16 de maio de 2010

Azul


O azul invade os nossos sentidos. Os olhos descansam e banham as suas próprias lágrimas no azul do mar. Banhados e purificados, levantam voo até ao azul dos céus, apenas interrompido aqui e além pela brancura de uma nuvem bem disposta.

20 de abril de 2010

Para as minhas amigas avós...

Mguel Esteves Cardoso

O meu neto António, que tem um ano e mês, já fala - mas ainda não conversa. Mas exprime-se muito bem. E ai de quem não compreender ou obedecer os desejos bem claros do nosso novo Rei. Embora recompense com magnanimidade quem não o contrarie. A mãe dele, a minha filha Tristana, pede-me para falar com ele em inglês. Pois bem. Assim farei. Até porque, quando cá esteve no sábado, o António e eu entendemo-nos como se estivéssemos num western. Só com olhares, sorrisos e sobrancelhas. Ele era o triunfante Gary Cooper em High Noon. Eu era Lloyd Bridges, o subxerife que desiste.

O neto é um recriador de atenções. Pára numa flor; depois noutra; examina um pão. Força-nos a reparar nas coisas que nos escaparam. Quando tentamos fazer o mesmo ("Olha os patinhos, António!"), não liga. Desobedece e, desobedecendo, mostra. Não somos nós que lhe mostramos o velho mundo - é ele que nos deixa entrar no mundo dele. É novinho em folha.

Ando ansioso para conversar com ele, mesmo em inglês. Conto os meses que faltam. Mas ele reconfortou-me: "Tem calma, avô. Esse processo comunicativo já está em marcha há muito tempo. E está a ser bom. Gosto mais da tua mulher do que tu mas, de resto, podes contar com a minha aprovação provisória."

E soube-me tão bem! Mal eu começo a aprender como ser avô, já ele sabe tudo o que vale a pena saber sobre ser neto. Somos aliados naturais. Não é preciso estarmos com fitas. A não ser aquelas em que entrou Gary Cooper.

6 de abril de 2010

MEC, outra vez belíssimo!

Anteontem fomos ao Magoito, sempre surpreendidos pelas novidades da Primavera. A rua do Chão Verde, em Fontanelas, deu-nos as primeiras vinhas de chão de areia, a nascer em folha. Está quase Maio! A meio de Maio, a Maria João deixa de ser radio-activa e poderá voltar a apanhar malmequeres sem torná-los azuis. O fim dos tratamentos está à vista, rodeado por princípios de novas vidas, todas a correr para o Verão, a acompanhar-nos e a dar-nos força e vontades.

Na Praia Grande, o mar destapou grandes rochas, dividindo e complicando a praia, tornando-a ainda mais bonita. O mar faz e refaz as praias conforme quer, como se nunca estivesse satisfeito, como um bruto a torcer um bocado de plasticina, a ver se se distrai e a não conseguir.

A areia que falta à Praia Grande foi parar à Praia do Magoito, tapando quase todas as rochas. Parece a Praia Grande. E a Praia Grande mais parece o Magoito. E a coisa não há-de ficar por aqui. Nunca fica.

No Magoito, conhecemos uma menina, sentada ao vento a ver o mar, que nasceu em "treze", há 97 anos. Estivemos a conversar. Quando era pequenina, sobreviveu à pneumonia. Chamavam-lhe "a boneca" por ser tão bonita e pequenina. Estava na mesma. Mais boneca ainda. Dantes vinha para o Magoito de burrinho e era um pulo. Agora tinha de ir a Sintra apanhar a carreira.

Mas valia a pena, por causa do iodo. A médica tinha-lhe receitado aquela praia: "Vá ao Magoito!" E ela lá estava, muito bonequinha e com muito prazer.
Miguel Esteves Cardoso, Público, 3 de Abril

29 de março de 2010

MEC. Público, Tens de ter força, 27 de Março

O cancro enfraquece - a fadiga do cancro é uma consequência inevitável.Um dos problemas do cancro e de outras doenças debilitantes é o conselho que damos aos doentes: "Tens de ter força!". Não percebo este conselho que mais parece uma ordem. Que quer dizer? Que se deve criar mais força? Que se deve manter a pouca força com que se fica?

O cancro enfraquece - a fadiga do cancro é uma consequência inevitável. O cancro cansa. Reduz a força. Não tira a vontade de viver. Mas reduz a energia para fazer os sacrifícios que é preciso fazer para melhorar as hipóteses de sobreviver.

Os doentes sabem que têm de empregar as poucas forças que lhe restam, assim como sabem que ajuda ser-se positivo: que o estado psicológico influencia o aproveitamento clínico. Sabem. A sério. Não é preciso estar sempre a recomendar que tenham força e que sejam positivos.

É difícil para os doentes enfraquecidos que olham a morte de frente terem força e serem positivos. A tendência deles é para se sentirem tão fracos como estão e tão negativos como se sentem. Como os conselhos, apesar de parecerem ordens nazis, comandando os coxos a correr maratonas, são bem-intencionados e amigos, não podem ser ocos. São estúpidos, mas devem dizer alguma coisa.

Acho que, no fundo, apelam a eles próprios. São os fortes à volta do fraco que têm de usar a força deles para ajudá-lo. São os capazes de ser positivos que têm de animá-lo.

Afinal são auto-exortações. Parecem conselhos amigos, que ficam por ali. Mas são incumbências que só a nós dizem respeito.

17 de março de 2010

Ainda ontem, MEC, do Público

O princípio de ti, Miguel Esteves Cardoso
Hoje a Maria João começa seis semanas de radioterapia diária no IPO. A meio de Maio poderá começar, graças a Deus e ao IPO, a esquecer-se, durante períodos de tempo cada vez mais longos, que estava na lista do cabrão do cancro e que, por enquanto, safou-se.
Na segunda-feira decidiu ir almoçar sem peruca.Hoje a Maria João começa seis semanas de radioterapia diária no IPO. A meio de Maio poderá começar, graças a Deus e ao IPO, a esquecer-se, durante períodos de tempo cada vez mais longos, que estava na lista do cabrão do cancro e que, por enquanto, safou-se.
Na segunda-feira decidiu ir almoçar sem peruca. Tanto a ruiva como a morena eram giras. Mas o cabelo doido, curto mas crescente, quase loiro e encaracolado, que irrompeu desde o fim da quimioterapia, tem uma beleza e um vigor que vai além de Jean Seberg no À bout de souffle de Godard. Em 1960, oito anos antes de a Maria João ter nascido. Eu juro que o vejo crescer, em vórtices e tropismos, mesmo durante a hora-e-meia de um almoço. São filamentos vivos. São relâmpagos capilares. Toda a cabeça dela está, depois de incendiada e caída, em maluca reflorestação. Bem sei que, daqui a uma semana até, o cabelo vai crescer até deixar de ser avant-garde e passar a ser, apenas, uber-cool. Mas, neste momento das nossas vidas e do nosso amor, é grandioso e bom que o processo da morte tenha mudado de sentido e que o corpo e a cabeça e o cabelo cresçam como se acabassem de ter nascido.
O meu amor está agora - mas não por muito tempo - como a carinha de menina na fotografia que me salvou nas passagens por hospitais e que é a primeira e única maravilha que vejo no meu iPhone.
Não precisas de força, amada querida. O teu cabelo, pela segunda e última vez, é a segunda coisa mais bonita que eu já vi, a seguir a ti.

21 de dezembro de 2009

Custa dizer adeus ao mar... MEC, Público 21-12-09

Custa dizer adeus ao mar. É quase Inverno. O tremor de terra foi abafado, a cem quilómetros do cabo de São Vicente, pelo mar. Na quinta-feira, as ondas rebentavam até ao horizonte, assustadas, em estado de choque.
No dia seguinte, o oceano parecia uma piscina, paralisado pelo medo do mar anterior.

Custa dizer adeus ao Verão. Ao Outono não custa nada. No Outono, ainda se tomam muitos banhos de mar; ainda não está frio; ainda há Setembro, Outubro e Novembro.

Por uma estranha e bem-vinda sintonia de cancro e de clima, o tempo acompanha a doença da mulher que eu amo. Foi no Verão que o descobrimos. Será no Verão, se tudo correr bem, que poderemos começar a esquecê-lo. Foi no Verão e no Outono que contra-atacámos, com quimioterapia a valer. Agora vem o Inverno, com cortes frios de cirurgia e bronzeamentos falsos de radioterapia. Vai chover todos os dias. Vai parecer que o mundo está a acabar. Mas não acabará. Graças ao grande e feliz cirurgião Fernando Orvalho e ao maravilhoso IPO que trabalha tanto com ele como connosco, já estamos a seis meses de distância da remissão, se Deus quiser.

Deus quer sempre. São as pessoas - eu e tu e ela e nós e vocês - que têm de ajudar a cumprir a vontade de Deus, que é sempre, por facilidade, a melhor.

Falta meio ano de um ano de má sorte. Vai escurecer e chover; ficar frio e trovejar. Mas daqui a seis meses será o princípio do Verão, dia 21 de Junho, seis dias antes da Maria João fazer anos. E tudo estará bem.

22 de outubro de 2009

...que seria de nós se não sonhássemos. Saramago

Hoje, os jornais dizem que a Basílica do Convento de Mafra se encheu de gente, que quis assistir ao Concerto de Órgão.
Será Mafra ainda o destino saloio dos Lisboetas, ao domingo à tarde?
Até lá chegarmos há moinhos na paisagem e as trouxas na Malveira. Bem perto, a Olaria do Zé Franco! E o velho oleiro ali está, moldando as suas figuras. Oferece um copo de vinho e pergunta, com simpatia, se gostamos daquele lugar.
Em Mafra, terra propriamente dita, todos os caminhos vão dar aos sinos do famoso carrilhão do Convento. Ouvem-se num raio de quinze quilómetros. Os duzentos e vinte metros de comprimento tornam este monumento uma verdadeira omnipresença naqueles lugares, que recendem uma respeitável tranquilidade histórica.
Mas não vamos poder falar de tranquilidade, se vamos falar do Memorial do Convento.
Nem do Convento! Como é que uma arquitectura tão imensamente grande, tão intensamente grandiosa, nasce da inquietação da alma de quem não consegue gerar um filho varão?
Só obra desta dimensão pode dar verdadeiramente graças ao poder divino, que aquietou o rei D João V e a rainha D. Maria Ana. Ou porque frei António de S. João tem razão, ou porque as preces repetidas de Dona Maria Ana Josefa foram finalmente ouvidas, a real barriga da humilde e submissa rainha vai finalmente crescer.
Mas o rei e a rainha não são as personagens principais deste romance histórico, que nos embala num ritmo quase balançado de quem fala ou de quem ouve, como se tivesse sido escrito, para ser dito. Os protagonistas têm nobreza na alma, mas são povo de condição. À excepção do Padre, que pertencendo à habitualmente classe privilegiada, se aproxima de quem se acha próximo: o homem e a mulher, os verdadeiros, aqueles que sonham como ele sonha, que têm visões, com quem pode partilhar a sua alucinação e o seu segredo: o voo e a passarola.
O homem é Baltasar, o Sete-Sóis. Um ex-soldado. Perdeu a mão, tem agora para seu lugar um monte de ferros guardados. Pedinte em Évora. Na primavera, dirige-se a Lisboa. Pernoita em Aldegalega. ”Passou a noite em paz.” De manhã cedo, a maré é boa, paga a passagem e atravessa o rio. ”Na outra margem, assente sobre a água, ainda longe, Lisboa derramava-se para fora das muralhas.” Há-de seguir para Mafra, para abraçar a mãe, Marta Maria, que não sabe se o filho é vivo ou morto, por isso o julga morto ou vivo.
A mulher é Blimunda, filha de Sebastiana Maria de Jesus. Tal como a mãe, ela tem poderes: vê dentro das pessoas. Para que isso não aconteça, logo de manhã, deve quebrar o jejum, antes de abrir os olhos. Mas promete a Baltasar nunca o ver por dentro.
O Padre é Bartolomeu Lourenço, mais tarde, Gusmão, depois de ser Doutor da Igreja. Fala a Baltasar dos seus projectos de voar. Por isso, lhe chamam o Voador. Afirma-lhe que já voou ao que o pobre replica que só pássaros e anjos voam. Ou os homens quando sonham. “...mas em sonhos não há firmeza.” Mas o Padre contrapõe: “O homem primeiro tropeça, depois anda, depois corre, um dia voará...” Mostra a Baltasar um desenho do seu engenho voador. Baltasar vê o desenho de um pássaro e acredita que o homem pode voar.
E são tantos os momentos tocados pela magia dos bons sentimentos de Baltasar, de Blimunda e do Padre Bartolomeu Lourenço! Porque puro e mágico é o seu pensamento. Um pensamento que pensa Deus misericordioso, Deus que vê directamente nos corações. “...e se os pecados forem tão graves que não devam passar sem castigo, este virá pelo caminho mais curto (....)se entretanto as boas acções não compensarem por si mesmas as más....” Estas são considerações tecidas à cabeceira de Blimunda, quando ela adoece, ninguém sabe de quê. Quando Blimunda sai daquele torpor, a máquina de voar está pronta.
E voam. Voam naquele céu de que o povo tanto espera, mas para o qual pouco olha. Acompanha-os um milhafre. A máquina cai, mas os três estão sãos e salvos.
O Padre desaparece e morre em Toledo. Baltasar também desaparece. Blimunda espera por ele. A angústia de uma espera frustrada perpassa a última parte deste romance. Com essa angústia procura-o, julga mesmo poder encontrá-lo, no dia da sagração.
Mas só o vai encontrar nove anos mais tarde. É um dos onze que ardem no fogo da Inquisição.

Leitura sugerida: O Memorial do Convento de José Saramago
José Saramago nasceu a 16 de Novembro de 1922, na aldeia de Azinhaga, Ribatejo. Teve numerosos empregos e diversas profissões: foi serralheiro mecânico, editor, jornalista...A sua primeira obra data de 1947, Terra de Pecado tendo-se seguido um longo período sem qualquer publicação.
Em 1993, já autor consagrado, retirou-se para Lanzarote, onde vive desde então, com a sua mulher Pilar.
Em 1998, a mais alta distinção literária surpreende o escritor em pleno aeroporto de regresso a casa. Vinha da Feira Anual de Frankfurt. E regressou à Feira, onde o esperavam as primeiras emoções e as primeiras rosas. As primeiríssimas, viveu-as sozinho, segundo conta, nos intermináveis corredores do aeroporto, depois de ter sido chamado ao telefone, para lhe comunicarem a razão pela qual não devia embarcar.

5 de outubro de 2009

Quando é Outono? MEC 05/10/09

Quando é Outono?
Miguel Esteves Cardoso - 20091005
No PÚBLICO de ontem saiu uma crónica minha a dizer que, no dia anterior, tinha tomado o último e melhor banho de mar deste ano. Mais uma vez, bastou eu escrever para se tornar mentira. Porque ontem tomei um banho, na mesma Praia das Maçãs, ainda melhor e mais comprido. Hoje e amanhã é provável que piore ainda mais a mentira. Quem sabe? Não há maneira de saber. Mas a água estava uma esmeralda fresca, passe a poesia rasca. Só a fome de ver a minha mulher (e de almoçarmos uma posta descomunal de badejo, confesso) me arrancou dobalancé daquele berço atlântico que bóia como se o oceano ainda fosse o nosso líquido amniótico.
Compreendi então que o tempo português não é como os outros. Ninguém sabe quando começa o Outono: o Outono, em Portugal, é muito curto. Por isso deve-se apreciá-lo mais. Só resta adivinhar quando começa...
Em Setembro não foi, com certeza. Em Outubro - até aqui - só ocorreu a parte botânica e cinematográfica, das folhas vermelhas a cair. Compreende-se porque é que Orlando Ribeiro passou tantas noites sem dormir, antes de perceber que tanto éramos mediterrânicos como atlânticos; sulistas como nortenhos; africanos como europeus.
Acho que é em Novembro que vem o nosso Outono. Num Novembro já um pouco adiantado e invernoso, para não dizer miserável. Está feito com o Inverno, mas comprometido ainda com uma Primavera que já não ama mas que não pode desiludir.
O Verão é o que se vê; o contrário do futuro do verbo ver.

3 de julho de 2009

10 de maio de 2009

Marisa Marchetto Vencer o cancro de saltos altos

10.05.2009, Texto Margarida Santos Lopes Fotografia Enric Vives-Rubio


Se o cancro da mama é o segundo entre os que mais matam mulheres em todo o mundo, Marisa Acocella Marchetto crê ter encontrado uma arma ainda mais mortífera para o combater. Fez uma BD e mostrou como "saltos assassinos de 12 centímetros" intimidam qualquer "célula zangada".


O trabalho começou na viagem de avião que a trouxe a Lisboa, para a apresentação da edição portuguesa do livro Cancer Vixen, e ficou pronto antes do regresso a casa, em Nova Iorque (Estados Unidos da América) - menos de uma semana.
Não foi fácil a Marisa Acocella Marchetto encontrar tempo para desenhar para a Pública e respeitar os prazos de entrega dos seus trabalhos para a New Yorker e a Glamour.
Mas quem sobrevive a um cancro, tudo consegue. Não sejam vítimas, foi a mensagem que desenhou. Sejam mais generosas. Há uma receita para uma vida feliz: tomar uma dose de amor e perdão todos os dias.
1. Descreva-se a.c. (antes do cancro)
[ Marisa (eu) a.c.
(antes do cancro)
O meu peso
O meu cabelo
O meu isto
A minha dieta
Os meus sapatos
A minha vida
Eu, eu, eu, eu, euuuu
Eu tinha de ter os melhores sapatos
As melhores malas
Os melhores jeans
Os melhores óculos de sol
Ir às melhores festas
E tudo de tinha ser do melhor, melhor, melhor!]

2. Encontrar um caroço no peito e saber o diagnóstico de cancro da mama sem seguro de vida foi devastador. Como encontrou coragem para lutar?
[Tenho este hábito nervoso. Chama-se desenhar...
... é melhor do que eu antes fazia, ao manter as minhas mãos ocupadas
Bem, descobri que quando passamos os nossos sentimentos a papel, a isso se chama 'diário de um objectivo'. Aqui está como eu desenhei as 'células cancerosas', e quando fiz isso, ri-me delas. Tornou o cancro menos intimidativo.]

3. De um modo geral, as pessoas ainda olham para o cancro da mama como uma sentença de morte. Por que motivo sentiu necessidade de contar a toda a gente - até a estranhos - que tinha cancro?
[Cancro
Eu queria tirar o cancro para fora de mim...
Cancro
Cancro
E colocá-lo numa página
Tirem isso das vossas mamas, raparigas!
Escrevam!
Escrevam!
Escrevam! *
*Este processo chama-se 'diário de um objectivo']

4. Foi fácil, para si, dizer a palavra "cancro"?
[Ri-me na cara do cancro! Ha ha ha ha ha!!!]

5. Levou a obsessão pelos sapatos até às sessões de quimioterapia. Isso foi importante porquê?
[Eu pratiquei a 'lei da distracção', focando-me em algo bonito e não em algo doloroso...
As agulhas não têm graça
A única coisa que me fazia sentir bem era olhar para os meus sapatos]

6. Como é que aprendeu a aceitar todas as transformações do seu corpo depois dos tratamentos e amar-se a si própria?
[Eu, d.d.
(Depois do diagnóstico)
Lembro-me de dizer ao meu corpo...
'Corpo, tu vais entrar em dieta, fazer exercício e ganhar o respeito que mereces!
E obrigada por lutares e seres forte!]

7. Como é que psicólogos, rabis e santos a ajudaram a sobreviver? Ainda precisa deles?
[A minha fé ampara a minha vida
Maria, Rainha do Céu
Cabalistas, usam sobretudo branco
O Padre Jake está comigo em espírito]

8. Escreveu que a experiência do cancro a mudou para sempre - até conseguiu perdoar pelo menos uma das suas "inimigas". Qual é a "receita" para ser mais positiva e generosa?
[Receita para uma vida feliz.
Amor
Perdão
Tome uma dose saudável todos os dias!]

9. Sem o grande amor de Silvano (e da sua mãe), a sua história seria diferente?
[Eu não estaria aqui sem o AMOR
Silvano usa sempre os seus óculos escuros]

10. Vixen, uma guerreira, e não uma vítima - qual o objectivo do seu livro? O que recomenda a outras mulheres?
[Não seja uma vítima, seja uma VIXEN
Eu pensei nisso
Eu vi isso
Eu acreditei nisso
Eu tornei-me nisso
Desenhei-me a mim própria como uma vixen que dá um pontapé no cancro, e este desenho estava no meu estirador nesse ano do cancro [2004]
Agora, chamo ao meu estirador a minha 'mesa magnetizadora'
VEJA-SE COMO VIXEN E SERÁ UMA
VIXEN!] a

Na primeira sessão de quimioterapia, Marisa Acocella Marchetto usou umas sandálias Charles Jourdan azul-metálico de lucite. Nas seguintes escolheu criações de Giuseppe Zanotti, Casadel ou Emílio Pucci. "Em vez de me concentrar na agulha que me espetava a mão, olhava para os meus maravilhosos five-inch killer heels [saltos assassinos de 12 centímetros] para me descontrair", diz esta americana, a "ilustradora citadina, louca por sapatos, obcecada por batom, apreciadora de uma boa pinga, doida por massas e fanática por moda" a quem foi diagnosticado um cancro de mama, em Maio de 2004. Tinha 43 anos e faltavam três semanas para se casar com "o homem perfeito".
A dar um pontapé num tumor "do tamanho de uma pérola" é como ela se desenha a si própria em Cancer Vixen (edições Asa), a BD que veio lançar a Lisboa na semana passada - mais de 200 páginas coloridas de humor e amor. Sim, ela cronometra o medo que sentiu ao descobrir um caroço no peito, confessa a vergonha de nunca ter feito uma mamografia, alardeia o embaraço de ter deixado caducar o seguro de saúde e não oculta o pavor de ser abandonada pelo amor da sua vida. Por outro lado, é de forma hilariante e sem autocomiseração (mesmo no desconsolo) que vai dando conta de todas as etapas da batalha contra "um sacana que não veio nada a calhar" - quando ela, solteira Acocella, havia conquistado Silvano Marchetto às jovens que, descaradamente, o cobiçavam, planeava a compra de um gracioso vestido de noiva, e os editores das revistas New Yorker e da Glamour lhe requisitavam mais trabalhos. Oportunidade para aqui confirmar como é dura a vida de freelance ("por cada desenho vendido, há 100 que são rejeitados"). E ela não parou na doença, sempre acompanhada dos seus dois gravadores presos com fita-cola, câmara fotográfica, caderno de esboços e a caneta favorita, Rapdiograph 0.35.
Marisa, que vivia num "apartamento superchique - um minúsculo T1 no 2.º andar de um prédio de três, sem elevador, em West Village [Nova Iorque]", e frequentava todos os "eventos in", diz à Pública que trocou o lema take it off your chest ("tira isso do peito") por take it off your breast ("tira isso da mama"). Quando fala do passado, já está a pensar no futuro. "Antes de pensar na quimioterapia, concentrei-me na minha lua-de-mel. Não queria que me vissem como doente de cancro."
É por isso que, com ela, zombamos das "células zangadas" (cancerosas), criaturas verdes de língua escarlate de fora e dedo em riste num gesto obsceno. Que devoramos as tempestuosas conversas com Violleta, a mãe ou (S)mother - trocadilho para a expressão inglesa "asfixiar". Que aguçamos os ouvidos para os mexericos com as APS (amigas para sempre). Que rejubilamos com os raspanetes da Virgem Maria ("Se passares o dia na cama, nunca vencerás") e de Mary Poppins (Acabou-se a lamúria! Levanta-te... Já, já"). Que partilhamos a sua revolta por os testículos não serem "colocados num torno", tal como as mamas são "espremidas, esborrachadas, esmagadas e entaladas" nas mamografias. Que nos surpreendemos com a devoção a Santa Filomena e ao Beato Jacob, "protectores dos que sofrem", conjugada com sessões espirituais no centro cabalístico judaico.
Conclusão de Marisa: "Se somarmos 29 agulhas, oito quilos, 11 técnicos de radioterapia, 11 assistentes médicos, nove enfermeiras, oito médicos, 192.720,4 dólares, dois rabis e um padre, o resultado é uma experiência que me mudou para sempre." Em Lisboa, cinco anos depois de sentir que o universo a aspirara para um buraco negro, a loura que "apenas se preocupava com questões estúpidas e egoístas de auto-estima, pele e cabelo", confessa que continua a ser uma fashionista.
"Oh sim, ainda gosto muito de andar na moda, mas agora na perspectiva de me fazer sentir mais poderosa", confessa enquanto se senta na poltrona de um hotel, o sol primaveril a iluminar o rosto translúcido bem maquilhado. "Deixei de ser uma vítima da moda para ser uma vencedora. Já não é uma questão de competição, mas a expressão de quem se sente bem. Se nos sentirmos bem, isso reforça o nosso sistema imunitário e, assim, são menos as probabilidades de adoecermos. É uma outra forma de terapia."
"Hoje, trago umas calças de cabedal justas e um sapatos altíssimos como eu adoro, tudo preto e Alexander McQueen", descreve-se a pequena Marisa (menos de 1,60 m), alongando as pernas para exibir o que qualifica de "grande extravagância" do ano corrente. "Esta camisola [cor-de-rosa, ostentando um laço da luta contra o cancro da mama] não tem marca, e a camisa tem uns 20 anos, mas aprecio combinar velho e novo. A sombra dos olhos permanece azul. As unhas, pintei-as de turquesa. Combinam bem com os ténis do meu marido" - e com a pedra do anel de noivado.
Encostado a uma janela, Silvano, 62 anos, interrompe a conversa, fixando em Marisa os olhos azuis de ternura com que ela o retrata no livro a ele dedicado. "Então era isso que vinha naqueles sete sacos que o empregado levou lá a casa!", brinca num inglês-italiano (quase) imperceptível. "Sim", ri-se a primeira ilustradora do jornal New York Times ('autora the The Strip, que saía aos domingos alternados na secção Styles'). "Não lhe posso esconder nada."
"Os tacões de 12 centímetros de salto fazem-nos sentir conquistadores do mundo", elucida Marisa. "As pernas não ficam bonitas com saltos rasos e eu não me sinto confiante." Na sala VIP, enquanto a mulher caminha altiva nos seus pumps (sapatos fechados com abertura à frente), o marido desfila, divertido, os ténis de múltiplos tons, personalizados com o logótipo do restaurante (famoso pela gastronomia toscana e pela clientela famosa) de que é proprietário em Nova Iorque, o Da Silvano.
Violleta e Jackie Kennedy
O logo - a cara bonacheirona de Silvano, de cabelo branco e óculos de sol - foi o princípio de uma relação que o cancro solidificou. Marisa tinha ido ao restaurante que Spielberg e Armani frequentam para escrever um artigo sobre "o preço de estar na moda". A reportagem não chegou a ser publicada pela extinta revista Talk porque se tornou superficial depois dos ataques de 11 de Setembro de 2001. Em Janeiro de 2002, ela propôs a Silvano compensá-lo, desenhando o cartão de inauguração de um novo estabelecimento. Apresentou quatro sugestões e ele aceitou todas, depois de inúmeras modificações a que ela aquiesceu pacientemente. Difícil resistir a um galã que nunca se zanga e cuja palavra de ordem é che bella giornata.
Além de carros desportivos (sete) e relógios (60), Silvano também colecciona sapatos - terá cerca 100, o dobro de Marisa, por causa das nódoas que apanha na cozinha -, mas a paixão que ela sente por andar de saltos altos foi herança de Violetta Paolina Margarida Mazzucca d'Rentis Acocella. "Quando comecei a desenhar, aos três anos, já imitava a minha mãe, que trabalhava em casa. Lembro-me que, aos quatro anos, tinha botas de verniz cor de marfim; aos cinco, botas de verniz pretas; aos seis, botas de cano alto e salto quadrado, verniz de cores verde ácido e laranja vivo. Já naquela altura, eu era uma shoe-aholic [sapatoólica]!"
Violleta "tem um extraordinário fashion sense", elogia Marisa. "Nos anos 1960, ela usava Pucci e tinha o cabelo preto comprido como o da Cher, com uma madeixa loura na franja -muito na vanguarda. Levava-me às compras e o seu gosto era sempre o mais ousado. Foi ela que me encorajou a exprimir-me pela moda."
Numa troca de emails com a Pública, a partir de Nova Jérsia, onde vive, a mãe de Marisa desvenda que começou a desenhar sapatos antes de terminar o liceu. "Eu ia para Nova Iorque aos sábados e deixavam-me fazer os meus sapatos durante o fim-de-semana. Fui depois completar os meus estudos para o Pratt Institute [escola de arte e arquitectura], mas sempre a desenhar sapatos."
Quando se licenciou, Violletta foi trabalhar como designer na I. Miller Shoe Company, "naquele tempo, o mais requintado fabricante de sapatos de Nova Iorque", mas foi no armazém de luxo Bergdorf Goodman que ela conheceu Jacqueline Kennedy. "Quando ela me telefonou [para fazer uma encomenda], pensei que era alguém a pregar-me uma partida", relata. "Tinha uma voz doce e falava com eloquência. Tornámo-nos amigas e tínhamos algo mais em comum do que os sapatos. Estávamos ambas grávidas. Ela de John Jonh e eu de Marisa. Lamentávamo-nos por termos os pés grandes - embora ela ficasse contente por os meus serem maiores (número 42) do que os dela (número 41). Foi este episódio que me fez desenvolver tamanhos grandes e desenhar para ela sapatos que a faziam parecer maravilhosa. Ainda guardo um par de sapatos que fiz para mim na mesma altura que fiz para Jackie."
O bicho do cartoon
Não foi só nos sapatos e na moda que Violleta influenciou Marisa. "Vi como Marisa era talentosa desde muito pequenina", exulta a mãe. "Encorajei-a a seguir o seu talento. Aos quatro anos, levei-a a uma amiga que era professora de arte. Ela recusou inicialmente dizendo que não era babysitter. Pedi-lhe que a deixasse assistir apenas a uma aula. E Marisa foi, aos quatro anos, a uma aula de adultos. No final, a professora estava deslumbrada com a filha fabulosa que eu tinha. Pegou nas duas aguarelas que ela pintou, emoldurou-as e apresentou-as a um concurso. Marisa ganhou o primeiro prémio."
Marisa dá mais pormenores: "A minha mãe desenhava sapatos fabulosos para mulheres e eu, aos três anos, tentava desenhar mulheres que conhecia. Aos oito, cheguei à conclusão de que essas mulheres eram muito aborrecidas. Não tinham nada para dizer. Um dia, o meu pai decidiu que iríamos ter umas férias grandes e fomos até às Bermudas. Ficámos num hotel que a minha mãe detestou, porque era muito pequeno. Queixou-se ao gerente e ele deixou-nos ficar numa casa cor-de-rosa em frente ao resort. Nas paredes havia desenhos com legendas, e eu exclamei: 'Oh meu Deus, as mulheres que eu desenho sabem falar!"
A casa era de James Thurber, lendário cartoonista da New Yorker. "Nessa noite fiquei a ler as revistas e os livros dele até de madrugada", relembra. "Duas horas depois, acordei com formigas a subirem-me pelo corpo. Fomos para uma carrinha e havia lá outras 400 formigas. Gosto de dizer que fui mordida pelo bicho do cartoon. Foi assim que a aventura começou."
Inquirida sobre se a sua mãe gostou da maneira como a desenhou em Cancer Vixen (que esteve para se chamar Breast Cancer Scenario, "título horrível" que um amigo chumbou), Marisa dá uma gargalhada: "Depois de meses de ausência, já na arte final, fui visitar os meus pais. A minha mãe entrou na sala, tinha emagrecido 12 quilos, e disparou: 'Não gostei da maneira como me desenhaste'." Violleta dá a sua versão: "Eu sei que Marisa me ama. O livro confirma esse amor e tocou-me o coração." Quanto a ser tratada como (S)mother, admite: "É um modo carinhoso de mostrar a minha personalidade, mas sim, creio que amo os meus filhos DEMASIADO, e agora todos me chamam (S)mother."
Falta-nos alguma coisa?
Se Violleta é uma mãe "sufocante", Marisa só poderá ser madrasta de Leyla, a filha de Silvano. Uma das passagens mais comoventes do livro é quando ela interioriza que só poderá engravidar aos 49 anos, devido à ingestão do Tamoxifen, medicamento que "bloqueia o estrogénio no peito". Desenha um bebé num céu estrelado e o diálogo é tristonho: "Desculpa... pensei que tinha muito tempo, mas só tinha um piscar de olhos." E a criança despede-se: "Adeus." Violleta chora: "Sempre pensei que ias ter uma menina."
Marisa conformou-se: "Muita gente ficou impressionada. Não poder ter filhos é uma realidade. Mas tenho uma enteada maravilhosa. Tenho uma vida muito ocupada. Tenho muito trabalho. Tenho uma vida cheia. Tenho um marido maravilhoso." Vira-se para Silvano e pergunta: "Falta-nos alguma coisa?" Ele murmura: "Nada!"
A grande missão de Marisa é agora o seu Cancer Vixen Fund, que tem Silvano com "principal benfeitor", criado em colaboração com o Hospital de St. Vincent, onde foi operada e tratada. "Este projecto é dedicado às mulheres que não têm seguro de vida e a quem foi diagnosticado cancro de mama", especifica. "Mais de 49 por cento correm o risco de morrer da doença. Porque adiam os exames ou, se estes dão positivo, não se tratam por falta de dinheiro. Temos vários patrocinadores: a fundação Estée Lauder, a Breast Awareness Campaign, os [armazéns] Bloomingdale's e a [transportadora] Continental Airlines, entre outros. Também somos membros da American Cancer Society."
O Vixen Fund foi uma ideia que nasceu quase ao mesmo tempo que Marisa soube o seu diagnóstico. "Senti que tive muita sorte [o cancro foi detectado no início, uma leve quimioterapia não lhe fez cair o cabelo, amigos e chefes criaram uma rede de solidariedade, Silvano incluiu-a no seu seguro de saúde] e eu quis retribuir."
A instituição realiza duas vezes por ano cerca de 300 mamografias gratuitas. Desde 2006, "felizmente, só um caso deu positivo". Poderá não ter um final feliz. Mas Marisa acredita em milagres.
Espreite aqui e aqui.

9 de maio de 2009

Odeio amar-te tanto!

Miguel Esteves Cardoso Ainda ontem - 20090509
Como também faço, nunca reparei. Mas é capaz de ser a faceta mais assustadora dos portugueses: quando elogiamos uma coisa, parece que ficamos zangados. Se dissermos que gostamos muito de uma coisa, o tom da voz e o carregar das sobrancelhas são agressivos: "Adoro pastéis de bacalhau! Sou muito amigo dele! Sou do Benfica!" As nossas declarações de amor são exprimidas como se estivéssemos numa batalha até à morte, a defender a coisa amada do ataque traiçoeiro dum inimigo.Como também faço, nunca reparei. Mas é capaz de ser a faceta mais assustadora dos portugueses: quando elogiamos uma coisa, parece que ficamos zangados. Se dissermos que gostamos muito de uma coisa, o tom da voz e o carregar das sobrancelhas são agressivos: "Adoro pastéis de bacalhau! Sou muito amigo dele! Sou do Benfica!" As nossas declarações de amor são exprimidas como se estivéssemos numa batalha até à morte, a defender a coisa amada do ataque traiçoeiro dum inimigo.
Pergunta-se calmamente: "Gostas do Mosteiro da Batalha?" E a resposta vem carregada de sobrolho e de padaria aljubarrotense: "Adoro o Mosteiro da Batalha!" Está-se sempre à espera que completem a confissão com um "Porquê? Há azar? É que se houver, vou-te já aos cornos!".
Podemos estar a falar da mãe, do cozido à portuguesa, de Amália, de Sófocles ou dos dias enevoados de Maio. Outros povos, quando elogiam uma coisa, reflectem na cara e na voz a estima que lhe têm, ficando enlevados, carinhosos e felizes: "Oh, I love pastéis de bacalhau, she's a good friend of mine, etc..."
Até parece que suspiram um bocadinho de portuguesa saudade dessa coisa quando falam dela. Nós não. Isso para nós é muita complicação, estar a adequar a cara que se faz ao que sente o coração. Parece falso, não é? É por isso que preferimos dizer que amamos com a mesma voz e a mesma tromba que usamos para dizer que odiamos. Sem pestanejar sequer. Ah leão!
É incrível: até com robertos se consegue melhor.

10 de abril de 2009

Mec, 10 de Abril

Pode faltar o dinheiro e podem estar a falir jornais e revistas a eito, mas, neste intervalo em que vivemos, entre a papirocracia que reinava antes da Internet e a electrocracia que aí vem, somos quase todos infomilionários.
Temos tantas fontes e formas de comunicação e entretenimento à nossa mercê que cada um pode compilar um pacote multimédia feito à medida, que mais ninguém tem - ou quer. Dantes (os que podíamos), víamos e líamos mais ou menos as mesmas coisas.Pode faltar o dinheiro e podem estar a falir jornais e revistas a eito, mas, neste intervalo em que vivemos, entre a papirocracia que reinava antes da Internet e a electrocracia que aí vem, somos quase todos infomilionários.
Temos tantas fontes e formas de comunicação e entretenimento à nossa mercê que cada um pode compilar um pacote multimédia feito à medida, que mais ninguém tem - ou quer. Dantes (os que podíamos), víamos e líamos mais ou menos as mesmas coisas. Havia quatro canais; quatro jornais; quatro paredes caiadas e um cheirinho a alecrim. As conversas no dia seguinte eram aconchegadas e previsíveis; regendo-se pelo duro código do "Ó vizinha!".
Eram os dias do "Viste o...?/Então não vi!" . Ajudava a conversar - mas o subtexto era claustrofóbico e aldeão: "Que remédio...". E, nos dias maus, que raramente faltavam, era cá uma festa descobrir uma coisa que se pudesse ver ou ler com agrado.
Agora não. Entrámos na época da pergunta contrária: do "Não sabias?!". Todos temos o nosso próprio (respire fundo) portefólio léxico-audiovisual. Mas - hélas! -, por muito que o queiramos vender aos nossos amigos (para podermos fazer uma pequena ideia do que estão a falar), eles não o compram, porque não abdicam dos portefóliozinhos deles. "Não viste? Nunca ouviste? Não sabias? Não conheces? Não me digas! Ah, tens de ler! Eu vou-te mandar! Vais adorar!": é esta a nova banda sonora.
Diga adeus ao diálogo e seja bem-vindo aos monólogos do futuro.

7 de abril de 2009

Em vez de nós- Ainda ontem, pelo MEC

Dizem os cínicos que estamos sempre a chorar a nossa desgraça e a nossa morte, quando a entrevemos na desgraça e na morte dos outros. Sabemos todos que uma vida vale tanto como a outra. Mas a verdade é que, quanto mais as desgraças e as mortes se aproximam de nós, mais nós choramos.
A compaixão não consegue nem deve separar-se do egoísmo. É quando a tragédia nos sussurra "podia ter sido aqui; podias ter sido tu" que mais nos comovemos. É difícil olhar para a catástrofe no Abruzzo e não reconhecer caras e casas portuguesas, abatidas pelo mesmo terremoto que nos ameaça. Está errado; blá blá blá; havia de nos vir o coração à boca sempre que há um terremoto, seja onde for. Mas não é assim que funciona o coração humano e a pena, por muito dúbia e etnocêntrica que seja a origem dela, é rara de mais para se coibir ou relativizar.
Dizem os irlandeses, quando vêem um mendigo: "There, but for the grace of God, go I". Lévinas foi mais longe: o desconhecido que ali está, que olha para nós, a ver se o ajudamos ou apenas reconhecemos e tratamos como ser humano, é Deus. Deus é o outro: este parece ser a parte boa do recado de todas as religiões do mundo. (A parte má é "mas nós somos os únicos que estão com Deus").
Faz dó. Faz medo. Faz dar graças pela nossa sorte enquanto se chora a sorte daquelas famílias italianas. Podía-mos ter sido nós. É bom que se saiba. E que, seja num sentido religioso, científico ou aleatório, elas sofrem e morrem em vez de nós. Obrigados.

29 de março de 2009

Atitudes e comportamento dos alunos

Atitudes e comportamento dos alunos podem determinar subida de notas
Do Público, 29.03.2009, Bárbara Wong
O saber pode não ser tudo. Um aluno assíduo, pontual, que coopera e se porta bem pode ver uma nota negativa passar a positiva. Há escolas a valorizar cada vez mais aspectos
As atitudes e o comportamento dos alunos podem ser determinantes para que a nota final do período possa passar da negativa à positiva. Às vezes, os professores abusam deste parâmetro da avaliação e os resultados nas pautas são melhores do que o expectável, denunciam alguns especialistas. Outros defendem que só assim se podem manter na escola alunos que estão em risco de abandono ou de insucesso escolar.
Chegados ao final do 2.º período escolar, é hora de os professores se reunirem e lançarem as notas. Além dos testes, trabalhos e participação nas aulas, há um factor que, para muitos alunos, pode ser determinante: os valores e as atitudes. É assíduo? Pontual? Coopera e empenha-se? Porta-se bem? Se sim, e se a situação do aluno estiver periclitante entre a negativa e a positiva, este aspecto pode ser decisivo para subir a nota. Este parâmetro tem um peso variável de disciplina para disciplina e de escola para escola.
O factor das atitudes e do comportamento "ganhou um peso desmesurado que leva a que os alunos tenham uma visão irrealista das suas competências", alerta João Lopes, professor do Departamento de Psicologia da Universidade do Minho, que defende que os docentes "têm a noção que, se avaliassem só os conhecimentos académicos, haveria uma hecatombe", pois as notas seriam piores.
Foi o que aconteceu na básica 2/3 João Cónim, em Estômbar: as notas do 1.º período, comparadas às do ano passado, baixaram, depois de a escola ter decidido atribuir 20 por cento de peso ao domínio das atitudes e valores, do 1.º ao 9.º ano de escolaridade, dando preponderância ao domínio cognitivo, explica a presidente do executivo, Paula Simão. "Antes havia um peso maior para as atitudes e valores por causa da realidade da escola, onde há muitos problemas sociais económicos. Só que concluímos que, no final de cada ciclo, todos são avaliados da mesma maneira, pelas provas de aferição e exames nacionais, por isso mudámos", justifica.
Em vez de dar positivas, os docentes apoiam os alunos "para que todos adquiram as mesmas competências" e, no ano passado, os resultados dos exames nacionais do 9.º ano foram superiores às notas internas, congratula-se a professora.
Mas na maioria das escolas ainda há uma "grande discricionariedade", acusa Pedro Rosário, professor da Universidade do Minho. "Como não há balizas concretas, esse parâmetro serve de almofada para proteger as fragilidades dos alunos."
O princípio de avaliar as atitudes dos alunos não é posto em causa por José Morgado, professor no Instituto Superior de Psicologia Aplicada, de Lisboa, que é apologista de uma avaliação completa e global. É "desejável, porque o bem-estar do aluno está para além do rendimento escolar e do realizar os trabalhos de casa". Este reside também na participação nas aulas, motivação e empenho.
"É razoável que o aluno seja discriminado positivamente; caso contrário, há uma sobrevalorização excessiva do resultado escolar", considera Morgado. A nota tem de ter uma natureza pedagógica, essencial para manter na escola aqueles que estão em risco de abandono ou insucesso. "Há miúdos a quem, se se der 1, 2 [numa escala de 1 a 5], a escola perde-o. A avaliação deve ser usada para motivar", declara.
Para esses casos, "devia encontrar-
-se um eufemismo: nota por motivos emocionais", sugere Pedro Rosário, lembrando que os estudantes que trabalham podem não compreender essa atribuição de notas. Dulce Gonçalves, da Universidade de Lisboa e do centro de psicologia Lispsi, propõe diferenciar os parâmetros de avaliação de desempenho comportamental. O aluno pode ter 5 no comportamento e 2 no desempenho, exemplifica. "Fazemos pesar demasiado as atitudes nas notas e isso é um erro, porque não contribui para a melhoria dos comportamentos, nem dos resultados. É ilusório", opina João Lopes.

Ensino privado convida alunos a sair

Do Público de 29.03.2009
É no sistema de ensino privado que o domínio das atitudes e dos valores pode prejudicar os alunos, sobretudo quando se portam mal, dizem os especialistas contactados pelo PÚBLICO. "Nos colégios, muitas vezes, os comportamentos quando são negativos têm um reflexo maior na classificação. Nas escolas públicas, como os problemas do comportamento se associam a outros, a escola tenta não penalizar os alunos, porque eles já estão em risco", explica Isabel do Vale, psicóloga na básica 2/3 Patrício Prazeres, em Lisboa.
Um aluno que no domínio cognitivo poderia ter um 4, na escala de 1 a 5, pode ter 3, porque fala ou está desatento na sala de aula. É a "cultura da escola", aponta o professor universitário José Morgado. "O pai, quando opta pelo privado, não está disposto a pagar pelo insucesso e o colégio não está disponível para resolver problemas de comportamento. Nas públicas, não podemos falhar, porque a maioria dos pais não pode ir comprar qualidade de ensino [às privadas]", justifica.
O director da Escola Técnica e Liceal Salesiana de Santo António, no Estoril, padre Joaquim Teixeira da Fonseca, confirma que, se um aluno "está a prejudicar e não está a aproveitar, é avisado, é convidado a trabalhar e, quando não quer, é convidado a sair".
As consequências do mau comportamento devem ser imediatas e não reflectirem-se na nota, defende João Lopes, da Universidade do Minho. Castigar através das notas "é muito primário" e não traz benefícios ao aluno, que pode desmotivar-se e ter insucesso, aponta a psicóloga clínica Maria João Santos, do Espaço para a Saúde da Criança e do Adolescente, em Lisboa. B.W

14 de fevereiro de 2009

O inferninho dos petizes- do Público

A escola não serve para substituir uma família ausente. A escola não pode nem deve aceitar esse papel. Desculpem voltar ao Paradis des Enfants de que já aqui falei uma ou outra vez. Mas não sei de melhor saber do que o da experiência feito e tenho por vício achar que as boas práticas são de importação segura. Mesmo quando as diferenças culturais não nos deixam importá-las, pelo menos servem para nos ajudar a pensar.
Para quem o tema do Paradis seja novo, aqui vai uma breve explicação: trata-se da escola frequentada por dois dos meus filhos nos três anos em que vivemos em Bruxelas. Veio-me à memória quando deparei com uma estranha reivindicação de uma confederação de pais, a reclamar o direito de transformarem as escolas em armazéns de criancinhas, pelo módico período de doze horas diárias. Imaginei que, se o Ministério da Educação belga impusesse a Monsieur le Directeur tal medida, ele exigiria a mudança de nome da escolinha para L'enfer des Petits.
Era uma escola pública e laica da comuna de Etterbeck. Embora pública, Monsieur le Directeur reivindicava para si uma esfera de autonomia pedagógica que passava pelo poder de, se não de rejeitar de imediato, pelo menos de retardar a aplicação das medidas decretadas pelas autoridades centrais que lhe parecessem disparate.
Quando me anunciou essa característica da escola, deu-me a entender que não era negligenciável. Explicou-me que as reformas eram ali aplicadas apenas a título experimental, em turmas piloto, e só se dessem resultado se generalizava a experiência. Caso contrário, protestava e, tanto quanto consegui apurar, em muitos casos levava a sua avante. Nos casos que não ganhava, tinha a garantia de pelo menos dois anos de folga. E, não raro, a medida retrocedia naturalmente, não sobrevivendo muito tempo ao próprio erro. Fiquei assim com a ideia de que as autoridades belgas não seriam nem particularmente autistas nem especialmente casmurras em matéria de educação.
A escola tinha horário flexível para entregar as crianças, salvo erro entre as 8 e as 9, mas que não me passasse pela cabeça fazê-lo depois disso, interrompendo a classe. Como morava perto e estava em casa, devia ir buscá-las depois para almoçar, tornar a entregá-las na escola e voltar para as apanhar, em definitivo, pouco depois das 15 e 30. Uma canseira! Nunca, como aí, me senti tão presa à roda viva do ritmo escolar. Contudo, a escola fornecia almoço aos meninos necessitados ou àqueles que não tinham ninguém que os fosse buscar, acolhia as crianças que precisassem absolutamente desse apoio a partir das sete e trinta e mantinha-se com actividades de apoio ao estudo e circum-escolares até às 17 e 30 e com uma guarda de infância até às 18 ou 19.
Havia um menino que era sempre entregue pouco depois das 7 e recolhido dez (senão doze...) horas depois. Os pais, um jovem casal proprietário de um negócio, tinham provado não dispor de alternativas e, a título excepcional, a escola, enquanto agente responsável ao serviço da comunidade, prestava esse serviço. Nada que, de forma criativa e sem imposições do ministério, não aconteça já por cá, numa multiplicidade de escolinhas e em criativa conjugação de esforços entre pais, autarcas e professores.
Monsieur le Directeur deixava sempre bem claro não ser esse o sistema ideal para o desenvolvimento harmónico da criança, exercendo uma subtil pressão junto dos pais para os consciencializar da vantagem de, logo que possível, inverterem o sistema.
Em contrapartida, quando de início me passou pela cabeça que seria mais prático ficar com as criancinhas comigo durante toda a tarde, fui rapidamente alertada pelas educadoras para não as prejudicar, privando-as das actividades escolares previstas para a parte da tarde. Aquela horinha de actividades era uma parte curricular importante da socialização e da estimulação dos meninos.
Entre a filosofia educativa do Paradis e os serviços prestados pela escola e as reivindicações da autóctone CONFAP vai um mundo de diferenças. Uma coisa é reclamar um apoio social a prestar em caso de necessidade comprovada e enquanto vertente da segurança social (ou da acção escolar!), outra é a reivindicação do direito ao armazenamento escolar. Com aquela ideia peregrina de que mesmo em dias de greve caberia às escolas a prestação de serviços mínimos. De educação? Não. De armazenamento.
Já houve tempos em que as crianças pouco contacto tinham com os pais, sobretudo nas classes privilegiadas, sendo educadas por criadas, enquanto nas classes trabalhadoras mais desprotegidas eram deixadas na rua. Muitos de nós crescemos em colégios internos e não nos transformámos em monstros nem delinquentes, apesar das 24 horas de vida escolar. Verdade. Mas também houve tempos em que se aprendia à custa de reguadas e orelhas de burro e ninguém, com juízo, quer regressar a esses tempos. Nem as solicitações, nem os riscos, nem os constrangimentos de hoje são os dessas épocas. Avançámos nos direitos das crianças e dos pais para agora aceitarmos, sem pestanejar, o regresso ao século XIX? Com os operários (por mais intelectuais que sejam) presos à linha de produção do lucro, sem intervalo para almoço nem descanso semanal?
Num desabafo oiço o relato de uma educadora que cito de memória: "Aqui, no infantário, há uma menina de três anos e meio que, nos últimos dois, não gozou um único dia de férias. Só faltou ao infantário quando esteve doente. Os pais, mesmo em férias, vieram sempre trazê-la (o infantário está aberto todo o ano) com o argumento de que ela se diverte muito mais aqui!". O grande problema desta sociedade não é a existência de casos como este. O grande problema é que pode ser verdade que a escola seja o melhor ou o único local de recriação de uma criança. Pior ainda, é reconhecer na escola maiores e melhores competências parentais do que as dos próprios progenitores.
A escola não serve para substituir uma família ausente. A escola não pode nem deve aceitar esse papel. Os professores não podem nem devem ser chamados a exercer a função de assistentes sociais. Essa é, aliás, uma das géneses do falhanço do nosso sistema de ensino público, uma das causas do flagrante insucesso escolar. Deixamos de herança aos nossos filhos um sistema em que faz com que metade da geração dos jovens de 20 anos não tenha sequer passado do nono ano de escolaridade.
Por tudo isto os pais deviam estar do outro lado da barricada. Deviam defender escolas que ensinem e prestem serviços máximos de educação contra este absurdo conceito de escolas que prestam serviços mínimos ou máximos de armazenamento infantil. Graça Franco,Jornalista

11 de fevereiro de 2009

4 de fevereiro de 2009

CRÓNICA DAS PALAVRAS de BB no DN

Há muito se perdeu a noção de que as palavras têm honra. Políticos servem- -se delas para mentir, ocultar, dissimular a verdade dos factos e as evidências da realidade. Mas também escritores e jornalistas as debilitam e as entregam às suas pessoais negligências. Não é, somente, uma questão de gramática e de estilo; mas é, também, uma questão de gramática e de estilo. Há escritores e jornalistas que o não são à força de o querer ser. A confusão instalou-se, com a cumplicidade leviana de uma crítica pedânea e de um noticiário predisposto a perdoar a mediocridade e a fraude.

As palavras possuem cores secretas, odores subtis, densidades ignoradas. O discurso político conduz-nos ao nojo da frase. Pessoalmente, tento limpar o reiterado registo da aldrabice e da ignorância com a releitura dos nossos clássicos. Recomendo o paliativo. Eis-me às voltas com as Viagens na Minha Terra. Garrett não era, propriamente, uma flor imaculada. Mas foi um mestre inigualável na arte da escrita. Lembro-o porque, a seguir, revisitei o terceiro volume de As Farpas, onde Ramalho reproduz uma conversa com Herculano. O historiador retratou assim o seu companheiro das lutas liberais: "Por cem ou 200 moedas, num dia de apuro, o Garrett seria capaz de todas as porcarias que quiserem, menos de pôr num papel, a troco de todo o ouro do mundo, uma linha mal escrita."

Desaprendeu-se (se é que, vez alguma, foi seriamente aprendido) o vocabulário da língua. Lê-se o por aí publicado e a pobreza lexical chega a ser confrangedora. Não se trata de simplicidade; antes, desconhecimento, incultura, ausência de estudo. "Foge de palavras velhas; mas não receies o uso de palavras antigas." Recomendava Garrett. Palavras velhas, travestidas de "modernidade", são, por exemplo: expectável, incontornável, enfatizar, implementar, recorrente, elencar, factível, plafonamento, exequível, checar, fracturante, imperdível, abrangente, atempadamente, alavancar, empolamento - e há mais.

Reconheço o meu verdete por certas palavras e expressões. Não é embirração de caturra, nem rabugice de um recta-pronúncia. Será o gosto da palavra, a alegria de com elas trabalhar há longuíssimos anos, a circunstância de ser um leitor com fôlego, o facto de ter tido professores como o gramático e linguista Emílio Menezes, goês paciente, sábio e afável; e de haver frequentado alguns dos maiores escritores do século passado, para os quais o acto de escrever representava moral em acção. Lembro, com emoção e orgulho, Aquilino, José Gomes Ferreira, Miguéis, Sena, Mário Dionísio, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Abelaira.

Esta crónica foi, também, um pretexto para os lembrar.

Baptista-Bastos

8 de janeiro de 2009

MEC- O regresso continua

Durante décadas, quando ser consumidor era praticamente o mesmo que ser comunista, guiávamo-nos todos por uma tabela que por cá nunca falhava: estrangeiro=melhor=mais caro. Quem fosse pobre ou tivesse um carinho fascista pela mediocridade, comprava nacional. Ou, pela calada, pedia a um fascista amigo para trazer do estrangeiro, onde era sempre mais barato.
Hoje, esta regra está sob ataque. Nas frutarias e sapatarias; nos Aldis e Lídeis; o nacional é que é bom; o nacional é que é mais caro; o nacional é que é o único que se "pode levar à vontade."
Todo um sistema de valores se inverteu. A nossa moe-da já vale tanto como uma libra esterlina; os dólares, tal como a libra livreira, começam a tornar-se uma memória distante, do Cinema. Mas só ontem é que a velha hierarquia veio abaixo. Lia-se na página 30 do PÚBLICO: o SG Filtro vai passar a ser mais caro do que o Marlboro. Sim, o baixote e ordinareco SG Filtro de Xabregas, que eu comprava quando não tinha dinheiro para o Marlboro comprido e show off da Virgínia, dos filmes e da Fórmula 1, vai ser o cigarro de quem quer fazer-se passar por cosmopolita e milionário.
Já estou a ver os anúncios, caso os permitissem: "Sim, sou um oligarca russo - fumo SG Filtro à fartazana!". Ou: "Não é por estar desempregado que dispenso o cigarrinho: vai sempre um Márlubóro enquanto estou na bicha para a sopa; ai nanas!".
Espero bem que os fascistas estejam satisfeitos.
Do Público de 8 de Janeiro