, lançou as bases de quase cinco séculos de contacto ininterrupto entre o ocidente e o oriente", afirma a nota de candidatura.
"As origens do desenvolvimento de Macau como porto comercial internacional fazem do mesmo o único e mais consistente exemplo do intercâmbio cultural entre Europa e Ásia", assegura o mesmo texto.
Do jornal O Público
15.07.2005 - 12h54
A UNESCO aprovou hoje a inclusão de zonas históricas de Macau na lista de Património Mundial da Humanidade, numa decisão tomada na reunião que decorre em Durban, na África do Sul, revelou fonte oficial.
Do Largo da Barra, onde está situado o Templo de A-Má, a deusa protectora dos pescadores e da cidade, passando pelo Largo do Lilau, junto ao qual se ergue a denominada Casa do Mandarim e que marca as recordações da comunidade macaense, seguindo pelo Largo de Santo Agostinho, do Senado, da Sé, S.Domingos e da Companhia de Jesus atravessamos parte da cidade marcada por construções chinesas misturadas com a traça europeia. Essa influência europeia está vincada nas fachadas das igrejas como S. Lourenço ou São José.
Entre templos chineses, igrejas católicas, edifícios antigos, como o do Leal Senado, e fortalezas como o Quartel dos Mouros, a Fortaleza do Monte ou a Fortaleza da Guia, em redor da qual estavam situados alguns dos principais pontos de defesa da cidade, a história de Macau é revisitada e deixa à vista a evolução da cidade e convivência das culturas.
"O património histórico de Macau é produto único de mais de 400 anos de intercâmbio cultural entre o Mundo ocidental e a civilização chinesa", lê-se na apresentação da candidatura de Macau.
Segundo o documento, a candidatura macaense justifica-se porque o "património arquitectónico predominantemente de raiz portuguesa, ergue-se por entre construções de arquitectura tradicional chinesa no povoado histórico, evidenciando um notório contraste".
"Parte dos monumentos existentes constituem o grupo de monumentos arquitectónicos de raiz europeia mais antigo, mais completo e mais bem consolidado que ainda se mantém intacto em solo chinês", refere o texto da candidatura.
A zona de candidatura, apresentada à UNESCO, coincide com núcleo da área correspondente ao primeiro povoado ocidental em Macau, também conhecido como "cidadã-cristã" no contexto da história do território.
"O estabelecimento de Macau por navegadores portugueses, em meados do século XVI, lançou as bases de quase cinco séculos de contacto ininterrupto entre o ocidente e o oriente", afirma a nota de candidatura.
"As origens do desenvolvimento de Macau como porto comercial internacional fazem do mesmo o único e mais consistente exemplo do intercâmbio cultural entre Europa e Ásia", assegura o mesmo texto.
Do jornal O Público
Manuel Alegre no JL
Manuel Alegre
Viver para cantá-la
Por José Carlos de Vasconcelos
A publicação da Praça da Canção, no final da Primavera de 1965, em Coimbra, foi um verdadeiro acontecimento – poético e político. Tratou-se da revelação em livro de uma voz nova, inconfundível, interveniente, militante, que aliás nos meios estudantis já era muito conhecida e nos meios de combate à ditadura, em geral, já o começava a ser. Manuel Alegre tinha sido actor no TEUC, pertencido a listas de esquerda nas eleições para a Associação Académica, «discursara» em manifestações estudantis, a Trova do Vento que Passa, cantada por Adriano com música de António Portugal, já se transformara numa espécie de hino de resistência, o poeta já tinha sido chamado para a «tropa», estado na guerra colonial e na cadeia, partido para o exílio.
O livro saiu, rodeado de grande segredo (obviamente iria ser apreendido pela polícia política), terceiro título do «Cancioneiro Vértice», uma colecção editada pela conhecida revista do mesmo nome, ligada ao neo-realismo, para cuja redacção, em 1961 ou 62, entraram quatro jovens: Alegre, Fernando Assis Pacheco, J. A. Silva Marques e eu próprio. Pouco depois os dois primeiros seriam chamados para a «tropa» e iriam para a guerra, para Angola, Silva Marques sairia de Coimbra e passaria à clandestinidade, e fiquei só eu (quatro ou cinco anos mais novo e «isento» do serviço militar). Aquela colecção iniciara-se, aliás, com Cuidar dos Vivos, do Assis, em 63, a que se seguiu o meu Corpo de Esperança, em 64.
O impacto de Praça da Canção foi enorme, é difícil a quem não viveu esses tempos imaginá-lo. O Manel (como os amigos lhe chamavam e chamam) sofreu as agruras do exílio em Paris e depois em Argel (onde foi redactor e «locutor» da rádio Voz da Liberdade), tornou-se uma figura muito destacada da luta anti-fascista. Entretanto publicou, em 1967, O Canto e as Armas, que amplia o registo de Praça da Canção, no qual o exílio (o seu e o dos portugueses em concreto, e o exílio como metáfora) tem um grande peso; e, em 1971, o «poema dramático» Um Barco para Ítaca.
Em 1974, com o 25 de Abril e a liberdade, regressa a Portugal, e a partir daí progressivamente vai publicando mais e mais, primeiro só poesia, depois prosa, sobretudo ficção (romance, conto, novela), ensaio criativo, textos políticos. Seria ocioso estar aqui a recensear a sua já vasta bibliografia, assinale-se apenas que, vencendo os (no mínimo) «preconceitos» de muitos críticos e literatos, a sua obra cada vez mais se foi impondo a todos os níveis, sobre ela têm escrito os mais relevantes ensaístas e já recebeu significativas distinções, entre as quais o Prémio Pessoa. Ao mesmo tempo, Alegre manteve uma constante actividade política. Deputado há 30 anos, desde a Assembleia Constituinte, é vice-presidente do Parlamento. No último Congresso do PS, em 2004, aceitou ser candidato a secretário-geral do partido de que tem sido destacado dirigente. E o seu nome é dos mais referidos como eventual candidato a Presidente da República, no início de 2006.
Os 40 anos de Praça da Canção são assinalados designadamente com uma edição especial do livro (ed. Dom Quixote), em «texto definitivo», com belos desenhos de José Rodrigues e um bom prefácio de Paula Morão, que se vem somar ao que de melhor escreveram sobre o poeta Eduardo Lourenço, Maria Helena da Rocha Pereira, Carlos Reis, Mário Sacramento, Victor Aguiar e Silva, entre outros. Oportunidade para um longo diálogo, sobre a poesia e a vida, nele tão inextrincavelmente ligadas (e daí o título desta ‘tirado’ de García Márquez) de que aqui fica o essencial.
Jornal de Letras: Começamos pelo pretexto próximo desta conversa, que são os 40 anos de Praça da Canção. Como é?...
Manuel Alegre: É uma memória muito viva. Em mim e nas pessoas dessa geração. Mas também há malta nova que sabe esses poemas. Tenho ido a escolas, sobretudo quando se comemora o 25 de Abril, e embora de forma não generalizada vejo que isso acontece, graças ao trabalho de alguns professores. Seja como for, 40 anos são 40 anos. O que queres que te diga?
Vamos então a ‘factos’: Praça da Canção, até hoje, quantas edições teve e quanto exemplares terá tirado?
Que eu saiba, deve andar à volta das 13 ou 14 edições autónomas: as primeiras, as da Europa-América e as de bolso da Dom Quixote. Além delas há as incluídas na Obra Poética e outras que eu não controlei, clandestinas. Além das manuscritas e dactilografadas – porque nessa altura ainda não havia máquinas de fotocópias nem computadores. No total, acho que deve ultrapassar os 100 mil exemplares.
Deve ser o livro de poemas difundido pelo menos da segunda metade do século XX. Será?
Sim. Essa é opinião de vários editores. Talvez seja até o livro de poesia mais editado, mais difundido e mais cantado em vida do autor. Mais, mesmo, que os livros do Junqueiro, porque as edições no seu tempo eram menores.
Qual é hoje a tua relação com os poemas da Praça da Canção e as circunstâncias em que apareceram? Ainda te marcam?
Marcam, porque correspondem a uma época decisiva da minha vida. Evidentemente que, hoje, escreveria alguns desses poemas de outra maneira - se calhar pior... Porque uma das suas forças é uma certa ingenuidade, a convicção na força da palavra. Ainda não tinha lido o Ezra Pound, nem as suas teorias sobre os cancioneiros e os trovadores. Quando os escrevi foi por impulso, por instinto, por razões não explicáveis. E isso também tem a ver com uma fase intensa da minha vida.
A fase de Coimbra, das lutas estudantis...
... e, depois, já na tropa, dos Açores, onde escrevi alguns desses poemas, nomeadamente «País de Abril», agora, na edição definitiva, dedicado ao Melo Antunes, a primeira pessoa a quem o li. “País de Abril” que esteve para ser o título do livro, o que só não aconteceu por causa da canção “Avril au Portugal” – podia parecer uma coisa turística. Claro que, nessa altura, não me passava pela cabeça que ia haver uma revolução num mês de Abril e o Melo seria um dos seus líderes.
E depois dos Açores, Angola, a guerra, a prisão.
Apesar dessa vida muito atribulada, eu escrevia intensamente. A poesia foi quase como uma casa, um abrigo, um refúgio, uma forma de resistir a essa situação. Além disso, também tinha a convicção (como tu e outros, acho que todos partilhávamos isso) de que pela palavra poética se podia mudar a realidade, se podia mudar o País. O que está presente nesses poemas. Não esqueço as circunstâncias em que escrevi alguns deles. Por exemplo, naquela altura fazia poemas de cabeça e só depois os passava ao papel. Quando estive na cadeia, isolado durante um largo período, sem caneta e sem papel, fiz e memorizei alguns desses poemas, que só mais tarde escrevi. Isso aconteceu-me muitas vezes.
Como Camilo Pessanha.
Exactamente. O que só mais tarde vim a saber. Nessa época, a poesia tinha para mim uma marca muito oral. Sentia a necessidade de dizer o poema para mim mesmo, e até de o dizer a alguém, às vezes antes de o escrever. O que marcou a minha poesia e talvez explique o seu tom cantabile. Hoje não tenho essa necessidade nem faço isso: quando escrevo, é mesmo um acto de caneta e papel.
A oralidade seria influenciada também pela tua passagem pelo teatro e pelos ‘discursos’ nas lutas académicas?
Talvez. E pela poesia oral, sei lá. No TEUC (Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, dirigido por Paulo Quintela), nós dizíamos muita poesia. De qualquer forma, antes de saber ler, eu já sabia poemas de cor. Os meus pais diziam-se poemas, acompanhavam-se à guitarra e cantavam o fado. A minha mãe era uma repentista fantástica, a cantar ao desafio era imbatível. E tinha uma tia-avó, Maria do Carmo Sampaio, mãe do pintor Fausto Sampaio, que me lia muita poesia. Ensinou-me poemas de António Nobre, Garrett, Guerra Junqueira, até do António Sardinha – porque era monárquica, integralista, ao contrário do irmão, o meu avô, que era republicano, carbonário. O meu pai também me lia versos de Camões e de outros poetas
Qual o primeiro poema de que te lembras?
Lembro-me de, muito pequeno, subir para cima de uma cadeira e recitar um poema, cujo autor não sei quem é, que começava «Lá vão elas, as caravelas». São estes os primeiros versos de que me recordo. Mas também recordo, além dos versos dos fados e dos que me lia a minha tia-avó, incluindo do Cancioneiro de Garrett, da «Nau Catrineta», de «Estava a bela Infanta no seu jardim assentada», dos romances que os ceguinhos cantavam na Rua de Baixo, em Águeda.
Na escola ou no liceu algum professor te influenciou?
No Liceu Alexandre Herculano, no Porto, onde andei, houve um professor que me marcou muito: o António Cobeira, de quem falo num conto de O Homem do País Azul. Fora amigo íntimo do Fernando Pessoa (que uma vez mandou para a Renascença Portuguesa poemas seus) e do Mário Sá-Carneiro, dos quais falava muito. E revelou-me o Sá Carneiro, um poeta importante para mim nessa fase, que também tem uma grande estrutura rítmica. Além disso ele lia poesia, leu-me o soneto de Arvers, que traduzi em Rouxinol do Mundo: nunca o vi escrito, mas nunca mais o esqueci.
E em Coimbra?
Comecei a ler o Rilke e o Hölderlin, por influência do Paulo Quintela. Escrevi mesmo, nessa altura, uma poesia muito empastada, uma grande trapalhada, onde havia marcas dos dois. Mas aí o importante foi o contacto com o Lousã Henriques, com o Herberto Hélder, que passava temporadas em minha casa, com o (Fernando) Assis (Pacheco). O Assis era de todos nós o que lia mais poesia (poetas franceses, ingleses, muito os espanhóis) e se calhar o que sabia mais.
Até que...
... de repente, a minha linguagem soltou-se. Voltando, digamos, a uma estrutura rítmica mais cantabile. Os poemas começaram a aparecer feitos. Os poemas, as trovas. As primeiras foram publicados na Via Latina, em 1961 ou 1962, eras tu o chefe de redacção: a Trova do Amor Lusíada (que mais tarde a Amália haveria de cantar), com um desenho do Topi, em separado, depois uma página inteira com cinco poemas.
A Trova do Vento que Passa, que ficou como um símbolo e uma bandeira, até hoje, já é de 1963, não?
Não. 1964. Venho de Angola, da cadeia, estou com residência fixa em Coimbra, recordo absoluta e exactamente o momento em que ‘nasceram’ os seus primeiros versos. Eu vinha de casa, ia a atravessar a Praça da República com o Adriano (Correia de Oliveira) e havia uns pides a seguir-nos, a minha vida já estava a ficar muito negra. O Adriano disse, «lá vêm eles». E, de repente, saíram-me os últimos versos: «Mesmo na noite mais triste/ em tempo de servidão,/ há sempre alguém que resiste,/ há sempre alguém que diz não». E o Adriano comentou: «Isso é uma coisa fantástica. Agora tens que escrever o resto. Porque podes nunca mais escrever nada, mas esses versos vão ficar, para sempre, na memória de todos». Mal ele imaginava que isso em parte viria a acontecer graças à sua interpretação da música que para ela escreveu o (António) Portugal.
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Viver para cantá-la
Por José Carlos de Vasconcelos
A publicação da Praça da Canção, no final da Primavera de 1965, em Coimbra, foi um verdadeiro acontecimento – poético e político. Tratou-se da revelação em livro de uma voz nova, inconfundível, interveniente, militante, que aliás nos meios estudantis já era muito conhecida e nos meios de combate à ditadura, em geral, já o começava a ser. Manuel Alegre tinha sido actor no TEUC, pertencido a listas de esquerda nas eleições para a Associação Académica, «discursara» em manifestações estudantis, a Trova do Vento que Passa, cantada por Adriano com música de António Portugal, já se transformara numa espécie de hino de resistência, o poeta já tinha sido chamado para a «tropa», estado na guerra colonial e na cadeia, partido para o exílio.
O livro saiu, rodeado de grande segredo (obviamente iria ser apreendido pela polícia política), terceiro título do «Cancioneiro Vértice», uma colecção editada pela conhecida revista do mesmo nome, ligada ao neo-realismo, para cuja redacção, em 1961 ou 62, entraram quatro jovens: Alegre, Fernando Assis Pacheco, J. A. Silva Marques e eu próprio. Pouco depois os dois primeiros seriam chamados para a «tropa» e iriam para a guerra, para Angola, Silva Marques sairia de Coimbra e passaria à clandestinidade, e fiquei só eu (quatro ou cinco anos mais novo e «isento» do serviço militar). Aquela colecção iniciara-se, aliás, com Cuidar dos Vivos, do Assis, em 63, a que se seguiu o meu Corpo de Esperança, em 64.
O impacto de Praça da Canção foi enorme, é difícil a quem não viveu esses tempos imaginá-lo. O Manel (como os amigos lhe chamavam e chamam) sofreu as agruras do exílio em Paris e depois em Argel (onde foi redactor e «locutor» da rádio Voz da Liberdade), tornou-se uma figura muito destacada da luta anti-fascista. Entretanto publicou, em 1967, O Canto e as Armas, que amplia o registo de Praça da Canção, no qual o exílio (o seu e o dos portugueses em concreto, e o exílio como metáfora) tem um grande peso; e, em 1971, o «poema dramático» Um Barco para Ítaca.
Em 1974, com o 25 de Abril e a liberdade, regressa a Portugal, e a partir daí progressivamente vai publicando mais e mais, primeiro só poesia, depois prosa, sobretudo ficção (romance, conto, novela), ensaio criativo, textos políticos. Seria ocioso estar aqui a recensear a sua já vasta bibliografia, assinale-se apenas que, vencendo os (no mínimo) «preconceitos» de muitos críticos e literatos, a sua obra cada vez mais se foi impondo a todos os níveis, sobre ela têm escrito os mais relevantes ensaístas e já recebeu significativas distinções, entre as quais o Prémio Pessoa. Ao mesmo tempo, Alegre manteve uma constante actividade política. Deputado há 30 anos, desde a Assembleia Constituinte, é vice-presidente do Parlamento. No último Congresso do PS, em 2004, aceitou ser candidato a secretário-geral do partido de que tem sido destacado dirigente. E o seu nome é dos mais referidos como eventual candidato a Presidente da República, no início de 2006.
Os 40 anos de Praça da Canção são assinalados designadamente com uma edição especial do livro (ed. Dom Quixote), em «texto definitivo», com belos desenhos de José Rodrigues e um bom prefácio de Paula Morão, que se vem somar ao que de melhor escreveram sobre o poeta Eduardo Lourenço, Maria Helena da Rocha Pereira, Carlos Reis, Mário Sacramento, Victor Aguiar e Silva, entre outros. Oportunidade para um longo diálogo, sobre a poesia e a vida, nele tão inextrincavelmente ligadas (e daí o título desta ‘tirado’ de García Márquez) de que aqui fica o essencial.
Jornal de Letras: Começamos pelo pretexto próximo desta conversa, que são os 40 anos de Praça da Canção. Como é?...
Manuel Alegre: É uma memória muito viva. Em mim e nas pessoas dessa geração. Mas também há malta nova que sabe esses poemas. Tenho ido a escolas, sobretudo quando se comemora o 25 de Abril, e embora de forma não generalizada vejo que isso acontece, graças ao trabalho de alguns professores. Seja como for, 40 anos são 40 anos. O que queres que te diga?
Vamos então a ‘factos’: Praça da Canção, até hoje, quantas edições teve e quanto exemplares terá tirado?
Que eu saiba, deve andar à volta das 13 ou 14 edições autónomas: as primeiras, as da Europa-América e as de bolso da Dom Quixote. Além delas há as incluídas na Obra Poética e outras que eu não controlei, clandestinas. Além das manuscritas e dactilografadas – porque nessa altura ainda não havia máquinas de fotocópias nem computadores. No total, acho que deve ultrapassar os 100 mil exemplares.
Deve ser o livro de poemas difundido pelo menos da segunda metade do século XX. Será?
Sim. Essa é opinião de vários editores. Talvez seja até o livro de poesia mais editado, mais difundido e mais cantado em vida do autor. Mais, mesmo, que os livros do Junqueiro, porque as edições no seu tempo eram menores.
Qual é hoje a tua relação com os poemas da Praça da Canção e as circunstâncias em que apareceram? Ainda te marcam?
Marcam, porque correspondem a uma época decisiva da minha vida. Evidentemente que, hoje, escreveria alguns desses poemas de outra maneira - se calhar pior... Porque uma das suas forças é uma certa ingenuidade, a convicção na força da palavra. Ainda não tinha lido o Ezra Pound, nem as suas teorias sobre os cancioneiros e os trovadores. Quando os escrevi foi por impulso, por instinto, por razões não explicáveis. E isso também tem a ver com uma fase intensa da minha vida.
A fase de Coimbra, das lutas estudantis...
... e, depois, já na tropa, dos Açores, onde escrevi alguns desses poemas, nomeadamente «País de Abril», agora, na edição definitiva, dedicado ao Melo Antunes, a primeira pessoa a quem o li. “País de Abril” que esteve para ser o título do livro, o que só não aconteceu por causa da canção “Avril au Portugal” – podia parecer uma coisa turística. Claro que, nessa altura, não me passava pela cabeça que ia haver uma revolução num mês de Abril e o Melo seria um dos seus líderes.
E depois dos Açores, Angola, a guerra, a prisão.
Apesar dessa vida muito atribulada, eu escrevia intensamente. A poesia foi quase como uma casa, um abrigo, um refúgio, uma forma de resistir a essa situação. Além disso, também tinha a convicção (como tu e outros, acho que todos partilhávamos isso) de que pela palavra poética se podia mudar a realidade, se podia mudar o País. O que está presente nesses poemas. Não esqueço as circunstâncias em que escrevi alguns deles. Por exemplo, naquela altura fazia poemas de cabeça e só depois os passava ao papel. Quando estive na cadeia, isolado durante um largo período, sem caneta e sem papel, fiz e memorizei alguns desses poemas, que só mais tarde escrevi. Isso aconteceu-me muitas vezes.
Como Camilo Pessanha.
Exactamente. O que só mais tarde vim a saber. Nessa época, a poesia tinha para mim uma marca muito oral. Sentia a necessidade de dizer o poema para mim mesmo, e até de o dizer a alguém, às vezes antes de o escrever. O que marcou a minha poesia e talvez explique o seu tom cantabile. Hoje não tenho essa necessidade nem faço isso: quando escrevo, é mesmo um acto de caneta e papel.
A oralidade seria influenciada também pela tua passagem pelo teatro e pelos ‘discursos’ nas lutas académicas?
Talvez. E pela poesia oral, sei lá. No TEUC (Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, dirigido por Paulo Quintela), nós dizíamos muita poesia. De qualquer forma, antes de saber ler, eu já sabia poemas de cor. Os meus pais diziam-se poemas, acompanhavam-se à guitarra e cantavam o fado. A minha mãe era uma repentista fantástica, a cantar ao desafio era imbatível. E tinha uma tia-avó, Maria do Carmo Sampaio, mãe do pintor Fausto Sampaio, que me lia muita poesia. Ensinou-me poemas de António Nobre, Garrett, Guerra Junqueira, até do António Sardinha – porque era monárquica, integralista, ao contrário do irmão, o meu avô, que era republicano, carbonário. O meu pai também me lia versos de Camões e de outros poetas
Qual o primeiro poema de que te lembras?
Lembro-me de, muito pequeno, subir para cima de uma cadeira e recitar um poema, cujo autor não sei quem é, que começava «Lá vão elas, as caravelas». São estes os primeiros versos de que me recordo. Mas também recordo, além dos versos dos fados e dos que me lia a minha tia-avó, incluindo do Cancioneiro de Garrett, da «Nau Catrineta», de «Estava a bela Infanta no seu jardim assentada», dos romances que os ceguinhos cantavam na Rua de Baixo, em Águeda.
Na escola ou no liceu algum professor te influenciou?
No Liceu Alexandre Herculano, no Porto, onde andei, houve um professor que me marcou muito: o António Cobeira, de quem falo num conto de O Homem do País Azul. Fora amigo íntimo do Fernando Pessoa (que uma vez mandou para a Renascença Portuguesa poemas seus) e do Mário Sá-Carneiro, dos quais falava muito. E revelou-me o Sá Carneiro, um poeta importante para mim nessa fase, que também tem uma grande estrutura rítmica. Além disso ele lia poesia, leu-me o soneto de Arvers, que traduzi em Rouxinol do Mundo: nunca o vi escrito, mas nunca mais o esqueci.
E em Coimbra?
Comecei a ler o Rilke e o Hölderlin, por influência do Paulo Quintela. Escrevi mesmo, nessa altura, uma poesia muito empastada, uma grande trapalhada, onde havia marcas dos dois. Mas aí o importante foi o contacto com o Lousã Henriques, com o Herberto Hélder, que passava temporadas em minha casa, com o (Fernando) Assis (Pacheco). O Assis era de todos nós o que lia mais poesia (poetas franceses, ingleses, muito os espanhóis) e se calhar o que sabia mais.
Até que...
... de repente, a minha linguagem soltou-se. Voltando, digamos, a uma estrutura rítmica mais cantabile. Os poemas começaram a aparecer feitos. Os poemas, as trovas. As primeiras foram publicados na Via Latina, em 1961 ou 1962, eras tu o chefe de redacção: a Trova do Amor Lusíada (que mais tarde a Amália haveria de cantar), com um desenho do Topi, em separado, depois uma página inteira com cinco poemas.
A Trova do Vento que Passa, que ficou como um símbolo e uma bandeira, até hoje, já é de 1963, não?
Não. 1964. Venho de Angola, da cadeia, estou com residência fixa em Coimbra, recordo absoluta e exactamente o momento em que ‘nasceram’ os seus primeiros versos. Eu vinha de casa, ia a atravessar a Praça da República com o Adriano (Correia de Oliveira) e havia uns pides a seguir-nos, a minha vida já estava a ficar muito negra. O Adriano disse, «lá vêm eles». E, de repente, saíram-me os últimos versos: «Mesmo na noite mais triste/ em tempo de servidão,/ há sempre alguém que resiste,/ há sempre alguém que diz não». E o Adriano comentou: «Isso é uma coisa fantástica. Agora tens que escrever o resto. Porque podes nunca mais escrever nada, mas esses versos vão ficar, para sempre, na memória de todos». Mal ele imaginava que isso em parte viria a acontecer graças à sua interpretação da música que para ela escreveu o (António) Portugal.
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2 de julho de 2005
Autobiografia de António-Pedro Vasconcelos
O cinema e a vida
Posso dizer que fui salvo – se é que alguém é salvo – pela ficção. Foram os autores – os escritores e, sobretudo, os cineastas – quem me moldou o carácter. Não foram os meus pais – cuja memória eu venero – nem os professores, quem me ensinou a viver. Foi Stendhal e Preminger, Montaigne e Howard Hawks.
Adolescente, interroguei-me sobre a existência de um Deus transcendente, a quem devíamos dar contas e que se encarregava de nos salvar ou condenar; um olho supremo que vigiava os nossos actos e nos ditava os códigos da moralidade. Foi o Marquês de Sade, o divino Marquês, quem me libertou dos preconceitos da fé, foi Sartre quem me ensinou a ser livre, Montaigne quem me ensinou a viver sem garantias.
Aos vinte e poucos anos, em Paris, durante as noites intermináveis em que fui veilleur de nuit num Hotel da Rîve Droite, ao pé da sede do Partido Comunista, devorei todos os livros do mundo, substituí a monotonia das noites tristes dum hotel de duas estrelas pela «ilusion lyrique» dos personagens de Malraux; e, em Julien Sorel, encontrei uma alma gémea com quem partilhei as angústias da solidão e do orgulho: identifiquei-me com aquele jovem ambicioso que esbarrava contra as injustiças do mundo, os paraísos interditos e o preconceito dos poderosos.
Na pele de Robert Jordan, conheci o amor, simples, caloroso e doce, enfiado num saco de couchage, com Maria; e, enquanto os sinos dobram, partilhei com os companheiros de combate a defesa da República, numa Espanha demasiado habituada aos desastres da guerra. Mas «terna é a noite», segredava-me Fitzgerald que logo me devolveu a melancolia e a consciência da morte, esse verme maligno instalado no coração da juventude.
Palmilhei com Rimbaud os caminhos poeirentos de Charleroi a Paris, embarquei com ele no Bateau Ivre e percebi que «je est un autre» e que «la vrai vie est aileurs». Mas o poeta, que se reconciliou com a Beleza, depois de a ter sentado nos joelhos e a ter insultado, abandonou-me no Harrar, depois de ter lançado um grito desdenhoso aos burgueses que o viram morrer com uma gangrena na perna, como um castigo infligido aos que ousam desafiar os deuses e a fortuna: «Qu’est mon néant auprès de la stupeur qui vous attend?»
Ainda guardo alguns livros desses tempos, livres de poche, amarelecidos pelo tempo e roídos pelas traças, a maior parte roubados nas livrarias, alguns sem capa, lidos nos cafés e no metro, onde sublinhei com ênfase juvenil as frases que me guiaram na vida como um vade mecum de algibeira. Abro ao acaso: ouço o velho Ferral da Condição Humana, explicando a Gisors: «Um deus pode possuir, mas não pode conquistar. O ideal de um deus é de se tornar homem, sabendo que não perderá o seu poder; e o sonho de um homem, de se tornar deus sem perder a sua personalidade». E ouço Hemingway comentar o desespero de Thomas Hudson, o seu alter ego nas Ilhas na Corrente, pela perda dos filhos: Ele «esperava poder entender-se a sós com a sua dor, não sabendo, porém, que com a dor ninguém se entende. Cura-a a morte, adormentam-na ou anestesiam-na várias coisas. Supõe-se também que o tempo a cura. Mas se a cura não está só na morte, o mais provável é que não se trate de uma dor verdadeira».
Os livros ensinaram-me a viver comigo, explicaram-me que vivemos livres e morremos sozinhos, e, sobretudo, fizeram-me compreender que eu nunca poderia pensar como um burguês; mas foram os filmes que me libertaram desse solilóquio, dessa solidão que eu partilhava com os meus autores de cabeceira, com quem adormeci, durante anos, e que me deram a consciência de que «o homem é uma paixão inútil» (Sartre) sem outra redenção que o orgulho de o saber.
Foi o cinema que me devolveu a confiança na justiça e no heroísmo e deu um sentido a palavras tão simples como a coragem e a abnegação. James Stewart, o sublime James Stewart, na pele de Mr. Smith, esgotado de fadiga, com a voz embargada pelo esforço, batendo-se pela verdade contra os fariseus do Senado, no filme de Capra; James Dean, sacudindo as golas do casaco de um pai intolerante e maniqueu, como se o quisesse matar ou abraçar; John Wayne, descobrindo a compaixão, como Saúl de Tasso, fulminado por um raio na estrada de Damasco, ao levantar nos braços Nathalie Wood, num plano que Godard disse que era roubado às páginas de Homero; Bogart obrigando a Bergman a entrar no avião - porque há momentos em que há coisas mais importantes do que a nossa mesquinha felicidade -, a mesma Bergman que, anos depois, iria descobrir os outros num vulcão em Stromboli, nos bairros degradados em Europa 51, nos corpos dos amantes calcinados pelas chamas do Vesúvio, milhares de anos antes de Cristo, durante uma Viagem a Itália.
O cinema fez-me conhecer Gene Kelly, dançando e cantando à chuva, imagem da felicidade pura, espontânea, inviolável, como só o cinema sabe dar; e Fred Astaire, em Bandwagon, dançando no parque com Cyd Charisse, harmoniosos e mudos, silenciosos e perfeitos; como me fez conhecer Geoff Carter (Gary Grant) fechando a porta do quarto onde o amigo vai morrer, em Only angels have wings, num gesto viril de pudor, amizade e respeito.
Os filmes não me ensinaram a fazer cinema; ensinaram-me a viver. Foi a vida que me ensinou a fazer filmes.
Um dia li, num diário de Stendhal, uma frase que me ilustra: «Deseja tudo, espera pouco, não peças nada». Sou eu, sem tirar nem pôr.
Não fiz os filmes que queria porque escolhi um médium universal para me exprimir, e porque nasci – e escolhi viver – num país periférico, perdido no mapa da grande cultura popular que é o cinema, onde os filmes nem sequer falam aos seus contemporâneos. Mas tenho vivido como aprendi nos livros que li e nos filmes que amei. Isso me basta. Não tenho outra biografia nem terei outro epitáfio.
Foi a ficção que me ensinou a procurar viver com coragem e justiça, paixão e compaixão; e a aceitar, sem resignação nem azedume, conviver com a imperfeição do mundo e a duplicidade dos homens.
Posso dizer que fui salvo – se é que alguém é salvo – pela ficção. Foram os autores – os escritores e, sobretudo, os cineastas – quem me moldou o carácter. Não foram os meus pais – cuja memória eu venero – nem os professores, quem me ensinou a viver. Foi Stendhal e Preminger, Montaigne e Howard Hawks.
Adolescente, interroguei-me sobre a existência de um Deus transcendente, a quem devíamos dar contas e que se encarregava de nos salvar ou condenar; um olho supremo que vigiava os nossos actos e nos ditava os códigos da moralidade. Foi o Marquês de Sade, o divino Marquês, quem me libertou dos preconceitos da fé, foi Sartre quem me ensinou a ser livre, Montaigne quem me ensinou a viver sem garantias.
Aos vinte e poucos anos, em Paris, durante as noites intermináveis em que fui veilleur de nuit num Hotel da Rîve Droite, ao pé da sede do Partido Comunista, devorei todos os livros do mundo, substituí a monotonia das noites tristes dum hotel de duas estrelas pela «ilusion lyrique» dos personagens de Malraux; e, em Julien Sorel, encontrei uma alma gémea com quem partilhei as angústias da solidão e do orgulho: identifiquei-me com aquele jovem ambicioso que esbarrava contra as injustiças do mundo, os paraísos interditos e o preconceito dos poderosos.
Na pele de Robert Jordan, conheci o amor, simples, caloroso e doce, enfiado num saco de couchage, com Maria; e, enquanto os sinos dobram, partilhei com os companheiros de combate a defesa da República, numa Espanha demasiado habituada aos desastres da guerra. Mas «terna é a noite», segredava-me Fitzgerald que logo me devolveu a melancolia e a consciência da morte, esse verme maligno instalado no coração da juventude.
Palmilhei com Rimbaud os caminhos poeirentos de Charleroi a Paris, embarquei com ele no Bateau Ivre e percebi que «je est un autre» e que «la vrai vie est aileurs». Mas o poeta, que se reconciliou com a Beleza, depois de a ter sentado nos joelhos e a ter insultado, abandonou-me no Harrar, depois de ter lançado um grito desdenhoso aos burgueses que o viram morrer com uma gangrena na perna, como um castigo infligido aos que ousam desafiar os deuses e a fortuna: «Qu’est mon néant auprès de la stupeur qui vous attend?»
Ainda guardo alguns livros desses tempos, livres de poche, amarelecidos pelo tempo e roídos pelas traças, a maior parte roubados nas livrarias, alguns sem capa, lidos nos cafés e no metro, onde sublinhei com ênfase juvenil as frases que me guiaram na vida como um vade mecum de algibeira. Abro ao acaso: ouço o velho Ferral da Condição Humana, explicando a Gisors: «Um deus pode possuir, mas não pode conquistar. O ideal de um deus é de se tornar homem, sabendo que não perderá o seu poder; e o sonho de um homem, de se tornar deus sem perder a sua personalidade». E ouço Hemingway comentar o desespero de Thomas Hudson, o seu alter ego nas Ilhas na Corrente, pela perda dos filhos: Ele «esperava poder entender-se a sós com a sua dor, não sabendo, porém, que com a dor ninguém se entende. Cura-a a morte, adormentam-na ou anestesiam-na várias coisas. Supõe-se também que o tempo a cura. Mas se a cura não está só na morte, o mais provável é que não se trate de uma dor verdadeira».
Os livros ensinaram-me a viver comigo, explicaram-me que vivemos livres e morremos sozinhos, e, sobretudo, fizeram-me compreender que eu nunca poderia pensar como um burguês; mas foram os filmes que me libertaram desse solilóquio, dessa solidão que eu partilhava com os meus autores de cabeceira, com quem adormeci, durante anos, e que me deram a consciência de que «o homem é uma paixão inútil» (Sartre) sem outra redenção que o orgulho de o saber.
Foi o cinema que me devolveu a confiança na justiça e no heroísmo e deu um sentido a palavras tão simples como a coragem e a abnegação. James Stewart, o sublime James Stewart, na pele de Mr. Smith, esgotado de fadiga, com a voz embargada pelo esforço, batendo-se pela verdade contra os fariseus do Senado, no filme de Capra; James Dean, sacudindo as golas do casaco de um pai intolerante e maniqueu, como se o quisesse matar ou abraçar; John Wayne, descobrindo a compaixão, como Saúl de Tasso, fulminado por um raio na estrada de Damasco, ao levantar nos braços Nathalie Wood, num plano que Godard disse que era roubado às páginas de Homero; Bogart obrigando a Bergman a entrar no avião - porque há momentos em que há coisas mais importantes do que a nossa mesquinha felicidade -, a mesma Bergman que, anos depois, iria descobrir os outros num vulcão em Stromboli, nos bairros degradados em Europa 51, nos corpos dos amantes calcinados pelas chamas do Vesúvio, milhares de anos antes de Cristo, durante uma Viagem a Itália.
O cinema fez-me conhecer Gene Kelly, dançando e cantando à chuva, imagem da felicidade pura, espontânea, inviolável, como só o cinema sabe dar; e Fred Astaire, em Bandwagon, dançando no parque com Cyd Charisse, harmoniosos e mudos, silenciosos e perfeitos; como me fez conhecer Geoff Carter (Gary Grant) fechando a porta do quarto onde o amigo vai morrer, em Only angels have wings, num gesto viril de pudor, amizade e respeito.
Os filmes não me ensinaram a fazer cinema; ensinaram-me a viver. Foi a vida que me ensinou a fazer filmes.
Um dia li, num diário de Stendhal, uma frase que me ilustra: «Deseja tudo, espera pouco, não peças nada». Sou eu, sem tirar nem pôr.
Não fiz os filmes que queria porque escolhi um médium universal para me exprimir, e porque nasci – e escolhi viver – num país periférico, perdido no mapa da grande cultura popular que é o cinema, onde os filmes nem sequer falam aos seus contemporâneos. Mas tenho vivido como aprendi nos livros que li e nos filmes que amei. Isso me basta. Não tenho outra biografia nem terei outro epitáfio.
Foi a ficção que me ensinou a procurar viver com coragem e justiça, paixão e compaixão; e a aceitar, sem resignação nem azedume, conviver com a imperfeição do mundo e a duplicidade dos homens.
20 de junho de 2005
As portas ao lado
"É um menino. Chama-se Gustavo como o pai.”
In A Porta ao Lado, de Guilherme de Melo
Esta é a história de Guto.
Claro que Guto é um diminutivo carinhoso para Gustavo, aliás Pedro Gustavo. Pedro porque o avô era Pedro. Gustavo porque o pai era Gustavo. Ambos tinham já morrido, quando Guto nasceu.
Nasceu, ou entrou na vida, pela porta certa. Rodeado de mulheres, criado por mulheres e afogado em mimos pelas mulheres, mãe, avó e criada velha, Guto confessa não ter sentido a falta de um pai. Tinha tudo. Só não tinha um pai. Mas sabia que tinha tido e quem ele era. Havia uma fotografia. A mãe contara-lhe que o pai não o chegara a conhecer. Morrera antes dele nascer.
Num romance narrado pelos próprios protagonistas a duas vozes, vai-se desenrolando a verdade. Marta Lemos é professora do Liceu e faz traduções. Estas actividades preenchem-lhe a vida intelectual, enquanto a vida afectiva é preenchida pelo filho Guto, o filho que ela tanto desejou e a quem deu tudo o que uma mãe pode dar: colo, conforto, amor e ensinamentos para o caminho.
Contudo, a vida de Marta nada tem a ver com os sonhos que alimentou, quando adolescente e estudante se apaixonou por Gustavo. Ela em Letras, ele em Direito. A vida dos dois é o retrato fiel dos estudantes dessa época. As convenções começavam a cair, mas ainda havia algum caminho a percorrer. No meio desse caminho, a guerra colonial roubou-lhes os sonhos. A guerra acabou, mas Gustavo não voltou. Uma mina traiçoeira, ainda teimosa em continuar a guerra, tirou a vida àquele soldado já em missão de paz.
As recordações de Guto da primeira infância estão todas no meio daquelas mulheres, dentro daquela grande casa de família, em Castelo Branco. As memórias da família são as da família da mãe e das primas, da tia Mena, que tanto contribuíram também para o excesso de mimo.
Um dia, casualmente, Guto descobre um retrato igual ao que a mãe conservava em casa, o retrato do seu pai. E uma evidência abanou-lhe os nervos todos do corpo, deixando-o sem saber o que fazer. O seu “pai” tinha morrido dois anos antes do seu nascimento. Tinha que procurar a verdade! Ela estava certamente guardada a sete chaves entre as coisas mais íntimas da mãe.
Procurou e encontrou vários recortes dos jornais. Entre eles uma notícia com vinte e três anos, a sua idade. Um bebé tinha sido raptado na Costa da Caparica , perto da Fonte da Telha. Tinha dois meses e chamava-se Abílio. Guto não sabia o que fazer com esta nova identidade. Agora tudo se tornava muito claro na sua cabeça.
Disfarçado de jornalista, visitou a sua família natural. Não reconheceu naquela mãe, a sua mãe, nem naquele pai, o seu pai, sonhado e idealizado pela ausência. Eram pobres e o que mais os interessava era saber como teriam direito ao pequeno apartamento da Picheleira, que estava arrendado em nome da avó. Uma avó doente assistia a estas discussões patéticas e pedia “Fanta”, saindo apenas da sua boca um som semelhante a “anta”. Mais do que pobre, tudo era lúgubre.
Depois de conjecturas várias, a opção tinha que ser dele. E para não magoar nem a mãe que o “trouxe no ventre”, nem a mãe que fez dele “o filho bem amado”, devia guardar para si esta descoberta. “E é o que é, apenas porque, ao invés de nela ( na vida) ter entrado pela porta que me estava reservada desde o berço, nela entrei pela porta ao lado.”
Esta conclusão inquieta do Guto, remeteu-me para as minhas próprias inquietações, para as mais remotas. Muito criança, disseram-me que a idade da razão se atingia aos sete anos. A partir daí sim, todos os pecados contavam e eu admiti-o porque, nesses tempos, havia tempos muito exactos para tudo.
Antes dessa idade atormentou-me um pensamento que só a crença na sorte (que já deve ter nascido comigo) me desatormentou. Eu desconhecia em absoluto o que era a herança genética. Sabia lá por que é que uns era mais claros e outros mais escuros!
Um dia recordo-me de passar em frente às casas onde moravam os pobres que, em África, eram negros. As casas dos pobres em África eram palhotas. E as crianças pobres em África andavam descalças e nuas, com muito ranho no nariz. Como eu não conhecia meninos brancos nus e descalços e com ranho no nariz, a morarem em palhotas, pensei muito dentro de mim que aquilo só acontecia aos meninos que tinham tido menos sorte e tinham nascido pretos. Que sorte eu tinha tido ter nascido branca! Podia não ter tudo, mas pelo menos tinha uma casa de pedra e cal, roupa e brinquedos. Mais tarde acabei por ver meninos brancos descalços, nus e com ranho no nariz.
E, com a mesma inquietação, voltei a interrogar-me se é mesmo a sorte que determina haver ou não “a porta ao lado”.
Guilherme José de Melo nasceu em Lourenço Marques, hoje cidade de Maputo, a 20 de Janeiro de 1931, onde viveu até 1974, exercendo as funções de jornalista, no jornal Notícias. Já então se distinguia pelo carácter mais literário das suas peças. Foi sempre um homem de cultura e a integração em Portugal não foi difícil, nem a nível profissional, nem a nível literário, como provam as obras já publicadas.
Reformou-se do Diário de Notícias em 1997.
In A Porta ao Lado, de Guilherme de Melo
Esta é a história de Guto.
Claro que Guto é um diminutivo carinhoso para Gustavo, aliás Pedro Gustavo. Pedro porque o avô era Pedro. Gustavo porque o pai era Gustavo. Ambos tinham já morrido, quando Guto nasceu.
Nasceu, ou entrou na vida, pela porta certa. Rodeado de mulheres, criado por mulheres e afogado em mimos pelas mulheres, mãe, avó e criada velha, Guto confessa não ter sentido a falta de um pai. Tinha tudo. Só não tinha um pai. Mas sabia que tinha tido e quem ele era. Havia uma fotografia. A mãe contara-lhe que o pai não o chegara a conhecer. Morrera antes dele nascer.
Num romance narrado pelos próprios protagonistas a duas vozes, vai-se desenrolando a verdade. Marta Lemos é professora do Liceu e faz traduções. Estas actividades preenchem-lhe a vida intelectual, enquanto a vida afectiva é preenchida pelo filho Guto, o filho que ela tanto desejou e a quem deu tudo o que uma mãe pode dar: colo, conforto, amor e ensinamentos para o caminho.
Contudo, a vida de Marta nada tem a ver com os sonhos que alimentou, quando adolescente e estudante se apaixonou por Gustavo. Ela em Letras, ele em Direito. A vida dos dois é o retrato fiel dos estudantes dessa época. As convenções começavam a cair, mas ainda havia algum caminho a percorrer. No meio desse caminho, a guerra colonial roubou-lhes os sonhos. A guerra acabou, mas Gustavo não voltou. Uma mina traiçoeira, ainda teimosa em continuar a guerra, tirou a vida àquele soldado já em missão de paz.
As recordações de Guto da primeira infância estão todas no meio daquelas mulheres, dentro daquela grande casa de família, em Castelo Branco. As memórias da família são as da família da mãe e das primas, da tia Mena, que tanto contribuíram também para o excesso de mimo.
Um dia, casualmente, Guto descobre um retrato igual ao que a mãe conservava em casa, o retrato do seu pai. E uma evidência abanou-lhe os nervos todos do corpo, deixando-o sem saber o que fazer. O seu “pai” tinha morrido dois anos antes do seu nascimento. Tinha que procurar a verdade! Ela estava certamente guardada a sete chaves entre as coisas mais íntimas da mãe.
Procurou e encontrou vários recortes dos jornais. Entre eles uma notícia com vinte e três anos, a sua idade. Um bebé tinha sido raptado na Costa da Caparica , perto da Fonte da Telha. Tinha dois meses e chamava-se Abílio. Guto não sabia o que fazer com esta nova identidade. Agora tudo se tornava muito claro na sua cabeça.
Disfarçado de jornalista, visitou a sua família natural. Não reconheceu naquela mãe, a sua mãe, nem naquele pai, o seu pai, sonhado e idealizado pela ausência. Eram pobres e o que mais os interessava era saber como teriam direito ao pequeno apartamento da Picheleira, que estava arrendado em nome da avó. Uma avó doente assistia a estas discussões patéticas e pedia “Fanta”, saindo apenas da sua boca um som semelhante a “anta”. Mais do que pobre, tudo era lúgubre.
Depois de conjecturas várias, a opção tinha que ser dele. E para não magoar nem a mãe que o “trouxe no ventre”, nem a mãe que fez dele “o filho bem amado”, devia guardar para si esta descoberta. “E é o que é, apenas porque, ao invés de nela ( na vida) ter entrado pela porta que me estava reservada desde o berço, nela entrei pela porta ao lado.”
Esta conclusão inquieta do Guto, remeteu-me para as minhas próprias inquietações, para as mais remotas. Muito criança, disseram-me que a idade da razão se atingia aos sete anos. A partir daí sim, todos os pecados contavam e eu admiti-o porque, nesses tempos, havia tempos muito exactos para tudo.
Antes dessa idade atormentou-me um pensamento que só a crença na sorte (que já deve ter nascido comigo) me desatormentou. Eu desconhecia em absoluto o que era a herança genética. Sabia lá por que é que uns era mais claros e outros mais escuros!
Um dia recordo-me de passar em frente às casas onde moravam os pobres que, em África, eram negros. As casas dos pobres em África eram palhotas. E as crianças pobres em África andavam descalças e nuas, com muito ranho no nariz. Como eu não conhecia meninos brancos nus e descalços e com ranho no nariz, a morarem em palhotas, pensei muito dentro de mim que aquilo só acontecia aos meninos que tinham tido menos sorte e tinham nascido pretos. Que sorte eu tinha tido ter nascido branca! Podia não ter tudo, mas pelo menos tinha uma casa de pedra e cal, roupa e brinquedos. Mais tarde acabei por ver meninos brancos descalços, nus e com ranho no nariz.
E, com a mesma inquietação, voltei a interrogar-me se é mesmo a sorte que determina haver ou não “a porta ao lado”.
Guilherme José de Melo nasceu em Lourenço Marques, hoje cidade de Maputo, a 20 de Janeiro de 1931, onde viveu até 1974, exercendo as funções de jornalista, no jornal Notícias. Já então se distinguia pelo carácter mais literário das suas peças. Foi sempre um homem de cultura e a integração em Portugal não foi difícil, nem a nível profissional, nem a nível literário, como provam as obras já publicadas.
Reformou-se do Diário de Notícias em 1997.
10 de junho de 2005
Somewhere over the rainbow
A ideia de que os sonhos têm um tempo e um espaço para se tornarem realidade mora, às vezes quase clandestinamente, dentro de todos nós. A voz de Judy Garland imortalizou essa ideia, cantando-a. “Somewhere over the rainbow skies are blue… And the dreams that you dare to dream really do come true.” A ousadia é sonhar!
Judy era então a pequena Dorothy num filme feito todo de magia, tal como esses sonhos: homens de lata, velhinhas que fazem o seu tricot sentadas numa nuvem, cães maravilha como Toto, uma estrada de tijolos amarelos, o céu azul e o arco-íris da cantiga. E um feiticeiro que transforma qualquer desejo em realidade, o Feiticeiro de Oz. Foi um sucesso, tornou-se um clássico. O New York Daily News, reconheceu de imediato o valor de Judy como actriz e cantora, cuja voz era emocionalmente perfeita para esta magia...
Judy tinha apenas dezassete anos (dezasseis quando rodou o filme) e apaixonou o mundo com a sua voz. Ganhou o Prémio da Academia pela melhor interpretação juvenil. Decorria o ano de 1939 e o mundo precisava de fantasia, pois eclodia a Segunda Guerra Mundial.
Segundo alguns biógrafos, Judy foi a primeira actriz a ter consciência do papel encorajador junto dos soldados e a fazê-lo espontaneamente, mesmo quando o tempo disponível era pouco
Frances Ethel Gumm nasceu a 10 de Junho de 1922, no estado de Minnesota. Terceira filha de dois actores de vaudeville (corruptela do francês "voix de ville", canção parisiense do século XVI),.Frank e Ethel inspiraram-se nos seus nomes para baptizarem a filha que tratavam por Baby ou Frank Jr, porque de facto eles desejariam que Judy tivesse nascido rapaz... De Frank terá Judy herdado o talento de cantar.
A primeira infância foi um período feliz, com uma mãe carinhosa, cuja prioridade era a família, apesar de alguns verem na figura materna apenas o lado empresarial, papel que lhe coube de facto. Tanto o pai como a mãe tentaram transmitir às filhas o gosto pela música e pela arte de entreter. Aos dois anos e meio (dizem) terá feito a sua primeira aparição, num espectáculo de Natal, cantando “Jingle Bells”, incluída numa actuação dos pais.
Dois anos mais tarde, a família mudava-se para a Califórnia, Lancaster, onde Judy e as irmãs cantavam em teatros, clubes e na rádio. Ao pai, Frank Gumm, não seria concedido assistir ao sucesso da filha, pois poucas semanas depois de Judy ter assinado um contrato de sete anos com a poderosa fábrica de estrelas MGM, Frank morreu subitamente, vítima de meningite. Este foi o pior acontecimento da sua vida... A infância feliz tinha chegado ao fim. As três irmãs já tinham mudado o apelido para Garland, por sugestão alheia e razões artísticas, tendo Baby Gumm escolhido Judy para seu primeiro nome.
Judy Garland, para sempre.
Entre os momentos importantes deste princípio de carreira, conta-se a festa de aniversário de Clark Gable, onde Judy cantou, em nome de todas as meninas americanas apaixonadas pelo ídolo, uma versão emocionada de “You made me love you”. Dias depois começaram a surgir pequenos papéis no cinema. E não tardaria a aparecer então o papel que a tornaria para sempre uma das estrelas mais brilhantes desse universo da fama, Dorothy, O Feiticeiro de Oz. Judy tinha apenas dezasseis anos, muito verdadeiros de inocência e naturalidade. Ela era “doce e adorável”, como recorda o actor que interpretou o Homem Lata. “Não era como algumas (actrizes) de dezasseis anos que representam como se tivessem sessenta...”, acrescentava.
Mas quando se recorda Judy Garland não se consegue evitar a lembrança de uma mulher emocionalmente instável, que casou cinco vezes, uma das quais com um nome grande da tela: o realizador Vicent Minelli, por quem se apaixonou durante a rodagem de um outro musical, em 1944, “Meet me in St Louis”. Era o seu segundo casamento e apesar do nascimento da filha Liza, apesar da dedicação de Vincent, o casamento chegava ao fim no início dos anos cinquenta. A inquietação de Judy é normalmente atribuída à medicação que lhe tinha sido prescrita para controlar o peso, que terá acabado por lhe arrasar os nervos, dormindo à custa de uns medicamentos e acordando à custa de outros...
Remando contra a adversidade que já integrava a sua personalidade, tal como a voz e o talento, Judy voltaria a brilhar nos néons de Hollywood: “A Star is born” é outro dos inesquecíveis trabalhos de Judy no cinema, que lhe valeu uma nomeação para o Óscar de Melhor Actriz, em 1955. Estava então casada com Sidney Luft, pai de Lorna e Joseph, seu único filho rapaz. A vida artística continuou, mas este casamento terminou, tendo sido o mais longo dos cinco.
Conta-se ainda entre os momentos altos da vida da “menina pequena de voz grande”, mais uma pobre menina rica, a nomeação para um outro Óscar da Academia, na categoria de actriz secundária, pela sua interpretação no filme “O julgamento de Nuruemberg”, em 1961.
A 22 de Junho de 1969, Judy sucumbiu a uma overdose de barbitúricos, ocasional, segundo os familiares. Tinha quarenta sete anos vividos ao dia, à hora, ao minuto, provavelmente. Quarenta e quatro desses anos foram de trabalho. Parece terem sido todos consumidos na busca da paz interior que não conseguia encontrar.
Judy inspirou uma rosa, amarela matizada de laranja avermelhado, que tem o seu nome e é cultivada nos jardins da Casa Museu. Bela homenagem, plena de simbolismo: a beleza nunca perdida, a tranquilidade jamais encontrada.
Judy e a eterna canção vivem, certamente, num céu azul, para lá do arco-íris...
(Publicado pela Editora Ela Por Ela, Divas do Cinema, em 2003)
Judy era então a pequena Dorothy num filme feito todo de magia, tal como esses sonhos: homens de lata, velhinhas que fazem o seu tricot sentadas numa nuvem, cães maravilha como Toto, uma estrada de tijolos amarelos, o céu azul e o arco-íris da cantiga. E um feiticeiro que transforma qualquer desejo em realidade, o Feiticeiro de Oz. Foi um sucesso, tornou-se um clássico. O New York Daily News, reconheceu de imediato o valor de Judy como actriz e cantora, cuja voz era emocionalmente perfeita para esta magia...
Judy tinha apenas dezassete anos (dezasseis quando rodou o filme) e apaixonou o mundo com a sua voz. Ganhou o Prémio da Academia pela melhor interpretação juvenil. Decorria o ano de 1939 e o mundo precisava de fantasia, pois eclodia a Segunda Guerra Mundial.
Segundo alguns biógrafos, Judy foi a primeira actriz a ter consciência do papel encorajador junto dos soldados e a fazê-lo espontaneamente, mesmo quando o tempo disponível era pouco
Frances Ethel Gumm nasceu a 10 de Junho de 1922, no estado de Minnesota. Terceira filha de dois actores de vaudeville (corruptela do francês "voix de ville", canção parisiense do século XVI),.Frank e Ethel inspiraram-se nos seus nomes para baptizarem a filha que tratavam por Baby ou Frank Jr, porque de facto eles desejariam que Judy tivesse nascido rapaz... De Frank terá Judy herdado o talento de cantar.
A primeira infância foi um período feliz, com uma mãe carinhosa, cuja prioridade era a família, apesar de alguns verem na figura materna apenas o lado empresarial, papel que lhe coube de facto. Tanto o pai como a mãe tentaram transmitir às filhas o gosto pela música e pela arte de entreter. Aos dois anos e meio (dizem) terá feito a sua primeira aparição, num espectáculo de Natal, cantando “Jingle Bells”, incluída numa actuação dos pais.
Dois anos mais tarde, a família mudava-se para a Califórnia, Lancaster, onde Judy e as irmãs cantavam em teatros, clubes e na rádio. Ao pai, Frank Gumm, não seria concedido assistir ao sucesso da filha, pois poucas semanas depois de Judy ter assinado um contrato de sete anos com a poderosa fábrica de estrelas MGM, Frank morreu subitamente, vítima de meningite. Este foi o pior acontecimento da sua vida... A infância feliz tinha chegado ao fim. As três irmãs já tinham mudado o apelido para Garland, por sugestão alheia e razões artísticas, tendo Baby Gumm escolhido Judy para seu primeiro nome.
Judy Garland, para sempre.
Entre os momentos importantes deste princípio de carreira, conta-se a festa de aniversário de Clark Gable, onde Judy cantou, em nome de todas as meninas americanas apaixonadas pelo ídolo, uma versão emocionada de “You made me love you”. Dias depois começaram a surgir pequenos papéis no cinema. E não tardaria a aparecer então o papel que a tornaria para sempre uma das estrelas mais brilhantes desse universo da fama, Dorothy, O Feiticeiro de Oz. Judy tinha apenas dezasseis anos, muito verdadeiros de inocência e naturalidade. Ela era “doce e adorável”, como recorda o actor que interpretou o Homem Lata. “Não era como algumas (actrizes) de dezasseis anos que representam como se tivessem sessenta...”, acrescentava.
Mas quando se recorda Judy Garland não se consegue evitar a lembrança de uma mulher emocionalmente instável, que casou cinco vezes, uma das quais com um nome grande da tela: o realizador Vicent Minelli, por quem se apaixonou durante a rodagem de um outro musical, em 1944, “Meet me in St Louis”. Era o seu segundo casamento e apesar do nascimento da filha Liza, apesar da dedicação de Vincent, o casamento chegava ao fim no início dos anos cinquenta. A inquietação de Judy é normalmente atribuída à medicação que lhe tinha sido prescrita para controlar o peso, que terá acabado por lhe arrasar os nervos, dormindo à custa de uns medicamentos e acordando à custa de outros...
Remando contra a adversidade que já integrava a sua personalidade, tal como a voz e o talento, Judy voltaria a brilhar nos néons de Hollywood: “A Star is born” é outro dos inesquecíveis trabalhos de Judy no cinema, que lhe valeu uma nomeação para o Óscar de Melhor Actriz, em 1955. Estava então casada com Sidney Luft, pai de Lorna e Joseph, seu único filho rapaz. A vida artística continuou, mas este casamento terminou, tendo sido o mais longo dos cinco.
Conta-se ainda entre os momentos altos da vida da “menina pequena de voz grande”, mais uma pobre menina rica, a nomeação para um outro Óscar da Academia, na categoria de actriz secundária, pela sua interpretação no filme “O julgamento de Nuruemberg”, em 1961.
A 22 de Junho de 1969, Judy sucumbiu a uma overdose de barbitúricos, ocasional, segundo os familiares. Tinha quarenta sete anos vividos ao dia, à hora, ao minuto, provavelmente. Quarenta e quatro desses anos foram de trabalho. Parece terem sido todos consumidos na busca da paz interior que não conseguia encontrar.
Judy inspirou uma rosa, amarela matizada de laranja avermelhado, que tem o seu nome e é cultivada nos jardins da Casa Museu. Bela homenagem, plena de simbolismo: a beleza nunca perdida, a tranquilidade jamais encontrada.
Judy e a eterna canção vivem, certamente, num céu azul, para lá do arco-íris...
(Publicado pela Editora Ela Por Ela, Divas do Cinema, em 2003)
1 de junho de 2005
Crianças, "sadinhas" e lua
O escritor que ousou chamar “Os Putos” à sua obra foi Altino do Tojal. A obra consta de uma série de histórias em que os heróis são os tais miúdos. Sobrevivem à custa de uma inocência ainda intocada e guardada, sabe-se lá porquê. O primeiro título foi “Sardinhas e Lua” e a primeira publicação em 1964, em Braga, terra natal do autor.
O menino dessa história, que deu o nome à primeira publicação, leva os dias sentado na soleira da porta, sozinho, à espera que a mãe chegue, de canastra vazia, ou quase vazia. Há sempre a “sadinha” que sobrou para ele para o filho, para a sua “jóia”, como ela lhe chama, carinhosamente.
Depois, é só o tempo de confeccionar a “sadinha” e começam a chegar os homens grandes. Há medo nestas linhas. Há incompreensão. Mas há a ternura imensa do menino que escolhe a Lua, para companhia do seu jantar. O cão e o gato são hóspedes habituais, com quem tem mesmo que partilhar o seu magro jantar. Eles, como ele, também têm a fome escavada nas caras. O cão e o gato também são muito pobres. A Lua, não. A Lua é “branca e gorda”, tem “as faces cheias”, “devia comer muitas sardinhas”... Ela recusava sempre e até parecia que a ouvia dizer: “Tome tu, menino.”
Acabado o jantar, ali ficava na soleira da porta, a conversar com a Lua. Até quase se esquecia dos homens grandes. Até a mãe o vir buscar, para dormir. Ele olhava então para a Lua, despedia-se dela e esperava que ela percebesse aquele triunfo. Ele, o homem pequenino, é que ia dormir com a mãe.
O menino dessa história, que deu o nome à primeira publicação, leva os dias sentado na soleira da porta, sozinho, à espera que a mãe chegue, de canastra vazia, ou quase vazia. Há sempre a “sadinha” que sobrou para ele para o filho, para a sua “jóia”, como ela lhe chama, carinhosamente.
Depois, é só o tempo de confeccionar a “sadinha” e começam a chegar os homens grandes. Há medo nestas linhas. Há incompreensão. Mas há a ternura imensa do menino que escolhe a Lua, para companhia do seu jantar. O cão e o gato são hóspedes habituais, com quem tem mesmo que partilhar o seu magro jantar. Eles, como ele, também têm a fome escavada nas caras. O cão e o gato também são muito pobres. A Lua, não. A Lua é “branca e gorda”, tem “as faces cheias”, “devia comer muitas sardinhas”... Ela recusava sempre e até parecia que a ouvia dizer: “Tome tu, menino.”
Acabado o jantar, ali ficava na soleira da porta, a conversar com a Lua. Até quase se esquecia dos homens grandes. Até a mãe o vir buscar, para dormir. Ele olhava então para a Lua, despedia-se dela e esperava que ela percebesse aquele triunfo. Ele, o homem pequenino, é que ia dormir com a mãe.
1 de maio de 2005
Dia das Mães
Embora mantenha na memória o gosto que senti ao longo de todas as histórias, de Mia Couto, em Cronicando, há uma especial: a do filho que dá à luz a mãe.
Chama-se o Filho da Morte e é uma história de morte e de vida, num campo de refugiados, “que se doseavam, na aplicação da tristeza.” Talvez por isso, por terem que dosear a tristeza, não fosse ela consumida em doses mortais, não se ocupavam muito dos mortos, nem mesmo neste caso, tratando-se de uma grávida. “Estavam demasiado ocupados em sobrevivências.” Mas a pele luzidia e volumosa teimava em atrair uma atenção qualquer e a morta entrou em trabalho de parto, porque naquele dia, naquele corpo, a vida “fez horas extraordinárias”. Ninguém se mexeu! Ninguém excepto a “cabistonta” Tazarina, que sofria de tremuras tais que nem a si própria parecia conseguir amparar-se. Mas foi ela que pegou e deu colo àquele ser que vinha do outro lado da vida e, com ela, o choro do recém nascido cessou. O corpo dela ganhou forma e volume quase instantaneamente. Apoderou-se dela a verdadeira maternidade: “os seios se volumavam, os olhos se maternizavam”. “Nunca se viu, dizem, mãe em tanta compostura.”
É impossível falar do texto, sem recorrer às próprias palavras do autor, pois não há no nosso vocabulário palavras que substituam as que ele inventa. Maternizar... significa tornar materno. E foi o que aconteceu à Tazarina, ou melhor aos seus olhos, tornaram-se olhos de mãe.
Chama-se o Filho da Morte e é uma história de morte e de vida, num campo de refugiados, “que se doseavam, na aplicação da tristeza.” Talvez por isso, por terem que dosear a tristeza, não fosse ela consumida em doses mortais, não se ocupavam muito dos mortos, nem mesmo neste caso, tratando-se de uma grávida. “Estavam demasiado ocupados em sobrevivências.” Mas a pele luzidia e volumosa teimava em atrair uma atenção qualquer e a morta entrou em trabalho de parto, porque naquele dia, naquele corpo, a vida “fez horas extraordinárias”. Ninguém se mexeu! Ninguém excepto a “cabistonta” Tazarina, que sofria de tremuras tais que nem a si própria parecia conseguir amparar-se. Mas foi ela que pegou e deu colo àquele ser que vinha do outro lado da vida e, com ela, o choro do recém nascido cessou. O corpo dela ganhou forma e volume quase instantaneamente. Apoderou-se dela a verdadeira maternidade: “os seios se volumavam, os olhos se maternizavam”. “Nunca se viu, dizem, mãe em tanta compostura.”
É impossível falar do texto, sem recorrer às próprias palavras do autor, pois não há no nosso vocabulário palavras que substituam as que ele inventa. Maternizar... significa tornar materno. E foi o que aconteceu à Tazarina, ou melhor aos seus olhos, tornaram-se olhos de mãe.
29 de abril de 2005
Olhai os Lírios do Campo!
Devia-lhe tudo: a vida, (...) e um milhão de coisas pequenas.
In Olhai os Lírios do Campo, de Erico Veríssimo
Há um dia na nossa vida em que alteamos o salto do sapato, mudamos o penteado, usamos a nossa própria chave de casa... por aí adiante. Isto é: há mesmo um dia, em que deixamos de ser crianças. Aparentemente, de um momento para o outro, como se isso não fosse um processo, por vezes tão demorado, que nos pode tomar conta da vida inteira!
E houve esse dia em que achei que as leituras de criança deviam ser postas de lado e devia começar a ler livros de pessoas crescidas.( Como eu estava enganada! Continuo a ler livros de crianças. E gosto.) Então, aos treze anos, escolhi o livro que devia marcar a minha maioridade “literária”: Olhai os lírios do campo, de Erico Veríssimo.
Quando, alguns anos mais tarde o reli, percebi que os meus treze da altura eram claramente insuficientes, para perceber a complexidade dos livros e das vidas dos crescidos.
Para além dessas vidas complicadas dos adultos, há ainda o processo narrativo, em que os tempos se misturam e se soltam recordações, aparentemente avulsas.
Ao longo de doze capítulos, o Doutor Eugénio percorre um longo caminho entre a sua casa e o hospital, onde Olívia o espera para o ver e depois morrer.
Mergulha em recordações. Sempre as mesmas recordações: a humilhação dos colegas por ter a “calça furada”, a vergonha de confessar que o pai é pobre, os anos da Faculdade, em que conheceu Olívia, estudante de Medicina como ele.
A casa do seus pais e a pobreza, a tristeza, a doença do irmão Ângelo, a vergonha das desordens provocadas por Ernesto. A coragem da mãe, a quem devia tudo, “a vida”, “as meias remendadas”, o “milhão de coisas pequenas” e que não se vergava às catástrofes. Ganhava e reganhava força, repetindo “Deus é grande!”
Mas mais do que essas recordações da infância pobre, atormenta-o a consciência do preço que pagou pela fama, pela fortuna e pelo sucesso do homem presente. Pagou-os com sentimentos, esgotando-os até à penúria. É esse mesmo Eugénio, que emerge dessas recordações, aqui e ali, enfraquecido pelo medo e pela mentira. Olívia quer vê-lo, antes de morrer. Ela está a morrer e sabe-o. E Eugénio tem medo que a mulher, Eunice, descubra a verdade, tanto quanto teme que Olívia morra.
Recorda-a, no dia da entrega dos diplomas. Era a única mulher daquela turma de Medicina e trabalhava num laboratório de análise clínicas, para pagar o curso. Era calma e tranquila. Admirava a sua simplicidade, o que fazia com que se sentisse bem ao pé dela. Não era uma mulher como as outras. Nas outras, via a sofisticação feminina que lhe davam luta de macho, mas não lhe ofereciam a amizade e tranquilidade que Olívia lhe estendia. Tudo parecia uni-los: eram os dois “obscuros e pobres”, ao contrário dos outros estudantes daquela Faculdade.
Nesse dia, ou nessa noite, Eugénio confessou a Olívia o horrível peso da sua condição de pobre, a falta de vocação para a medicina. O curso, queria-o para ser rico e pertencer à esfera brilhante da sociedade.
Olívia tentou oferecer-lhe o sentimento da dignidade que a profissão impõe. Ajudou-o a ultrapassar o fracasso, quando o doente, que o médico mais velho lhe deu para operar, lhe morreu nas mãos. Ensinou-o também a conviver com o sucesso, quando o ajudou a salvar um menino, que morria com difteria.
É, porém, Olívia que um dia o deixa à mercê dos medos e das vergonhas, à mercê de Eunice Torres, menina rica e mimada que caprichosamente vai desejar Eugénio , para ostentar um pobre diabo, como quem exibe uma extravagância rara. Filha de um poderoso industrial, este é o passaporte de Eugénio para o mundo desejado, o dos ricos e poderosos.
Quando Eugénio chega ao Hospital, Olívia já morreu.
Da amálgama de sentimentos e de memórias se faz a determinação de começar uma vida nova, tomando à letra as palavras de Olívia, que dizia que a vida pode começar todos os dias.
A vida vai começar, ou recomeçar, ao lado da filha Ana Maria, legado de Olívia. A personagem reconstrói-se e Eugénio evolui para um homem reconciliado com a condição humana, mesmo a mais pobre.
A história de Eugénio é uma lição de vida e vale a leitura. Obriga-nos a uma reflexão sobre valores, que parecem arredar-se dos comportamentos de hoje, mesmo contra a nossa vontade. E vale também pelo “nosso português” em que Erico Veríssimo se expressava, enriquecido com registos da oralidade do português do Brasil. “Um, dois, feijão com arrois”
Leitura sugerida- Olhai os Lírios do Campo , de Erico Veríssimo
Erico Lopes Veríssimo nasceu a 17 de Dezembro de 1905, em Cruz Alta e faleceu a 28 de Novembro de 1975, Porto Alegre. É considerado pelos críticos “uma das grandes expressões da moderna ficção brasileira”.
Para além da obra, deixou o testemunho de divulgação da cultura Brasileira e da Literatura, através da conferência e mesmo do exercício da função docente, nos Estados Unidos.
In Olhai os Lírios do Campo, de Erico Veríssimo
Há um dia na nossa vida em que alteamos o salto do sapato, mudamos o penteado, usamos a nossa própria chave de casa... por aí adiante. Isto é: há mesmo um dia, em que deixamos de ser crianças. Aparentemente, de um momento para o outro, como se isso não fosse um processo, por vezes tão demorado, que nos pode tomar conta da vida inteira!
E houve esse dia em que achei que as leituras de criança deviam ser postas de lado e devia começar a ler livros de pessoas crescidas.( Como eu estava enganada! Continuo a ler livros de crianças. E gosto.) Então, aos treze anos, escolhi o livro que devia marcar a minha maioridade “literária”: Olhai os lírios do campo, de Erico Veríssimo.
Quando, alguns anos mais tarde o reli, percebi que os meus treze da altura eram claramente insuficientes, para perceber a complexidade dos livros e das vidas dos crescidos.
Para além dessas vidas complicadas dos adultos, há ainda o processo narrativo, em que os tempos se misturam e se soltam recordações, aparentemente avulsas.
Ao longo de doze capítulos, o Doutor Eugénio percorre um longo caminho entre a sua casa e o hospital, onde Olívia o espera para o ver e depois morrer.
Mergulha em recordações. Sempre as mesmas recordações: a humilhação dos colegas por ter a “calça furada”, a vergonha de confessar que o pai é pobre, os anos da Faculdade, em que conheceu Olívia, estudante de Medicina como ele.
A casa do seus pais e a pobreza, a tristeza, a doença do irmão Ângelo, a vergonha das desordens provocadas por Ernesto. A coragem da mãe, a quem devia tudo, “a vida”, “as meias remendadas”, o “milhão de coisas pequenas” e que não se vergava às catástrofes. Ganhava e reganhava força, repetindo “Deus é grande!”
Mas mais do que essas recordações da infância pobre, atormenta-o a consciência do preço que pagou pela fama, pela fortuna e pelo sucesso do homem presente. Pagou-os com sentimentos, esgotando-os até à penúria. É esse mesmo Eugénio, que emerge dessas recordações, aqui e ali, enfraquecido pelo medo e pela mentira. Olívia quer vê-lo, antes de morrer. Ela está a morrer e sabe-o. E Eugénio tem medo que a mulher, Eunice, descubra a verdade, tanto quanto teme que Olívia morra.
Recorda-a, no dia da entrega dos diplomas. Era a única mulher daquela turma de Medicina e trabalhava num laboratório de análise clínicas, para pagar o curso. Era calma e tranquila. Admirava a sua simplicidade, o que fazia com que se sentisse bem ao pé dela. Não era uma mulher como as outras. Nas outras, via a sofisticação feminina que lhe davam luta de macho, mas não lhe ofereciam a amizade e tranquilidade que Olívia lhe estendia. Tudo parecia uni-los: eram os dois “obscuros e pobres”, ao contrário dos outros estudantes daquela Faculdade.
Nesse dia, ou nessa noite, Eugénio confessou a Olívia o horrível peso da sua condição de pobre, a falta de vocação para a medicina. O curso, queria-o para ser rico e pertencer à esfera brilhante da sociedade.
Olívia tentou oferecer-lhe o sentimento da dignidade que a profissão impõe. Ajudou-o a ultrapassar o fracasso, quando o doente, que o médico mais velho lhe deu para operar, lhe morreu nas mãos. Ensinou-o também a conviver com o sucesso, quando o ajudou a salvar um menino, que morria com difteria.
É, porém, Olívia que um dia o deixa à mercê dos medos e das vergonhas, à mercê de Eunice Torres, menina rica e mimada que caprichosamente vai desejar Eugénio , para ostentar um pobre diabo, como quem exibe uma extravagância rara. Filha de um poderoso industrial, este é o passaporte de Eugénio para o mundo desejado, o dos ricos e poderosos.
Quando Eugénio chega ao Hospital, Olívia já morreu.
Da amálgama de sentimentos e de memórias se faz a determinação de começar uma vida nova, tomando à letra as palavras de Olívia, que dizia que a vida pode começar todos os dias.
A vida vai começar, ou recomeçar, ao lado da filha Ana Maria, legado de Olívia. A personagem reconstrói-se e Eugénio evolui para um homem reconciliado com a condição humana, mesmo a mais pobre.
A história de Eugénio é uma lição de vida e vale a leitura. Obriga-nos a uma reflexão sobre valores, que parecem arredar-se dos comportamentos de hoje, mesmo contra a nossa vontade. E vale também pelo “nosso português” em que Erico Veríssimo se expressava, enriquecido com registos da oralidade do português do Brasil. “Um, dois, feijão com arrois”
Leitura sugerida- Olhai os Lírios do Campo , de Erico Veríssimo
Erico Lopes Veríssimo nasceu a 17 de Dezembro de 1905, em Cruz Alta e faleceu a 28 de Novembro de 1975, Porto Alegre. É considerado pelos críticos “uma das grandes expressões da moderna ficção brasileira”.
Para além da obra, deixou o testemunho de divulgação da cultura Brasileira e da Literatura, através da conferência e mesmo do exercício da função docente, nos Estados Unidos.
27 de abril de 2005
Un home une femme
Comme nos voix ba da ba da da da da da da
Chantent tout bas ba da ba da da da da da da
Nos cœurs y voient ba da ba da da da da da da
Comme une chance comme un espoir
Comme nos voix ba da ba da da da da da da
Nos cœurs y croient ba da ba da da da da da da
Encore une fois ba da ba da da da da da da
Tout recommence, la vie repart
Combien de joies
Bien des drames
Et voilà !
C'est une longue histoire
Un homme
Une femme
Ont forgé la trame du hasard.
Comme nos voix
Nos cœurs y voient
Encore une fois
Comme une chance
Comme un espoir.
Comme nos voix
Nos cœurs en joie
On fait le choix
D'une romance
Qui passait là.
Chance qui passait là
Chance pour toi et moi ba da ba da da da da da da
Toi et moi ba da ba da da da da da da
Toi et Toi et moi.
Bon anniversaire, Anouk Aimée!
Chantent tout bas ba da ba da da da da da da
Nos cœurs y voient ba da ba da da da da da da
Comme une chance comme un espoir
Comme nos voix ba da ba da da da da da da
Nos cœurs y croient ba da ba da da da da da da
Encore une fois ba da ba da da da da da da
Tout recommence, la vie repart
Combien de joies
Bien des drames
Et voilà !
C'est une longue histoire
Un homme
Une femme
Ont forgé la trame du hasard.
Comme nos voix
Nos cœurs y voient
Encore une fois
Comme une chance
Comme un espoir.
Comme nos voix
Nos cœurs en joie
On fait le choix
D'une romance
Qui passait là.
Chance qui passait là
Chance pour toi et moi ba da ba da da da da da da
Toi et moi ba da ba da da da da da da
Toi et Toi et moi.
Bon anniversaire, Anouk Aimée!
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