16 de abril de 2005

Para a Laura Lara!

Uma árvore é uma árvore e as árvores não falam.
In Rosinha Minha Canoa, de José Mauro de Vasconcelos

Deixemos de lado a normalidade. Ela governa o mundo. Governa o homem no dia da Mulher, governa o adulto no dia da Criança, governa o pescador no dia da Árvore e por aí adiante. Esta normalidade distingue-se da realidade porque é cinzenta, preta e branca. Não admite o amarelo, por exemplo. Está repleta de leis e sussurra números, barra, siglas, a torto e a direito... E, sobretudo, não sai do mesmo lugar.
Que fique a normalidade no seu lugar (de vez em quando até dá jeito) e deixemo-nos levar pela loucura. Qual? A poética. A dos livros, dos sonhos e dos filmes. A loucura respeitada e legitimada, pelas histórias invariavelmente trágicas, que lhe deram origem. Histórias guardadas em segredo, ou divulgadas pelos segredos, o que contribui também, para a dignificação da tal certa loucura.
“Rosinha Minha Canoa” é um hino a essa loucura.
O herói é Zé Orocó. A paisagem, que envolve toda a primeira parte e o final, é a selva, onde a natureza é rainha e o homem ainda não plantou betão. É uma “praia branca do rio”, dum rio onde desliza uma canoa “macia como se voasse”, com quem o Zé tem uma história de amor.
- Você gosta de mim?
- Xengo-delengo-tengo. Gosto. E você?
E para a canoa Rosinha acreditar, ele jura pelas cinco chagas de S. Francisco de Assis. A canoa continua desconfiada porque o santo só tem quatro chagas. Mas afinal são mesmo cinco, contando com “uma grandona no coração, que ninguém podia ver”, confirma o Zé..
Um dia, chega o “doutor”. Vem saber das doenças daquela gente tão longe. O Chico do Adeus queixa-se do seu mal: “vontade de viajá”. Depois vem à conversa o Zé Orocó e logo se esboça o mistério da sua existência. Ninguém sabe. “Só Deus mermo. Pruque Zé Orocó num conta nada pra ninguém..”
Mas conta! Conta à Rosinha. Os dois contam muitas histórias um ao outro. São sempre as mesmas, ela adverte, mas ele insiste, porque há sempre qualquer coisa de novo e bonito, que se acrescenta. As dele, pede-lhe a Rosinha, que seja uma das que começam por “Era uma vez”. As histórias dos homens, as mais bonitas, são as que começam assim.
Obrigado pela função de tratar, o médico visita Zé Orocó. Vê um homem com “aspecto saudável e bondade na maneira de olhar notadamente incomum”. Só se queixa de tristeza, mas para isso a intervenção médica é completamente absurda porque “ ou se cura sozinha ou a gente morre”. Tão bem recebido no pedaço de selva do Zé Orocó, o médico não quer acreditar que seja mesmo doença e tenta comunicar também com a canoa. Precisa de mais explicações para o fenómeno e Zé Orocó conta que aprendeu com S. Francisco de Assis. Tão íntimo se tornou do santo que o trata por Chico. Tudo comoveu o “doutor”, mas nada o demoveu.
Zé Orocó é levado para “um grande casarão, cercado de velhas e enferrujadas árvores”. Fez tudo como lhe disseram para fazer, disse tudo certo, até o nome e a idade, mesmo o sítio onde nascera. Mandaram-no e ele despiu-se, constrangido, sem a dignidade com que se despia para se banhar no rio. Deram-lhe roupas grosseiras. Tinham-no levado para um hospício, só porque falava com uma canoa? Não era razão para o seu entendimento. Dizem-lhe que é doido. Jactos de água fria, injecções na veia, choques eléctricos e camisa de forças. Cada vez mais triste, cada vez mais fraco e mais calado. Depois a lição: “uma árvore é uma árvore e as árvores não falam”. E ele aprendeu aquela lição, mas conta à “moça”, por que é que ficou “doido”. Entristece mais, cada vez mais. Veio ter com ele o Deus das Árvores, deus da paciência, mas em vão. Quem conseguiu mesmo qualquer coisa foi o Chico de Assis: fez renascer a paz no coração do Zé Orocó.
O médico diz-lhe que ele está “outro”, “completamente normal”. “Se tristeza quer dizer saúde, sou o homem mais são do mundo.” Curado, para os médicos, volta à sua casa. Repete: uma árvore é uma árvore e evita falar com a Rosinha. Mas só ela mesmo consegue convencê-lo que “loucos são os outros”. Afinal Chico de Assis falava com lobos!... A canoa contou que tinha esperado, com paciência de árvore, o regresso de Zé para se despedir e partir.
Para esquecer as árvores, comprou um animal, uma égua. Como diz o povo, o animal escolhe o dono. Pelo menos foi isso que ela contou, no regresso da feira. “Eu estava doida para você me comprar.”
Regressemos à normalidade, com paciência de árvore.
rosinha

1 comentário:

Janita disse...

Mas o que será a normalidade mesmo?... Talvez seja só uma tentativa de disfarçar a nossa essência, que é a de sermos como Rosinha e Zé Orocó, de falarmos com as árvores, a água, os animais,... Porque não? Ou...porque não poderá isso ser a dita "normalidade"?