30 de dezembro de 2011

Pé ante pé...

Começou de um modo muito triste o ano que agora se vai embora.
A minha priminha já não corre, por entre os canteiros de couves e de alfaces que havia no quintal da minha avó, aquele que eu sempre julguei ser o Éden, com o rabo-de-cavalo a acompanhar a corrida, balançando para a direita, para a esquerda, para cima e para baixo. E eu, ondulando timidamente no baloiço que o meu avô tinha conseguido construir, com uma tábua e duas cordas, sem coragem para grande balanço, contemplava e seguia encantada o caminho das correrias das mais novas...
Eram bem mais felizes do que eu as minhas priminhas! Podiam ter rabo-de-cavalo, bibes coloridos, podiam correr, sabiam correr, sabiam cantar, sabiam dançar.
Nos primeiros dias do ano, recebi a notícia: a minha priminha já não correria mais por entre as couves e as alfaces do jardim da casa dos nossos avós.
Depois os meses correram, voaram e a crise colou-se às nossas conversas, aos nossos pensamentos, de modo tal que parece tudo ter já ruído no futuro que nos espera.
Mas o dois mil e onze trouxe-me também a promessa de uma nova vida. Ninguém substitui ninguem. São paragens da linha da Vida que embarcam uns e desembarcam outros.
E há que saber viver os momentos todos, com a nossa alma vestida a rigor.
Feliz dois mil e doze!

24 de novembro de 2011

Sinais de Fernando Alves

Life
Quando a nossa infância começou a saber que a Terra era redonda havia na mesa da sala exemplares de revistas que tornavam o mundo mais próximo da nossa rua. A brasileira Cruzeiro, a Paris Match, a Life pareciam antecipar, nesse sul do mundo onde cresci, a televisão que não havia. Nesse sul havia uma revista que bebia na mesma fonte: chamava-se Notícia. Todas foram desaparecendo e a Life (um icone da imprensa norte-americana, que hoje faria 75 anos) resiste apenas no formato electrónico. È aí que podemos ver aquelas que a revista considera as melhores 75 capas da sua história. E também as 20 piores.
A esta distância, sabendo ler o que na Life visava moldar a nossa percepção do mundo, é tocante percorrer esse fio da nossa própria vida. A primeira capa, de 23 de novembro de 1936, o logo vermelho e branco sobre a foto a preto e branco da torre do Empire State Building. Ou aquela outra, já em plena guerra, com o perfil quase esculpido de um soldado alemao segurando a sua espingarda. Ou Churchill fitando-nos, logo a 21 de Maio de 1945. E a muito jovem Elisabeth Taylor, a 14 de julho de 47. Ou Marilyn, em Abril de 52. Capa soberba, esta de 22 de Agosto de 1949: o gigante Leo Burnett com o seu chapéu de cow boy. Ele chegou antes da televisão ao sul onde a minha infância começou a saber que a Terra era redonda: nos grandes painéis de publicidade, nas cidades de todo o mundo, ele era o Homem Malboro. Mas esta manhã fiquei mais tempo diante daquela outra capa de Dezembro de 53: Audrey Hepburn está sentada na alcatifa, vestindo apenas uma camisa comprida, e atende o telefone fitando-me.
Os olhos correm, agora, as 20 piores capas da Life. As marionetas de Salzburg como se tivessem perdido o equilibrio e a alma na capa de 29 de Dezembro de 52. Ou aquela, de Novembro de 62 feita de rabanetes e peras, uvas, pimentos, maçãs. Ou aquela outra de Dezembro de 51 em que um homem vestindo uma camisa demasiado garrida nos fita sorrindo. Não é, anota a legenda da Life, 60 anos depois, não é o maluco do tio Ed num hotel de Palm Springs esperando que a hapyy hour comece: é o 33º presidente dos Estados Unidos, Harry Truman vestindo uma camisa havaina.
Já não há revistas assim. Mas a Life, varrida pela crise, sobrevive com uma outra agilidade, em suporte electrónico. Privilegiando o foto-jornalismo, que é o seu assunto. Ela dá-nos as fotos de hoje, os protestos na praça Tahrir, o momento em que lançam gás lacrimogéneo na Assembleia Nacional da Coreia do Sul, Hilary Clinton anunciando mais medidas contra o Irão. Mas, como se nos dissesse que já não quer moldar a nossa visão do mundo, ela desafia-nos a criar a nossa própria Life Timeline. Ela chama-nos: "Partilhe a sua história através de acontecimentos pessoais e momentos que mais importância têm para si". Pela minha parte, dispenso-me. Vim só revisitar o tempo em que comecei a saber que a Terra era redonda.
Emitido a 23 de Novembro de 2011

30 de janeiro de 2011

Do Público, de hoje

"Venci o cancro!" O perigo das mentiras piedosas
Laura Ferreira dos Santos - 30-01-2011
O cancro é uma doença que se possa vencer, como uma gripe forte?De vez em quando, em revistas da moda ou mesmo em jornais sérios, é dito que alguma personagem conhecida "venceu o cancro", como se nunca mais se tivesse de preocupar com ele.
No entanto, a medicina sabe que só de pouquíssimos cancros se pode de facto dizer que estão curados. Quanto aos outros, está-se entregue à sorte ou ao que quer que seja. Daí a necessidade de exames de vigilância, pois o cancro, de vez em quando, sabe-se lá porquê, apetece-lhe voltar. Uma das coisas que mais me impressionou nas leituras que fiz (e faço) sobre "morte assistida" (de que resultou o livro Ajudas-me a Morrer?, 2009), foi (é) o facto de encontrar recorrentemente este facto: passados 7, 15, 20 ou 30 anos, o cancro voltou. Quando ainda não passara pela recidiva do cancro da mama, estremecia um pouco: será que?... Depois de ter passado pela recidiva, seis anos depois de o ter "vencido", pergunto-me que mais mutilações estarão à minha espera e se estarei disposta a submeter-me a elas. Há pouco, uma óptima funcionária da minha universidade disse-me que o cancro voltara a atingir a mãe, 26 anos depois. Mas, é claro, não estamos em tempos de lembrar a nossa mortalidade (e não é por causa da "crise"...) e temos de ficar pelas histórias cor-de-rosa. Mas serão úteis estas mentiras piedosas?

Para quem tem a sorte de nunca ter passado por um cancro, a ideia pode ser sedutora: "aquilo" é uma doença que se pode vencer, como uma gripe forte, e voltar-se à saúde anterior. Mas quem passou pela experiência do cancro e é metida num follow-up médico até ao fim da vida, ou até ele voltar de forma mais aguda e dar-lhe a morte, sente-se espantada e enraivecida, pois, se essa vitória existe, porque é que vê os médicos assustados ou em pânico, quando não faz exames regulares? E apetece então voltar ao poema do Messias de Händel e dizer não O grave, where is thy victory?, mas O cancer, where is thy defeat?

Apetece-me mesmo falar das consequências políticas destas histórias cor-de-rosa, pois ajudam a construir uma sociedade dessolidária em relação a quem teve cancro ou ainda não morreu dele. Pior ainda se a "chaga" não se vê, se a pessoa, vestida, parece não ter qualquer deficiência e se move com aparente facilidade. Quem sabe então das dores que essa pessoa pode atravessar, quem se interessa por saber com que sequelas ficou, em que limbos físicos (para já não falar de outros) é que vive, apesar de o limbo ter sido abolido teologicamente pela Igreja Católica?

Há tempos, uma operária que também "venceu" o cancro da mama, falou-me em desespero da insensibilidade do patronato, que continua a colocá-la em serviços em que está constantemente a partir a prótese externa que usa (e que é cara!). Entendo que a minha jovem aluna me tenha admoestado, quando comentei numa aula: "Como sabem, a prazo estamos todos mortos!" "Não diga isso, professora!", disse ela. Chamada à realidade pelos colegas, o seu princípio de prazer ainda a fez defender-se: "Está bem, mas eu vou ficar para semente e desmentir essa frase!" Mas deve a sociedade incentivar um tipo de pensamento semelhante?

Às 22h das sextas-feiras, quando uma colega minha que já teve cancro e recidiva sai dos complexos pedagógicos para lá voltar nas segundas, lembra-se sempre com ironia desta frase de "vitória": como "venceu" o cancro por duas vezes, deve ser considerada mais forte do que qualquer outro colega. Por isso, deram-lhe o pior horário da semana, aquele que, em princípio, não consegue trocar com ninguém. O Victory, why is your taste so bitter?

23 de setembro de 2010

Ainda ontem - O Mal Escrito - MEC

O cancro é como um romance que, depois de escrito e revisto, ainda não fica bem. Ganha uma segunda vida em que o personagem principal (a vítima, o herói) tem de redefinir-se e curar-se dos resultados das curas - ou rever-se do efeito das revisões.

O cancro não é como um romance, porque a história continua. É mais como uma série televisiva. No primeiro episódio de Boardwalk Empire, realizado por Scorsese (é pena ter-se perdido o hábito de dizer apenas os apelidos dos realizadores), compreendemos que Nucky Thompson, interpretado por Steve Buscemi, não vai conseguir continuar a ser apenas meio-gangster.

As circunstâncias mudam; as surpresas fazem parte da ordem das coisas e, às tantas, deixa-se de poder pensar ou agir de maneira linear, como quem tem ou não tem: como quem já passou ou ainda vai passar por uma fase; como quem sabe ou consegue adivinhar o que vai acontecer.

O cancro é uma vontade de continuação; uma multiplicação de ambições desavergonhadas. Não se pode matá-lo. Mas pode-se contrariá-lo e essas acções contrárias criam contrariedades à medida de quem ousou levantar-se contra ele.

Não estou só a falar da pneumonia da Maria João que ontem a levou da nossa casa, para fazer-lhe frente e dar cabo dela. Nem das sequelas. Nem das consequências esperadas ou inesperadas. É das surpresas. São sempre boas ou más. Muitas vezes acabam bem. Mas nunca são boas. Por serem surpresas. Por serem sorte. Por não nos pertencerem.

24 de agosto de 2010

Tudo está confuso. Tudo está bem. Tudo está como deveria estar. Não há mundo que acabe às oito e doze da noite. MEC

Antes de jantar- Miguel Esteves Cardoso - 24-08-2010
Várias pessoas me têm perguntado, sendo eu uma pessoa que está no segredo do que vai acontecer, se o mundo vai mesmo acabar em 2012. É tudo gente que sobreviveu ao millenium bug de 2000. Contrariada, talvez. Afinal 2000 é um número mais aterrador, para quem gosta de ter medo mas não liga à aritmética, do que 2012.
Mesmo assim, a ideia que vamos todos morrer daqui a um ano e picos é irresistível, porque elimina o futuro - mais o trabalho e a preocupação que ele implica. Nada atrai tanto como uma data certa. Os obsessivos aproveitam para pôr a casa em ordem. Os chateados aproveitam para se divertirem o resto da vida.
Aqui em casa desenvolvemos, para contrariar o pessimismo de 2012, uma teoria crono-paranóica igualmente convincente - isto é, nada. Acertámos que o dia, como o mundo, tem 24 horas. Jesus nasceu à meia-noite, às zero horas e zero minutos e Portugal fundou-se, muito tempo depois, 27 minutos antes do meio-dia, às 11 horas e 43 minutos. A tempo de fazer o almoço. Os anos 60 a 99 de cada século não contam - são intervalos de recreio. Por exemplo, o mundo entre 1960 e 1999. Estamos agora em 2010: seja às oito e dez da noite. Ainda vamos jantar e é possível que ainda despachemos, metaforicamente, antes de morrer à meia-noite, no ano 2400, uma tosta mista em 2345, 15 anos antes da nossa civilização desaparecer.
Tudo está confuso. Tudo está bem. Tudo está como deveria estar. Não há mundo que acabe às oito e doze da noite.

13 de julho de 2010

O MEC e o Mundial!

Estou desde 6 de Junho a ver todos os jogos do Mundial e a escrever sobre esses jogos, três mil caracteres, todos os dias. Não estou bem. Gosto muito do jornal em que escrevi - O Jogo - e eles também gostam muito de mim. Mas detesto futebol e estou perto do fim. Ou assim espero.

Sabia que me iam arrancar um grande naco da minha vida - pelo menos um terço dela, oito horas. Mas pensava que, tal como tinha acontecido noutros Euros e Mundiais, ainda ficaria com os outros dois terços, para viver e isso.

Mas aí a meio do Mundial, aconteceu uma coisa horrível. Estava a almoçar com a minha mulher na praia - um tempo sagrado, só nosso - e, de repente, dei comigo a fazer-lhe perguntas de futebol.

O pior é que, antes de dar por isso, ainda fiz três ou quatro. E ela, que partilha o meu grande amor por tudo o que tenha a ver com bola, lá foi respondendo. Devemos ter conversado sobre o Mundial durante quatro longos minutos - e eu estava interessado na conversa.

E se não fosse a expressão aflita e estupefacta da Maria João - como se estivessem a crescer-me malmequeres das orelhas - eu nem sequer teria caído em mim.

Tinha sido contaminado pelo futebol. O futebol tinha saído da jaula fortificada onde eu o guardo e tinha conseguido invadir o jardim maximum security da minha vida.

A minha mãe já me tinha avisado. Quando nós éramos pequeninos e ela passava tempo de mais connosco, falando criancês - aquela língua delicodoce e cheia de diminutivos que os pais usam para dar ordens e ensinar coisas aos filhotes -, acontecia-lhe continuar a usar a mesma língua quando estava com adultos.

Durante um cocktail, aconselhava um comodoro americano que acabara de lhe ser apresentado a "não vai beber esse uisquizinho todo de uma vez, pois não? Parece muito bom e fresquinho, cheio de pedrinhas de gelo, mas o álcool faz mal ao figadozinho! E nós não queremos que isso aconteça com o comodoro, pois não? Não! Claro que não queremos, porque o comodoro é um bom comodoro e quer um dia ser almirante, não é?"

No criancês, o adulto geralmente responde às suas próprias perguntas e à criança cabe fazer que sim ou que não com a cabeça.

O futebolês não é muito diferente. Pergunta-se: "Achaste que foi fora-de-jogo?" E segue-se logo com a resposta: "Aquilo nunca foi fora de jogo!" (O futebolês é tão exageradamente agressivo e discordante como o criancês é ternurento e unanimista).

É muito perigosa esta contaminação cruzada. Todas as línguas infectadas ficam a perder. Um exemplo contemporâneo é a contaminação cruzada da língua amorosa com a língua amistosa ou social. Chama-se "meu amor" aos cabeleireiros: "Despacha-te, meu amor, que eu estou super-atrasada."

Quando "meu amor" é para toda a gente, todas as palavras do vocabulário amoroso são despromovidas. "Querido" já se usa como palavra agressiva: "Ó meu querido amigo, se você não tira já daí o carro..."

Na Inglaterra, love you! já se usa mecanicamente ao telefone, para indicar o fim de uma conversa. Em Portugal, ainda não chegámos a esse ponto, mas já se diz "amo-te" com grande ligeireza, no sentido de "obrigado!" ou "fizeste exactamente o que eu queria - obrigada!"

Diante esta apropriação, o amorês é obrigado a carregar-se de bagagens suplementares. Se "amo-te" não quer dizer nada, é preciso acrescentar: "Amo-te. Mas é a sério. É amor mesmo; amor verdadeiro." O que estraga tudo, claro.

Pior do que a ignorância
Durante o Mundial, aprendi este facto assustador: que é possível passar o dia inteiro a pensar em futebol. Os poucos momentos em que não se pode - como quando é preciso decidir o que se vai almoçar ou cumprimentar uma pessoa conhecida - são encarados como agressões. Como roubos de tempo. Quanto mais necessários são (ir à casa de banho), mais enervam.

Mais terrível ainda é descobrir que o futebol fica acima dos princípios, por muito profundos que sejam. Mais de uma vez, dei por mim a torcer por selecções oriundas de países com sistemas políticos ou valores culturais que me eram repugnantes.

Os apologistas do futebol dizem que o futebol une todos os povos do mundo. O pior é que é verdade. Produz uma sensação de conhecimento que é pior do que a ignorância. É como o bielorrusso que nos pergunta de onde somos e, quando dizemos Portugal, responde logo, todo contente e sabichão: "Sim, sim! Cristiano Ronaldo!"

A sabedoria que o futebol traz é ilusória. Imagine-se o mais perspicaz e inteligente bielorrusso, com uma pistola da polícia secreta encostada à cabeça, a ver jogar Cristiano Ronaldo para, a partir da maneira como ele joga, tentar ficar com uma ideia de como é Portugal e transmitir ao facínora que nos quer fazer mal o que aprendeu sobre o nosso país e a nossa gente.

Portugal joga à portuguesa? Os brasileiros têm sido os mais estigmatizados por esta contaminação cruzada, exigindo-se ignorantemente a sucessivas selecções que jogue "bonito" conforme os estereótipos implantados pelo Zé Carioca e pela Carmen Miranda.

É mais uma contaminação cruzada, esta de confundir a maneira de jogar de uma equipa com a maneira de ser de um país. Mesmo que um país pudesse ter uma maneira de ser.

No Mundial que acabou ontem, tal como em todos os anteriores, é a figura do treinador que impede que os brasileiros joguem "à brasileira" ou os holandeses "à holandesa". Subjaz a convicção que, caso se subtraísse a influência nefasta do treinador, os jogadores começariam logo a jogar naturalmente, no estilo que aprenderam ao colo da mãe.

Se o treinador for estrangeiro - como Fabio Capello e a selecção inglesa -, a noção é ainda mais fantasiosa. O italiano está a obrigar os ingleses a jogar à italiana. Se eles jogassem à inglesa, teriam ganho.

Refazer a vida
Destas confusões simplórias e enganadoras não viria grande mal ao mundo - se não fossem tão divertidas. O que vale é que, mal fazemos uma, logo ela é desmentida no dia seguinte, quando acontece nem sequer o contrário do que esperávamos - mas outra coisa diferente, fora do espectro das nossas hipóteses.

Foi quando a Alemanha eliminou a Argentina, por 4-0, que eu comecei a ficar preocupado. Fiquei triste - triste! - com a derrota da Argentina. E, por outro lado - o lado ainda mais preocupante -, gostei de ver a Alemanha jogar. E não lhes fiquei com ódio nenhum.

Que se passava? Só agora, com o Mundial já arrumado, posso enfrentar a inaceitável conclusão: tinha começado a gostar de futebol. Não da selecção portuguesa ou brasileira ou argentina. Não do futebol da Alemanha ou do Uruguai. Mas de futebol. Por si só. Foi chocante.

Para mais, segundo me avisaram alguns amigos preocupados comigo, não era só gostar - estava também a começar a perceber alguma coisa de futebol. Isto, para quem pensava que não havia ali nada para perceber, foi um susto ontológico.

Aqui fica o aviso, para quem tenha a inteligência e a sorte de não gostar de futebol: não se exponha ao futebol por largos períodos de tempo. Porque será contaminado. E qualquer felicidade que o futebol lhe dê far-se-á pagar com o quádrobro de sofrimento.

Para fugir ao futebol, tive de refazer a minha vida. Foi a minha mulher que me salvou. Cada vez que eu falava de futebol - sem ser durante um jogo -, ela respondia-me como se gostasse de futebol. E aí eu acordava, com o horror que isso acontecesse.

Eu gostar de futebol, ainda vá que não vá. Mas ela - ela não podia ser. Para mais, contaminada por mim.

Soluçando, disse adeus à rapaziada d"O Jogo, com quem tinha sido tão feliz, e casei-me com o PÚBLICO, onde o futebol não me pudesse encontrar.

Este é o meu primeiro trabalho casado para o PÚBLICO. É sobre o Mundial.

Se calhar, é impossível fugir.

16 de maio de 2010

Azul


O azul invade os nossos sentidos. Os olhos descansam e banham as suas próprias lágrimas no azul do mar. Banhados e purificados, levantam voo até ao azul dos céus, apenas interrompido aqui e além pela brancura de uma nuvem bem disposta.

20 de abril de 2010

Para as minhas amigas avós...

Mguel Esteves Cardoso

O meu neto António, que tem um ano e mês, já fala - mas ainda não conversa. Mas exprime-se muito bem. E ai de quem não compreender ou obedecer os desejos bem claros do nosso novo Rei. Embora recompense com magnanimidade quem não o contrarie. A mãe dele, a minha filha Tristana, pede-me para falar com ele em inglês. Pois bem. Assim farei. Até porque, quando cá esteve no sábado, o António e eu entendemo-nos como se estivéssemos num western. Só com olhares, sorrisos e sobrancelhas. Ele era o triunfante Gary Cooper em High Noon. Eu era Lloyd Bridges, o subxerife que desiste.

O neto é um recriador de atenções. Pára numa flor; depois noutra; examina um pão. Força-nos a reparar nas coisas que nos escaparam. Quando tentamos fazer o mesmo ("Olha os patinhos, António!"), não liga. Desobedece e, desobedecendo, mostra. Não somos nós que lhe mostramos o velho mundo - é ele que nos deixa entrar no mundo dele. É novinho em folha.

Ando ansioso para conversar com ele, mesmo em inglês. Conto os meses que faltam. Mas ele reconfortou-me: "Tem calma, avô. Esse processo comunicativo já está em marcha há muito tempo. E está a ser bom. Gosto mais da tua mulher do que tu mas, de resto, podes contar com a minha aprovação provisória."

E soube-me tão bem! Mal eu começo a aprender como ser avô, já ele sabe tudo o que vale a pena saber sobre ser neto. Somos aliados naturais. Não é preciso estarmos com fitas. A não ser aquelas em que entrou Gary Cooper.

6 de abril de 2010

MEC, outra vez belíssimo!

Anteontem fomos ao Magoito, sempre surpreendidos pelas novidades da Primavera. A rua do Chão Verde, em Fontanelas, deu-nos as primeiras vinhas de chão de areia, a nascer em folha. Está quase Maio! A meio de Maio, a Maria João deixa de ser radio-activa e poderá voltar a apanhar malmequeres sem torná-los azuis. O fim dos tratamentos está à vista, rodeado por princípios de novas vidas, todas a correr para o Verão, a acompanhar-nos e a dar-nos força e vontades.

Na Praia Grande, o mar destapou grandes rochas, dividindo e complicando a praia, tornando-a ainda mais bonita. O mar faz e refaz as praias conforme quer, como se nunca estivesse satisfeito, como um bruto a torcer um bocado de plasticina, a ver se se distrai e a não conseguir.

A areia que falta à Praia Grande foi parar à Praia do Magoito, tapando quase todas as rochas. Parece a Praia Grande. E a Praia Grande mais parece o Magoito. E a coisa não há-de ficar por aqui. Nunca fica.

No Magoito, conhecemos uma menina, sentada ao vento a ver o mar, que nasceu em "treze", há 97 anos. Estivemos a conversar. Quando era pequenina, sobreviveu à pneumonia. Chamavam-lhe "a boneca" por ser tão bonita e pequenina. Estava na mesma. Mais boneca ainda. Dantes vinha para o Magoito de burrinho e era um pulo. Agora tinha de ir a Sintra apanhar a carreira.

Mas valia a pena, por causa do iodo. A médica tinha-lhe receitado aquela praia: "Vá ao Magoito!" E ela lá estava, muito bonequinha e com muito prazer.
Miguel Esteves Cardoso, Público, 3 de Abril

29 de março de 2010

MEC. Público, Tens de ter força, 27 de Março

O cancro enfraquece - a fadiga do cancro é uma consequência inevitável.Um dos problemas do cancro e de outras doenças debilitantes é o conselho que damos aos doentes: "Tens de ter força!". Não percebo este conselho que mais parece uma ordem. Que quer dizer? Que se deve criar mais força? Que se deve manter a pouca força com que se fica?

O cancro enfraquece - a fadiga do cancro é uma consequência inevitável. O cancro cansa. Reduz a força. Não tira a vontade de viver. Mas reduz a energia para fazer os sacrifícios que é preciso fazer para melhorar as hipóteses de sobreviver.

Os doentes sabem que têm de empregar as poucas forças que lhe restam, assim como sabem que ajuda ser-se positivo: que o estado psicológico influencia o aproveitamento clínico. Sabem. A sério. Não é preciso estar sempre a recomendar que tenham força e que sejam positivos.

É difícil para os doentes enfraquecidos que olham a morte de frente terem força e serem positivos. A tendência deles é para se sentirem tão fracos como estão e tão negativos como se sentem. Como os conselhos, apesar de parecerem ordens nazis, comandando os coxos a correr maratonas, são bem-intencionados e amigos, não podem ser ocos. São estúpidos, mas devem dizer alguma coisa.

Acho que, no fundo, apelam a eles próprios. São os fortes à volta do fraco que têm de usar a força deles para ajudá-lo. São os capazes de ser positivos que têm de animá-lo.

Afinal são auto-exortações. Parecem conselhos amigos, que ficam por ali. Mas são incumbências que só a nós dizem respeito.

17 de março de 2010

Ainda ontem, MEC, do Público

O princípio de ti, Miguel Esteves Cardoso
Hoje a Maria João começa seis semanas de radioterapia diária no IPO. A meio de Maio poderá começar, graças a Deus e ao IPO, a esquecer-se, durante períodos de tempo cada vez mais longos, que estava na lista do cabrão do cancro e que, por enquanto, safou-se.
Na segunda-feira decidiu ir almoçar sem peruca.Hoje a Maria João começa seis semanas de radioterapia diária no IPO. A meio de Maio poderá começar, graças a Deus e ao IPO, a esquecer-se, durante períodos de tempo cada vez mais longos, que estava na lista do cabrão do cancro e que, por enquanto, safou-se.
Na segunda-feira decidiu ir almoçar sem peruca. Tanto a ruiva como a morena eram giras. Mas o cabelo doido, curto mas crescente, quase loiro e encaracolado, que irrompeu desde o fim da quimioterapia, tem uma beleza e um vigor que vai além de Jean Seberg no À bout de souffle de Godard. Em 1960, oito anos antes de a Maria João ter nascido. Eu juro que o vejo crescer, em vórtices e tropismos, mesmo durante a hora-e-meia de um almoço. São filamentos vivos. São relâmpagos capilares. Toda a cabeça dela está, depois de incendiada e caída, em maluca reflorestação. Bem sei que, daqui a uma semana até, o cabelo vai crescer até deixar de ser avant-garde e passar a ser, apenas, uber-cool. Mas, neste momento das nossas vidas e do nosso amor, é grandioso e bom que o processo da morte tenha mudado de sentido e que o corpo e a cabeça e o cabelo cresçam como se acabassem de ter nascido.
O meu amor está agora - mas não por muito tempo - como a carinha de menina na fotografia que me salvou nas passagens por hospitais e que é a primeira e única maravilha que vejo no meu iPhone.
Não precisas de força, amada querida. O teu cabelo, pela segunda e última vez, é a segunda coisa mais bonita que eu já vi, a seguir a ti.

21 de dezembro de 2009

Custa dizer adeus ao mar... MEC, Público 21-12-09

Custa dizer adeus ao mar. É quase Inverno. O tremor de terra foi abafado, a cem quilómetros do cabo de São Vicente, pelo mar. Na quinta-feira, as ondas rebentavam até ao horizonte, assustadas, em estado de choque.
No dia seguinte, o oceano parecia uma piscina, paralisado pelo medo do mar anterior.

Custa dizer adeus ao Verão. Ao Outono não custa nada. No Outono, ainda se tomam muitos banhos de mar; ainda não está frio; ainda há Setembro, Outubro e Novembro.

Por uma estranha e bem-vinda sintonia de cancro e de clima, o tempo acompanha a doença da mulher que eu amo. Foi no Verão que o descobrimos. Será no Verão, se tudo correr bem, que poderemos começar a esquecê-lo. Foi no Verão e no Outono que contra-atacámos, com quimioterapia a valer. Agora vem o Inverno, com cortes frios de cirurgia e bronzeamentos falsos de radioterapia. Vai chover todos os dias. Vai parecer que o mundo está a acabar. Mas não acabará. Graças ao grande e feliz cirurgião Fernando Orvalho e ao maravilhoso IPO que trabalha tanto com ele como connosco, já estamos a seis meses de distância da remissão, se Deus quiser.

Deus quer sempre. São as pessoas - eu e tu e ela e nós e vocês - que têm de ajudar a cumprir a vontade de Deus, que é sempre, por facilidade, a melhor.

Falta meio ano de um ano de má sorte. Vai escurecer e chover; ficar frio e trovejar. Mas daqui a seis meses será o princípio do Verão, dia 21 de Junho, seis dias antes da Maria João fazer anos. E tudo estará bem.

22 de outubro de 2009

...que seria de nós se não sonhássemos. Saramago

Hoje, os jornais dizem que a Basílica do Convento de Mafra se encheu de gente, que quis assistir ao Concerto de Órgão.
Será Mafra ainda o destino saloio dos Lisboetas, ao domingo à tarde?
Até lá chegarmos há moinhos na paisagem e as trouxas na Malveira. Bem perto, a Olaria do Zé Franco! E o velho oleiro ali está, moldando as suas figuras. Oferece um copo de vinho e pergunta, com simpatia, se gostamos daquele lugar.
Em Mafra, terra propriamente dita, todos os caminhos vão dar aos sinos do famoso carrilhão do Convento. Ouvem-se num raio de quinze quilómetros. Os duzentos e vinte metros de comprimento tornam este monumento uma verdadeira omnipresença naqueles lugares, que recendem uma respeitável tranquilidade histórica.
Mas não vamos poder falar de tranquilidade, se vamos falar do Memorial do Convento.
Nem do Convento! Como é que uma arquitectura tão imensamente grande, tão intensamente grandiosa, nasce da inquietação da alma de quem não consegue gerar um filho varão?
Só obra desta dimensão pode dar verdadeiramente graças ao poder divino, que aquietou o rei D João V e a rainha D. Maria Ana. Ou porque frei António de S. João tem razão, ou porque as preces repetidas de Dona Maria Ana Josefa foram finalmente ouvidas, a real barriga da humilde e submissa rainha vai finalmente crescer.
Mas o rei e a rainha não são as personagens principais deste romance histórico, que nos embala num ritmo quase balançado de quem fala ou de quem ouve, como se tivesse sido escrito, para ser dito. Os protagonistas têm nobreza na alma, mas são povo de condição. À excepção do Padre, que pertencendo à habitualmente classe privilegiada, se aproxima de quem se acha próximo: o homem e a mulher, os verdadeiros, aqueles que sonham como ele sonha, que têm visões, com quem pode partilhar a sua alucinação e o seu segredo: o voo e a passarola.
O homem é Baltasar, o Sete-Sóis. Um ex-soldado. Perdeu a mão, tem agora para seu lugar um monte de ferros guardados. Pedinte em Évora. Na primavera, dirige-se a Lisboa. Pernoita em Aldegalega. ”Passou a noite em paz.” De manhã cedo, a maré é boa, paga a passagem e atravessa o rio. ”Na outra margem, assente sobre a água, ainda longe, Lisboa derramava-se para fora das muralhas.” Há-de seguir para Mafra, para abraçar a mãe, Marta Maria, que não sabe se o filho é vivo ou morto, por isso o julga morto ou vivo.
A mulher é Blimunda, filha de Sebastiana Maria de Jesus. Tal como a mãe, ela tem poderes: vê dentro das pessoas. Para que isso não aconteça, logo de manhã, deve quebrar o jejum, antes de abrir os olhos. Mas promete a Baltasar nunca o ver por dentro.
O Padre é Bartolomeu Lourenço, mais tarde, Gusmão, depois de ser Doutor da Igreja. Fala a Baltasar dos seus projectos de voar. Por isso, lhe chamam o Voador. Afirma-lhe que já voou ao que o pobre replica que só pássaros e anjos voam. Ou os homens quando sonham. “...mas em sonhos não há firmeza.” Mas o Padre contrapõe: “O homem primeiro tropeça, depois anda, depois corre, um dia voará...” Mostra a Baltasar um desenho do seu engenho voador. Baltasar vê o desenho de um pássaro e acredita que o homem pode voar.
E são tantos os momentos tocados pela magia dos bons sentimentos de Baltasar, de Blimunda e do Padre Bartolomeu Lourenço! Porque puro e mágico é o seu pensamento. Um pensamento que pensa Deus misericordioso, Deus que vê directamente nos corações. “...e se os pecados forem tão graves que não devam passar sem castigo, este virá pelo caminho mais curto (....)se entretanto as boas acções não compensarem por si mesmas as más....” Estas são considerações tecidas à cabeceira de Blimunda, quando ela adoece, ninguém sabe de quê. Quando Blimunda sai daquele torpor, a máquina de voar está pronta.
E voam. Voam naquele céu de que o povo tanto espera, mas para o qual pouco olha. Acompanha-os um milhafre. A máquina cai, mas os três estão sãos e salvos.
O Padre desaparece e morre em Toledo. Baltasar também desaparece. Blimunda espera por ele. A angústia de uma espera frustrada perpassa a última parte deste romance. Com essa angústia procura-o, julga mesmo poder encontrá-lo, no dia da sagração.
Mas só o vai encontrar nove anos mais tarde. É um dos onze que ardem no fogo da Inquisição.

Leitura sugerida: O Memorial do Convento de José Saramago
José Saramago nasceu a 16 de Novembro de 1922, na aldeia de Azinhaga, Ribatejo. Teve numerosos empregos e diversas profissões: foi serralheiro mecânico, editor, jornalista...A sua primeira obra data de 1947, Terra de Pecado tendo-se seguido um longo período sem qualquer publicação.
Em 1993, já autor consagrado, retirou-se para Lanzarote, onde vive desde então, com a sua mulher Pilar.
Em 1998, a mais alta distinção literária surpreende o escritor em pleno aeroporto de regresso a casa. Vinha da Feira Anual de Frankfurt. E regressou à Feira, onde o esperavam as primeiras emoções e as primeiras rosas. As primeiríssimas, viveu-as sozinho, segundo conta, nos intermináveis corredores do aeroporto, depois de ter sido chamado ao telefone, para lhe comunicarem a razão pela qual não devia embarcar.

5 de outubro de 2009

Quando é Outono? MEC 05/10/09

Quando é Outono?
Miguel Esteves Cardoso - 20091005
No PÚBLICO de ontem saiu uma crónica minha a dizer que, no dia anterior, tinha tomado o último e melhor banho de mar deste ano. Mais uma vez, bastou eu escrever para se tornar mentira. Porque ontem tomei um banho, na mesma Praia das Maçãs, ainda melhor e mais comprido. Hoje e amanhã é provável que piore ainda mais a mentira. Quem sabe? Não há maneira de saber. Mas a água estava uma esmeralda fresca, passe a poesia rasca. Só a fome de ver a minha mulher (e de almoçarmos uma posta descomunal de badejo, confesso) me arrancou dobalancé daquele berço atlântico que bóia como se o oceano ainda fosse o nosso líquido amniótico.
Compreendi então que o tempo português não é como os outros. Ninguém sabe quando começa o Outono: o Outono, em Portugal, é muito curto. Por isso deve-se apreciá-lo mais. Só resta adivinhar quando começa...
Em Setembro não foi, com certeza. Em Outubro - até aqui - só ocorreu a parte botânica e cinematográfica, das folhas vermelhas a cair. Compreende-se porque é que Orlando Ribeiro passou tantas noites sem dormir, antes de perceber que tanto éramos mediterrânicos como atlânticos; sulistas como nortenhos; africanos como europeus.
Acho que é em Novembro que vem o nosso Outono. Num Novembro já um pouco adiantado e invernoso, para não dizer miserável. Está feito com o Inverno, mas comprometido ainda com uma Primavera que já não ama mas que não pode desiludir.
O Verão é o que se vê; o contrário do futuro do verbo ver.

3 de julho de 2009

10 de maio de 2009

Marisa Marchetto Vencer o cancro de saltos altos

10.05.2009, Texto Margarida Santos Lopes Fotografia Enric Vives-Rubio


Se o cancro da mama é o segundo entre os que mais matam mulheres em todo o mundo, Marisa Acocella Marchetto crê ter encontrado uma arma ainda mais mortífera para o combater. Fez uma BD e mostrou como "saltos assassinos de 12 centímetros" intimidam qualquer "célula zangada".


O trabalho começou na viagem de avião que a trouxe a Lisboa, para a apresentação da edição portuguesa do livro Cancer Vixen, e ficou pronto antes do regresso a casa, em Nova Iorque (Estados Unidos da América) - menos de uma semana.
Não foi fácil a Marisa Acocella Marchetto encontrar tempo para desenhar para a Pública e respeitar os prazos de entrega dos seus trabalhos para a New Yorker e a Glamour.
Mas quem sobrevive a um cancro, tudo consegue. Não sejam vítimas, foi a mensagem que desenhou. Sejam mais generosas. Há uma receita para uma vida feliz: tomar uma dose de amor e perdão todos os dias.
1. Descreva-se a.c. (antes do cancro)
[ Marisa (eu) a.c.
(antes do cancro)
O meu peso
O meu cabelo
O meu isto
A minha dieta
Os meus sapatos
A minha vida
Eu, eu, eu, eu, euuuu
Eu tinha de ter os melhores sapatos
As melhores malas
Os melhores jeans
Os melhores óculos de sol
Ir às melhores festas
E tudo de tinha ser do melhor, melhor, melhor!]

2. Encontrar um caroço no peito e saber o diagnóstico de cancro da mama sem seguro de vida foi devastador. Como encontrou coragem para lutar?
[Tenho este hábito nervoso. Chama-se desenhar...
... é melhor do que eu antes fazia, ao manter as minhas mãos ocupadas
Bem, descobri que quando passamos os nossos sentimentos a papel, a isso se chama 'diário de um objectivo'. Aqui está como eu desenhei as 'células cancerosas', e quando fiz isso, ri-me delas. Tornou o cancro menos intimidativo.]

3. De um modo geral, as pessoas ainda olham para o cancro da mama como uma sentença de morte. Por que motivo sentiu necessidade de contar a toda a gente - até a estranhos - que tinha cancro?
[Cancro
Eu queria tirar o cancro para fora de mim...
Cancro
Cancro
E colocá-lo numa página
Tirem isso das vossas mamas, raparigas!
Escrevam!
Escrevam!
Escrevam! *
*Este processo chama-se 'diário de um objectivo']

4. Foi fácil, para si, dizer a palavra "cancro"?
[Ri-me na cara do cancro! Ha ha ha ha ha!!!]

5. Levou a obsessão pelos sapatos até às sessões de quimioterapia. Isso foi importante porquê?
[Eu pratiquei a 'lei da distracção', focando-me em algo bonito e não em algo doloroso...
As agulhas não têm graça
A única coisa que me fazia sentir bem era olhar para os meus sapatos]

6. Como é que aprendeu a aceitar todas as transformações do seu corpo depois dos tratamentos e amar-se a si própria?
[Eu, d.d.
(Depois do diagnóstico)
Lembro-me de dizer ao meu corpo...
'Corpo, tu vais entrar em dieta, fazer exercício e ganhar o respeito que mereces!
E obrigada por lutares e seres forte!]

7. Como é que psicólogos, rabis e santos a ajudaram a sobreviver? Ainda precisa deles?
[A minha fé ampara a minha vida
Maria, Rainha do Céu
Cabalistas, usam sobretudo branco
O Padre Jake está comigo em espírito]

8. Escreveu que a experiência do cancro a mudou para sempre - até conseguiu perdoar pelo menos uma das suas "inimigas". Qual é a "receita" para ser mais positiva e generosa?
[Receita para uma vida feliz.
Amor
Perdão
Tome uma dose saudável todos os dias!]

9. Sem o grande amor de Silvano (e da sua mãe), a sua história seria diferente?
[Eu não estaria aqui sem o AMOR
Silvano usa sempre os seus óculos escuros]

10. Vixen, uma guerreira, e não uma vítima - qual o objectivo do seu livro? O que recomenda a outras mulheres?
[Não seja uma vítima, seja uma VIXEN
Eu pensei nisso
Eu vi isso
Eu acreditei nisso
Eu tornei-me nisso
Desenhei-me a mim própria como uma vixen que dá um pontapé no cancro, e este desenho estava no meu estirador nesse ano do cancro [2004]
Agora, chamo ao meu estirador a minha 'mesa magnetizadora'
VEJA-SE COMO VIXEN E SERÁ UMA
VIXEN!] a

Na primeira sessão de quimioterapia, Marisa Acocella Marchetto usou umas sandálias Charles Jourdan azul-metálico de lucite. Nas seguintes escolheu criações de Giuseppe Zanotti, Casadel ou Emílio Pucci. "Em vez de me concentrar na agulha que me espetava a mão, olhava para os meus maravilhosos five-inch killer heels [saltos assassinos de 12 centímetros] para me descontrair", diz esta americana, a "ilustradora citadina, louca por sapatos, obcecada por batom, apreciadora de uma boa pinga, doida por massas e fanática por moda" a quem foi diagnosticado um cancro de mama, em Maio de 2004. Tinha 43 anos e faltavam três semanas para se casar com "o homem perfeito".
A dar um pontapé num tumor "do tamanho de uma pérola" é como ela se desenha a si própria em Cancer Vixen (edições Asa), a BD que veio lançar a Lisboa na semana passada - mais de 200 páginas coloridas de humor e amor. Sim, ela cronometra o medo que sentiu ao descobrir um caroço no peito, confessa a vergonha de nunca ter feito uma mamografia, alardeia o embaraço de ter deixado caducar o seguro de saúde e não oculta o pavor de ser abandonada pelo amor da sua vida. Por outro lado, é de forma hilariante e sem autocomiseração (mesmo no desconsolo) que vai dando conta de todas as etapas da batalha contra "um sacana que não veio nada a calhar" - quando ela, solteira Acocella, havia conquistado Silvano Marchetto às jovens que, descaradamente, o cobiçavam, planeava a compra de um gracioso vestido de noiva, e os editores das revistas New Yorker e da Glamour lhe requisitavam mais trabalhos. Oportunidade para aqui confirmar como é dura a vida de freelance ("por cada desenho vendido, há 100 que são rejeitados"). E ela não parou na doença, sempre acompanhada dos seus dois gravadores presos com fita-cola, câmara fotográfica, caderno de esboços e a caneta favorita, Rapdiograph 0.35.
Marisa, que vivia num "apartamento superchique - um minúsculo T1 no 2.º andar de um prédio de três, sem elevador, em West Village [Nova Iorque]", e frequentava todos os "eventos in", diz à Pública que trocou o lema take it off your chest ("tira isso do peito") por take it off your breast ("tira isso da mama"). Quando fala do passado, já está a pensar no futuro. "Antes de pensar na quimioterapia, concentrei-me na minha lua-de-mel. Não queria que me vissem como doente de cancro."
É por isso que, com ela, zombamos das "células zangadas" (cancerosas), criaturas verdes de língua escarlate de fora e dedo em riste num gesto obsceno. Que devoramos as tempestuosas conversas com Violleta, a mãe ou (S)mother - trocadilho para a expressão inglesa "asfixiar". Que aguçamos os ouvidos para os mexericos com as APS (amigas para sempre). Que rejubilamos com os raspanetes da Virgem Maria ("Se passares o dia na cama, nunca vencerás") e de Mary Poppins (Acabou-se a lamúria! Levanta-te... Já, já"). Que partilhamos a sua revolta por os testículos não serem "colocados num torno", tal como as mamas são "espremidas, esborrachadas, esmagadas e entaladas" nas mamografias. Que nos surpreendemos com a devoção a Santa Filomena e ao Beato Jacob, "protectores dos que sofrem", conjugada com sessões espirituais no centro cabalístico judaico.
Conclusão de Marisa: "Se somarmos 29 agulhas, oito quilos, 11 técnicos de radioterapia, 11 assistentes médicos, nove enfermeiras, oito médicos, 192.720,4 dólares, dois rabis e um padre, o resultado é uma experiência que me mudou para sempre." Em Lisboa, cinco anos depois de sentir que o universo a aspirara para um buraco negro, a loura que "apenas se preocupava com questões estúpidas e egoístas de auto-estima, pele e cabelo", confessa que continua a ser uma fashionista.
"Oh sim, ainda gosto muito de andar na moda, mas agora na perspectiva de me fazer sentir mais poderosa", confessa enquanto se senta na poltrona de um hotel, o sol primaveril a iluminar o rosto translúcido bem maquilhado. "Deixei de ser uma vítima da moda para ser uma vencedora. Já não é uma questão de competição, mas a expressão de quem se sente bem. Se nos sentirmos bem, isso reforça o nosso sistema imunitário e, assim, são menos as probabilidades de adoecermos. É uma outra forma de terapia."
"Hoje, trago umas calças de cabedal justas e um sapatos altíssimos como eu adoro, tudo preto e Alexander McQueen", descreve-se a pequena Marisa (menos de 1,60 m), alongando as pernas para exibir o que qualifica de "grande extravagância" do ano corrente. "Esta camisola [cor-de-rosa, ostentando um laço da luta contra o cancro da mama] não tem marca, e a camisa tem uns 20 anos, mas aprecio combinar velho e novo. A sombra dos olhos permanece azul. As unhas, pintei-as de turquesa. Combinam bem com os ténis do meu marido" - e com a pedra do anel de noivado.
Encostado a uma janela, Silvano, 62 anos, interrompe a conversa, fixando em Marisa os olhos azuis de ternura com que ela o retrata no livro a ele dedicado. "Então era isso que vinha naqueles sete sacos que o empregado levou lá a casa!", brinca num inglês-italiano (quase) imperceptível. "Sim", ri-se a primeira ilustradora do jornal New York Times ('autora the The Strip, que saía aos domingos alternados na secção Styles'). "Não lhe posso esconder nada."
"Os tacões de 12 centímetros de salto fazem-nos sentir conquistadores do mundo", elucida Marisa. "As pernas não ficam bonitas com saltos rasos e eu não me sinto confiante." Na sala VIP, enquanto a mulher caminha altiva nos seus pumps (sapatos fechados com abertura à frente), o marido desfila, divertido, os ténis de múltiplos tons, personalizados com o logótipo do restaurante (famoso pela gastronomia toscana e pela clientela famosa) de que é proprietário em Nova Iorque, o Da Silvano.
Violleta e Jackie Kennedy
O logo - a cara bonacheirona de Silvano, de cabelo branco e óculos de sol - foi o princípio de uma relação que o cancro solidificou. Marisa tinha ido ao restaurante que Spielberg e Armani frequentam para escrever um artigo sobre "o preço de estar na moda". A reportagem não chegou a ser publicada pela extinta revista Talk porque se tornou superficial depois dos ataques de 11 de Setembro de 2001. Em Janeiro de 2002, ela propôs a Silvano compensá-lo, desenhando o cartão de inauguração de um novo estabelecimento. Apresentou quatro sugestões e ele aceitou todas, depois de inúmeras modificações a que ela aquiesceu pacientemente. Difícil resistir a um galã que nunca se zanga e cuja palavra de ordem é che bella giornata.
Além de carros desportivos (sete) e relógios (60), Silvano também colecciona sapatos - terá cerca 100, o dobro de Marisa, por causa das nódoas que apanha na cozinha -, mas a paixão que ela sente por andar de saltos altos foi herança de Violetta Paolina Margarida Mazzucca d'Rentis Acocella. "Quando comecei a desenhar, aos três anos, já imitava a minha mãe, que trabalhava em casa. Lembro-me que, aos quatro anos, tinha botas de verniz cor de marfim; aos cinco, botas de verniz pretas; aos seis, botas de cano alto e salto quadrado, verniz de cores verde ácido e laranja vivo. Já naquela altura, eu era uma shoe-aholic [sapatoólica]!"
Violleta "tem um extraordinário fashion sense", elogia Marisa. "Nos anos 1960, ela usava Pucci e tinha o cabelo preto comprido como o da Cher, com uma madeixa loura na franja -muito na vanguarda. Levava-me às compras e o seu gosto era sempre o mais ousado. Foi ela que me encorajou a exprimir-me pela moda."
Numa troca de emails com a Pública, a partir de Nova Jérsia, onde vive, a mãe de Marisa desvenda que começou a desenhar sapatos antes de terminar o liceu. "Eu ia para Nova Iorque aos sábados e deixavam-me fazer os meus sapatos durante o fim-de-semana. Fui depois completar os meus estudos para o Pratt Institute [escola de arte e arquitectura], mas sempre a desenhar sapatos."
Quando se licenciou, Violletta foi trabalhar como designer na I. Miller Shoe Company, "naquele tempo, o mais requintado fabricante de sapatos de Nova Iorque", mas foi no armazém de luxo Bergdorf Goodman que ela conheceu Jacqueline Kennedy. "Quando ela me telefonou [para fazer uma encomenda], pensei que era alguém a pregar-me uma partida", relata. "Tinha uma voz doce e falava com eloquência. Tornámo-nos amigas e tínhamos algo mais em comum do que os sapatos. Estávamos ambas grávidas. Ela de John Jonh e eu de Marisa. Lamentávamo-nos por termos os pés grandes - embora ela ficasse contente por os meus serem maiores (número 42) do que os dela (número 41). Foi este episódio que me fez desenvolver tamanhos grandes e desenhar para ela sapatos que a faziam parecer maravilhosa. Ainda guardo um par de sapatos que fiz para mim na mesma altura que fiz para Jackie."
O bicho do cartoon
Não foi só nos sapatos e na moda que Violleta influenciou Marisa. "Vi como Marisa era talentosa desde muito pequenina", exulta a mãe. "Encorajei-a a seguir o seu talento. Aos quatro anos, levei-a a uma amiga que era professora de arte. Ela recusou inicialmente dizendo que não era babysitter. Pedi-lhe que a deixasse assistir apenas a uma aula. E Marisa foi, aos quatro anos, a uma aula de adultos. No final, a professora estava deslumbrada com a filha fabulosa que eu tinha. Pegou nas duas aguarelas que ela pintou, emoldurou-as e apresentou-as a um concurso. Marisa ganhou o primeiro prémio."
Marisa dá mais pormenores: "A minha mãe desenhava sapatos fabulosos para mulheres e eu, aos três anos, tentava desenhar mulheres que conhecia. Aos oito, cheguei à conclusão de que essas mulheres eram muito aborrecidas. Não tinham nada para dizer. Um dia, o meu pai decidiu que iríamos ter umas férias grandes e fomos até às Bermudas. Ficámos num hotel que a minha mãe detestou, porque era muito pequeno. Queixou-se ao gerente e ele deixou-nos ficar numa casa cor-de-rosa em frente ao resort. Nas paredes havia desenhos com legendas, e eu exclamei: 'Oh meu Deus, as mulheres que eu desenho sabem falar!"
A casa era de James Thurber, lendário cartoonista da New Yorker. "Nessa noite fiquei a ler as revistas e os livros dele até de madrugada", relembra. "Duas horas depois, acordei com formigas a subirem-me pelo corpo. Fomos para uma carrinha e havia lá outras 400 formigas. Gosto de dizer que fui mordida pelo bicho do cartoon. Foi assim que a aventura começou."
Inquirida sobre se a sua mãe gostou da maneira como a desenhou em Cancer Vixen (que esteve para se chamar Breast Cancer Scenario, "título horrível" que um amigo chumbou), Marisa dá uma gargalhada: "Depois de meses de ausência, já na arte final, fui visitar os meus pais. A minha mãe entrou na sala, tinha emagrecido 12 quilos, e disparou: 'Não gostei da maneira como me desenhaste'." Violleta dá a sua versão: "Eu sei que Marisa me ama. O livro confirma esse amor e tocou-me o coração." Quanto a ser tratada como (S)mother, admite: "É um modo carinhoso de mostrar a minha personalidade, mas sim, creio que amo os meus filhos DEMASIADO, e agora todos me chamam (S)mother."
Falta-nos alguma coisa?
Se Violleta é uma mãe "sufocante", Marisa só poderá ser madrasta de Leyla, a filha de Silvano. Uma das passagens mais comoventes do livro é quando ela interioriza que só poderá engravidar aos 49 anos, devido à ingestão do Tamoxifen, medicamento que "bloqueia o estrogénio no peito". Desenha um bebé num céu estrelado e o diálogo é tristonho: "Desculpa... pensei que tinha muito tempo, mas só tinha um piscar de olhos." E a criança despede-se: "Adeus." Violleta chora: "Sempre pensei que ias ter uma menina."
Marisa conformou-se: "Muita gente ficou impressionada. Não poder ter filhos é uma realidade. Mas tenho uma enteada maravilhosa. Tenho uma vida muito ocupada. Tenho muito trabalho. Tenho uma vida cheia. Tenho um marido maravilhoso." Vira-se para Silvano e pergunta: "Falta-nos alguma coisa?" Ele murmura: "Nada!"
A grande missão de Marisa é agora o seu Cancer Vixen Fund, que tem Silvano com "principal benfeitor", criado em colaboração com o Hospital de St. Vincent, onde foi operada e tratada. "Este projecto é dedicado às mulheres que não têm seguro de vida e a quem foi diagnosticado cancro de mama", especifica. "Mais de 49 por cento correm o risco de morrer da doença. Porque adiam os exames ou, se estes dão positivo, não se tratam por falta de dinheiro. Temos vários patrocinadores: a fundação Estée Lauder, a Breast Awareness Campaign, os [armazéns] Bloomingdale's e a [transportadora] Continental Airlines, entre outros. Também somos membros da American Cancer Society."
O Vixen Fund foi uma ideia que nasceu quase ao mesmo tempo que Marisa soube o seu diagnóstico. "Senti que tive muita sorte [o cancro foi detectado no início, uma leve quimioterapia não lhe fez cair o cabelo, amigos e chefes criaram uma rede de solidariedade, Silvano incluiu-a no seu seguro de saúde] e eu quis retribuir."
A instituição realiza duas vezes por ano cerca de 300 mamografias gratuitas. Desde 2006, "felizmente, só um caso deu positivo". Poderá não ter um final feliz. Mas Marisa acredita em milagres.
Espreite aqui e aqui.

9 de maio de 2009

Odeio amar-te tanto!

Miguel Esteves Cardoso Ainda ontem - 20090509
Como também faço, nunca reparei. Mas é capaz de ser a faceta mais assustadora dos portugueses: quando elogiamos uma coisa, parece que ficamos zangados. Se dissermos que gostamos muito de uma coisa, o tom da voz e o carregar das sobrancelhas são agressivos: "Adoro pastéis de bacalhau! Sou muito amigo dele! Sou do Benfica!" As nossas declarações de amor são exprimidas como se estivéssemos numa batalha até à morte, a defender a coisa amada do ataque traiçoeiro dum inimigo.Como também faço, nunca reparei. Mas é capaz de ser a faceta mais assustadora dos portugueses: quando elogiamos uma coisa, parece que ficamos zangados. Se dissermos que gostamos muito de uma coisa, o tom da voz e o carregar das sobrancelhas são agressivos: "Adoro pastéis de bacalhau! Sou muito amigo dele! Sou do Benfica!" As nossas declarações de amor são exprimidas como se estivéssemos numa batalha até à morte, a defender a coisa amada do ataque traiçoeiro dum inimigo.
Pergunta-se calmamente: "Gostas do Mosteiro da Batalha?" E a resposta vem carregada de sobrolho e de padaria aljubarrotense: "Adoro o Mosteiro da Batalha!" Está-se sempre à espera que completem a confissão com um "Porquê? Há azar? É que se houver, vou-te já aos cornos!".
Podemos estar a falar da mãe, do cozido à portuguesa, de Amália, de Sófocles ou dos dias enevoados de Maio. Outros povos, quando elogiam uma coisa, reflectem na cara e na voz a estima que lhe têm, ficando enlevados, carinhosos e felizes: "Oh, I love pastéis de bacalhau, she's a good friend of mine, etc..."
Até parece que suspiram um bocadinho de portuguesa saudade dessa coisa quando falam dela. Nós não. Isso para nós é muita complicação, estar a adequar a cara que se faz ao que sente o coração. Parece falso, não é? É por isso que preferimos dizer que amamos com a mesma voz e a mesma tromba que usamos para dizer que odiamos. Sem pestanejar sequer. Ah leão!
É incrível: até com robertos se consegue melhor.

10 de abril de 2009

Mec, 10 de Abril

Pode faltar o dinheiro e podem estar a falir jornais e revistas a eito, mas, neste intervalo em que vivemos, entre a papirocracia que reinava antes da Internet e a electrocracia que aí vem, somos quase todos infomilionários.
Temos tantas fontes e formas de comunicação e entretenimento à nossa mercê que cada um pode compilar um pacote multimédia feito à medida, que mais ninguém tem - ou quer. Dantes (os que podíamos), víamos e líamos mais ou menos as mesmas coisas.Pode faltar o dinheiro e podem estar a falir jornais e revistas a eito, mas, neste intervalo em que vivemos, entre a papirocracia que reinava antes da Internet e a electrocracia que aí vem, somos quase todos infomilionários.
Temos tantas fontes e formas de comunicação e entretenimento à nossa mercê que cada um pode compilar um pacote multimédia feito à medida, que mais ninguém tem - ou quer. Dantes (os que podíamos), víamos e líamos mais ou menos as mesmas coisas. Havia quatro canais; quatro jornais; quatro paredes caiadas e um cheirinho a alecrim. As conversas no dia seguinte eram aconchegadas e previsíveis; regendo-se pelo duro código do "Ó vizinha!".
Eram os dias do "Viste o...?/Então não vi!" . Ajudava a conversar - mas o subtexto era claustrofóbico e aldeão: "Que remédio...". E, nos dias maus, que raramente faltavam, era cá uma festa descobrir uma coisa que se pudesse ver ou ler com agrado.
Agora não. Entrámos na época da pergunta contrária: do "Não sabias?!". Todos temos o nosso próprio (respire fundo) portefólio léxico-audiovisual. Mas - hélas! -, por muito que o queiramos vender aos nossos amigos (para podermos fazer uma pequena ideia do que estão a falar), eles não o compram, porque não abdicam dos portefóliozinhos deles. "Não viste? Nunca ouviste? Não sabias? Não conheces? Não me digas! Ah, tens de ler! Eu vou-te mandar! Vais adorar!": é esta a nova banda sonora.
Diga adeus ao diálogo e seja bem-vindo aos monólogos do futuro.