24 de novembro de 2011

Sinais de Fernando Alves

Life
Quando a nossa infância começou a saber que a Terra era redonda havia na mesa da sala exemplares de revistas que tornavam o mundo mais próximo da nossa rua. A brasileira Cruzeiro, a Paris Match, a Life pareciam antecipar, nesse sul do mundo onde cresci, a televisão que não havia. Nesse sul havia uma revista que bebia na mesma fonte: chamava-se Notícia. Todas foram desaparecendo e a Life (um icone da imprensa norte-americana, que hoje faria 75 anos) resiste apenas no formato electrónico. È aí que podemos ver aquelas que a revista considera as melhores 75 capas da sua história. E também as 20 piores.
A esta distância, sabendo ler o que na Life visava moldar a nossa percepção do mundo, é tocante percorrer esse fio da nossa própria vida. A primeira capa, de 23 de novembro de 1936, o logo vermelho e branco sobre a foto a preto e branco da torre do Empire State Building. Ou aquela outra, já em plena guerra, com o perfil quase esculpido de um soldado alemao segurando a sua espingarda. Ou Churchill fitando-nos, logo a 21 de Maio de 1945. E a muito jovem Elisabeth Taylor, a 14 de julho de 47. Ou Marilyn, em Abril de 52. Capa soberba, esta de 22 de Agosto de 1949: o gigante Leo Burnett com o seu chapéu de cow boy. Ele chegou antes da televisão ao sul onde a minha infância começou a saber que a Terra era redonda: nos grandes painéis de publicidade, nas cidades de todo o mundo, ele era o Homem Malboro. Mas esta manhã fiquei mais tempo diante daquela outra capa de Dezembro de 53: Audrey Hepburn está sentada na alcatifa, vestindo apenas uma camisa comprida, e atende o telefone fitando-me.
Os olhos correm, agora, as 20 piores capas da Life. As marionetas de Salzburg como se tivessem perdido o equilibrio e a alma na capa de 29 de Dezembro de 52. Ou aquela, de Novembro de 62 feita de rabanetes e peras, uvas, pimentos, maçãs. Ou aquela outra de Dezembro de 51 em que um homem vestindo uma camisa demasiado garrida nos fita sorrindo. Não é, anota a legenda da Life, 60 anos depois, não é o maluco do tio Ed num hotel de Palm Springs esperando que a hapyy hour comece: é o 33º presidente dos Estados Unidos, Harry Truman vestindo uma camisa havaina.
Já não há revistas assim. Mas a Life, varrida pela crise, sobrevive com uma outra agilidade, em suporte electrónico. Privilegiando o foto-jornalismo, que é o seu assunto. Ela dá-nos as fotos de hoje, os protestos na praça Tahrir, o momento em que lançam gás lacrimogéneo na Assembleia Nacional da Coreia do Sul, Hilary Clinton anunciando mais medidas contra o Irão. Mas, como se nos dissesse que já não quer moldar a nossa visão do mundo, ela desafia-nos a criar a nossa própria Life Timeline. Ela chama-nos: "Partilhe a sua história através de acontecimentos pessoais e momentos que mais importância têm para si". Pela minha parte, dispenso-me. Vim só revisitar o tempo em que comecei a saber que a Terra era redonda.
Emitido a 23 de Novembro de 2011

1 comentário:

Luís Coelho disse...

Boas recordações. Como as conservou assim vivas e tão bem descritas neste artigo.
Gostei de ler, mas não me lembro desse momento mágico em que acreditei que a terra era redonda...