6 de fevereiro de 2005

Mais alto é impossível, de David Sobral (18 anos)

“A natureza e as leis da natureza jaziam escondidas na noite;
Deus disse: Haja Newton! E fez-se luz.”
Alexander Pope, Epitáfio para Sir Isaac Newton
Permitam-me que me apresente. Chamo-me Edmond Halley. Devem reconhecer o meu nome devido ao cometa (agora) famoso, que foi visto por alguns de vós em 1986. Bem, na verdade não compreendo por que razão tem ele o meu nome, já que nada tive a ver com a sua descoberta. Limitei-me a verificar que era o mesmo cometa que já tinha sido observado antes. Mas em Ciência raras vezes ficamos com os nossos próprios louros…

Paciência. De qualquer forma não estou aqui para vos falar de mim, ainda que muitos reconheçam que dei um contributo importante para a Ciência. É que a razão que aqui me traz vence qualquer outra. E isto porque não creio que nenhum Homem alguma vez poderá chegar à grandiosidade de Isaac Newton, ainda que ele próprio tenha admitido que só conseguiu ver mais longe por se ter “erguido nos ombros de gigantes”.

Mas vamos ao importante. E isso, por incrível que pareça, começou numa noite. Sim, bem sei que raramente se pode escolher um instante para o início, mas neste caso é possível. E lembro-me como se fosse ontem. Estava junto a Hooke e Wren, a jantar. Sim, o mesmo Hooke que descobriu a célula, e o mesmo Hooke que era extremamente “gabarolas”, ao ponto de, mais tarde, dizer que alguns dos aspectos da divina teoria de Newton eram dele. Todavia, nessa noite, em 1683, tudo isso estava por vir. A humanidade vivia ainda na escuridão. E, se olhássemos o Céu, diriam que era a morada da perfeição, e que na Terra tudo era imperfeito. E assim era, Céu e Terra, regidos por leis totalmente diferentes.

Mas tudo isso iria mudar. E é estranho pensar que tudo derivou de uma conversa sobre o movimento dos astros, que levou a uma aposta. Uma aposta que, indirectamente, mudou o Mundo! Concordámos os três que o primeiro a descobrir por que razão os planetas seguem órbitas elípticas à volta do Sol ganharia dos outros dois cerca de meio ordenado. E assim se combinou.

Claro que Hooke rapidamente se pôs com o seu ar habitual, algo do género “bem, eu já sei, mas não vos vou dizer, para gozar a situação de terem que encontrar a resposta”. Não dei grande importância à sua atitude, porque, para mim, a questão ultrapassava em muito os 40 xelins prometidos. Por isso, logo na manhã seguinte, comecei a pesquisar e a contactar diversos indivíduos influentes da altura. Sabia-se que os planetas descreviam órbitas elípticas graças ao trabalho de Kepler, mas aparentemente ninguém conseguia explicar esse facto. E eu queria saber a explicação!

E foi esse querer que me levou à razão de todo este texto. Um professor de Cambridge (que era já catedrático de Matemática) altamente “estranho”, que se dizia que às vezes acordava e ficava horas a pensar sentado, sem se aperceber disso, ou até que fazia experiências, quase perfurando o próprio olho, até encontrar o osso. Mas a verdade é que Isaac Newton era a minha última esperança. Excêntrico ou não, se ele não tivesse a resposta, então não saberia a quem mais recorrer.

Nervoso, entrei no seu gabinete, perante o ar atento de um sujeito chamado Abraham deMoivre. Cumprimentei Newton e, depois de uma conversa circunstancial, perguntei-lhe sobre o que pensava ser a órbita descrita pelos planetas. Para meu espanto, Newton não esboçou qualquer entusiasmo. E, como se lhe tivesse perguntado quanto era 1+1, respondeu-me, com naturalidade:

- Bem, é óbvio que se tratam de elipses, com o sol num dos focos.

Por isso, curioso, não hesitei em perguntar-lhe por que razão assim era.

- Porque fiz os cálculos – respondeu-me, com a maior das naturalidades. – Deixe-me ver se estão algures para aqui, e dou-lhe já – disse-me depois, vasculhando nas suas gavetas cheias de trabalhos com um potencial enorme e que, para ele, não passavam de rascunhos sem importância. Espantoso como alguém pode descobrir coisas tão profundas e colocar tudo na gaveta!

- Não encontro. Mas volte cá mais tarde, que eu vou fazer tudo de novo.

Newton fez realmente TUDO de novo, e ao fazê-lo apercebeu-se, finalmente, do que tinha em mãos. De tal forma que, indirectamente, acabei por ficar ligado à maior criação do Homem de todos os tempos, que culminou na publicação da obra Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, onde Newton, ao refazer os cálculos que lhe pedi, não só explicou por que razão eram as órbitas elipses, como também revelou a natureza da força que actuava os planetas, unificando a Terra com o Céu.

E assim, de uma só vez, com um só homem, um só génio, a Terra e o Céu eram regidos pelas mesmas leis e não mais fazia sentido distinguir os dois. E de uma só vez, estava nas mãos do Homem a explicação para as marés, para o facto de a Terra não ser totalmente esférica, ou para o porquê das trajectórias dos corpos na Terra e no espaço serem como são. Tudo, numa perfeição de Matemática na sua maioria – imagine-se – inventada pelo próprio Newton, ainda enquanto estudante, quando se aborrecia com o fraco poder da Matemática do seu tempo!

Por tudo isto, não ouso referir o que já disse há séculos atrás. Porque é absolutamente verdade que nenhum mortal se pode aproximar mais dos deuses do que Sir Isaac Newton. Tragam quem vocês quiserem, passado ou futuro, e vos direi que, mesmo em ombros de gigantes, ninguém pôde ver tão longe, nem chegar tão alto como Newton.

E o mais curioso é que Newton, trabalhando imenso para tentar descobrir pistas matemáticas que lhe indicassem a vinda do próximo Messias, acabou por não ter tempo para olhar para tudo o que ele próprio deu à humanidade e poder reconhecer, provavelmente espantado, que o Messias que ele buscava tão incessantemente era ele mesmo...




Q u e m E s c r e v e u . . .
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David Sobral, 18 anos, estudante de Física, Barreiro



2 comentários:

David Sobral disse...

Fiquei bastante surpreendido por encontrar um texto meu neste blog. Foi uma excelente surpresa, para além dos outros textos que encontrei por aqui :)

Anónimo disse...

fantastico este texto, simplesmente fantastico...
apesar de ja comenher tdas as historias das quais falaste, esta extremamente fantastico a maneira como elogias o maior genio k ja alguma vez pisou a terra...
parabens david :)