3 de março de 2006

DESCOBRIR MARGUERITE DURAS

Nos livros de Marguerite Duras há temas obsessivos, personagens que desaparecem e depois regressam, palavras que se repetem ao longo de 50 anos. Escolhemos dez. São portas de entrada possíveis para o universo da escritora. Por Alexandra Prado Coelho

Música Na escrita de Duras, as palavras e os nomes valem pela sua musicalidade. Nota no início de India Song (livro de 1973, filme de 1975): "Os nomes das cidades, dos rios, dos Estados, dos mares da Índia, têm, antes de tudo, aqui, um sentido musical." As frases repetem-se, os nomes ecoam. "Esta tragédia cinematográfica é toda ela construída como uma composição musical. [...] Todo o filme, incluindo a imagem, é escrito como uma partitura", disse, a propósito de India Song, Dionys Mascolo, pai do filho de Duras. Quando a escritora morreu, o seu caixão foi levado da igreja ao som da música de Carlos d"Alessio, India Song.

Imagens Duras nunca gostou das adaptações ao cinema feitas por outros a partir dos seus livros. "São nulas." Foi isso que a levou a querer fazer os seus próprios filmes. Em 1996 realizou o primeiro, e durante quase 20 anos dedicou-se sobretudo ao cinema, fazendo 19 filmes. É um cinema particular: a "história" está nas vozes off e as imagens mostram muito pouco; o excesso de imagens mata o desejo. Em India Song, muito passa-se através dos sons, das vozes, do canto da mendiga (que nunca é mostrada). Em Son nom de Venise dans Calcutta désert (1976), as imagens mostram apenas um palácio em ruínas, enquanto se ouve a banda sonora (música, diálogos, sons) de India Song. O invisível atinge o seu ponto máximo em L"Homme atlantique (1981), onde, ao fim de dez minutos, o ecrã torna-se negro, até ao fim.

Indochina É daí que partem todos os seus fantasmas. A escrita de Duras é um eterno retorno a esse lugar onde nasceu e que deixou aos 18 anos. A sua obra cria uma geografia imaginária. É ela quem o explica: "É preciso que eu diga desde já que a geografia é completamente inexacta. Criei uma Índia, Índias, como se dizia... durante o colonialismo." Calcutá - "uma cidade à beira do Ganges, que será aqui [O Vice-Cônsul, 1965] capital das Índias" - é "a capital da dor", uma "cidade de pesadelo". Algo mais próximo de uma "realidade" surge nos livros autobiográficos, como Uma Barragem contra o Pacífico (1950) ou O Amante (1984).

Amante Atravessa toda a obra de Duras. Aparece pela primeira vez em Uma Barragem contra o Pacífico, mas aí ainda é um homem branco. Só mais tarde aparecerá como o amante chinês - personagem da "vida real" de Duras (nunca é claro o que é real e ficção). Nessa história, Duras tem 15 anos e apanha o barco para atravessar o Mekong e ir a Saigão, e aí conhece o amante chinês, belo e rico. Por trás existe outra história: a de uma família violenta, de uma mãe em luta contra o mundo e cujo amor vai todo para o filho mais velho, o abandono de Marguerite e do seu irmão mais novo, uma família que a empurra para os braços do chinês rico em cujo corpo ela encontra também o corpo do irmão mais novo. A história volta em O Amante e depois em O Amante da China do Norte (1991), em que o tabu do incesto é quebrado. "Se o escrevi é porque existiu", disse.

Anne-Marie Stretter A mulher do embaixador de França em Calcutá, nascida Anna Maria Guardi, em Veneza, é figura fundamental do chamado ciclo indiano, central no universo de Duras. Em Ausência de Lol V. Stein (1964), é a mulher pela qual Michael Richardson, o noivo de Lol V. Stein, se apaixona durante um baile no Casino. A-M. Stretter volta "às Índias", a Calcutá, e Michael Richardson segue-a. Regressa depois em O Vice-Cônsul, e, por fim, em India Song, já só na memória das vozes que recordam a história desta mulher fascinante mas de tristeza infinita, ferida pelo horror e a miséria da Índia. India Song conta os últimos dois dias da sua vida - a noite do baile e do escândalo do vice-cônsul e o dia seguinte, em que ela parte para uma das ilhas do delta do Ganges, e morre no mar. Na sua origem está uma memória de Duras: Elizabeth Striedter, mulher do administrador-geral de Vinh-Long na Indochina da sua infância, pela qual, dizia-se, um homem se suicidara.

Vice-cônsul O antigo vice-cônsul francês em Lahore (personagem que dá título a O Vice-Cônsul), "caído em desgraça em Calcutá", aguarda transferência depois do escândalo que manchou a sua carreira: da sua janela em Lahore disparou sobre cães e leprosos adormecidos nos jardins de Shalimar. Dele diz-se nos salões das embaixadas em Calcutá que "os nervos cederam" - tal como A-M. Stretter também nunca suportou o horror das Índias, a fome, a lepra. Virgem, deixa-se fascinar pela mulher do embaixador, que o convida para um baile, a ele que todos evitam. Depois de dançar com Anne-Marie Stretter, o vice-cônsul enlouquece e começa a gritar até ser expulso do palácio. Durante toda a noite e até de madrugada ele grita "o seu nome de Veneza na Calcutá deserta".

Mendiga Duras contou que a mendiga era uma personagem real que a perseguia desde os dez anos: viu-a na Indochina onde ela chegou depois de ter percorrido centenas de quilómetros com uma criança. Na sua história reinventada, esta mendiga, careca, andrajosa e louca, que só repete palavras soltas, como "Battambang" e "Savannaketh", foi expulsa pela mãe quando engravidou e caminha há anos. Atravessou a Birmânia, o Laos, o Camboja, foi perdendo filhos pelo caminho, e chegou a Calcutá. Aparece pela primeira vez na obra de Duras num episódio de Uma Barragem contra o Pacífico, mas está no centro de O Vice-Cônsul, onde representa a miséria da Índia que ronda os salões de festas das embaixadas estrangeiras na Calcutá dos anos 30, pelos quais ecoa o seu canto de Savannaketh. E continua esta eterna deambulação em India Song, onde parece perseguir Anne-Marie Stretter. A sua história passa também pela memória desta, que 17 anos antes assistiu em Savannaketh, no Laos, à venda de uma criança recém-nascida, o que a marcou para sempre.
Lol V. Stein Ou Lola Valerie Stein, nascida em S. Thala (outro dos lugares míticos e inventados de Duras). Em Ausência de Lol V. Stein tem 19 anos, está noiva e esquece-se de si mesma quando perde Michael Richardson para Anne-Marie Stretter. Mais tarde entra num jogo de identidade com uma antiga amiga, Tatiana Karl, e o amante desta, Jacques Hold - que a leva de volta ao Casino e ao momento fundador em que foi excluída do amor de Michael Richarson e Anne-Marie Stretter. Lol V. Stein volta, quase um fantasma, em L"Amour (1971) e La Femme du Gange (filme de 1974). Duras contou numa entrevista que a viu pela primeira vez "num baile de Natal, num manicómio nos arredores de Paris", que ela tinha 30 anos e "parecia um autómato". E que todas as mulheres dos seus livros derivam de Lol V. Stein.

Hiroxima Hiroxima Meu Amor (1960) é o texto que Duras escreveu para o filme de Alain Resnais. Passa-se no Verão de 1957 e conta a breve história de amor entre uma actriz francesa que está em Hiroxima para fazer um filme, e um engenheiro japonês. Deitados, nus, numa cama de hotel, falam sobre Hiroxima. "Tu não viste nada em Hiroxima, nada" - é a primeira frase do texto. Duras: "Para mim, isso quer dizer "não verás nunca nada, não escreverás nada, não poderás nunca dizer nada sobre este acontecimento". Foi a partir da impotência em falar da coisa que fiz o filme." Para Duras, o indizível, o horror, é Hiroxima, como é o Holocausto. É toda a dor do mundo.

Mar "O meu país natal é a pátria das águas", dizia. Uma Barragem contra o Pacífico, um dos seus primeiros livros, é o relato da luta de uma mãe e dois filhos pela sobrevivência de uma plantação ameaçada pelas águas. É, ao mesmo tempo, a história dos "pequenos brancos" (por contraste com a grande burguesia colonial) na Indochina francesa. A invasão pelas águas é um dos seus fantasmas. Anne-Marie Stretter morre nas águas. A mendiga percorre as margens do Ganges. Mais tarde, em França, Duras compra um apartamento no antigo palácio Roches Noires, em frente à praia de Trouville. No meio da imponente fachada, a sua varanda, frente ao mar. "Olhar o mar é olhar tudo."

5 comentários:

125_azul disse...

Era duro ser mulher na época dela! E ela atreveu-se, viajou por lugares inusitados, desafiou o status quo, daí ser amada e detestada. Eu adoro!

Anónimo disse...

Best regards from NY! Handbook for trial lawyers Mazda toledo Are divorce decrees binding in court

Isabella disse...

Oh porra e só agora é que descubro este blog, oh Mad'?! - mas ainda bem, tinha-me esquecido do que precedia em português o "... de Lol V.Stein" - beijo, uma (chuinga).

-pirata-vermelho- disse...

...sem esquecer aquela música enebriante de 'India song', claro.

-pirata-vermelho- disse...

i ! Claro...



(desculp!)