13 de março de 2008

Notícias do meu País

Mário Crespo, Jornalista
Maria de Lurdes Rodrigues não tem condições para continuar a gerir o sistema de educação em Portugal. Porque já não é eficaz nessa função. Porque é um facto insofismável que o pessoal que ela administra não aceita a sua administração. Isso esvazia de conteúdo as suas funções. Já não está em causa a eficácia da sua política. A questão é que ela não vai conseguir implementar as boas ideias que tem, nem impor as más. O argumento de a manter no cargo para não "desautorizar" o Primeiro-ministro é falso e perigoso. Mantendo-a nas funções que desempenha a desautorização do governo de Sócrates é constante. Chegou a altura de ver que isso é mau para os alunos. Só podem ser eles quem está em causa. Não pode haver razões de defesa de imagem política que justifiquem esta intransigência porque a manutenção de um percurso de imposição administrativa começa a ser um risco de segurança nacional. É péssimo para o quotidiano escolar ter um sistema totalmente desautorizado com professores a desafiarem o governo e o governo a desautorizar-se em frémitos de afirmação de voluntarismo vazio.
Da necessidade de reformas sabe-se com fundamento científico desde o trabalho de Ana Benavente que denunciou que um quarto dos portugueses mal sabia ler e que só dez por cento da população é que entendia completamente aquilo que está escrito. Mas esse estudo tem década e meia e nada de substancial foi feito no entretanto. Por isso, o que está em questão não é a avaliação de professores. Apreciações de desempenho são meros pormenores de gestão de pessoal. O que é preciso, como consta de uma lúcida reflexão dos docentes da Escola Rainha D. Amélia, é fazer a escola cumprir com as suas funções na socialização de crianças e jovens. É promover a criação de hábitos de disciplina interiorizados que se multipliquem depois na vida adulta. Entre Cavaco Silva, o governante confrontado com o estudo de Ana Benavente, e José Sócrates, este processo de calamitosa estupidificação do país não foi interrompido por um projecto lúcido. O governo actuou agora como se o problema estivesse nos docentes e não no sistema de docência e nos curricula. Actuou como se o problema único de Portugal fosse o do excesso de privilégios e não o do defeito de cultura.
E assim as frágeis construções da demagogia política trouxeram, mesmo com a intimidação de PSPs à paisana e processos disciplinares da DREN, uma centena de milhar para as ruas de Lisboa. E o Primeiro-ministro mostrou a sua fibra assistindo em silêncio ao martírio de Maria de Lurdes Rodrigues que se desdobrou nas TVs a tentar demonstrar o indemonstrável axioma socrático que a sua política é infalível e o défice de compreensão é do país. A resposta de Sócrates foi a de marcar uma manifestação de desagravo para o Porto. Primeiro era para ser na rua, depois numa praça, depois num pavilhão e vai sempre soar a falso no clamor sem fim das turbas dos indignados. Foi um contra-ataque ridículo no meio de muito comportamento bizarro. O Professor Augusto Santos Silva protagonizou o momento de infelicidade quando em Chaves quis assinalar os três anos de governação numa espécie de estágio para o anunciado comício do desagravo. Foi vaiado. Ripostou tentando conjurar os seus Manes. Invocou os nomes dos pais fundadores, dos velhos companheiros que diz serem os seus da luta que diz ser a sua. Salgado Zenha, Mário Soares e Manuel Alegre. E nenhum lhe respondeu. Tentou depois o exorcismo, amaldiçoando os seus demónios pessoais, os grandes e os mais pequenos. Álvaro Cunhal e Mário Nogueira. E nenhum lhe respondeu. Ouviu vaias cada vez mais altas e a voz embargou-se e disse: "eu não me calo...eles calam-se primeiro que eu." Depois repetiu, baixinho como que a querer convencer-se "...eles calam-se primeiro que eu". E não se calaram. Ao ouvir na Antena 1 este terrível registo de desgovernação só me ocorreram as sábias palavras de Juan Carlos para o tiranete venezuelano: "por que no te callas".
Mário Crespo escreve no JN, semanalmente, às segundas-feiras (10.3.08)

Pergunta ao vento que passa

do dn-13/03- Ferreira Fernandes
Os dez milhões de portugueses devem congratular-se com a tal foto do DN: a mulher do n.º 2 do partido do Governo foi a uma manifestação contra uma política do Governo. Metade deles, então, deve rejubilar-se. Como lembrou o marido (que não me pareceu enganado, só conformado com os percalços eventuais que traz a liberdade dos outros): "Há muito que as portuguesas conquistaram os direitos políticos." De facto, é de lembrar: antes do 25 de Abril, para ir ao estrangeiro, as portuguesas precisavam da autorização do marido. Que evolução ter-se chegado a este bendito desplante de ir para o território estrangeiro que é uma rua do contra, sem dizer água-vai ao marido que é da situação. Dito isto, boa malha, a do meu jornal. Eu (à civil, sem funções de jornalista) passando pela manifestação e reconhecendo a senhora, a primeira coisa que diria aos meus amigos, no café, seria: "Sabem quem estava na manif?" Gosto dos jornais que me tratam como eu trato os meus amigos.

12 de março de 2008

O Poder da Rua, por Baptista Bastos

As impressionantes manifestações registadas nas últimas semanas, e continuadas um pouco por toda a parte, assumem a forma e o conteúdo de um severo depoimento contra o Governo. Não se trata de turbulências comunistas, como já o disse José Sócrates e, iradamente, o repetiu Augusto Santos Silva, cujas "verdades" surgem cada vez mais avariadas. A "rua" foi a demonstração categórica do desequilíbrio entre quem pensa em termos estatísticos e quem é vítima desse equívoco. E uma vigorosa afirmação de civismo. Há dias, conversei com Raul Solnado sobre a natureza do Estado e o domínio pelo domínio exercido, repetidamente, pelo Governo, esquecido de que a força da República é a virtude, e a sua fraqueza a soberba. Sobre ser um amigo de há mais de 40 anos, Solnado é homem sábio, de frase pensada e advertida inteligência, com quem apetece discretear. Disse: "Gostaríamos de sentir que este Governo tem vontade de transformar e de modernizar o País. Por outro lado, a sua arrogância e autismo quer arrastá-lo para uma democracia musculada, o que é assustador. Eles distanciaram-se de nós."

A tentação de se construir contra o outro destrói o laço social, fonte e apoio do tecido colectivo, assinalado por Solnado como silogismo. E essas regras perturbadoras têm por objectivo limitar a interferência cívica e proteger o autoritarismo governamental. O facto de este Governo dispor de maioria absoluta não significa que actue em absolutismo. Há, manifestamente, ausência de diálogo e um poderoso dispositivo autoritário que liquidam a coexistência de duas sinalizações fundamentais em democracia: a dos governantes e a dos governados.

Perdeu-se de vista o reconhecimento da igualdade, do direito de protesto e do dever de memória. Este Governo criou uma tensão dramática de tal ordem e um destempero de tal jaez que levaram o primeiro-ministro a afirmar-se indiferente para com a imponente manifestação dos professores, invocando uma "razão" cuja natureza só poderá ser explicada através da nebulosa em que ele parece viver.

A arrogância é uma deformação moral; o preconceito, uma doença de educação; o desdém, uma chaga de quem se presume superior. Sócrates criou uma criatura que escapou ao seu controlo. Não pode mudar: de contrário, deixa de ser quem julga ser. E, sendo-o, na obstinação de quem não tem dúvidas, perde o respeito daqueles para os quais a democracia não existe sem comunicação.

Ao contrário de alguns preopinantes, suponho que, se a ministra da Educação fosse embora, abrir-se-iam as portas ao diálogo. Porque (é inevitável) irão aparecer novas regras de jogo e outras instâncias de organização que terão em conta as específicas oscilações históricas. Nascidas, não o esqueçamos, da "rua".|

9 de março de 2008

EM MEMÓRIA DO GUARDA RICARDO

EM MEMÓRIA DO GUARDA RICARDO, por Nuno Brederode Santos
Ainda tenho gravada na memória a invasão, pela polícia de choque, do Hospital de Santa Maria, durante a greve de 1962. Não só a brutalidade, das coronhas e dos "casse-têtes", mas sobretudo a furiosa cegueira - excitada, ansiosa e sem critério - daqueles mastins antropomórficos, deformados nos seus chumaços pardos. Vi a pancada seca na calva de Lindley Cintra e um risco vermelho a abrir-se, para deixar correr o sangue, enquanto o corpo desabava com inesperada lentidão. Já em corrida, vi depois, sentado no muro baixo e segurando a cabeça aberta, o Luís Osvaldo Dias Amado, ensanguentado e lívido. Curiosamente, dois professores, atravessando por nós os corpos.

Após este baptismo de fogo, nunca mais encarei a violência policial com o mesmo espanto e a mesma revolta. Dias depois, quando o espancado foi o Vítor Wengorovius - de quem era, e sempre fui, grande amigo - eu já tinha uma abordagem "técnica" da ocorrência. Porque a virgindade do espanto e da revolta, essa perdera-a em Medicina, ao ver, a quatro ou cinco metros de distância, o suave martírio de Lindley Cintra.

De tal modo que, ao cabo de alguns anos, já a violência que eu sentia como verdadeiramente opressiva e humilhante nem era a da pancada. Era estarmos três ou quatro cidadãos a conversar na rua (provavelmente antes ou depois de uma manifestação), passar por nós um qualquer anónimo de gabardina e dizer, numa surdina paternalista: "Vamos a circular, que eu não quero ajuntamentos." Porque era tão óbvio de onde lhe vinha aquela estranha autoridade, que a nenhum de nós ocorria perguntar: "E quem é Você? E o que tem a ver com isso?"

Como, porém, explicar a um jovem de vinte e tal anos as razões por que a minha geração (tal como o que resta das anteriores) trouxe para o 25 de Abril estes fantasmas? Como dizer-lhe que não se pode excluir que um pouco da memória do outro lado - o dos mastins do capitão Maltez e dos anónimos da gabardina - possa ter perdurado, não nos homens (que já não são os mesmos), mas nos pequenos atavismos das instituições? Não é fácil, se não fizermos, com a geração dele, o esforço que lhe exigimos para com a nossa. Claro que ele conhece um pouco da brutalidade policial. Mas nada que se compare à da "democrática" polícia francesa que eu vi actuar nesses anos sessenta. E também conhece o laxismo policial. Mas nada que se compare com a timorata abstenção policial, que eu vi em Oslo nos anos noventa, perante motards da extrema-direita, armados de cacetes e correntes de bicicleta. Ele compreende tudo isso. Mas não percebe que a polícia de um Estado de direito não cumpra a lei ou que, quando a cumpre, arroste com as culpas da lei que cumpre. Se a lei está mal, mudem-na. E tem razão. Ou, pelo menos, mais razão do que nós.

Não há Estado em que os agentes da polícia sejam os sages do reino. (Não mandem, por exemplo, polícias de giro apurar quantas camionetas saem de um sítio à mesma hora, por muito logísticas que sejam as preocupações de quem ordena - porque uma vez irão perguntar ao sindicato, e dá inquérito, e, na seguinte, vão perguntar às escolas, e dá inquérito). O exercício da função policial - o exercício de toda a função repressiva do Estado - terá sempre, para ser legítimo e aceitável, de mover-se entre a insuficiência e o excesso, entre o laxismo e a brutalidade. Mas há Estados de direito, como o nosso, em que um qualquer D.L. 406/74, de 29 de Agosto, ainda se permite regulamentar (e condiconar) o "livre exercício", pelos cidadãos, do direito de "se reunirem pacificamente em "lugares (…) particulares, independentemente de autorizações, para fins não contrários (…) à ordem e à tranquilidade públicas". Por muito que a conjuntura histórica possa ter justificado este parreco, digam--me lá o que é que isto faz na nossa ordem jurídica. E contudo, quando se trata dos direitos de reunião e manifestação, este é um diploma que as autoridades - e a polícia também - devem fazer acatar. Mas nele não estão só envolvidos os três maiores partidos do regime (sendo que o Bloco apenas não existia e o CDS até se queixava de não estar no Governo). Estamos todos os que, estando à data de boa saúde mental, deixámos correr trinta e quatro anos sem balbuciar uma estranheza. Fica à consciência dos deputados da Nação. Que devem estar mais próximos da sageza de Estado do que o tal polícia de giro.

E AGORA? Daniel Sampaio

da Pública
O dia seguinte: escrevo no Domingo dia 9, os professores regressaram a casa e amanhã é dia de aulas. Pergunto: e agora?
Quando esta crónica for publicada tudo pode estar diferente, porque a dinâmica do protesto torna imprevisíveis as suas consequências.
Um dos aspectos salientes desta crise é como o problema se focou numa pessoa, a Ministra da Educação. Mais do que discutir o futuro, os professores desejam a sua queda. Por uma razão: desde o primeiro dia sabem que Maria de Lurdes Rodrigues centrou a sua acção na mudança do quotidiano dos docentes. O seu primeiro erro foi procurar demonstrar que os professores trabalhavam pouco, publicando as suas faltas: aí, começou a perder uma eventual base de apoio para a mudança e a sua queda começou a ser anunciada. Depois, as famosas aulas de substituição (de que sou um defensor) foram postas em prática de modo pouco claro, porque foi acentuada a necessidade do preenchimento das horas lectivas, em vez de ter sido enfatizada a sua importância para os alunos. Seguiu-se muita legislação, dificultando a nível central a prometida autonomia das escolas, com destaque para o concurso para professor titular, o estatuto do aluno (já por mim analisado) e a avaliação.
A grande contestação iniciou-se com a progressão na carreira, processo que deixou marcas e muitas dúvidas: como pode alguém aceitar que sejam apenas considerados os últimos sete anos, em pessoas com um longo e difícil desempenho profissional? E continuou com a avaliação: quem pode avaliar, se o sistema não se avalia a si próprio? O método proposto contribuirá para o aumento da conflitualidade interpessoal nas escolas (docentes a dar notas a colegas do lado) e não será susceptível de comparação, porque se baseia em critérios de muita subjectividade.
Mais valia esta equipa ministerial ter começado por três áreas fundamentais: 1) melhorar a autonomia das escolas, unindo-as à volta de programas concretos de intervenção, com resultados mensuráveis; 2) modificar a formação de professores, de modo a que se tornassem mais capazes para lidar com alunos problemáticos, através do treino em pedagogias diferenciadas e da articulação com apoios a vários níveis; 3) dotar o sistema de instrumentos de avaliação, como exames pelo menos no 6º e 9º anos, de modo a percebermos por onde vamos bem e onde fracassamos (sem aferições comparáveis não se pode dizer que estamos melhor, porque tentamos "comparar" coisas diferentes). Do modo como procedeu, o Ministério da Educação (ME) não centrou a sua acção na melhoria dos alunos, antes mostrou a sua obsessão no controlo de quem ensina: os resultados estão à vista.
O impasse a que se chegou merece medidas concretas. Compreende-se que a equipa do ME se mantenha, porque o PR, o governo e o representante (?) dos pais a apoia; percebe-se que a contestação não vai parar, porque a crítica foi personalizada e o descontentamento é grande. Que fazer? Como em qualquer conflito grave, é necessária uma mediação, como já foi sugerido. O Conselho Nacional da Educação (CNE), que tem por função propor "medidas destinadas a garantir a adequação permanente do sistema educativo aos interesses dos cidadãos" tem de intervir: os seus 68 conselheiros não podem permanecer num silêncio que se estranha e, como "estrutura de representação ampla", têm de "propor consensos alargados relativamente à política educativa". Um parecer do CNE sobre a avaliação dos professores e uma mediação professores-ME a cargo do seu Presidente (Prof. Júlio Pedrosa) parecem-me essenciais para sair da crise. Se tudo continuar como até aqui, todos dirão que não recuam, mas não haverá reformas na educação, o clima escolar sofrerá progressiva deterioração e os alunos (a quem ninguém pede opinião...) serão os mais prejudicados.
Uma mediação bem conduzida mostrará alguns aspectos positivos desta equipa do ME: os cursos profissionais, o Plano Nacional de Leitura, o inglês no primeiro ciclo, a permanência por três anos dos professores nas escolas; e evidenciará a necessidade de outras formas de escuta e participação dos docentes no futuro da educação, afinal aquilo que falhou de forma tão clara.
(Nota: tenho recebido abundante correspondência de professores. Muitos apreciam o que tenho escrito, outros criticam a minha suposta "inversão de marcha", a propósito de críticas recentes à actual equipa do ME. Agradeço a todos e lembro aos últimos: digo sempre o que penso e não pretendo ser consensual, por isso apoio ou critico quando entendo, em liberdade. Sempre assim foi e continuará a ser.)

2 de março de 2008

VPV

A avaliação dos professores
Como se pode avaliar professores, quando o Estado sistematicamente os "deseducou" durante 30 anos? Como se pode avaliar professores, quando o ethos do "sistema de ensino" foi durante 30 anos conservar e fazer progredir na escola qualquer aluno que lá entrasse? Como se pode avaliar professores, se a ortodoxia pedagógica durante 30 anos lhes tirou pouco a pouco a mais leve sombra de autoridade e prestígio? Como se pode avaliar professores, se a disciplina e a hierarquia se dissolveram? Como se pode avaliar professores, se ninguém se entende sobre o que devem ser os curricula e os programas? Como se pode avaliar professores se a própria sociedade não tem um modelo do "homem" ou da "mulher" que se deve "formar" ou "instruir"?
Sobretudo, como se pode avaliar professores, se o "bom professor" muda necessariamente em cada época e cada cultura? O ensino de Eton ou de Harrow (grego, latim, desporto e obediência) chegou para fundar o Império Britânico e para governar a Inglaterra e o mundo. Em França, o ensino público, universal e obrigatório (grego, latim e o culto patriótico da língua, da literatura e da história) chegou para unificar, republicanizar e secularizar o país. Mas quem é, ao certo, essa criatura democrática, "aberta", tolerante, saudável, "qualificada", competitiva e sexualmente livre que se pretende (ou não se pretende?) agora produzir? E precisamente de que maneira se consegue produzir esse monstro? Por que método? Com que meios? Para que fins? A isso o Estado não responde.
O exercício que em Portugal por estúpida ironia se chama "reformas do ensino" leva sempre ao mesmo resultado: à progressão geométrica da perplexidade e da ignorância. E não custa compreender porquê. Desde os primeiros dias do regime (de facto, desde o "marcelismo") que o Estado proclamou e garantiu uma patente falsidade: que a "educação" era a base e o motor do desenvolvimento e da igualdade (ou, se quiserem, da promoção social). Não é. Como se provou pelo interminável desastre que veio a seguir. Mas nem essa melancólica realidade demoveu cada novo governo de mexer e remexer no "sistema", sem uma ideia clara ou um propósito fixo, imitando isto ou imitando aquilo, como se "aperfeiçoar" a mentira a tornasse verdade. Basta olhar para o "esquema" da avaliação de professores para perceber em que extremos de arbítrio, de injustiça e de intriga irá inevitavelmente acabar, se por pura loucura o aprovarem. Mas loucura não falta.
Jornal Público

Daniel Sampaio, Porque sim

O FIM DO ESTATUTO
O Ministério da Educação (ME) tomou a decisão de suspender a aplicação do Estatuto do Aluno até ao próximo ano lectivo (circular para as escolas em 21/2). Com esta decisão matou uma das suas obras mais recentes, na tentativa de acalmar a contestação crescente em todas as escolas.
Tenho denunciado nestas crónicas a lamentável burocracia a que o ME tem obrigado os professores: a avaliação dos docentes, o decreto sobre as necessidades educativas especiais e as faltas dos estudantes fazem com que se consumam horas de trabalho, que deveriam ser utilizadas a falar com os alunos ou na definição de estratégias pedagógicas. E para quê? Uma única explicação ganha forma: o ME não fala verdade quando defende a autonomia e deixa, a cada dia que passa, a ideia de que tudo quer controlar por via legislativa.
O Estatuto do Aluno é um documento errado no seu conteúdo, impossível de aplicar na prática e potenciador de conflitos entre pais, alunos e professores. Foi suspenso, mas já causou danos. Vejamos porquê.
1) Não faz distinção entre faltas justificadas e injustificadas, ao contrário do que sempre aconteceu. Desta forma, o ME trata da mesma forma o aluno que faltou por doença e aquele a quem não apeteceu comparecer na escola.
2) O aluno terá de realizar uma "prova de recuperação" quando exceder o limite de faltas. Se um aluno esteve internado num hospital, por exemplo, quando vier fazer a "prova" correrá o risco de não ter sucesso, dado que não assistiu às aulas respectivas; se efectivamente abandonou a escola, para que serve a "prova"? Por que razão se altera a prática de ser o Conselho de Turma a decidir, tendo em conta todas as circunstâncias?
3) Para a realização da "prova de recuperação", o Director de Turma (DT) terá de avisar com urgência o professor respectivo, para que este elabore a tal "prova"; depois, deverá dar conhecimento ao Encarregado de Educação. Com 16 disciplinas no 8º ano (por ex.) e a diversidade de horários existente, agora com a obrigatoriedade urgente do controlo das faltas, depressa se compreende como as importantes funções do DT ficam prejudicadas, pois não lhe sobrará tempo para falar com os alunos ou os pais em questões decisivas, como o aproveitamento e os problemas pessoais dos mais novos. Este ME acaba de reduzir o DT a um burocrata!
4) Sabendo toda a gente como existem tantos alunos a faltar (sobretudo em zonas problemáticas), não se percebe a viabilidade de realização de tantas provas de recuperação, pois como poderia ser encontrado um horário compatível para docentes e discentes? Por que razão não se utiliza apenas bom senso, solicitando ao professor um trabalho adicional, a combinar entre si e o aluno faltoso, como é habitual em tantos estabelecimentos de ensino? O que o ME propõe com tanta "prova" leva ao que várias escolas me têm confidenciado: a única solução será uma época "especial" de avaliação para as ditas "provas"!
5) No que diz respeito a "medidas disciplinares sancionatórias", o ponto 4 do Art. 27º diz ser preciso ouvir os alunos em "autos". Para além da desagradável expressão (a lembrar os arguidos dos tribunais), a medida tem levado a grande consumo de horas em escolas problemáticas, em vez de se ter reforçado a actuação imediata do professor ou da Direcção Executiva.
6) Lendo com atenção o Estatuto, deduz-se que a sua preocupação se prende com a redução estatística do abandono escolar, ignorando todas as outras vertentes do problema, já que o texto do ME é omisso em medidas que visem as melhorias das aprendizagens.
7) O diploma em causa foi suspenso um mês depois da sua entrada em vigor. Não houve cuidado em pensar nos Regulamentos Internos das escolas, dados a conhecer aos alunos e aos pais no início do ano lectivo. Uma lei que implica tantas alterações ao normal funcionamento das escolas e às suas normas (em muitas escolas resultantes de acordos com as famílias) nunca deveria ter saído a meio do ano lectivo. Mais: se por um lado se saúda a sua suspensão, por outro há que lamentar todo o tempo que este Estatuto já fez perder aos professores, tantas as horas que já foram gastas na tentativa da sua aplicação.
Por isso afirmo: o Estatuto tem de estar morto, nunca apenas suspenso.

18 de novembro de 2007

Crónica de Daniel Sampaio

Bons professores

Na semana passada foi tema o bom professor: estiveram em causa a atribuição do Prémio Nacional de Professores e dos Prémios de Mérito, que distinguiram quatro docentes do ensino público. Vale a pena pensarmos um pouco sobre o que permite distinguir quem ensina bem nos dias de hoje.
É nítido o mal-estar de muitos professores. Ignorar essa realidade é contribuir para que nada mude nas nossas escolas, porque não haverá mudança significativa sem o empenhamento daqueles que a poderão levar à prática. Convém, no entanto, compreender que o problema não é exclusivo do nosso país, pois está relacionado com o significado e funções das escolas na actualidade.
As mudanças sociais tendem a atribuir à escola um novo conjunto de funções, nem sempre bem definidas: além de instruir, os professores são chamados a apoiar, socializar ou encaminhar para outros contextos alunos com histórias de vida, expectativas e capacidades muito diferentes. Quando a escola é obrigatória e pretende integrar no seu seio todos os jovens, vê-se confrontada com todos os problemas familiares e sociais que os alunos levam consigo. Curiosamente, a formação dos docentes sofreu poucas alterações: continua a ter como ponto de partida uma formação universitária que ignora por completo as características psico-sociais da população objecto do ensino, ou "actualiza-se" através de acções formativas coordenadas por técnicos exteriores à escola, com conteúdos teóricos desligados da realidade.
Os próprios professores perderam o papel cultural de que outrora eram exemplo. Ao não produzirem o conhecimento que são chamados a reproduzir (organizado no Ministério, às vezes por colegas que abandonaram a escola) e ao confrontarem-se com novas fontes de informação alternativas à escola (televisão, Internet, culturas juvenis), depressa precisam compreender que o lugar de mestre incontestado do passado já não tem possibilidade de se manter: torna-se imperioso modificar o seu papel tradicional e abrir caminho a uma nova maneira de estar, muito mais coordenador de pesquisa e gestor de grupo de trabalho do que transmissor expositivo de manual para aluno médio.
Se os alunos são diferentes, as escolas também o são. Por vezes afirma-se que caminhamos para a sua autonomia, mas o percurso é lento e cheio de contradições. Há um abismo entre a teoria e a prática: se o desejo é autonomizar, por que razão se legisla tanto a nível central? Os professores de hoje perdem-se entre circulares, despachos normativos, portarias e decretos, num tempo precioso para outras actividades. A dependência do poder central continua a ser grande, enquanto é bem pequena a margem de manobra para inovar e adaptar o currículo à população estudantil que se pretende servir. A questão decisiva é esta: continua a ser diminuta a capacidade para o professor se movimentar, porque na realidade ele só se desloca num contexto cujas condições pouco pode mudar; e as alterações permanentes desse complexo contexto exigiriam, pelo contrário, uma flexibilidade notável.
Além do que já foi dito, mudou profundamente o relacionamento professor/aluno. Com a aproximação das gerações em todas as famílias e com a entrada obrigatória na escola de muitos jovens para quem essa obrigatoriedade faz pouco sentido, a hierarquia tradicional perturbou-se: o que diz o professor já não é aceite como lei e pode ser contestado, às vezes com agressividade. O problema da violência nos estabelecimentos de ensino portugueses não tem grande dimensão, mas do ponto de vista psicológico é inquietante: saber que um aluno pode agredir o professor (mesmo que isso não seja frequente) é a introdução permanente da insegurança na relação, no lugar onde deveria existir confiança e respeito mútuo.
Os momentos difíceis que vivemos nas escolas não nos podem fazer desistir. Mesmo alguns resultados positivos no combate ao insucesso do secundário, por exemplo, precisam de ser confirmados e avaliados em circunstâncias comparáveis, pois logo aparecem as desilusões do básico ou a incapacidade visível de tantos alunos para compreender o mundo.
Os professores premiados, contudo, enchem-nos de esperança: mostram que é possível trabalhar com entusiasmo, estimular a descoberta em conjunto e ser um exemplo para os mais novos.

27 de agosto de 2007

Uma paixão ao longo das décadas

Uma paixão ao longo das décadas
Ainda é giro ter um Mini


O Mini encarnado custou 56 contos e 160 escudos. Jorge frequentava o último ano de Medicina quando o pai lho ofereceu, em 1971. Madalena casou com Jorge e adoptou o Mini. Hoje, 36 anos depois, a professora recorda-o com emoção.

Traz-lhe de volta o Jorge e a Madalena que estavam a começar a vida. “Não tínhamos emprego, dinheiro, recursos. Tínhamos projectos e tempo à nossa frente.” Não precisavam de mais nada para se fazerem ao caminho.

Mais giro do que ter um Mini – como na época garantia o slogan – foi “ter 20 ou 25 anos, partir de Lisboa com uma tenda e pouco mais, rumo a qualquer destino que apetecesse no caminho”. E continuar a viagem com um filho, que comia bananas no banco de trás, acomodado entre o material de campismo.

O carrinho encarnado nunca deixou a família ficar mal. “Quando era preciso viver dentro do Mini, vivia-se."
Em 1976 ficaram à porta do parque de campismo de Interlaken, na Suíça. Tinham chegado atrasados e nem vendo-os ali com uma criança de um ano e meio, o guarda do “camping” lhes permitiu a entrada. Madalena, Jorge e o filho passaram a noite na ‘pensão Mini’. De manhã lá entraram no parque.

Um ano depois, enquanto esperavam pelo “ferry” que os levaria da Dinamarca a Malmo, na Suécia, dormiram de novo no Mini. DG-79-96 era a matrícula dele. Foi há quase quarenta anos – o petiz que comia bananas no banco de trás a caminho da Suécia é um homem de 32 – mas Madalena lembra-se. “O Mini está associado a uma fase da minha vida particularmente feliz.”

Mais tarde, à espera de um segundo filho, a família desfez-se do Mini em favor de um automóvel mais espaçoso – um Toyota. O que quer que lhe tenha acontecido depois, o carrinho vermelho permanece uma peça importante na história desta família – como um retrovisor ou espelho lateral, capaz de reflectir o que ficou para trás.

Uma imagem vale mais do que mil palavras. E fica mais tempo na memória. Não admira por isso que, questionado acerca do significado social do Mini nos anos 60 e 70 em Portugal, o historiador António Costa Pinto se lembre imediatamente de uma que serviu de capa de um livro. “Mostra duas mulheres de mini-saia encostadas a um Mini. Em cima do tejadilho está uma telefonia”. Não era só um carro, era um símbolo de modernidade, a par das calças boca de sino e das saias curtas.

Diferenciava-os, naturalmente, o preço. “Mesmo assim, os carros eram caros”, observa o historiador e investigador do Instituto de Ciências Sociais (ICS) com trabalho publicado sobre o Estado Novo.

O Mini foi também, a partir dos anos de 1965/66, sinal exterior de “afirmação da classe média”.

UM MINI COMO PRENDA

Mais giro do que ter um Mini é ter dois – um para a Margarida, o outro para o Ricardo, um casal de Vagos, em Aveiro. Os carros, ambos verdes, são exactamente iguais. O de Margarida foi presente de aniversário do marido.

Foi ele quem trouxe a antiga paixão, pelo carro, para o casamento. Mal sabia que ela havia de tomá-la tanto ou mais a sério. De tal maneira que acabou por assumir a presidência do clube MINInos, com sede em Vagos e núcleos em várias regiões do País.

Há seis anos os recém-casados passeavam em Ovar quando o viram estacionado à porta de um café – um Mini Mil cinzento de 1989. E eles sem dinheiro nem cheques. Não era o local de um crime (pois o desejo é, quando muito, um pecado), mas eles voltaram lá. Prevenidos. “Já tinha sido vendido.”

Nada que não se resolvesse. O casal seguiu o rasto do comprador e comprou-lhe o carro a ele – por 600 contos. Ricardo acabou por trocá-lo por outro do mesmo modelo e assim sucessivamente, até lhe chegar às mãos o volante do que conduz hoje, de 1990, verde, com tecto de abrir, tal e qual o que ofereceu depois a Margarida.

Os anos 60 já lá vão. O Mini não foi com eles. Hoje é estimado por gente na altura nem sequer nascida. Porquê? “Como é pequeno, é mais fácil fazer manobras e conduzi-lo faz-nos sentir um friozinho na barriga”, explica Margarida. “É um carro com pinta”, diz Domingos Piedade, director do Circuito do Estoril e comentador de Fórmula 1.

Pinta só, não. Hiper-mega-super pinta, corrigem os filhos de Ricardo e Margarida, dois como os minis, mas não gémeos. O Ricardo tem 5 anos e pose de homenzinho. O Rodrigo 3, idade que lhe permite confundir os carros da mãe e do pai com os seus de brinquedo.

“Eles adoram os carros. Não querem ficar comigo se o pai sair com o Mini”, conta Margarida, que não perde tempo a lamentar a preferência. Quem sai aos seus não degenera. Menos ainda quando deles herda as paixões.

UM MINI AZUL E AMARELO

Mal acabou o curso de Engenharia Civil, em 2002, Sílvio Baptista comprou um Mini. “Era de uma senhora aqui de Castelo Branco que o tinha muito estimado, na garagem.” O Mini, de 1975, percorrera apenas 40 mil quilómetros.

Pagou por ele 750 euros e depois, com o auxílio gracioso de um mecânico, desmontou-o completamente. “Os vidros estavam riscados, a pintura queimada, o motor era antigo.” Recuperá-lo custou mais um zero à direita do valor da aquisição – 7500 euros.

O carro era vermelho. Sílvio quis dar-lhe um toque pessoal. Escolher a nova cor não foi decisão fácil. Pensou em pintá-lo de azul, mas havia “muitos Minis azuis”. Decidiu então torná-lo amarelo. Durou até concluir que ‘canarinhos’ também eram aos molhos. O que decerto marcaria a diferença era pintá-lo de azul e amarelo. E assim foi. “Não passa despercebido”, diz o engenheiro albicastrense, visivelmente tomado de amores pelo bólide que afirma conhecer “até ao último parafuso”.

Quem não compreenda esta fixação, tem bom remédio: um passeio. Sílvio dá o exemplo da mulher, que não gostava do Mini até ao dia em que a levou no carro para uma volta. “Passou a gostar também.”

No caso de Sílvio, deve ser “coisa de família” – o pai comprava Minis para participar em provas de perícia. O engenheiro cresceu perto deles e aprendeu a conduzir num. Mais giro do que ter um Mini é ter um que transporta memórias.

ALEC ISSIGONIS FEZ O PRIMEIRO ESBOÇO SOBRE A TOALHA DE MESA DO RESTAURANTE

A história do Mini começou, em boa verdade, à mesa de um restaurante, decorria o ano de 1957, durante um almoço de trabalho para o qual o então presidente da BMC (British Motor Corporation), Leonard Lord, convidara o seu engenheiro-chefe favorito, Alexander (Alec) Arnold Constantine Issigonis, a quem lançara o desafio: conceber um automóvel o mais pequeno possível, económico e que fosse capaz de satisfazer a crescente necessidade de mobilidade individual da sociedade britânica da altura.

Logo ali, sobre a toalha da mesa, Alec Issigonis, mais tarde agraciado com o título de Sir, fez o esboço do projecto daquele que viria a ser o tal automóvel de pequenas dimensões, económico, com capacidade para acolher quatro passageiros e ainda um compartimento para bagagem.

Mas esse esboço, de um automóvel de cerca de três metros de comprimento, só ganhou forma seis meses do dito almoço e o primeiro protótipo do modelo ficou pronto a rodar apenas em Julho de 1958.

No entanto, foi preciso esperar mais de ano até à data do seu lançamento oficial, o que aconteceu em 29 de Agosto de 1959, com as designações de Austin Se7en e Morris Mini Minor. Mas ao contrário do que pretendiam Leonard Lord e Alec Issigonis, não foram as classes média e baixa a comprá-los, e sim executivos, estudantes e mulheres com algum poder aquisitivo.

O ‘boom’, esse, deu-se a partir de 1962, quando as pessoas de menores recursos começaram a valorizar a sua economia, os jovens descobriram as suas qualidades dinâmicas e as mulheres viram nele uma forma de independência. Depois disso, ninguém mais conseguiu parar a carreira desse modelo concebido por Alec Issigonis, um engenheiro filho de pai turco e mãe alemã, nascido em Smyrna (Turquia), em 1906 (faleceu em 1988).

E se em 1962 foram produzidas 116.000 unidades, três anos depois atingiu-se o primeiro milhão, para em 1969 se chegar ao segundo milhão e em 1972 ao terceiro.

As suas influências na sociedade foram muitas, ao ponto de em 1964 a conhecida estilista britânica Mary Quant ter-se inspirado no Mini para baptizar aquela que foi uma peça feminina por excelência: a minissaia.

A evolução do Mini ao longo dos anos foi constante. O seu primeiro motor a gasolina, colocado à frente em posição transversal, era de apenas 850 cm3 (37 cv), seguindo-se o de 1.0 litro (40 cv). Não muito mais tarde recebeu um novo motor, este de 1.275 cm3 (63 cv), e alguns anos depois chegou a dispor de um motor de 1.4 litros.

Os novos Mini, agora sob a batuta da BMW, vem equipados com modernos motores a gasolina (potências de 95 e 175 cv) e até um turbodiesel de 110 cv. No campo desportivo, o Mini Cooper venceu por três vezes o famoso Rali de Monte Carlo, à frente de ‘máquinas’ mais potentes.

DOMINGOS PIEDADE, (Ex-co-piloto de ralis e comentador de Fórmula 1)

"BATIA COM PINTA OS GRANDES DA PORSCHE E DA FERRARI"

Tenho uma relação afectiva o Mini. Foi com este carro que fiz os primeiros ralis e me iniciei no desporto automóvel. O meu primeiro Mini era vermelho com a capota branca. O último também. O primeiro, de 1965 ou 1966, já não me lembro bem, tinha um aspecto aspecto menos “raceé” do que este último, todo artilhado, com mais técnica. O último pertenceu ao César Torres.

Nos anos 60 e 70 o Mini era um carro giro, que ficava bem a toda a gente - ao pai, à avó, ao amigo... Dava para correr e para andar com ele todos os dias. Se comparamos o Mini de antigamente com o de hoje, é claro que se exige mais deste, que até é maior. Pondo um ao lado do outro, o moderno parece 50 por cento maior em relação ao antigo. Mas “it’s just another car” (um carro como outro qualquer).

O Mini antigo tinha pinta. Dizia qualquer coisa às pessoas, mesmo só 40 ou 45 cavalos.

Quando surgiu o Mini Cooper, é que foi engraçado - um Mini, conduzido por Paddy Hopkirk, que tinha inventado um acelerador estilo colher, ganhou pela primeira vez o rali de Monte Carlo.

Em 1966 voltou a ganhar um Mini mas foi desclassificado por causa dos faróis - não estavam de acordo com o regulamento. Na chuva e a descer, o Mini batia todos os outros. Um carro pequenino ganhava aos Ferraris, aos grandes das corridas. Era a tradução automobilística da história bíblica de David e Golias.

Nas suas várias versões, o Mini tornou-se um mito praticamente no Mundo inteiro ao mesmo tempo. Não foi só na Europa. Também nos Estados Unidos fez sucesso. Era um carro revolucionário do ponto de vista técnico, com motor transversal, pequeno e rápido. Naquela altura todos tinham um Mini e mesmo os que não tinham lhe achavam piada. Gostavam que ele fosse assim tão atrevido, capaz de ganhar aos grandes.

É de facto impressionante o “feelling” de Alec Issigonis, engenheiro de desenvolvimento que teria já uns 50 anos quando imaginou um carro tão pequeno de que as pessoas gostaram tanto durante tanto tempo.

Onde pára o meu primeiro Mini? Não sei. Perdi-lhe o rasto. Como à primeira namorada.

QUANTOS É QUE CABEM NUM MINI

Foram, se a memória não falha a Júlio Isidro, 22 os que conseguiram enfiar-se num Mini. Eram os anos 80 e o programa chamava-se ‘O Passeio dos Alegres’.

Tinha sido “uma invenção maluca” de Júlio Isidro, que lembra a única interdição do concurso: não podiam entrar crianças no Mini, cuja suspensão tinha sido propositadamente reforçada para o efeito. O apresentador ainda não percebeu como aconteceu. Certo é que, num minuto, 22 pessoas enfiaram-se lá dentro. “Acomodaram-se rapidamente em cima do tablier, no porta-bagagens, junto aos pedais...” Fecharam-se as portas durante 10 segundos. Nunca tanta gente entrara e saíra de um Mini. “É verdade que a equipa vencedora era formada por pessoas relativamente baixas e magras...”, recorda Júlio Isidro, garantindo que nenhum dos 22 saiu magoado da aventura. O Mini também saiu ileso.

UM CLUBE REPRESENTADO POR TODO O PÁIS

O clube MINInos – com sede em Vagos e núcleos em Braga, Penafiel, Pinheiro da Bemposta, Paranhos da Beira, Coimbra e Castelo Branco – é um dos que alimenta a paixão pelo carro desenhado por Issigonis há 50 anos. É responsabilidade de cada núcleo organizar uma concentração por ano.
Isabel Ramos / Celso Matosem>

4 de fevereiro de 2007

12 de dezembro de 2006

As "Cinco lições" de Kofi A. Annan

Há quase 50 anos, quando cheguei ao Minnesotta, como um estudante recém-desembarcado de África, tinha muito que aprender, a começar pelo facto de não haver nada de esquisito em usar protectores de orelhas, quando a temperatura descia para 15 graus negativos. Desde então, toda a minha vida foi consagrada a aprender. Agora, gostaria de transmitir as cinco lições que aprendi durante dez anos, como secretário-geral da ONU - lições que, na minha opinião, a comunidade das nações também precisa de aprender, no momento em que tem de enfrentar os desafios do século XXI.
A primeira lição é que, no mundo de hoje, todos somos responsáveis pela nossa segurança recíproca. Perante ameaças como a proliferação nuclear, as alterações climáticas, as pandemias mundiais ou os grupos terroristas que operam a partir de refúgios seguros em Estados falhados, nenhuma nação pode garantir a sua própria segurança afirmando a sua supremacia sobre todas as outras. Só trabalhando em prol da segurança de todos podemos esperar garantir uma segurança duradoura para nós próprios.
Essa responsabilidade inclui a responsabilidade partilhada de proteger as pessoas do genocídio, dos crimes de guerra, da limpeza étnica e dos crimes contra a humanidade. Uma responsabilidade que foi aceite por todas as nações, na cimeira da ONU do ano passado. Mas, quando vemos os assassínios, as violações e a fome que são infligidos ao povo do Darfur, compreendemos que essas doutrinas não passam de mera retórica, enquanto aqueles que têm poder para intervir eficazmente - exercendo pressão política, económica ou, em último recurso, militar - não estiverem dispostos a dar o exemplo. Também têm uma responsabilidade para com as gerações futuras - a de conservar recursos que lhes pertencem tanto como a nós. Cada dia em que nada fazemos ou não fazemos o suficiente para prevenir as alterações climáticas tem custos elevados para os nossos filhos.
A segunda lição é que somos responsáveis pelo bem-estar de todos. Sem solidariedade, nenhuma sociedade pode ser verdadeiramente estável. Não é realista pensar que uns quantos podem continuar a retirar grandes benefícios da globalização, enquanto milhares de milhões de outros permanecem ou são atirados para uma pobreza abjecta. Devemos dar a todos os nossos semelhantes pelo menos a possibilidade de partilharem a nossa prosperidade.
A terceira lição é que a segurança e a prosperidade dependem do respeito pelos direitos humanos e o Estado de direito.
Ao longo da história, a diversidade enriqueceu a vida humana e as diferentes comunidades aprenderam umas com as outras. Mas, se quisermos que as nossas comunidades vivam em paz, devemos salientar também o que nos une: a nossa humanidade comum e a necessidade de a nossa dignidade humana e direitos serem protegidos pela lei.
Isso também é vital para o desenvolvimento. Tanto os estrangeiros como os cidadãos de um país tendem a investir mais, quando os seus direitos fundamentais são protegidos e quando sabem que serão tratados equitativamente pela lei. E as políticas que favorecem verdadeiramente o desenvolvimento têm mais hipóteses de ser adoptadas, se as pessoas que mais necessitam do desenvolvimento puderem fazer ouvir as suas vozes.
Os Estados precisam também de cumprir as regras que regem as relações entre eles. Nenhuma comunidade, em parte alguma do mundo, sofre de excesso de Estado de direito, mas muitas sofrem de falta dele - e isto aplica-se também à comunidade internacional. É uma situação que devemos mudar.
A minha quarta lição é, pois, que os governos devem ser responsabilizados pelos seus actos, tanto na cena internacional como na nacional. Todos os Estados devem prestar contas àqueles que são afectados, de uma maneira decisiva, pelas suas acções. Na situação actual, é fácil obrigar os Estados pobres e fracos a prestar contas, pois precisam de ajuda externa. Mas só o povo dos Estados grandes e poderosos, cuja acção tem maior impacto sobre os outros, pode obrigá-los a fazê-lo. Isto confere ao povo e instituições dos Estados poderosos uma responsabilidade especial por ter em conta as opiniões e interesses mundiais. E hoje têm de tomar em consideração os actores não estatais. Os Estados já não podem - se é que alguma vez puderam - enfrentar sozinhos os desafios mundiais. Cada vez mais, precisam da ajuda de uma miríade de associações em que as pessoas se juntam voluntariamente, para benefício próprio ou para reflectir em conjunto sobre a situação do mundo e para o mudar.
Como é que os Estados se podem responsabilizar uns perante os outros? Só por intermédio de instituições multilaterais. Assim, a minha quinta e última lição é que estas instituições devem ser organizadas de uma maneira justa e democrática, permitindo que os pobres e os fracos tenham alguma influência sobre a acção dos ricos e dos fortes.
Os países em desenvolvimento deveriam ter mais influência nas instituições financeiras internacionais, cujas decisões podem significar a vida ou a morte para os seus cidadãos. E haveria que incluir novos membros permanentes ou a longo prazo no Conselho de Segurança, cuja composição reflecte a realidade de 1945 e não a do mundo actual. E, o que não é menos importante, os membros do Conselho de Segurança devem aceitar a responsabilidade que acompanha o privilégio de o integrarem. O Conselho não é um palco para expressar interesses nacionais. É o comité de gestão do nosso frágil sistema de segurança mundial.
Mais do que nunca, a humanidade precisa de um sistema mundial que funcione. E a experiência tem demonstrado, repetidamente, que o sistema é pouco eficaz, quando os Estados-membros estão divididos e carecem de liderança, mas funciona muito melhor, quando há unidade, uma liderança clarividente e a participação de todos os actores. Sobre os dirigentes do mundo, os de hoje e os de amanhã, recai uma grande responsabilidade. Compete aos povos do planeta assegurar que se mostrem à altura dessa responsabilidade.
Secretário-geral das Nações Unidas

5 de agosto de 2006

António Pinho Vargas

Hospitais Para um Manual de Sobrevivência para doentes e acompanhantes
Aminha mãe planeou a sua doença e a sua morte com a sabedoria ancestral das minhotas. O momento escolhido para a dor de cabeça indescritível provocada pelo aneurisma cruel aconteceu no fim de um dia passado com os netos, levados por ela aos sítios onde se ia encontrar pela última vez com as amigas do Centro Bem-Fazer e depois com as outras velhotas do Café. Como sabia que o seu filho vive em Lisboa e passa temporadas em Inglaterra, escolheu para o transe que a levou a dois hospitais, um dia no qual ele pudesse estar presente quase desde o início. O que ela não podia saber era que ao entrar num hospital a sua idade avançada, 83 anos, iria ser objecto de vários tipos de considerações, por exemplo, de um médico com vocação administrativa sobre o que custa ao Estado um doente em coma por dia e por ano (10.000 contos por ano, disse). De facto, esteve em coma 5 ou 6 dias. Depois, as esperanças eram poucas para alguns médicos, algumas para outros, mas surpreendentemente mais tarde abriria os olhos, agarrava as mãos que lhe eram dadas, tinha um olhar doce e expressivo e passou certos dias algumas horas sentada numa cadeira de rodas. Fui contactado um mês depois para começar preparar a sua saída do hospital.Também não saberia que o seu filho, apesar dos seus esforços incessantes iria gradualmente ficar esmagado pela impotência de quem sabe que por mais que proteste, reclame e exija explicações, não conseguiria enfrentar a burocracia gigantesca que é hoje o funcionamento normal de um hospital. Talvez imaginasse que lá trabalha ainda gente admirável, que possui ainda uma memória do código deontológico, uma ideia do que é um serviço. Como uma jovem médica que, quando pedi explicações sobre um inesperado adiamento da cirurgia para o dia seguinte, sábado, me disse discretamente que não podia dizer o que ia dizer mas que apoiava e admirava o que eu estava a fazer. Mas, trabalha muita gente nos hospitais que esqueceu há muito tudo isso. Trava-se um combate quotidiano entre os admiráveis e os outros. Pode acontecer ir sair um médico tão digno de respeito que faço questão de lhe dar um abraço e ficar responsável alguém que sei antecipadamente que nem sequer irei ver (que poderei nem querer ver) mas que talvez a minha mãe - impotente na sua cama a olhar a impotência do seu filho - não se importasse de ter visto.Os que decidiram adiar a operação marcada no dia anterior fizeram-no com a leveza de quem sente o aproximar do fim-de-semana. Nesses dias um hospital fica reduzido aos médicos da urgência que, além disso, tem a seu cargo todos os que estão nas enfermarias. A partir de sexta-feira às 4 da tarde até à segunda-feira seguinte os hospitais tornam-se locais perigosos. Basta haver muito trabalho na urgência para a situação dos doentes internados ficar próxima do abandono. "Já alertámos os médicos, já estão avisados" repetem as enfermeiras, mas a próxima acção forte irá ser apenas segunda-feira. Os estragos da espera podem ser grandes ou fatais. Mas os burocratas administrativos que cortam nas finanças estão no seu justo descanso semanal e deverão pensar que quando for a sua vez de ir lá parar estarão a salvo. Estão completamente enganados. Nem sequer na privada estarão a salvo porque se alguma coisa corre mal os doentes dos hospitais privados são muitas vezes transferidos para os públicos, melhor equipados, com melhor tecnologia. É por isso que os Institutos de Oncologia são todos públicos porque não são rentáveis. Rentáveis são os DMI e alguns hospitais de tecnologia sofisticada onde os mesmos médicos que estão de manhã nos públicos estão à tarde "a operar".O combate político-económico sobre a saúde pública e privada tem sido feroz. Por isso, face ao tal adiamento - não estava disponível um neuroanestesista no Hospital Central da Região Norte (!) - quando perguntei se teria hipóteses de reunir uma equipa de neurocirurgiões para operar num hospital privado e me é dito "Não digo que não...", a revolta e a repugnância que senti não pode ser escrita. A resposta que dei foi fatal: "Então aqui não podem mas se for na privada, como vão ganhar mil contos cada um, já podem?" Pensei e disse que era inaceitável. Mas estava enganado. Parece que actualmente é prática corrente. Como sabia que estava em perigo de vida e cada hora que passava agravava as expectativas de sucesso entrei em pé de guerra, usei todas as armas à mão, fiz ameaças de todo o tipo e a operação que tinha sido adiada para sábado - o neurocirurgião em causa tinha feito questão de me torturar dizendo que nem no sábado me podia garantir... - afinal foi nessa mesma noite às duas da manhã. Porque o chefe da equipa médica da urgência nessa noite se pôs em acção e persuadiu os renitentes que seria melhor operar. Agradeço-lhe por isso mas não pode ser. Não tem explicação aquilo que foi ouvido por uma porta indiscreta: "Parece que está cá a mãe de um VIP (repugnante palavra) e "eles" meteram água". Como é possível? E as outras mães ou pais?Alguns médicos precisariam de uma reciclagem sobre o que significa ser humano. Tornaram-se negociantes da vida e da morte ao melhor preço. Está muito dinheiro em causa e nunca faltarão clientes. A nota 19 exigida para entrar em Medicina afasta muito provavelmente verdadeiras vocações em detrimento de uma formação que privilegia a terapêutica by the book e negligencia o olhar atento para a pessoa doente. O corpo que está na cama é um caso, um dossier. A rápida ronda matinal - há quantas décadas é que é assim? - seguida de uma prescrição para o resto do dia e da noite, deixa nas mãos dos enfermeiros o real contacto com as pessoas. O discurso sobre a qualidade de vida, sobre os hospitais anglo-saxónicos ou americanos onde a partir de uma certa idade - 70 disseram-me - já nem se entra em cuidados intensivos traduz na verdade a aplicação das políticas que esses países impõem ao resto do mundo. Os velhos são um problema. Enquanto puderem comprar os medicamentos que lhes prolongam a esperança de vida podem fazê-lo. A indústria farmacêutica agradece e acumula lucros fabulosos. As visitas dos doentes graves circulam pelos corredores dos hospitais como almas penadas, com a paralisia estampada no rosto desfigurado pelo sofrimento. Mesmo uma pessoa que vai morrer é uma pessoa. Talvez por isso uma enfermeira (admirável) me tenha dito que era importante estar sempre lá, perguntar, reclamar, porque o comportamento habitual se resumia a três tipos: os que não sabem, os que não podem e os que já desistiram de protestar, de pedir informações ou explicações. Mas há muito pior: como a mulher de 30 anos do quarto ao lado a quem foi prescrito noutro hospital, primeiro, parar com a pílula; três dias depois, recomeçar a tomar; e na terceira ida ao hospital, sugerido consultar um psicólogo. A sua mãe opôs-se: a minha filha não está bem, não precisa de psicólogo nenhum. Tinha um aneurisma e terá danos irreversíveis se sobreviver.Muitos médicos começam as frases por "Estive agora nos Estados Unidos e..." mas esquecem-se de referir a forte responsabilização, os processos e as indemnizações a que lá estão sujeitos administrações e médicos capazes de cometer erros grosseiros e repetidos deste calibre. Assim justifica-se um processo judicial. Para a maioria dos outros casos será urgente a redacção de um Manual de Sobrevivência para doentes e acompanhantes. Pianista e compositor

4 de junho de 2006

do Público

Apenas um terço dos docentes não colocados são professores, diz Sócrates

Associação Sindical dos Professores Licenciados afirma-se "decepcionada" com resultados do consurso divulgados na sexta-feira

O primeiro-ministro, José Sócrates, desdramatizou ontem o facto de 60 mil pessoas terem ficado sem colocação no concurso de professores, argumentando que "apenas um terço eram professores".
"Dessas 60 mil pessoas que se candidataram e não foram contratadas, só cerca de um terço eram professores, outros eram pessoas que se candidataram ao lugar de professor" e "nunca foram professores na vida", afirmou aos jornalistas em Resende, Viseu.
Por seu lado, a Associação Sindical de Professores Licenciados (ASPL) afirma-se "decepcionada" com os resulatos do consurso. A ASPL "lamenta que uma vez mais o Ministério da Educação tenha logrado as expectativas de milhares de professores em verem melhorada a sua situação profissional", afirma em comunicado, referindo que "apenas 18% dos candidatos conseguiram ficar num estabelecimento de ensino e que destes 20.989, somente 3151 candidatos ficaram pela primeira vez em lugares de quadro do ME. É inacreditável tal situação!".
O primeiro-ministro afirmou que "o Estado só contrata as pessoas que deve contratar para servir as suas necessidades" e frisou que "o mais importante" deste concurso foi a antecedência com que se souberam os resultados.
"Pela primeira vez fez-se um concurso de professores com tanta antecedência do fim do ano escolar. Agora os professores sabem já qual é o seu lugar, o que revela profissionalismo", considerou. Público/LUSA

2 de maio de 2006

Maria Filomena Mónica

Envelhecer Não é Pêra Doce
Destaque: Dantes, qualquer roupa me servia. Agora, só encontro trajos desenhados para anoréxicas. Uma vez que é na cintura que a idade mais partidas nos prega, comprar um par de calças é uma tarefa morosa. Embora ainda me possa gabar dos joelhos, sei que, no máximo, terei um ano durante o qual posso usar mini-saias.

No último dia 30 de Janeiro, fiz sessenta e três anos. De manhã, olhei-me com uma atenção especial: registei as rugas ao canto dos olhos, a carne flácida do pescoço, os ainda poucos cabelos brancos. Dado que aquilo que o espelho me devolvia eram coisas que normalmente acontecem a quem atinge a minha idade, não me revoltei. Nunca tendo tratado do meu corpo, podia ser pior. Mas a beatitude não durou. À medida que o dia avançava, o humor piorou.
Em Dezembro de 1991, tinha eu quarenta e oito anos, dei uma entrevista à revista «Marie Claire», que organizara um número sob o título «O Charme das Mulheres de 50 Anos». Lendo-a, quinze anos depois, o que me surpreende é o meu optimismo. É verdade que já então descobrira não ser imortal, o primeiro sinal de envelhecimento, ou, se preferirem, de sabedoria, mas declarava, com ar pimpão, que ter cinquenta anos era a melhor coisa do mundo. O único facto que lamentava era não poder registar, numa agenda, a data e a hora da minha morte. Tudo o resto eram rosas.
A minha actual posição é mais complexa. Se há coisas boas no envelhecimento, as más ultrapassam-nas de longe. Não querendo ser fúnebre, começo pelas primeiras. À cabeça, vem a evidência de dispor hoje de mais dinheiro do que em jovem, um benefício apenas atenuado pelo facto de o prazer de fazer compras ter desaparecido. Em seguida, tenho atrás de mim uma carreira, o que me dá conforto moral e, uma vez que deixei de prestar atenção ao que os outros pensam de mim, atrevo-me a deixar as minhas excentricidades virem ao de cima.
Seja como for, o prato negativo da balança é mais pesado. Começo pela saúde. Depois dos sessenta anos, raro é o dia em que não temos uma maleita. E não estou a falar de doenças graves, mas de pequenas aflições, uma subida da tensão arterial, uma dor de cabeça, uma lombalgia. Ligado ao menor vigor físico, está a facilidade com que nos cansamos. Dantes, conseguia trabalhar na Biblioteca Nacional das dez da manhã até às sete da tarde; hoje, em dias com sorte, apenas consigo trabalhar seis. Reconheço que é um tempo intensivo, sem interrupções para conversas nem intervalos para café, mas um deus maléfico retirou três horas ao meu dia de trabalho. Infelizmente, há mais. Dantes, qualquer roupa me servia. Agora, só encontro trajos desenhados para anoréxicas. Uma vez que é na cintura que a idade mais partidas nos prega, comprar um par de calças é, como verifiquei ontem, uma tarefa morosa. Embora ainda me possa gabar dos joelhos, sei que, no máximo, terei um ano durante o qual posso usar mini-saias.
Outro aspecto no qual a idade tem efeitos devastadores diz respeito às novas tecnologias. Levei anos a aprender a mudar um fusível, a lidar com uma panela de pressão e a programar um micro-ondas. Ainda consegui - momento de glória - passar da máquina de escrever para o computador, mas a minha evolução parou aqui. Por saber que o tempo gasto a ler instruções não compensaria a utilidade ou o prazer que deles retiraria, já não dei o salto para o telemóvel, muito menos para o Ipod. Fiz um balanço custo-benefício, tendo concluído que o custo de aprender seria maior do que o benefício, uma vez que este nunca poderia exceder mais do que uns anos.
Há ainda, e é decisivo, os amigos que nos deixam. Reconheço que sou lamechas, mas, quando, há um ano, o João Paulo morreu, um pouco de mim desapareceu com ele. Tenho, por fim, de mencionar os medos: o medo de que a reforma não chegue, o medo de perder a razão, o medo de morrer numa cama de um hospital. Tendo em conta o que Henry James chamou «a imaginação para o desastre», poderia encher as páginas desta revista com uma lista infindável. Não o vou fazer, embora pense que é o momento, ou quase o momento, para recordar o refrão dos Beatles, «Will you still need me/ Will you still feed me?», da canção intitulada «When I´m Sixty Four». O pânico é este: o de ficarmos sozinhos ou, pior, de passar a ser dependente de outros. Ora, para isto, não há remédio. Envelhecer é também saber isto.

29 de abril de 2006

Do jornal "O Público"

Alfred Hitchcock
O mestre do suspense viveu dividido entre dois países e duas existências. Nasceu no Reino Unido e, aí, deu os primeiros passos no mundo do cinema, mas foi nos Estados Unidos que realizou os seus maiores clássicos. Fora do set, mantinha um estilo de vida calmo e simples, mas no grande ecrã vivia as suas grandes obsessões e traumas. Alfred Hitchcock tornou-se um génio incontestável na história do cinema. Por Ana Filipa Gaspar

A vida para além do grande ecrã
Alfred Hitchcock nasceu em Leytonstone, Londres, a 13 de Agosto de 1899, apenas um dia antes da sua (futura e única) mulher, Alma Reville. Filho de um casal de vendedores de galinhas e hortaliças, Alfred Joseph Hitchcock tinha um irmão e uma irmã mais velhos, que devido à diferença de idades não brincavam com ele. Assim, a sua infância foi marcada pela solidão e também pela severidade do pai, que uma vez o enviou à prisão com uma mensagem para o polícia o prender durante alguns momentos.

A sua família pertencia à baixa burguesia e era católica praticante. Hitchcock foi, desde cedo, educado pelos padres jesuítas do Saint Ignacius College, onde estudou, como aluno interno, durante cerca de seis anos. Em 1914, o seu pai morreu e Hitch decidiu frequentar o curso de Engenharia na Escola de Engenharia e Navegação. Cerca de três anos depois, começou a trabalhar numa companhia telegráfica, enquanto aprendia a desenhar no curso de Belas-Artes da Universidade de Londres.

Quando tinha 20 anos, ofereceu-se para trabalhar como desenhador nos estúdios da companhia norte-americana Famous Players-Lasky em Londres. E entrava, desta forma, no mundo do cinema. Dois anos depois, a Famous Players alugou os seus estúdios a uma recém-criada produtora britânica, a Gainsborough Pictures. Nela, Hitchcock desempenhou várias funções: foi argumentista, assistente de realização, decorador e realizador.

Em 1923, conheceu Alma Reville, que trabalhava na época como anotadora e montadora no filme Woman to Woman, de Graham Cutts. Um ano depois ficaram noivos e Alfred Hitchcock teve a oportunidade de realizar, na íntegra, um filme. O Jardim das Delícias foi o primeiro dos seus 53 filmes e Alma Reville trabalhou nele como assistente de realização. A crítica e o público elogiaram a estreia de Hitch e esse sucesso foi suficiente para prosseguir com novos trabalhos. Entre eles, The Lodger (1927) foi considerado pelo próprio realizador como “o primeiro filme hitchockiano”.

O casamento com Alma deu-se em Dezembro de 1926 e a única filha do casal, Patricia, nasceu a 7 de Julho de 1928. Lenda ou não, conta-se que, durante a gravidez, Hitchcock não conseguia olhar para Alma, que, além de sua mulher, era a sua mais próxima colaboradora no cinema.

Em 1929, os talkies chegaram aos estúdios ingleses e o décimo filme de Hitch, Chantagem, tornou-se num dos primeiros filmes sonoros britânicos. Cerca de cinco anos depois, o realizador alcançou o reconhecimento mundial com O Homem que Sabia Demais, êxito que conseguiu superar com o seu filme seguinte, Os 39 Degraus (1935), frequentemente referido como o melhor trabalho da sua fase britânica.

O sucesso de A Desaparecida (1938) nos EUA levou o produtor norte-americano David O’Selznick a contratar Hitchcock, que se mudou com a família para Hollywood em 1939, meses antes do início da II Guerra Mundial. Aí, a família Hitchcock manteve um estilo de vida calmo e simples, longe da agitação das festas. O primeiro filme desta nova fase foi Rebecca (1940), que recebeu o Óscar para Melhor Filme. Mais tarde, nas décadas de 50 e 60 (época de substituição dos filmes a preto-e-branco pelos a cores), surgiram os seus maiores clássicos – A Mulher que Viveu Duas Vezes, Intriga Internacional, Psico e Os Pássaros. O seu último filme foi realizado já nos anos 70 – Intriga em Família (1976).

Em 1979, Alfred Hitchcock foi distinguido com o Life Achievement Award do American Film Institute, tornando-se o quarto realizador a receber este prémio. Hitch dedicou-o a quatro pessoas que eram, na verdade, apenas uma: Alma Reville, a sua companheira durante 53 anos. E, a propósito da distinção, disse a alguns amigos que o motivo de estar a recebê-la deveria estar relacionado com o facto de morrer em breve. Tinha 80 anos quando morreu, em Abril de 1980.



O mestre e a sua bizarra profissão
A cerimónia de entrega do Life Achievement Award foi uma das últimas aparições de Hitch em público. Durante o discurso de agradecimento, o realizador falou sobre a “profissão bizarra que é o fabrico de filmes”.

Ao longo de mais de 50 anos, Hitchcock revolucionou a história do cinema com o seu estilo sofisticado, que combina as suas subtis aparições com grandes planos dramáticos dos protagonistas. A influência do expressionismo alemão nos primeiros filmes, os temas e fetiches de Hitchcock (como a culpa, a homossexualidade implícita, a figura materna, a identidade, o voyeurismo), a criação do suspense, a representação da mulher vertiginosa (encarnada por protagonistas belas, louras e gélidas) e a regra MacGuffin são algumas das suas marcas pessoais, que permitiram à frase “parece um Hitchcock” e ao termo “hitchcockiano” entrarem no vocabulário comum a partir de meados dos anos 30.

Considerado o mestre do suspense, Hitch esforçava-se por sublinhar a distinção entre a surpresa e o suspense. Em entrevista ao realizador François Truffaut, explicou que “na forma vulgar do suspense é indispensável que o público esteja perfeitamente informado de todos os elementos em causa”. Ou seja, a principal diferença em relação à surpresa é que o público sabe algo que os personagens desconhecem. Durante a entrevista, Hitch acrescentou ainda que existem muitas situações em que “o suspense não está ligado ao medo”, mas sim à emoção.

Além do princípio do suspense, Hitchcock recorria frequentemente a técnicas em torno das quais se desenvolvia a intriga. Entre elas, a mais célebre é a regra MacGuffin: um pormenor que motiva as acções dos personagens, mas não é relevante para o público. Nos seus filmes de espionagem, há sempre um MacGuffin, representado por um papel, documento ou segredo. Mas a regra também pode estar presente nos seus outros thrillers como, por exemplo, em A Mulher que Viveu Duas Vezes através da personagem ausente, Carlotta Valdes.

Outra característica dos seus filmes é um peculiar género de humor. Aliás, no próprio set, Hitch era conhecido (e temido) pelas suas “brincadeiras de mau gosto”. Para transpor essa faceta da sua personalidade para o grande ecrã, o realizador decidiu aparecer “dentro do campo” do filme, relembrando ao público o carácter ficcional da história e gerando um inevitável efeito cómico. Por vezes, passeia-se livremente entre as personagens mas, em certas ocasiões, é apenas um vulto ou uma sombra – sempre com uma certa dose de ironia e um pouco do humor negro britânico.

O sucesso deste homem, cuja imagem pública é inconfundível, e a sua capacidade de controlo criativo dos seus filmes contribuíram para a valorização do papel do realizador, que anteriormente era relegado para segundo plano face ao produtor. Hitchcock tornou-se o mentor de uma nova geração de realizadores, que continuam ainda hoje a evocar e relembrar os seus filmes.

3 de março de 2006

DESCOBRIR MARGUERITE DURAS

Nos livros de Marguerite Duras há temas obsessivos, personagens que desaparecem e depois regressam, palavras que se repetem ao longo de 50 anos. Escolhemos dez. São portas de entrada possíveis para o universo da escritora. Por Alexandra Prado Coelho

Música Na escrita de Duras, as palavras e os nomes valem pela sua musicalidade. Nota no início de India Song (livro de 1973, filme de 1975): "Os nomes das cidades, dos rios, dos Estados, dos mares da Índia, têm, antes de tudo, aqui, um sentido musical." As frases repetem-se, os nomes ecoam. "Esta tragédia cinematográfica é toda ela construída como uma composição musical. [...] Todo o filme, incluindo a imagem, é escrito como uma partitura", disse, a propósito de India Song, Dionys Mascolo, pai do filho de Duras. Quando a escritora morreu, o seu caixão foi levado da igreja ao som da música de Carlos d"Alessio, India Song.

Imagens Duras nunca gostou das adaptações ao cinema feitas por outros a partir dos seus livros. "São nulas." Foi isso que a levou a querer fazer os seus próprios filmes. Em 1996 realizou o primeiro, e durante quase 20 anos dedicou-se sobretudo ao cinema, fazendo 19 filmes. É um cinema particular: a "história" está nas vozes off e as imagens mostram muito pouco; o excesso de imagens mata o desejo. Em India Song, muito passa-se através dos sons, das vozes, do canto da mendiga (que nunca é mostrada). Em Son nom de Venise dans Calcutta désert (1976), as imagens mostram apenas um palácio em ruínas, enquanto se ouve a banda sonora (música, diálogos, sons) de India Song. O invisível atinge o seu ponto máximo em L"Homme atlantique (1981), onde, ao fim de dez minutos, o ecrã torna-se negro, até ao fim.

Indochina É daí que partem todos os seus fantasmas. A escrita de Duras é um eterno retorno a esse lugar onde nasceu e que deixou aos 18 anos. A sua obra cria uma geografia imaginária. É ela quem o explica: "É preciso que eu diga desde já que a geografia é completamente inexacta. Criei uma Índia, Índias, como se dizia... durante o colonialismo." Calcutá - "uma cidade à beira do Ganges, que será aqui [O Vice-Cônsul, 1965] capital das Índias" - é "a capital da dor", uma "cidade de pesadelo". Algo mais próximo de uma "realidade" surge nos livros autobiográficos, como Uma Barragem contra o Pacífico (1950) ou O Amante (1984).

Amante Atravessa toda a obra de Duras. Aparece pela primeira vez em Uma Barragem contra o Pacífico, mas aí ainda é um homem branco. Só mais tarde aparecerá como o amante chinês - personagem da "vida real" de Duras (nunca é claro o que é real e ficção). Nessa história, Duras tem 15 anos e apanha o barco para atravessar o Mekong e ir a Saigão, e aí conhece o amante chinês, belo e rico. Por trás existe outra história: a de uma família violenta, de uma mãe em luta contra o mundo e cujo amor vai todo para o filho mais velho, o abandono de Marguerite e do seu irmão mais novo, uma família que a empurra para os braços do chinês rico em cujo corpo ela encontra também o corpo do irmão mais novo. A história volta em O Amante e depois em O Amante da China do Norte (1991), em que o tabu do incesto é quebrado. "Se o escrevi é porque existiu", disse.

Anne-Marie Stretter A mulher do embaixador de França em Calcutá, nascida Anna Maria Guardi, em Veneza, é figura fundamental do chamado ciclo indiano, central no universo de Duras. Em Ausência de Lol V. Stein (1964), é a mulher pela qual Michael Richardson, o noivo de Lol V. Stein, se apaixona durante um baile no Casino. A-M. Stretter volta "às Índias", a Calcutá, e Michael Richardson segue-a. Regressa depois em O Vice-Cônsul, e, por fim, em India Song, já só na memória das vozes que recordam a história desta mulher fascinante mas de tristeza infinita, ferida pelo horror e a miséria da Índia. India Song conta os últimos dois dias da sua vida - a noite do baile e do escândalo do vice-cônsul e o dia seguinte, em que ela parte para uma das ilhas do delta do Ganges, e morre no mar. Na sua origem está uma memória de Duras: Elizabeth Striedter, mulher do administrador-geral de Vinh-Long na Indochina da sua infância, pela qual, dizia-se, um homem se suicidara.

Vice-cônsul O antigo vice-cônsul francês em Lahore (personagem que dá título a O Vice-Cônsul), "caído em desgraça em Calcutá", aguarda transferência depois do escândalo que manchou a sua carreira: da sua janela em Lahore disparou sobre cães e leprosos adormecidos nos jardins de Shalimar. Dele diz-se nos salões das embaixadas em Calcutá que "os nervos cederam" - tal como A-M. Stretter também nunca suportou o horror das Índias, a fome, a lepra. Virgem, deixa-se fascinar pela mulher do embaixador, que o convida para um baile, a ele que todos evitam. Depois de dançar com Anne-Marie Stretter, o vice-cônsul enlouquece e começa a gritar até ser expulso do palácio. Durante toda a noite e até de madrugada ele grita "o seu nome de Veneza na Calcutá deserta".

Mendiga Duras contou que a mendiga era uma personagem real que a perseguia desde os dez anos: viu-a na Indochina onde ela chegou depois de ter percorrido centenas de quilómetros com uma criança. Na sua história reinventada, esta mendiga, careca, andrajosa e louca, que só repete palavras soltas, como "Battambang" e "Savannaketh", foi expulsa pela mãe quando engravidou e caminha há anos. Atravessou a Birmânia, o Laos, o Camboja, foi perdendo filhos pelo caminho, e chegou a Calcutá. Aparece pela primeira vez na obra de Duras num episódio de Uma Barragem contra o Pacífico, mas está no centro de O Vice-Cônsul, onde representa a miséria da Índia que ronda os salões de festas das embaixadas estrangeiras na Calcutá dos anos 30, pelos quais ecoa o seu canto de Savannaketh. E continua esta eterna deambulação em India Song, onde parece perseguir Anne-Marie Stretter. A sua história passa também pela memória desta, que 17 anos antes assistiu em Savannaketh, no Laos, à venda de uma criança recém-nascida, o que a marcou para sempre.
Lol V. Stein Ou Lola Valerie Stein, nascida em S. Thala (outro dos lugares míticos e inventados de Duras). Em Ausência de Lol V. Stein tem 19 anos, está noiva e esquece-se de si mesma quando perde Michael Richardson para Anne-Marie Stretter. Mais tarde entra num jogo de identidade com uma antiga amiga, Tatiana Karl, e o amante desta, Jacques Hold - que a leva de volta ao Casino e ao momento fundador em que foi excluída do amor de Michael Richarson e Anne-Marie Stretter. Lol V. Stein volta, quase um fantasma, em L"Amour (1971) e La Femme du Gange (filme de 1974). Duras contou numa entrevista que a viu pela primeira vez "num baile de Natal, num manicómio nos arredores de Paris", que ela tinha 30 anos e "parecia um autómato". E que todas as mulheres dos seus livros derivam de Lol V. Stein.

Hiroxima Hiroxima Meu Amor (1960) é o texto que Duras escreveu para o filme de Alain Resnais. Passa-se no Verão de 1957 e conta a breve história de amor entre uma actriz francesa que está em Hiroxima para fazer um filme, e um engenheiro japonês. Deitados, nus, numa cama de hotel, falam sobre Hiroxima. "Tu não viste nada em Hiroxima, nada" - é a primeira frase do texto. Duras: "Para mim, isso quer dizer "não verás nunca nada, não escreverás nada, não poderás nunca dizer nada sobre este acontecimento". Foi a partir da impotência em falar da coisa que fiz o filme." Para Duras, o indizível, o horror, é Hiroxima, como é o Holocausto. É toda a dor do mundo.

Mar "O meu país natal é a pátria das águas", dizia. Uma Barragem contra o Pacífico, um dos seus primeiros livros, é o relato da luta de uma mãe e dois filhos pela sobrevivência de uma plantação ameaçada pelas águas. É, ao mesmo tempo, a história dos "pequenos brancos" (por contraste com a grande burguesia colonial) na Indochina francesa. A invasão pelas águas é um dos seus fantasmas. Anne-Marie Stretter morre nas águas. A mendiga percorre as margens do Ganges. Mais tarde, em França, Duras compra um apartamento no antigo palácio Roches Noires, em frente à praia de Trouville. No meio da imponente fachada, a sua varanda, frente ao mar. "Olhar o mar é olhar tudo."

DEZ ANOS DEPOIS,

DURAS SÓ INSPIRA UM PUNHADO DE OBRAS

Dizem os especialistas de Marguerite Duras que nunca a obra de um autor foi tão criticada, tão apaixonadamente defendida, tão injuriada, tão venerada. Mas a vaga de livros, de conferências, de programas que seria de esperar - ou de recear - nesta efeméride da sua morte não se concretizou. Como se o monstro sagrado que teimou em transformar a sua vida em destino - mas que respondia aos candidatos a biógrafos: "Um escritor não tem história" - continuasse a intimidar curiosos e indiscretos.
Há, no entanto, uma meia dúzia de publicações programadas para este décimo aniversário da sua morte. São biografias, testemunhos, escritos inéditos, memórias, que vão chegando às livrarias, mas sem suscitarem uma avalanche de críticas na imprensa. Marguerite Duras, la vie comme un roman, de Jean Vailier (editora Textuel), é uma biografia ilustrada, em 200 curtas páginas, de Marguerite Donnadieu, o verdadeiro nome da escritora. Do mesmo autor, vai sair em Abril o primeiro tomo de uma biografia: C"était Marguerite Duras, 1914-1945 (editora Fayard).
Outro especialista da obra de Duras, Alain Vircondelet, optou por fazer um passeio literário pelas terras que marcaram a escritora, em Sur les pas de Marguerite Duras (Presses de la Renaissance). O autor leva o leitor até à Indochina, a terra da infância e da adolescência de Duras, a Saint-Germain-des-Près, é claro, o bairro boémio e intelectual de Paris até aos anos 70, e a Trouville, na Normandia, onde Duras comprou uma casa, quando a fortuna se cruzou com a sua obra.
Em Marguerite Duras, 5, rue saint-Benoit, 3è étage gauche, Jean-Marc Turine conta 25 anos de amizade com a escritora, fazendo do célebre apartamento parisiense o palco deste quarto de século de recordações.
Um inédito reúne cinco entrevistas de Marguerite Duras ao (defunto) Presidente da República francesa François Mitterrand, que foi o chefe da rede de resistentes a que pertenceu a escritora durante a II Guerra Mundial. O título, Le bureau de poste de la rue Dupin et autre entretiens recorda precisamente esta época. Nos media, a rádio France-Culture repara o vazio geral com uma série de oito programas sobre Duras. E é preciso ir até à Universidade de Fez, em Marrocos, para se encontrar um seminário ambicioso em memória da escritora. Os franceses estão a dedicar mais atenção aos 15 anos da morte do cantor e poeta Serge Gainsbourg. A.N.P., Paris

Marguerite Duras, no Público

Aquela que dizia "a escrita, sou eu", viveu uma vida que ainda hoje aparece como um jogo de pistas escondidas, desvendadas apenas na sua obra impressionante. Dez anos depois da sua morte, Marguerite Duras permanece uma escritora fascinante e misteriosa. Por Ana Navarro Pedro, Paris

"A história da minha vida não existe", escreve Marguerite Duras em O Amante. Este livro autobiográfico - todos o são, de certo, mas não de forma tão abertamente reivindicada - faz dela, em 1984, a escritora francesa mais publicada em França, mais traduzida, mais estudada nas universidades do mundo inteiro. Celebridade mundial, honras, fortuna... Duras tem 70 anos. Os biógrafos começam a exultar com a ideia de examinarem uma já longa vida feita de exibição e de dissimulação, de ódio e de amores brutais, de sedução e de combates.
Mas Marguerite Duras não autoriza mais ninguém a escrever sobre Marguerite Duras. Quem a tenta sondar, enreda-se na tela de confidências e de desmentidos. Perde-se num póquer mentiroso do verdadeiro e do falso. Consome-se na escuta impotente de monólogos que a escritora desenrola, arrogante, triunfante.
Uma jornalista e ensaísta, Laure Adler, levantou, porém, o desafio. Uma amizade de 12 anos com a escritora, a anuência desta, se bem que reticente, para inúmeros encontros e entrevistas, interrompidos inúmeras vezes pelo álcool, pela doença, pelas perdas de memória, e seis anos de paciente investigação - "o biógrafo tem o dever de ser céptico", diz a autora - redundaram em 600 páginas de uma biografia que, no fim, reconhece ter conseguido apenas "aproximar-se da verdade" (Marguerite Duras, 1998, Gallimard).
"Eu sou um assunto em ouro", dizia Duras, ávida, a Yann Andréa, o último amante, e enfermeiro, e bode expiatório, encontrado em 1980 quando ele tinha 27 anos, e ela já 65 anos. Mas quem era ela? "Não sei, eu, se conseguiria suportar Duras", gatafunha a escritora, teatral, na margem de um dos seus cadernos, encontrado por Laure Adler. "Julgamos saber e depois não, nunca", diz Duras pela boca de Emmanuelle Riva, em Hiroxima, Meu Amor. Da sua vida, ficam como marcos algumas fotografias, e umas datas. A sua história, há que procurá-la na sua obra.
De seu verdadeiro nome Marguerite Donnadieu, a escritora francesa mais exibicionista e mais enigmática do século XX nasceu em 1914 em Gia Dinh, uma aldeia perto de Saigão, então a principal cidade da Cochinchina. Aos quatro anos, a menina fica órfã de pai, um professor de Matemática francês. A mãe, tão odiada e tão amada, como o revelam O Amante e Uma Barragem contra o Pacífico (1950), regressa a França com os três filhos. Mas esta professora de escola primária esquece-se de mandar a filha à escola. "Foi, creio, a época da minha vida em que toquei mais de perto a felicidade perfeita. Aos oito anos, não sabia ler nem escrever", recordará, mais tarde, a escritora.
Em 1923, a mãe regressa à Indochina e instala-se com os filhos numa região do Camboja, onde compra uma quinta não longe do mar. A ruína não tardará: os sonhos grandiosos de fortuna atolam-se nestas terras inundadas com água salgada seis meses por ano, sem que a família consiga levantar uma barragem contra a realidade. Durante este período, Marguerite passa dias inteiros empoleirada nas árvores ou a explorar a floresta tropical com o irmão adorado.
Apesar da pobreza da família, a adolescente estuda no excelente liceu francês de Saigão. É na travessia do delta do Mekong que encontra "o amante", Huynh Thoai Lê, herdeiro de uma família de mandarins, que, durante dois anos, vai pagar todas as despesas da família Donnadieu.

Mitterrand e os nazis
Aos 18 anos, Marguerite regressa a França para estudar Direito. Já na altura, tem toda uma corte de estudantes fascinados com a sua vida exótica e a sua personalidade carismática. Um deles conseguirá casar com ela, em 1939: Robert Antelme, redactor na Prefeitura de Polícia.
A Segunda Guerra Mundial rebenta, e a biografia oficial de Duras esquecerá durante muito tempo - até à obra de Laure Adler - os episódios pouco gloriosos deste período. Antes de entrar na Resistência, em 1994, Marguerite Duras preside à comissão de controlo do papel de edição, sob tutela da ocupação alemã nazi. Desapareceu também da bibliografia de Marguerite Duras um romance da época, fortemente colonialista, segundo Adler, L"Empire Français.
Mas fica na memória o primeiro verdadeiro romance, Os Insolentes, publicado pela Plon em 1943. Na Resistência, combate na rede de François Mitterrand, que seria mais tarde Presidente da República, e apaixona-se por Dyonis Mascolo, com quem terá um filho. Este verdadeiro ménage à trois vive tranquilamente na rua Saint-Benoit, nº5, em Paris - morada célebre de Duras até ao fim da vida.
A rede da Resistência cai em 1944. Mitterrand consegue salvar a escritora, mas Antelme será deportado para o campo de concentração de Dachau. Duras adere ao Partido Comunista Francês (PCF). Mais tarde, Duras cria uma personagem, Thérèse, protagonista do romance A Dor, que tortura com prazer um bufo que denunciara uma rede de resistentes. Duras gaba-se de descrever aqui um episódio autobiográfico, embora mais tarde fuja a confirmar esta reivindicação.
Excluída do PCF, zanga-se com o camarada e escritor Jorge Semprun, que acusa das piores torpezas, sem dar a mais pequena prova. Moderato Cantabile granjeia-lhe em 1958 fama e fortuna. Desesperante e desesperada, viciada no álcool com que a mãe a intoxicara desde pequena, para a fazer engordar, afortunada, mas ávida de dinheiro desde a infância pobre, paranóica e fascinante, Marguerite Duras multiplica os romances, as peças de teatro e os guiões de cinema, onde se estreia em 1960 com Horoxima Meu Amor, sob a direcção de Alain Resnais. Aos 59 anos, deixa-se tentar pela realização de cinema, com Índia Song, que faz sensação em Cannes, em 1973.
Uma travessia do deserto termina em 1984 com O Amante. Eternamente provocante, reivindicando sempre a maldade para poder amar - "Tornei-me injusta e má, acredita", diz a mãe ao filho, na peça Dias Inteiros nas Árvores -, Marguerite Duras continuará a fascinar até à morte, a 3 de Março de 1996.
Laure Adler recorda na biografia da escritora uma frase que ela escrevera durante a revolta estudantil de Maio de 1968 e que seria o seu mais perfeito epitáfio: "Não sabemos onde vamos, mas não é uma razão para lá não ir."

8 de janeiro de 2006

Calendário, o livro de contas do tempo

Do Primeiro de Janeiro
Calendário, quadro ou catálogo que indica a divisão do ano em estações, meses, semanas e dias, atribuindo muitas vezes a ordem das festas religiosas, assinalando certos fenómenos astronómicos como lunações, marés, eclipses, etc.


João-Maria Nabais*


Desde tempos imemoriais que o Homem tentou perceber a razão da sequência dos dias e das noites, e por certo ficaria fascinado, por longos períodos, a olhar os céus numa tentativa de perscrutar a imensa escuridão estelar, para assim justificar muitos dos enigmas com que se confrontava, no seu dia-a-dia, na Terra.

Calendário, sua origem
e cronologia histórica
A necessidade de dividir e medir o tempo foi sentida com os primeiros passos da civilização. É a sucessão ordenada dos dias e noites, aliada ao fenómeno do ciclo das fases da Lua que conduziram às noções de dia e mês. O conceito de ano, só aparece com o desenvolvimento da agricultura nos povos antigos ao darem conta do ritmo das estações. São o dia, o mês lunar (ou lunação) e o ano, os períodos astronómicos naturais utilizados em qualquer calendário. A sincronização destes três componentes acentua a complexidade do calendário.

Grande parte do conhecimento actual sobre os calendários baseia-se em estudos de referência de dois escritores da Antiguidade: Ovídio, poeta romano, 43 a.C.-17/18 d.C.; e Plutarco, escritor grego, 50 d.C.-120 d.C.

O principal motivo da criação de um calendário é o desejo de organizar no tempo, os eventos de uma sociedade. Sempre teve um estatuto sagrado, além de servir de identidade cultural.

Calendário vem do latim calendarìu (livro de contas, registo) e não de calendas (primeiro dia de cada mês entre os romanos).

O dia solar verdadeiro, intervalo de tempo entre duas passagens consecutivas do Sol pelo meridiano dum lugar, varia entre 23h 59’ 39” e 24h 00’ 30”. Estas variações obrigam a utilizar um dia civil com a duração de 24 horas. Este dia, definido em função do dia solar médio, começa à meia-noite e termina à meia-noite seguinte.

A lunação, intervalo de tempo entre duas conjunções consecutivas da Lua com o Sol, também não é um valor constante, mas varia entre 29 dias e 6 horas e 29 dias e 20 horas. O seu valor médio, conhecido com grande precisão, é de 29d 12h 44’ 02,8”. A revolução sinódica da Lua (período que decorre entre dois estados sucessivos de conjunção da Lua) está na origem dos calendários lunares, em que os meses têm alternadamente 29 dias e 30 dias. O seu valor médio, aproximado, é 29,5 dias.

O ano sideral, duração da revolução da Terra em torno do Sol, é igual a 365d 06h 09’ 09,8”.

O ano trópico, tempo decorrido entre duas passagens consecutivas do Sol médio pelo ponto vernal (ponto da esfera celeste por onde passa o centro do Sol, no seu movimento anual aparente, quando transita do hemisfério sul para o hemisfério norte), é actualmente de 365d 05h 48’ 45,3”. É o ano trópico que regula o regresso das estações e que intervém nos calendários solares.

Um outro período de tempo usual nos calendários é a semana de sete dias, cujo motivo se desconhece. É possível que estivesse relacionada com o mês lunar, visto que sete dias são aproximadamente um quarto de lunação, o intervalo aproximado entre a Lua cheia e o quarto minguante, ou talvez com o número dos sete astros principais do firmamento (os cinco planetas conhecidos na Antiguidade mais o Sol e a Lua). Mas é provável que a escolha de um intervalo de sete dias se deva ao carácter sagrado do número sete entre os antigos judeus. O período semanal de sete dias encontra-se hoje relacionado a um ciclo normal das actividades de trabalho e lazer, em quase todos os calendários.


Os primeiros Calendários
Os primevos calendários são o hebreu e o egípcio. Ambos tinham um ano civil de 360 dias: curto para representar o ciclo das estações, mas grande para corresponder ao chamado ano lunar, que se define como um período de tempo igual a 12 lunações completas existentes no ano trópico, ainda desconhecido.

Ignora-se como os hebreus dividiam o ano, mas julga-se que já utilizavam a semana, visto que seguiam o mesmo princípio para contar os anos, agrupando-os em septanas ou semanas de sete anos. Pelo contrário, os egípcios dividiam o ano em 12 meses de 30 dias e cada mês em três décadas. Os egípcios também dividiam o ano em três estações, de acordo com as suas actividades agrícolas sujeitas às cheias periódicas do Nilo: a estação das inundações; a estação das sementeiras e a estação das colheitas.

Os gregos estabeleceram um ano lunar de 354 dias, que dividiram em 12 meses de 30 e 29 dias, alternadamente. Os meses, como no calendário egípcio, eram dedicados aos deuses e neles se celebravam festas, não só em honra do deus correspondente, mas também outras dedicadas aos astros, às estações, etc.

No primitivo calendário romano, o ano tinha 304 dias repartidos por 10 meses. Os quatro primeiros tinham nomes dedicados aos deuses da mitologia romana e provinham de tempos mais remotos: Martius (dedicado a Marte), Aprilis (a Apolo), Maius (a Júpiter), Junius (a Juno); os seis restantes eram designados por números ordinais, indicativos da ordem que ocupavam no calendário.

Representa um calendário sem qualquer base astronómica, pois os períodos nele definidos não têm qualquer relação com os movimentos do Sol ou da Lua. Por isso, no tempo de Rómulo foram introduzidas algumas inserções de forma a harmonizar este calendário com os citados períodos astronómicos.

O calendário de Rómulo foi reformulado por Numa Pompílio, o qual, seguindo o exemplo dos gregos, estabeleceu o ano de 12 meses, mas introduzindo em primeiro lugar o mês de Januarius, dedicado a Jano, e em último lugar o mês de Februarius, dedicado a Februa, ao qual os romanos ofereciam sacrifícios para expiar as suas faltas de todo o ano. Este foi o motivo por que o mês de Februarius foi colocado no fim. Mas Numa modificou também a duração dos meses, deixando o calendário do seguinte modo:

1.º Januarius 29 dias

2.º Martius 31 dias

3.º Aprilis 29 dias

4.º Maius 31 dias

5.º Junius 29 dias

6.º Quintilis 31 dias

7.º Sextilis 29 dias

8.º September 29 dias

9.º October 31 dias

10.º November 29 dias

11.º December 29 dias

12.º Februarius 27 dias

TOTAL 354 dias


O ano tinha 354 dias (ano lunar dos gregos). Mas esta curiosa distribuição dos dias pelos meses era devida à superstição dos romanos que tomavam por funestos os números pares. Pela mesma razão, consideraram nefasto o ano com 354 dias e aumentaram-no para 355 dias, atribuindo o dia excedente a Februarius, que passou a ter 28 dias.


Calendário juliano
Devido à ignorância e preconceito dos sacerdotes que tinham a seu cargo o propósito de medir o tempo acentuou-se gradualmente a confusão no calendário romano.
Foi esta desordem que Júlio César encontrou ao chegar ao poder. Logo se prepara para introduzir a sua reforma ao adoptar o calendário solar, conhecido por Juliano, que começou a vigorar no ano 709 de Roma (46 a.C.), mediante um sistema que devia desenrolar-se por ciclos de quatro anos, com três comuns de 365 dias e um bissexto de 366 dias, a fim de compensar as quase seis horas que havia de diferença.

Durante o consulado de Marco António, reconhecendo-se a importância da reforma introduzida no calendário romano por Júlio César, foi decidido prestar-lhe justa homenagem, perpetuando o seu nome no calendário, de maneira que o sétimo mês, Quintilis, passou a chamar-se Julius - Julho.

Também no ano 730 de Roma (23 a.C.), o Senado romano decretou que o oitavo mês, Sextilis, passasse a chamar-se Augustus – Agosto. Foi durante este mês que começou o reinado, do primeiro imperador romano, César Augusto, sucessor de Júlio César, após ter posto fim à guerra civil que assolava a nação. E para que o mês dedicado a César Augusto não tivesse menos dias do que o dedicado a Júlio César, o mês de Augustus passou a ter 31 dias. Este dia saiu do mês de Februarius, que ficou com 28 dias nos anos comuns e 29 nos bissextos. Também para que não houvesse tantos meses seguidos com 31 dias, reduziram-se para 30 dias os meses de September e November, passando a ter 31 dias, os de October e December. Assim se chegou à distribuição sem lógica alguma dos dias pelos meses, que ainda hoje vigora.

Calendário gregoriano

A reforma gregoriana prepara um ajuste ao calendário Juliano para conseguir determinar correctamente a data da Páscoa, a mais importante festa cristã. Ao fazer regressar o equinócio da primavera a 21 de Março desfaz o erro de 10 dias já existente. Esta divergência causava prejuízos na celebração da Ressurreição e de outras festas móveis religiosas. Foi necessária a autoridade de um Papa. de cultura e perseverança como Gregório XIII (1572–1585), com a ajuda do astrónomo Christoph Clavius, célebre padre jesuíta que estudara matemática em Coimbra com Pedro Nunes, para conseguir impor a reforma. Em 24 de Fevereiro de 1582 promulga a bula Inter Gravíssimas, que estabelece os pontos essenciais do novo calendário.

A duração do ano gregoriano é em média de 365d 05h 49’ 12”, isto é, tem actualmente mais 27s do que o ano trópico. A acumulação desta diferença ao longo do tempo representará um dia em cada 3000 anos.
Portugal, Espanha e Itália foram os primeiros países que aceitaram de imediato a reforma do calendário.

Actualmente o calendário gregoriano pode ser considerado de uso universal. Mesmo aqueles povos que, por motivos religiosos, culturais ou outros, continuam agarrados aos seus calendários tradicionais, utilizam o calendário gregoriano nas suas relações internacionais.


Curiosidades e paradoxos
O modelo actual de calendário lunar é o calendário islâmico e do calendário solar é o calendário gregoriano.

Hoje, o calendário gregoriano serve como padrão nas relações internacionais de uso civil. Ao mesmo tempo regula o ciclo de cerimónias das Igrejas Católica e Protestante. De facto, o seu primeiro desígnio foi canónico.

Sob o ponto de vista astronómico, o seu principal defeito é ser ligeiramente mais longo do que o ano trópico, o que se traduz por uma diferença de um dia em cerca de 3000 anos. Porém, esta pequena diferença não tem qualquer inconveniente imediato e uma reforma do calendário destinada a corrigi-la traria sérios problemas, porque iria criar uma descontinuidade com as consequentes complicações cronológicas.

O mesmo não acontece sob o ponto de vista prático, em que, de facto, se justifica uma modificação. Com efeito, o número de dias de cada mês é muito irregular (28 a 31 dias). O mesmo acontece com a semana, adoptada quase universalmente como unidade laboral de tempo, que não se encontra integrada nos meses e muitas vezes repartida por dois meses diferentes. Estas duas anomalias têm sérios inconvenientes numa distribuição racional do trabalho e dos salários, que são maiores do que à primeira vista se pode pensar. Até a própria economia doméstica se recente, visto que um salário mensal fixo tem de ser distribuído por um número diferente de dias.

Mais grave ainda é a mobilidade da data da Páscoa, que oscila entre 22 de Março e 25 de Abril, com as consequentes perturbações da duração dos trimestres escolares e de outras numerosas actividades (judiciais, económicas, turísticas, etc.) particularmente nos países cristãos em que as festas da Semana Santa têm um grande significado.

Segundo um recente estudo (Fraser, 1987), haverá hoje cerca de quarenta calendários em uso, em todo o mundo.

A complexidade dos calendários deriva pelo facto dos vários períodos de revolução não conterem um número inteiro de dias e também, porque os ciclos astronómicos não serem constantes, nem perfeitamente mensuráveis uns com os outros.

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Nota – alguns dados astronómicos foram em parte documentados, na Origem e evolução do nosso calendário, de Manuel Nunes Marques

* Médico, poeta, ensaísta, investigador

6 de janeiro de 2006

Cansaços

O que a Senhora Ministra acabou de explicar à Sic Notícias é que quer acabar com os números negros da ignorância e da iliteracia.
Quem não se rende a este propósito tão nobre?
Eu rendo-me, claro!
Porém, recuso-me a acreditar que a maneira de o fazer seja à custa dos professores. A troco de quê? De aulas de substituição que não servem para nada e desgastam inutilmente as reservas de entusiasmo dos professores? A troco da ameaça velada, e a partir de agora continuada, de uma avaliação injusta por parte de qualquer encarregado de educação muito, pouco ou nada instruído, pois não é isso que está em causa?
Eu sou velha nisto e sempre ouvi os professores dizerem que eram permanentemente avaliados por todos: pais, alunos, colegas, funcionários... Só faltava mesmo a formalização dessa avaliação e a validação por parte do Ministério.
E a indisciplina Senhora Ministra? E os programas? E a carga horária das disciplinas? E as áreas projecto e os estudos acompanhados? Sabem os senhores em geral que, no quinto ano, as disciplinas de Inglês, História e Ciências têm a mesma carga horária do Estudo Acompanhado? E os noventa minutos, em que sobeja tempo útil de aula, ao contrário dos quarenta e cinco, em que falta? E as carências dos meninos mais pobres? E as pobrezas morais que por aí há que "animam" muito os telejornais? Na escola, nós temos de lidar com elas antes da "Alice no País das Maravilhas" Senhora Ministra!!!!
Já percebi, Senhora Ministra, são só os professores que estão mal, para si. Ou melhor, são só os sindicatos. Pensando melhor, é só a Fenprof, que a incomoda de facto.
Estou cansada e estou vencida!