A escola não serve para substituir uma família ausente. A escola não pode nem deve aceitar esse papel. Desculpem voltar ao Paradis des Enfants de que já aqui falei uma ou outra vez. Mas não sei de melhor saber do que o da experiência feito e tenho por vício achar que as boas práticas são de importação segura. Mesmo quando as diferenças culturais não nos deixam importá-las, pelo menos servem para nos ajudar a pensar.
Para quem o tema do Paradis seja novo, aqui vai uma breve explicação: trata-se da escola frequentada por dois dos meus filhos nos três anos em que vivemos em Bruxelas. Veio-me à memória quando deparei com uma estranha reivindicação de uma confederação de pais, a reclamar o direito de transformarem as escolas em armazéns de criancinhas, pelo módico período de doze horas diárias. Imaginei que, se o Ministério da Educação belga impusesse a Monsieur le Directeur tal medida, ele exigiria a mudança de nome da escolinha para L'enfer des Petits.
Era uma escola pública e laica da comuna de Etterbeck. Embora pública, Monsieur le Directeur reivindicava para si uma esfera de autonomia pedagógica que passava pelo poder de, se não de rejeitar de imediato, pelo menos de retardar a aplicação das medidas decretadas pelas autoridades centrais que lhe parecessem disparate.
Quando me anunciou essa característica da escola, deu-me a entender que não era negligenciável. Explicou-me que as reformas eram ali aplicadas apenas a título experimental, em turmas piloto, e só se dessem resultado se generalizava a experiência. Caso contrário, protestava e, tanto quanto consegui apurar, em muitos casos levava a sua avante. Nos casos que não ganhava, tinha a garantia de pelo menos dois anos de folga. E, não raro, a medida retrocedia naturalmente, não sobrevivendo muito tempo ao próprio erro. Fiquei assim com a ideia de que as autoridades belgas não seriam nem particularmente autistas nem especialmente casmurras em matéria de educação.
A escola tinha horário flexível para entregar as crianças, salvo erro entre as 8 e as 9, mas que não me passasse pela cabeça fazê-lo depois disso, interrompendo a classe. Como morava perto e estava em casa, devia ir buscá-las depois para almoçar, tornar a entregá-las na escola e voltar para as apanhar, em definitivo, pouco depois das 15 e 30. Uma canseira! Nunca, como aí, me senti tão presa à roda viva do ritmo escolar. Contudo, a escola fornecia almoço aos meninos necessitados ou àqueles que não tinham ninguém que os fosse buscar, acolhia as crianças que precisassem absolutamente desse apoio a partir das sete e trinta e mantinha-se com actividades de apoio ao estudo e circum-escolares até às 17 e 30 e com uma guarda de infância até às 18 ou 19.
Havia um menino que era sempre entregue pouco depois das 7 e recolhido dez (senão doze...) horas depois. Os pais, um jovem casal proprietário de um negócio, tinham provado não dispor de alternativas e, a título excepcional, a escola, enquanto agente responsável ao serviço da comunidade, prestava esse serviço. Nada que, de forma criativa e sem imposições do ministério, não aconteça já por cá, numa multiplicidade de escolinhas e em criativa conjugação de esforços entre pais, autarcas e professores.
Monsieur le Directeur deixava sempre bem claro não ser esse o sistema ideal para o desenvolvimento harmónico da criança, exercendo uma subtil pressão junto dos pais para os consciencializar da vantagem de, logo que possível, inverterem o sistema.
Em contrapartida, quando de início me passou pela cabeça que seria mais prático ficar com as criancinhas comigo durante toda a tarde, fui rapidamente alertada pelas educadoras para não as prejudicar, privando-as das actividades escolares previstas para a parte da tarde. Aquela horinha de actividades era uma parte curricular importante da socialização e da estimulação dos meninos.
Entre a filosofia educativa do Paradis e os serviços prestados pela escola e as reivindicações da autóctone CONFAP vai um mundo de diferenças. Uma coisa é reclamar um apoio social a prestar em caso de necessidade comprovada e enquanto vertente da segurança social (ou da acção escolar!), outra é a reivindicação do direito ao armazenamento escolar. Com aquela ideia peregrina de que mesmo em dias de greve caberia às escolas a prestação de serviços mínimos. De educação? Não. De armazenamento.
Já houve tempos em que as crianças pouco contacto tinham com os pais, sobretudo nas classes privilegiadas, sendo educadas por criadas, enquanto nas classes trabalhadoras mais desprotegidas eram deixadas na rua. Muitos de nós crescemos em colégios internos e não nos transformámos em monstros nem delinquentes, apesar das 24 horas de vida escolar. Verdade. Mas também houve tempos em que se aprendia à custa de reguadas e orelhas de burro e ninguém, com juízo, quer regressar a esses tempos. Nem as solicitações, nem os riscos, nem os constrangimentos de hoje são os dessas épocas. Avançámos nos direitos das crianças e dos pais para agora aceitarmos, sem pestanejar, o regresso ao século XIX? Com os operários (por mais intelectuais que sejam) presos à linha de produção do lucro, sem intervalo para almoço nem descanso semanal?
Num desabafo oiço o relato de uma educadora que cito de memória: "Aqui, no infantário, há uma menina de três anos e meio que, nos últimos dois, não gozou um único dia de férias. Só faltou ao infantário quando esteve doente. Os pais, mesmo em férias, vieram sempre trazê-la (o infantário está aberto todo o ano) com o argumento de que ela se diverte muito mais aqui!". O grande problema desta sociedade não é a existência de casos como este. O grande problema é que pode ser verdade que a escola seja o melhor ou o único local de recriação de uma criança. Pior ainda, é reconhecer na escola maiores e melhores competências parentais do que as dos próprios progenitores.
A escola não serve para substituir uma família ausente. A escola não pode nem deve aceitar esse papel. Os professores não podem nem devem ser chamados a exercer a função de assistentes sociais. Essa é, aliás, uma das géneses do falhanço do nosso sistema de ensino público, uma das causas do flagrante insucesso escolar. Deixamos de herança aos nossos filhos um sistema em que faz com que metade da geração dos jovens de 20 anos não tenha sequer passado do nono ano de escolaridade.
Por tudo isto os pais deviam estar do outro lado da barricada. Deviam defender escolas que ensinem e prestem serviços máximos de educação contra este absurdo conceito de escolas que prestam serviços mínimos ou máximos de armazenamento infantil. Graça Franco,Jornalista
14 de fevereiro de 2009
11 de fevereiro de 2009
4 de fevereiro de 2009
CRÓNICA DAS PALAVRAS de BB no DN
Há muito se perdeu a noção de que as palavras têm honra. Políticos servem- -se delas para mentir, ocultar, dissimular a verdade dos factos e as evidências da realidade. Mas também escritores e jornalistas as debilitam e as entregam às suas pessoais negligências. Não é, somente, uma questão de gramática e de estilo; mas é, também, uma questão de gramática e de estilo. Há escritores e jornalistas que o não são à força de o querer ser. A confusão instalou-se, com a cumplicidade leviana de uma crítica pedânea e de um noticiário predisposto a perdoar a mediocridade e a fraude.
As palavras possuem cores secretas, odores subtis, densidades ignoradas. O discurso político conduz-nos ao nojo da frase. Pessoalmente, tento limpar o reiterado registo da aldrabice e da ignorância com a releitura dos nossos clássicos. Recomendo o paliativo. Eis-me às voltas com as Viagens na Minha Terra. Garrett não era, propriamente, uma flor imaculada. Mas foi um mestre inigualável na arte da escrita. Lembro-o porque, a seguir, revisitei o terceiro volume de As Farpas, onde Ramalho reproduz uma conversa com Herculano. O historiador retratou assim o seu companheiro das lutas liberais: "Por cem ou 200 moedas, num dia de apuro, o Garrett seria capaz de todas as porcarias que quiserem, menos de pôr num papel, a troco de todo o ouro do mundo, uma linha mal escrita."
Desaprendeu-se (se é que, vez alguma, foi seriamente aprendido) o vocabulário da língua. Lê-se o por aí publicado e a pobreza lexical chega a ser confrangedora. Não se trata de simplicidade; antes, desconhecimento, incultura, ausência de estudo. "Foge de palavras velhas; mas não receies o uso de palavras antigas." Recomendava Garrett. Palavras velhas, travestidas de "modernidade", são, por exemplo: expectável, incontornável, enfatizar, implementar, recorrente, elencar, factível, plafonamento, exequível, checar, fracturante, imperdível, abrangente, atempadamente, alavancar, empolamento - e há mais.
Reconheço o meu verdete por certas palavras e expressões. Não é embirração de caturra, nem rabugice de um recta-pronúncia. Será o gosto da palavra, a alegria de com elas trabalhar há longuíssimos anos, a circunstância de ser um leitor com fôlego, o facto de ter tido professores como o gramático e linguista Emílio Menezes, goês paciente, sábio e afável; e de haver frequentado alguns dos maiores escritores do século passado, para os quais o acto de escrever representava moral em acção. Lembro, com emoção e orgulho, Aquilino, José Gomes Ferreira, Miguéis, Sena, Mário Dionísio, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Abelaira.
Esta crónica foi, também, um pretexto para os lembrar.
Baptista-Bastos
As palavras possuem cores secretas, odores subtis, densidades ignoradas. O discurso político conduz-nos ao nojo da frase. Pessoalmente, tento limpar o reiterado registo da aldrabice e da ignorância com a releitura dos nossos clássicos. Recomendo o paliativo. Eis-me às voltas com as Viagens na Minha Terra. Garrett não era, propriamente, uma flor imaculada. Mas foi um mestre inigualável na arte da escrita. Lembro-o porque, a seguir, revisitei o terceiro volume de As Farpas, onde Ramalho reproduz uma conversa com Herculano. O historiador retratou assim o seu companheiro das lutas liberais: "Por cem ou 200 moedas, num dia de apuro, o Garrett seria capaz de todas as porcarias que quiserem, menos de pôr num papel, a troco de todo o ouro do mundo, uma linha mal escrita."
Desaprendeu-se (se é que, vez alguma, foi seriamente aprendido) o vocabulário da língua. Lê-se o por aí publicado e a pobreza lexical chega a ser confrangedora. Não se trata de simplicidade; antes, desconhecimento, incultura, ausência de estudo. "Foge de palavras velhas; mas não receies o uso de palavras antigas." Recomendava Garrett. Palavras velhas, travestidas de "modernidade", são, por exemplo: expectável, incontornável, enfatizar, implementar, recorrente, elencar, factível, plafonamento, exequível, checar, fracturante, imperdível, abrangente, atempadamente, alavancar, empolamento - e há mais.
Reconheço o meu verdete por certas palavras e expressões. Não é embirração de caturra, nem rabugice de um recta-pronúncia. Será o gosto da palavra, a alegria de com elas trabalhar há longuíssimos anos, a circunstância de ser um leitor com fôlego, o facto de ter tido professores como o gramático e linguista Emílio Menezes, goês paciente, sábio e afável; e de haver frequentado alguns dos maiores escritores do século passado, para os quais o acto de escrever representava moral em acção. Lembro, com emoção e orgulho, Aquilino, José Gomes Ferreira, Miguéis, Sena, Mário Dionísio, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Abelaira.
Esta crónica foi, também, um pretexto para os lembrar.
Baptista-Bastos
8 de janeiro de 2009
MEC- O regresso continua
Durante décadas, quando ser consumidor era praticamente o mesmo que ser comunista, guiávamo-nos todos por uma tabela que por cá nunca falhava: estrangeiro=melhor=mais caro. Quem fosse pobre ou tivesse um carinho fascista pela mediocridade, comprava nacional. Ou, pela calada, pedia a um fascista amigo para trazer do estrangeiro, onde era sempre mais barato.
Hoje, esta regra está sob ataque. Nas frutarias e sapatarias; nos Aldis e Lídeis; o nacional é que é bom; o nacional é que é mais caro; o nacional é que é o único que se "pode levar à vontade."
Todo um sistema de valores se inverteu. A nossa moe-da já vale tanto como uma libra esterlina; os dólares, tal como a libra livreira, começam a tornar-se uma memória distante, do Cinema. Mas só ontem é que a velha hierarquia veio abaixo. Lia-se na página 30 do PÚBLICO: o SG Filtro vai passar a ser mais caro do que o Marlboro. Sim, o baixote e ordinareco SG Filtro de Xabregas, que eu comprava quando não tinha dinheiro para o Marlboro comprido e show off da Virgínia, dos filmes e da Fórmula 1, vai ser o cigarro de quem quer fazer-se passar por cosmopolita e milionário.
Já estou a ver os anúncios, caso os permitissem: "Sim, sou um oligarca russo - fumo SG Filtro à fartazana!". Ou: "Não é por estar desempregado que dispenso o cigarrinho: vai sempre um Márlubóro enquanto estou na bicha para a sopa; ai nanas!".
Espero bem que os fascistas estejam satisfeitos.
Do Público de 8 de Janeiro
Hoje, esta regra está sob ataque. Nas frutarias e sapatarias; nos Aldis e Lídeis; o nacional é que é bom; o nacional é que é mais caro; o nacional é que é o único que se "pode levar à vontade."
Todo um sistema de valores se inverteu. A nossa moe-da já vale tanto como uma libra esterlina; os dólares, tal como a libra livreira, começam a tornar-se uma memória distante, do Cinema. Mas só ontem é que a velha hierarquia veio abaixo. Lia-se na página 30 do PÚBLICO: o SG Filtro vai passar a ser mais caro do que o Marlboro. Sim, o baixote e ordinareco SG Filtro de Xabregas, que eu comprava quando não tinha dinheiro para o Marlboro comprido e show off da Virgínia, dos filmes e da Fórmula 1, vai ser o cigarro de quem quer fazer-se passar por cosmopolita e milionário.
Já estou a ver os anúncios, caso os permitissem: "Sim, sou um oligarca russo - fumo SG Filtro à fartazana!". Ou: "Não é por estar desempregado que dispenso o cigarrinho: vai sempre um Márlubóro enquanto estou na bicha para a sopa; ai nanas!".
Espero bem que os fascistas estejam satisfeitos.
Do Público de 8 de Janeiro
O MEC - O Regresso
Não minta: há ou não há metade de um bolo-rei na sua vida, neste momento, algures, a olhar para si ou dalguma forma a esperar por si, sem saber o que dele fará?
É a ocasião perfeita para se converter à Gastronomia Mandibular, filha ilegítima de Ferran Adrià e do mítico Pastor-Mastigador-De-Canivete-Em-Punho. Quem não o conhece? É aquele que sucessivamente enfia na boca: pelo canto esquerdo, uma bucha de pão; pelo direito, um naco de queijo e, pela frente - o único acesso que permitem as bochechas distendidas - uma ficha de chouriço. Quando não mais uma clandestina azeitoninha. Finalmente infiltra por uma frecha nos lábios um decilitro de tinto. E logo começa a mastigá-las e a organizá-las internamente ao gosto dele.
Na verdade, todos temos uma Bimby na boca. Com o bolo-rei e um Moscatel faz-se a demonstração. É na boca que se ensopa o bolo com o licor; levando-o ao céu da boca e pousando-o nos molares; fazendo uma cova aqui; separando ali uma passa para degustar; ora reencaminhando um pinhão para ser triturado à parte; ora fazendo uma assemblage de massa de bolo e noz na nave central, para pesar, empapar e saborear antes de ser finalmente passado ao estreito.
A língua é talher, batedeira, Salazar, prato, tabuleiro, balança e mesa de provas. A boca é a cozinha e o cozinheiro. Basta escolher (a dedo) os ingredientes, alinhá-los à sua frente e deixar que a sua Bimby interna faça o resto. Ora eis o autêntico antepassado da cozinha de autor!
Do Público, 7 de Janeiro
É a ocasião perfeita para se converter à Gastronomia Mandibular, filha ilegítima de Ferran Adrià e do mítico Pastor-Mastigador-De-Canivete-Em-Punho. Quem não o conhece? É aquele que sucessivamente enfia na boca: pelo canto esquerdo, uma bucha de pão; pelo direito, um naco de queijo e, pela frente - o único acesso que permitem as bochechas distendidas - uma ficha de chouriço. Quando não mais uma clandestina azeitoninha. Finalmente infiltra por uma frecha nos lábios um decilitro de tinto. E logo começa a mastigá-las e a organizá-las internamente ao gosto dele.
Na verdade, todos temos uma Bimby na boca. Com o bolo-rei e um Moscatel faz-se a demonstração. É na boca que se ensopa o bolo com o licor; levando-o ao céu da boca e pousando-o nos molares; fazendo uma cova aqui; separando ali uma passa para degustar; ora reencaminhando um pinhão para ser triturado à parte; ora fazendo uma assemblage de massa de bolo e noz na nave central, para pesar, empapar e saborear antes de ser finalmente passado ao estreito.
A língua é talher, batedeira, Salazar, prato, tabuleiro, balança e mesa de provas. A boca é a cozinha e o cozinheiro. Basta escolher (a dedo) os ingredientes, alinhá-los à sua frente e deixar que a sua Bimby interna faça o resto. Ora eis o autêntico antepassado da cozinha de autor!
Do Público, 7 de Janeiro
31 de dezembro de 2008
Baptista Bastos; E, NO ENTANTO, É PRECISO SONHAR
Olho lá para baixo e há muitas coisas, vozes, rostos e infâmias oblíquas que já foram. O tempo não mata as dores: adormece-as. Nada é para sempre. Chega-se ao fim do ano e os homens antigos e experimentados sabem que as lembranças adquirem uma simplicidade contrária ao ressentimento. Todavia, foi um áspero, infausto e rude ano, este, que vai embora.
Houve uma época em que, com alvoroço e arfante ansiedade, escrevi: "A esperança tem sempre razão." O sonho andava à solta e eu ainda não aprendera a natureza dos perigos contidos no sonho. Mas havia sempre alguém sorrindo para mim e um horizonte luminoso à nossa espera. Reconheço, com tristeza, que a frase era um pouco imprudente, embora, talvez, nos lavasse moderadamente a alma.
Chegamos a hoje e, num bulício de fé, repetimos os pedidos do ano passado, embalamos os desejos do último dia do último Dezembro, esquecidos de que a doçura e a clemência deixaram, há muito, de nos visitar. E, no entanto, é preciso não esquecer: este mundo seco, desabrido e falho de ternura, é o nosso chão, limitado pela geometria que traçámos, erguido pela greda com a qual o moldámos.
O português acalenta um tédio minucioso, acaso desatento e pueril, e evoca, no remate de cada ano, um mundo que lhe foi hostil, na vaga crença de que o novo será melhor. Nunca foi. Entre a mediocridade e a nostalgia de uma falaciosa idade de ouro vivemos nessa ilusão patética gravada numa frase sem sentido: saudades do futuro. E, no entanto, é preciso ter ilusões; sonhar, porque não sonhar?, que, entre as esperas e as ausências, temos de construir a instância do desejo.
O homem antigo e rodado que vos fala aprendeu que não existe limite de idade para o sonho, e que a volúpia de se estar preso a este mundo corresponde à nossa sede de eternidade. Se há lugar para a tristeza humana, também o há para a aspiração de felicidade que nos acalenta. Em qualquer idade procuramos um qualquer absoluto, uma ilusão fixada no eixo da nossa própria natureza, que tanto suporta a juventude como a velhice.
No final do ano que aí vem, 2009, as aspirações deste ano, que fecha, serão aspirações velhas, sendo, embora, as mesmas, com ligeiras variantes. Queremos hoje o que quisemos há 12 meses. Um pensamento horrivelmente banal, um pequeno sopro de nostalgia, um meneio cheio de silêncio - e, afinal, um módico favor da vida. O que vai desaparecer é outra forma de morte de nós próprios.
Olhamos lá para baixo e tudo parece perdido nas sombras e nos sossegos incautos de quem somente ambiciona esquecer, esquecer, esquecer, e dormir na paz sonhada de que o ano seguinte será melhor.
Porém, ninguém sai inteiro de cada ano que fecha.
Houve uma época em que, com alvoroço e arfante ansiedade, escrevi: "A esperança tem sempre razão." O sonho andava à solta e eu ainda não aprendera a natureza dos perigos contidos no sonho. Mas havia sempre alguém sorrindo para mim e um horizonte luminoso à nossa espera. Reconheço, com tristeza, que a frase era um pouco imprudente, embora, talvez, nos lavasse moderadamente a alma.
Chegamos a hoje e, num bulício de fé, repetimos os pedidos do ano passado, embalamos os desejos do último dia do último Dezembro, esquecidos de que a doçura e a clemência deixaram, há muito, de nos visitar. E, no entanto, é preciso não esquecer: este mundo seco, desabrido e falho de ternura, é o nosso chão, limitado pela geometria que traçámos, erguido pela greda com a qual o moldámos.
O português acalenta um tédio minucioso, acaso desatento e pueril, e evoca, no remate de cada ano, um mundo que lhe foi hostil, na vaga crença de que o novo será melhor. Nunca foi. Entre a mediocridade e a nostalgia de uma falaciosa idade de ouro vivemos nessa ilusão patética gravada numa frase sem sentido: saudades do futuro. E, no entanto, é preciso ter ilusões; sonhar, porque não sonhar?, que, entre as esperas e as ausências, temos de construir a instância do desejo.
O homem antigo e rodado que vos fala aprendeu que não existe limite de idade para o sonho, e que a volúpia de se estar preso a este mundo corresponde à nossa sede de eternidade. Se há lugar para a tristeza humana, também o há para a aspiração de felicidade que nos acalenta. Em qualquer idade procuramos um qualquer absoluto, uma ilusão fixada no eixo da nossa própria natureza, que tanto suporta a juventude como a velhice.
No final do ano que aí vem, 2009, as aspirações deste ano, que fecha, serão aspirações velhas, sendo, embora, as mesmas, com ligeiras variantes. Queremos hoje o que quisemos há 12 meses. Um pensamento horrivelmente banal, um pequeno sopro de nostalgia, um meneio cheio de silêncio - e, afinal, um módico favor da vida. O que vai desaparecer é outra forma de morte de nós próprios.
Olhamos lá para baixo e tudo parece perdido nas sombras e nos sossegos incautos de quem somente ambiciona esquecer, esquecer, esquecer, e dormir na paz sonhada de que o ano seguinte será melhor.
Porém, ninguém sai inteiro de cada ano que fecha.
30 de outubro de 2008
Santana Castilho, crónica de hoje
Ressuscitem o papel selado!
Os docentes são asfixiados em burocracia e a escola afastada da sua missão principal. O ensino está à beira do abismoEsta crónica tem uma causa próxima: um pequeno texto inserto na rubrica Sobe e Desce deste jornal, no passado dia 24. Rezava assim, a dado passo: "Os sindicatos dos professores não querem, de todo, a avaliação. A maioria da classe não quer, de todo, a avaliação..." Quem escreveu isto desconhece por completo o que se passa no sistema de ensino e propala uma enorme falsidade, que ficaria sem reparo, não fora a gravidade do que actualmente se vive nas escolas portuguesas e a necessidade de esclarecer, por isso, a opinião pública.
Mente quem diz que os sindicatos e os professores não querem sujeitar-se a avaliação. Mentiu o próprio primeiro-ministro, quando há dias disse ao Diário de Notícias que nunca no passado foi feita avaliação dos professores. Desafio quem quer que seja a sustentar documentalmente tais enormidades. A realidade é bem diferente. Os professores rejeitam este (e sublinho o pronome demonstrativo este) modelo de avaliação. Porque não cumpre o fim primeiro de qualquer exercício de avaliação do desempenho: a melhoria do próprio desempenho e a valorização das práticas profissionais. Quando o primeiro-ministro, em acto sintomática e reveladoramente falhado, afirma que a avaliação dos professores se faz por "uma" (e sublinho o artigo uma) razão, "premiar o mérito", torna-se patente por que os professores não aceitam visão tão redutora. Sobretudo porque este "premiar o mérito" se construiu por via de uma tômbola aviltante, que dividiu professores em titulares e outros, deixou de fora profissionais altamente qualificados e esmagou dedicações e competências. Se tivessem vergonha, os seus autores, que têm nome e rosto, pintavam a cara de negro, a cor do luto, e não ousavam falar de premiar o mérito. Mas há mais, que ninguém pode desmentir. Este modelo de avaliação penaliza os professores que usem direitos protegidos por leis de dignidade superior: direito a engravidar, direito a estar doente, direito ao recolhimento (nojo) por morte de pai, mãe, filho ou filha, mulher ou marido e até o elementar direito de não ser prejudicado pelo cumprimento de obrigações legais impositivas (comparecer em tribunais). Este modelo de avaliação penaliza os professores quando os alunos desertam da escola ou chumbam; põe professores de Música a avaliar professores de Matemática, bacharéis a avaliar doutores; mete no mesmo saco, para efeitos de graduação profissional, quem seja classificado com insuficiente, regular ou bom; instala nas escolas um pernicioso clima de desconfiança e competição; coloca toda a classe numa espécie de estágio permanente, com uma vida profissional inteira de duração; privilegia os cargos administrativos e burocráticos em detrimento das funções lectivas; institui uma casta de Kapos incumbidos de controlar e reportar aos donos; aniquila a liberdade pedagógica e intelectual do professor. Isto e muito mais são bestialidades que um coio de incompetentes quer impor aos professores. Que diriam jornalistas e comentadores, que escrevem ligeiro sobre a matéria, se os arrastassem em tal caudal de disparates?
Esta é apenas uma, eventualmente a mais gritante, das vertentes que asfixiam os docentes em burocracia e afastam a escola da sua missão principal: ensinar. Os portugueses não percepcionam quanto o sistema de ensino está à beira do abismo. Os professores sufocam com tarefas administrativas e reuniões. Há reuniões de todo o tipo: de coordenação de ano, para conceber testes conjuntos, para desenhar grelhas, para analisar resultados, de conselho pedagógico, com encarregados de educação, com alunos, para preparar as actividades de estudo acompanhado, de formação cívica, da área de projecto, de tutoria, de apoio educativo, de recuperação de resultados, de superação de necessidades educativas especiais, etc., etc.
Os papéis não têm fim. Tenho à minha frente seis folhas de um documento intitulado Coordenação de Ano de um agrupamento de escolas. Para o interpretar tive que me socorrer de um glossário. Aqui fica a tradução das siglas, omissão feita às que não consigo decifrar: CE (conselho executivo); CA (conselho de ano); PRAE (Plano de Recuperação e Apoio Educativo); PCT (Projecto Curricular de Turma); CGAS (critérios gerais de avaliação somativa); AEC (actividades de enriquecimento curricular); PTT (professor titular de turma); TIC (tecnologias de informação e comunicação); PGEI (Programa de Generalização do Ensino de Inglês); CAA (comissão de acompanhamento alargada); CAR (comissão de acompanhamento restrita); SPAEC (supervisão pedagógica das actividades de enriquecimento curricular); CEI (currículo específico individual); UAM (unidade de apoio à multideficiência); PAA (Plano Anual de Actividades); PA (plataforma do agrupamento); CAD (comissão de avaliação do desempenho).
Chega? Não! Por favor, Madre Lurdes e Santo Valter, ressuscitem o papel selado! Professor do ensino superior
Os docentes são asfixiados em burocracia e a escola afastada da sua missão principal. O ensino está à beira do abismoEsta crónica tem uma causa próxima: um pequeno texto inserto na rubrica Sobe e Desce deste jornal, no passado dia 24. Rezava assim, a dado passo: "Os sindicatos dos professores não querem, de todo, a avaliação. A maioria da classe não quer, de todo, a avaliação..." Quem escreveu isto desconhece por completo o que se passa no sistema de ensino e propala uma enorme falsidade, que ficaria sem reparo, não fora a gravidade do que actualmente se vive nas escolas portuguesas e a necessidade de esclarecer, por isso, a opinião pública.
Mente quem diz que os sindicatos e os professores não querem sujeitar-se a avaliação. Mentiu o próprio primeiro-ministro, quando há dias disse ao Diário de Notícias que nunca no passado foi feita avaliação dos professores. Desafio quem quer que seja a sustentar documentalmente tais enormidades. A realidade é bem diferente. Os professores rejeitam este (e sublinho o pronome demonstrativo este) modelo de avaliação. Porque não cumpre o fim primeiro de qualquer exercício de avaliação do desempenho: a melhoria do próprio desempenho e a valorização das práticas profissionais. Quando o primeiro-ministro, em acto sintomática e reveladoramente falhado, afirma que a avaliação dos professores se faz por "uma" (e sublinho o artigo uma) razão, "premiar o mérito", torna-se patente por que os professores não aceitam visão tão redutora. Sobretudo porque este "premiar o mérito" se construiu por via de uma tômbola aviltante, que dividiu professores em titulares e outros, deixou de fora profissionais altamente qualificados e esmagou dedicações e competências. Se tivessem vergonha, os seus autores, que têm nome e rosto, pintavam a cara de negro, a cor do luto, e não ousavam falar de premiar o mérito. Mas há mais, que ninguém pode desmentir. Este modelo de avaliação penaliza os professores que usem direitos protegidos por leis de dignidade superior: direito a engravidar, direito a estar doente, direito ao recolhimento (nojo) por morte de pai, mãe, filho ou filha, mulher ou marido e até o elementar direito de não ser prejudicado pelo cumprimento de obrigações legais impositivas (comparecer em tribunais). Este modelo de avaliação penaliza os professores quando os alunos desertam da escola ou chumbam; põe professores de Música a avaliar professores de Matemática, bacharéis a avaliar doutores; mete no mesmo saco, para efeitos de graduação profissional, quem seja classificado com insuficiente, regular ou bom; instala nas escolas um pernicioso clima de desconfiança e competição; coloca toda a classe numa espécie de estágio permanente, com uma vida profissional inteira de duração; privilegia os cargos administrativos e burocráticos em detrimento das funções lectivas; institui uma casta de Kapos incumbidos de controlar e reportar aos donos; aniquila a liberdade pedagógica e intelectual do professor. Isto e muito mais são bestialidades que um coio de incompetentes quer impor aos professores. Que diriam jornalistas e comentadores, que escrevem ligeiro sobre a matéria, se os arrastassem em tal caudal de disparates?
Esta é apenas uma, eventualmente a mais gritante, das vertentes que asfixiam os docentes em burocracia e afastam a escola da sua missão principal: ensinar. Os portugueses não percepcionam quanto o sistema de ensino está à beira do abismo. Os professores sufocam com tarefas administrativas e reuniões. Há reuniões de todo o tipo: de coordenação de ano, para conceber testes conjuntos, para desenhar grelhas, para analisar resultados, de conselho pedagógico, com encarregados de educação, com alunos, para preparar as actividades de estudo acompanhado, de formação cívica, da área de projecto, de tutoria, de apoio educativo, de recuperação de resultados, de superação de necessidades educativas especiais, etc., etc.
Os papéis não têm fim. Tenho à minha frente seis folhas de um documento intitulado Coordenação de Ano de um agrupamento de escolas. Para o interpretar tive que me socorrer de um glossário. Aqui fica a tradução das siglas, omissão feita às que não consigo decifrar: CE (conselho executivo); CA (conselho de ano); PRAE (Plano de Recuperação e Apoio Educativo); PCT (Projecto Curricular de Turma); CGAS (critérios gerais de avaliação somativa); AEC (actividades de enriquecimento curricular); PTT (professor titular de turma); TIC (tecnologias de informação e comunicação); PGEI (Programa de Generalização do Ensino de Inglês); CAA (comissão de acompanhamento alargada); CAR (comissão de acompanhamento restrita); SPAEC (supervisão pedagógica das actividades de enriquecimento curricular); CEI (currículo específico individual); UAM (unidade de apoio à multideficiência); PAA (Plano Anual de Actividades); PA (plataforma do agrupamento); CAD (comissão de avaliação do desempenho).
Chega? Não! Por favor, Madre Lurdes e Santo Valter, ressuscitem o papel selado! Professor do ensino superior
26 de outubro de 2008
José Cardoso Pires, o amigo que morreu há dez anos
Vasco Pulido Valente, Jornal Público, 25 de Outubro de 2008
Quando um amigo morre, tanto faz que tenha sido há dez, vinte ou trinta anos. Mas Cardoso Pires morreu há dez; e não há nenhum mal em aproveitar a convenção para falar dele. Até porque no fim da vida o esquecerem mais do que ele merecia.Quando um amigo morre, tanto faz que tenha sido há dez, vinte ou trinta anos. Mas Cardoso Pires morreu há dez; e não há nenhum mal em aproveitar a convenção para falar dele. Até porque no fim da vida o esquecerem mais do que ele merecia. A primeira vez que o vi foi em 1960, no Portugal de Salazar e numa Lisboa diferente. O mundo, por assim dizer, "intelectual" era um mundo de homens que se encontrava nos cafés do Chiado, em algumas livrarias, num bar ou noutro e mesmo no ocasional prostíbulo. Conheci Cardoso Pires na revista Almanaque, que ele, de facto, dirigia e em que trabalhavam Luís Sttau Monteiro, Augusto Abelaira e José Cutileiro; e também, na parte gráfica, João Abel Manta e Sebastião Rodrigues. Já conhecia José Cutileiro e, depois da inevitável extinção do Almanaque, só continuei a encontrar Cardoso Pires.
Ao princípio remoto (eu andava pelos 18 anos), foi sempre de uma extraordinária generosidade comigo. Aguentou impassível uma absurda crítico a O Anjo Ancorado, que publiquei num jornal universitário. Perdeu um tempo infinito a discutir comigo, pelas tascas do Bairro Alto, como se devia, ou não devia escrever. E, num aperto, até me arranjou um emprego na revista Eva da Dona Carolina Homem Christo. Cardoso Pires resistia com grande orgulho e grande coragem à miséria a que o regime o condenava. "Eles querem dar cabo de mim, mas não dão", costumava avisar o universo nos dias de fúria. E não deram. Pouco a pouco, sem se perder no jornalismo ou na publicidade, chegou à única obra que reflecte com precisão o Portugal urbano da ditadura e do Estado Novo.
A guerra e o pós-guerra "são" o Ritual dos Pequenos Vampiros e A Rapariga dos Fósforos; os anos 50, com a sua hipocrisia e "prosperidade", "são" O Anjo Ancorado (um prodígio de inteligência e subtileza); e O Delfim e parte de Alexandra Alfa a decadência do regime e o anúncio profético da sua queda. Pelo meio, claro, vieram livros de "ofício" e alguns fracassos, que naturalmente não o aumentam. O que não importaria se a desilusão do PREC e uma catastrófica passagem pelo Diário de Lisboa do PC, em 1975, não o houvessem paralisado como escritor. Antes de ele morrer, jantámos meia dúzia de vezes, com uma certa melancolia. Estava amargurado e, pior do que isso, como ele próprio insistia, estava "sozinho". O "Prémio Pessoa" ainda o consolou. Muito tarde. Ninguém como ele contribuíra para transformar o português literário, arcaico, rural e afectado, ou populista, académico e pseudo-lírico, numa língua moderna.
Quando um amigo morre, tanto faz que tenha sido há dez, vinte ou trinta anos. Mas Cardoso Pires morreu há dez; e não há nenhum mal em aproveitar a convenção para falar dele. Até porque no fim da vida o esquecerem mais do que ele merecia.Quando um amigo morre, tanto faz que tenha sido há dez, vinte ou trinta anos. Mas Cardoso Pires morreu há dez; e não há nenhum mal em aproveitar a convenção para falar dele. Até porque no fim da vida o esquecerem mais do que ele merecia. A primeira vez que o vi foi em 1960, no Portugal de Salazar e numa Lisboa diferente. O mundo, por assim dizer, "intelectual" era um mundo de homens que se encontrava nos cafés do Chiado, em algumas livrarias, num bar ou noutro e mesmo no ocasional prostíbulo. Conheci Cardoso Pires na revista Almanaque, que ele, de facto, dirigia e em que trabalhavam Luís Sttau Monteiro, Augusto Abelaira e José Cutileiro; e também, na parte gráfica, João Abel Manta e Sebastião Rodrigues. Já conhecia José Cutileiro e, depois da inevitável extinção do Almanaque, só continuei a encontrar Cardoso Pires.
Ao princípio remoto (eu andava pelos 18 anos), foi sempre de uma extraordinária generosidade comigo. Aguentou impassível uma absurda crítico a O Anjo Ancorado, que publiquei num jornal universitário. Perdeu um tempo infinito a discutir comigo, pelas tascas do Bairro Alto, como se devia, ou não devia escrever. E, num aperto, até me arranjou um emprego na revista Eva da Dona Carolina Homem Christo. Cardoso Pires resistia com grande orgulho e grande coragem à miséria a que o regime o condenava. "Eles querem dar cabo de mim, mas não dão", costumava avisar o universo nos dias de fúria. E não deram. Pouco a pouco, sem se perder no jornalismo ou na publicidade, chegou à única obra que reflecte com precisão o Portugal urbano da ditadura e do Estado Novo.
A guerra e o pós-guerra "são" o Ritual dos Pequenos Vampiros e A Rapariga dos Fósforos; os anos 50, com a sua hipocrisia e "prosperidade", "são" O Anjo Ancorado (um prodígio de inteligência e subtileza); e O Delfim e parte de Alexandra Alfa a decadência do regime e o anúncio profético da sua queda. Pelo meio, claro, vieram livros de "ofício" e alguns fracassos, que naturalmente não o aumentam. O que não importaria se a desilusão do PREC e uma catastrófica passagem pelo Diário de Lisboa do PC, em 1975, não o houvessem paralisado como escritor. Antes de ele morrer, jantámos meia dúzia de vezes, com uma certa melancolia. Estava amargurado e, pior do que isso, como ele próprio insistia, estava "sozinho". O "Prémio Pessoa" ainda o consolou. Muito tarde. Ninguém como ele contribuíra para transformar o português literário, arcaico, rural e afectado, ou populista, académico e pseudo-lírico, numa língua moderna.
25 de outubro de 2008
Filomena Mónica, na Visão
Está a preparar um novo livro, com base no espólio de uma família tradicional açoriana, observada através de três gerações. O exercício resulta num retrato impressivo e íntimo de um certo Portugal. «O livro mais fascinante em que trabalhei», diz Maria Filomena Mónica, 64 anos. Mas essa é a próxima obra. Por agora, a socióloga e professora universitária, investigadora, casada com o também sociólogo e investigador António Barreto, acaba de coligir as crónicas de 2006, que escreveu no Público. Recebeu-nos em sua casa, na Lapa, e falou de Nós, os portugueses. Como sempre, sem papas na língua.
O que é que se pergunta primeiro a uma potencial boa entrevistada como a Maria Filomena Mónica [MFM]? Ajude-me a ser original....
Onde nasci, que idade tenho...
Boa ideia. Mas o pretexto é o seu livro, uma colectânea de crónicas publicadas no Público, três horas de puro prazer de leitura...
Obrigada.
De nada. Ainda por cima, com aquela escrita que alguns pensam que foi inventada ontem, e a que agora chamam «criativa»...
E até há cursos de escrita criativa!
E isso ensina-se?
É muito difícil ensinar seja o que fôr. Mas ensinar escrita criativa? Para escrever de forma criativa, temos de ir para casa e ler os melhores livros da literatura portuguesa e mundial. E ler boa imprensa.
E ter sentido de humor e de observação... Vou irritá-la: nas suas crónicas noto, não me pergunte porquê, um sentido de humor muito... masculino.
Engraçado... Há outras pessoas, até familiares meus, que acham que tenho um sentido masculino de olhar a realidade... Mas isso vem do machismo: não choro, trabalho, não chego atrasada... Até ter escrito o Bilhete de Identidade [uma autobiografia], recusava-me a acreditar que houvesse diferenças entre géneros. Só depois desse livro é que percebi que havia mesmo homens e mulheres, constatação que, feita aos 62 anos, peca um pouco por tardia. Enfim, na parte anatómica já tinha notado diferenças. Mas no olhar sobre a realidade, não sabia que as havia. Pelas reacções dos homens àquele livro, entre o machismo e a infantilidade, em contraste com as reacções das mulheres, que se identificaram muito com o que eu tinha escrito, percebi que essas diferenças existem.
Se eu lhe perguntar se sabe cozinhar, por exemplo, soa esquisito... É uma pergunta que se faz aos homens, já que as mulheres é suposto saberem...
Pois. E é que não sei mesmo. Pertenço a uma classe social e a uma época em que havia as criadas. Nós tínhamos empregadas. A minha mãe não punha os pés na cozinha e nós também não. Depois de casar, resolvi não facilitar. Se eu cozinhasse, iria gastar muito mais tempo do que a parte masculina do casal.
E a partir daí, não cozinhou, mas por militância.
Exacto, por militância!
Sente que, por vezes, é desconcertante?
Isso terá de ser você a dizer. Eu vejo-me ao espelho todos os dias e, para mim, sou o mais concertante possível!
Na contra-capa deste livro, Nós, os portugueses, adverte-se o leitor sobre a sua animosidade contra o Estado e a Igreja. Mas encontrei outro fio condutor: a preocupação com a memória, ou a falta dela. Nos indivíduos e na sociedade.
A memória e, neste caso, a falta dela, começou a ser central na minha vida a partir do momento, em 1995, em que foi diagnosticada Alzheimer à minha mãe. E é complicado lidar, durante 11 anos, com uma mãe neste estado - uma mãe com quem eu já tinha pouca intimidade, e que tinha sido uma figura muito dominadora, mas inteligente e que eu respeitava. E tenho medo que seja hereditário. Ainda por cima, sempre tive má memória. E, por outro lado, tenho memória de coisas que não interessam nem ao Menino Jesus! Gostava que alguém - não um psicólogo, porque sou pouco dada às psicologias... - me explicasse o que é que a memória retém e porquê... Se o meu cérebro fosse um disco rígido eu fazia delete a uma data de coisas e ficava com espaço para as importantes. As pessoas, quando perdem a memória, deixam de ser pessoas.
E a memória colectiva, como anda? Isso aplica-se ao País?
Aplica-se. Faz-me muita impressão, por exemplo, pensar que as grandes famílias tradicionais portuguesas, e que deveriam ter orgulho nos documentos da família, os deixem perder, sem dar qualquer testemunho deles. Ainda há uns anos, tentei convencer uma descendente do Cazal Ribeiro, um politico importante do século XIX, a depositar o seu espólio na Torre do Tombo. Tinha cartas do Eça, do Herculano, etc.. Tentei tudo. Mas as pessoas não ligam. As pessoas orgulham-se de solares do minho ou quintarolas, mas com o património histórico dos seus antepassados não há qualquer sensibilidade. E o País não faz a mais pequena ideia, por exempolo, de quem são as figuras da sua toponímia! Os portugueses não sabem porque a História é mal dada. Aliás, não há uma elite, entre nós. Há para aí umas três pessoas cultas em Portugal.
Costuma dizer que a palavra «nós» a arrepia. Não vai em grupos. Mas este livro chama-se «Nós, os portugueses»... Os portugueses também a arrepiam?
«Nós» é também o título de um poema do Cesário Verde... Mas já em miúda eu nunca dizia «nós vamos aqui e ali». Era sempre «eu». No casamento digo sempre «hoje vou ao cinema», «ou eu vou de férias amanhã». Nunca é «nós», mesmo quando vamos os dois. Eu sou portuguesa, mas há traços em mim que são fruto de uma vivência no esatrangeiro. Entre eles, sei lá, o de não aceitar a corrupção camarária. Por isso é que fiz umas obras aqui em casa recusando sempre gratificar fosse que fiscal fosse. Pensei: «Vou fazer tudo como se vivesse em Inglaterra». Eu critico os portugueses, mas as pessoas que criticam - e estou a pensar no Eça, sempre acusado de estrangeirado - são as pessoas que mais amam o País.
E José Sócrates, arrepia-a?
Não gosto dele, mas não me arrepia. É um pequeno tecnocrata. Nunca tive esperanças nele, sempre o achei um bocado irritante, porque está convencido de que é melhor do que é. E não é muito bom. Usou o truque do «quero, posso e mando», coisa de que os portugueses até gostam e os capitalistas precisam. Não me desiludiu. Já com o Santana Lopes, esperava rir-me imenso, mas, passada uma semana, já não lhe achava graça nenhuma...
A MFM também é um pouco estrangeirada. E quando saíu pela primeira vez do País, para Londres, nos anos 60, as diferenças ainda eram mais gritantes...
Foi um choque cultural. Eu vivia numa redoma. Foram 14 anos num colégio de freiras. Ia para a escola acompanhada por uma empregada, até aos 16 anos, o que prova a confiança que a minha mãe tinha em mim - e na minha irmã, mas essa é o oposto de mim, um modelo de virtudes... E o País, para mim, eram as famílias conhecidas. Depois, a minha mãe, com medo que eu fizesse ainda mais disparates do que aqueles que já tinha feito, deixou-me ir para Londres (embora para um colégio interno, inicialmente). E Londres era o centro do mundo. Conheci gente de outras nacionalidades, de outras raças, de outras religiões.
Mas gosta do tempo em que nasceu?
Odeio.
Em que outra época preferia ter nascido?
Em 1847, para aí...
Em Portugal?
Ah, não, então preferia ter nascido num país nórdico ou em Inglaterra... Estranhamente, também gosto muito de Itália... É tudo muito bonito: o País, as mulheres, os homens... Mas gosto muito de Inglaterra porque prezo muito as liberdades individuais. E comungo das velhas tradições liberais anglosaxónicas.
Mas porquê aquela data, presumo que, nesse caso, em Portugal?
Gostava de ter chegado à Regeneração, ao golpe do Duque de Saldanha, em que Fontes ascendeu a Poder, aí com seis ou sete anos...
Isso é a visão de uma historiadora. Afinal, não quereria nascer nessa época. Queria era viajar no tempo e observar com os seus próprios olhos um período que lhe interessa...
Não. Gostava de ter vivido nessa época. Foi a época em que houve mais liberdade em Portugal, de expressão, de pensamento: é entre 1852 e 1890, quando até ao ultimatum.
Mais do que depois do 25 de Abril?
De certa maneira, sim, mas para um grupo muito pequeno. Eu teria de ser da classe média alta ou da aristocracia. Se eu pudesse participar da Geração de 70, do grupo do Jaime Batalha Reis, do Eça, do Ramalho, do Antero, do Bordalo Pinheiro... Naquela altura diziam-se coisas que hoje dificilmente seriam publicadas nos jornais.
Hoje dava processo, naquele tempo era à bengalada...
Nem bengalada. Numa revista satírica do Rafael Bordalo Pinheiro, chamada António Maria, o Fontes era zurzido de alto a baixo. Imagine uma revista, hoje, chamar-se «José Sócrates» a bater todos os dias no primeiro-ministro... Depois veio a República, período que não respeitou nada os direitos fundamentais, ao contrário do que muitos pensam. E o salazarismo foi um período horrendo. Eu sei, porque o vivi... Portanto, recuando no tempo, eu ia para a 2.ª metade do séc. XIX.
Embora a condição feminina nessa altura fosse bastante mais insustentável...
Ah, pois, esqueci-me de dizer: teria de ser homem! Se fosse mulher só mesmo da alta aristocracia do Paço.
Se a palavra «nós» a arrepia, a palavra «não» deleita-a. Porquê?
Foi a primeira palavra que aprendi, ainda bébé. Tenho tendência a começar as frases com um «não concordo com nada disso!». «Mas eu ainda não disse nada», diz-me o adversário...
O adversário?
A pessoa com quem estiver a falar, pronto... (Risos) À partida, sou adversarial.
Algum político a surpreendeu, pela positiva, nos últimos tempos?
(Longo silêncio) Não.
E noutras áreas?
Não sei. Por exemplo, admiro muito o dr. Albino Aroso, um médico de direita, mas com um grande trabalho na área do planeamernto familiar. Pelo mesmo motivo, o dr. Luís Graça, que garantiou que a lei do aborto seria cumprida nos hospitais. Os médicos andavam para aí a dizer que não era possível, por causa da objecção de consciência, como se fossem todos objectores. Na verdade, o aborto era praticado por parteiras em vãos de escada e, portanto, não lhes dava status. O problema era esse. E depois, a maior parte são homens....
Mas tem políticos-ódio-de-estimação?
Não sei... Deixei de ver televisão ha dois anos. Mais do que o Governo, chocam-me os deputados. Ninguém sabe quem são. Nem têm liberdade de voto, como no caso do casamento homossexual... Assim, bastavam cinco deputados, um de cada partido, com uma determinada quota de votos, proporcional ao resultado eleitoral. E pronto, poupava-se um dinheirão. Mais: a função nobre dos parlamentares é vigiarem o que os governos andam a fazer. E não se passa nada disso. E lêem papéis! Eu não oiço o discurso de um tribuno que lê um papel.
Continua a dizer-se de esquerda, mas desconfia do Estado...
Estranho, não é? É que a direita, em Portugal, sempre foi autoritária e nunca prezou as liberdades. Não é liberal. Nessa medida, eu tenho de ser de esquerda. E os contrastes sociais, a pobreza, chocam-me. E os nossos ricos não têm dimensão social. Não devolvem á comunidade uma parte da riqueza que acumulam. Não há, sequer, uma tradição de filantropia.
Essa liberdade anti-estatal também pode dar fenómenos como os da actual crise financeira...
Há duas dimensões na liberdade: nos costumes, não há limite (dentro do respeito pela liberdade dos outros). Na Economia, nem o Adam Smith alguma vez achou que a «mão invisível» resolvia os problemas todos. E definiu o tipo de intervenção que a sociedade deve ter para que prevaleça o bem comum. Ontem estive a reler O Capital e o Karl Marx explica que tudo o que é sólido se derrete. O Estado deve preocupar-se com a redistribuição da riqueza, com a protecção das vítimas (de uma crise como esta), com um sistema de educação decente... disto nem quero falar mais. Aliás, a Saúde está muito melhor do que a Educação.
Arrasou os exames, nas suas crónicas... Mas mesmo assim, se calhar, nunca houve em Portugal, tanta gente tão qualificada.
Temos de ver o que quer dizer «qualificada». Se é ter um doutoramento, há muita gente nas Humanidades que tem um doutoramento e não devia ter. Há demasiado dinheiro para doutoramentos. E há muita gente que não os completa. Aliás, dá-me ideia de que, nas ciências exactas, as pessoas estão mais preparadas. Eu dei um curso de Literatura, na Faculdade de Letras, e eles recusavam-se a ler livros! Queriam fotocópias de capítulos. Não dou! O Ministério da Educação não confia nos professores e não os deixa sozinhos a corrigir testes qualitativos. Quer que eles sejam meros carimbadores automáticos de regras malucas que inventaram, como as do secretário de Estado Valter Lemos, que acha que há umas fórmulas matemáticas para avaliar o sucesso escolar. Como as das respostas de escolha múltipla, que estupidifica e só serve para preencher totobolas... Não distingue o bom do mau aluno, nem o criativo do marrão. Mais: agora, para os mentecaptos pedagogos do ME, existe uma coisa chamada Língua Portuguesa e outra Literatura Portuguesa. Com exames diferentes!
E deve haver avaliação de professores?
Sim, mas de outra forma. Com um corpo de inspectores de professores muito bem pagos. E deviam ser classificados por um director de escola - coisa que não existe em Portugal.
Será que há uma faceta salazarenta do País que continua a influenciar as nossas vidas?
Não acho. Nem na política, nam nas mentalidades, nem nos costumes. O Salazar é de um país onde 80% trabalhava na agricultura e não tinha poder de reivindicação. As suas caracterísitcas são as de um camponês. Isso acabou. Hoje as pessoas queixam-se, barafustam.
E os Grandes Portugueses? Salazar ganhou o concurso...
O erro fatal foi a RTP não ter incluindo o nome, logo de início, com medo que ele ganhasse. Chamaram a atenção das pessoas e resultou ao contrário. Mas não tem significado histórico nem sociológico.
Mas invocar o Salazar não é uma forma que as pessoas encontram de dizer o tal «não» de que a MFM tanto gosta?
O Salazar poder ser uma forma de contestação... Isso é que me espanta.
Uma mulher tão cosmopolita desconfia tanto da Europa, ou do federalismo europeu, porquê?
Desconfio. Eu não elegi o dr. Durão Barroso. E, mais importante, se quiser derrubá-lo, não posso. Mas gosto da Europa, da sua cultura, gosto de viajar pela Europa e quero qiue os meus alunos, sempre agarrados às saias da mãe, também o façam.
O que, agora, é mais fácil, graças à existência de uma União, sem fronteiras...
Essa é a parte de que eu gosto.
Um dos seus ódios de estimação é o fundamentalismo islâmico, senão mesmo o Islão.
Eu até fui a favor da intervenção no Iraque - no que me enganei redondamente. Não tinha bem a noção do que é o Médio Oriente. Sociedades tribais, não baseadas na lei, mas no sangue. Assim, os EUA não deviam ter intervindo. O fundamentalismo religioso é das coisas mais tenebrosas.
E Guantánamo, não é tenebroso?
Também é. Se o Ocidente se afirma respeitador do Estado de Direito, tem de o praticar. É por aí que o Ocidente é superior. O Ocidente é superior a esses países - que tratam as mulheres da maneira que tratam, ainda por cima.
Ao invocar a superioridade ocidental ainda será acusada de xenofobia...
Esto a falar em on e consciente do que digo. Os valores que derivam da tradição iluminista, a razão, a liberdade individual e o Estado de Direito são superiores, na constituição da sociedade, aos valores que regem as sociedades islâmicas, em que não há separação entre o poder político e o religioso. Isto não tem a ver com raças nem xenofobia. Mas com a organização das sociedades.
E como explica que muita esquerda contemporize com essas sociedades?
É o anti-americanismo. E a esquerda tende a dizer que os islâmicos são pobres. Ora, muitos daqiueles países têm sociedades riquissimas. Não serve de desculpa. O que eu critico é o fanatismo. E isso aplica-se à sr.ª Pallin.
Por falar nisso, McCain ou Obama?
Desde que apareceu a Sarah Pallin, sem dúvida, o Obama.
Nas suas crónicas ressalta a impressão de que tem medo da morte - e contra-ataca com sentido de humor sobre ela. Estarei certo?
Não, não tenho medo. Tenho medo do envelhecimento - não físico, mas da degenerescência. E de ir para a um ventilador hospitalar.
E o que é envelhecer bem?
É não perder as faculdades intelectuais.
Sente que já tem idade para dizer o que lhe apetece?
Não é por uma questão de idade. Mas, no meu caso, quando se chega ao topo da carreira universitária, não se pode ser despedido... E há uma altura em que não precisamos de fazer mais concursos. Porque uma maneira de eles nos lixarem é cozinhar um júri que nos liquide. Há um enorme compadrio universitário. E machismo. Já ouvi tiradas do género: «Então ias com aquela aluna para a cama? É pá, se soubéssemos davamos-lhe um 17 e não um 14!».
E a MFM, tem tido sorte ao amor?
Nunca tive muita sorte ao amor, mas ao jogo tenho. As duas únicas vezes que joguei à roleta, ganhei logo! Em Londres, em 1970, e em Macau, em 1999. Imenso dinheiro! (Risos)
O que é que se pergunta primeiro a uma potencial boa entrevistada como a Maria Filomena Mónica [MFM]? Ajude-me a ser original....
Onde nasci, que idade tenho...
Boa ideia. Mas o pretexto é o seu livro, uma colectânea de crónicas publicadas no Público, três horas de puro prazer de leitura...
Obrigada.
De nada. Ainda por cima, com aquela escrita que alguns pensam que foi inventada ontem, e a que agora chamam «criativa»...
E até há cursos de escrita criativa!
E isso ensina-se?
É muito difícil ensinar seja o que fôr. Mas ensinar escrita criativa? Para escrever de forma criativa, temos de ir para casa e ler os melhores livros da literatura portuguesa e mundial. E ler boa imprensa.
E ter sentido de humor e de observação... Vou irritá-la: nas suas crónicas noto, não me pergunte porquê, um sentido de humor muito... masculino.
Engraçado... Há outras pessoas, até familiares meus, que acham que tenho um sentido masculino de olhar a realidade... Mas isso vem do machismo: não choro, trabalho, não chego atrasada... Até ter escrito o Bilhete de Identidade [uma autobiografia], recusava-me a acreditar que houvesse diferenças entre géneros. Só depois desse livro é que percebi que havia mesmo homens e mulheres, constatação que, feita aos 62 anos, peca um pouco por tardia. Enfim, na parte anatómica já tinha notado diferenças. Mas no olhar sobre a realidade, não sabia que as havia. Pelas reacções dos homens àquele livro, entre o machismo e a infantilidade, em contraste com as reacções das mulheres, que se identificaram muito com o que eu tinha escrito, percebi que essas diferenças existem.
Se eu lhe perguntar se sabe cozinhar, por exemplo, soa esquisito... É uma pergunta que se faz aos homens, já que as mulheres é suposto saberem...
Pois. E é que não sei mesmo. Pertenço a uma classe social e a uma época em que havia as criadas. Nós tínhamos empregadas. A minha mãe não punha os pés na cozinha e nós também não. Depois de casar, resolvi não facilitar. Se eu cozinhasse, iria gastar muito mais tempo do que a parte masculina do casal.
E a partir daí, não cozinhou, mas por militância.
Exacto, por militância!
Sente que, por vezes, é desconcertante?
Isso terá de ser você a dizer. Eu vejo-me ao espelho todos os dias e, para mim, sou o mais concertante possível!
Na contra-capa deste livro, Nós, os portugueses, adverte-se o leitor sobre a sua animosidade contra o Estado e a Igreja. Mas encontrei outro fio condutor: a preocupação com a memória, ou a falta dela. Nos indivíduos e na sociedade.
A memória e, neste caso, a falta dela, começou a ser central na minha vida a partir do momento, em 1995, em que foi diagnosticada Alzheimer à minha mãe. E é complicado lidar, durante 11 anos, com uma mãe neste estado - uma mãe com quem eu já tinha pouca intimidade, e que tinha sido uma figura muito dominadora, mas inteligente e que eu respeitava. E tenho medo que seja hereditário. Ainda por cima, sempre tive má memória. E, por outro lado, tenho memória de coisas que não interessam nem ao Menino Jesus! Gostava que alguém - não um psicólogo, porque sou pouco dada às psicologias... - me explicasse o que é que a memória retém e porquê... Se o meu cérebro fosse um disco rígido eu fazia delete a uma data de coisas e ficava com espaço para as importantes. As pessoas, quando perdem a memória, deixam de ser pessoas.
E a memória colectiva, como anda? Isso aplica-se ao País?
Aplica-se. Faz-me muita impressão, por exemplo, pensar que as grandes famílias tradicionais portuguesas, e que deveriam ter orgulho nos documentos da família, os deixem perder, sem dar qualquer testemunho deles. Ainda há uns anos, tentei convencer uma descendente do Cazal Ribeiro, um politico importante do século XIX, a depositar o seu espólio na Torre do Tombo. Tinha cartas do Eça, do Herculano, etc.. Tentei tudo. Mas as pessoas não ligam. As pessoas orgulham-se de solares do minho ou quintarolas, mas com o património histórico dos seus antepassados não há qualquer sensibilidade. E o País não faz a mais pequena ideia, por exempolo, de quem são as figuras da sua toponímia! Os portugueses não sabem porque a História é mal dada. Aliás, não há uma elite, entre nós. Há para aí umas três pessoas cultas em Portugal.
Costuma dizer que a palavra «nós» a arrepia. Não vai em grupos. Mas este livro chama-se «Nós, os portugueses»... Os portugueses também a arrepiam?
«Nós» é também o título de um poema do Cesário Verde... Mas já em miúda eu nunca dizia «nós vamos aqui e ali». Era sempre «eu». No casamento digo sempre «hoje vou ao cinema», «ou eu vou de férias amanhã». Nunca é «nós», mesmo quando vamos os dois. Eu sou portuguesa, mas há traços em mim que são fruto de uma vivência no esatrangeiro. Entre eles, sei lá, o de não aceitar a corrupção camarária. Por isso é que fiz umas obras aqui em casa recusando sempre gratificar fosse que fiscal fosse. Pensei: «Vou fazer tudo como se vivesse em Inglaterra». Eu critico os portugueses, mas as pessoas que criticam - e estou a pensar no Eça, sempre acusado de estrangeirado - são as pessoas que mais amam o País.
E José Sócrates, arrepia-a?
Não gosto dele, mas não me arrepia. É um pequeno tecnocrata. Nunca tive esperanças nele, sempre o achei um bocado irritante, porque está convencido de que é melhor do que é. E não é muito bom. Usou o truque do «quero, posso e mando», coisa de que os portugueses até gostam e os capitalistas precisam. Não me desiludiu. Já com o Santana Lopes, esperava rir-me imenso, mas, passada uma semana, já não lhe achava graça nenhuma...
A MFM também é um pouco estrangeirada. E quando saíu pela primeira vez do País, para Londres, nos anos 60, as diferenças ainda eram mais gritantes...
Foi um choque cultural. Eu vivia numa redoma. Foram 14 anos num colégio de freiras. Ia para a escola acompanhada por uma empregada, até aos 16 anos, o que prova a confiança que a minha mãe tinha em mim - e na minha irmã, mas essa é o oposto de mim, um modelo de virtudes... E o País, para mim, eram as famílias conhecidas. Depois, a minha mãe, com medo que eu fizesse ainda mais disparates do que aqueles que já tinha feito, deixou-me ir para Londres (embora para um colégio interno, inicialmente). E Londres era o centro do mundo. Conheci gente de outras nacionalidades, de outras raças, de outras religiões.
Mas gosta do tempo em que nasceu?
Odeio.
Em que outra época preferia ter nascido?
Em 1847, para aí...
Em Portugal?
Ah, não, então preferia ter nascido num país nórdico ou em Inglaterra... Estranhamente, também gosto muito de Itália... É tudo muito bonito: o País, as mulheres, os homens... Mas gosto muito de Inglaterra porque prezo muito as liberdades individuais. E comungo das velhas tradições liberais anglosaxónicas.
Mas porquê aquela data, presumo que, nesse caso, em Portugal?
Gostava de ter chegado à Regeneração, ao golpe do Duque de Saldanha, em que Fontes ascendeu a Poder, aí com seis ou sete anos...
Isso é a visão de uma historiadora. Afinal, não quereria nascer nessa época. Queria era viajar no tempo e observar com os seus próprios olhos um período que lhe interessa...
Não. Gostava de ter vivido nessa época. Foi a época em que houve mais liberdade em Portugal, de expressão, de pensamento: é entre 1852 e 1890, quando até ao ultimatum.
Mais do que depois do 25 de Abril?
De certa maneira, sim, mas para um grupo muito pequeno. Eu teria de ser da classe média alta ou da aristocracia. Se eu pudesse participar da Geração de 70, do grupo do Jaime Batalha Reis, do Eça, do Ramalho, do Antero, do Bordalo Pinheiro... Naquela altura diziam-se coisas que hoje dificilmente seriam publicadas nos jornais.
Hoje dava processo, naquele tempo era à bengalada...
Nem bengalada. Numa revista satírica do Rafael Bordalo Pinheiro, chamada António Maria, o Fontes era zurzido de alto a baixo. Imagine uma revista, hoje, chamar-se «José Sócrates» a bater todos os dias no primeiro-ministro... Depois veio a República, período que não respeitou nada os direitos fundamentais, ao contrário do que muitos pensam. E o salazarismo foi um período horrendo. Eu sei, porque o vivi... Portanto, recuando no tempo, eu ia para a 2.ª metade do séc. XIX.
Embora a condição feminina nessa altura fosse bastante mais insustentável...
Ah, pois, esqueci-me de dizer: teria de ser homem! Se fosse mulher só mesmo da alta aristocracia do Paço.
Se a palavra «nós» a arrepia, a palavra «não» deleita-a. Porquê?
Foi a primeira palavra que aprendi, ainda bébé. Tenho tendência a começar as frases com um «não concordo com nada disso!». «Mas eu ainda não disse nada», diz-me o adversário...
O adversário?
A pessoa com quem estiver a falar, pronto... (Risos) À partida, sou adversarial.
Algum político a surpreendeu, pela positiva, nos últimos tempos?
(Longo silêncio) Não.
E noutras áreas?
Não sei. Por exemplo, admiro muito o dr. Albino Aroso, um médico de direita, mas com um grande trabalho na área do planeamernto familiar. Pelo mesmo motivo, o dr. Luís Graça, que garantiou que a lei do aborto seria cumprida nos hospitais. Os médicos andavam para aí a dizer que não era possível, por causa da objecção de consciência, como se fossem todos objectores. Na verdade, o aborto era praticado por parteiras em vãos de escada e, portanto, não lhes dava status. O problema era esse. E depois, a maior parte são homens....
Mas tem políticos-ódio-de-estimação?
Não sei... Deixei de ver televisão ha dois anos. Mais do que o Governo, chocam-me os deputados. Ninguém sabe quem são. Nem têm liberdade de voto, como no caso do casamento homossexual... Assim, bastavam cinco deputados, um de cada partido, com uma determinada quota de votos, proporcional ao resultado eleitoral. E pronto, poupava-se um dinheirão. Mais: a função nobre dos parlamentares é vigiarem o que os governos andam a fazer. E não se passa nada disso. E lêem papéis! Eu não oiço o discurso de um tribuno que lê um papel.
Continua a dizer-se de esquerda, mas desconfia do Estado...
Estranho, não é? É que a direita, em Portugal, sempre foi autoritária e nunca prezou as liberdades. Não é liberal. Nessa medida, eu tenho de ser de esquerda. E os contrastes sociais, a pobreza, chocam-me. E os nossos ricos não têm dimensão social. Não devolvem á comunidade uma parte da riqueza que acumulam. Não há, sequer, uma tradição de filantropia.
Essa liberdade anti-estatal também pode dar fenómenos como os da actual crise financeira...
Há duas dimensões na liberdade: nos costumes, não há limite (dentro do respeito pela liberdade dos outros). Na Economia, nem o Adam Smith alguma vez achou que a «mão invisível» resolvia os problemas todos. E definiu o tipo de intervenção que a sociedade deve ter para que prevaleça o bem comum. Ontem estive a reler O Capital e o Karl Marx explica que tudo o que é sólido se derrete. O Estado deve preocupar-se com a redistribuição da riqueza, com a protecção das vítimas (de uma crise como esta), com um sistema de educação decente... disto nem quero falar mais. Aliás, a Saúde está muito melhor do que a Educação.
Arrasou os exames, nas suas crónicas... Mas mesmo assim, se calhar, nunca houve em Portugal, tanta gente tão qualificada.
Temos de ver o que quer dizer «qualificada». Se é ter um doutoramento, há muita gente nas Humanidades que tem um doutoramento e não devia ter. Há demasiado dinheiro para doutoramentos. E há muita gente que não os completa. Aliás, dá-me ideia de que, nas ciências exactas, as pessoas estão mais preparadas. Eu dei um curso de Literatura, na Faculdade de Letras, e eles recusavam-se a ler livros! Queriam fotocópias de capítulos. Não dou! O Ministério da Educação não confia nos professores e não os deixa sozinhos a corrigir testes qualitativos. Quer que eles sejam meros carimbadores automáticos de regras malucas que inventaram, como as do secretário de Estado Valter Lemos, que acha que há umas fórmulas matemáticas para avaliar o sucesso escolar. Como as das respostas de escolha múltipla, que estupidifica e só serve para preencher totobolas... Não distingue o bom do mau aluno, nem o criativo do marrão. Mais: agora, para os mentecaptos pedagogos do ME, existe uma coisa chamada Língua Portuguesa e outra Literatura Portuguesa. Com exames diferentes!
E deve haver avaliação de professores?
Sim, mas de outra forma. Com um corpo de inspectores de professores muito bem pagos. E deviam ser classificados por um director de escola - coisa que não existe em Portugal.
Será que há uma faceta salazarenta do País que continua a influenciar as nossas vidas?
Não acho. Nem na política, nam nas mentalidades, nem nos costumes. O Salazar é de um país onde 80% trabalhava na agricultura e não tinha poder de reivindicação. As suas caracterísitcas são as de um camponês. Isso acabou. Hoje as pessoas queixam-se, barafustam.
E os Grandes Portugueses? Salazar ganhou o concurso...
O erro fatal foi a RTP não ter incluindo o nome, logo de início, com medo que ele ganhasse. Chamaram a atenção das pessoas e resultou ao contrário. Mas não tem significado histórico nem sociológico.
Mas invocar o Salazar não é uma forma que as pessoas encontram de dizer o tal «não» de que a MFM tanto gosta?
O Salazar poder ser uma forma de contestação... Isso é que me espanta.
Uma mulher tão cosmopolita desconfia tanto da Europa, ou do federalismo europeu, porquê?
Desconfio. Eu não elegi o dr. Durão Barroso. E, mais importante, se quiser derrubá-lo, não posso. Mas gosto da Europa, da sua cultura, gosto de viajar pela Europa e quero qiue os meus alunos, sempre agarrados às saias da mãe, também o façam.
O que, agora, é mais fácil, graças à existência de uma União, sem fronteiras...
Essa é a parte de que eu gosto.
Um dos seus ódios de estimação é o fundamentalismo islâmico, senão mesmo o Islão.
Eu até fui a favor da intervenção no Iraque - no que me enganei redondamente. Não tinha bem a noção do que é o Médio Oriente. Sociedades tribais, não baseadas na lei, mas no sangue. Assim, os EUA não deviam ter intervindo. O fundamentalismo religioso é das coisas mais tenebrosas.
E Guantánamo, não é tenebroso?
Também é. Se o Ocidente se afirma respeitador do Estado de Direito, tem de o praticar. É por aí que o Ocidente é superior. O Ocidente é superior a esses países - que tratam as mulheres da maneira que tratam, ainda por cima.
Ao invocar a superioridade ocidental ainda será acusada de xenofobia...
Esto a falar em on e consciente do que digo. Os valores que derivam da tradição iluminista, a razão, a liberdade individual e o Estado de Direito são superiores, na constituição da sociedade, aos valores que regem as sociedades islâmicas, em que não há separação entre o poder político e o religioso. Isto não tem a ver com raças nem xenofobia. Mas com a organização das sociedades.
E como explica que muita esquerda contemporize com essas sociedades?
É o anti-americanismo. E a esquerda tende a dizer que os islâmicos são pobres. Ora, muitos daqiueles países têm sociedades riquissimas. Não serve de desculpa. O que eu critico é o fanatismo. E isso aplica-se à sr.ª Pallin.
Por falar nisso, McCain ou Obama?
Desde que apareceu a Sarah Pallin, sem dúvida, o Obama.
Nas suas crónicas ressalta a impressão de que tem medo da morte - e contra-ataca com sentido de humor sobre ela. Estarei certo?
Não, não tenho medo. Tenho medo do envelhecimento - não físico, mas da degenerescência. E de ir para a um ventilador hospitalar.
E o que é envelhecer bem?
É não perder as faculdades intelectuais.
Sente que já tem idade para dizer o que lhe apetece?
Não é por uma questão de idade. Mas, no meu caso, quando se chega ao topo da carreira universitária, não se pode ser despedido... E há uma altura em que não precisamos de fazer mais concursos. Porque uma maneira de eles nos lixarem é cozinhar um júri que nos liquide. Há um enorme compadrio universitário. E machismo. Já ouvi tiradas do género: «Então ias com aquela aluna para a cama? É pá, se soubéssemos davamos-lhe um 17 e não um 14!».
E a MFM, tem tido sorte ao amor?
Nunca tive muita sorte ao amor, mas ao jogo tenho. As duas únicas vezes que joguei à roleta, ganhei logo! Em Londres, em 1970, e em Macau, em 1999. Imenso dinheiro! (Risos)
16 de outubro de 2008
Santana Castilho, no Público
Em 2007 reformaram-se cerca de 3300 professores. Este ano já vamos em mais de 5000 e o ritmo parece estar a acelerar. É só ver as longas listas do Diário da República. Os testemunhos, chapados na imprensa, de docentes que aceitam penalizações gravosas de 30 e 40 por cento sobre pensões de reforma para toda vida, ao mesmo tempo que reiteram o amor a uma profissão que, garantem, abraçaram por vocação e só abandonam por coacção, transformam um processo de reforma num processo de excomunhão. Um país maduro estaria hoje a reflectir aturadamente sobre o que Fernando Savater escreveu: "A primeira credencial requerida para se poder ensinar, formal ou informalmente e em qualquer tipo de sociedade, é ter-se vivido: a veterania é sempre uma graduação."
A vida dos professores nas escolas tem-se vindo a transformar num inferno. A missão dos professores, que é promover o saber e o bem colectivo, está hoje drasticamente prejudicada por uma burocracia louca e improdutiva, que os afoga em papéis e reuniões e os deixa sem tempo para ensinar. A carga e a natureza do trabalho a que se obrigam os professores são uma violentação e um retrocesso a tempos e a processos que a simples sensatez reprova liminarmente. Ocorre, então, a pergunta: como é possível a generalização da loucura?
A resposta radica no uso do modelo publicitário (cortejo ridículo de 23 governantes para enregar o Magalhães e 35 páginas de publicidade paga e redigida sob forma de artigos são exemplos bem recentes) e das técnicas populistas. O Governo tem conduzido a sua campanha de subjugação dos professores repetindo até à exaustão os mesmos paradigmas falsos e os mesmos slogans facilmente memorizáveis pelos justiceiros dos "privilégios" dos docentes. As ideias (a escola a tempo inteiro, por exemplo) são tão elementares como as que promovem os produtos de uso generalizado (o Tide lava mais branco). Mas tal como os consumidores se tornam fiéis ao produto cujo slogan melhor memorizam, embora sabendo que a concorrência faz exactamente o mesmo, assim se têm cativado apoiantes com a solução de problemas imediatos, que nada têm a ver com o ensino. E a dissolução sociológica dos professores pela via populista tem procurado ainda, com êxito, identificar e premiar uma nova vaga de servidores menores - tiranetes deslumbrados ou adesivos - que responderam ao apelo e massacram agora os colegas, inflados com os pequenos poderes que o novo modelo de gestão das escolas lhes proporciona.
A experiência mostrou-me que o problema do ensino é demasiado sério e vital para o abandonarmos ao livre arbítrio dos políticos. "Bolonha", a que este Governo aderiu, ou a flexibilização das formações, que este Governo promoveu através do escândalo das "novas oportunidades", não se afastam, nos objectivos, dos tempos da submissão ao evangelho marxista, ou seja, os interesses das crianças e dos jovens cedem ante a ideologia dominante e o resto só conta na medida em que seja eleitoralmente gratificante. Assim, contra a instauração de um regime de burocracia e terror, para salvaguardar a sanidade mental e intelectual dos professores, encaro o protesto e a resistência como um exercício a que ninguém tem actualmente o direito de se furtar. Professor do ensino superior
A vida dos professores nas escolas tem-se vindo a transformar num inferno. A missão dos professores, que é promover o saber e o bem colectivo, está hoje drasticamente prejudicada por uma burocracia louca e improdutiva, que os afoga em papéis e reuniões e os deixa sem tempo para ensinar. A carga e a natureza do trabalho a que se obrigam os professores são uma violentação e um retrocesso a tempos e a processos que a simples sensatez reprova liminarmente. Ocorre, então, a pergunta: como é possível a generalização da loucura?
A resposta radica no uso do modelo publicitário (cortejo ridículo de 23 governantes para enregar o Magalhães e 35 páginas de publicidade paga e redigida sob forma de artigos são exemplos bem recentes) e das técnicas populistas. O Governo tem conduzido a sua campanha de subjugação dos professores repetindo até à exaustão os mesmos paradigmas falsos e os mesmos slogans facilmente memorizáveis pelos justiceiros dos "privilégios" dos docentes. As ideias (a escola a tempo inteiro, por exemplo) são tão elementares como as que promovem os produtos de uso generalizado (o Tide lava mais branco). Mas tal como os consumidores se tornam fiéis ao produto cujo slogan melhor memorizam, embora sabendo que a concorrência faz exactamente o mesmo, assim se têm cativado apoiantes com a solução de problemas imediatos, que nada têm a ver com o ensino. E a dissolução sociológica dos professores pela via populista tem procurado ainda, com êxito, identificar e premiar uma nova vaga de servidores menores - tiranetes deslumbrados ou adesivos - que responderam ao apelo e massacram agora os colegas, inflados com os pequenos poderes que o novo modelo de gestão das escolas lhes proporciona.
A experiência mostrou-me que o problema do ensino é demasiado sério e vital para o abandonarmos ao livre arbítrio dos políticos. "Bolonha", a que este Governo aderiu, ou a flexibilização das formações, que este Governo promoveu através do escândalo das "novas oportunidades", não se afastam, nos objectivos, dos tempos da submissão ao evangelho marxista, ou seja, os interesses das crianças e dos jovens cedem ante a ideologia dominante e o resto só conta na medida em que seja eleitoralmente gratificante. Assim, contra a instauração de um regime de burocracia e terror, para salvaguardar a sanidade mental e intelectual dos professores, encaro o protesto e a resistência como um exercício a que ninguém tem actualmente o direito de se furtar. Professor do ensino superior
15 de outubro de 2008
14 de outubro de 2008
Lobo Antunes Como posso eu, cristal, morrer?
Entrevista à Pública - Anabela Mota Ribeiro
12.10.2008
Ninguém, senão Lobo Antunes, poderia escrever a seguinte frase: "Um camafeu com crisântemos pintados." Ou:"Girinos novos e abelhas incompletas a aprenderem a ser." Tem uma voz própria. Aprendeu a ser. Ou como ele diz: "Ninguém escreve como eu."
Lobo Antunes c'est lui. Uma única voz. Falou de querer pôr a vida toda dentro das capas de um livro. Do pai. Do Antonioni de que já gosta. Do que aprendeu com Cartier Bresson, que lhe pediu que escrevesse para fotografias suas. Do pai. Sempre do pai. Talvez o pai tivesse razão. E mais que tudo da doença. E se eu morrer? Falou do sapateiro que dizia que as mulheres seduzem pela palheta; porque elaboram melhor as emoções, os afectos. Os homens são primários: um par de pernas que passa e ficam a olhar - ele fica a olhar. Da doença. Da alegria em que o haver sol o deixa. Do livro que acaba de sair, Arquipélago da Memória. De que é que trata o livro: do que vai escrito nele. No dia seguinte à conversa, seria revelado o nome do Nobel da Literatura de 2008.
Diz na sua fotobiografia que, ao seu avô querido, o único lamento que ouviu foi quando ele lhe pousou a mão no pescoço, antes da morte. Perguntei-me qual teria sido o seu lamento, quando esteve doente.
Não tive tempo de ter medo. A minha reacção foi de espanto. Pensava que tinha hemorróidas quando fui fazer o exame. Quando acordei da colonoscopia: "O que é que eu tenho?" "Tens um cancro." É uma sensação muito estranha. "Então, nesse caso, quero ser operado amanhã." Pedi para chamarem um cirurgião que já operou dois mil e tal cancros destes; é meu colega de curso, um homem extraordinário. Nunca mais me esquece que estava na sala da anestesia, de repente senti que me estavam a dar a mão, e era ele. Deve ter sido muito difícil operar um amigo. O meu irmão João operou agora o Pedro [irmão]. Fiquei com uma enorme admiração por ele.
Contou isso numa crónica, há umas semanas.
De uma coragem. E discrição, dignidade. Depois tive de passar por aquele calvário da quimioterapia, radioterapia. Acabou há um ano. Tive muita sorte. De ter um grande cirurgião, de não ter metástases, faço controles. O que até é bom, que nunca tinha feito um check up na vida.
Porquê? Um médico, filho de médico, com irmãos médicos...
Tinha medo de fazer um exame e ter qualquer coisa - não me apetecia. E agora periodicamente faço exames a tudo, fígado, rim... Fiquei surpreendido: estava tudo tão bem. Como é que diz o S. Francisco de Assis? "Confesso que pequei muito contra o meu pobre irmão corpo." A grande lição: são as pessoas. Pessoas que sabiam que iam morrer. Às vezes tinha vergonha: "Eu vou viver, eles vão morrer."
Vergonha?
Era uma sala de espera imensa, para a radioterapia, mais de cem pessoas, uma televisão acesa que ninguém olhava, revistas nas mesas que ninguém lia. Toda a gente em silêncio. Parecia estar rodeado de reis, de príncipes, de princesas. Havia de tudo, miúdos de 17, 18 anos, até pessoas de 80 e tal. Algumas já muito magras, com a cor horrível das metástases hepáticas. Já com a cara da morte delas. E depois, coisas muito comoventes: esta semana, fiz a revisão, e uma senhora, já deitada numa maca, a pedir-me um autógrafo.
Ali, continuava a ser o António Lobo Antunes?
É isso: continuava a ser o António Lobo Antunes. Eu não imaginava que fosse tão...
Popular? Querido?
Sim, sim. Durante a doença foram centenas de cartas e emails. O pós-operatório foi muito doloroso. Não me podia mexer. E o Henrique [médico] apareceu-me com um email de um miúdo que dizia: "Não admito que o meu ídolo se vá abaixo das canetas." Isto deu-me imensa força. Ajudou-me muito o Júlio Pomar; enquanto outras pessoas me diziam: "A minha tia teve isso, a minha irmã", o Júlio Pomar tinha tido o mesmo cancro há 15 anos e o que me disse foi só: "Aguenta-te." Isto deu-me mais força que palavras de consolo. "E se eu morrer"? "Aguenta-te." Depois passei dois meses sentado numa cadeira. Este livro que está a sair, tinha-o começado antes. Será que vou ser capaz de escrever? Estive três meses sem escrever nada, nada. Depois recomecei, mas cansava-me.
A escrever, a articular o livro na sua cabeça?
Nunca escrevi na minha cabeça. Trabalho sem plano. Acabei este que leu em Outubro ou Novembro [do ano passado], e depois de um mês sem fazer nada começo a sentir-me culpado. Decidi então: dia 25 de Fevereiro começo. E no dia 25 de Fevereiro comecei a escrever. Começo sem nada. Agora começo sem nada.
Tinha ideia de que nos primeiros livros as coisas eram arquitectadas na sua cabeça.
Nos primeiros livros, sim. Fazia planos, muito detalhados.
Há até aquela coisa das Obras Completas de António Lobo Antunes que estruturou na sua juventude...
Era. Tinha dez, 11 anos. Nem imagina: era até 2050, ou coisa assim, e era tudo: ensaio, poesia, romance, conto, teatro. Nunca escrevi nada daquilo, claro. Punha no alto da página: Obras Completas de António Lobo Antunes. Nos primeiros livros fazia [planos]. Quando comecei a fazer os livros de que gosto, mais ou menos a partir d'O Esplendor de Portugal - até lá, se voltasse atrás, ia tudo fora - deixei de ter planos. Sei que me faltam três capítulos [do que estou a escrever agora] para acabar a primeira versão. Mas depois aquilo é tão trabalhado, emendado, reescrito.
Disse uma vez que não lia os seus livros.
Depois de sair não leio mais. Não leio porque tenho medo. Os primeiros livros: não gosto nada. Parecem-me escritos por outra pessoa. Não têm nada que ver comigo. Nos últimos fiquei espantado. Eu não escrevo assim tão bem.
Como se fosse uma mão autónoma?
Estava a ler aquilo como se tivesse sido escrito por outra pessoa. Há livros de que gosto, mas que não gostaria de ter escrito. Simenon, por exemplo. Ou Graham Greene. Certos policiais: o Rex Stout. Tinha uma atitude idiota e arrogante em relação aos policiais. O Cardoso Pires dizia-me que os policiais eram importantes para aprender uma série de coisas: a retenção de informação, que a informação é dada de forma lateral. Estive três meses sem escrever e perde-se um bocado a mão. Os cirurgiões nunca fazem férias longas.
Falou especialmente com o seu irmão João durante a sua doença?
Não. Não falei com ninguém, nem queria falar com ninguém. Tenho um grande pudor na relação com as pessoas de quem gosto. O que sentia era um imenso vazio dentro de mim. Vou morrer. E tinha imensa pena de não ter acabado a obra. Não ter arredondado.
O que é esse "vou morrer"? Tenho pena de morrer? Tenho medo de morrer? As coisas que vou deixar de fazer. Os que vou deixar.
Era o espanto. O Paulo Klee, o pintor, escreveu: "Como posso eu, cristal, morrer?" Não era medo. Era pena. Sabia lá se ia morrer? Pensava que sim, pensava que não. Era duro. Mas era pior para os outros. Acho que escrevi isto numa crónica: raparigas com cabeleiras postiças - eram coroas. Em Santa Maria, são pessoas humildes; a dignidade com que se comportam é extraordinária. Não vê ninguém a lamentar-se, a agarrar-se a si, "ajude-me".
Comecei por perguntar pelo seu lamento.
Quando o meu avô disse: "Tenho muita pena de vos deixar a todos"? Eu tinha acabado de fazer 18 anos.
Já não traz o anel do seu avô, com que sempre andava.
Não o tenho posto. Já vem de há não sei quantas gerações. Não tenho nobreza de espécie alguma. O avô do meu avô era um pobre camponês de Póvoa do Lanhoso que o pai meteu num barco à vela para o Brasil, para se fazer à vida. Não tenho nenhum sangue azul, tudo o que corre nas minhas veias vem de gente pobre. O meu pai falava com um imenso orgulho de um bisavô marceneiro. A minha ascendência é esta.
As pessoas têm a ideia de que é uma família de viscondes há dez gerações. Os rapazes Lobo Antunes têm boa pinta, olho azul.
Olho azul, as minhas avós tinham as duas. É evidente que isto foi-se apurando, mas as origens são estas.
Porque é que tem orgulho nessas origens modestas?
Porque o meu nome fui eu que o fiz. Não o herdei de ninguém. O primeiro Lobo Antunes foi o meu avô, que era feito de um senhor Antunes e uma senhora Lobo. Os Lobo Antunes são os seis filhos que o meu pai teve. Deu-nos uma educação muito normativa. Mas todos os filhos têm bom carácter. Todos trabalham que se fartam. Todos são pessoas sérias. Podem ser mais ou menos inteligentes, ter mais ou menos talento, mas essa qualidade todos têm. O meu pai tinha um horror visceral à mentira - nunca o vi mentir - à cobardia e à desonestidade. Não era criativo. Nem tinha imaginação. Como pai foi excepcional. Era tudo muito austero, e com muito pouco dinheiro. Eram muitos filhos, ele trabalhava no hospital.
Não se preocupava em ganhar muito dinheiro. O dinheiro não parecia ser uma coisa essencial.
Sempre teve um grande desprezo pelo dinheiro. Lembro-me de ele dizer à minha mãe: "Margarida, dá-me cem escudos para encher o depósito do Lância." Lância que só teve aos 50 anos. Era o pai que o levava ao hospital e ele ia de lancheira, para almoçar. Não havia semanadas, não havia nada disso. Ah: obrigava-nos a ler e a ouvir música. Em férias, lembro-me de me mandar fazer resumos de capítulos de livros de que ele gostava, tirar significados. Que era uma chatice, eu estava em férias, era uma criança. Lembro-me de ter ido fazer a primeira comunhão a Pádua, por causa de uma promessa do meu avô - tive uma meningite e estive em coma. E eram palestras de meia hora diante de cada quadro. Para uma criança de sete anos, era um frete.
Aponta essa viagem a Pádua como um dos grandes acontecimentos da sua vida.
Claro que foi.
E, durante toda a viagem, ia no carro a fazer que guiava.
Tinha um volante de plástico. Está a ver o que é atravessar Espanha, França, Suíça, Itália, há 60 anos, para fazer a comunhão em Itália? Passar um mês assim. Lembro-me de ele [avô] junto ao túmulo de Santo António - que ele era muito devoto, como eu sou - me pôr a mão no túmulo e com os olhos cheios de lágrimas: "Promete-me que quando tiveres um filho lhe chamas António e o trazes a Pádua para fazer a primeira comunhão." Gostava de estar com pessoas - eu não sou assim. Sou uma pessoa fechada e isolada. Vejo muito pouca gente. Também há tão poucas pessoas de quem eu gosto, muito... E ao fim de uma hora já me apetece estar sozinho.
Observei-o num acontecimento social, um jantar em sua honra. E, apesar da simpatia, parecia que estaria melhor se estivesse consigo, a ler ou a escrever. Quase não falou, de resto.
Por acaso foi um jantar agradável. Desde que não tenha que falar... Gostei desse jantar porque gosto de ouvir as pessoas e estavam pessoas de quem gosto.
Isto era a propósito do anel que não tem posto.
Não gosto de anéis. Tenho mãos quadradas, com dedos curtos. Não gosto de me ver com anéis, punha-o por ele. Qualquer dia ponho. Ah, sabe porque é que deixei de pôr? Achei que não o merecia porque ia morrer. Quis dar o anel à Zezinha [filha mais velha], "toma lá o anel", que seria para ela, e depois para o filho dela. Não aceitou. Nunca mais voltei a pô-lo.
Foi uma maneira de a sua filha lhe dizer: viva, viva.
Não sei o que estava na cabeça dela. Faço muito poucas perguntas. Também não gosto que me perguntem sobre a minha vida. O meu pai morreu há quatro anos, e muito mudou em mim - até estar em paz com ele. Está a ver como fiquei muito mais terno com a doença? Estar aqui sentado já é uma festa. Haver sol. Eu não tinha isto. Agora sinto-me em paz comigo.
O que é que mudou com a doença, ou seja, com a sombra da morte?
Aldrabices, mentiras, jogos, em nada na minha vida - nem nos livros. A doença foi fulcral.
Foi um processo duro, súbito, curto.
Foi muito violento, de Março até fim de Setembro. Muito longo.
O terramoto anterior foi a morte do seu pai?
Não foi um terramoto para mim.
Foi um alívio?
Não sei o que sentia por ele. Amor é uma palavra difícil. Era o meu pai, pronto. Como a minha mãe é a minha mãe. Foi evidentemente importante para mim sob esse ponto de vista - normativo -, mas sempre tive a sensação de que não tinha nascido deles - porque era tão diferente deles.
Essa frase aparece no livro: "De quem nasci eu?"
Agora vejo que sim. Tenho coisas do meu pai, da minha mãe. Não havia nenhuma tradição ligada a livros. O meu pai gostava muito de ler, a minha mãe também, mas o meu avô nunca o vi pegar num livro. De onde é que isto vem? E sentia-me diferente. Será que eu pertenço a esta família? Vejo os meus irmãos tornarem-se cada vez mais parecidos com o meu pai; provavelmente eu também. Não sei se já lhe aconteceu: da nossa boca saem frases que não são nossas. São da pessoa com quem vivemos, muitas vezes. Certos tiques de vocabulário que não nos pertencem e que o convívio traz. Gestos. E saem-me frases que são do meu pai; certas maneiras de articular, pausas.
Ele lia-o?
Dava-lhe os meus livros, ao princípio. Depois, não. Para quê?
O que é que esperava dele? Um comentário?
Nada. Perguntei-lhe sobre a Memória de Elefante, o que é que ele achava; respondeu: "É o livro de um principiante." Fiquei furioso. Ele tinha toda a razão. Nunca ouvi o meu pai elogiar um filho, fosse para o que fosse, e tinha filhos para todos os gostos e feitios. Só no hóquei, quando eu marcava um golo bom. Uma vez tive um muito bom num ponto, e havia miúdos que iam pedir dinheiro aos pais, cinco paus; e a resposta foi: "Só quando tiveres um bestial." Como nunca tive um bestial, nunca recebi nada. Nem um elogio, nem uma recriminação. A mim, nunca me recriminou nada.
Ainda que não recriminasse, o facto de dizer que a psiquiatria era uma disciplina menor era uma forma de o apoucar. De diminuir a sua escolha.
Em relação à psiquiatria, tinha uma certa razão. Quando morreu, o Miguel disse: "O pai deixou uns envelopes." Pensei que fosse um envelope para cada filho. E todos os envelopes diziam António por fora. É uma carta de 600 páginas. Fiquei a saber o que é que pensava de mim - que eu não sabia.
O que é que pode contar dessas páginas?
Não sabia que ele tinha tanto orgulho em mim. Havia naquele homem uma imensa impiedade.
Estou a ouvir o personagem do seu livro que diz "idiota, idiota", referindo-se ao filho.
Ele não é personagem, o livro não tem personagens, não conta histórias. Cada vez mais os livros sou eu. Nem sei se sou eu. O que eu queria era pôr a vida inteira lá dentro. Os livros não são seus. É como os filhos: também não são nossos. Também não são de mais ninguém. São deles mesmos, se forem.
Perguntei-me se este livro não era um ajuste de contas com o seu pai.
Não tem nada que ver com o meu pai. A voz daquele avô... é um jogo de enganos, nada daquilo existe, passa-se numa cabeça. Os livros, cada vez mais, são também sobre como escrever livros. Portanto, aquele avô é um pobre diabo, sem força nenhuma. Houve dois capítulos que me deram muito prazer: o da morte, que é a Dona Hortelinda, que vai levando as pessoas, e o da Maria Adelaide. Julgo que são as únicas pessoas que têm nome no livro.
Há um Jaime.
Quem? Ah, um que nunca aparece.
A Maria Adelaide parece a encarnação de qualquer coisa boa, um desejo da infância.
A infância é boa retrospectivamente. Na realidade é um período dramático, de grande sofrimento, como a adolescência é. A maior parte das crianças são infelizes. Estão sempre a frustrá-las. Por que carga de água tenho de estar sempre a lavar os dentes?, porque é que tenho de comer sopa?
Davam-lhe tareias quando se portava mal.
Apanhava, apanhava pancada.
Normalmente não fala disso. Fala é de não lhe darem beijos ou um prato com bolachas e leite quando estava doente.
O meu pai detestava que apanhássemos pancada. Fomos ensinados a bater para não sermos batidos. Ele organizava combates de boxe, até ao dia em que o João lhe deu um soco, ele caiu e acabou-se o boxe. Tirou a luva, deu-lhe um estalo e foi-se embora - nunca mais me esquece isso. Uma vez pôs-me a jogar contra o Pedro, o Pedro estava a deitar sangue do nariz e eu não queria bater-lhe. Isto com a porta fechada à chave, para a minha mãe não entrar. E ele dizia: "Bate-lhe, senão bato-te eu a ti." No fundo, acho que aquele homem vivia no pavor da homossexualidade. Achava que uma das coisas da homossexualidade era a falta de coragem física. Tinha um profundo desprezo pela cobardia física. Até muito tarde andou à pancada.
É de andar à pancada?
Era uma das coisas de que as minhas filhas tinham medo: que eu saísse do carro para andar à trolha. Passei por cenas caricatas... Às vezes tenho vontade de sair do carro. Não me fazem nada, só me passam pela direita. E torno-me infantil. De resto, não. Já não ando à tareia há mais de seis meses.
Quando é que, realmente, andou à pancada a última vez?
Há uns meses dei um estalo a um gajo de mão aberta, de propósito. Não foi com muita força, mas foi um estalo - e isso humilha. Um murro não humilha. Porque é que foi? Não me lembro. Aquilo é feito com sentido lúdico. Como se fosse um miúdo.
Com um sentido lúdico, mas para humilhar.
A esse, quis humilhá-lo. Isto não tem interesse nenhum, está a ser muito confessional.
A pergunta é: porque fala menos da violência física que da violência emocional. De não ter sido mimado.
Estou a ser injusto. Eu era o filho mais velho de dois filhos mais velhos. Toda a gente estava viva, os meus avós tinham 40 anos quando nasci, não havia mortes. Entrei para a universidade, tinha acabado de fazer 17 anos, e em Outubro estava no teatro anatómico; nunca tinha visto cadáveres. Havia uma espécie de pias, mesas, para o sangue - que não havia - escorrer. O empregado disse: "Meus senhores, está a sopa na mesa." Passados dois meses já mexia naquilo sem luvas - cadáveres com um ano de frigorífico, cheios de formol.
O cadáver passa a ser carne do talho? É a maneira de lidar com isso sem medo, sem repugnância? Tratar aquilo como uma matéria. Como é que se ultrapassa o nojo?
Não era nojo. Era terror. Todos nus, no dedo grande do pé tinham uma etiqueta, com um cordel. Um espectáculo horroroso.
Como é que se passa do terror à indiferença?
Não me lembro. Deve ter sido gradual. Não os via como pessoas. Eram apresentados assim: agora é a articulação tal ou são os músculos tais. Tenho notado nesta coisa que os cirurgiões têm: não é uma úlcera ou um cancro, é uma pessoa que está ali. Para outros, é uma máquina, um objecto.
A úlcera está aqui, o cancro acolá, este órgão ali; e os sentimentos, onde ficam?
O meu pai, já que falou nele, e para acabar com o pai - que foi importante, mas não foi decisivo - tinha um imenso respeito pelos doentes. Era terno, fazia-lhes festas. Foram as únicas pessoas a quem o vi fazer festas. Isso incutiu em nós um enorme respeito pelo sofrimento. E outra coisa: um infinito respeito pelo sigilo profissional. Nunca disse o nome de um doente. Era um bom médico - privado dessas coisas que eu disse: imaginação, criatividade.
Era capaz de acariciar um doente, mas quando um de vós estava doente, não vos acariciava.
Olhava da porta e mandava tomar aspirinas. E, quando havia injecções para dar, era a minha mãe que dava. Ah: sentava-se na borda da cama a ler poesia - a gente tinha que gramar aquilo. A minha mãe dizia que quando ele, na casa de banho, dizia poesia, enquanto se arranjava e barbeava, ela ia a correr para o ouvir. Sempre teve um enorme respeito pelos artistas, talvez por não ser um criador. Pouco antes de morrer o Miguel perguntou-lhe: "O que é que o pai gostava de nos ter deixado?", e respondeu logo: "O amor das coisas belas." As coisas que para ele eram belas não eram necessariamente as minhas.
No Arquipélago da Memória escreve: "Se me abraçassem, recusava indignado, e no entanto abracem-me." E a outra, referindo-se à personagem Mãe: "Uma ocasião pegou-me na cara, tive medo que me desse um beijo."
É tão comum, essa mistura de desejo e de...
Medo?
A nossa sede de ternura é infinita. Porque fomos sempre mal amados na infância. Não há nada mais terrível do que a relação de um filho com um pai ou uma mãe. É muito ambivalente. São os pais que impõem as normas, "tens de fazer chichi no coiso, o guardanapo". Temos tanta dificuldade em aceitar aquilo que mais desejamos. É muito curioso e paradoxal. As pessoas deste livro pedem muita ternura, é?
Estas pessoas, que são uma pessoa, pedem ternura.
Há um núcleo impartilhável em todos nós. Um livro é escrito com muito sofrimento. Estava a tentar olhar para o livro: não o vejo assim. Vejo-o como um todo.
Pareceu-me que tresanda a morte.
Mas eles não morrem, pois não?
Querem matar-se todos, e matam-se todos, de maneiras diferentes. Com uma sachola, com a corda do estendal. Porque se detestam. Porque se humilham.
Achou o livro assim tão negro? Mas isso, muitas vezes, tem que ver connosco, leitores, com o estado de espírito com que se lê os livros e com aquilo que nos livros vai tocar a nossa experiência de vida. Os leitores da agência rejubilaram com o livro.
Não estou a dizer que não é uma obra-prima. Estou a dizer, se me pergunta, que me convocou uma sensação de claustrofobia.
Quando a mão é feliz... A Morte de Ivan Ilich: não pode haver coisa mais angustiante, que rasga. E é um livro que me dá uma felicidade enorme ler. O que me importa, enquanto leitor, é a felicidade da mão. O que me interessa num livro, é quando é bom. O tema? Não há temas. As pessoas não contam histórias. Como eu estava a dizer aos americanos - a Odisseia: tenho a minha mulher à espera. Anna Karenina: uma mulher que está casada aborrece-se, o marido é um maçador, apaixona-se por um vigarista, aquilo corre mal, ela morre.
Atira-se à linha do comboio. Podia ter escolhido outra morte qualquer.
O que interessa é a maneira como [Tolstoi] faz isto. As intrigas não valem nada.
A esgrima é o que lhe interessa. Como é que a mão esgrime?
É um problema da mão, sempre. Os livros do Tolstoi são bons porque ele tinha uma grande mão. Em arte, é tudo uma questão de mão: seja a escrever, seja a pintar, seja a fotografar. E quando as páginas se tornam espelhos? O Monte dos Vendavais não é um romance: aquilo é tudo. Só acontecem coisas horríveis, e saímos daquele livro maravilhados.
Cheios de vida, exaltados.
Exactamente. É pôr a vida inteira dentro das capas de um livro.
Quando digo que tresanda a morte, não digo que me apeteça morrer ou matar-me, ou matar.
Não queria falar sobre isso, mas eu estive na guerra. Matar é muito fácil. Quando o Melo Antunes estava doente, nunca tínhamos falado sobre a guerra e ele começou a falar; a mulher aproximava-se e ele dizia: "Não podemos falar mais." Perguntava-lhe: "Ernesto, porque é que não sentimos culpabilidade?" Assisti e participei em coisas horríveis. E ainda hoje não sinto culpabilidade. Porquê? Ele também não soube responder. É estranho. Porque sinto culpabilidade por ter ferido uma pessoa verbalmente, por ter sido injusto para alguém.
Sente culpabilidade por que pensa que vai sobreviver àqueles que estão na mesma sala, à espera da radioterapia.
Sentia-me culpado porque eu ia viver e eles não. Eles eram melhores do que eu. Tinham coragem. Eu estava todo borrado. Li um bocadinho das cartas da guerra, cartas que me oferecia para ganhar o meu respeito; cheguei a ir sentado no guarda-lamas dos rebenta minas. Porque me achava um cobarde e me enojava a cobardia física. Assisti uma única vez ao espectáculo da cobardia física, e é repelente. Os nossos soldados eram miúdos, de 19, 20, 21 anos. Admiráveis. Agora vão para a discoteca, naquela altura iam dar tiros. Iam matar e morrer. Voltando ao livro: o que eu queria era meter lá a vida toda, e não acho que seja triste. Acho que sou agora mais alegre do que era.
Como é que ficou mais alegre?
Estive do outro lado e garanto-lhe que não é agradável. Tenho de dar muitas graças à vida, às pessoas que trataram de mim. Recomeçar o livro depois da doença, não sabia se era capaz. Queria ir mais longe. Não sou modesto, mas sou humilde. Sabemos muito pouco do que queremos escrever e hei-de levar a vida a tentar aprender. Estou a lembrar-me de uma entrada no diário de Tolstoi, em que ele escreve: "Lutei toda a vida para ser melhor do que o Shakespeare, e sou. E depois?" Eu agora não minto e sou honesto: ninguém escreve como eu - parece que isso é unânime. E depois?
E depois?
E depois estou a ver o dia em que vou começar a repetir-me a mim mesmo. A escrever uma Ressurreição, como Tolstoi escreveu, que não tem a grandeza dos outros livros. É o meu receio. Será que estou a rapar o fundo ao tacho? Será que ainda tenho mais um ou dois livros para escrever? O que é que vou fazer depois? Não sei fazer mais nada. Vivo disto e construí-me para isto. Pareço uma galinha a proteger os ovos. Não tenho nada a acrescentar, o livro tem de se defender sozinho. Esta unanimidade por todo o lado: às vezes penso que é uma fraude, que vou acordar e perceber que é tudo mentira. Tive um pesadelo há um mês ou dois: estava morto há 20 anos e as pessoas estavam a discutir os livros e eu, angustiado, queria voltar a viver para dizer: "Não é nada disso."
Houve uma altura em que disse que já não se importava em ganhar o Nobel. Mas, se o ganhasse, era mais para os seus pais.
Era. Mas repare, só este ano, pareço um cavalo: ganhei o [prémio] Ibero-Americano, o Terence Moix [Espanha], o Camões pelo meio, agora foi este Juan Rulfo, a coisa francesa [Comendador da Ordem das Artes e das Letras].
Se lhe telefonassem a dizer: "O Nobel é seu", em quem é que pensaria?
Mas isso não tem que ver com a literatura, não torna os livros melhores ou piores. Se me disser o nome de um jurado, digo-lhe quem ganha. Em Portugal, se conhecer os membros do júri, sei quem vai ganhar o prémio. Gostamos daquilo que prolonga os nossos gostos, do que é da nossa família. O difícil é dizer: "Não gosto, mas o livro é bom." Confundimos as ideias com as paixões: gosto, logo é bom, não gosto, logo é mau. O Musil: ele é bom, mas não gosto. Uma chatice e pêras. O [Hermann] Broch: aquele primeiro capítulo da Morte de Virgílio parece feito em cinemascope. Uma maravilha.
Há maus livros de que gosta?
Há. O único livro que me fez chorar até hoje foi o Love Story, que li em África. O livro é uma merda, cheio de cordelinhos, e adorei. "Isto é uma merda, para que é que estou para aqui a chorar?" Não sei se não tinha que ver com o isolamento em que estava. Os livros também são a nossa circunstância. Então, devia ser o nome dos leitores a aparecer na capa dos livros. Estamos a projectar os nossos fantasmas, sofrimentos, medos.
Para o leitor, essa projecção é inescapável. E também projectarmos o que sabemos da vida do autor naquilo que lemos. Ou seja, leio o seu livro e penso: está a ajustar contas com o pai, foi escrito depois do cancro e parece-me ver morte em todo o lado, há uma pulsão libidinosa que talvez o prenda à vida. As mulheres parece que só servem para fornicar - há um desacerto na relação com elas. Tudo isto é consanguíneo. E uterino.
Não acha que as mulheres são tratadas com respeito? É que cada vez mais as mulheres me parecem uma salvação do homem e do mundo.
Não é tanto o desrespeito. É tudo passar-se numa base de sedução/submissão.
Ah, mas quem manda são as mulheres, tem alguma dúvida? Os homens é que são escolhidos. Quando elas são inteligentes dão ao homem a sensação de que ele está a fazer uma conquista, mas já foram escolhidos. Como na ordem animal. Tendem a escolher machos dominantes - mais não seja pela preservação da espécie. Somos os descendentes dos mais fortes, dos que sobreviveram aos maremotos, às pestes. Não é por acaso que quero um homem com poder - é a mesma lógica que leva à escolha do macho dominante.
Depois, quem manda é ela?
Depende das relações. Porque é que há-de haver uma competição, um patrão e uma empregada? Tem que ver com a nossa maturidade. Durante muitos anos, nas minhas relações, havia um que mandava e outro que obedecia. Agora já não penso assim.
Quando é que cresceu?
Às vezes o Cortesão, um homem a quem devo muito, psiquiatra, dizia: "Não sei se é a análise que muda as pessoas, se é o tempo que lá estão." Em nove anos uma pessoa vai mudando.
Fez análise nove anos?
Não sei. Bastantes. Sei que saí de lá e aquilo não me serviu para nada. "Para que é que venho aqui?, sou mais inteligente do que você." Tudo aquilo me parecia um conto de fadas científico.
Estava a concordar com o seu pai.
Até certo ponto, sim. O que é a depressão? É quando a gente deixa de pensar.
Deixa de querer viver.
Não sei. O suicídio é uma coisa complexa. O suicídio é a morte de um outro. Estou a matar uma parte para viver com a outra eternamente. Fazia-me impressão o sentimento de imortalidade que havia nas pessoas que faziam tentativas de suicídio e que sobreviviam. Elas não se estavam a matar a elas. O meu bisavô, quando se matou, estava a matar o cancro. Uma coisa aprendi: ninguém, tenha a idade que tiver, está preparado para morrer. E a nossa capacidade de sobrevivência é através dos artistas. Aquele concerto de Ano Novo, em Viena, que eu vejo sempre, comovido até às lágrimas: aquela música do Strauss é uma tal vitória sobre a morte... Sinto-me vingado. A grande arte é essa.
A que nos vinga, a que nos enche de vida?
O quadro que eu prefiro é As Meninas, do Velasquez. Aquilo é um grande livro, um grande tudo. Mas onde é que está o livro? Não há livro, há vida. Aquele quadro ou o Vermeer: enquanto houver pessoas destas, a nossa vida não foi em vão. Não acabou com o absurdo final e a injustiça final da morte.
Esse é o último combate? Com a morte, o tempo.
O Ovídio escrevia: "Os meus livros hão-de resistir ao tempo, ao fogo e ao ferro." E resistiram. Dois mil anos depois, aquilo pertence a todos nós. Julgo que era isto que o meu pai intuía que não era capaz. Uma vez mostrou-me uns contos que tinha escrito; "Quer que fale como seu filho ou como escritor? Se quer que fale como escritor, isso é uma merda." Meteu aquilo numa gaveta. De facto, eram uma grande merda. Uma coisa é ter a sensibilidade, outra coisa é ter os meios de expressão. Para escrever é preciso orgulho, paciência e solidão. Um livro é uma coisa que consome dias e noites, e vive ali, num corpo a corpo constante. O único mérito é trabalhar muito. Se tivermos sorte, é ficar como As Meninas ou Ovídio.
Interessa-lhe o que as suas filhas lêem nos seus livros?
Nunca falámos sobre isso. Nunca lhes falo sobre o que faço, nunca lhes peço opinião. Nem peço a ninguém.
Não está interessado em saber?
Acho que é uma pergunta íntima. Deve ser difícil ser minha filha. O nome torna-se pesado. Elas fazem uma separação clara. Para elas eu sou o pai. A Isabel [a filha mais nova], que está em Londres, estava toda orgulhosa porque na faculdade de uma delas [flatmates] iam fazer "um curso sobre o pai". "Já leste algum livro?", "Nunca li nenhum." A conversa ficou assim. E é uma chatice terem um pai público.
Porque as rouba?
Provavelmente. Carregam um nome pesado, que para mim já é pesado. No outro dia estava ao espelho a fazer a barba: "Eh pá, sou o António Lobo Antunes." Tudo isto que me aconteceu... Eu tinha sonhos de glória aos 15 anos, queria descer a Avenida da Liberdade a acenar à multidão entusiasmada. Até perceber que a glória não é o mais importante.
A glória não tem importância?
É hipócrita dizer que não é agradável. A unanimidade é assustadora, mas é agradável. A quantidade de gente que me diz na rua: estou à espera que ganhe o Nobel. E vão ter uma desilusão amanhã. Até pode ser que ganhe, mas aquilo é uma lotaria, não me parece haver um critério.
O que é que o reconciliou com a vida? Dantes era recluso, zangado.
Sempre gostei de viver. Percebo a ideia da sua pergunta.
Agora comove-se muito mais e fala de ternura.
É natural, porque passei por uma experiência radical. Foi um preço muito alto, mas talvez pelas coisas boas a gente tenha de pagar um preço alto.
Viver é um ofício. Ofício de viver.
Pavese. Ele também escreveu: "Virá a morte e terá os teus olhos". Mata-se num quarto de hotel, em Turim.
Ocorreu-lhe o suicídio?
Claro que sim, como a toda a gente. Mas mais como devaneio. Em mim é muito clara a consciência da missão.
Por acaso estava a pensar no período da doença.
Aí não. Estava a fazer a radioterapia e falava com o cancro: "Morre, morre, morre." Insultava-o. Enquanto na guerra o inimigo está fora e pode matá-lo, aquilo está dentro de si. É uma parte sua que se revolta e a quer destruir. Tive a sorte de ter um bom sistema imunitário e acho mesmo que Santo António me protegeu. É engraçada a relação com Deus. Dantes zangava-me quando via a morte de crianças. Agora já assisto a isso melhor. Como aceito a minha. Que é que vai ficar de mim? Livros. Já não é mau. Já não é mesmo nada mau se eles forem aquilo que eu acho que eles são.
12.10.2008
Ninguém, senão Lobo Antunes, poderia escrever a seguinte frase: "Um camafeu com crisântemos pintados." Ou:"Girinos novos e abelhas incompletas a aprenderem a ser." Tem uma voz própria. Aprendeu a ser. Ou como ele diz: "Ninguém escreve como eu."
Lobo Antunes c'est lui. Uma única voz. Falou de querer pôr a vida toda dentro das capas de um livro. Do pai. Do Antonioni de que já gosta. Do que aprendeu com Cartier Bresson, que lhe pediu que escrevesse para fotografias suas. Do pai. Sempre do pai. Talvez o pai tivesse razão. E mais que tudo da doença. E se eu morrer? Falou do sapateiro que dizia que as mulheres seduzem pela palheta; porque elaboram melhor as emoções, os afectos. Os homens são primários: um par de pernas que passa e ficam a olhar - ele fica a olhar. Da doença. Da alegria em que o haver sol o deixa. Do livro que acaba de sair, Arquipélago da Memória. De que é que trata o livro: do que vai escrito nele. No dia seguinte à conversa, seria revelado o nome do Nobel da Literatura de 2008.
Diz na sua fotobiografia que, ao seu avô querido, o único lamento que ouviu foi quando ele lhe pousou a mão no pescoço, antes da morte. Perguntei-me qual teria sido o seu lamento, quando esteve doente.
Não tive tempo de ter medo. A minha reacção foi de espanto. Pensava que tinha hemorróidas quando fui fazer o exame. Quando acordei da colonoscopia: "O que é que eu tenho?" "Tens um cancro." É uma sensação muito estranha. "Então, nesse caso, quero ser operado amanhã." Pedi para chamarem um cirurgião que já operou dois mil e tal cancros destes; é meu colega de curso, um homem extraordinário. Nunca mais me esquece que estava na sala da anestesia, de repente senti que me estavam a dar a mão, e era ele. Deve ter sido muito difícil operar um amigo. O meu irmão João operou agora o Pedro [irmão]. Fiquei com uma enorme admiração por ele.
Contou isso numa crónica, há umas semanas.
De uma coragem. E discrição, dignidade. Depois tive de passar por aquele calvário da quimioterapia, radioterapia. Acabou há um ano. Tive muita sorte. De ter um grande cirurgião, de não ter metástases, faço controles. O que até é bom, que nunca tinha feito um check up na vida.
Porquê? Um médico, filho de médico, com irmãos médicos...
Tinha medo de fazer um exame e ter qualquer coisa - não me apetecia. E agora periodicamente faço exames a tudo, fígado, rim... Fiquei surpreendido: estava tudo tão bem. Como é que diz o S. Francisco de Assis? "Confesso que pequei muito contra o meu pobre irmão corpo." A grande lição: são as pessoas. Pessoas que sabiam que iam morrer. Às vezes tinha vergonha: "Eu vou viver, eles vão morrer."
Vergonha?
Era uma sala de espera imensa, para a radioterapia, mais de cem pessoas, uma televisão acesa que ninguém olhava, revistas nas mesas que ninguém lia. Toda a gente em silêncio. Parecia estar rodeado de reis, de príncipes, de princesas. Havia de tudo, miúdos de 17, 18 anos, até pessoas de 80 e tal. Algumas já muito magras, com a cor horrível das metástases hepáticas. Já com a cara da morte delas. E depois, coisas muito comoventes: esta semana, fiz a revisão, e uma senhora, já deitada numa maca, a pedir-me um autógrafo.
Ali, continuava a ser o António Lobo Antunes?
É isso: continuava a ser o António Lobo Antunes. Eu não imaginava que fosse tão...
Popular? Querido?
Sim, sim. Durante a doença foram centenas de cartas e emails. O pós-operatório foi muito doloroso. Não me podia mexer. E o Henrique [médico] apareceu-me com um email de um miúdo que dizia: "Não admito que o meu ídolo se vá abaixo das canetas." Isto deu-me imensa força. Ajudou-me muito o Júlio Pomar; enquanto outras pessoas me diziam: "A minha tia teve isso, a minha irmã", o Júlio Pomar tinha tido o mesmo cancro há 15 anos e o que me disse foi só: "Aguenta-te." Isto deu-me mais força que palavras de consolo. "E se eu morrer"? "Aguenta-te." Depois passei dois meses sentado numa cadeira. Este livro que está a sair, tinha-o começado antes. Será que vou ser capaz de escrever? Estive três meses sem escrever nada, nada. Depois recomecei, mas cansava-me.
A escrever, a articular o livro na sua cabeça?
Nunca escrevi na minha cabeça. Trabalho sem plano. Acabei este que leu em Outubro ou Novembro [do ano passado], e depois de um mês sem fazer nada começo a sentir-me culpado. Decidi então: dia 25 de Fevereiro começo. E no dia 25 de Fevereiro comecei a escrever. Começo sem nada. Agora começo sem nada.
Tinha ideia de que nos primeiros livros as coisas eram arquitectadas na sua cabeça.
Nos primeiros livros, sim. Fazia planos, muito detalhados.
Há até aquela coisa das Obras Completas de António Lobo Antunes que estruturou na sua juventude...
Era. Tinha dez, 11 anos. Nem imagina: era até 2050, ou coisa assim, e era tudo: ensaio, poesia, romance, conto, teatro. Nunca escrevi nada daquilo, claro. Punha no alto da página: Obras Completas de António Lobo Antunes. Nos primeiros livros fazia [planos]. Quando comecei a fazer os livros de que gosto, mais ou menos a partir d'O Esplendor de Portugal - até lá, se voltasse atrás, ia tudo fora - deixei de ter planos. Sei que me faltam três capítulos [do que estou a escrever agora] para acabar a primeira versão. Mas depois aquilo é tão trabalhado, emendado, reescrito.
Disse uma vez que não lia os seus livros.
Depois de sair não leio mais. Não leio porque tenho medo. Os primeiros livros: não gosto nada. Parecem-me escritos por outra pessoa. Não têm nada que ver comigo. Nos últimos fiquei espantado. Eu não escrevo assim tão bem.
Como se fosse uma mão autónoma?
Estava a ler aquilo como se tivesse sido escrito por outra pessoa. Há livros de que gosto, mas que não gostaria de ter escrito. Simenon, por exemplo. Ou Graham Greene. Certos policiais: o Rex Stout. Tinha uma atitude idiota e arrogante em relação aos policiais. O Cardoso Pires dizia-me que os policiais eram importantes para aprender uma série de coisas: a retenção de informação, que a informação é dada de forma lateral. Estive três meses sem escrever e perde-se um bocado a mão. Os cirurgiões nunca fazem férias longas.
Falou especialmente com o seu irmão João durante a sua doença?
Não. Não falei com ninguém, nem queria falar com ninguém. Tenho um grande pudor na relação com as pessoas de quem gosto. O que sentia era um imenso vazio dentro de mim. Vou morrer. E tinha imensa pena de não ter acabado a obra. Não ter arredondado.
O que é esse "vou morrer"? Tenho pena de morrer? Tenho medo de morrer? As coisas que vou deixar de fazer. Os que vou deixar.
Era o espanto. O Paulo Klee, o pintor, escreveu: "Como posso eu, cristal, morrer?" Não era medo. Era pena. Sabia lá se ia morrer? Pensava que sim, pensava que não. Era duro. Mas era pior para os outros. Acho que escrevi isto numa crónica: raparigas com cabeleiras postiças - eram coroas. Em Santa Maria, são pessoas humildes; a dignidade com que se comportam é extraordinária. Não vê ninguém a lamentar-se, a agarrar-se a si, "ajude-me".
Comecei por perguntar pelo seu lamento.
Quando o meu avô disse: "Tenho muita pena de vos deixar a todos"? Eu tinha acabado de fazer 18 anos.
Já não traz o anel do seu avô, com que sempre andava.
Não o tenho posto. Já vem de há não sei quantas gerações. Não tenho nobreza de espécie alguma. O avô do meu avô era um pobre camponês de Póvoa do Lanhoso que o pai meteu num barco à vela para o Brasil, para se fazer à vida. Não tenho nenhum sangue azul, tudo o que corre nas minhas veias vem de gente pobre. O meu pai falava com um imenso orgulho de um bisavô marceneiro. A minha ascendência é esta.
As pessoas têm a ideia de que é uma família de viscondes há dez gerações. Os rapazes Lobo Antunes têm boa pinta, olho azul.
Olho azul, as minhas avós tinham as duas. É evidente que isto foi-se apurando, mas as origens são estas.
Porque é que tem orgulho nessas origens modestas?
Porque o meu nome fui eu que o fiz. Não o herdei de ninguém. O primeiro Lobo Antunes foi o meu avô, que era feito de um senhor Antunes e uma senhora Lobo. Os Lobo Antunes são os seis filhos que o meu pai teve. Deu-nos uma educação muito normativa. Mas todos os filhos têm bom carácter. Todos trabalham que se fartam. Todos são pessoas sérias. Podem ser mais ou menos inteligentes, ter mais ou menos talento, mas essa qualidade todos têm. O meu pai tinha um horror visceral à mentira - nunca o vi mentir - à cobardia e à desonestidade. Não era criativo. Nem tinha imaginação. Como pai foi excepcional. Era tudo muito austero, e com muito pouco dinheiro. Eram muitos filhos, ele trabalhava no hospital.
Não se preocupava em ganhar muito dinheiro. O dinheiro não parecia ser uma coisa essencial.
Sempre teve um grande desprezo pelo dinheiro. Lembro-me de ele dizer à minha mãe: "Margarida, dá-me cem escudos para encher o depósito do Lância." Lância que só teve aos 50 anos. Era o pai que o levava ao hospital e ele ia de lancheira, para almoçar. Não havia semanadas, não havia nada disso. Ah: obrigava-nos a ler e a ouvir música. Em férias, lembro-me de me mandar fazer resumos de capítulos de livros de que ele gostava, tirar significados. Que era uma chatice, eu estava em férias, era uma criança. Lembro-me de ter ido fazer a primeira comunhão a Pádua, por causa de uma promessa do meu avô - tive uma meningite e estive em coma. E eram palestras de meia hora diante de cada quadro. Para uma criança de sete anos, era um frete.
Aponta essa viagem a Pádua como um dos grandes acontecimentos da sua vida.
Claro que foi.
E, durante toda a viagem, ia no carro a fazer que guiava.
Tinha um volante de plástico. Está a ver o que é atravessar Espanha, França, Suíça, Itália, há 60 anos, para fazer a comunhão em Itália? Passar um mês assim. Lembro-me de ele [avô] junto ao túmulo de Santo António - que ele era muito devoto, como eu sou - me pôr a mão no túmulo e com os olhos cheios de lágrimas: "Promete-me que quando tiveres um filho lhe chamas António e o trazes a Pádua para fazer a primeira comunhão." Gostava de estar com pessoas - eu não sou assim. Sou uma pessoa fechada e isolada. Vejo muito pouca gente. Também há tão poucas pessoas de quem eu gosto, muito... E ao fim de uma hora já me apetece estar sozinho.
Observei-o num acontecimento social, um jantar em sua honra. E, apesar da simpatia, parecia que estaria melhor se estivesse consigo, a ler ou a escrever. Quase não falou, de resto.
Por acaso foi um jantar agradável. Desde que não tenha que falar... Gostei desse jantar porque gosto de ouvir as pessoas e estavam pessoas de quem gosto.
Isto era a propósito do anel que não tem posto.
Não gosto de anéis. Tenho mãos quadradas, com dedos curtos. Não gosto de me ver com anéis, punha-o por ele. Qualquer dia ponho. Ah, sabe porque é que deixei de pôr? Achei que não o merecia porque ia morrer. Quis dar o anel à Zezinha [filha mais velha], "toma lá o anel", que seria para ela, e depois para o filho dela. Não aceitou. Nunca mais voltei a pô-lo.
Foi uma maneira de a sua filha lhe dizer: viva, viva.
Não sei o que estava na cabeça dela. Faço muito poucas perguntas. Também não gosto que me perguntem sobre a minha vida. O meu pai morreu há quatro anos, e muito mudou em mim - até estar em paz com ele. Está a ver como fiquei muito mais terno com a doença? Estar aqui sentado já é uma festa. Haver sol. Eu não tinha isto. Agora sinto-me em paz comigo.
O que é que mudou com a doença, ou seja, com a sombra da morte?
Aldrabices, mentiras, jogos, em nada na minha vida - nem nos livros. A doença foi fulcral.
Foi um processo duro, súbito, curto.
Foi muito violento, de Março até fim de Setembro. Muito longo.
O terramoto anterior foi a morte do seu pai?
Não foi um terramoto para mim.
Foi um alívio?
Não sei o que sentia por ele. Amor é uma palavra difícil. Era o meu pai, pronto. Como a minha mãe é a minha mãe. Foi evidentemente importante para mim sob esse ponto de vista - normativo -, mas sempre tive a sensação de que não tinha nascido deles - porque era tão diferente deles.
Essa frase aparece no livro: "De quem nasci eu?"
Agora vejo que sim. Tenho coisas do meu pai, da minha mãe. Não havia nenhuma tradição ligada a livros. O meu pai gostava muito de ler, a minha mãe também, mas o meu avô nunca o vi pegar num livro. De onde é que isto vem? E sentia-me diferente. Será que eu pertenço a esta família? Vejo os meus irmãos tornarem-se cada vez mais parecidos com o meu pai; provavelmente eu também. Não sei se já lhe aconteceu: da nossa boca saem frases que não são nossas. São da pessoa com quem vivemos, muitas vezes. Certos tiques de vocabulário que não nos pertencem e que o convívio traz. Gestos. E saem-me frases que são do meu pai; certas maneiras de articular, pausas.
Ele lia-o?
Dava-lhe os meus livros, ao princípio. Depois, não. Para quê?
O que é que esperava dele? Um comentário?
Nada. Perguntei-lhe sobre a Memória de Elefante, o que é que ele achava; respondeu: "É o livro de um principiante." Fiquei furioso. Ele tinha toda a razão. Nunca ouvi o meu pai elogiar um filho, fosse para o que fosse, e tinha filhos para todos os gostos e feitios. Só no hóquei, quando eu marcava um golo bom. Uma vez tive um muito bom num ponto, e havia miúdos que iam pedir dinheiro aos pais, cinco paus; e a resposta foi: "Só quando tiveres um bestial." Como nunca tive um bestial, nunca recebi nada. Nem um elogio, nem uma recriminação. A mim, nunca me recriminou nada.
Ainda que não recriminasse, o facto de dizer que a psiquiatria era uma disciplina menor era uma forma de o apoucar. De diminuir a sua escolha.
Em relação à psiquiatria, tinha uma certa razão. Quando morreu, o Miguel disse: "O pai deixou uns envelopes." Pensei que fosse um envelope para cada filho. E todos os envelopes diziam António por fora. É uma carta de 600 páginas. Fiquei a saber o que é que pensava de mim - que eu não sabia.
O que é que pode contar dessas páginas?
Não sabia que ele tinha tanto orgulho em mim. Havia naquele homem uma imensa impiedade.
Estou a ouvir o personagem do seu livro que diz "idiota, idiota", referindo-se ao filho.
Ele não é personagem, o livro não tem personagens, não conta histórias. Cada vez mais os livros sou eu. Nem sei se sou eu. O que eu queria era pôr a vida inteira lá dentro. Os livros não são seus. É como os filhos: também não são nossos. Também não são de mais ninguém. São deles mesmos, se forem.
Perguntei-me se este livro não era um ajuste de contas com o seu pai.
Não tem nada que ver com o meu pai. A voz daquele avô... é um jogo de enganos, nada daquilo existe, passa-se numa cabeça. Os livros, cada vez mais, são também sobre como escrever livros. Portanto, aquele avô é um pobre diabo, sem força nenhuma. Houve dois capítulos que me deram muito prazer: o da morte, que é a Dona Hortelinda, que vai levando as pessoas, e o da Maria Adelaide. Julgo que são as únicas pessoas que têm nome no livro.
Há um Jaime.
Quem? Ah, um que nunca aparece.
A Maria Adelaide parece a encarnação de qualquer coisa boa, um desejo da infância.
A infância é boa retrospectivamente. Na realidade é um período dramático, de grande sofrimento, como a adolescência é. A maior parte das crianças são infelizes. Estão sempre a frustrá-las. Por que carga de água tenho de estar sempre a lavar os dentes?, porque é que tenho de comer sopa?
Davam-lhe tareias quando se portava mal.
Apanhava, apanhava pancada.
Normalmente não fala disso. Fala é de não lhe darem beijos ou um prato com bolachas e leite quando estava doente.
O meu pai detestava que apanhássemos pancada. Fomos ensinados a bater para não sermos batidos. Ele organizava combates de boxe, até ao dia em que o João lhe deu um soco, ele caiu e acabou-se o boxe. Tirou a luva, deu-lhe um estalo e foi-se embora - nunca mais me esquece isso. Uma vez pôs-me a jogar contra o Pedro, o Pedro estava a deitar sangue do nariz e eu não queria bater-lhe. Isto com a porta fechada à chave, para a minha mãe não entrar. E ele dizia: "Bate-lhe, senão bato-te eu a ti." No fundo, acho que aquele homem vivia no pavor da homossexualidade. Achava que uma das coisas da homossexualidade era a falta de coragem física. Tinha um profundo desprezo pela cobardia física. Até muito tarde andou à pancada.
É de andar à pancada?
Era uma das coisas de que as minhas filhas tinham medo: que eu saísse do carro para andar à trolha. Passei por cenas caricatas... Às vezes tenho vontade de sair do carro. Não me fazem nada, só me passam pela direita. E torno-me infantil. De resto, não. Já não ando à tareia há mais de seis meses.
Quando é que, realmente, andou à pancada a última vez?
Há uns meses dei um estalo a um gajo de mão aberta, de propósito. Não foi com muita força, mas foi um estalo - e isso humilha. Um murro não humilha. Porque é que foi? Não me lembro. Aquilo é feito com sentido lúdico. Como se fosse um miúdo.
Com um sentido lúdico, mas para humilhar.
A esse, quis humilhá-lo. Isto não tem interesse nenhum, está a ser muito confessional.
A pergunta é: porque fala menos da violência física que da violência emocional. De não ter sido mimado.
Estou a ser injusto. Eu era o filho mais velho de dois filhos mais velhos. Toda a gente estava viva, os meus avós tinham 40 anos quando nasci, não havia mortes. Entrei para a universidade, tinha acabado de fazer 17 anos, e em Outubro estava no teatro anatómico; nunca tinha visto cadáveres. Havia uma espécie de pias, mesas, para o sangue - que não havia - escorrer. O empregado disse: "Meus senhores, está a sopa na mesa." Passados dois meses já mexia naquilo sem luvas - cadáveres com um ano de frigorífico, cheios de formol.
O cadáver passa a ser carne do talho? É a maneira de lidar com isso sem medo, sem repugnância? Tratar aquilo como uma matéria. Como é que se ultrapassa o nojo?
Não era nojo. Era terror. Todos nus, no dedo grande do pé tinham uma etiqueta, com um cordel. Um espectáculo horroroso.
Como é que se passa do terror à indiferença?
Não me lembro. Deve ter sido gradual. Não os via como pessoas. Eram apresentados assim: agora é a articulação tal ou são os músculos tais. Tenho notado nesta coisa que os cirurgiões têm: não é uma úlcera ou um cancro, é uma pessoa que está ali. Para outros, é uma máquina, um objecto.
A úlcera está aqui, o cancro acolá, este órgão ali; e os sentimentos, onde ficam?
O meu pai, já que falou nele, e para acabar com o pai - que foi importante, mas não foi decisivo - tinha um imenso respeito pelos doentes. Era terno, fazia-lhes festas. Foram as únicas pessoas a quem o vi fazer festas. Isso incutiu em nós um enorme respeito pelo sofrimento. E outra coisa: um infinito respeito pelo sigilo profissional. Nunca disse o nome de um doente. Era um bom médico - privado dessas coisas que eu disse: imaginação, criatividade.
Era capaz de acariciar um doente, mas quando um de vós estava doente, não vos acariciava.
Olhava da porta e mandava tomar aspirinas. E, quando havia injecções para dar, era a minha mãe que dava. Ah: sentava-se na borda da cama a ler poesia - a gente tinha que gramar aquilo. A minha mãe dizia que quando ele, na casa de banho, dizia poesia, enquanto se arranjava e barbeava, ela ia a correr para o ouvir. Sempre teve um enorme respeito pelos artistas, talvez por não ser um criador. Pouco antes de morrer o Miguel perguntou-lhe: "O que é que o pai gostava de nos ter deixado?", e respondeu logo: "O amor das coisas belas." As coisas que para ele eram belas não eram necessariamente as minhas.
No Arquipélago da Memória escreve: "Se me abraçassem, recusava indignado, e no entanto abracem-me." E a outra, referindo-se à personagem Mãe: "Uma ocasião pegou-me na cara, tive medo que me desse um beijo."
É tão comum, essa mistura de desejo e de...
Medo?
A nossa sede de ternura é infinita. Porque fomos sempre mal amados na infância. Não há nada mais terrível do que a relação de um filho com um pai ou uma mãe. É muito ambivalente. São os pais que impõem as normas, "tens de fazer chichi no coiso, o guardanapo". Temos tanta dificuldade em aceitar aquilo que mais desejamos. É muito curioso e paradoxal. As pessoas deste livro pedem muita ternura, é?
Estas pessoas, que são uma pessoa, pedem ternura.
Há um núcleo impartilhável em todos nós. Um livro é escrito com muito sofrimento. Estava a tentar olhar para o livro: não o vejo assim. Vejo-o como um todo.
Pareceu-me que tresanda a morte.
Mas eles não morrem, pois não?
Querem matar-se todos, e matam-se todos, de maneiras diferentes. Com uma sachola, com a corda do estendal. Porque se detestam. Porque se humilham.
Achou o livro assim tão negro? Mas isso, muitas vezes, tem que ver connosco, leitores, com o estado de espírito com que se lê os livros e com aquilo que nos livros vai tocar a nossa experiência de vida. Os leitores da agência rejubilaram com o livro.
Não estou a dizer que não é uma obra-prima. Estou a dizer, se me pergunta, que me convocou uma sensação de claustrofobia.
Quando a mão é feliz... A Morte de Ivan Ilich: não pode haver coisa mais angustiante, que rasga. E é um livro que me dá uma felicidade enorme ler. O que me importa, enquanto leitor, é a felicidade da mão. O que me interessa num livro, é quando é bom. O tema? Não há temas. As pessoas não contam histórias. Como eu estava a dizer aos americanos - a Odisseia: tenho a minha mulher à espera. Anna Karenina: uma mulher que está casada aborrece-se, o marido é um maçador, apaixona-se por um vigarista, aquilo corre mal, ela morre.
Atira-se à linha do comboio. Podia ter escolhido outra morte qualquer.
O que interessa é a maneira como [Tolstoi] faz isto. As intrigas não valem nada.
A esgrima é o que lhe interessa. Como é que a mão esgrime?
É um problema da mão, sempre. Os livros do Tolstoi são bons porque ele tinha uma grande mão. Em arte, é tudo uma questão de mão: seja a escrever, seja a pintar, seja a fotografar. E quando as páginas se tornam espelhos? O Monte dos Vendavais não é um romance: aquilo é tudo. Só acontecem coisas horríveis, e saímos daquele livro maravilhados.
Cheios de vida, exaltados.
Exactamente. É pôr a vida inteira dentro das capas de um livro.
Quando digo que tresanda a morte, não digo que me apeteça morrer ou matar-me, ou matar.
Não queria falar sobre isso, mas eu estive na guerra. Matar é muito fácil. Quando o Melo Antunes estava doente, nunca tínhamos falado sobre a guerra e ele começou a falar; a mulher aproximava-se e ele dizia: "Não podemos falar mais." Perguntava-lhe: "Ernesto, porque é que não sentimos culpabilidade?" Assisti e participei em coisas horríveis. E ainda hoje não sinto culpabilidade. Porquê? Ele também não soube responder. É estranho. Porque sinto culpabilidade por ter ferido uma pessoa verbalmente, por ter sido injusto para alguém.
Sente culpabilidade por que pensa que vai sobreviver àqueles que estão na mesma sala, à espera da radioterapia.
Sentia-me culpado porque eu ia viver e eles não. Eles eram melhores do que eu. Tinham coragem. Eu estava todo borrado. Li um bocadinho das cartas da guerra, cartas que me oferecia para ganhar o meu respeito; cheguei a ir sentado no guarda-lamas dos rebenta minas. Porque me achava um cobarde e me enojava a cobardia física. Assisti uma única vez ao espectáculo da cobardia física, e é repelente. Os nossos soldados eram miúdos, de 19, 20, 21 anos. Admiráveis. Agora vão para a discoteca, naquela altura iam dar tiros. Iam matar e morrer. Voltando ao livro: o que eu queria era meter lá a vida toda, e não acho que seja triste. Acho que sou agora mais alegre do que era.
Como é que ficou mais alegre?
Estive do outro lado e garanto-lhe que não é agradável. Tenho de dar muitas graças à vida, às pessoas que trataram de mim. Recomeçar o livro depois da doença, não sabia se era capaz. Queria ir mais longe. Não sou modesto, mas sou humilde. Sabemos muito pouco do que queremos escrever e hei-de levar a vida a tentar aprender. Estou a lembrar-me de uma entrada no diário de Tolstoi, em que ele escreve: "Lutei toda a vida para ser melhor do que o Shakespeare, e sou. E depois?" Eu agora não minto e sou honesto: ninguém escreve como eu - parece que isso é unânime. E depois?
E depois?
E depois estou a ver o dia em que vou começar a repetir-me a mim mesmo. A escrever uma Ressurreição, como Tolstoi escreveu, que não tem a grandeza dos outros livros. É o meu receio. Será que estou a rapar o fundo ao tacho? Será que ainda tenho mais um ou dois livros para escrever? O que é que vou fazer depois? Não sei fazer mais nada. Vivo disto e construí-me para isto. Pareço uma galinha a proteger os ovos. Não tenho nada a acrescentar, o livro tem de se defender sozinho. Esta unanimidade por todo o lado: às vezes penso que é uma fraude, que vou acordar e perceber que é tudo mentira. Tive um pesadelo há um mês ou dois: estava morto há 20 anos e as pessoas estavam a discutir os livros e eu, angustiado, queria voltar a viver para dizer: "Não é nada disso."
Houve uma altura em que disse que já não se importava em ganhar o Nobel. Mas, se o ganhasse, era mais para os seus pais.
Era. Mas repare, só este ano, pareço um cavalo: ganhei o [prémio] Ibero-Americano, o Terence Moix [Espanha], o Camões pelo meio, agora foi este Juan Rulfo, a coisa francesa [Comendador da Ordem das Artes e das Letras].
Se lhe telefonassem a dizer: "O Nobel é seu", em quem é que pensaria?
Mas isso não tem que ver com a literatura, não torna os livros melhores ou piores. Se me disser o nome de um jurado, digo-lhe quem ganha. Em Portugal, se conhecer os membros do júri, sei quem vai ganhar o prémio. Gostamos daquilo que prolonga os nossos gostos, do que é da nossa família. O difícil é dizer: "Não gosto, mas o livro é bom." Confundimos as ideias com as paixões: gosto, logo é bom, não gosto, logo é mau. O Musil: ele é bom, mas não gosto. Uma chatice e pêras. O [Hermann] Broch: aquele primeiro capítulo da Morte de Virgílio parece feito em cinemascope. Uma maravilha.
Há maus livros de que gosta?
Há. O único livro que me fez chorar até hoje foi o Love Story, que li em África. O livro é uma merda, cheio de cordelinhos, e adorei. "Isto é uma merda, para que é que estou para aqui a chorar?" Não sei se não tinha que ver com o isolamento em que estava. Os livros também são a nossa circunstância. Então, devia ser o nome dos leitores a aparecer na capa dos livros. Estamos a projectar os nossos fantasmas, sofrimentos, medos.
Para o leitor, essa projecção é inescapável. E também projectarmos o que sabemos da vida do autor naquilo que lemos. Ou seja, leio o seu livro e penso: está a ajustar contas com o pai, foi escrito depois do cancro e parece-me ver morte em todo o lado, há uma pulsão libidinosa que talvez o prenda à vida. As mulheres parece que só servem para fornicar - há um desacerto na relação com elas. Tudo isto é consanguíneo. E uterino.
Não acha que as mulheres são tratadas com respeito? É que cada vez mais as mulheres me parecem uma salvação do homem e do mundo.
Não é tanto o desrespeito. É tudo passar-se numa base de sedução/submissão.
Ah, mas quem manda são as mulheres, tem alguma dúvida? Os homens é que são escolhidos. Quando elas são inteligentes dão ao homem a sensação de que ele está a fazer uma conquista, mas já foram escolhidos. Como na ordem animal. Tendem a escolher machos dominantes - mais não seja pela preservação da espécie. Somos os descendentes dos mais fortes, dos que sobreviveram aos maremotos, às pestes. Não é por acaso que quero um homem com poder - é a mesma lógica que leva à escolha do macho dominante.
Depois, quem manda é ela?
Depende das relações. Porque é que há-de haver uma competição, um patrão e uma empregada? Tem que ver com a nossa maturidade. Durante muitos anos, nas minhas relações, havia um que mandava e outro que obedecia. Agora já não penso assim.
Quando é que cresceu?
Às vezes o Cortesão, um homem a quem devo muito, psiquiatra, dizia: "Não sei se é a análise que muda as pessoas, se é o tempo que lá estão." Em nove anos uma pessoa vai mudando.
Fez análise nove anos?
Não sei. Bastantes. Sei que saí de lá e aquilo não me serviu para nada. "Para que é que venho aqui?, sou mais inteligente do que você." Tudo aquilo me parecia um conto de fadas científico.
Estava a concordar com o seu pai.
Até certo ponto, sim. O que é a depressão? É quando a gente deixa de pensar.
Deixa de querer viver.
Não sei. O suicídio é uma coisa complexa. O suicídio é a morte de um outro. Estou a matar uma parte para viver com a outra eternamente. Fazia-me impressão o sentimento de imortalidade que havia nas pessoas que faziam tentativas de suicídio e que sobreviviam. Elas não se estavam a matar a elas. O meu bisavô, quando se matou, estava a matar o cancro. Uma coisa aprendi: ninguém, tenha a idade que tiver, está preparado para morrer. E a nossa capacidade de sobrevivência é através dos artistas. Aquele concerto de Ano Novo, em Viena, que eu vejo sempre, comovido até às lágrimas: aquela música do Strauss é uma tal vitória sobre a morte... Sinto-me vingado. A grande arte é essa.
A que nos vinga, a que nos enche de vida?
O quadro que eu prefiro é As Meninas, do Velasquez. Aquilo é um grande livro, um grande tudo. Mas onde é que está o livro? Não há livro, há vida. Aquele quadro ou o Vermeer: enquanto houver pessoas destas, a nossa vida não foi em vão. Não acabou com o absurdo final e a injustiça final da morte.
Esse é o último combate? Com a morte, o tempo.
O Ovídio escrevia: "Os meus livros hão-de resistir ao tempo, ao fogo e ao ferro." E resistiram. Dois mil anos depois, aquilo pertence a todos nós. Julgo que era isto que o meu pai intuía que não era capaz. Uma vez mostrou-me uns contos que tinha escrito; "Quer que fale como seu filho ou como escritor? Se quer que fale como escritor, isso é uma merda." Meteu aquilo numa gaveta. De facto, eram uma grande merda. Uma coisa é ter a sensibilidade, outra coisa é ter os meios de expressão. Para escrever é preciso orgulho, paciência e solidão. Um livro é uma coisa que consome dias e noites, e vive ali, num corpo a corpo constante. O único mérito é trabalhar muito. Se tivermos sorte, é ficar como As Meninas ou Ovídio.
Interessa-lhe o que as suas filhas lêem nos seus livros?
Nunca falámos sobre isso. Nunca lhes falo sobre o que faço, nunca lhes peço opinião. Nem peço a ninguém.
Não está interessado em saber?
Acho que é uma pergunta íntima. Deve ser difícil ser minha filha. O nome torna-se pesado. Elas fazem uma separação clara. Para elas eu sou o pai. A Isabel [a filha mais nova], que está em Londres, estava toda orgulhosa porque na faculdade de uma delas [flatmates] iam fazer "um curso sobre o pai". "Já leste algum livro?", "Nunca li nenhum." A conversa ficou assim. E é uma chatice terem um pai público.
Porque as rouba?
Provavelmente. Carregam um nome pesado, que para mim já é pesado. No outro dia estava ao espelho a fazer a barba: "Eh pá, sou o António Lobo Antunes." Tudo isto que me aconteceu... Eu tinha sonhos de glória aos 15 anos, queria descer a Avenida da Liberdade a acenar à multidão entusiasmada. Até perceber que a glória não é o mais importante.
A glória não tem importância?
É hipócrita dizer que não é agradável. A unanimidade é assustadora, mas é agradável. A quantidade de gente que me diz na rua: estou à espera que ganhe o Nobel. E vão ter uma desilusão amanhã. Até pode ser que ganhe, mas aquilo é uma lotaria, não me parece haver um critério.
O que é que o reconciliou com a vida? Dantes era recluso, zangado.
Sempre gostei de viver. Percebo a ideia da sua pergunta.
Agora comove-se muito mais e fala de ternura.
É natural, porque passei por uma experiência radical. Foi um preço muito alto, mas talvez pelas coisas boas a gente tenha de pagar um preço alto.
Viver é um ofício. Ofício de viver.
Pavese. Ele também escreveu: "Virá a morte e terá os teus olhos". Mata-se num quarto de hotel, em Turim.
Ocorreu-lhe o suicídio?
Claro que sim, como a toda a gente. Mas mais como devaneio. Em mim é muito clara a consciência da missão.
Por acaso estava a pensar no período da doença.
Aí não. Estava a fazer a radioterapia e falava com o cancro: "Morre, morre, morre." Insultava-o. Enquanto na guerra o inimigo está fora e pode matá-lo, aquilo está dentro de si. É uma parte sua que se revolta e a quer destruir. Tive a sorte de ter um bom sistema imunitário e acho mesmo que Santo António me protegeu. É engraçada a relação com Deus. Dantes zangava-me quando via a morte de crianças. Agora já assisto a isso melhor. Como aceito a minha. Que é que vai ficar de mim? Livros. Já não é mau. Já não é mesmo nada mau se eles forem aquilo que eu acho que eles são.
27 de agosto de 2008
Bénard da Costa, no Público
domingo, 3 de Agosto de 2008
Memórias da imaginação
A minha Mãe costumava dizer que no dia em que nasceu (24 de Agosto) andava o Diabo à solta. Não se referia a 24 de Agosto de 1906, dia em que passou doutra vida a esta, mas a um 24 de Agosto que nem ela nem nenhum de nós, nem nenhum dos que estavam em vida em 1906, conhecera, senão como conhecemos quase tudo: pela memória da imaginação histórica, no caso concreto a memória da imaginação histórica de 24 de Agosto de 1572. Nessa noite - noite de São Bartolomeu, o Apóstolo que morreu esfolado vivo - Catarina de Médicis convenceu seu filho, o timorato Carlos IX, rei de França, a dizimar o partido huguenote. O sinal foi dado pelo sino da igreja de Saint-Germain l' Auxerrois, em Paris, e três ou quatro mil protestantes parisienses foram barbaramente assassinados. A província seguiu a capital, com mais mortes e mais terror. Católicos exultaram e o Papa Gregório XIII, ao saber da chacina, em Roma, mandou cantar um Te Deum. Com os tempos, sobretudo com a conversão do huguenote Henrique de Navarra, futuro Henrique IV, ao catolicismo ("Paris vaut bien une messe") e com a promulgação do Édito de Nantes, que reconhecia a liberdade de culto aos protestantes, a festança dos católicos fanáticos deu lugar ao opróbrio e por isso se passou a dizer que, na noite de 24 de Agosto, andava o diabo à solta.
Nessa mesma data, regressado ao seu castelo no Périgord, no alto de uma colina (a "montanha" que deu o nome a Michel Eyquem, a 28 de Fevereiro de 1533) o Sieur de Montaigne escrevia o capítulo 20 do primeiro livro dos seus Ensaios, sob o título De Filosofar como Aprender a Morrer.
Na sua biblioteca, lia-se a famosa inscrição que ele mandou gravar em latim: "No ano do Senhor de 1571, com a idade de trinta e oito anos, na véspera das calendas de Março, aniversário do seu nascimento, Michel de Montaigne, há muito cansado da servidão ao Parlamento e a todas as outras funções públicas, mantendo intactas todas as suas faculdades e todas as suas forças, retirou-se para o seio das doutas virgens, onde, em repouso e segurança, passará os dias que lhe restarem de vida. (...) Privado do amigo mais doce, mais querido e mais íntimo, como o nosso século jamais conheceu outro que melhor, mais sábio, mais aprazível e mais perfeito fosse, Michel de Montaigne, querendo consagrar à saudade desse amor mútuo testemunho único de reconhecimento e não achando modo de melhor o exprimir, dedicou a essa memória o estudioso edifício que lhe servirá de delícias." A dedicatória percebe-se melhor, se se souber que a biblioteca lhe fora deixada em testamento pelo amigo de que fora privado.
O "amigo mais doce, mais querido e mais íntimo" era Etienne de la Boétie que Montaigne conhecera em 1557 (tinha ele vinte e dois anos, Etienne vinte e seis) e que morreu seis anos depois, pouco antes de completar 33 anos, a 18 de Agosto de 1563.
"Parce que c'était lui; parce que c'était moi" foi a frase famosa em que Montaigne resumiu a razão (se razão é palavra a usar) do amor que os uniu.
Na dedicatória à Ménagerie de Xenofonte (tradução de La Boétie), Montaigne fez publicar a carta que escrevera ao pai contando-lhe "algumas particularidades que observou na doença e na morte do falecido Monsieur de La Boétie".
Há duas passagens mais particularmente perturbantes nessa longa e minuciosa descrição da agonia de um ser amado, que durou precisamente nove dias e nove noites.
Ao quinto dia, um domingo, Etienne entrou em grande prostração. Quando voltou a si, disse que lhe parecia ter estado numa "confusion de toutes choses" e só ter visto uma nuvem espessa e um nevoeiro obscuro, no qual tudo se misturava, desordenadamente. Mas nada disso lhe fora desagradável. "A morte não é pior do que isso, meu irmão", disse-lhe Montaigne, ouvindo-o. "Mais n'a rien de si mauvais" respondeu-lhe ele. Não traduzi a frase, como acima não traduzi a "confusion de toutes choses", porque apesar da transparência das frases, no francês de Montaigne, sempre hesitei na transposição. "Não há nada tão mau" ou " não há nada de muito mau"?
"Irmão, amigo", chama, muito perto do fim, La Boétie. "Ah se soubesses as imaginações que venho de ter (...)." Como são elas, meu irmão? "Grandes, grandes" respondeu o moribundo que, perante a insistência de Montaigne, acrescentou: "Admiráveis, infinitas e indizíveis."
Mas, mesmo à hora de morrer, "começou a pedir-me, com extrema afeição, que lhe guardasse um lugar, repetindo o pedido tão numerosas vezes que eu tive medo que ele entrasse a perder a razão. Mas, embora lhe dissesse muito docemente que ele se estava a deixar arrastar pela doença e que o pedido não se assemelhava a algo com siso, a minha fala não o abalou, antes clamou ainda com maior brado: 'Irmão, irmão, porque me recusas um lugar?' Tentei então convencê-lo pela razão. Disse-lhe que se ele falava e respirava era porque tinha corpo e logo tinha um lugar. 'Um lugar talvez tenha, mas não aquele de que preciso' (...) Há três dias que anseio por partir". Foram as últimas palavras de La Boétie.
No capítulo 20 dos Ensaios, Montaigne revem incessantemente à morte do amigo (sem o citar). "Porque é que se receia tanto perder uma coisa que, uma vez perdida, não pode mais ser lastimada? (...) Àquele que disse a Sócrates: 'Os trinta tiranos condenam-te à morte', Sócrates respondeu: 'Como a natureza os condenou a eles.'
Porque bizarria nos atemorizamos tanto com a passagem para a isenção de todas as dores!
Tal como ao nascermos todas as coisas nasceram para nós, assim a nossa morte ditará a morte de todas as coisas. É tão insensato chorar sobre o que não viveremos daqui a cem anos como chorar o que não vivemos há cem anos. A morte é a origem de outra vida. E tal como chorámos ao entrar nesta, assim cessará a causa das nossas lágrimas ao dela sairmos. (...)
O primeiro dia depois do nosso nascimento leva-nos tanto a morrer como a viver. (...) A obra continuada da nossa vida é a construção da morte. Já estamos na morte quando estamos na vida. Ou, se assim preferirdes, estamos mortos depois da vida. Mas, durante a vida, estamos a morrer e a morte atinge mais rudemente o moribundo do que o morto. Mais vivamente e mais essencialmente, também."
Tanto quanto eu saiba é a primeira vez que se distingue tão fundamente a morte e o "morrer". Quanto mais o homem se afeiçoar à ideia da morte, menos difícil lhe será a passagem para o lado de lá.
A morte deixou de ser a terrível e misteriosa passagem para um "lado de lá" que não sabemos como é. A morte é a transformação de uma forma noutra forma.
Visto do ponto de vista de Montaigne, do ponto de vista do lugar que Etienne de la Boétie queria ocupar e tanto pediu ao amigo que o deixasse ocupar, não prova o desenfreamento do diabo mas apenas o lugar do mal que nós próprios fizemos.
"A morte não nos afecta, nem quando formos mortos nem quando estamos vivos. Quando estamos vivos porque não estamos mortos; quando formos mortos porque já não estamos vivos."
Montaigne recorda Quíron que recusou a imortalidade quando o próprio deus do tempo, Saturno, seu pai, o informou da condição dela. "Se não houvesse a morte, mil vezes me amaldiçoaria de vos ter privado dela", são palavras do deus.
Muitos anos depois, Rilke terminou o décimo segundo soneto da segunda parte dos Sonetos a Orfeu, sustentando o que "a metamorfoseada Dafne / quer, desde que em loureiro sente, que te mudes em vento".
"Ser sempre morte em Eurídice." A nossa imaginação sobre a nossa memória? Talvez antes, a nossa memória sobre a nossa imaginação.
Coisas que nem sequer imaginamos de tanto as havermos esquecido ou que só lembramos quando as imagens deixarem de ser infinitas e indizíveis ou forem finalmente infinitas e indizíveis.
Agosto, que agora começa, é o mês do manto de Eurídice, quando memória e imaginação se confundem e uma forma se transforma noutra forma. Hoje, apareceram-me Montaigne e Rilke, cantores da morte. Mas também a curva do Forte, a mão da Mãe, e o mar a brilhar tanto que tamanha luminosidade convocava uma treva súbita e logo suspensa, até que o vento em vento nos mudasse.
Memórias da imaginação
A minha Mãe costumava dizer que no dia em que nasceu (24 de Agosto) andava o Diabo à solta. Não se referia a 24 de Agosto de 1906, dia em que passou doutra vida a esta, mas a um 24 de Agosto que nem ela nem nenhum de nós, nem nenhum dos que estavam em vida em 1906, conhecera, senão como conhecemos quase tudo: pela memória da imaginação histórica, no caso concreto a memória da imaginação histórica de 24 de Agosto de 1572. Nessa noite - noite de São Bartolomeu, o Apóstolo que morreu esfolado vivo - Catarina de Médicis convenceu seu filho, o timorato Carlos IX, rei de França, a dizimar o partido huguenote. O sinal foi dado pelo sino da igreja de Saint-Germain l' Auxerrois, em Paris, e três ou quatro mil protestantes parisienses foram barbaramente assassinados. A província seguiu a capital, com mais mortes e mais terror. Católicos exultaram e o Papa Gregório XIII, ao saber da chacina, em Roma, mandou cantar um Te Deum. Com os tempos, sobretudo com a conversão do huguenote Henrique de Navarra, futuro Henrique IV, ao catolicismo ("Paris vaut bien une messe") e com a promulgação do Édito de Nantes, que reconhecia a liberdade de culto aos protestantes, a festança dos católicos fanáticos deu lugar ao opróbrio e por isso se passou a dizer que, na noite de 24 de Agosto, andava o diabo à solta.
Nessa mesma data, regressado ao seu castelo no Périgord, no alto de uma colina (a "montanha" que deu o nome a Michel Eyquem, a 28 de Fevereiro de 1533) o Sieur de Montaigne escrevia o capítulo 20 do primeiro livro dos seus Ensaios, sob o título De Filosofar como Aprender a Morrer.
Na sua biblioteca, lia-se a famosa inscrição que ele mandou gravar em latim: "No ano do Senhor de 1571, com a idade de trinta e oito anos, na véspera das calendas de Março, aniversário do seu nascimento, Michel de Montaigne, há muito cansado da servidão ao Parlamento e a todas as outras funções públicas, mantendo intactas todas as suas faculdades e todas as suas forças, retirou-se para o seio das doutas virgens, onde, em repouso e segurança, passará os dias que lhe restarem de vida. (...) Privado do amigo mais doce, mais querido e mais íntimo, como o nosso século jamais conheceu outro que melhor, mais sábio, mais aprazível e mais perfeito fosse, Michel de Montaigne, querendo consagrar à saudade desse amor mútuo testemunho único de reconhecimento e não achando modo de melhor o exprimir, dedicou a essa memória o estudioso edifício que lhe servirá de delícias." A dedicatória percebe-se melhor, se se souber que a biblioteca lhe fora deixada em testamento pelo amigo de que fora privado.
O "amigo mais doce, mais querido e mais íntimo" era Etienne de la Boétie que Montaigne conhecera em 1557 (tinha ele vinte e dois anos, Etienne vinte e seis) e que morreu seis anos depois, pouco antes de completar 33 anos, a 18 de Agosto de 1563.
"Parce que c'était lui; parce que c'était moi" foi a frase famosa em que Montaigne resumiu a razão (se razão é palavra a usar) do amor que os uniu.
Na dedicatória à Ménagerie de Xenofonte (tradução de La Boétie), Montaigne fez publicar a carta que escrevera ao pai contando-lhe "algumas particularidades que observou na doença e na morte do falecido Monsieur de La Boétie".
Há duas passagens mais particularmente perturbantes nessa longa e minuciosa descrição da agonia de um ser amado, que durou precisamente nove dias e nove noites.
Ao quinto dia, um domingo, Etienne entrou em grande prostração. Quando voltou a si, disse que lhe parecia ter estado numa "confusion de toutes choses" e só ter visto uma nuvem espessa e um nevoeiro obscuro, no qual tudo se misturava, desordenadamente. Mas nada disso lhe fora desagradável. "A morte não é pior do que isso, meu irmão", disse-lhe Montaigne, ouvindo-o. "Mais n'a rien de si mauvais" respondeu-lhe ele. Não traduzi a frase, como acima não traduzi a "confusion de toutes choses", porque apesar da transparência das frases, no francês de Montaigne, sempre hesitei na transposição. "Não há nada tão mau" ou " não há nada de muito mau"?
"Irmão, amigo", chama, muito perto do fim, La Boétie. "Ah se soubesses as imaginações que venho de ter (...)." Como são elas, meu irmão? "Grandes, grandes" respondeu o moribundo que, perante a insistência de Montaigne, acrescentou: "Admiráveis, infinitas e indizíveis."
Mas, mesmo à hora de morrer, "começou a pedir-me, com extrema afeição, que lhe guardasse um lugar, repetindo o pedido tão numerosas vezes que eu tive medo que ele entrasse a perder a razão. Mas, embora lhe dissesse muito docemente que ele se estava a deixar arrastar pela doença e que o pedido não se assemelhava a algo com siso, a minha fala não o abalou, antes clamou ainda com maior brado: 'Irmão, irmão, porque me recusas um lugar?' Tentei então convencê-lo pela razão. Disse-lhe que se ele falava e respirava era porque tinha corpo e logo tinha um lugar. 'Um lugar talvez tenha, mas não aquele de que preciso' (...) Há três dias que anseio por partir". Foram as últimas palavras de La Boétie.
No capítulo 20 dos Ensaios, Montaigne revem incessantemente à morte do amigo (sem o citar). "Porque é que se receia tanto perder uma coisa que, uma vez perdida, não pode mais ser lastimada? (...) Àquele que disse a Sócrates: 'Os trinta tiranos condenam-te à morte', Sócrates respondeu: 'Como a natureza os condenou a eles.'
Porque bizarria nos atemorizamos tanto com a passagem para a isenção de todas as dores!
Tal como ao nascermos todas as coisas nasceram para nós, assim a nossa morte ditará a morte de todas as coisas. É tão insensato chorar sobre o que não viveremos daqui a cem anos como chorar o que não vivemos há cem anos. A morte é a origem de outra vida. E tal como chorámos ao entrar nesta, assim cessará a causa das nossas lágrimas ao dela sairmos. (...)
O primeiro dia depois do nosso nascimento leva-nos tanto a morrer como a viver. (...) A obra continuada da nossa vida é a construção da morte. Já estamos na morte quando estamos na vida. Ou, se assim preferirdes, estamos mortos depois da vida. Mas, durante a vida, estamos a morrer e a morte atinge mais rudemente o moribundo do que o morto. Mais vivamente e mais essencialmente, também."
Tanto quanto eu saiba é a primeira vez que se distingue tão fundamente a morte e o "morrer". Quanto mais o homem se afeiçoar à ideia da morte, menos difícil lhe será a passagem para o lado de lá.
A morte deixou de ser a terrível e misteriosa passagem para um "lado de lá" que não sabemos como é. A morte é a transformação de uma forma noutra forma.
Visto do ponto de vista de Montaigne, do ponto de vista do lugar que Etienne de la Boétie queria ocupar e tanto pediu ao amigo que o deixasse ocupar, não prova o desenfreamento do diabo mas apenas o lugar do mal que nós próprios fizemos.
"A morte não nos afecta, nem quando formos mortos nem quando estamos vivos. Quando estamos vivos porque não estamos mortos; quando formos mortos porque já não estamos vivos."
Montaigne recorda Quíron que recusou a imortalidade quando o próprio deus do tempo, Saturno, seu pai, o informou da condição dela. "Se não houvesse a morte, mil vezes me amaldiçoaria de vos ter privado dela", são palavras do deus.
Muitos anos depois, Rilke terminou o décimo segundo soneto da segunda parte dos Sonetos a Orfeu, sustentando o que "a metamorfoseada Dafne / quer, desde que em loureiro sente, que te mudes em vento".
"Ser sempre morte em Eurídice." A nossa imaginação sobre a nossa memória? Talvez antes, a nossa memória sobre a nossa imaginação.
Coisas que nem sequer imaginamos de tanto as havermos esquecido ou que só lembramos quando as imagens deixarem de ser infinitas e indizíveis ou forem finalmente infinitas e indizíveis.
Agosto, que agora começa, é o mês do manto de Eurídice, quando memória e imaginação se confundem e uma forma se transforma noutra forma. Hoje, apareceram-me Montaigne e Rilke, cantores da morte. Mas também a curva do Forte, a mão da Mãe, e o mar a brilhar tanto que tamanha luminosidade convocava uma treva súbita e logo suspensa, até que o vento em vento nos mudasse.
26 de julho de 2008
Nursery rhyme
Monday's child is fair of face.
Tuesday's child is full of grace.
Wednesday's child is full of woe.
Thursday's child has far to go.
Friday's child is loving and giving.
Saturday's child works hard for a living,
But the child who is born on the Sabbath Day
Is bonny and blithe and good and gay.
Tuesday's child is full of grace.
Wednesday's child is full of woe.
Thursday's child has far to go.
Friday's child is loving and giving.
Saturday's child works hard for a living,
But the child who is born on the Sabbath Day
Is bonny and blithe and good and gay.
14 de maio de 2008
30 de março de 2008
António Barreto, um retrato
domingo, 30 de Março de 2008
A balbúrdia na escola Os direitos dos alunos, consagrados no respectivo estatuto, são os mais abrangentes e absurdos que se possa imaginar
As cenas de pancadaria na escola têm comovido a opinião. A última ocorreu numa escola do Porto e foi devidamente filmada por um colega. Em poucas horas, o clip correu mundo através do YouTube. A partir daí, choveram as análises e os comentários. Toda a gente procura responsáveis, culpados e causas. Os arguidos são tantos quanto se possa imaginar: os jovens, os professores, os pais, o ministério e os políticos. E a sociedade em geral, evidentemente. As causas são também as mais diversas: a democracia, os costumes contemporâneos, a cultura jovem, o dinheiro, a televisão, a publicidade, a Internet, a permissividade, a falta de valores, os "bairros", o rap, os imigrantes, a droga e o sexo. Para a oposição, a culpa é do Governo. Para o Governo, a culpa é do Governo anterior. O trivial.
Deve haver um pouco disso tudo, o que torna as coisas mais complicadas - sobretudo quando se pretende tomar medidas ou conter a vaga crescente de violência e balbúrdia. Se as causas são múltiplas, por onde começar? Mais repressão? Mais diálogo? Mais disciplina? Mais co-gestão? Há aqui matéria para a criação de várias comissões, a elaboração de um livro branco, a aprovação de novas leis e a realização de inúmeros estudos. Até às eleições, haverá debates parlamentares sobre o tema. Não tenho a certeza, nem sequer a esperança, que o problema se resolva a breve prazo.
De qualquer maneira, a ocasião era calhada para voltar a ver a obra-prima do esforço legislativo nacional, o famoso "estatuto do aluno". A sua última versão entrou em vigor em finais de Janeiro, sendo uma correcção de outro diploma, da mesma natureza, de 2002. Trata-se de uma espécie de carta constitucional de direitos e deveres, a que não falta um regulamento disciplinar. Não se pode dizer que fecha a abóbada do edifício legal educativo, porque simplesmente tal edifício não existe. É mais um produto da enxurrada permanente de leis, normas e regras que se abate sobre as escolas e a sociedade. É um dos mais monstruosos documentos jamais produzidos pela administração pública portuguesa. Mal escrito, por vezes incompreensível, repete-se na afirmação de virtudes. Faz afirmações absolutamente disparatadas, como, por exemplo, quando considera que "a assiduidade (...) implica uma atitude de empenho intelectual e comportamental adequada..."! Cria deveres inéditos aos alunos, tais como o de se "empenhar na sua formação integral"; o de "guardar lealdade para com todos os membros da comunidade educativa"; ou o de "contribuir para a harmonia da convivência escolar". E também os obriga a conhecer e cumprir este "estatuto do aluno", naquele que deve ser o pior castigo de todos! Quanto aos direitos dos alunos, são os mais abrangentes e absurdos que se possa imaginar, incluindo os de participar na elaboração de regulamentos e na gestão e administração da escola, assim como de serem informados sobre os critérios da avaliação, os objectivos dos programas, dos cursos e das disciplinas, o modo de organização do plano de estudos, a matrícula, o abono de família e tudo o que seja possível inventar, incluindo as normas de segurança dos equipamentos e os planos de emergência!
Trata-se de um estatuto burocrático, processual e confuso. O regime de faltas, que decreta, é infernal. Ninguém, normalmente constituído, o pode perceber ou aplicar. Os alunos que ultrapassem o número de faltas permitido podem recuperar tudo com uma prova. As faltas justificadas podem passar a injustificadas e vice-versa. As decisões sobre as faltas dos alunos e o seu comportamento sobem e descem do professor ao director de turma, deste ao conselho de turma, destes à direcção da escola e eventualmente ao conselho pedagógico. As decisões disciplinares são longas, morosas e processualmente complicadas, podendo sempre ser alteradas pelos sistemas de recurso ou de vaivém entre instâncias escolares. Concebem-se duas espécies de medidas disciplinares, as "correctivas" e as "sancionatórias". Por vezes, as diferenças são imperceptíveis. Mas a sua aplicação, em respeito pelas normas processuais, torna inútil qualquer esforço. As medidas disciplinares são quase todas precedidas ou acompanhadas de processos complicados, verdadeiros dissuasores de todo o esforço disciplinar. As medidas disciplinares dependem de várias instâncias, do professor aos órgãos da turma, destes aos vários órgãos da escola e desta às direcções regionais. Os procedimentos disciplinares são relativos ao que tradicionalmente se designa por mau comportamento, perturbação de aula, agressão, roubo ou destruição de material, isto é, o dia-a-dia na escola. Mas a sua sanção é de tal modo complexa que deixará simplesmente de haver disciplina ou sanção.
O estatuto cria um regime disciplinar em tudo semelhante ao que vigora, por exemplo, para a administração pública ou para as relações entre administração e cidadãos. Pior ainda, é criado um regime disciplinar e sancionatório decalcado sobre os sistemas e os processos judiciais. Os autores deste estatuto revelam uma total e absoluta ignorância do que se passa nas escolas, do que são as escolas. Oscilando entre a burocracia, a teoria integradora das ciências de educação, a ideia de que existe uma democracia na sala de aula e a convicção de que a disciplina é um mal, os legisladores do ministério (deste ministério e dos anteriores) produziram uma monstruosidade: senil na concepção burocrática, administrativa e judicial; adolescente na ideologia; infantil na ambição. O estatuto não é a causa dos males educativos, até porque nem sequer está em vigor na maior parte das escolas. Também não é por causa do estatuto que há, ou não há, pancadaria nas escolas. O estatuto é a consequência de uma longa caminhada e será, de futuro, o responsável imediato pela impossibilidade de administrar a disciplina nas escolas. O estatuto não retira a autoridade na escola (aos professores, aos directores, aos conselhos escolares). Não! Apenas confirma o facto de já não a terem e de assim perderem as veleidades de voltar a ter. O processo educativo, essencialmente humano e pessoal, é transformado num processo "científico", "técnico", desumanizado, burocrático e administrativo que dissolve a autoridade e esbate as responsabilidades. Se for lido com atenção, este estatuto revela que a sua principal inspiração é a desconfiança dos professores. Quem fez este estatuto tinha uma única ideia na cabeça: é preciso defender os alunos dos professores que os podem agredir e oprimir. Mesmo que nada resolva, a sua revogação é um gesto de saúde mental pública.
A balbúrdia na escola Os direitos dos alunos, consagrados no respectivo estatuto, são os mais abrangentes e absurdos que se possa imaginar
As cenas de pancadaria na escola têm comovido a opinião. A última ocorreu numa escola do Porto e foi devidamente filmada por um colega. Em poucas horas, o clip correu mundo através do YouTube. A partir daí, choveram as análises e os comentários. Toda a gente procura responsáveis, culpados e causas. Os arguidos são tantos quanto se possa imaginar: os jovens, os professores, os pais, o ministério e os políticos. E a sociedade em geral, evidentemente. As causas são também as mais diversas: a democracia, os costumes contemporâneos, a cultura jovem, o dinheiro, a televisão, a publicidade, a Internet, a permissividade, a falta de valores, os "bairros", o rap, os imigrantes, a droga e o sexo. Para a oposição, a culpa é do Governo. Para o Governo, a culpa é do Governo anterior. O trivial.
Deve haver um pouco disso tudo, o que torna as coisas mais complicadas - sobretudo quando se pretende tomar medidas ou conter a vaga crescente de violência e balbúrdia. Se as causas são múltiplas, por onde começar? Mais repressão? Mais diálogo? Mais disciplina? Mais co-gestão? Há aqui matéria para a criação de várias comissões, a elaboração de um livro branco, a aprovação de novas leis e a realização de inúmeros estudos. Até às eleições, haverá debates parlamentares sobre o tema. Não tenho a certeza, nem sequer a esperança, que o problema se resolva a breve prazo.
De qualquer maneira, a ocasião era calhada para voltar a ver a obra-prima do esforço legislativo nacional, o famoso "estatuto do aluno". A sua última versão entrou em vigor em finais de Janeiro, sendo uma correcção de outro diploma, da mesma natureza, de 2002. Trata-se de uma espécie de carta constitucional de direitos e deveres, a que não falta um regulamento disciplinar. Não se pode dizer que fecha a abóbada do edifício legal educativo, porque simplesmente tal edifício não existe. É mais um produto da enxurrada permanente de leis, normas e regras que se abate sobre as escolas e a sociedade. É um dos mais monstruosos documentos jamais produzidos pela administração pública portuguesa. Mal escrito, por vezes incompreensível, repete-se na afirmação de virtudes. Faz afirmações absolutamente disparatadas, como, por exemplo, quando considera que "a assiduidade (...) implica uma atitude de empenho intelectual e comportamental adequada..."! Cria deveres inéditos aos alunos, tais como o de se "empenhar na sua formação integral"; o de "guardar lealdade para com todos os membros da comunidade educativa"; ou o de "contribuir para a harmonia da convivência escolar". E também os obriga a conhecer e cumprir este "estatuto do aluno", naquele que deve ser o pior castigo de todos! Quanto aos direitos dos alunos, são os mais abrangentes e absurdos que se possa imaginar, incluindo os de participar na elaboração de regulamentos e na gestão e administração da escola, assim como de serem informados sobre os critérios da avaliação, os objectivos dos programas, dos cursos e das disciplinas, o modo de organização do plano de estudos, a matrícula, o abono de família e tudo o que seja possível inventar, incluindo as normas de segurança dos equipamentos e os planos de emergência!
Trata-se de um estatuto burocrático, processual e confuso. O regime de faltas, que decreta, é infernal. Ninguém, normalmente constituído, o pode perceber ou aplicar. Os alunos que ultrapassem o número de faltas permitido podem recuperar tudo com uma prova. As faltas justificadas podem passar a injustificadas e vice-versa. As decisões sobre as faltas dos alunos e o seu comportamento sobem e descem do professor ao director de turma, deste ao conselho de turma, destes à direcção da escola e eventualmente ao conselho pedagógico. As decisões disciplinares são longas, morosas e processualmente complicadas, podendo sempre ser alteradas pelos sistemas de recurso ou de vaivém entre instâncias escolares. Concebem-se duas espécies de medidas disciplinares, as "correctivas" e as "sancionatórias". Por vezes, as diferenças são imperceptíveis. Mas a sua aplicação, em respeito pelas normas processuais, torna inútil qualquer esforço. As medidas disciplinares são quase todas precedidas ou acompanhadas de processos complicados, verdadeiros dissuasores de todo o esforço disciplinar. As medidas disciplinares dependem de várias instâncias, do professor aos órgãos da turma, destes aos vários órgãos da escola e desta às direcções regionais. Os procedimentos disciplinares são relativos ao que tradicionalmente se designa por mau comportamento, perturbação de aula, agressão, roubo ou destruição de material, isto é, o dia-a-dia na escola. Mas a sua sanção é de tal modo complexa que deixará simplesmente de haver disciplina ou sanção.
O estatuto cria um regime disciplinar em tudo semelhante ao que vigora, por exemplo, para a administração pública ou para as relações entre administração e cidadãos. Pior ainda, é criado um regime disciplinar e sancionatório decalcado sobre os sistemas e os processos judiciais. Os autores deste estatuto revelam uma total e absoluta ignorância do que se passa nas escolas, do que são as escolas. Oscilando entre a burocracia, a teoria integradora das ciências de educação, a ideia de que existe uma democracia na sala de aula e a convicção de que a disciplina é um mal, os legisladores do ministério (deste ministério e dos anteriores) produziram uma monstruosidade: senil na concepção burocrática, administrativa e judicial; adolescente na ideologia; infantil na ambição. O estatuto não é a causa dos males educativos, até porque nem sequer está em vigor na maior parte das escolas. Também não é por causa do estatuto que há, ou não há, pancadaria nas escolas. O estatuto é a consequência de uma longa caminhada e será, de futuro, o responsável imediato pela impossibilidade de administrar a disciplina nas escolas. O estatuto não retira a autoridade na escola (aos professores, aos directores, aos conselhos escolares). Não! Apenas confirma o facto de já não a terem e de assim perderem as veleidades de voltar a ter. O processo educativo, essencialmente humano e pessoal, é transformado num processo "científico", "técnico", desumanizado, burocrático e administrativo que dissolve a autoridade e esbate as responsabilidades. Se for lido com atenção, este estatuto revela que a sua principal inspiração é a desconfiança dos professores. Quem fez este estatuto tinha uma única ideia na cabeça: é preciso defender os alunos dos professores que os podem agredir e oprimir. Mesmo que nada resolva, a sua revogação é um gesto de saúde mental pública.
28 de março de 2008
Fernanda Câncio- DN
ADOLESCENTES, INIMPUTÁVEIS E TEVÊS- 28 Março de 2008
Parece que cada vez que "alguém fala do vídeo" à professora da luta pelo telemóvel no Carolina Michaëlis ela "começa a chorar e enerva-se". Compreendo-a muito bem. Eu própria vou pelo mesmo caminho. Tenho a sensação de que se mais alguma vez vejo aquelas imagens ou oiço ou leio alguém falar em "agressão no Carolina Michaëlis" ou "a professora brutalizada pela aluna" ou, para ainda mais extraordinário, "nas coisas comprometedoras que a aluna alegadamente teria no telemóvel", vou mesmo entrar em órbita. Ou chamar a polícia.
Não que me sirva de alguma coisa, claro. Até porque um dos supremos representantes da legalidade e da sua manutenção neste país, o procurador-geral da República, Fernando Pinto Monteiro, está farto de perorar sobre este assunto - inclusive, ainda ontem, na SIC Notícias, mostrando-se muito feliz "por finalmente o País estar a ficar alertado para a questão da violência nas escolas" - sem nunca mencionar o facto de que cada vez que aquele vídeo passa numa televisão está a ser cometido um crime. E este, imagine-se, ao contrário do de "empurrão e disputa de telemóvel entre professora e aluna", até vem no Código Penal (CP) e nem está a ser cometido por inimputável menor de 16 anos.
Se calhar para Pinto Monteiro é muito mais grave uma aluna de 15 anos fazer uma birra numa sala de aula e cometer um acto de indisciplina, em que não só não se pode falar com propriedade de agressão como nem sequer se ouve um insulto para amostra, e este ser filmado por um colega da mesma idade que a seguir descarrega as imagens na Net, do que haver empresas de TV, incluindo a pública, que usam o vídeo ilegal até à náusea, com a agravante de nas primeiras passagens nem sequer terem tido o cuidado de ocultar as caras dos intervenientes. Se calhar o procurador não vê que a professora é muito mais humilhada pela repetição do vídeo que pelo ocorrido na aula. Ou então vê mas acha que é melhor nem levantar a questão, não vá alguém achar - e há sempre gente a achar estas coisas - que a sua tentativa de defesa da legalidade e dos preceitos constitucionais de direito à imagem seriam uma tentativa de coarctar "a liberdade de expressão e informação" e que "o interesse público" justifica tudo - doa a quem doer. Ainda por cima, o CP diz que o crime previsto no artigo 199.º -"gravação e fotografias ilícitas"-, punido com pena de prisão até um ano e multa até 240 dias (agravadas num terço quando efectuadas para obter recompensa ou enriquecimento ou quando o meio de difusão seja a comunicação social), depende de queixa. E parece que ainda ninguém se queixou - só há uma professora em cacos e uma rapariga tratada como criminosa e transformada em poster girl da "violência escolar" e "do estado a que nós chegámos". Nada que importe quando o que é importante é "dar o exemplo" e "sensibilizar as pessoas". Ou será insensibilizar?
Parece que cada vez que "alguém fala do vídeo" à professora da luta pelo telemóvel no Carolina Michaëlis ela "começa a chorar e enerva-se". Compreendo-a muito bem. Eu própria vou pelo mesmo caminho. Tenho a sensação de que se mais alguma vez vejo aquelas imagens ou oiço ou leio alguém falar em "agressão no Carolina Michaëlis" ou "a professora brutalizada pela aluna" ou, para ainda mais extraordinário, "nas coisas comprometedoras que a aluna alegadamente teria no telemóvel", vou mesmo entrar em órbita. Ou chamar a polícia.
Não que me sirva de alguma coisa, claro. Até porque um dos supremos representantes da legalidade e da sua manutenção neste país, o procurador-geral da República, Fernando Pinto Monteiro, está farto de perorar sobre este assunto - inclusive, ainda ontem, na SIC Notícias, mostrando-se muito feliz "por finalmente o País estar a ficar alertado para a questão da violência nas escolas" - sem nunca mencionar o facto de que cada vez que aquele vídeo passa numa televisão está a ser cometido um crime. E este, imagine-se, ao contrário do de "empurrão e disputa de telemóvel entre professora e aluna", até vem no Código Penal (CP) e nem está a ser cometido por inimputável menor de 16 anos.
Se calhar para Pinto Monteiro é muito mais grave uma aluna de 15 anos fazer uma birra numa sala de aula e cometer um acto de indisciplina, em que não só não se pode falar com propriedade de agressão como nem sequer se ouve um insulto para amostra, e este ser filmado por um colega da mesma idade que a seguir descarrega as imagens na Net, do que haver empresas de TV, incluindo a pública, que usam o vídeo ilegal até à náusea, com a agravante de nas primeiras passagens nem sequer terem tido o cuidado de ocultar as caras dos intervenientes. Se calhar o procurador não vê que a professora é muito mais humilhada pela repetição do vídeo que pelo ocorrido na aula. Ou então vê mas acha que é melhor nem levantar a questão, não vá alguém achar - e há sempre gente a achar estas coisas - que a sua tentativa de defesa da legalidade e dos preceitos constitucionais de direito à imagem seriam uma tentativa de coarctar "a liberdade de expressão e informação" e que "o interesse público" justifica tudo - doa a quem doer. Ainda por cima, o CP diz que o crime previsto no artigo 199.º -"gravação e fotografias ilícitas"-, punido com pena de prisão até um ano e multa até 240 dias (agravadas num terço quando efectuadas para obter recompensa ou enriquecimento ou quando o meio de difusão seja a comunicação social), depende de queixa. E parece que ainda ninguém se queixou - só há uma professora em cacos e uma rapariga tratada como criminosa e transformada em poster girl da "violência escolar" e "do estado a que nós chegámos". Nada que importe quando o que é importante é "dar o exemplo" e "sensibilizar as pessoas". Ou será insensibilizar?
27 de março de 2008
José Eduardo Agualusa
Roda de choro
"O importante não é o veículo, mas a viagem", disse-me o taxista, como a desculpar-se pelo estado do carro. Escrevo a palavra taxista, demoro-me a olhá-la, e depois apago-a. A mim a expressão taxista lembra-me sempre o seguidor de uma qualquer ideologia vagamente totalitária: "Fulano é um nacional-taxista!". Prefiro dizer taxeiro, que me remete a padeiro, oleiro, costureiro, ofícios antigos, inquestionáveis, antes do aparecimento dos informáticos, dos pedagogos ou dos sociólogos. Contudo, quando vou ao Google encontro apenas sessenta e cinco citações para taxeiro, ao passo que taxista tem um milhão, quatrocentos e sessenta mil. Os taxistas, portanto, são em número largamente superior aos taxeiros. Permitam-me, porém, a insistência: o amável filósofo dentro daquele taxi carioca era muito mais taxeiro do que taxista. Apresentou-se. Chamava-se Jorge, mas todos o conheciam como Jorginho do Pífaro.
"Você gosta de choro?"
Jorginho tocava flauta em rodas de choro. Durante alguns minutos, enquanto o taxi deslizava através das ruas quase vazias, Jorginho discorreu animadamente sobre a origem do choro e do samba. Sábado alongava-se pelos passeios, num langor tropical. O sol, no alto azul do céu, abria os braços ao largo abraço do Cristo Redentor. Jovens surfistas, em tronco nu e bermudas, bebiam batidos de frutas ao balcão do "Bibi", a melhor casa de sucos do Brasil. Combinei com Jorginho que ele passaria pelo meu hotel, ao final da tarde, para me levar a casa de um amigo, grande tocador de cavaquinho. Efectivamente às cinco e meia ligaram-me da recepção, e eu desci. Jorginho tomara um banho e mudara de roupa. Já não era um taxeiro - era um amigo. Levou-me para Santa Teresa, para um velho casarão, com uma fachada de um amarelo manga, um tanto desmaiada. Duas palmeiras centenárias vigiavam a rua. Lá dentro um cavaquinho chorava, delicadamente, acompanhado por um violão e um bandolim. Deram-me uma cadeira. Jorginho sentou-se ao meu lado, retirou de um estojo uma flauta transversal, e juntou-se ao grupo. Como disse antes, era sábado, sábado completamente. As pessoas iam chegando, pessoas de origens sociais muito diversas, com diferentes tons de pele, diferentes credos e histórias familiares, sentavam-se, preparavam o instrumento que haviam trazido, e iam somando a sua própria voz - a voz do seu instrumento - à harmonia original.
A roda (compreendi de súbito) era o Brasil - metáfora musical de um país em construção.
Desde que nasci já vi morrer muitos países. Vi, inclusive, morrer impérios. Também já vi nascer alguns países. Percebi que, ao contrário do que me ensinaram na escola, países tendem a ser entidades frágeis e fraudulentas. Frágeis, na verdade, porque fraudulentas. Os melhores são puramente imaginários. Os piores, inteiramente artificiais. Artificiais não como uma flor de plástico - cuja mentira está apenas em tentar reproduzir a beleza viva de uma flor - mas como seria artificial, por exemplo, um cozido à portuguesa inteiramente feito de plástico. Sim, certos países não só são desnecessários, como não conseguem sequer parecer necessários.
O Brasil, pelo contrário, sempre me surpreendeu pela sua coerência e pela sua verdade. É um dos poucos casos que conheço de um país que poderia sobreviver, ao menos durante duas ou três gerações, à bela utopia anarquista do fim de todas as fronteiras. Talvez por ter sido desde o início - e continuar a ser - não tanto uma criação das elites, quanto uma criação popular. Talvez em razão da sua voracidade integradora. Ao contrário de tantos outros territórios doentes de desconfiança, nos quais, ao longo dos séculos, se foram estruturando culturas de rejeição, os brasileiros foram capazes de criar uma cultura de assimilação que tudo devora, transforma e faz seu.
Creio que foi naquela tarde de sábado que decidi ser carioca, a maneira mais feliz de se ser ao mesmo tempo, e sem conflito, angolano e português. Desde então venho-me empenhando bastante, mas suspeito que ainda me falta percorrer um longo caminho. Tenho paciência. Não esqueço, como fez questão de me lembrar Jorge quando nos conhecemos, que o importante não é o veículo: é a viagem.
Suplemento Pública de Domingo, 23 de Março 2008
"O importante não é o veículo, mas a viagem", disse-me o taxista, como a desculpar-se pelo estado do carro. Escrevo a palavra taxista, demoro-me a olhá-la, e depois apago-a. A mim a expressão taxista lembra-me sempre o seguidor de uma qualquer ideologia vagamente totalitária: "Fulano é um nacional-taxista!". Prefiro dizer taxeiro, que me remete a padeiro, oleiro, costureiro, ofícios antigos, inquestionáveis, antes do aparecimento dos informáticos, dos pedagogos ou dos sociólogos. Contudo, quando vou ao Google encontro apenas sessenta e cinco citações para taxeiro, ao passo que taxista tem um milhão, quatrocentos e sessenta mil. Os taxistas, portanto, são em número largamente superior aos taxeiros. Permitam-me, porém, a insistência: o amável filósofo dentro daquele taxi carioca era muito mais taxeiro do que taxista. Apresentou-se. Chamava-se Jorge, mas todos o conheciam como Jorginho do Pífaro.
"Você gosta de choro?"
Jorginho tocava flauta em rodas de choro. Durante alguns minutos, enquanto o taxi deslizava através das ruas quase vazias, Jorginho discorreu animadamente sobre a origem do choro e do samba. Sábado alongava-se pelos passeios, num langor tropical. O sol, no alto azul do céu, abria os braços ao largo abraço do Cristo Redentor. Jovens surfistas, em tronco nu e bermudas, bebiam batidos de frutas ao balcão do "Bibi", a melhor casa de sucos do Brasil. Combinei com Jorginho que ele passaria pelo meu hotel, ao final da tarde, para me levar a casa de um amigo, grande tocador de cavaquinho. Efectivamente às cinco e meia ligaram-me da recepção, e eu desci. Jorginho tomara um banho e mudara de roupa. Já não era um taxeiro - era um amigo. Levou-me para Santa Teresa, para um velho casarão, com uma fachada de um amarelo manga, um tanto desmaiada. Duas palmeiras centenárias vigiavam a rua. Lá dentro um cavaquinho chorava, delicadamente, acompanhado por um violão e um bandolim. Deram-me uma cadeira. Jorginho sentou-se ao meu lado, retirou de um estojo uma flauta transversal, e juntou-se ao grupo. Como disse antes, era sábado, sábado completamente. As pessoas iam chegando, pessoas de origens sociais muito diversas, com diferentes tons de pele, diferentes credos e histórias familiares, sentavam-se, preparavam o instrumento que haviam trazido, e iam somando a sua própria voz - a voz do seu instrumento - à harmonia original.
A roda (compreendi de súbito) era o Brasil - metáfora musical de um país em construção.
Desde que nasci já vi morrer muitos países. Vi, inclusive, morrer impérios. Também já vi nascer alguns países. Percebi que, ao contrário do que me ensinaram na escola, países tendem a ser entidades frágeis e fraudulentas. Frágeis, na verdade, porque fraudulentas. Os melhores são puramente imaginários. Os piores, inteiramente artificiais. Artificiais não como uma flor de plástico - cuja mentira está apenas em tentar reproduzir a beleza viva de uma flor - mas como seria artificial, por exemplo, um cozido à portuguesa inteiramente feito de plástico. Sim, certos países não só são desnecessários, como não conseguem sequer parecer necessários.
O Brasil, pelo contrário, sempre me surpreendeu pela sua coerência e pela sua verdade. É um dos poucos casos que conheço de um país que poderia sobreviver, ao menos durante duas ou três gerações, à bela utopia anarquista do fim de todas as fronteiras. Talvez por ter sido desde o início - e continuar a ser - não tanto uma criação das elites, quanto uma criação popular. Talvez em razão da sua voracidade integradora. Ao contrário de tantos outros territórios doentes de desconfiança, nos quais, ao longo dos séculos, se foram estruturando culturas de rejeição, os brasileiros foram capazes de criar uma cultura de assimilação que tudo devora, transforma e faz seu.
Creio que foi naquela tarde de sábado que decidi ser carioca, a maneira mais feliz de se ser ao mesmo tempo, e sem conflito, angolano e português. Desde então venho-me empenhando bastante, mas suspeito que ainda me falta percorrer um longo caminho. Tenho paciência. Não esqueço, como fez questão de me lembrar Jorge quando nos conhecemos, que o importante não é o veículo: é a viagem.
Suplemento Pública de Domingo, 23 de Março 2008
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