Hospitais Para um Manual de Sobrevivência para doentes e acompanhantes
Aminha mãe planeou a sua doença e a sua morte com a sabedoria ancestral das minhotas. O momento escolhido para a dor de cabeça indescritível provocada pelo aneurisma cruel aconteceu no fim de um dia passado com os netos, levados por ela aos sítios onde se ia encontrar pela última vez com as amigas do Centro Bem-Fazer e depois com as outras velhotas do Café. Como sabia que o seu filho vive em Lisboa e passa temporadas em Inglaterra, escolheu para o transe que a levou a dois hospitais, um dia no qual ele pudesse estar presente quase desde o início. O que ela não podia saber era que ao entrar num hospital a sua idade avançada, 83 anos, iria ser objecto de vários tipos de considerações, por exemplo, de um médico com vocação administrativa sobre o que custa ao Estado um doente em coma por dia e por ano (10.000 contos por ano, disse). De facto, esteve em coma 5 ou 6 dias. Depois, as esperanças eram poucas para alguns médicos, algumas para outros, mas surpreendentemente mais tarde abriria os olhos, agarrava as mãos que lhe eram dadas, tinha um olhar doce e expressivo e passou certos dias algumas horas sentada numa cadeira de rodas. Fui contactado um mês depois para começar preparar a sua saída do hospital.Também não saberia que o seu filho, apesar dos seus esforços incessantes iria gradualmente ficar esmagado pela impotência de quem sabe que por mais que proteste, reclame e exija explicações, não conseguiria enfrentar a burocracia gigantesca que é hoje o funcionamento normal de um hospital. Talvez imaginasse que lá trabalha ainda gente admirável, que possui ainda uma memória do código deontológico, uma ideia do que é um serviço. Como uma jovem médica que, quando pedi explicações sobre um inesperado adiamento da cirurgia para o dia seguinte, sábado, me disse discretamente que não podia dizer o que ia dizer mas que apoiava e admirava o que eu estava a fazer. Mas, trabalha muita gente nos hospitais que esqueceu há muito tudo isso. Trava-se um combate quotidiano entre os admiráveis e os outros. Pode acontecer ir sair um médico tão digno de respeito que faço questão de lhe dar um abraço e ficar responsável alguém que sei antecipadamente que nem sequer irei ver (que poderei nem querer ver) mas que talvez a minha mãe - impotente na sua cama a olhar a impotência do seu filho - não se importasse de ter visto.Os que decidiram adiar a operação marcada no dia anterior fizeram-no com a leveza de quem sente o aproximar do fim-de-semana. Nesses dias um hospital fica reduzido aos médicos da urgência que, além disso, tem a seu cargo todos os que estão nas enfermarias. A partir de sexta-feira às 4 da tarde até à segunda-feira seguinte os hospitais tornam-se locais perigosos. Basta haver muito trabalho na urgência para a situação dos doentes internados ficar próxima do abandono. "Já alertámos os médicos, já estão avisados" repetem as enfermeiras, mas a próxima acção forte irá ser apenas segunda-feira. Os estragos da espera podem ser grandes ou fatais. Mas os burocratas administrativos que cortam nas finanças estão no seu justo descanso semanal e deverão pensar que quando for a sua vez de ir lá parar estarão a salvo. Estão completamente enganados. Nem sequer na privada estarão a salvo porque se alguma coisa corre mal os doentes dos hospitais privados são muitas vezes transferidos para os públicos, melhor equipados, com melhor tecnologia. É por isso que os Institutos de Oncologia são todos públicos porque não são rentáveis. Rentáveis são os DMI e alguns hospitais de tecnologia sofisticada onde os mesmos médicos que estão de manhã nos públicos estão à tarde "a operar".O combate político-económico sobre a saúde pública e privada tem sido feroz. Por isso, face ao tal adiamento - não estava disponível um neuroanestesista no Hospital Central da Região Norte (!) - quando perguntei se teria hipóteses de reunir uma equipa de neurocirurgiões para operar num hospital privado e me é dito "Não digo que não...", a revolta e a repugnância que senti não pode ser escrita. A resposta que dei foi fatal: "Então aqui não podem mas se for na privada, como vão ganhar mil contos cada um, já podem?" Pensei e disse que era inaceitável. Mas estava enganado. Parece que actualmente é prática corrente. Como sabia que estava em perigo de vida e cada hora que passava agravava as expectativas de sucesso entrei em pé de guerra, usei todas as armas à mão, fiz ameaças de todo o tipo e a operação que tinha sido adiada para sábado - o neurocirurgião em causa tinha feito questão de me torturar dizendo que nem no sábado me podia garantir... - afinal foi nessa mesma noite às duas da manhã. Porque o chefe da equipa médica da urgência nessa noite se pôs em acção e persuadiu os renitentes que seria melhor operar. Agradeço-lhe por isso mas não pode ser. Não tem explicação aquilo que foi ouvido por uma porta indiscreta: "Parece que está cá a mãe de um VIP (repugnante palavra) e "eles" meteram água". Como é possível? E as outras mães ou pais?Alguns médicos precisariam de uma reciclagem sobre o que significa ser humano. Tornaram-se negociantes da vida e da morte ao melhor preço. Está muito dinheiro em causa e nunca faltarão clientes. A nota 19 exigida para entrar em Medicina afasta muito provavelmente verdadeiras vocações em detrimento de uma formação que privilegia a terapêutica by the book e negligencia o olhar atento para a pessoa doente. O corpo que está na cama é um caso, um dossier. A rápida ronda matinal - há quantas décadas é que é assim? - seguida de uma prescrição para o resto do dia e da noite, deixa nas mãos dos enfermeiros o real contacto com as pessoas. O discurso sobre a qualidade de vida, sobre os hospitais anglo-saxónicos ou americanos onde a partir de uma certa idade - 70 disseram-me - já nem se entra em cuidados intensivos traduz na verdade a aplicação das políticas que esses países impõem ao resto do mundo. Os velhos são um problema. Enquanto puderem comprar os medicamentos que lhes prolongam a esperança de vida podem fazê-lo. A indústria farmacêutica agradece e acumula lucros fabulosos. As visitas dos doentes graves circulam pelos corredores dos hospitais como almas penadas, com a paralisia estampada no rosto desfigurado pelo sofrimento. Mesmo uma pessoa que vai morrer é uma pessoa. Talvez por isso uma enfermeira (admirável) me tenha dito que era importante estar sempre lá, perguntar, reclamar, porque o comportamento habitual se resumia a três tipos: os que não sabem, os que não podem e os que já desistiram de protestar, de pedir informações ou explicações. Mas há muito pior: como a mulher de 30 anos do quarto ao lado a quem foi prescrito noutro hospital, primeiro, parar com a pílula; três dias depois, recomeçar a tomar; e na terceira ida ao hospital, sugerido consultar um psicólogo. A sua mãe opôs-se: a minha filha não está bem, não precisa de psicólogo nenhum. Tinha um aneurisma e terá danos irreversíveis se sobreviver.Muitos médicos começam as frases por "Estive agora nos Estados Unidos e..." mas esquecem-se de referir a forte responsabilização, os processos e as indemnizações a que lá estão sujeitos administrações e médicos capazes de cometer erros grosseiros e repetidos deste calibre. Assim justifica-se um processo judicial. Para a maioria dos outros casos será urgente a redacção de um Manual de Sobrevivência para doentes e acompanhantes. Pianista e compositor
5 de agosto de 2006
4 de junho de 2006
do Público
Apenas um terço dos docentes não colocados são professores, diz Sócrates
Associação Sindical dos Professores Licenciados afirma-se "decepcionada" com resultados do consurso divulgados na sexta-feira
O primeiro-ministro, José Sócrates, desdramatizou ontem o facto de 60 mil pessoas terem ficado sem colocação no concurso de professores, argumentando que "apenas um terço eram professores".
"Dessas 60 mil pessoas que se candidataram e não foram contratadas, só cerca de um terço eram professores, outros eram pessoas que se candidataram ao lugar de professor" e "nunca foram professores na vida", afirmou aos jornalistas em Resende, Viseu.
Por seu lado, a Associação Sindical de Professores Licenciados (ASPL) afirma-se "decepcionada" com os resulatos do consurso. A ASPL "lamenta que uma vez mais o Ministério da Educação tenha logrado as expectativas de milhares de professores em verem melhorada a sua situação profissional", afirma em comunicado, referindo que "apenas 18% dos candidatos conseguiram ficar num estabelecimento de ensino e que destes 20.989, somente 3151 candidatos ficaram pela primeira vez em lugares de quadro do ME. É inacreditável tal situação!".
O primeiro-ministro afirmou que "o Estado só contrata as pessoas que deve contratar para servir as suas necessidades" e frisou que "o mais importante" deste concurso foi a antecedência com que se souberam os resultados.
"Pela primeira vez fez-se um concurso de professores com tanta antecedência do fim do ano escolar. Agora os professores sabem já qual é o seu lugar, o que revela profissionalismo", considerou. Público/LUSA
Associação Sindical dos Professores Licenciados afirma-se "decepcionada" com resultados do consurso divulgados na sexta-feira
O primeiro-ministro, José Sócrates, desdramatizou ontem o facto de 60 mil pessoas terem ficado sem colocação no concurso de professores, argumentando que "apenas um terço eram professores".
"Dessas 60 mil pessoas que se candidataram e não foram contratadas, só cerca de um terço eram professores, outros eram pessoas que se candidataram ao lugar de professor" e "nunca foram professores na vida", afirmou aos jornalistas em Resende, Viseu.
Por seu lado, a Associação Sindical de Professores Licenciados (ASPL) afirma-se "decepcionada" com os resulatos do consurso. A ASPL "lamenta que uma vez mais o Ministério da Educação tenha logrado as expectativas de milhares de professores em verem melhorada a sua situação profissional", afirma em comunicado, referindo que "apenas 18% dos candidatos conseguiram ficar num estabelecimento de ensino e que destes 20.989, somente 3151 candidatos ficaram pela primeira vez em lugares de quadro do ME. É inacreditável tal situação!".
O primeiro-ministro afirmou que "o Estado só contrata as pessoas que deve contratar para servir as suas necessidades" e frisou que "o mais importante" deste concurso foi a antecedência com que se souberam os resultados.
"Pela primeira vez fez-se um concurso de professores com tanta antecedência do fim do ano escolar. Agora os professores sabem já qual é o seu lugar, o que revela profissionalismo", considerou. Público/LUSA
2 de maio de 2006
Maria Filomena Mónica
Envelhecer Não é Pêra Doce
Destaque: Dantes, qualquer roupa me servia. Agora, só encontro trajos desenhados para anoréxicas. Uma vez que é na cintura que a idade mais partidas nos prega, comprar um par de calças é uma tarefa morosa. Embora ainda me possa gabar dos joelhos, sei que, no máximo, terei um ano durante o qual posso usar mini-saias.
No último dia 30 de Janeiro, fiz sessenta e três anos. De manhã, olhei-me com uma atenção especial: registei as rugas ao canto dos olhos, a carne flácida do pescoço, os ainda poucos cabelos brancos. Dado que aquilo que o espelho me devolvia eram coisas que normalmente acontecem a quem atinge a minha idade, não me revoltei. Nunca tendo tratado do meu corpo, podia ser pior. Mas a beatitude não durou. À medida que o dia avançava, o humor piorou.
Em Dezembro de 1991, tinha eu quarenta e oito anos, dei uma entrevista à revista «Marie Claire», que organizara um número sob o título «O Charme das Mulheres de 50 Anos». Lendo-a, quinze anos depois, o que me surpreende é o meu optimismo. É verdade que já então descobrira não ser imortal, o primeiro sinal de envelhecimento, ou, se preferirem, de sabedoria, mas declarava, com ar pimpão, que ter cinquenta anos era a melhor coisa do mundo. O único facto que lamentava era não poder registar, numa agenda, a data e a hora da minha morte. Tudo o resto eram rosas.
A minha actual posição é mais complexa. Se há coisas boas no envelhecimento, as más ultrapassam-nas de longe. Não querendo ser fúnebre, começo pelas primeiras. À cabeça, vem a evidência de dispor hoje de mais dinheiro do que em jovem, um benefício apenas atenuado pelo facto de o prazer de fazer compras ter desaparecido. Em seguida, tenho atrás de mim uma carreira, o que me dá conforto moral e, uma vez que deixei de prestar atenção ao que os outros pensam de mim, atrevo-me a deixar as minhas excentricidades virem ao de cima.
Seja como for, o prato negativo da balança é mais pesado. Começo pela saúde. Depois dos sessenta anos, raro é o dia em que não temos uma maleita. E não estou a falar de doenças graves, mas de pequenas aflições, uma subida da tensão arterial, uma dor de cabeça, uma lombalgia. Ligado ao menor vigor físico, está a facilidade com que nos cansamos. Dantes, conseguia trabalhar na Biblioteca Nacional das dez da manhã até às sete da tarde; hoje, em dias com sorte, apenas consigo trabalhar seis. Reconheço que é um tempo intensivo, sem interrupções para conversas nem intervalos para café, mas um deus maléfico retirou três horas ao meu dia de trabalho. Infelizmente, há mais. Dantes, qualquer roupa me servia. Agora, só encontro trajos desenhados para anoréxicas. Uma vez que é na cintura que a idade mais partidas nos prega, comprar um par de calças é, como verifiquei ontem, uma tarefa morosa. Embora ainda me possa gabar dos joelhos, sei que, no máximo, terei um ano durante o qual posso usar mini-saias.
Outro aspecto no qual a idade tem efeitos devastadores diz respeito às novas tecnologias. Levei anos a aprender a mudar um fusível, a lidar com uma panela de pressão e a programar um micro-ondas. Ainda consegui - momento de glória - passar da máquina de escrever para o computador, mas a minha evolução parou aqui. Por saber que o tempo gasto a ler instruções não compensaria a utilidade ou o prazer que deles retiraria, já não dei o salto para o telemóvel, muito menos para o Ipod. Fiz um balanço custo-benefício, tendo concluído que o custo de aprender seria maior do que o benefício, uma vez que este nunca poderia exceder mais do que uns anos.
Há ainda, e é decisivo, os amigos que nos deixam. Reconheço que sou lamechas, mas, quando, há um ano, o João Paulo morreu, um pouco de mim desapareceu com ele. Tenho, por fim, de mencionar os medos: o medo de que a reforma não chegue, o medo de perder a razão, o medo de morrer numa cama de um hospital. Tendo em conta o que Henry James chamou «a imaginação para o desastre», poderia encher as páginas desta revista com uma lista infindável. Não o vou fazer, embora pense que é o momento, ou quase o momento, para recordar o refrão dos Beatles, «Will you still need me/ Will you still feed me?», da canção intitulada «When I´m Sixty Four». O pânico é este: o de ficarmos sozinhos ou, pior, de passar a ser dependente de outros. Ora, para isto, não há remédio. Envelhecer é também saber isto.
Destaque: Dantes, qualquer roupa me servia. Agora, só encontro trajos desenhados para anoréxicas. Uma vez que é na cintura que a idade mais partidas nos prega, comprar um par de calças é uma tarefa morosa. Embora ainda me possa gabar dos joelhos, sei que, no máximo, terei um ano durante o qual posso usar mini-saias.
No último dia 30 de Janeiro, fiz sessenta e três anos. De manhã, olhei-me com uma atenção especial: registei as rugas ao canto dos olhos, a carne flácida do pescoço, os ainda poucos cabelos brancos. Dado que aquilo que o espelho me devolvia eram coisas que normalmente acontecem a quem atinge a minha idade, não me revoltei. Nunca tendo tratado do meu corpo, podia ser pior. Mas a beatitude não durou. À medida que o dia avançava, o humor piorou.
Em Dezembro de 1991, tinha eu quarenta e oito anos, dei uma entrevista à revista «Marie Claire», que organizara um número sob o título «O Charme das Mulheres de 50 Anos». Lendo-a, quinze anos depois, o que me surpreende é o meu optimismo. É verdade que já então descobrira não ser imortal, o primeiro sinal de envelhecimento, ou, se preferirem, de sabedoria, mas declarava, com ar pimpão, que ter cinquenta anos era a melhor coisa do mundo. O único facto que lamentava era não poder registar, numa agenda, a data e a hora da minha morte. Tudo o resto eram rosas.
A minha actual posição é mais complexa. Se há coisas boas no envelhecimento, as más ultrapassam-nas de longe. Não querendo ser fúnebre, começo pelas primeiras. À cabeça, vem a evidência de dispor hoje de mais dinheiro do que em jovem, um benefício apenas atenuado pelo facto de o prazer de fazer compras ter desaparecido. Em seguida, tenho atrás de mim uma carreira, o que me dá conforto moral e, uma vez que deixei de prestar atenção ao que os outros pensam de mim, atrevo-me a deixar as minhas excentricidades virem ao de cima.
Seja como for, o prato negativo da balança é mais pesado. Começo pela saúde. Depois dos sessenta anos, raro é o dia em que não temos uma maleita. E não estou a falar de doenças graves, mas de pequenas aflições, uma subida da tensão arterial, uma dor de cabeça, uma lombalgia. Ligado ao menor vigor físico, está a facilidade com que nos cansamos. Dantes, conseguia trabalhar na Biblioteca Nacional das dez da manhã até às sete da tarde; hoje, em dias com sorte, apenas consigo trabalhar seis. Reconheço que é um tempo intensivo, sem interrupções para conversas nem intervalos para café, mas um deus maléfico retirou três horas ao meu dia de trabalho. Infelizmente, há mais. Dantes, qualquer roupa me servia. Agora, só encontro trajos desenhados para anoréxicas. Uma vez que é na cintura que a idade mais partidas nos prega, comprar um par de calças é, como verifiquei ontem, uma tarefa morosa. Embora ainda me possa gabar dos joelhos, sei que, no máximo, terei um ano durante o qual posso usar mini-saias.
Outro aspecto no qual a idade tem efeitos devastadores diz respeito às novas tecnologias. Levei anos a aprender a mudar um fusível, a lidar com uma panela de pressão e a programar um micro-ondas. Ainda consegui - momento de glória - passar da máquina de escrever para o computador, mas a minha evolução parou aqui. Por saber que o tempo gasto a ler instruções não compensaria a utilidade ou o prazer que deles retiraria, já não dei o salto para o telemóvel, muito menos para o Ipod. Fiz um balanço custo-benefício, tendo concluído que o custo de aprender seria maior do que o benefício, uma vez que este nunca poderia exceder mais do que uns anos.
Há ainda, e é decisivo, os amigos que nos deixam. Reconheço que sou lamechas, mas, quando, há um ano, o João Paulo morreu, um pouco de mim desapareceu com ele. Tenho, por fim, de mencionar os medos: o medo de que a reforma não chegue, o medo de perder a razão, o medo de morrer numa cama de um hospital. Tendo em conta o que Henry James chamou «a imaginação para o desastre», poderia encher as páginas desta revista com uma lista infindável. Não o vou fazer, embora pense que é o momento, ou quase o momento, para recordar o refrão dos Beatles, «Will you still need me/ Will you still feed me?», da canção intitulada «When I´m Sixty Four». O pânico é este: o de ficarmos sozinhos ou, pior, de passar a ser dependente de outros. Ora, para isto, não há remédio. Envelhecer é também saber isto.
29 de abril de 2006
Do jornal "O Público"
Alfred Hitchcock
O mestre do suspense viveu dividido entre dois países e duas existências. Nasceu no Reino Unido e, aí, deu os primeiros passos no mundo do cinema, mas foi nos Estados Unidos que realizou os seus maiores clássicos. Fora do set, mantinha um estilo de vida calmo e simples, mas no grande ecrã vivia as suas grandes obsessões e traumas. Alfred Hitchcock tornou-se um génio incontestável na história do cinema. Por Ana Filipa Gaspar
A vida para além do grande ecrã
Alfred Hitchcock nasceu em Leytonstone, Londres, a 13 de Agosto de 1899, apenas um dia antes da sua (futura e única) mulher, Alma Reville. Filho de um casal de vendedores de galinhas e hortaliças, Alfred Joseph Hitchcock tinha um irmão e uma irmã mais velhos, que devido à diferença de idades não brincavam com ele. Assim, a sua infância foi marcada pela solidão e também pela severidade do pai, que uma vez o enviou à prisão com uma mensagem para o polícia o prender durante alguns momentos.
A sua família pertencia à baixa burguesia e era católica praticante. Hitchcock foi, desde cedo, educado pelos padres jesuítas do Saint Ignacius College, onde estudou, como aluno interno, durante cerca de seis anos. Em 1914, o seu pai morreu e Hitch decidiu frequentar o curso de Engenharia na Escola de Engenharia e Navegação. Cerca de três anos depois, começou a trabalhar numa companhia telegráfica, enquanto aprendia a desenhar no curso de Belas-Artes da Universidade de Londres.
Quando tinha 20 anos, ofereceu-se para trabalhar como desenhador nos estúdios da companhia norte-americana Famous Players-Lasky em Londres. E entrava, desta forma, no mundo do cinema. Dois anos depois, a Famous Players alugou os seus estúdios a uma recém-criada produtora britânica, a Gainsborough Pictures. Nela, Hitchcock desempenhou várias funções: foi argumentista, assistente de realização, decorador e realizador.
Em 1923, conheceu Alma Reville, que trabalhava na época como anotadora e montadora no filme Woman to Woman, de Graham Cutts. Um ano depois ficaram noivos e Alfred Hitchcock teve a oportunidade de realizar, na íntegra, um filme. O Jardim das Delícias foi o primeiro dos seus 53 filmes e Alma Reville trabalhou nele como assistente de realização. A crítica e o público elogiaram a estreia de Hitch e esse sucesso foi suficiente para prosseguir com novos trabalhos. Entre eles, The Lodger (1927) foi considerado pelo próprio realizador como “o primeiro filme hitchockiano”.
O casamento com Alma deu-se em Dezembro de 1926 e a única filha do casal, Patricia, nasceu a 7 de Julho de 1928. Lenda ou não, conta-se que, durante a gravidez, Hitchcock não conseguia olhar para Alma, que, além de sua mulher, era a sua mais próxima colaboradora no cinema.
Em 1929, os talkies chegaram aos estúdios ingleses e o décimo filme de Hitch, Chantagem, tornou-se num dos primeiros filmes sonoros britânicos. Cerca de cinco anos depois, o realizador alcançou o reconhecimento mundial com O Homem que Sabia Demais, êxito que conseguiu superar com o seu filme seguinte, Os 39 Degraus (1935), frequentemente referido como o melhor trabalho da sua fase britânica.
O sucesso de A Desaparecida (1938) nos EUA levou o produtor norte-americano David O’Selznick a contratar Hitchcock, que se mudou com a família para Hollywood em 1939, meses antes do início da II Guerra Mundial. Aí, a família Hitchcock manteve um estilo de vida calmo e simples, longe da agitação das festas. O primeiro filme desta nova fase foi Rebecca (1940), que recebeu o Óscar para Melhor Filme. Mais tarde, nas décadas de 50 e 60 (época de substituição dos filmes a preto-e-branco pelos a cores), surgiram os seus maiores clássicos – A Mulher que Viveu Duas Vezes, Intriga Internacional, Psico e Os Pássaros. O seu último filme foi realizado já nos anos 70 – Intriga em Família (1976).
Em 1979, Alfred Hitchcock foi distinguido com o Life Achievement Award do American Film Institute, tornando-se o quarto realizador a receber este prémio. Hitch dedicou-o a quatro pessoas que eram, na verdade, apenas uma: Alma Reville, a sua companheira durante 53 anos. E, a propósito da distinção, disse a alguns amigos que o motivo de estar a recebê-la deveria estar relacionado com o facto de morrer em breve. Tinha 80 anos quando morreu, em Abril de 1980.
O mestre e a sua bizarra profissão
A cerimónia de entrega do Life Achievement Award foi uma das últimas aparições de Hitch em público. Durante o discurso de agradecimento, o realizador falou sobre a “profissão bizarra que é o fabrico de filmes”.
Ao longo de mais de 50 anos, Hitchcock revolucionou a história do cinema com o seu estilo sofisticado, que combina as suas subtis aparições com grandes planos dramáticos dos protagonistas. A influência do expressionismo alemão nos primeiros filmes, os temas e fetiches de Hitchcock (como a culpa, a homossexualidade implícita, a figura materna, a identidade, o voyeurismo), a criação do suspense, a representação da mulher vertiginosa (encarnada por protagonistas belas, louras e gélidas) e a regra MacGuffin são algumas das suas marcas pessoais, que permitiram à frase “parece um Hitchcock” e ao termo “hitchcockiano” entrarem no vocabulário comum a partir de meados dos anos 30.
Considerado o mestre do suspense, Hitch esforçava-se por sublinhar a distinção entre a surpresa e o suspense. Em entrevista ao realizador François Truffaut, explicou que “na forma vulgar do suspense é indispensável que o público esteja perfeitamente informado de todos os elementos em causa”. Ou seja, a principal diferença em relação à surpresa é que o público sabe algo que os personagens desconhecem. Durante a entrevista, Hitch acrescentou ainda que existem muitas situações em que “o suspense não está ligado ao medo”, mas sim à emoção.
Além do princípio do suspense, Hitchcock recorria frequentemente a técnicas em torno das quais se desenvolvia a intriga. Entre elas, a mais célebre é a regra MacGuffin: um pormenor que motiva as acções dos personagens, mas não é relevante para o público. Nos seus filmes de espionagem, há sempre um MacGuffin, representado por um papel, documento ou segredo. Mas a regra também pode estar presente nos seus outros thrillers como, por exemplo, em A Mulher que Viveu Duas Vezes através da personagem ausente, Carlotta Valdes.
Outra característica dos seus filmes é um peculiar género de humor. Aliás, no próprio set, Hitch era conhecido (e temido) pelas suas “brincadeiras de mau gosto”. Para transpor essa faceta da sua personalidade para o grande ecrã, o realizador decidiu aparecer “dentro do campo” do filme, relembrando ao público o carácter ficcional da história e gerando um inevitável efeito cómico. Por vezes, passeia-se livremente entre as personagens mas, em certas ocasiões, é apenas um vulto ou uma sombra – sempre com uma certa dose de ironia e um pouco do humor negro britânico.
O sucesso deste homem, cuja imagem pública é inconfundível, e a sua capacidade de controlo criativo dos seus filmes contribuíram para a valorização do papel do realizador, que anteriormente era relegado para segundo plano face ao produtor. Hitchcock tornou-se o mentor de uma nova geração de realizadores, que continuam ainda hoje a evocar e relembrar os seus filmes.
O mestre do suspense viveu dividido entre dois países e duas existências. Nasceu no Reino Unido e, aí, deu os primeiros passos no mundo do cinema, mas foi nos Estados Unidos que realizou os seus maiores clássicos. Fora do set, mantinha um estilo de vida calmo e simples, mas no grande ecrã vivia as suas grandes obsessões e traumas. Alfred Hitchcock tornou-se um génio incontestável na história do cinema. Por Ana Filipa Gaspar
A vida para além do grande ecrã
Alfred Hitchcock nasceu em Leytonstone, Londres, a 13 de Agosto de 1899, apenas um dia antes da sua (futura e única) mulher, Alma Reville. Filho de um casal de vendedores de galinhas e hortaliças, Alfred Joseph Hitchcock tinha um irmão e uma irmã mais velhos, que devido à diferença de idades não brincavam com ele. Assim, a sua infância foi marcada pela solidão e também pela severidade do pai, que uma vez o enviou à prisão com uma mensagem para o polícia o prender durante alguns momentos.
A sua família pertencia à baixa burguesia e era católica praticante. Hitchcock foi, desde cedo, educado pelos padres jesuítas do Saint Ignacius College, onde estudou, como aluno interno, durante cerca de seis anos. Em 1914, o seu pai morreu e Hitch decidiu frequentar o curso de Engenharia na Escola de Engenharia e Navegação. Cerca de três anos depois, começou a trabalhar numa companhia telegráfica, enquanto aprendia a desenhar no curso de Belas-Artes da Universidade de Londres.
Quando tinha 20 anos, ofereceu-se para trabalhar como desenhador nos estúdios da companhia norte-americana Famous Players-Lasky em Londres. E entrava, desta forma, no mundo do cinema. Dois anos depois, a Famous Players alugou os seus estúdios a uma recém-criada produtora britânica, a Gainsborough Pictures. Nela, Hitchcock desempenhou várias funções: foi argumentista, assistente de realização, decorador e realizador.
Em 1923, conheceu Alma Reville, que trabalhava na época como anotadora e montadora no filme Woman to Woman, de Graham Cutts. Um ano depois ficaram noivos e Alfred Hitchcock teve a oportunidade de realizar, na íntegra, um filme. O Jardim das Delícias foi o primeiro dos seus 53 filmes e Alma Reville trabalhou nele como assistente de realização. A crítica e o público elogiaram a estreia de Hitch e esse sucesso foi suficiente para prosseguir com novos trabalhos. Entre eles, The Lodger (1927) foi considerado pelo próprio realizador como “o primeiro filme hitchockiano”.
O casamento com Alma deu-se em Dezembro de 1926 e a única filha do casal, Patricia, nasceu a 7 de Julho de 1928. Lenda ou não, conta-se que, durante a gravidez, Hitchcock não conseguia olhar para Alma, que, além de sua mulher, era a sua mais próxima colaboradora no cinema.
Em 1929, os talkies chegaram aos estúdios ingleses e o décimo filme de Hitch, Chantagem, tornou-se num dos primeiros filmes sonoros britânicos. Cerca de cinco anos depois, o realizador alcançou o reconhecimento mundial com O Homem que Sabia Demais, êxito que conseguiu superar com o seu filme seguinte, Os 39 Degraus (1935), frequentemente referido como o melhor trabalho da sua fase britânica.
O sucesso de A Desaparecida (1938) nos EUA levou o produtor norte-americano David O’Selznick a contratar Hitchcock, que se mudou com a família para Hollywood em 1939, meses antes do início da II Guerra Mundial. Aí, a família Hitchcock manteve um estilo de vida calmo e simples, longe da agitação das festas. O primeiro filme desta nova fase foi Rebecca (1940), que recebeu o Óscar para Melhor Filme. Mais tarde, nas décadas de 50 e 60 (época de substituição dos filmes a preto-e-branco pelos a cores), surgiram os seus maiores clássicos – A Mulher que Viveu Duas Vezes, Intriga Internacional, Psico e Os Pássaros. O seu último filme foi realizado já nos anos 70 – Intriga em Família (1976).
Em 1979, Alfred Hitchcock foi distinguido com o Life Achievement Award do American Film Institute, tornando-se o quarto realizador a receber este prémio. Hitch dedicou-o a quatro pessoas que eram, na verdade, apenas uma: Alma Reville, a sua companheira durante 53 anos. E, a propósito da distinção, disse a alguns amigos que o motivo de estar a recebê-la deveria estar relacionado com o facto de morrer em breve. Tinha 80 anos quando morreu, em Abril de 1980.
O mestre e a sua bizarra profissão
A cerimónia de entrega do Life Achievement Award foi uma das últimas aparições de Hitch em público. Durante o discurso de agradecimento, o realizador falou sobre a “profissão bizarra que é o fabrico de filmes”.
Ao longo de mais de 50 anos, Hitchcock revolucionou a história do cinema com o seu estilo sofisticado, que combina as suas subtis aparições com grandes planos dramáticos dos protagonistas. A influência do expressionismo alemão nos primeiros filmes, os temas e fetiches de Hitchcock (como a culpa, a homossexualidade implícita, a figura materna, a identidade, o voyeurismo), a criação do suspense, a representação da mulher vertiginosa (encarnada por protagonistas belas, louras e gélidas) e a regra MacGuffin são algumas das suas marcas pessoais, que permitiram à frase “parece um Hitchcock” e ao termo “hitchcockiano” entrarem no vocabulário comum a partir de meados dos anos 30.
Considerado o mestre do suspense, Hitch esforçava-se por sublinhar a distinção entre a surpresa e o suspense. Em entrevista ao realizador François Truffaut, explicou que “na forma vulgar do suspense é indispensável que o público esteja perfeitamente informado de todos os elementos em causa”. Ou seja, a principal diferença em relação à surpresa é que o público sabe algo que os personagens desconhecem. Durante a entrevista, Hitch acrescentou ainda que existem muitas situações em que “o suspense não está ligado ao medo”, mas sim à emoção.
Além do princípio do suspense, Hitchcock recorria frequentemente a técnicas em torno das quais se desenvolvia a intriga. Entre elas, a mais célebre é a regra MacGuffin: um pormenor que motiva as acções dos personagens, mas não é relevante para o público. Nos seus filmes de espionagem, há sempre um MacGuffin, representado por um papel, documento ou segredo. Mas a regra também pode estar presente nos seus outros thrillers como, por exemplo, em A Mulher que Viveu Duas Vezes através da personagem ausente, Carlotta Valdes.
Outra característica dos seus filmes é um peculiar género de humor. Aliás, no próprio set, Hitch era conhecido (e temido) pelas suas “brincadeiras de mau gosto”. Para transpor essa faceta da sua personalidade para o grande ecrã, o realizador decidiu aparecer “dentro do campo” do filme, relembrando ao público o carácter ficcional da história e gerando um inevitável efeito cómico. Por vezes, passeia-se livremente entre as personagens mas, em certas ocasiões, é apenas um vulto ou uma sombra – sempre com uma certa dose de ironia e um pouco do humor negro britânico.
O sucesso deste homem, cuja imagem pública é inconfundível, e a sua capacidade de controlo criativo dos seus filmes contribuíram para a valorização do papel do realizador, que anteriormente era relegado para segundo plano face ao produtor. Hitchcock tornou-se o mentor de uma nova geração de realizadores, que continuam ainda hoje a evocar e relembrar os seus filmes.
3 de março de 2006
DESCOBRIR MARGUERITE DURAS
Nos livros de Marguerite Duras há temas obsessivos, personagens que desaparecem e depois regressam, palavras que se repetem ao longo de 50 anos. Escolhemos dez. São portas de entrada possíveis para o universo da escritora. Por Alexandra Prado Coelho
Música Na escrita de Duras, as palavras e os nomes valem pela sua musicalidade. Nota no início de India Song (livro de 1973, filme de 1975): "Os nomes das cidades, dos rios, dos Estados, dos mares da Índia, têm, antes de tudo, aqui, um sentido musical." As frases repetem-se, os nomes ecoam. "Esta tragédia cinematográfica é toda ela construída como uma composição musical. [...] Todo o filme, incluindo a imagem, é escrito como uma partitura", disse, a propósito de India Song, Dionys Mascolo, pai do filho de Duras. Quando a escritora morreu, o seu caixão foi levado da igreja ao som da música de Carlos d"Alessio, India Song.
Imagens Duras nunca gostou das adaptações ao cinema feitas por outros a partir dos seus livros. "São nulas." Foi isso que a levou a querer fazer os seus próprios filmes. Em 1996 realizou o primeiro, e durante quase 20 anos dedicou-se sobretudo ao cinema, fazendo 19 filmes. É um cinema particular: a "história" está nas vozes off e as imagens mostram muito pouco; o excesso de imagens mata o desejo. Em India Song, muito passa-se através dos sons, das vozes, do canto da mendiga (que nunca é mostrada). Em Son nom de Venise dans Calcutta désert (1976), as imagens mostram apenas um palácio em ruínas, enquanto se ouve a banda sonora (música, diálogos, sons) de India Song. O invisível atinge o seu ponto máximo em L"Homme atlantique (1981), onde, ao fim de dez minutos, o ecrã torna-se negro, até ao fim.
Indochina É daí que partem todos os seus fantasmas. A escrita de Duras é um eterno retorno a esse lugar onde nasceu e que deixou aos 18 anos. A sua obra cria uma geografia imaginária. É ela quem o explica: "É preciso que eu diga desde já que a geografia é completamente inexacta. Criei uma Índia, Índias, como se dizia... durante o colonialismo." Calcutá - "uma cidade à beira do Ganges, que será aqui [O Vice-Cônsul, 1965] capital das Índias" - é "a capital da dor", uma "cidade de pesadelo". Algo mais próximo de uma "realidade" surge nos livros autobiográficos, como Uma Barragem contra o Pacífico (1950) ou O Amante (1984).
Amante Atravessa toda a obra de Duras. Aparece pela primeira vez em Uma Barragem contra o Pacífico, mas aí ainda é um homem branco. Só mais tarde aparecerá como o amante chinês - personagem da "vida real" de Duras (nunca é claro o que é real e ficção). Nessa história, Duras tem 15 anos e apanha o barco para atravessar o Mekong e ir a Saigão, e aí conhece o amante chinês, belo e rico. Por trás existe outra história: a de uma família violenta, de uma mãe em luta contra o mundo e cujo amor vai todo para o filho mais velho, o abandono de Marguerite e do seu irmão mais novo, uma família que a empurra para os braços do chinês rico em cujo corpo ela encontra também o corpo do irmão mais novo. A história volta em O Amante e depois em O Amante da China do Norte (1991), em que o tabu do incesto é quebrado. "Se o escrevi é porque existiu", disse.
Anne-Marie Stretter A mulher do embaixador de França em Calcutá, nascida Anna Maria Guardi, em Veneza, é figura fundamental do chamado ciclo indiano, central no universo de Duras. Em Ausência de Lol V. Stein (1964), é a mulher pela qual Michael Richardson, o noivo de Lol V. Stein, se apaixona durante um baile no Casino. A-M. Stretter volta "às Índias", a Calcutá, e Michael Richardson segue-a. Regressa depois em O Vice-Cônsul, e, por fim, em India Song, já só na memória das vozes que recordam a história desta mulher fascinante mas de tristeza infinita, ferida pelo horror e a miséria da Índia. India Song conta os últimos dois dias da sua vida - a noite do baile e do escândalo do vice-cônsul e o dia seguinte, em que ela parte para uma das ilhas do delta do Ganges, e morre no mar. Na sua origem está uma memória de Duras: Elizabeth Striedter, mulher do administrador-geral de Vinh-Long na Indochina da sua infância, pela qual, dizia-se, um homem se suicidara.
Vice-cônsul O antigo vice-cônsul francês em Lahore (personagem que dá título a O Vice-Cônsul), "caído em desgraça em Calcutá", aguarda transferência depois do escândalo que manchou a sua carreira: da sua janela em Lahore disparou sobre cães e leprosos adormecidos nos jardins de Shalimar. Dele diz-se nos salões das embaixadas em Calcutá que "os nervos cederam" - tal como A-M. Stretter também nunca suportou o horror das Índias, a fome, a lepra. Virgem, deixa-se fascinar pela mulher do embaixador, que o convida para um baile, a ele que todos evitam. Depois de dançar com Anne-Marie Stretter, o vice-cônsul enlouquece e começa a gritar até ser expulso do palácio. Durante toda a noite e até de madrugada ele grita "o seu nome de Veneza na Calcutá deserta".
Mendiga Duras contou que a mendiga era uma personagem real que a perseguia desde os dez anos: viu-a na Indochina onde ela chegou depois de ter percorrido centenas de quilómetros com uma criança. Na sua história reinventada, esta mendiga, careca, andrajosa e louca, que só repete palavras soltas, como "Battambang" e "Savannaketh", foi expulsa pela mãe quando engravidou e caminha há anos. Atravessou a Birmânia, o Laos, o Camboja, foi perdendo filhos pelo caminho, e chegou a Calcutá. Aparece pela primeira vez na obra de Duras num episódio de Uma Barragem contra o Pacífico, mas está no centro de O Vice-Cônsul, onde representa a miséria da Índia que ronda os salões de festas das embaixadas estrangeiras na Calcutá dos anos 30, pelos quais ecoa o seu canto de Savannaketh. E continua esta eterna deambulação em India Song, onde parece perseguir Anne-Marie Stretter. A sua história passa também pela memória desta, que 17 anos antes assistiu em Savannaketh, no Laos, à venda de uma criança recém-nascida, o que a marcou para sempre.
Lol V. Stein Ou Lola Valerie Stein, nascida em S. Thala (outro dos lugares míticos e inventados de Duras). Em Ausência de Lol V. Stein tem 19 anos, está noiva e esquece-se de si mesma quando perde Michael Richardson para Anne-Marie Stretter. Mais tarde entra num jogo de identidade com uma antiga amiga, Tatiana Karl, e o amante desta, Jacques Hold - que a leva de volta ao Casino e ao momento fundador em que foi excluída do amor de Michael Richarson e Anne-Marie Stretter. Lol V. Stein volta, quase um fantasma, em L"Amour (1971) e La Femme du Gange (filme de 1974). Duras contou numa entrevista que a viu pela primeira vez "num baile de Natal, num manicómio nos arredores de Paris", que ela tinha 30 anos e "parecia um autómato". E que todas as mulheres dos seus livros derivam de Lol V. Stein.
Hiroxima Hiroxima Meu Amor (1960) é o texto que Duras escreveu para o filme de Alain Resnais. Passa-se no Verão de 1957 e conta a breve história de amor entre uma actriz francesa que está em Hiroxima para fazer um filme, e um engenheiro japonês. Deitados, nus, numa cama de hotel, falam sobre Hiroxima. "Tu não viste nada em Hiroxima, nada" - é a primeira frase do texto. Duras: "Para mim, isso quer dizer "não verás nunca nada, não escreverás nada, não poderás nunca dizer nada sobre este acontecimento". Foi a partir da impotência em falar da coisa que fiz o filme." Para Duras, o indizível, o horror, é Hiroxima, como é o Holocausto. É toda a dor do mundo.
Mar "O meu país natal é a pátria das águas", dizia. Uma Barragem contra o Pacífico, um dos seus primeiros livros, é o relato da luta de uma mãe e dois filhos pela sobrevivência de uma plantação ameaçada pelas águas. É, ao mesmo tempo, a história dos "pequenos brancos" (por contraste com a grande burguesia colonial) na Indochina francesa. A invasão pelas águas é um dos seus fantasmas. Anne-Marie Stretter morre nas águas. A mendiga percorre as margens do Ganges. Mais tarde, em França, Duras compra um apartamento no antigo palácio Roches Noires, em frente à praia de Trouville. No meio da imponente fachada, a sua varanda, frente ao mar. "Olhar o mar é olhar tudo."
Música Na escrita de Duras, as palavras e os nomes valem pela sua musicalidade. Nota no início de India Song (livro de 1973, filme de 1975): "Os nomes das cidades, dos rios, dos Estados, dos mares da Índia, têm, antes de tudo, aqui, um sentido musical." As frases repetem-se, os nomes ecoam. "Esta tragédia cinematográfica é toda ela construída como uma composição musical. [...] Todo o filme, incluindo a imagem, é escrito como uma partitura", disse, a propósito de India Song, Dionys Mascolo, pai do filho de Duras. Quando a escritora morreu, o seu caixão foi levado da igreja ao som da música de Carlos d"Alessio, India Song.
Imagens Duras nunca gostou das adaptações ao cinema feitas por outros a partir dos seus livros. "São nulas." Foi isso que a levou a querer fazer os seus próprios filmes. Em 1996 realizou o primeiro, e durante quase 20 anos dedicou-se sobretudo ao cinema, fazendo 19 filmes. É um cinema particular: a "história" está nas vozes off e as imagens mostram muito pouco; o excesso de imagens mata o desejo. Em India Song, muito passa-se através dos sons, das vozes, do canto da mendiga (que nunca é mostrada). Em Son nom de Venise dans Calcutta désert (1976), as imagens mostram apenas um palácio em ruínas, enquanto se ouve a banda sonora (música, diálogos, sons) de India Song. O invisível atinge o seu ponto máximo em L"Homme atlantique (1981), onde, ao fim de dez minutos, o ecrã torna-se negro, até ao fim.
Indochina É daí que partem todos os seus fantasmas. A escrita de Duras é um eterno retorno a esse lugar onde nasceu e que deixou aos 18 anos. A sua obra cria uma geografia imaginária. É ela quem o explica: "É preciso que eu diga desde já que a geografia é completamente inexacta. Criei uma Índia, Índias, como se dizia... durante o colonialismo." Calcutá - "uma cidade à beira do Ganges, que será aqui [O Vice-Cônsul, 1965] capital das Índias" - é "a capital da dor", uma "cidade de pesadelo". Algo mais próximo de uma "realidade" surge nos livros autobiográficos, como Uma Barragem contra o Pacífico (1950) ou O Amante (1984).
Amante Atravessa toda a obra de Duras. Aparece pela primeira vez em Uma Barragem contra o Pacífico, mas aí ainda é um homem branco. Só mais tarde aparecerá como o amante chinês - personagem da "vida real" de Duras (nunca é claro o que é real e ficção). Nessa história, Duras tem 15 anos e apanha o barco para atravessar o Mekong e ir a Saigão, e aí conhece o amante chinês, belo e rico. Por trás existe outra história: a de uma família violenta, de uma mãe em luta contra o mundo e cujo amor vai todo para o filho mais velho, o abandono de Marguerite e do seu irmão mais novo, uma família que a empurra para os braços do chinês rico em cujo corpo ela encontra também o corpo do irmão mais novo. A história volta em O Amante e depois em O Amante da China do Norte (1991), em que o tabu do incesto é quebrado. "Se o escrevi é porque existiu", disse.
Anne-Marie Stretter A mulher do embaixador de França em Calcutá, nascida Anna Maria Guardi, em Veneza, é figura fundamental do chamado ciclo indiano, central no universo de Duras. Em Ausência de Lol V. Stein (1964), é a mulher pela qual Michael Richardson, o noivo de Lol V. Stein, se apaixona durante um baile no Casino. A-M. Stretter volta "às Índias", a Calcutá, e Michael Richardson segue-a. Regressa depois em O Vice-Cônsul, e, por fim, em India Song, já só na memória das vozes que recordam a história desta mulher fascinante mas de tristeza infinita, ferida pelo horror e a miséria da Índia. India Song conta os últimos dois dias da sua vida - a noite do baile e do escândalo do vice-cônsul e o dia seguinte, em que ela parte para uma das ilhas do delta do Ganges, e morre no mar. Na sua origem está uma memória de Duras: Elizabeth Striedter, mulher do administrador-geral de Vinh-Long na Indochina da sua infância, pela qual, dizia-se, um homem se suicidara.
Vice-cônsul O antigo vice-cônsul francês em Lahore (personagem que dá título a O Vice-Cônsul), "caído em desgraça em Calcutá", aguarda transferência depois do escândalo que manchou a sua carreira: da sua janela em Lahore disparou sobre cães e leprosos adormecidos nos jardins de Shalimar. Dele diz-se nos salões das embaixadas em Calcutá que "os nervos cederam" - tal como A-M. Stretter também nunca suportou o horror das Índias, a fome, a lepra. Virgem, deixa-se fascinar pela mulher do embaixador, que o convida para um baile, a ele que todos evitam. Depois de dançar com Anne-Marie Stretter, o vice-cônsul enlouquece e começa a gritar até ser expulso do palácio. Durante toda a noite e até de madrugada ele grita "o seu nome de Veneza na Calcutá deserta".
Mendiga Duras contou que a mendiga era uma personagem real que a perseguia desde os dez anos: viu-a na Indochina onde ela chegou depois de ter percorrido centenas de quilómetros com uma criança. Na sua história reinventada, esta mendiga, careca, andrajosa e louca, que só repete palavras soltas, como "Battambang" e "Savannaketh", foi expulsa pela mãe quando engravidou e caminha há anos. Atravessou a Birmânia, o Laos, o Camboja, foi perdendo filhos pelo caminho, e chegou a Calcutá. Aparece pela primeira vez na obra de Duras num episódio de Uma Barragem contra o Pacífico, mas está no centro de O Vice-Cônsul, onde representa a miséria da Índia que ronda os salões de festas das embaixadas estrangeiras na Calcutá dos anos 30, pelos quais ecoa o seu canto de Savannaketh. E continua esta eterna deambulação em India Song, onde parece perseguir Anne-Marie Stretter. A sua história passa também pela memória desta, que 17 anos antes assistiu em Savannaketh, no Laos, à venda de uma criança recém-nascida, o que a marcou para sempre.
Lol V. Stein Ou Lola Valerie Stein, nascida em S. Thala (outro dos lugares míticos e inventados de Duras). Em Ausência de Lol V. Stein tem 19 anos, está noiva e esquece-se de si mesma quando perde Michael Richardson para Anne-Marie Stretter. Mais tarde entra num jogo de identidade com uma antiga amiga, Tatiana Karl, e o amante desta, Jacques Hold - que a leva de volta ao Casino e ao momento fundador em que foi excluída do amor de Michael Richarson e Anne-Marie Stretter. Lol V. Stein volta, quase um fantasma, em L"Amour (1971) e La Femme du Gange (filme de 1974). Duras contou numa entrevista que a viu pela primeira vez "num baile de Natal, num manicómio nos arredores de Paris", que ela tinha 30 anos e "parecia um autómato". E que todas as mulheres dos seus livros derivam de Lol V. Stein.
Hiroxima Hiroxima Meu Amor (1960) é o texto que Duras escreveu para o filme de Alain Resnais. Passa-se no Verão de 1957 e conta a breve história de amor entre uma actriz francesa que está em Hiroxima para fazer um filme, e um engenheiro japonês. Deitados, nus, numa cama de hotel, falam sobre Hiroxima. "Tu não viste nada em Hiroxima, nada" - é a primeira frase do texto. Duras: "Para mim, isso quer dizer "não verás nunca nada, não escreverás nada, não poderás nunca dizer nada sobre este acontecimento". Foi a partir da impotência em falar da coisa que fiz o filme." Para Duras, o indizível, o horror, é Hiroxima, como é o Holocausto. É toda a dor do mundo.
Mar "O meu país natal é a pátria das águas", dizia. Uma Barragem contra o Pacífico, um dos seus primeiros livros, é o relato da luta de uma mãe e dois filhos pela sobrevivência de uma plantação ameaçada pelas águas. É, ao mesmo tempo, a história dos "pequenos brancos" (por contraste com a grande burguesia colonial) na Indochina francesa. A invasão pelas águas é um dos seus fantasmas. Anne-Marie Stretter morre nas águas. A mendiga percorre as margens do Ganges. Mais tarde, em França, Duras compra um apartamento no antigo palácio Roches Noires, em frente à praia de Trouville. No meio da imponente fachada, a sua varanda, frente ao mar. "Olhar o mar é olhar tudo."
DEZ ANOS DEPOIS,
DURAS SÓ INSPIRA UM PUNHADO DE OBRAS
Dizem os especialistas de Marguerite Duras que nunca a obra de um autor foi tão criticada, tão apaixonadamente defendida, tão injuriada, tão venerada. Mas a vaga de livros, de conferências, de programas que seria de esperar - ou de recear - nesta efeméride da sua morte não se concretizou. Como se o monstro sagrado que teimou em transformar a sua vida em destino - mas que respondia aos candidatos a biógrafos: "Um escritor não tem história" - continuasse a intimidar curiosos e indiscretos.
Há, no entanto, uma meia dúzia de publicações programadas para este décimo aniversário da sua morte. São biografias, testemunhos, escritos inéditos, memórias, que vão chegando às livrarias, mas sem suscitarem uma avalanche de críticas na imprensa. Marguerite Duras, la vie comme un roman, de Jean Vailier (editora Textuel), é uma biografia ilustrada, em 200 curtas páginas, de Marguerite Donnadieu, o verdadeiro nome da escritora. Do mesmo autor, vai sair em Abril o primeiro tomo de uma biografia: C"était Marguerite Duras, 1914-1945 (editora Fayard).
Outro especialista da obra de Duras, Alain Vircondelet, optou por fazer um passeio literário pelas terras que marcaram a escritora, em Sur les pas de Marguerite Duras (Presses de la Renaissance). O autor leva o leitor até à Indochina, a terra da infância e da adolescência de Duras, a Saint-Germain-des-Près, é claro, o bairro boémio e intelectual de Paris até aos anos 70, e a Trouville, na Normandia, onde Duras comprou uma casa, quando a fortuna se cruzou com a sua obra.
Em Marguerite Duras, 5, rue saint-Benoit, 3è étage gauche, Jean-Marc Turine conta 25 anos de amizade com a escritora, fazendo do célebre apartamento parisiense o palco deste quarto de século de recordações.
Um inédito reúne cinco entrevistas de Marguerite Duras ao (defunto) Presidente da República francesa François Mitterrand, que foi o chefe da rede de resistentes a que pertenceu a escritora durante a II Guerra Mundial. O título, Le bureau de poste de la rue Dupin et autre entretiens recorda precisamente esta época. Nos media, a rádio France-Culture repara o vazio geral com uma série de oito programas sobre Duras. E é preciso ir até à Universidade de Fez, em Marrocos, para se encontrar um seminário ambicioso em memória da escritora. Os franceses estão a dedicar mais atenção aos 15 anos da morte do cantor e poeta Serge Gainsbourg. A.N.P., Paris
Dizem os especialistas de Marguerite Duras que nunca a obra de um autor foi tão criticada, tão apaixonadamente defendida, tão injuriada, tão venerada. Mas a vaga de livros, de conferências, de programas que seria de esperar - ou de recear - nesta efeméride da sua morte não se concretizou. Como se o monstro sagrado que teimou em transformar a sua vida em destino - mas que respondia aos candidatos a biógrafos: "Um escritor não tem história" - continuasse a intimidar curiosos e indiscretos.
Há, no entanto, uma meia dúzia de publicações programadas para este décimo aniversário da sua morte. São biografias, testemunhos, escritos inéditos, memórias, que vão chegando às livrarias, mas sem suscitarem uma avalanche de críticas na imprensa. Marguerite Duras, la vie comme un roman, de Jean Vailier (editora Textuel), é uma biografia ilustrada, em 200 curtas páginas, de Marguerite Donnadieu, o verdadeiro nome da escritora. Do mesmo autor, vai sair em Abril o primeiro tomo de uma biografia: C"était Marguerite Duras, 1914-1945 (editora Fayard).
Outro especialista da obra de Duras, Alain Vircondelet, optou por fazer um passeio literário pelas terras que marcaram a escritora, em Sur les pas de Marguerite Duras (Presses de la Renaissance). O autor leva o leitor até à Indochina, a terra da infância e da adolescência de Duras, a Saint-Germain-des-Près, é claro, o bairro boémio e intelectual de Paris até aos anos 70, e a Trouville, na Normandia, onde Duras comprou uma casa, quando a fortuna se cruzou com a sua obra.
Em Marguerite Duras, 5, rue saint-Benoit, 3è étage gauche, Jean-Marc Turine conta 25 anos de amizade com a escritora, fazendo do célebre apartamento parisiense o palco deste quarto de século de recordações.
Um inédito reúne cinco entrevistas de Marguerite Duras ao (defunto) Presidente da República francesa François Mitterrand, que foi o chefe da rede de resistentes a que pertenceu a escritora durante a II Guerra Mundial. O título, Le bureau de poste de la rue Dupin et autre entretiens recorda precisamente esta época. Nos media, a rádio France-Culture repara o vazio geral com uma série de oito programas sobre Duras. E é preciso ir até à Universidade de Fez, em Marrocos, para se encontrar um seminário ambicioso em memória da escritora. Os franceses estão a dedicar mais atenção aos 15 anos da morte do cantor e poeta Serge Gainsbourg. A.N.P., Paris
Marguerite Duras, no Público
Aquela que dizia "a escrita, sou eu", viveu uma vida que ainda hoje aparece como um jogo de pistas escondidas, desvendadas apenas na sua obra impressionante. Dez anos depois da sua morte, Marguerite Duras permanece uma escritora fascinante e misteriosa. Por Ana Navarro Pedro, Paris
"A história da minha vida não existe", escreve Marguerite Duras em O Amante. Este livro autobiográfico - todos o são, de certo, mas não de forma tão abertamente reivindicada - faz dela, em 1984, a escritora francesa mais publicada em França, mais traduzida, mais estudada nas universidades do mundo inteiro. Celebridade mundial, honras, fortuna... Duras tem 70 anos. Os biógrafos começam a exultar com a ideia de examinarem uma já longa vida feita de exibição e de dissimulação, de ódio e de amores brutais, de sedução e de combates.
Mas Marguerite Duras não autoriza mais ninguém a escrever sobre Marguerite Duras. Quem a tenta sondar, enreda-se na tela de confidências e de desmentidos. Perde-se num póquer mentiroso do verdadeiro e do falso. Consome-se na escuta impotente de monólogos que a escritora desenrola, arrogante, triunfante.
Uma jornalista e ensaísta, Laure Adler, levantou, porém, o desafio. Uma amizade de 12 anos com a escritora, a anuência desta, se bem que reticente, para inúmeros encontros e entrevistas, interrompidos inúmeras vezes pelo álcool, pela doença, pelas perdas de memória, e seis anos de paciente investigação - "o biógrafo tem o dever de ser céptico", diz a autora - redundaram em 600 páginas de uma biografia que, no fim, reconhece ter conseguido apenas "aproximar-se da verdade" (Marguerite Duras, 1998, Gallimard).
"Eu sou um assunto em ouro", dizia Duras, ávida, a Yann Andréa, o último amante, e enfermeiro, e bode expiatório, encontrado em 1980 quando ele tinha 27 anos, e ela já 65 anos. Mas quem era ela? "Não sei, eu, se conseguiria suportar Duras", gatafunha a escritora, teatral, na margem de um dos seus cadernos, encontrado por Laure Adler. "Julgamos saber e depois não, nunca", diz Duras pela boca de Emmanuelle Riva, em Hiroxima, Meu Amor. Da sua vida, ficam como marcos algumas fotografias, e umas datas. A sua história, há que procurá-la na sua obra.
De seu verdadeiro nome Marguerite Donnadieu, a escritora francesa mais exibicionista e mais enigmática do século XX nasceu em 1914 em Gia Dinh, uma aldeia perto de Saigão, então a principal cidade da Cochinchina. Aos quatro anos, a menina fica órfã de pai, um professor de Matemática francês. A mãe, tão odiada e tão amada, como o revelam O Amante e Uma Barragem contra o Pacífico (1950), regressa a França com os três filhos. Mas esta professora de escola primária esquece-se de mandar a filha à escola. "Foi, creio, a época da minha vida em que toquei mais de perto a felicidade perfeita. Aos oito anos, não sabia ler nem escrever", recordará, mais tarde, a escritora.
Em 1923, a mãe regressa à Indochina e instala-se com os filhos numa região do Camboja, onde compra uma quinta não longe do mar. A ruína não tardará: os sonhos grandiosos de fortuna atolam-se nestas terras inundadas com água salgada seis meses por ano, sem que a família consiga levantar uma barragem contra a realidade. Durante este período, Marguerite passa dias inteiros empoleirada nas árvores ou a explorar a floresta tropical com o irmão adorado.
Apesar da pobreza da família, a adolescente estuda no excelente liceu francês de Saigão. É na travessia do delta do Mekong que encontra "o amante", Huynh Thoai Lê, herdeiro de uma família de mandarins, que, durante dois anos, vai pagar todas as despesas da família Donnadieu.
Mitterrand e os nazis
Aos 18 anos, Marguerite regressa a França para estudar Direito. Já na altura, tem toda uma corte de estudantes fascinados com a sua vida exótica e a sua personalidade carismática. Um deles conseguirá casar com ela, em 1939: Robert Antelme, redactor na Prefeitura de Polícia.
A Segunda Guerra Mundial rebenta, e a biografia oficial de Duras esquecerá durante muito tempo - até à obra de Laure Adler - os episódios pouco gloriosos deste período. Antes de entrar na Resistência, em 1994, Marguerite Duras preside à comissão de controlo do papel de edição, sob tutela da ocupação alemã nazi. Desapareceu também da bibliografia de Marguerite Duras um romance da época, fortemente colonialista, segundo Adler, L"Empire Français.
Mas fica na memória o primeiro verdadeiro romance, Os Insolentes, publicado pela Plon em 1943. Na Resistência, combate na rede de François Mitterrand, que seria mais tarde Presidente da República, e apaixona-se por Dyonis Mascolo, com quem terá um filho. Este verdadeiro ménage à trois vive tranquilamente na rua Saint-Benoit, nº5, em Paris - morada célebre de Duras até ao fim da vida.
A rede da Resistência cai em 1944. Mitterrand consegue salvar a escritora, mas Antelme será deportado para o campo de concentração de Dachau. Duras adere ao Partido Comunista Francês (PCF). Mais tarde, Duras cria uma personagem, Thérèse, protagonista do romance A Dor, que tortura com prazer um bufo que denunciara uma rede de resistentes. Duras gaba-se de descrever aqui um episódio autobiográfico, embora mais tarde fuja a confirmar esta reivindicação.
Excluída do PCF, zanga-se com o camarada e escritor Jorge Semprun, que acusa das piores torpezas, sem dar a mais pequena prova. Moderato Cantabile granjeia-lhe em 1958 fama e fortuna. Desesperante e desesperada, viciada no álcool com que a mãe a intoxicara desde pequena, para a fazer engordar, afortunada, mas ávida de dinheiro desde a infância pobre, paranóica e fascinante, Marguerite Duras multiplica os romances, as peças de teatro e os guiões de cinema, onde se estreia em 1960 com Horoxima Meu Amor, sob a direcção de Alain Resnais. Aos 59 anos, deixa-se tentar pela realização de cinema, com Índia Song, que faz sensação em Cannes, em 1973.
Uma travessia do deserto termina em 1984 com O Amante. Eternamente provocante, reivindicando sempre a maldade para poder amar - "Tornei-me injusta e má, acredita", diz a mãe ao filho, na peça Dias Inteiros nas Árvores -, Marguerite Duras continuará a fascinar até à morte, a 3 de Março de 1996.
Laure Adler recorda na biografia da escritora uma frase que ela escrevera durante a revolta estudantil de Maio de 1968 e que seria o seu mais perfeito epitáfio: "Não sabemos onde vamos, mas não é uma razão para lá não ir."
"A história da minha vida não existe", escreve Marguerite Duras em O Amante. Este livro autobiográfico - todos o são, de certo, mas não de forma tão abertamente reivindicada - faz dela, em 1984, a escritora francesa mais publicada em França, mais traduzida, mais estudada nas universidades do mundo inteiro. Celebridade mundial, honras, fortuna... Duras tem 70 anos. Os biógrafos começam a exultar com a ideia de examinarem uma já longa vida feita de exibição e de dissimulação, de ódio e de amores brutais, de sedução e de combates.
Mas Marguerite Duras não autoriza mais ninguém a escrever sobre Marguerite Duras. Quem a tenta sondar, enreda-se na tela de confidências e de desmentidos. Perde-se num póquer mentiroso do verdadeiro e do falso. Consome-se na escuta impotente de monólogos que a escritora desenrola, arrogante, triunfante.
Uma jornalista e ensaísta, Laure Adler, levantou, porém, o desafio. Uma amizade de 12 anos com a escritora, a anuência desta, se bem que reticente, para inúmeros encontros e entrevistas, interrompidos inúmeras vezes pelo álcool, pela doença, pelas perdas de memória, e seis anos de paciente investigação - "o biógrafo tem o dever de ser céptico", diz a autora - redundaram em 600 páginas de uma biografia que, no fim, reconhece ter conseguido apenas "aproximar-se da verdade" (Marguerite Duras, 1998, Gallimard).
"Eu sou um assunto em ouro", dizia Duras, ávida, a Yann Andréa, o último amante, e enfermeiro, e bode expiatório, encontrado em 1980 quando ele tinha 27 anos, e ela já 65 anos. Mas quem era ela? "Não sei, eu, se conseguiria suportar Duras", gatafunha a escritora, teatral, na margem de um dos seus cadernos, encontrado por Laure Adler. "Julgamos saber e depois não, nunca", diz Duras pela boca de Emmanuelle Riva, em Hiroxima, Meu Amor. Da sua vida, ficam como marcos algumas fotografias, e umas datas. A sua história, há que procurá-la na sua obra.
De seu verdadeiro nome Marguerite Donnadieu, a escritora francesa mais exibicionista e mais enigmática do século XX nasceu em 1914 em Gia Dinh, uma aldeia perto de Saigão, então a principal cidade da Cochinchina. Aos quatro anos, a menina fica órfã de pai, um professor de Matemática francês. A mãe, tão odiada e tão amada, como o revelam O Amante e Uma Barragem contra o Pacífico (1950), regressa a França com os três filhos. Mas esta professora de escola primária esquece-se de mandar a filha à escola. "Foi, creio, a época da minha vida em que toquei mais de perto a felicidade perfeita. Aos oito anos, não sabia ler nem escrever", recordará, mais tarde, a escritora.
Em 1923, a mãe regressa à Indochina e instala-se com os filhos numa região do Camboja, onde compra uma quinta não longe do mar. A ruína não tardará: os sonhos grandiosos de fortuna atolam-se nestas terras inundadas com água salgada seis meses por ano, sem que a família consiga levantar uma barragem contra a realidade. Durante este período, Marguerite passa dias inteiros empoleirada nas árvores ou a explorar a floresta tropical com o irmão adorado.
Apesar da pobreza da família, a adolescente estuda no excelente liceu francês de Saigão. É na travessia do delta do Mekong que encontra "o amante", Huynh Thoai Lê, herdeiro de uma família de mandarins, que, durante dois anos, vai pagar todas as despesas da família Donnadieu.
Mitterrand e os nazis
Aos 18 anos, Marguerite regressa a França para estudar Direito. Já na altura, tem toda uma corte de estudantes fascinados com a sua vida exótica e a sua personalidade carismática. Um deles conseguirá casar com ela, em 1939: Robert Antelme, redactor na Prefeitura de Polícia.
A Segunda Guerra Mundial rebenta, e a biografia oficial de Duras esquecerá durante muito tempo - até à obra de Laure Adler - os episódios pouco gloriosos deste período. Antes de entrar na Resistência, em 1994, Marguerite Duras preside à comissão de controlo do papel de edição, sob tutela da ocupação alemã nazi. Desapareceu também da bibliografia de Marguerite Duras um romance da época, fortemente colonialista, segundo Adler, L"Empire Français.
Mas fica na memória o primeiro verdadeiro romance, Os Insolentes, publicado pela Plon em 1943. Na Resistência, combate na rede de François Mitterrand, que seria mais tarde Presidente da República, e apaixona-se por Dyonis Mascolo, com quem terá um filho. Este verdadeiro ménage à trois vive tranquilamente na rua Saint-Benoit, nº5, em Paris - morada célebre de Duras até ao fim da vida.
A rede da Resistência cai em 1944. Mitterrand consegue salvar a escritora, mas Antelme será deportado para o campo de concentração de Dachau. Duras adere ao Partido Comunista Francês (PCF). Mais tarde, Duras cria uma personagem, Thérèse, protagonista do romance A Dor, que tortura com prazer um bufo que denunciara uma rede de resistentes. Duras gaba-se de descrever aqui um episódio autobiográfico, embora mais tarde fuja a confirmar esta reivindicação.
Excluída do PCF, zanga-se com o camarada e escritor Jorge Semprun, que acusa das piores torpezas, sem dar a mais pequena prova. Moderato Cantabile granjeia-lhe em 1958 fama e fortuna. Desesperante e desesperada, viciada no álcool com que a mãe a intoxicara desde pequena, para a fazer engordar, afortunada, mas ávida de dinheiro desde a infância pobre, paranóica e fascinante, Marguerite Duras multiplica os romances, as peças de teatro e os guiões de cinema, onde se estreia em 1960 com Horoxima Meu Amor, sob a direcção de Alain Resnais. Aos 59 anos, deixa-se tentar pela realização de cinema, com Índia Song, que faz sensação em Cannes, em 1973.
Uma travessia do deserto termina em 1984 com O Amante. Eternamente provocante, reivindicando sempre a maldade para poder amar - "Tornei-me injusta e má, acredita", diz a mãe ao filho, na peça Dias Inteiros nas Árvores -, Marguerite Duras continuará a fascinar até à morte, a 3 de Março de 1996.
Laure Adler recorda na biografia da escritora uma frase que ela escrevera durante a revolta estudantil de Maio de 1968 e que seria o seu mais perfeito epitáfio: "Não sabemos onde vamos, mas não é uma razão para lá não ir."
8 de janeiro de 2006
Calendário, o livro de contas do tempo
Do Primeiro de Janeiro
Calendário, quadro ou catálogo que indica a divisão do ano em estações, meses, semanas e dias, atribuindo muitas vezes a ordem das festas religiosas, assinalando certos fenómenos astronómicos como lunações, marés, eclipses, etc.

João-Maria Nabais*
Desde tempos imemoriais que o Homem tentou perceber a razão da sequência dos dias e das noites, e por certo ficaria fascinado, por longos períodos, a olhar os céus numa tentativa de perscrutar a imensa escuridão estelar, para assim justificar muitos dos enigmas com que se confrontava, no seu dia-a-dia, na Terra.
Calendário, sua origem
e cronologia histórica
A necessidade de dividir e medir o tempo foi sentida com os primeiros passos da civilização. É a sucessão ordenada dos dias e noites, aliada ao fenómeno do ciclo das fases da Lua que conduziram às noções de dia e mês. O conceito de ano, só aparece com o desenvolvimento da agricultura nos povos antigos ao darem conta do ritmo das estações. São o dia, o mês lunar (ou lunação) e o ano, os períodos astronómicos naturais utilizados em qualquer calendário. A sincronização destes três componentes acentua a complexidade do calendário.
Grande parte do conhecimento actual sobre os calendários baseia-se em estudos de referência de dois escritores da Antiguidade: Ovídio, poeta romano, 43 a.C.-17/18 d.C.; e Plutarco, escritor grego, 50 d.C.-120 d.C.
O principal motivo da criação de um calendário é o desejo de organizar no tempo, os eventos de uma sociedade. Sempre teve um estatuto sagrado, além de servir de identidade cultural.
Calendário vem do latim calendarìu (livro de contas, registo) e não de calendas (primeiro dia de cada mês entre os romanos).
O dia solar verdadeiro, intervalo de tempo entre duas passagens consecutivas do Sol pelo meridiano dum lugar, varia entre 23h 59’ 39” e 24h 00’ 30”. Estas variações obrigam a utilizar um dia civil com a duração de 24 horas. Este dia, definido em função do dia solar médio, começa à meia-noite e termina à meia-noite seguinte.
A lunação, intervalo de tempo entre duas conjunções consecutivas da Lua com o Sol, também não é um valor constante, mas varia entre 29 dias e 6 horas e 29 dias e 20 horas. O seu valor médio, conhecido com grande precisão, é de 29d 12h 44’ 02,8”. A revolução sinódica da Lua (período que decorre entre dois estados sucessivos de conjunção da Lua) está na origem dos calendários lunares, em que os meses têm alternadamente 29 dias e 30 dias. O seu valor médio, aproximado, é 29,5 dias.
O ano sideral, duração da revolução da Terra em torno do Sol, é igual a 365d 06h 09’ 09,8”.
O ano trópico, tempo decorrido entre duas passagens consecutivas do Sol médio pelo ponto vernal (ponto da esfera celeste por onde passa o centro do Sol, no seu movimento anual aparente, quando transita do hemisfério sul para o hemisfério norte), é actualmente de 365d 05h 48’ 45,3”. É o ano trópico que regula o regresso das estações e que intervém nos calendários solares.
Um outro período de tempo usual nos calendários é a semana de sete dias, cujo motivo se desconhece. É possível que estivesse relacionada com o mês lunar, visto que sete dias são aproximadamente um quarto de lunação, o intervalo aproximado entre a Lua cheia e o quarto minguante, ou talvez com o número dos sete astros principais do firmamento (os cinco planetas conhecidos na Antiguidade mais o Sol e a Lua). Mas é provável que a escolha de um intervalo de sete dias se deva ao carácter sagrado do número sete entre os antigos judeus. O período semanal de sete dias encontra-se hoje relacionado a um ciclo normal das actividades de trabalho e lazer, em quase todos os calendários.
Os primeiros Calendários
Os primevos calendários são o hebreu e o egípcio. Ambos tinham um ano civil de 360 dias: curto para representar o ciclo das estações, mas grande para corresponder ao chamado ano lunar, que se define como um período de tempo igual a 12 lunações completas existentes no ano trópico, ainda desconhecido.
Ignora-se como os hebreus dividiam o ano, mas julga-se que já utilizavam a semana, visto que seguiam o mesmo princípio para contar os anos, agrupando-os em septanas ou semanas de sete anos. Pelo contrário, os egípcios dividiam o ano em 12 meses de 30 dias e cada mês em três décadas. Os egípcios também dividiam o ano em três estações, de acordo com as suas actividades agrícolas sujeitas às cheias periódicas do Nilo: a estação das inundações; a estação das sementeiras e a estação das colheitas.
Os gregos estabeleceram um ano lunar de 354 dias, que dividiram em 12 meses de 30 e 29 dias, alternadamente. Os meses, como no calendário egípcio, eram dedicados aos deuses e neles se celebravam festas, não só em honra do deus correspondente, mas também outras dedicadas aos astros, às estações, etc.
No primitivo calendário romano, o ano tinha 304 dias repartidos por 10 meses. Os quatro primeiros tinham nomes dedicados aos deuses da mitologia romana e provinham de tempos mais remotos: Martius (dedicado a Marte), Aprilis (a Apolo), Maius (a Júpiter), Junius (a Juno); os seis restantes eram designados por números ordinais, indicativos da ordem que ocupavam no calendário.
Representa um calendário sem qualquer base astronómica, pois os períodos nele definidos não têm qualquer relação com os movimentos do Sol ou da Lua. Por isso, no tempo de Rómulo foram introduzidas algumas inserções de forma a harmonizar este calendário com os citados períodos astronómicos.
O calendário de Rómulo foi reformulado por Numa Pompílio, o qual, seguindo o exemplo dos gregos, estabeleceu o ano de 12 meses, mas introduzindo em primeiro lugar o mês de Januarius, dedicado a Jano, e em último lugar o mês de Februarius, dedicado a Februa, ao qual os romanos ofereciam sacrifícios para expiar as suas faltas de todo o ano. Este foi o motivo por que o mês de Februarius foi colocado no fim. Mas Numa modificou também a duração dos meses, deixando o calendário do seguinte modo:
1.º Januarius 29 dias
2.º Martius 31 dias
3.º Aprilis 29 dias
4.º Maius 31 dias
5.º Junius 29 dias
6.º Quintilis 31 dias
7.º Sextilis 29 dias
8.º September 29 dias
9.º October 31 dias
10.º November 29 dias
11.º December 29 dias
12.º Februarius 27 dias
TOTAL 354 dias
O ano tinha 354 dias (ano lunar dos gregos). Mas esta curiosa distribuição dos dias pelos meses era devida à superstição dos romanos que tomavam por funestos os números pares. Pela mesma razão, consideraram nefasto o ano com 354 dias e aumentaram-no para 355 dias, atribuindo o dia excedente a Februarius, que passou a ter 28 dias.
Calendário juliano
Devido à ignorância e preconceito dos sacerdotes que tinham a seu cargo o propósito de medir o tempo acentuou-se gradualmente a confusão no calendário romano.
Foi esta desordem que Júlio César encontrou ao chegar ao poder. Logo se prepara para introduzir a sua reforma ao adoptar o calendário solar, conhecido por Juliano, que começou a vigorar no ano 709 de Roma (46 a.C.), mediante um sistema que devia desenrolar-se por ciclos de quatro anos, com três comuns de 365 dias e um bissexto de 366 dias, a fim de compensar as quase seis horas que havia de diferença.
Durante o consulado de Marco António, reconhecendo-se a importância da reforma introduzida no calendário romano por Júlio César, foi decidido prestar-lhe justa homenagem, perpetuando o seu nome no calendário, de maneira que o sétimo mês, Quintilis, passou a chamar-se Julius - Julho.
Também no ano 730 de Roma (23 a.C.), o Senado romano decretou que o oitavo mês, Sextilis, passasse a chamar-se Augustus – Agosto. Foi durante este mês que começou o reinado, do primeiro imperador romano, César Augusto, sucessor de Júlio César, após ter posto fim à guerra civil que assolava a nação. E para que o mês dedicado a César Augusto não tivesse menos dias do que o dedicado a Júlio César, o mês de Augustus passou a ter 31 dias. Este dia saiu do mês de Februarius, que ficou com 28 dias nos anos comuns e 29 nos bissextos. Também para que não houvesse tantos meses seguidos com 31 dias, reduziram-se para 30 dias os meses de September e November, passando a ter 31 dias, os de October e December. Assim se chegou à distribuição sem lógica alguma dos dias pelos meses, que ainda hoje vigora.
Calendário gregoriano
A reforma gregoriana prepara um ajuste ao calendário Juliano para conseguir determinar correctamente a data da Páscoa, a mais importante festa cristã. Ao fazer regressar o equinócio da primavera a 21 de Março desfaz o erro de 10 dias já existente. Esta divergência causava prejuízos na celebração da Ressurreição e de outras festas móveis religiosas. Foi necessária a autoridade de um Papa. de cultura e perseverança como Gregório XIII (1572–1585), com a ajuda do astrónomo Christoph Clavius, célebre padre jesuíta que estudara matemática em Coimbra com Pedro Nunes, para conseguir impor a reforma. Em 24 de Fevereiro de 1582 promulga a bula Inter Gravíssimas, que estabelece os pontos essenciais do novo calendário.
A duração do ano gregoriano é em média de 365d 05h 49’ 12”, isto é, tem actualmente mais 27s do que o ano trópico. A acumulação desta diferença ao longo do tempo representará um dia em cada 3000 anos.
Portugal, Espanha e Itália foram os primeiros países que aceitaram de imediato a reforma do calendário.
Actualmente o calendário gregoriano pode ser considerado de uso universal. Mesmo aqueles povos que, por motivos religiosos, culturais ou outros, continuam agarrados aos seus calendários tradicionais, utilizam o calendário gregoriano nas suas relações internacionais.
Curiosidades e paradoxos
O modelo actual de calendário lunar é o calendário islâmico e do calendário solar é o calendário gregoriano.
Hoje, o calendário gregoriano serve como padrão nas relações internacionais de uso civil. Ao mesmo tempo regula o ciclo de cerimónias das Igrejas Católica e Protestante. De facto, o seu primeiro desígnio foi canónico.
Sob o ponto de vista astronómico, o seu principal defeito é ser ligeiramente mais longo do que o ano trópico, o que se traduz por uma diferença de um dia em cerca de 3000 anos. Porém, esta pequena diferença não tem qualquer inconveniente imediato e uma reforma do calendário destinada a corrigi-la traria sérios problemas, porque iria criar uma descontinuidade com as consequentes complicações cronológicas.
O mesmo não acontece sob o ponto de vista prático, em que, de facto, se justifica uma modificação. Com efeito, o número de dias de cada mês é muito irregular (28 a 31 dias). O mesmo acontece com a semana, adoptada quase universalmente como unidade laboral de tempo, que não se encontra integrada nos meses e muitas vezes repartida por dois meses diferentes. Estas duas anomalias têm sérios inconvenientes numa distribuição racional do trabalho e dos salários, que são maiores do que à primeira vista se pode pensar. Até a própria economia doméstica se recente, visto que um salário mensal fixo tem de ser distribuído por um número diferente de dias.
Mais grave ainda é a mobilidade da data da Páscoa, que oscila entre 22 de Março e 25 de Abril, com as consequentes perturbações da duração dos trimestres escolares e de outras numerosas actividades (judiciais, económicas, turísticas, etc.) particularmente nos países cristãos em que as festas da Semana Santa têm um grande significado.
Segundo um recente estudo (Fraser, 1987), haverá hoje cerca de quarenta calendários em uso, em todo o mundo.
A complexidade dos calendários deriva pelo facto dos vários períodos de revolução não conterem um número inteiro de dias e também, porque os ciclos astronómicos não serem constantes, nem perfeitamente mensuráveis uns com os outros.
___
Nota – alguns dados astronómicos foram em parte documentados, na Origem e evolução do nosso calendário, de Manuel Nunes Marques
* Médico, poeta, ensaísta, investigador
Calendário, quadro ou catálogo que indica a divisão do ano em estações, meses, semanas e dias, atribuindo muitas vezes a ordem das festas religiosas, assinalando certos fenómenos astronómicos como lunações, marés, eclipses, etc.

João-Maria Nabais*
Desde tempos imemoriais que o Homem tentou perceber a razão da sequência dos dias e das noites, e por certo ficaria fascinado, por longos períodos, a olhar os céus numa tentativa de perscrutar a imensa escuridão estelar, para assim justificar muitos dos enigmas com que se confrontava, no seu dia-a-dia, na Terra.
Calendário, sua origem
e cronologia histórica
A necessidade de dividir e medir o tempo foi sentida com os primeiros passos da civilização. É a sucessão ordenada dos dias e noites, aliada ao fenómeno do ciclo das fases da Lua que conduziram às noções de dia e mês. O conceito de ano, só aparece com o desenvolvimento da agricultura nos povos antigos ao darem conta do ritmo das estações. São o dia, o mês lunar (ou lunação) e o ano, os períodos astronómicos naturais utilizados em qualquer calendário. A sincronização destes três componentes acentua a complexidade do calendário.
Grande parte do conhecimento actual sobre os calendários baseia-se em estudos de referência de dois escritores da Antiguidade: Ovídio, poeta romano, 43 a.C.-17/18 d.C.; e Plutarco, escritor grego, 50 d.C.-120 d.C.
O principal motivo da criação de um calendário é o desejo de organizar no tempo, os eventos de uma sociedade. Sempre teve um estatuto sagrado, além de servir de identidade cultural.
Calendário vem do latim calendarìu (livro de contas, registo) e não de calendas (primeiro dia de cada mês entre os romanos).
O dia solar verdadeiro, intervalo de tempo entre duas passagens consecutivas do Sol pelo meridiano dum lugar, varia entre 23h 59’ 39” e 24h 00’ 30”. Estas variações obrigam a utilizar um dia civil com a duração de 24 horas. Este dia, definido em função do dia solar médio, começa à meia-noite e termina à meia-noite seguinte.
A lunação, intervalo de tempo entre duas conjunções consecutivas da Lua com o Sol, também não é um valor constante, mas varia entre 29 dias e 6 horas e 29 dias e 20 horas. O seu valor médio, conhecido com grande precisão, é de 29d 12h 44’ 02,8”. A revolução sinódica da Lua (período que decorre entre dois estados sucessivos de conjunção da Lua) está na origem dos calendários lunares, em que os meses têm alternadamente 29 dias e 30 dias. O seu valor médio, aproximado, é 29,5 dias.
O ano sideral, duração da revolução da Terra em torno do Sol, é igual a 365d 06h 09’ 09,8”.
O ano trópico, tempo decorrido entre duas passagens consecutivas do Sol médio pelo ponto vernal (ponto da esfera celeste por onde passa o centro do Sol, no seu movimento anual aparente, quando transita do hemisfério sul para o hemisfério norte), é actualmente de 365d 05h 48’ 45,3”. É o ano trópico que regula o regresso das estações e que intervém nos calendários solares.
Um outro período de tempo usual nos calendários é a semana de sete dias, cujo motivo se desconhece. É possível que estivesse relacionada com o mês lunar, visto que sete dias são aproximadamente um quarto de lunação, o intervalo aproximado entre a Lua cheia e o quarto minguante, ou talvez com o número dos sete astros principais do firmamento (os cinco planetas conhecidos na Antiguidade mais o Sol e a Lua). Mas é provável que a escolha de um intervalo de sete dias se deva ao carácter sagrado do número sete entre os antigos judeus. O período semanal de sete dias encontra-se hoje relacionado a um ciclo normal das actividades de trabalho e lazer, em quase todos os calendários.
Os primeiros Calendários
Os primevos calendários são o hebreu e o egípcio. Ambos tinham um ano civil de 360 dias: curto para representar o ciclo das estações, mas grande para corresponder ao chamado ano lunar, que se define como um período de tempo igual a 12 lunações completas existentes no ano trópico, ainda desconhecido.
Ignora-se como os hebreus dividiam o ano, mas julga-se que já utilizavam a semana, visto que seguiam o mesmo princípio para contar os anos, agrupando-os em septanas ou semanas de sete anos. Pelo contrário, os egípcios dividiam o ano em 12 meses de 30 dias e cada mês em três décadas. Os egípcios também dividiam o ano em três estações, de acordo com as suas actividades agrícolas sujeitas às cheias periódicas do Nilo: a estação das inundações; a estação das sementeiras e a estação das colheitas.
Os gregos estabeleceram um ano lunar de 354 dias, que dividiram em 12 meses de 30 e 29 dias, alternadamente. Os meses, como no calendário egípcio, eram dedicados aos deuses e neles se celebravam festas, não só em honra do deus correspondente, mas também outras dedicadas aos astros, às estações, etc.
No primitivo calendário romano, o ano tinha 304 dias repartidos por 10 meses. Os quatro primeiros tinham nomes dedicados aos deuses da mitologia romana e provinham de tempos mais remotos: Martius (dedicado a Marte), Aprilis (a Apolo), Maius (a Júpiter), Junius (a Juno); os seis restantes eram designados por números ordinais, indicativos da ordem que ocupavam no calendário.
Representa um calendário sem qualquer base astronómica, pois os períodos nele definidos não têm qualquer relação com os movimentos do Sol ou da Lua. Por isso, no tempo de Rómulo foram introduzidas algumas inserções de forma a harmonizar este calendário com os citados períodos astronómicos.
O calendário de Rómulo foi reformulado por Numa Pompílio, o qual, seguindo o exemplo dos gregos, estabeleceu o ano de 12 meses, mas introduzindo em primeiro lugar o mês de Januarius, dedicado a Jano, e em último lugar o mês de Februarius, dedicado a Februa, ao qual os romanos ofereciam sacrifícios para expiar as suas faltas de todo o ano. Este foi o motivo por que o mês de Februarius foi colocado no fim. Mas Numa modificou também a duração dos meses, deixando o calendário do seguinte modo:
1.º Januarius 29 dias
2.º Martius 31 dias
3.º Aprilis 29 dias
4.º Maius 31 dias
5.º Junius 29 dias
6.º Quintilis 31 dias
7.º Sextilis 29 dias
8.º September 29 dias
9.º October 31 dias
10.º November 29 dias
11.º December 29 dias
12.º Februarius 27 dias
TOTAL 354 dias
O ano tinha 354 dias (ano lunar dos gregos). Mas esta curiosa distribuição dos dias pelos meses era devida à superstição dos romanos que tomavam por funestos os números pares. Pela mesma razão, consideraram nefasto o ano com 354 dias e aumentaram-no para 355 dias, atribuindo o dia excedente a Februarius, que passou a ter 28 dias.
Calendário juliano
Devido à ignorância e preconceito dos sacerdotes que tinham a seu cargo o propósito de medir o tempo acentuou-se gradualmente a confusão no calendário romano.
Foi esta desordem que Júlio César encontrou ao chegar ao poder. Logo se prepara para introduzir a sua reforma ao adoptar o calendário solar, conhecido por Juliano, que começou a vigorar no ano 709 de Roma (46 a.C.), mediante um sistema que devia desenrolar-se por ciclos de quatro anos, com três comuns de 365 dias e um bissexto de 366 dias, a fim de compensar as quase seis horas que havia de diferença.
Durante o consulado de Marco António, reconhecendo-se a importância da reforma introduzida no calendário romano por Júlio César, foi decidido prestar-lhe justa homenagem, perpetuando o seu nome no calendário, de maneira que o sétimo mês, Quintilis, passou a chamar-se Julius - Julho.
Também no ano 730 de Roma (23 a.C.), o Senado romano decretou que o oitavo mês, Sextilis, passasse a chamar-se Augustus – Agosto. Foi durante este mês que começou o reinado, do primeiro imperador romano, César Augusto, sucessor de Júlio César, após ter posto fim à guerra civil que assolava a nação. E para que o mês dedicado a César Augusto não tivesse menos dias do que o dedicado a Júlio César, o mês de Augustus passou a ter 31 dias. Este dia saiu do mês de Februarius, que ficou com 28 dias nos anos comuns e 29 nos bissextos. Também para que não houvesse tantos meses seguidos com 31 dias, reduziram-se para 30 dias os meses de September e November, passando a ter 31 dias, os de October e December. Assim se chegou à distribuição sem lógica alguma dos dias pelos meses, que ainda hoje vigora.
Calendário gregoriano
A reforma gregoriana prepara um ajuste ao calendário Juliano para conseguir determinar correctamente a data da Páscoa, a mais importante festa cristã. Ao fazer regressar o equinócio da primavera a 21 de Março desfaz o erro de 10 dias já existente. Esta divergência causava prejuízos na celebração da Ressurreição e de outras festas móveis religiosas. Foi necessária a autoridade de um Papa. de cultura e perseverança como Gregório XIII (1572–1585), com a ajuda do astrónomo Christoph Clavius, célebre padre jesuíta que estudara matemática em Coimbra com Pedro Nunes, para conseguir impor a reforma. Em 24 de Fevereiro de 1582 promulga a bula Inter Gravíssimas, que estabelece os pontos essenciais do novo calendário.
A duração do ano gregoriano é em média de 365d 05h 49’ 12”, isto é, tem actualmente mais 27s do que o ano trópico. A acumulação desta diferença ao longo do tempo representará um dia em cada 3000 anos.
Portugal, Espanha e Itália foram os primeiros países que aceitaram de imediato a reforma do calendário.
Actualmente o calendário gregoriano pode ser considerado de uso universal. Mesmo aqueles povos que, por motivos religiosos, culturais ou outros, continuam agarrados aos seus calendários tradicionais, utilizam o calendário gregoriano nas suas relações internacionais.
Curiosidades e paradoxos
O modelo actual de calendário lunar é o calendário islâmico e do calendário solar é o calendário gregoriano.
Hoje, o calendário gregoriano serve como padrão nas relações internacionais de uso civil. Ao mesmo tempo regula o ciclo de cerimónias das Igrejas Católica e Protestante. De facto, o seu primeiro desígnio foi canónico.
Sob o ponto de vista astronómico, o seu principal defeito é ser ligeiramente mais longo do que o ano trópico, o que se traduz por uma diferença de um dia em cerca de 3000 anos. Porém, esta pequena diferença não tem qualquer inconveniente imediato e uma reforma do calendário destinada a corrigi-la traria sérios problemas, porque iria criar uma descontinuidade com as consequentes complicações cronológicas.
O mesmo não acontece sob o ponto de vista prático, em que, de facto, se justifica uma modificação. Com efeito, o número de dias de cada mês é muito irregular (28 a 31 dias). O mesmo acontece com a semana, adoptada quase universalmente como unidade laboral de tempo, que não se encontra integrada nos meses e muitas vezes repartida por dois meses diferentes. Estas duas anomalias têm sérios inconvenientes numa distribuição racional do trabalho e dos salários, que são maiores do que à primeira vista se pode pensar. Até a própria economia doméstica se recente, visto que um salário mensal fixo tem de ser distribuído por um número diferente de dias.
Mais grave ainda é a mobilidade da data da Páscoa, que oscila entre 22 de Março e 25 de Abril, com as consequentes perturbações da duração dos trimestres escolares e de outras numerosas actividades (judiciais, económicas, turísticas, etc.) particularmente nos países cristãos em que as festas da Semana Santa têm um grande significado.
Segundo um recente estudo (Fraser, 1987), haverá hoje cerca de quarenta calendários em uso, em todo o mundo.
A complexidade dos calendários deriva pelo facto dos vários períodos de revolução não conterem um número inteiro de dias e também, porque os ciclos astronómicos não serem constantes, nem perfeitamente mensuráveis uns com os outros.
___
Nota – alguns dados astronómicos foram em parte documentados, na Origem e evolução do nosso calendário, de Manuel Nunes Marques
* Médico, poeta, ensaísta, investigador
6 de janeiro de 2006
Cansaços
O que a Senhora Ministra acabou de explicar à Sic Notícias é que quer acabar com os números negros da ignorância e da iliteracia.
Quem não se rende a este propósito tão nobre?
Eu rendo-me, claro!
Porém, recuso-me a acreditar que a maneira de o fazer seja à custa dos professores. A troco de quê? De aulas de substituição que não servem para nada e desgastam inutilmente as reservas de entusiasmo dos professores? A troco da ameaça velada, e a partir de agora continuada, de uma avaliação injusta por parte de qualquer encarregado de educação muito, pouco ou nada instruído, pois não é isso que está em causa?
Eu sou velha nisto e sempre ouvi os professores dizerem que eram permanentemente avaliados por todos: pais, alunos, colegas, funcionários... Só faltava mesmo a formalização dessa avaliação e a validação por parte do Ministério.
E a indisciplina Senhora Ministra? E os programas? E a carga horária das disciplinas? E as áreas projecto e os estudos acompanhados? Sabem os senhores em geral que, no quinto ano, as disciplinas de Inglês, História e Ciências têm a mesma carga horária do Estudo Acompanhado? E os noventa minutos, em que sobeja tempo útil de aula, ao contrário dos quarenta e cinco, em que falta? E as carências dos meninos mais pobres? E as pobrezas morais que por aí há que "animam" muito os telejornais? Na escola, nós temos de lidar com elas antes da "Alice no País das Maravilhas" Senhora Ministra!!!!
Já percebi, Senhora Ministra, são só os professores que estão mal, para si. Ou melhor, são só os sindicatos. Pensando melhor, é só a Fenprof, que a incomoda de facto.
Estou cansada e estou vencida!
Quem não se rende a este propósito tão nobre?
Eu rendo-me, claro!
Porém, recuso-me a acreditar que a maneira de o fazer seja à custa dos professores. A troco de quê? De aulas de substituição que não servem para nada e desgastam inutilmente as reservas de entusiasmo dos professores? A troco da ameaça velada, e a partir de agora continuada, de uma avaliação injusta por parte de qualquer encarregado de educação muito, pouco ou nada instruído, pois não é isso que está em causa?
Eu sou velha nisto e sempre ouvi os professores dizerem que eram permanentemente avaliados por todos: pais, alunos, colegas, funcionários... Só faltava mesmo a formalização dessa avaliação e a validação por parte do Ministério.
E a indisciplina Senhora Ministra? E os programas? E a carga horária das disciplinas? E as áreas projecto e os estudos acompanhados? Sabem os senhores em geral que, no quinto ano, as disciplinas de Inglês, História e Ciências têm a mesma carga horária do Estudo Acompanhado? E os noventa minutos, em que sobeja tempo útil de aula, ao contrário dos quarenta e cinco, em que falta? E as carências dos meninos mais pobres? E as pobrezas morais que por aí há que "animam" muito os telejornais? Na escola, nós temos de lidar com elas antes da "Alice no País das Maravilhas" Senhora Ministra!!!!
Já percebi, Senhora Ministra, são só os professores que estão mal, para si. Ou melhor, são só os sindicatos. Pensando melhor, é só a Fenprof, que a incomoda de facto.
Estou cansada e estou vencida!
13 de dezembro de 2005
José Eduardo Agualusa
A VIDA DOS PARDAIS
Destaque: "A humanidade divide-se entre aquelas pessoas que são capazes de apertar a mão a um político, e as que não são. Eu sofro de um excesso de civilização - não sou."
"Não sou pessimista", assegurou o pessimista: "mas o que hei-de fazer se o mundo é um lugar péssimo?"
A pergunta não presumia uma resposta. Parecia uma citação. O pessimista ergueu o copo e bebeu mais um gole de vinho. A mulher, Flávia, trinta anos mais nova, com uma longa cabeleira dourada, solta, que lhe chegava à cintura, repetiu-lhe o gesto. O optimista riu-se:
"Eu cá gosto do mundo. Há muitas coisas terríveis, guerras, fomes, epidemias, homens-bombas, desastres ecológicos, música pimba, enfim, o que vocês quiserem, mas viver é maravilhoso!"
Os outros olharam-no com estranheza, senão mesmo (um ou outro) com mal disfarçada hostilidade. Raramente alguém ousava contestar o pessimista.
"Vejam bem, o Natal, as multidões enchendo as ruas! Eu gosto disto, da alegria das crianças, das luzes nas árvores, da ideia de que, quando Dezembro chegar ao fim, nos será dada a possibilidade de apagar os nossos erros e recomeçar tudo outra vez. Ano novo, vida nova. Ah, que maravilha!..."
"Odeio o Natal", cortou, sombrio, o pessimista: "Puro mercantilismo. Odeio em particular a figura do Pai Natal. Às vezes imagino-me na pele de um serial killer especializado em degolar Pais Natais..."
A ideia divertiu o grupo. O pessimista não tinha aspecto de serial killer. Era um homem já de certa idade, isto é, passara a idade em que seria possível imaginá-lo a degolar Pais Natais. Vinha de uma família com dinheiro e um nome nobre e sonante. Mantinha, apesar dos anos, uma forma física invejável, seco, sempre muito direito. As mulheres achavam-no charmoso. Ele não gostava da palavra. Ironizava:
"Isso a que vocês chamam charme não é outra coisa senão a simples combinação entre boa postura e boa educação."
O optimista, pelo contrário, era um sujeito um tanto desajeitado, nascido e criado numa remota aldeia alentejana (definia-se a si próprio como um luso-alentejano), que subira na vida a muito custo, mas sem nunca perder a gargalhada franca, e a capacidade de rir das próprias desgraças. Estavam numa varanda debruçada sobre o casario, o rio quase ao alcance da mão. Entardecia. Alguém lembrou o espectáculo melancólico da campanha eleitoral para a Presidência da República. Um outro comensal, um homem triste, pálido, condenou o vazio de ideias, e o afã populista dos candidatos:
"Eu não poderia ser político. Não seria capaz de andar mergulhado no meio das multidões, a beijar criancinhas e peixeiras, cartomantes e carteiristas, eu sei lá!, a apertar a mão a desconhecidos."
O pessimista concordou. Ele ia além. O que mais o horrorizava era apertar a mão promíscua dos políticos que afagavam as multidões:
"A humanidade divide-se entre aquelas pessoas que são capazes de apertar a mão a um político, e as que não são. Eu sofro de um excesso de civilização - não sou."
O optimista era tão optimista que, inclusive, acreditava nos políticos, ou pelo menos em alguns políticos, e na democracia. Aquilo pareceu a todos um exagero. Riram-se com gosto da ingenuidade dele. Bem, todos não. Flávia ouviu-o com atenção. O optimista não se esforçava por alcançar a aprovação dos outros. Falava com paixão das vidas minúsculas dos pardais e dos matizes das rosas que plantava no jardim. Ouvindo-o falar a vida parecia um facto inédito, uma festa. Flávia reparou que ele tinha umas mãos bonitas, eloquentes, marcadas pela dureza do passado, mas de unhas limpas e bem cuidadas. Gostou da forma como sorria. Houve um momento de silêncio. A seguir o pessimista propôs que criassem ali mesmo uma associação secreta destinada a eliminar do planeta a figura rídicula do Pai Natal. Flávia não se riu.
O sol inclinou-se gravemente, diante deles, como um mordomo antigo. Tocou com os cabelos em chamas a lenta água em movimento. O pessimista fechou os olhos, absorto, enquanto em redor a luz se extinguia. Quando os reabriu Flávia fora-se embora. O optimista também. Juntos, mas isso ele só descobriu alguns dias depois.
Destaque: "A humanidade divide-se entre aquelas pessoas que são capazes de apertar a mão a um político, e as que não são. Eu sofro de um excesso de civilização - não sou."
"Não sou pessimista", assegurou o pessimista: "mas o que hei-de fazer se o mundo é um lugar péssimo?"
A pergunta não presumia uma resposta. Parecia uma citação. O pessimista ergueu o copo e bebeu mais um gole de vinho. A mulher, Flávia, trinta anos mais nova, com uma longa cabeleira dourada, solta, que lhe chegava à cintura, repetiu-lhe o gesto. O optimista riu-se:
"Eu cá gosto do mundo. Há muitas coisas terríveis, guerras, fomes, epidemias, homens-bombas, desastres ecológicos, música pimba, enfim, o que vocês quiserem, mas viver é maravilhoso!"
Os outros olharam-no com estranheza, senão mesmo (um ou outro) com mal disfarçada hostilidade. Raramente alguém ousava contestar o pessimista.
"Vejam bem, o Natal, as multidões enchendo as ruas! Eu gosto disto, da alegria das crianças, das luzes nas árvores, da ideia de que, quando Dezembro chegar ao fim, nos será dada a possibilidade de apagar os nossos erros e recomeçar tudo outra vez. Ano novo, vida nova. Ah, que maravilha!..."
"Odeio o Natal", cortou, sombrio, o pessimista: "Puro mercantilismo. Odeio em particular a figura do Pai Natal. Às vezes imagino-me na pele de um serial killer especializado em degolar Pais Natais..."
A ideia divertiu o grupo. O pessimista não tinha aspecto de serial killer. Era um homem já de certa idade, isto é, passara a idade em que seria possível imaginá-lo a degolar Pais Natais. Vinha de uma família com dinheiro e um nome nobre e sonante. Mantinha, apesar dos anos, uma forma física invejável, seco, sempre muito direito. As mulheres achavam-no charmoso. Ele não gostava da palavra. Ironizava:
"Isso a que vocês chamam charme não é outra coisa senão a simples combinação entre boa postura e boa educação."
O optimista, pelo contrário, era um sujeito um tanto desajeitado, nascido e criado numa remota aldeia alentejana (definia-se a si próprio como um luso-alentejano), que subira na vida a muito custo, mas sem nunca perder a gargalhada franca, e a capacidade de rir das próprias desgraças. Estavam numa varanda debruçada sobre o casario, o rio quase ao alcance da mão. Entardecia. Alguém lembrou o espectáculo melancólico da campanha eleitoral para a Presidência da República. Um outro comensal, um homem triste, pálido, condenou o vazio de ideias, e o afã populista dos candidatos:
"Eu não poderia ser político. Não seria capaz de andar mergulhado no meio das multidões, a beijar criancinhas e peixeiras, cartomantes e carteiristas, eu sei lá!, a apertar a mão a desconhecidos."
O pessimista concordou. Ele ia além. O que mais o horrorizava era apertar a mão promíscua dos políticos que afagavam as multidões:
"A humanidade divide-se entre aquelas pessoas que são capazes de apertar a mão a um político, e as que não são. Eu sofro de um excesso de civilização - não sou."
O optimista era tão optimista que, inclusive, acreditava nos políticos, ou pelo menos em alguns políticos, e na democracia. Aquilo pareceu a todos um exagero. Riram-se com gosto da ingenuidade dele. Bem, todos não. Flávia ouviu-o com atenção. O optimista não se esforçava por alcançar a aprovação dos outros. Falava com paixão das vidas minúsculas dos pardais e dos matizes das rosas que plantava no jardim. Ouvindo-o falar a vida parecia um facto inédito, uma festa. Flávia reparou que ele tinha umas mãos bonitas, eloquentes, marcadas pela dureza do passado, mas de unhas limpas e bem cuidadas. Gostou da forma como sorria. Houve um momento de silêncio. A seguir o pessimista propôs que criassem ali mesmo uma associação secreta destinada a eliminar do planeta a figura rídicula do Pai Natal. Flávia não se riu.
O sol inclinou-se gravemente, diante deles, como um mordomo antigo. Tocou com os cabelos em chamas a lenta água em movimento. O pessimista fechou os olhos, absorto, enquanto em redor a luz se extinguia. Quando os reabriu Flávia fora-se embora. O optimista também. Juntos, mas isso ele só descobriu alguns dias depois.
2 de dezembro de 2005
Depois...
Cinco anos mais tarde, Evangelia e George separam-se e a mãe regressa à Grécia com as duas filhas, mudando novamente o apelido para Kalogeropoulos. No ano seguinte, Maria é admitida no Conservatório Nacional de Atenas, apesar da idade não ser a legalmente exigida. Começa então os estudos musicais, sob a orientação de Maria Trivella e no mesmo ano, a 11 de Abril, faz a primeira aparição em público, num recital, juntamente com os outros estudantes do Conservatório.
Os dados do destino estavam lançados, pelo menos no que dizia respeito ao talento e à voz da diva do bel canto. Ainda na Grécia, viveu momentos difíceis. No entanto, foi aqui que começou o deslumbramento dos músicos com a sua voz. Maria é convidada a substituir a soprano, que adoecera subitamente, na Opera “Tosca” de Puccini, numa representação ao ar livre. Maria, ao longo desses anos, não tinha parado nunca de estudar, de aprender e de cantar, mas esta foi a sua oportunidade.
No ano seguinte começa a preparar o seu regresso aos Estados Unidos, em busca de sucesso, à procura do pai, mas sobretudo de estabilidade política, da paz, que entretanto já se anunciava na Europa, com o fim da guerra. A 3 de Agosto de 1945, Maria despede-se de Atenas num concerto, o primeiro recital a solo, iniciativa que tem como objectivo angariar fundos para a passagem. Em Setembro parte para os Estados Unidos.
Apesar das audições quase imediatas para a Ópera Metroplitana, não parecia fácil arranjar trabalho, um contrato que lhe trouxesse aquilo que sonhava, que procurava e merecia, não só pelo talento natural, como também pelo trabalho árduo, que nem em tempos de glória e de sucesso deixou de ter. “Eu não confio na glória.” Diria um dia, numa entrevista, bem mais tarde. Cedo terá aprendido a não confiar.
Porém, em 1947, o mundo reconhecia o valor desta voz, mais uma vez de um modo inesperado... Quando tudo parecia dar uma volta, deu outra e outra ainda, como se de uma dança se tratasse... A Companhia de Chicago, com quem tinha um contrato, faliu, dias antes da representação tão esperada, onde se encontrariam outras vozes célebres da Europa! Mas Giovanni Zanatello estava nos Estados Unidos, precisamente à procura de vozes, para o Festival de Ópera de Verona desse ano. Contrata-a para cantar “A Gioconda”. Era o sucesso a rondar a vida de Maria Callas.
Durante os ensaios, conhece um amante de ópera, Giovanni Baptista Meneghini, industrial muito rico, com quem casa a 21 de Abril de 1949. Marido, Meneghini torna-se também empresário de Callas, gerindo o êxito quase absoluto dos anos cinquenta, com momentos inesquecíveis da Divina, desde o Scala de Milão a outros lados. No próprio dia do casamento embarcara para a Argentina, para cantar no “Teatro Colon”, em Buenos Aires.
Os anos cinquenta são também de convívio social intenso e, acompanhada do marido, Callas frequenta os ambientes mais ricos e sofisticados. Assim conhece Aristóteles Onassis, o mítico armador milionário grego, em Veneza, por intermédio de Elsa Maxwell, uma anfitriã americana.
A determinada altura, tremendamente magra e frágil, Callas começa a evidenciar sinais de fadiga. A diva abandona uma gala, onde se encontrava o Presidente Italiano, em Roma, a 2 de Janeiro de 1958, a seguir ao primeiro acto de “Norma” de Bellini. A crítica foi severa, mas a diva seguiu, aparentemente indiferente, envolvendo-se em novos incidentes, como uma discussão com o Director de La Scala, em Maio do mesmo ano.
Em Dezembro, reaparece com todo o seu esplendor, na Ópera de Paris. Onassis assiste e percebe-se que o seu interesse vai para além da voz. Ele quer a mulher que não lhe resiste. No ano seguinte, o casamento com Meneghini termina, depois de um cruzeiro no célebre iate Christina, onde também viajou Winston Churchill.
São dois anos de envolvimento amoroso com um dos homens mais poderosos do mundo do dinheiro e Callas abdica de quase toda a sua vida artística para o acompanhar. Os fotógrafos perseguem-na, porque o mundo devora escândalos e a imprensa vende-os a alto preço. É um preço bem alto que Callas começa a pagar com este romance: primeiro o afastamento dos palcos e finalmente a rejeição de Onassis, que casa em 1968 com Jackeline Kennedy, uma das mulheres mais bonitas da época, viúva do presidente John Kennedy.
São várias as tentativas de regressar às luzes e aos aplausos, mas Callas apenas voltará aos palcos para um canto de cisne, doloroso e prolongado. Um amigo de longa data, tenor, Di Stefano, convence-a a participar com ele, numa série de recitais. A causa é nobre: o dinheiro destina-se ao tratamento da filha do tenor. “...um êxito pessoal, mas um insucesso artístico...” dizem os críticos, em jeito de balanço, depois de terminada a tournée, em 74.
Onassis morre em 75 e dois anos mais tarde, em Paris, no seu apartamento, a 16 de Setembro, Callas morre também, no meio da mais completa solidão e tristeza.
Caiu o pano, sem palmas. Calou-se a voz da protagonista grega de uma tragédia: a sua própria vida.
Os dados do destino estavam lançados, pelo menos no que dizia respeito ao talento e à voz da diva do bel canto. Ainda na Grécia, viveu momentos difíceis. No entanto, foi aqui que começou o deslumbramento dos músicos com a sua voz. Maria é convidada a substituir a soprano, que adoecera subitamente, na Opera “Tosca” de Puccini, numa representação ao ar livre. Maria, ao longo desses anos, não tinha parado nunca de estudar, de aprender e de cantar, mas esta foi a sua oportunidade.
No ano seguinte começa a preparar o seu regresso aos Estados Unidos, em busca de sucesso, à procura do pai, mas sobretudo de estabilidade política, da paz, que entretanto já se anunciava na Europa, com o fim da guerra. A 3 de Agosto de 1945, Maria despede-se de Atenas num concerto, o primeiro recital a solo, iniciativa que tem como objectivo angariar fundos para a passagem. Em Setembro parte para os Estados Unidos.
Apesar das audições quase imediatas para a Ópera Metroplitana, não parecia fácil arranjar trabalho, um contrato que lhe trouxesse aquilo que sonhava, que procurava e merecia, não só pelo talento natural, como também pelo trabalho árduo, que nem em tempos de glória e de sucesso deixou de ter. “Eu não confio na glória.” Diria um dia, numa entrevista, bem mais tarde. Cedo terá aprendido a não confiar.
Porém, em 1947, o mundo reconhecia o valor desta voz, mais uma vez de um modo inesperado... Quando tudo parecia dar uma volta, deu outra e outra ainda, como se de uma dança se tratasse... A Companhia de Chicago, com quem tinha um contrato, faliu, dias antes da representação tão esperada, onde se encontrariam outras vozes célebres da Europa! Mas Giovanni Zanatello estava nos Estados Unidos, precisamente à procura de vozes, para o Festival de Ópera de Verona desse ano. Contrata-a para cantar “A Gioconda”. Era o sucesso a rondar a vida de Maria Callas.
Durante os ensaios, conhece um amante de ópera, Giovanni Baptista Meneghini, industrial muito rico, com quem casa a 21 de Abril de 1949. Marido, Meneghini torna-se também empresário de Callas, gerindo o êxito quase absoluto dos anos cinquenta, com momentos inesquecíveis da Divina, desde o Scala de Milão a outros lados. No próprio dia do casamento embarcara para a Argentina, para cantar no “Teatro Colon”, em Buenos Aires.
Os anos cinquenta são também de convívio social intenso e, acompanhada do marido, Callas frequenta os ambientes mais ricos e sofisticados. Assim conhece Aristóteles Onassis, o mítico armador milionário grego, em Veneza, por intermédio de Elsa Maxwell, uma anfitriã americana.
A determinada altura, tremendamente magra e frágil, Callas começa a evidenciar sinais de fadiga. A diva abandona uma gala, onde se encontrava o Presidente Italiano, em Roma, a 2 de Janeiro de 1958, a seguir ao primeiro acto de “Norma” de Bellini. A crítica foi severa, mas a diva seguiu, aparentemente indiferente, envolvendo-se em novos incidentes, como uma discussão com o Director de La Scala, em Maio do mesmo ano.
Em Dezembro, reaparece com todo o seu esplendor, na Ópera de Paris. Onassis assiste e percebe-se que o seu interesse vai para além da voz. Ele quer a mulher que não lhe resiste. No ano seguinte, o casamento com Meneghini termina, depois de um cruzeiro no célebre iate Christina, onde também viajou Winston Churchill.
São dois anos de envolvimento amoroso com um dos homens mais poderosos do mundo do dinheiro e Callas abdica de quase toda a sua vida artística para o acompanhar. Os fotógrafos perseguem-na, porque o mundo devora escândalos e a imprensa vende-os a alto preço. É um preço bem alto que Callas começa a pagar com este romance: primeiro o afastamento dos palcos e finalmente a rejeição de Onassis, que casa em 1968 com Jackeline Kennedy, uma das mulheres mais bonitas da época, viúva do presidente John Kennedy.
São várias as tentativas de regressar às luzes e aos aplausos, mas Callas apenas voltará aos palcos para um canto de cisne, doloroso e prolongado. Um amigo de longa data, tenor, Di Stefano, convence-a a participar com ele, numa série de recitais. A causa é nobre: o dinheiro destina-se ao tratamento da filha do tenor. “...um êxito pessoal, mas um insucesso artístico...” dizem os críticos, em jeito de balanço, depois de terminada a tournée, em 74.
Onassis morre em 75 e dois anos mais tarde, em Paris, no seu apartamento, a 16 de Setembro, Callas morre também, no meio da mais completa solidão e tristeza.
Caiu o pano, sem palmas. Calou-se a voz da protagonista grega de uma tragédia: a sua própria vida.
30 de novembro de 2005
da Pública para mim
SAL E ESQUECIMENTO
José Eduardo Agualusa
Carlos Escuder vendeu facilmente as fotografias que fez na Ilha. Eram todas elas muito boas. Publicou-as numa conhecida revista madrilena. Só as vi, porém, no mesmo dia em que, por uma dessas incríveis coincidências que fazem com que, tantas vezes, a vida pareça menos verosímil do que a literatura, li a notícia da morte de Mauro. Na revista madrilena havia uma foto dele, extraordinária, contemplando absorto a Fortaleza de São Sebastião.
Cheguei à ilha na companhia de Escuder, jovem fotógrafo catalão, que se propunha construir, para uma tese de mestrado, um portfolio sobre o esquecimento. Carles lera no Le Monde uma reportagem com o título, não muito original, convenhamos, "A Ilha Esquecida", e fora isso que o trouxera até ali. A mim trouxera-me a poesia de Rui Knopfli:
"A fortaleza mergulha no mar / os cansados flancos / e sonha com impossíveis / naves moiras. / Tudo o mais são ruas prisioneiras / e casas velhas a mirar o tédio. / As gentes calam na / voz / uma vontade antiga de lágrimas / e um riquexó de sono / desce a Travessa da Amizade. / Em pleno dia claro / vejo-te adormecer na distância, / Ilha de Moçambique, / e faço-te estes versos / de sal e esquecimento".
Estava sentado a uma das mesas do restaurante África Blues, na área internacional do aeroporto de Joanesburgo, e tinha nas mãos "A Ilha de Próspero", com fotografias do próprio Knopfli, quando Carles me abordou:
"Vai para a Ilha?"
Fizemos juntos a viagem de avião para Maputo, e de Maputo para Nampula. Em Nampula alugámos um taxi. O motorista era um velho seco, frágil, de cabelo inteiramente branco e o rosto sulcado por fundas rugas, mas um sorriso intacto, luminoso, que parecia ter sido estreado naquele mesmo dia. Chamava-se Ben, diminutivo de Benigno, Benigno Meigos, o que me pareceu um bom presságio, sabendo-se que a palavra meigo provém do grego magikós, pertencente à magia, aquele que encanta.
A Ilha, que foi capital de Moçambique até 1898, está ligada ao continente por uma estreita e compridíssima ponte, ferrugenta, como uma corrente a prender um barco ao cais. O abandono não me surpreendeu. Era o que eu esperava: velhos casarões atordoados sob um sol feroz. Um lento cerco de praias, um mar cor de esmeralda, as enormes árvores fatigadas, cobertas de poeira. Havia também jovens à sombra jogando ntchuva, ou simplesmente imóveis, silenciosos, de braços cruzados. Mais tarde, nas varandas, vi mulheres, em capulanas coloridas, alongadas sobre esteiras (algumas delas com o telemóvel pousado junto à cabeça). Naturalmente, já não encontrámos riquexós.
Benigno parou o carro junto a um largo portão - uma pousada -, recebeu o que lhe era devido e prometeu regressar à tarde, para nos levar a conhecer a Ilha, e uma praia, no continente, que era a única, assegurava, onde nos convinha tomar banho. O proprietário da pousada, Mauro, um italiano ruivo, de meia idade, trazia vestida uma t-shirt cor de laranja na qual se podia ler - "Deus acredita em mim". Não fiquei muito convencido. A cabeleira ruiva, desordenada, dava-lhe um ar meio atónito, implausível. O próprio Deus, vendo-o assim, talvez o colocasse em dúvida.
"Esta ilha é um sumidouro", disse, num português triunfante, depois que nos sentámos diante dele, à sombra lilás de um caramanchão coberto por buganvílias. Mandou que nos servissem um sumo de caju, muito fresco, e continuou:
"Vejam bem, os estrangeiros vêm para esta Ilha para esquecerem algo, ou alguém, ou para serem esquecidos. O poeta Tomás António Gonzaga, por exemplo, e os seus companheiros da inconfidência mineira. As pessoas chegam a este lugar e são esquecidas e depois elas próprias se esquecem de quem foram. Gonzaga esqueceu-se da bela Marília. Talvez até se tenha esquecido do Brasil. Deixou descendentes aqui, sabiam?"
"E o senhor?", perguntei-lhe: "veio para esquecer ou para ser esquecido?"
O italiano sacudiu a áspera cabeleira ruiva:
"Ambas as coisas."
Carles quis saber se lhe poderia fazer um retrato, ali mesmo, sentado à mesa, sob aquela luz de fantasia. Mauro assustou-se:
"Não, não! Fotografias não!..."
A veemêcia com que se recusou a ser fotografado irritou Carles.
"Não é italiano", assegurou-me nessa noite, enquanto passeávamos pela Ilha: "é basco. Disfarça o sotaque, talvez tenha passado alguns anos em Itália antes de vir para aqui, mas de vez em quando distrai-se e então volta a ser basco. E também não é ruivo, não percebeste?, pinta o cabelo."
No dia seguinte, ao almoço, Mauro bebeu um pouco para além da conta. Bebemos todos. Abraçou-se a mim:
"Numa outra vida fiz muitos disparates, muita confusão."
Repetiu a palavra confusão. No geral é uma palavra que agrada aos estrangeiros que vivem, ou visitam, Angola ou Moçambique. Kapuscinski, na sua delirante reportagem sobre a independência de Angola, "Mais um dia de vida", dedica-lhe vários parágrafos.
"É isso", insistiu Mauro: "fiz maning confusão. Mais tarde arrependi-me. Arrepender-me foi a parte pior. Agora só quero esquecer, ser esquecido. Espero consegui-lo..."
Quando li a notícia da sua morte soube que não o conseguira. Um homem branco montado numa moto, dizia o jornal. Passou diante da varanda onde Mauro descansava, estendido numa rede, e disparou um único tiro. Depois desapareceu.
José Eduardo Agualusa
Carlos Escuder vendeu facilmente as fotografias que fez na Ilha. Eram todas elas muito boas. Publicou-as numa conhecida revista madrilena. Só as vi, porém, no mesmo dia em que, por uma dessas incríveis coincidências que fazem com que, tantas vezes, a vida pareça menos verosímil do que a literatura, li a notícia da morte de Mauro. Na revista madrilena havia uma foto dele, extraordinária, contemplando absorto a Fortaleza de São Sebastião.
Cheguei à ilha na companhia de Escuder, jovem fotógrafo catalão, que se propunha construir, para uma tese de mestrado, um portfolio sobre o esquecimento. Carles lera no Le Monde uma reportagem com o título, não muito original, convenhamos, "A Ilha Esquecida", e fora isso que o trouxera até ali. A mim trouxera-me a poesia de Rui Knopfli:
"A fortaleza mergulha no mar / os cansados flancos / e sonha com impossíveis / naves moiras. / Tudo o mais são ruas prisioneiras / e casas velhas a mirar o tédio. / As gentes calam na / voz / uma vontade antiga de lágrimas / e um riquexó de sono / desce a Travessa da Amizade. / Em pleno dia claro / vejo-te adormecer na distância, / Ilha de Moçambique, / e faço-te estes versos / de sal e esquecimento".
Estava sentado a uma das mesas do restaurante África Blues, na área internacional do aeroporto de Joanesburgo, e tinha nas mãos "A Ilha de Próspero", com fotografias do próprio Knopfli, quando Carles me abordou:
"Vai para a Ilha?"
Fizemos juntos a viagem de avião para Maputo, e de Maputo para Nampula. Em Nampula alugámos um taxi. O motorista era um velho seco, frágil, de cabelo inteiramente branco e o rosto sulcado por fundas rugas, mas um sorriso intacto, luminoso, que parecia ter sido estreado naquele mesmo dia. Chamava-se Ben, diminutivo de Benigno, Benigno Meigos, o que me pareceu um bom presságio, sabendo-se que a palavra meigo provém do grego magikós, pertencente à magia, aquele que encanta.
A Ilha, que foi capital de Moçambique até 1898, está ligada ao continente por uma estreita e compridíssima ponte, ferrugenta, como uma corrente a prender um barco ao cais. O abandono não me surpreendeu. Era o que eu esperava: velhos casarões atordoados sob um sol feroz. Um lento cerco de praias, um mar cor de esmeralda, as enormes árvores fatigadas, cobertas de poeira. Havia também jovens à sombra jogando ntchuva, ou simplesmente imóveis, silenciosos, de braços cruzados. Mais tarde, nas varandas, vi mulheres, em capulanas coloridas, alongadas sobre esteiras (algumas delas com o telemóvel pousado junto à cabeça). Naturalmente, já não encontrámos riquexós.
Benigno parou o carro junto a um largo portão - uma pousada -, recebeu o que lhe era devido e prometeu regressar à tarde, para nos levar a conhecer a Ilha, e uma praia, no continente, que era a única, assegurava, onde nos convinha tomar banho. O proprietário da pousada, Mauro, um italiano ruivo, de meia idade, trazia vestida uma t-shirt cor de laranja na qual se podia ler - "Deus acredita em mim". Não fiquei muito convencido. A cabeleira ruiva, desordenada, dava-lhe um ar meio atónito, implausível. O próprio Deus, vendo-o assim, talvez o colocasse em dúvida.
"Esta ilha é um sumidouro", disse, num português triunfante, depois que nos sentámos diante dele, à sombra lilás de um caramanchão coberto por buganvílias. Mandou que nos servissem um sumo de caju, muito fresco, e continuou:
"Vejam bem, os estrangeiros vêm para esta Ilha para esquecerem algo, ou alguém, ou para serem esquecidos. O poeta Tomás António Gonzaga, por exemplo, e os seus companheiros da inconfidência mineira. As pessoas chegam a este lugar e são esquecidas e depois elas próprias se esquecem de quem foram. Gonzaga esqueceu-se da bela Marília. Talvez até se tenha esquecido do Brasil. Deixou descendentes aqui, sabiam?"
"E o senhor?", perguntei-lhe: "veio para esquecer ou para ser esquecido?"
O italiano sacudiu a áspera cabeleira ruiva:
"Ambas as coisas."
Carles quis saber se lhe poderia fazer um retrato, ali mesmo, sentado à mesa, sob aquela luz de fantasia. Mauro assustou-se:
"Não, não! Fotografias não!..."
A veemêcia com que se recusou a ser fotografado irritou Carles.
"Não é italiano", assegurou-me nessa noite, enquanto passeávamos pela Ilha: "é basco. Disfarça o sotaque, talvez tenha passado alguns anos em Itália antes de vir para aqui, mas de vez em quando distrai-se e então volta a ser basco. E também não é ruivo, não percebeste?, pinta o cabelo."
No dia seguinte, ao almoço, Mauro bebeu um pouco para além da conta. Bebemos todos. Abraçou-se a mim:
"Numa outra vida fiz muitos disparates, muita confusão."
Repetiu a palavra confusão. No geral é uma palavra que agrada aos estrangeiros que vivem, ou visitam, Angola ou Moçambique. Kapuscinski, na sua delirante reportagem sobre a independência de Angola, "Mais um dia de vida", dedica-lhe vários parágrafos.
"É isso", insistiu Mauro: "fiz maning confusão. Mais tarde arrependi-me. Arrepender-me foi a parte pior. Agora só quero esquecer, ser esquecido. Espero consegui-lo..."
Quando li a notícia da sua morte soube que não o conseguira. Um homem branco montado numa moto, dizia o jornal. Passou diante da varanda onde Mauro descansava, estendido numa rede, e disparou um único tiro. Depois desapareceu.
25 de novembro de 2005
EPC Aulas de substituição e mais
Eduardo Prado Coelho
o fio do horizonte
Fui ver o Prós e Contras com a maior curiosidade. Queria perceber que terá levado professores à greve, que me dizem que foi muito participada (não estava cá para ver de mais perto). Mas nas actuais circunstâncias difíceis do país, um sector tão importante como é a educação só poderia, pensava eu, fazer greve com ponderosas razões. Devo dizer desde já que fiquei convencido que todos estavam de acordo no essencial e que aquilo que os dividia eram questões formais, de lana-caprina, que não justificavam a irresponsabilidade demonstrada. Cheguei à conclusão de que o que teria movido os sindicatos seria uma vez mais uma lamentável ausência de solidariedade para com um governo que tomou medidas corajosas que até agora mais ninguém havia tomado (e isso deve-se à coragem e determinação de José Sócrates), e que deu uma linha orçamental para o país, e aquela tendência dos sindicatos para se tornarem forças de conservação e mesmo reaccionarismo face às mudanças do mundo que manifestamente não entendem (e que conduz a uma dessindicalização vertiginosa em toda a Europa). É triste, quando se trata de profissionais que têm por função compreender o mundo.
Diga-se desde já que a ministra foi excelente. Sem nenhuma arrogância, revelando o espírito de diálogo e abertura que muitos lhe contestam, Maria de Lurdes Rodrigues mostrou entusiasmo na sua missão e foi mesmo ao ponto de reconhecer que esse entusiasmo poderia ter efeitos negativos no modo como por vezes queria resolver as coisas. Parabéns também para David Justino, que, com um sentido de justiça que se sobrepôs a razões políticas (essas que levaram à desgraça parlamentar de Marques Mendes), soube dizer como estava de acordo com quase todas as medidas da actual ministra.
Para além dos aspectos que dizem respeito à função pública em geral (e que todos aceitam para os outros, mas ninguém quer aceitar para si), julgava que a grande questão era a das aulas de substituição. Ouvi sobre isso dizerem-se coisas extraordinárias: que os professores não tinham que ficar a tomar conta de meninos, e que um professor de Geografia não poderia substituir uma aula de Educação Física. Estávamos na demagogia mais despudorada. Substituir uma aula em que um professor falta não é necessariamente dar a matéria que ele estava a dar. Mas qualquer professor que não seja um debilóide sabe estabelecer uma relação com turmas de alunos que não conhece e conversar descontraidamente sobre aspectos genéricos das disciplinas e as suas correlações (nada é estanque), sobre os modos de tirar notas na aula, sobre a procura de um livro ou de um artigo na biblioteca, sobre o uso produtivo da Internet e outras questões metodológicas. O único problema que vejo na permanência dos professores nas escolas está na necessidade de encontrar espaços onde eles possam trabalhar sossegadamente, ler os livros que lhes interessam ou preparar aulas. Esta é a questão que me parece que cada escola, na sua autonomia, tem de resolver.
Quanto à greve, foi certamente um equívoco de que alguns se aproveitaram politicamente. Professor universitário
Depressões
Eduardo Prado Coelho o fio do horizonte
Há qualquer coisa que não pode deixar de me impressionar: à minha volta vejo cada vez mais pessoas em estado de acentuada depressão. Talvez eu antes fosse mais desatento e elas já existissem também. Mas a verdade é que a atmosfera é agora um pouco desesperante: como se a sociedade adoecesse à nossa vista.
Muitas têm um psicanalista e arrastam análises intermináveis. Mas a maior parte recorre a psicoterapeutas. As razões são as mais diversas: há o Dom Juan compulsivo, que não consegue fixar-se afectivamente e se sente numa espécie de exílio permanente; há aquele que chega a uma certa idade, a idade dos balanços, e acha que falhou tudo na vida; há o outro que considera que ninguém o reconhece na sua qualidade profissional ou na sua vontade de amar louca e perdidamente; há aquele que de repente se sente terrivelmente só porque os pais morreram, e a casa dos pais, onde se refugiava, deixou de existir; há aquele que sente o terrível aproximar da morte e ele não queria morrer; há o hipocondríaco que acumula doenças sobre doenças, lê livros de medicina e tem um medo terrível da dor; há inúmeros professores que perderam o gosto de ensinar e já não suportam a violência das escolas; há os militantes políticos que deixaram de acreditar em qualquer militância e ficaram à deriva; há aqueles que acham que a vida política se tornou num espaço de interesses concorrenciais e perdeu qualquer sentido de utopia e ideal; há os que odeiam o país, a nossa mediocridade, a nossa desordem, a nossa oscilação temperamental, o nosso estilo de patos-bravos endinheirados e gostariam de ir viver para outros lugares, ou em Nova Iorque, ou no Maputo.
Muitos deles têm um traço em comum: pertencem à classe média, mas de súbito perderam o estatuto económico que usufruíam e sentem-se em plena fossa, incapazes de fazer face ao modo de vida a que estavam habituados. Por tudo isto culpam o país, que faz diagnósticos sobre diagnósticos, mas tem dificuldade em encetar uma verdadeira recuperação, culpam o Governo, culpam José Sócrates e vão começar a culpar Cavaco Silva, que nem sempre parece ter uma visão optimista do nosso futuro próximo. Embora quisessem que o país mudasse, gostariam que mudasse para voltar a ser o que era antes (e nós tendemos a idealizar o passado) e não para vir a ser o que virá a ser depois. Nesse plano, os sindicatos são exemplares. Embora haja quem reconheça que precisam de se adaptar aos novos desafios, qualquer mudança surge sempre como uma violência e um atentado aos direitos dos trabalhadores.
Temos agora algo que poderia melhorar a auto-estima dos portugueses: o Campeonato do Mundo de futebol. Falamos como se a vitória final nos estivesse reservada, coisa que não é evidente, longe disso, aos olhos dos observadores estrangeiros. E sobrecarregamos de tanta responsabilidade a nossa selecção que esta só pode sentir ansiedade pelo peso que nela recai.
Mas, se vencermos, será o Verão do nosso contentamento. Nesse caso, talvez Sócrates (que tem a enorme vantagem de não fazer política com estados de alma) pudesse fazer uma remodelaçãozita... Professor universitário
A arte de perder
Eduardo Prado Coelho o fio do horizonte
Tantas coisas que perdemos ao longo de uma vida!
Perdemos as casas onde vivemos, que habitámos por dentro, naquilo que uma casa tem de mais dentro de si mesma. Perdi a casa de infância dos meus pais na adolescência - no mesmo ritmo que os perdi. Perdi a casa da Avenida do Uruguai, a casa da Rua de Entrecampos, a casa do Lumiar, que os meus pais me ofereceram, a casa do Marais, em Paris, onde vivi dez anos, a casa da Parede. Cada casa corresponde a um ritmo de vida, uma forma de cadência do quotidiano. Mas perdi-as e encontrei outros lugares.
Perdi lugares. Cafés - tantos - onde estudava: perdi a Granfina e o Nova Iorque, perdi o Vavá de que tanto gostava, povoado de amigos e cúmplices, perdi o Monte Carlo e raramente volto ao Toni dos Bifes, onde o Carlos de Oliveira ou o Abelaira se encontravam. Perdi um pouco o hábito regular de ir à Versalhes.
Perdi a Faculdade de Letras e o seu bar fumarento e ruidoso, invadido por vagas de alunos de Direito. Perdi o Estádio Universitário, o dos plenários do movimento de estudantes, onde falavam o Jorge Sampaio ou o Eurico de Figueiredo. Perdi o bar do Estádio Universitário, para onde ia estudar, mal chegava a Primavera. Perdi a casa de gelados Monte Branco, ali ao Saldanha, para onde ia ler e escrever nas noites de Verão. Perdi a praia de São Martinho do Porto, a praia dos primeiros namoros. Não a reconheço, porque fui reencontrá-la massacrada por uma urbanização selvagem e incomodativa. Encontrei a foz do Arelho.
Perdi Paris, o Centro Pompidou, os cinemas do boulevard Saint-Germain, os cafés La Hune e Les Deux Magots, as livrarias Le Divan, que já não existe, e La Hune. Perdi o Teatro de la Ville, onde vi espectáculos magníficos, descobri muito da dança contemporânea, e encontrei pela primeira vez a Pina Bausch. Perdi o Châtelet (o Castelinho, como gostava de dizer o Pierre), onde tive a revelação de William Forsythe e de Bob Wilson. Perdi La Gamin de Paris, no Marais, assim como a livraria (asfixiada economicamente com a guerra do Golfo) ou a pequena loja de discos de música clássica. Perdi o quiosque de Saint-Paul, onde ia todas as manhãs com o meu cão Spinoza, e este aguardava sempre com impaciência que a dona do quiosque lhe desse o brioche que estava tacitamente prometido.
Perdi amigos, muitos. O Zé Ribeiro da Fonte, a Margarida Vieira Mendes, o Al Berto aparecem por vezes nos meus sonos. Perdi mulheres, muitas, algumas no Brasil, outras em Portugal. Perdi livros, que ficaram noutras casas, que desapareceram sem que eu saiba porquê, que emprestei e não recuperei. Perdi também alguma memória de tudo o que perdi.
Mas há um poema de Elizabeth Bishop que se chama precisamente "Uma arte" e é sobre essa difícil arte de perder. Diz assim: "A arte de perder não é nenhum mistério; / tantas coisas contém em si o acidente / de perdê-las, que perder não é nada sério. (...) Perdi duas cidades lindas. E um império / que era meu, dois rios e mais um continente. / Tenho saudades deles. Mas não é nada sério. // Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo / que eu amo) não muda nada. Pois é evidente / que a arte de perder não chega a ser mistério / por muito que pareça (Escreve!) muito sério." Professor universitário
o fio do horizonte
Fui ver o Prós e Contras com a maior curiosidade. Queria perceber que terá levado professores à greve, que me dizem que foi muito participada (não estava cá para ver de mais perto). Mas nas actuais circunstâncias difíceis do país, um sector tão importante como é a educação só poderia, pensava eu, fazer greve com ponderosas razões. Devo dizer desde já que fiquei convencido que todos estavam de acordo no essencial e que aquilo que os dividia eram questões formais, de lana-caprina, que não justificavam a irresponsabilidade demonstrada. Cheguei à conclusão de que o que teria movido os sindicatos seria uma vez mais uma lamentável ausência de solidariedade para com um governo que tomou medidas corajosas que até agora mais ninguém havia tomado (e isso deve-se à coragem e determinação de José Sócrates), e que deu uma linha orçamental para o país, e aquela tendência dos sindicatos para se tornarem forças de conservação e mesmo reaccionarismo face às mudanças do mundo que manifestamente não entendem (e que conduz a uma dessindicalização vertiginosa em toda a Europa). É triste, quando se trata de profissionais que têm por função compreender o mundo.
Diga-se desde já que a ministra foi excelente. Sem nenhuma arrogância, revelando o espírito de diálogo e abertura que muitos lhe contestam, Maria de Lurdes Rodrigues mostrou entusiasmo na sua missão e foi mesmo ao ponto de reconhecer que esse entusiasmo poderia ter efeitos negativos no modo como por vezes queria resolver as coisas. Parabéns também para David Justino, que, com um sentido de justiça que se sobrepôs a razões políticas (essas que levaram à desgraça parlamentar de Marques Mendes), soube dizer como estava de acordo com quase todas as medidas da actual ministra.
Para além dos aspectos que dizem respeito à função pública em geral (e que todos aceitam para os outros, mas ninguém quer aceitar para si), julgava que a grande questão era a das aulas de substituição. Ouvi sobre isso dizerem-se coisas extraordinárias: que os professores não tinham que ficar a tomar conta de meninos, e que um professor de Geografia não poderia substituir uma aula de Educação Física. Estávamos na demagogia mais despudorada. Substituir uma aula em que um professor falta não é necessariamente dar a matéria que ele estava a dar. Mas qualquer professor que não seja um debilóide sabe estabelecer uma relação com turmas de alunos que não conhece e conversar descontraidamente sobre aspectos genéricos das disciplinas e as suas correlações (nada é estanque), sobre os modos de tirar notas na aula, sobre a procura de um livro ou de um artigo na biblioteca, sobre o uso produtivo da Internet e outras questões metodológicas. O único problema que vejo na permanência dos professores nas escolas está na necessidade de encontrar espaços onde eles possam trabalhar sossegadamente, ler os livros que lhes interessam ou preparar aulas. Esta é a questão que me parece que cada escola, na sua autonomia, tem de resolver.
Quanto à greve, foi certamente um equívoco de que alguns se aproveitaram politicamente. Professor universitário
Depressões
Eduardo Prado Coelho o fio do horizonte
Há qualquer coisa que não pode deixar de me impressionar: à minha volta vejo cada vez mais pessoas em estado de acentuada depressão. Talvez eu antes fosse mais desatento e elas já existissem também. Mas a verdade é que a atmosfera é agora um pouco desesperante: como se a sociedade adoecesse à nossa vista.
Muitas têm um psicanalista e arrastam análises intermináveis. Mas a maior parte recorre a psicoterapeutas. As razões são as mais diversas: há o Dom Juan compulsivo, que não consegue fixar-se afectivamente e se sente numa espécie de exílio permanente; há aquele que chega a uma certa idade, a idade dos balanços, e acha que falhou tudo na vida; há o outro que considera que ninguém o reconhece na sua qualidade profissional ou na sua vontade de amar louca e perdidamente; há aquele que de repente se sente terrivelmente só porque os pais morreram, e a casa dos pais, onde se refugiava, deixou de existir; há aquele que sente o terrível aproximar da morte e ele não queria morrer; há o hipocondríaco que acumula doenças sobre doenças, lê livros de medicina e tem um medo terrível da dor; há inúmeros professores que perderam o gosto de ensinar e já não suportam a violência das escolas; há os militantes políticos que deixaram de acreditar em qualquer militância e ficaram à deriva; há aqueles que acham que a vida política se tornou num espaço de interesses concorrenciais e perdeu qualquer sentido de utopia e ideal; há os que odeiam o país, a nossa mediocridade, a nossa desordem, a nossa oscilação temperamental, o nosso estilo de patos-bravos endinheirados e gostariam de ir viver para outros lugares, ou em Nova Iorque, ou no Maputo.
Muitos deles têm um traço em comum: pertencem à classe média, mas de súbito perderam o estatuto económico que usufruíam e sentem-se em plena fossa, incapazes de fazer face ao modo de vida a que estavam habituados. Por tudo isto culpam o país, que faz diagnósticos sobre diagnósticos, mas tem dificuldade em encetar uma verdadeira recuperação, culpam o Governo, culpam José Sócrates e vão começar a culpar Cavaco Silva, que nem sempre parece ter uma visão optimista do nosso futuro próximo. Embora quisessem que o país mudasse, gostariam que mudasse para voltar a ser o que era antes (e nós tendemos a idealizar o passado) e não para vir a ser o que virá a ser depois. Nesse plano, os sindicatos são exemplares. Embora haja quem reconheça que precisam de se adaptar aos novos desafios, qualquer mudança surge sempre como uma violência e um atentado aos direitos dos trabalhadores.
Temos agora algo que poderia melhorar a auto-estima dos portugueses: o Campeonato do Mundo de futebol. Falamos como se a vitória final nos estivesse reservada, coisa que não é evidente, longe disso, aos olhos dos observadores estrangeiros. E sobrecarregamos de tanta responsabilidade a nossa selecção que esta só pode sentir ansiedade pelo peso que nela recai.
Mas, se vencermos, será o Verão do nosso contentamento. Nesse caso, talvez Sócrates (que tem a enorme vantagem de não fazer política com estados de alma) pudesse fazer uma remodelaçãozita... Professor universitário
A arte de perder
Eduardo Prado Coelho o fio do horizonte
Tantas coisas que perdemos ao longo de uma vida!
Perdemos as casas onde vivemos, que habitámos por dentro, naquilo que uma casa tem de mais dentro de si mesma. Perdi a casa de infância dos meus pais na adolescência - no mesmo ritmo que os perdi. Perdi a casa da Avenida do Uruguai, a casa da Rua de Entrecampos, a casa do Lumiar, que os meus pais me ofereceram, a casa do Marais, em Paris, onde vivi dez anos, a casa da Parede. Cada casa corresponde a um ritmo de vida, uma forma de cadência do quotidiano. Mas perdi-as e encontrei outros lugares.
Perdi lugares. Cafés - tantos - onde estudava: perdi a Granfina e o Nova Iorque, perdi o Vavá de que tanto gostava, povoado de amigos e cúmplices, perdi o Monte Carlo e raramente volto ao Toni dos Bifes, onde o Carlos de Oliveira ou o Abelaira se encontravam. Perdi um pouco o hábito regular de ir à Versalhes.
Perdi a Faculdade de Letras e o seu bar fumarento e ruidoso, invadido por vagas de alunos de Direito. Perdi o Estádio Universitário, o dos plenários do movimento de estudantes, onde falavam o Jorge Sampaio ou o Eurico de Figueiredo. Perdi o bar do Estádio Universitário, para onde ia estudar, mal chegava a Primavera. Perdi a casa de gelados Monte Branco, ali ao Saldanha, para onde ia ler e escrever nas noites de Verão. Perdi a praia de São Martinho do Porto, a praia dos primeiros namoros. Não a reconheço, porque fui reencontrá-la massacrada por uma urbanização selvagem e incomodativa. Encontrei a foz do Arelho.
Perdi Paris, o Centro Pompidou, os cinemas do boulevard Saint-Germain, os cafés La Hune e Les Deux Magots, as livrarias Le Divan, que já não existe, e La Hune. Perdi o Teatro de la Ville, onde vi espectáculos magníficos, descobri muito da dança contemporânea, e encontrei pela primeira vez a Pina Bausch. Perdi o Châtelet (o Castelinho, como gostava de dizer o Pierre), onde tive a revelação de William Forsythe e de Bob Wilson. Perdi La Gamin de Paris, no Marais, assim como a livraria (asfixiada economicamente com a guerra do Golfo) ou a pequena loja de discos de música clássica. Perdi o quiosque de Saint-Paul, onde ia todas as manhãs com o meu cão Spinoza, e este aguardava sempre com impaciência que a dona do quiosque lhe desse o brioche que estava tacitamente prometido.
Perdi amigos, muitos. O Zé Ribeiro da Fonte, a Margarida Vieira Mendes, o Al Berto aparecem por vezes nos meus sonos. Perdi mulheres, muitas, algumas no Brasil, outras em Portugal. Perdi livros, que ficaram noutras casas, que desapareceram sem que eu saiba porquê, que emprestei e não recuperei. Perdi também alguma memória de tudo o que perdi.
Mas há um poema de Elizabeth Bishop que se chama precisamente "Uma arte" e é sobre essa difícil arte de perder. Diz assim: "A arte de perder não é nenhum mistério; / tantas coisas contém em si o acidente / de perdê-las, que perder não é nada sério. (...) Perdi duas cidades lindas. E um império / que era meu, dois rios e mais um continente. / Tenho saudades deles. Mas não é nada sério. // Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo / que eu amo) não muda nada. Pois é evidente / que a arte de perder não chega a ser mistério / por muito que pareça (Escreve!) muito sério." Professor universitário
Aulas de substituição (2)
Eduardo Prado Coelho
Embora já imaginasse uma certa reacção, nunca pensei que a classe dos professores se manifestasse com tanta violência em relação ao meu texto anterior sob o mesmo título. Há aqui aspectos irracionais que têm certamente a ver com uma experiência da escola profundamente traumática. Uma das mensagens que recebi no telemóvel dizia: "Sou debilóide, fiz greve." Como se trata de uma das minhas melhores amigas, e como sempre a considerei extremamente inteligente, fui ver o que tinha escrito: 1) eu nunca disse, nem diria, que os professores que fizeram greve são "debilóides"; 2) o que eu escrevi é que aqueles que por serem de Matemática dizem que não podem dar actividades de substituição quando falta o professor de História se manifestam como "debilóides". Não se pode generalizar a palavra a todas as situações - e convém que um professor leia os textos com a devida atenção e não se precipite quando vê um vocábulo que julga mais insultuoso, achando que necessariamente tem a ver com ele. Quanto ao mais, não retiro uma só vírgula de tudo o que escrevi.
Ouvi a ministra dizer até o que me parece ser importante: que não se trata de dar aulas, mas de conduzir actividades de substituição. Isso implica a possibilidade de utilizar material que não sei se as escolas possuem: seria útil que tivessem filmes, CD, DVD, discos de poesia dita, jornais e revistas de todos os géneros e que se habituassem a pensar com exercícios lúdicos propostos pelo professor - isto é, existe uma metodologia das actividades de substituição.
O que me respondem é que em muitas escolas os professores vivem um clima de terror. Alguém me contava que havia professores que vomitavam de reacção nervosa antes de entrarem na aula. Sem falar nos casos absolutamente inadmissíveis de agressão dos professores, muitas vezes com a cobertura vitimizadora dos próprios pais. Um correspondente do PÚBLICO escrevia há dias, numa carta do maior interesse, que se assistia (não apenas em Portugal, sublinhe-se) a uma transferência das responsabilidades tradicionais da família e do papel psicanalítico do pai para o espaço da escola e para uma sociedade sem pais. Que resulta daqui? Uma saturação explosiva do espaço da escola sobre a qual recai um excesso de expectativas. Mas conheço muitos professores excelentes que sabem lidar com os alunos e estabelecer com eles nexos de cumplicidade. É possível, portanto. E também devo reconhecer que alguns professores vivem das matérias que aprenderam na faculdade e não têm aquele mínimo de cultura geral que se exige a quem ensina.
Concluo, portanto, que é necessário restabelecer níveis justos de disciplina na escola. E (para agravar ainda mais o meu caso) gostaria de dizer o que já repeti por várias vezes: que muitos dos males da escola vêm da propagação de ideias no ministério desses profissionais de uma ciência inexistente a que dão o nome de "pedagogia". Cuidado, senhora ministra! Professor universitário
Embora já imaginasse uma certa reacção, nunca pensei que a classe dos professores se manifestasse com tanta violência em relação ao meu texto anterior sob o mesmo título. Há aqui aspectos irracionais que têm certamente a ver com uma experiência da escola profundamente traumática. Uma das mensagens que recebi no telemóvel dizia: "Sou debilóide, fiz greve." Como se trata de uma das minhas melhores amigas, e como sempre a considerei extremamente inteligente, fui ver o que tinha escrito: 1) eu nunca disse, nem diria, que os professores que fizeram greve são "debilóides"; 2) o que eu escrevi é que aqueles que por serem de Matemática dizem que não podem dar actividades de substituição quando falta o professor de História se manifestam como "debilóides". Não se pode generalizar a palavra a todas as situações - e convém que um professor leia os textos com a devida atenção e não se precipite quando vê um vocábulo que julga mais insultuoso, achando que necessariamente tem a ver com ele. Quanto ao mais, não retiro uma só vírgula de tudo o que escrevi.
Ouvi a ministra dizer até o que me parece ser importante: que não se trata de dar aulas, mas de conduzir actividades de substituição. Isso implica a possibilidade de utilizar material que não sei se as escolas possuem: seria útil que tivessem filmes, CD, DVD, discos de poesia dita, jornais e revistas de todos os géneros e que se habituassem a pensar com exercícios lúdicos propostos pelo professor - isto é, existe uma metodologia das actividades de substituição.
O que me respondem é que em muitas escolas os professores vivem um clima de terror. Alguém me contava que havia professores que vomitavam de reacção nervosa antes de entrarem na aula. Sem falar nos casos absolutamente inadmissíveis de agressão dos professores, muitas vezes com a cobertura vitimizadora dos próprios pais. Um correspondente do PÚBLICO escrevia há dias, numa carta do maior interesse, que se assistia (não apenas em Portugal, sublinhe-se) a uma transferência das responsabilidades tradicionais da família e do papel psicanalítico do pai para o espaço da escola e para uma sociedade sem pais. Que resulta daqui? Uma saturação explosiva do espaço da escola sobre a qual recai um excesso de expectativas. Mas conheço muitos professores excelentes que sabem lidar com os alunos e estabelecer com eles nexos de cumplicidade. É possível, portanto. E também devo reconhecer que alguns professores vivem das matérias que aprenderam na faculdade e não têm aquele mínimo de cultura geral que se exige a quem ensina.
Concluo, portanto, que é necessário restabelecer níveis justos de disciplina na escola. E (para agravar ainda mais o meu caso) gostaria de dizer o que já repeti por várias vezes: que muitos dos males da escola vêm da propagação de ideias no ministério desses profissionais de uma ciência inexistente a que dão o nome de "pedagogia". Cuidado, senhora ministra! Professor universitário
25 de outubro de 2005
Ler ou não ler...eis a questão
Os Franceses levaram a cabo sobre os hábitos e preferências de leitura.
Com a colaboração da Fnac e do jornal “Le Monde”, seis mil cidadãos franceses responderam a um inquérito, ou melhor escolheram entre duzentos livros seleccionados, aquele que julgariam dignos de figurar entre os cinquenta livros do século. Isto durante o Verão de 1999.
A pré-selecção de livros foi de livreiros e críticos e diga-se em abono da verdade, estavam representadas figuras da Literatura Francesa do século vinte, mas também não foram esquecidos os mais emblemáticos escritores estrangeiros, nomeadamente Fernando Pessoa.
Para mim tenho que Fernando pessoa não será entre nós o mais lido. A poesia pressupõe já um critério selectivo e o nosso poeta maior do século vinte não é certamente de fácil leitura. Será que Saramago, Lobo Antunes ou Torga faziam parte desta lista? O próprio Paulo Coelho, que em França tem um invejável mercado de leitores? Eu própria soube da sua existência, através dos Franceses que num escaparate de supermercado, davam grande relevo à sua última obra (nessa altura O Alquimista). E Jorge amado, tão grande entre os seus pares?
A partir dessa escolha, a partir desses resultados, Frédéric Beigbeber, romancista e crítico, leu e comentou as cinquenta obras, dando origem a um trabalho que se chamou “Dernier Inventaire Avant Liquidation”. Trata-se de cinquenta obras-primas e o sue propósito é deitar por terra o conceito generalizado de obra-prima: “um livro de que toda a gente fala mas ninguém lê”.Estas obras não são para venerar, mas sim para ler, contestar, triturar... A convicção com que o diz é simplesmente contagiosa. E, conforme afirma de modo bem explícito, o seu propósito é levar os seus leitores a lerme essas obras e outras, eventualmente melhores...Aqui podemos finalmente propor os nossos, se é que alguém o não fez já.
Em tom talvez tocado ao de leve por uma certa amargura, pergunta o que procuramos nós nos livros. Pergunta que ficará sem resposta. Nos livros encontramos tudo o que temos na vida, na mais comum existência. Ou não? Individualmente daremos as nossas respostas, na intimidade do nosso pensamento, porque de pensamento se trata, quando se trata de ler.
E, finalmente a lista. Para mim, que não sou francesa, a primeira surpresa, desilusão quase: Le Petit Prince não está no topo da lista. Nem em segundo, nem em terceiro lugar. Somente em quarto, depois de O Estrangeiro, de Camus, Em Busca Do Tempo Perdido, de Proust, e de O Processo, de Kafka. John Steinbeck e As Vinhas da Ira, bem como Ernest Hemimgway e Por Quem Os Sinos Dobram aparecem entre os dez primeiros.
E essa surpresa, essa desilusão leva-me a deixar aqui registada a opinião deste crítico sobre Le Petit Prince: “O único conto de fadas do século vinte”. E, como todos nós deixa-se embalar pela lembrança dessa leitura inesquecível, dessa personagem não menos inesquecível que desperta sempre a mesma ternura. Não resisto a citar: “Este conto podia intitular-se Em Busca Da Infância Perdida.” Considera-a uma obra de contestação contra a idade adulta e contra as pessoas muito racionais. ET e Alice poderão considerar-se os setes mais próximos do menino que um dia largou o planeta B612, para dizer qualquer coisa de muito importante aos homens. Não só uma mensagem de ternura, também de responsabilidade. Somos todos responsáveis por todos os que chamamos ou aceitamos ao pé de nós.
É inevitável referir o primeiro da lista. O Estrangeiro de Camus.
Ao elegerem esta obra , os franceses pronunciaram-se contra a xenofobia e isso é muito relevante na opinião do crítico. Este pequeno romance de cento e vinte e três páginas conta a história de Mersault, um homem estranho, indiferente a tudo. Condenado à morte por homicídio, nem isso parece perturbá-lo. Nem a morte da mãe, acontecimento que abre a narrativa, parece importante, a ponto de ser apontada com precisão no calendário: “ A mamã morreu hoje. Ou talvez ontem, não sei.” É provavelmente a vitória do anti-herói. Hoje que vivemos rodeados de heróis, talvez nos interesse mais conhecer um anti-herói. Tudo parece absurdo, menos o estilo de Camus: frases curtas.
Recorda ainda a própria figura de Camus, o mais novo Nobel da Literatura depois de Kypling, ele próprio a personificação do absurdo. Sósia de Humphrey Bogart até a sua morte foi absurda. Apesar de sofrer de tuberculose, mal da época, “Camus foi assassinado aos 47 anos por um plátano na berma da Nacional 6, entre Villeblevin e Villeneuve-la-Guymard, com a cumplicidade de Michel Galiimard e de um descapotável Facel Vega.” Os amantes dos automóveis talvez reconheçam o modelo, eu não. Mas haveria maneira mais elegante de descrever um acidente e as suas causas? Eu penso que não. E penso também que isso pode ser uma singela homenagem ao autor, que apesar da cor morena da pele e do modo absurdo como viveu e escreveu, venceu as preferências dos Franceses.
Pensemos qual seria o autor que nós, Portugueses, gostaríamos de ver ganhar este primeiro lugar. Cada um terá a sua resposta. Deixemo-la na intimidade do nosso pensamento... Eu também tenho a minha resposta....
Com a colaboração da Fnac e do jornal “Le Monde”, seis mil cidadãos franceses responderam a um inquérito, ou melhor escolheram entre duzentos livros seleccionados, aquele que julgariam dignos de figurar entre os cinquenta livros do século. Isto durante o Verão de 1999.
A pré-selecção de livros foi de livreiros e críticos e diga-se em abono da verdade, estavam representadas figuras da Literatura Francesa do século vinte, mas também não foram esquecidos os mais emblemáticos escritores estrangeiros, nomeadamente Fernando Pessoa.
Para mim tenho que Fernando pessoa não será entre nós o mais lido. A poesia pressupõe já um critério selectivo e o nosso poeta maior do século vinte não é certamente de fácil leitura. Será que Saramago, Lobo Antunes ou Torga faziam parte desta lista? O próprio Paulo Coelho, que em França tem um invejável mercado de leitores? Eu própria soube da sua existência, através dos Franceses que num escaparate de supermercado, davam grande relevo à sua última obra (nessa altura O Alquimista). E Jorge amado, tão grande entre os seus pares?
A partir dessa escolha, a partir desses resultados, Frédéric Beigbeber, romancista e crítico, leu e comentou as cinquenta obras, dando origem a um trabalho que se chamou “Dernier Inventaire Avant Liquidation”. Trata-se de cinquenta obras-primas e o sue propósito é deitar por terra o conceito generalizado de obra-prima: “um livro de que toda a gente fala mas ninguém lê”.Estas obras não são para venerar, mas sim para ler, contestar, triturar... A convicção com que o diz é simplesmente contagiosa. E, conforme afirma de modo bem explícito, o seu propósito é levar os seus leitores a lerme essas obras e outras, eventualmente melhores...Aqui podemos finalmente propor os nossos, se é que alguém o não fez já.
Em tom talvez tocado ao de leve por uma certa amargura, pergunta o que procuramos nós nos livros. Pergunta que ficará sem resposta. Nos livros encontramos tudo o que temos na vida, na mais comum existência. Ou não? Individualmente daremos as nossas respostas, na intimidade do nosso pensamento, porque de pensamento se trata, quando se trata de ler.
E, finalmente a lista. Para mim, que não sou francesa, a primeira surpresa, desilusão quase: Le Petit Prince não está no topo da lista. Nem em segundo, nem em terceiro lugar. Somente em quarto, depois de O Estrangeiro, de Camus, Em Busca Do Tempo Perdido, de Proust, e de O Processo, de Kafka. John Steinbeck e As Vinhas da Ira, bem como Ernest Hemimgway e Por Quem Os Sinos Dobram aparecem entre os dez primeiros.
E essa surpresa, essa desilusão leva-me a deixar aqui registada a opinião deste crítico sobre Le Petit Prince: “O único conto de fadas do século vinte”. E, como todos nós deixa-se embalar pela lembrança dessa leitura inesquecível, dessa personagem não menos inesquecível que desperta sempre a mesma ternura. Não resisto a citar: “Este conto podia intitular-se Em Busca Da Infância Perdida.” Considera-a uma obra de contestação contra a idade adulta e contra as pessoas muito racionais. ET e Alice poderão considerar-se os setes mais próximos do menino que um dia largou o planeta B612, para dizer qualquer coisa de muito importante aos homens. Não só uma mensagem de ternura, também de responsabilidade. Somos todos responsáveis por todos os que chamamos ou aceitamos ao pé de nós.
É inevitável referir o primeiro da lista. O Estrangeiro de Camus.
Ao elegerem esta obra , os franceses pronunciaram-se contra a xenofobia e isso é muito relevante na opinião do crítico. Este pequeno romance de cento e vinte e três páginas conta a história de Mersault, um homem estranho, indiferente a tudo. Condenado à morte por homicídio, nem isso parece perturbá-lo. Nem a morte da mãe, acontecimento que abre a narrativa, parece importante, a ponto de ser apontada com precisão no calendário: “ A mamã morreu hoje. Ou talvez ontem, não sei.” É provavelmente a vitória do anti-herói. Hoje que vivemos rodeados de heróis, talvez nos interesse mais conhecer um anti-herói. Tudo parece absurdo, menos o estilo de Camus: frases curtas.
Recorda ainda a própria figura de Camus, o mais novo Nobel da Literatura depois de Kypling, ele próprio a personificação do absurdo. Sósia de Humphrey Bogart até a sua morte foi absurda. Apesar de sofrer de tuberculose, mal da época, “Camus foi assassinado aos 47 anos por um plátano na berma da Nacional 6, entre Villeblevin e Villeneuve-la-Guymard, com a cumplicidade de Michel Galiimard e de um descapotável Facel Vega.” Os amantes dos automóveis talvez reconheçam o modelo, eu não. Mas haveria maneira mais elegante de descrever um acidente e as suas causas? Eu penso que não. E penso também que isso pode ser uma singela homenagem ao autor, que apesar da cor morena da pele e do modo absurdo como viveu e escreveu, venceu as preferências dos Franceses.
Pensemos qual seria o autor que nós, Portugueses, gostaríamos de ver ganhar este primeiro lugar. Cada um terá a sua resposta. Deixemo-la na intimidade do nosso pensamento... Eu também tenho a minha resposta....
26 de agosto de 2005
Hommage à Horst Tappe
A La Désirade, ce mercredi 24 août
Nous venions de passer à table, hier soir, avec des amis, lorsque Bernard Campiche m’a appris au téléphone la triste nouvelle de la mort de Horst Tappe, rongé par un vilain crabe dont il a été délivré dimanche dernier, dans le même hôpital du Samaritain où s’est éteint Vladimir Nabokov qu’il avait portraituré comme aucun autre, et du coup je suis allé chercher une quinzaine d’autres de ses portraits, de Lobo Antunes et de Patricia Highsmith, d’Ezra Pound et de Picasso, de Nancy Huston et de Judith Hermann, touts marqués par la même qualité de lumière et de présence, qui caractérisait le grand art de notre ami ; et plus tard, nos invités nous ayant quittés, j’ai repensé aux heures passées ensemble avec Horst depuis notre première rencontre, à Saint-Malo, puis à son domicile de Territtet, dans son logis de vieux garçon au visage embellissant quand il se sentait valorisé, où nous nous racontions nos lectures et nos pérégrinations en picolant comme il l’aimait pour s’adoucir la vie. De fait, affligé d’une difformité physique allant s’aggravant, le cher homme, quoique ne se plaignant jamais, devait souffrir de se sentir tenu à distance des femmes, même si deux d’entre elles (les jeunes historiennes de l’art Sarah Benoit et Charlotte Contesse) l’ont entouré, ces dernières années, de prévenances particulières en l’aidant à réaliser plusieurs expositions et ses deux livres consacrés à Nabokov et Kokoschka, jusqu’à la triste fin que lui a valu sa tumeur au visage.
Certains êtres marqués dans leur chair, comme l’était aussi Flannery O’Connor avec son affreux lupus, trouvent dans leur douleur une énergie productrice de beauté, et c’est ce qui me frappe le plus dans le portraits que nous laisse Horst Tappe, au-delà de tout esthétisme de studio : c’est cette beauté intérieure, liée à l’aura de la personne, qu’il parvenait à restituer. La douceur et la gravité qui se dégagent des portraits de Nancy Huston ou de Judith Hermann, la morgue impériale de vieille tortue d’un Somerset Maugham ou le charme ravageusement mélancolique d’un Antonio Lobo Antunes, entre tant d’autres visages réellement révélés, en disent beaucoup sans doute, aussi, sur la qualité d’un artiste et d’un homme auquel, plus que le prestige des noms et des titres, la relation simple et vraie importait pour l’essentiel. Tout cela que j'ai tâché de ramasser dans cet hommage à paraître demain...
Un portraitiste des êtres
Le photographe allemand Horst Tappe, dont les portraits de grands auteurs et artistes contemporains (de Nabokov, Pound, Picasso ou Kokoschka, à presque tous les Nobel de littérature) ont fait le tour du monde, est mort dimanche dernier à l’hôpital du Samaritain, à Vevey, à l’âge de 64 ans, des suites d’une cruelle maladie.
Né en 1941 en Westphalie, Horst Tappe avait acquis les bases de son métier dans un atelier traditionnel de sa ville natale, suivi les cours de Martha Hoepffner dans l’esprit du Bauhaus, et achevé sa formation à l’Ecole de photographie de Vevey, auprès d’Oswald Ruppen. Installé à Montreux depuis 1965, il était membre de l’American Society of Magazine Photographers et collaborateur permanent de périodiques et d’éditeurs du monde entier. En Suisse romande, il était devenu, dès 1986, le photographe attitré des auteurs de Bernard Campiche.
Passionné d’art et de littérature dès ses jeunes années, Horst Tappe avait rencontré « son » premier sujet au début des années 60, en la personne de Jean Giono. Suivirent Oskar Kokoschka, à Villeneuve, qui aimait à s’entretenir avec lui à grand renfort de « lait » (ainsi que le peintre appelait son scotch…), le mythique Ezra Pound à Rapallo, puis Vladimir Nabokov son illustre voisin montreusien, qui l’emmena sur les hauts gazons à la chasse aux papillons, et dont il réalisa une série de portraits unique au monde, déjà présentée à Montreux et Saint-Pétersbourg, en attendant d’autres escales.
De Noël Coward posant en son castel des Avants, à Picasso torse nu et l’air d’un empereur inca, Somerset Maugham au faciès de vieux bonze à peau de lézard ou Patricia Highsmith en sa naturelle élégance d’éternelle jeune fille bohème, entre tant d’autres, Horst Tappe, captant l’aura de chacun dans ses lumière magiques, restituait à tout coup le frémissement d’une présence, évitant à la fois l’anecdote et la pose désincarnée.
Evoquant son arrivée en Suisse romande, Horst Tappe m'avait déclaré un jour: « Après l’Allemagne d’Adenauer, si lourdement matérialiste, je me suis senti revivre au bord du Léman ! ». La reconnaissance inverse, de la part des instances culturelles vaudoises et suisses, ne lui fut guère concédée en revanche, et l’indifférence que lui manifesta notamment le Musée de l’Elysée n’est pas à l’honneur de celui-ci. Du moins trouva-t-il ces dernières années, auprès des historiennes de l’art Sarah Benoit et Charlotte Contesse, une aide précieuse pour la réalisation de livres (sur Vladimir Nabokov et Oskar Kokoschka) et d’expositions mettant en valeur ses précieuses archives, représentant environ 5000 portraits. La destinée de ce trésor reste actuellement incertaine, soumise à la décision du frère légataire du photographe. Quoi qu’il advienne, il faut espérer que le legs artistique de Horst Tappe, intéressant l’art photographique autant que les archives littéraires du XXe siècle, soit traité avec autant de respect que le photographe vouait à son art et aux êtres qu’il a « immortalisés »…
Montreux, Musée, 35 portraits de Kokoschka. Jusqu’au 31 octobre.
Horst Tappe. Kokoschka. Préface de Christoph Vitali. Merian Verlag, 95p.Cet hommage a paru dans l'édition de 24 Heures du 25 août 2005
Nous venions de passer à table, hier soir, avec des amis, lorsque Bernard Campiche m’a appris au téléphone la triste nouvelle de la mort de Horst Tappe, rongé par un vilain crabe dont il a été délivré dimanche dernier, dans le même hôpital du Samaritain où s’est éteint Vladimir Nabokov qu’il avait portraituré comme aucun autre, et du coup je suis allé chercher une quinzaine d’autres de ses portraits, de Lobo Antunes et de Patricia Highsmith, d’Ezra Pound et de Picasso, de Nancy Huston et de Judith Hermann, touts marqués par la même qualité de lumière et de présence, qui caractérisait le grand art de notre ami ; et plus tard, nos invités nous ayant quittés, j’ai repensé aux heures passées ensemble avec Horst depuis notre première rencontre, à Saint-Malo, puis à son domicile de Territtet, dans son logis de vieux garçon au visage embellissant quand il se sentait valorisé, où nous nous racontions nos lectures et nos pérégrinations en picolant comme il l’aimait pour s’adoucir la vie. De fait, affligé d’une difformité physique allant s’aggravant, le cher homme, quoique ne se plaignant jamais, devait souffrir de se sentir tenu à distance des femmes, même si deux d’entre elles (les jeunes historiennes de l’art Sarah Benoit et Charlotte Contesse) l’ont entouré, ces dernières années, de prévenances particulières en l’aidant à réaliser plusieurs expositions et ses deux livres consacrés à Nabokov et Kokoschka, jusqu’à la triste fin que lui a valu sa tumeur au visage.
Certains êtres marqués dans leur chair, comme l’était aussi Flannery O’Connor avec son affreux lupus, trouvent dans leur douleur une énergie productrice de beauté, et c’est ce qui me frappe le plus dans le portraits que nous laisse Horst Tappe, au-delà de tout esthétisme de studio : c’est cette beauté intérieure, liée à l’aura de la personne, qu’il parvenait à restituer. La douceur et la gravité qui se dégagent des portraits de Nancy Huston ou de Judith Hermann, la morgue impériale de vieille tortue d’un Somerset Maugham ou le charme ravageusement mélancolique d’un Antonio Lobo Antunes, entre tant d’autres visages réellement révélés, en disent beaucoup sans doute, aussi, sur la qualité d’un artiste et d’un homme auquel, plus que le prestige des noms et des titres, la relation simple et vraie importait pour l’essentiel. Tout cela que j'ai tâché de ramasser dans cet hommage à paraître demain...
Un portraitiste des êtres
Le photographe allemand Horst Tappe, dont les portraits de grands auteurs et artistes contemporains (de Nabokov, Pound, Picasso ou Kokoschka, à presque tous les Nobel de littérature) ont fait le tour du monde, est mort dimanche dernier à l’hôpital du Samaritain, à Vevey, à l’âge de 64 ans, des suites d’une cruelle maladie.
Né en 1941 en Westphalie, Horst Tappe avait acquis les bases de son métier dans un atelier traditionnel de sa ville natale, suivi les cours de Martha Hoepffner dans l’esprit du Bauhaus, et achevé sa formation à l’Ecole de photographie de Vevey, auprès d’Oswald Ruppen. Installé à Montreux depuis 1965, il était membre de l’American Society of Magazine Photographers et collaborateur permanent de périodiques et d’éditeurs du monde entier. En Suisse romande, il était devenu, dès 1986, le photographe attitré des auteurs de Bernard Campiche.
Passionné d’art et de littérature dès ses jeunes années, Horst Tappe avait rencontré « son » premier sujet au début des années 60, en la personne de Jean Giono. Suivirent Oskar Kokoschka, à Villeneuve, qui aimait à s’entretenir avec lui à grand renfort de « lait » (ainsi que le peintre appelait son scotch…), le mythique Ezra Pound à Rapallo, puis Vladimir Nabokov son illustre voisin montreusien, qui l’emmena sur les hauts gazons à la chasse aux papillons, et dont il réalisa une série de portraits unique au monde, déjà présentée à Montreux et Saint-Pétersbourg, en attendant d’autres escales.
De Noël Coward posant en son castel des Avants, à Picasso torse nu et l’air d’un empereur inca, Somerset Maugham au faciès de vieux bonze à peau de lézard ou Patricia Highsmith en sa naturelle élégance d’éternelle jeune fille bohème, entre tant d’autres, Horst Tappe, captant l’aura de chacun dans ses lumière magiques, restituait à tout coup le frémissement d’une présence, évitant à la fois l’anecdote et la pose désincarnée.
Evoquant son arrivée en Suisse romande, Horst Tappe m'avait déclaré un jour: « Après l’Allemagne d’Adenauer, si lourdement matérialiste, je me suis senti revivre au bord du Léman ! ». La reconnaissance inverse, de la part des instances culturelles vaudoises et suisses, ne lui fut guère concédée en revanche, et l’indifférence que lui manifesta notamment le Musée de l’Elysée n’est pas à l’honneur de celui-ci. Du moins trouva-t-il ces dernières années, auprès des historiennes de l’art Sarah Benoit et Charlotte Contesse, une aide précieuse pour la réalisation de livres (sur Vladimir Nabokov et Oskar Kokoschka) et d’expositions mettant en valeur ses précieuses archives, représentant environ 5000 portraits. La destinée de ce trésor reste actuellement incertaine, soumise à la décision du frère légataire du photographe. Quoi qu’il advienne, il faut espérer que le legs artistique de Horst Tappe, intéressant l’art photographique autant que les archives littéraires du XXe siècle, soit traité avec autant de respect que le photographe vouait à son art et aux êtres qu’il a « immortalisés »…
Montreux, Musée, 35 portraits de Kokoschka. Jusqu’au 31 octobre.
Horst Tappe. Kokoschka. Préface de Christoph Vitali. Merian Verlag, 95p.Cet hommage a paru dans l'édition de 24 Heures du 25 août 2005
17 de agosto de 2005
Carta Aberta à Escola
Aqui para nós, a escola é um mal necessário que os alunos contestam por todos os lados.
Dentro desse aglomerado de salas , passam-se coisas dignas de se contar.
Antigamente, no tempo da minha avozinha, até havia uma régua grossa e os meninos andavam separados das meninas por turmas. Para não falar já naquela bata ridícula que eram obrigados a usar.
Hoje é um bocadinho diferente: existe maior compreensão da parte dos professores e dos alunos. Já não é preciso a batinha e anda tudo misturado.
Hoje é assim...
O toque da entrada já lá vai e o professor já está sentado, mas falta metade da turma; o segundo toque vem aí e, com ele, a outra metade da turma:
- Stor, posso entrar?
A aula começa e o professor pede para abrir o livro na página quarenta e cinco. Metade da turma não tem livro, mas, apesar disso, o António vai tentar ler, com mais uns cinco em cima dele. É a inflação dos livros...
No silêncio da leitura, ouve-se a voz do Carlos a perguntar que horas são, ao Aíta! O professor faz uma cara de irritado e diz-lhe que vá já, se está com muita pressa, mas com falta, claro! O Carlos, como é evidente, cala-se e dá um sorrisinho sem graça.
A aula continua a desenrolar-se quando é avistado um “aeroplano” de papel a sobrevoar a turma, desde o fundo da sala. O professor, mais uma vez irritado, pergunta quem é que fez o avião. Ninguém se acusa. Apesar das risotas e das insinuações dos da frente, não há outro remédio senão continuar a dar matéria.
Mais adiante, é novamente interrompida a aula.
O que foi desta vez? Não se sabe. Só se vê o Vítor e o Russo, vermelhões, escondendo a cara no livro. Por fim, o professor, sempre irritado, ameaça-nos de, para a próxima, irmos todos para a rua.
Mas eis que o toque da saída atrapalha o raspanete e eis também que ninguém mais ouve nada, todos se levantam, gritam, batendo nas mesas com os livros, arrastando mesas e cadeiras.
Assim acaba a aula, já sem ninguém na sala.
O professor fica perplexo. Foi mais uma aula em que ninguém ficou a saber “como é a raiz quadrada das invasões napoleónicas, na lei de Lavoisier com o auxiliar do verbo parler, junto à cadeia alimentar ou à espiral das ilhas dos Açores”...
No recreio, sim, talvez esteja a única coisa que aprendemos bem: a conviver.
Todos fumam ou comem, cravando cinco ou dez escudos ao parceiro. Aí, sim, fazem-se amizades e dezamizades. Todos se abraçam e riem, ao serem criticados pelos vizinho que moram mesmo ali muito perto, neste convívio em que se discute tudo, desde o primeiro namorado da Isabel ao último disco dos Rolling Stones.
Por isso, viva o recreio!
Ana Paula, aluna do oitavo ano do Externato de Odivelas, 1981/82
Dentro desse aglomerado de salas , passam-se coisas dignas de se contar.
Antigamente, no tempo da minha avozinha, até havia uma régua grossa e os meninos andavam separados das meninas por turmas. Para não falar já naquela bata ridícula que eram obrigados a usar.
Hoje é um bocadinho diferente: existe maior compreensão da parte dos professores e dos alunos. Já não é preciso a batinha e anda tudo misturado.
Hoje é assim...
O toque da entrada já lá vai e o professor já está sentado, mas falta metade da turma; o segundo toque vem aí e, com ele, a outra metade da turma:
- Stor, posso entrar?
A aula começa e o professor pede para abrir o livro na página quarenta e cinco. Metade da turma não tem livro, mas, apesar disso, o António vai tentar ler, com mais uns cinco em cima dele. É a inflação dos livros...
No silêncio da leitura, ouve-se a voz do Carlos a perguntar que horas são, ao Aíta! O professor faz uma cara de irritado e diz-lhe que vá já, se está com muita pressa, mas com falta, claro! O Carlos, como é evidente, cala-se e dá um sorrisinho sem graça.
A aula continua a desenrolar-se quando é avistado um “aeroplano” de papel a sobrevoar a turma, desde o fundo da sala. O professor, mais uma vez irritado, pergunta quem é que fez o avião. Ninguém se acusa. Apesar das risotas e das insinuações dos da frente, não há outro remédio senão continuar a dar matéria.
Mais adiante, é novamente interrompida a aula.
O que foi desta vez? Não se sabe. Só se vê o Vítor e o Russo, vermelhões, escondendo a cara no livro. Por fim, o professor, sempre irritado, ameaça-nos de, para a próxima, irmos todos para a rua.
Mas eis que o toque da saída atrapalha o raspanete e eis também que ninguém mais ouve nada, todos se levantam, gritam, batendo nas mesas com os livros, arrastando mesas e cadeiras.
Assim acaba a aula, já sem ninguém na sala.
O professor fica perplexo. Foi mais uma aula em que ninguém ficou a saber “como é a raiz quadrada das invasões napoleónicas, na lei de Lavoisier com o auxiliar do verbo parler, junto à cadeia alimentar ou à espiral das ilhas dos Açores”...
No recreio, sim, talvez esteja a única coisa que aprendemos bem: a conviver.
Todos fumam ou comem, cravando cinco ou dez escudos ao parceiro. Aí, sim, fazem-se amizades e dezamizades. Todos se abraçam e riem, ao serem criticados pelos vizinho que moram mesmo ali muito perto, neste convívio em que se discute tudo, desde o primeiro namorado da Isabel ao último disco dos Rolling Stones.
Por isso, viva o recreio!
Ana Paula, aluna do oitavo ano do Externato de Odivelas, 1981/82
9 de agosto de 2005
28 de julho de 2005
"Lembro-me que fiquei muito triste quando descobri que, no mundo, havia gente pobre e gente rica..."
Talvez a sua compreensão do mundo tenha ficado para sempre moldada por esta conclusão da infância. Talvez todas as compreensões do mundo, de todos nós, nasçam na infância.
Nessa altura, Evita estava ainda desse lado da vida. Do lado da gente pobre.
Terá sido esse tempo que lhe deu a convicção para tomar o partido dos desfavorecidos, dos mais fracos, e a lembrança desse tempo forneceu-lhe a força dessa convicção.
“Eu sou uma de vós. Eu sei o que é ter fome.”
Esta frase, ou outras frases como esta, punham os pobres todos ao lado de Evita. E estes são muito mais numerosos do que os ricos. Evita contaria sempre com eles, ao longo da sua vida, e mesmo depois, para chegar onde queria.
Em vida, Evita quis ter um lugar de poder. Eles ajudaram-na a chegar lá.
Evita não queria ser esquecida, queria tornar-se lenda, mito. Eles tomaram conta deste seu desejo.
Viveu à velocidade da luz, deixando de brilhar no firmamento dos pobres, dos "descamisados", demasiado cedo, com apenas trinta e três anos.
Eva Peron, Evita, morreu a 26 de Julho de 1952.
Não é a luz da História a que confere mais brilho à figura de Evita. É a luz dos mitos. Ela própria preparou o mito que havia de perpetuar a sua memória e dourá-la cada vez mais.
Talvez a sua compreensão do mundo tenha ficado para sempre moldada por esta conclusão da infância. Talvez todas as compreensões do mundo, de todos nós, nasçam na infância.
Nessa altura, Evita estava ainda desse lado da vida. Do lado da gente pobre.
Terá sido esse tempo que lhe deu a convicção para tomar o partido dos desfavorecidos, dos mais fracos, e a lembrança desse tempo forneceu-lhe a força dessa convicção.
“Eu sou uma de vós. Eu sei o que é ter fome.”
Esta frase, ou outras frases como esta, punham os pobres todos ao lado de Evita. E estes são muito mais numerosos do que os ricos. Evita contaria sempre com eles, ao longo da sua vida, e mesmo depois, para chegar onde queria.
Em vida, Evita quis ter um lugar de poder. Eles ajudaram-na a chegar lá.
Evita não queria ser esquecida, queria tornar-se lenda, mito. Eles tomaram conta deste seu desejo.
Viveu à velocidade da luz, deixando de brilhar no firmamento dos pobres, dos "descamisados", demasiado cedo, com apenas trinta e três anos.
Eva Peron, Evita, morreu a 26 de Julho de 1952.
Não é a luz da História a que confere mais brilho à figura de Evita. É a luz dos mitos. Ela própria preparou o mito que havia de perpetuar a sua memória e dourá-la cada vez mais.
17 de julho de 2005
UNESCO aprova monumentos de Macau...
...para Património da Humanidade
15.07.2005 - 12h54
A UNESCO aprovou hoje a inclusão de zonas históricas de Macau na lista de Património Mundial da Humanidade, numa decisão tomada na reunião que decorre em Durban, na África do Sul, revelou fonte oficial.
Do Largo da Barra, onde está situado o Templo de A-Má, a deusa protectora dos pescadores e da cidade, passando pelo Largo do Lilau, junto ao qual se ergue a denominada Casa do Mandarim e que marca as recordações da comunidade macaense, seguindo pelo Largo de Santo Agostinho, do Senado, da Sé, S.Domingos e da Companhia de Jesus atravessamos parte da cidade marcada por construções chinesas misturadas com a traça europeia. Essa influência europeia está vincada nas fachadas das igrejas como S. Lourenço ou São José.
Entre templos chineses, igrejas católicas, edifícios antigos, como o do Leal Senado, e fortalezas como o Quartel dos Mouros, a Fortaleza do Monte ou a Fortaleza da Guia, em redor da qual estavam situados alguns dos principais pontos de defesa da cidade, a história de Macau é revisitada e deixa à vista a evolução da cidade e convivência das culturas.
"O património histórico de Macau é produto único de mais de 400 anos de intercâmbio cultural entre o Mundo ocidental e a civilização chinesa", lê-se na apresentação da candidatura de Macau.
Segundo o documento, a candidatura macaense justifica-se porque o "património arquitectónico predominantemente de raiz portuguesa, ergue-se por entre construções de arquitectura tradicional chinesa no povoado histórico, evidenciando um notório contraste".
"Parte dos monumentos existentes constituem o grupo de monumentos arquitectónicos de raiz europeia mais antigo, mais completo e mais bem consolidado que ainda se mantém intacto em solo chinês", refere o texto da candidatura.
A zona de candidatura, apresentada à UNESCO, coincide com núcleo da área correspondente ao primeiro povoado ocidental em Macau, também conhecido como "cidadã-cristã" no contexto da história do território.
"O estabelecimento de Macau por navegadores portugueses, em meados do século XVI, lançou as bases de quase cinco séculos de contacto ininterrupto entre o ocidente e o oriente", afirma a nota de candidatura.
"As origens do desenvolvimento de Macau como porto comercial internacional fazem do mesmo o único e mais consistente exemplo do intercâmbio cultural entre Europa e Ásia", assegura o mesmo texto.
Do jornal O Público
15.07.2005 - 12h54
A UNESCO aprovou hoje a inclusão de zonas históricas de Macau na lista de Património Mundial da Humanidade, numa decisão tomada na reunião que decorre em Durban, na África do Sul, revelou fonte oficial.
Do Largo da Barra, onde está situado o Templo de A-Má, a deusa protectora dos pescadores e da cidade, passando pelo Largo do Lilau, junto ao qual se ergue a denominada Casa do Mandarim e que marca as recordações da comunidade macaense, seguindo pelo Largo de Santo Agostinho, do Senado, da Sé, S.Domingos e da Companhia de Jesus atravessamos parte da cidade marcada por construções chinesas misturadas com a traça europeia. Essa influência europeia está vincada nas fachadas das igrejas como S. Lourenço ou São José.
Entre templos chineses, igrejas católicas, edifícios antigos, como o do Leal Senado, e fortalezas como o Quartel dos Mouros, a Fortaleza do Monte ou a Fortaleza da Guia, em redor da qual estavam situados alguns dos principais pontos de defesa da cidade, a história de Macau é revisitada e deixa à vista a evolução da cidade e convivência das culturas.
"O património histórico de Macau é produto único de mais de 400 anos de intercâmbio cultural entre o Mundo ocidental e a civilização chinesa", lê-se na apresentação da candidatura de Macau.
Segundo o documento, a candidatura macaense justifica-se porque o "património arquitectónico predominantemente de raiz portuguesa, ergue-se por entre construções de arquitectura tradicional chinesa no povoado histórico, evidenciando um notório contraste".
"Parte dos monumentos existentes constituem o grupo de monumentos arquitectónicos de raiz europeia mais antigo, mais completo e mais bem consolidado que ainda se mantém intacto em solo chinês", refere o texto da candidatura.
A zona de candidatura, apresentada à UNESCO, coincide com núcleo da área correspondente ao primeiro povoado ocidental em Macau, também conhecido como "cidadã-cristã" no contexto da história do território.
"O estabelecimento de Macau por navegadores portugueses, em meados do século XVI, lançou as bases de quase cinco séculos de contacto ininterrupto entre o ocidente e o oriente", afirma a nota de candidatura.
"As origens do desenvolvimento de Macau como porto comercial internacional fazem do mesmo o único e mais consistente exemplo do intercâmbio cultural entre Europa e Ásia", assegura o mesmo texto.
Do jornal O Público
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